Box Hora do Espanto: Série III
Capítulo 14
– Venha conhecer a minha família – disse Sally Anne enquanto eles saíam da estação.
– Por que eu me sinto como se fosse conhecer a família Addams? – Tommy pensou em voz alta.
Eles caminharam algum tempo até chegarem ao portão de uma bela mansão antiga. A residência ficava isolada, mas havia outras similares por perto.
Passaram pela entrada e prosseguiram. Sally Anne fez aparecer uma chave para abrir a porta da casa.
– Vivo aqui com muitos parentes. Gosto de famílias grandes, e você? – ela perguntou.
– Depende da família… – retrucou Tommy. – Conheço algumas que eu gostaria que fossem bem menores!
Enquanto seguiam pelo corredor da casa de Sally Anne, Tommy se perguntava onde todos estariam.
– Estão fora, trabalhando – respondeu Sally Anne, mais uma vez lendo o pensamento dele. Ela sorriu e ofereceu: – Café?
Sally Anne pediu a Tommy para que se sentasse no balcão da cozinha. Ele atendeu e, em seguida, disse:
– Não. Nada de café. Vamos direto ao ponto.
– Bem – ela disse, olhando para ele com ternura –, você está mais pronto do que nunca!
Ela sentou-se diante dele e disse:
– Tem certeza de que não está com fome ou com sede? Isso pode levar algum tempo.
– Não. Quanto mais cedo começarmos, mais cedo terminaremos – disse Tommy, não com ironia, só para ser mais prático.
– Que racional. Tudo bem, então. Vamos lá… Sou uma bruxa do bem. Isso significa que possuo o que as pessoas chamam levianamente de poderes sobrenaturais. Na verdade, são poderes muito naturais e todos nós nascemos com eles milhares de anos atrás. Mas, quando evoluímos como seres humanos, o lado espiritual da nossa natureza regride. Em outras palavras, quanto mais melhoramos fisicamente, mais pioramos espiritualmente.
– Calminha aí! – disse Tommy. – Devagar com as palavras.
– Por quê? Você sabe o que é um espírito, não é mesmo?
– Sim.
– Muito bem. É claro que sabe. De qualquer forma, a minha história, ou melhor, a nossa história começou no Egito Antigo…
– Pedi para você ir com calma. Vamos prosseguir lentamente, senão fica difícil de acompanhar – implorou Tommy.
– Você era um príncipe. Eu era uma serva. Você me tratava com ternura, enquanto todos me tratavam com maldade. Eu lhe prometi que, quando você morresse, sempre o ajudaria em suas vidas futuras.
– E como eu morri? – Tommy perguntou.
– O seu pai, o rei, e a corte condenaram você à morte porque você não permitiu que eles me matassem. Eles diziam que eu era uma feiticeira, o que era verdade. Mas, como já disse, eu era uma bruxa do bem, isto é, só uso os meus poderes para ajudar as pessoas.
– Sei o que é uma bruxa do bem…
– Então, você tentou explicar que eu ajudava as pessoas, mas eles acharam isso uma grande afronta.
– Por quê?
– Porque eu era uma serva, de classe social muito baixa. Como me atrevia a ajudar os reis? E, claro, eles se assustaram com os meus poderes. O rei não era um homem ruim para a época. Ele sabia que você viveria de novo. Mas aqueles eram tempos terríveis. Você ficou traumatizado com o fato de seu próprio pai ter ordenado a sua morte. Um dia antes de matarem você, nós conversamos a noite toda. Você estava numa masmorra. Mas eu o visitei em espírito. Você estava apavorado. Eu prometi sempre estar com você.
Atordoado, Tommy sentou-se em silêncio. Lágrimas rolavam pelo seu rosto. Ela as enxugou e, em seguida, beijou Tommy.
Ele relaxou profundamente. Sentia-se à deriva, fora do próprio corpo. No momento seguinte, ele estava no céu com as estrelas. Parecia voar. Sentia o ar fresco, o zunido de sua própria velocidade enquanto flutuava sobre os continentes que eram como pequenos borrões abaixo dele. Ele sentia a força da Terra puxando-o para baixo. No momento seguinte, estava numa masmorra escura e lamacenta, minúscula e abafada, com apenas uma vara com uma chama na ponta, uma tocha antiga, pendurada de qualquer jeito na parede.
Sentiu odores que não sentia havia milhares de anos. Também lhe parecia que nunca havia saído daquela escura cela solitária. Sentiu o medo crescer dentro dele. Então, ele teve uma visão de Sally Anne. Ela lhe falava que tudo ficaria bem, que havia uma vida após a morte.
– Não, isso não existe – ele se ouviu dizer.
– Existe sim, você tem que acreditar em mim. Vamos nos encontrar de novo. Você me salvou. Então, eu vou salvá-lo.
Ele duvidava. Mas parecia estar preparado para mais do que isso. Era como se ele tentasse dizer a si mesmo que ele já sabia que existia vida após a morte.
Aos poucos, o medo o abandonava. A tocha na parede queimou até o fim. A porta se abriu. Dois homens fortes com roupas egípcias o seguraram e o arrastaram para fora. Ele não ofereceu resistência, apenas sorriu. Tinha certeza de que veria a serva de novo, sabia que ela o salvaria. Se não fosse dessa vez, seria em algum outro mundo, em alguma outra época. Então, ele sentiu uma dor tremenda no corpo inteiro. Mas, instantaneamente, desapareceu. Agora ele estava no espaço de novo. Sem medo, ele sonhava, flutuava, lembrava-se de que era Tommy McDonald, que logo se tornaria um jornalista renomado, mas que naquele momento não temia o passado!
Sentiu um beijo em seus lábios. Abriu os olhos, que pareciam ter sido fechados! Sally Anne recuou e sorriu para ele do outro lado do balcão da cozinha.
– Sally Anne, nem sei o que dizer. Foi incrível. Eu? Um príncipe?
– Bem, agora não, Tommy – ela disse, tentando trazê-lo de volta à Terra. – Você foi um dia, há muito tempo. Todos nós tivemos grandes momentos na história. Mas isso não importa. Acabamos nos lembrando daquilo que mais nos assustou. O medo paralisa o nosso crescimento. Temos que enfrentar o nosso maior medo…
– Você quer dizer: de aranhas? – interrompeu Tommy.
– O quê?!
– Morro de medo de aranhas. Na verdade, de todos os insetos…
– Com licença, estou tentando ser levada a sério – disse Sally Anne.
– Ok, ok. Vamos ver se entendi. Você é uma bruxa.
– Do bem – ela especificou.
– Do bem. Isso, agora acredito. Mas por que você apareceu para me salvar agora? – ele perguntou, provocando.
Ele ainda estava curioso para saber por que ela havia demorado milhares de anos para resgatá-lo.
– Porque você é teimoso demais! – ela disse. – Quando os romanos estavam na Inglaterra, você estava ocupado demais estudando para ser um grande engenheiro de estradas! Não acreditava em mim. Quando a Invencível Armada estava sendo preparada na Espanha para atacar a Inglaterra, eu era uma cigana que perambulava pelas aldeias espanholas. Você era um jovem soldado voluntário, que mentiu sobre a idade para poder entrar no exército espanhol. A cena do quadro que eu pintei na aula do professor Mendel foi a última vez que tivemos contato. Você era um carvoeiro…
– Canoeiro?
– Não! Você vendia carvão numa carroça…
– Mas como é que não me lembro?
– Porque cada vez, em cada nova vida, eu encontrava você e o “assustava”, como você diria. Quase sempre chegávamos ao ponto da revelação, mas você ficava apavorado.
– Como hoje à noite, antes de pegarmos o trem?
– Isso mesmo. Você sempre foi muito prático, está sempre preocupado com o futuro. Você não queria se envolver com coisas que pudessem interferir no seu futuro. E, claro, sempre foi bem-sucedido, mas a sua velhice sempre foi cheia de remorsos.
– Então, qual a diferença desta vez? – perguntou Tommy, confuso.
– Desta vez, eu usei mais os meus poderes. Desta vez, usei a magia, como no trem.
– Por que não fez isso antes? – indagou Tommy.
– Porque cada vez que uso os meus poderes, eles enfraquecem um pouco.
– Quer dizer que a minha falta de fé enfraqueceu você? – disse Tommy, preocupado.
– Sim – foi a resposta, sincera e contundente.
Tommy parou para pensar bem antes de finalmente dizer:
– Desculpe. Eu sinto muito mesmo.
– Você pode se redimir reconhecendo que a vida é mais do que a vida atual – disse Sally Anne.
– Quer dizer que a vida atual não importa? Pouco importa se vou passar nas provas ou ir bem na escola? – disse Tommy, de repente desfrutando da possibilidade de a vida ser divertida e sem preocupações!
– Claro que importa. Você deve dar o melhor de si em tudo o que fizer, o resto é perda de tempo, de um tempo muito precioso. Mas lembre-se de que existe mais. De qualquer forma, eu lhe contei a história. Acredita em mim? – ela parecia bastante insegura. Franziu a testa.
– Sim! – exclamou Tommy imediatamente. – Sem sombra de dúvida. Reconheço todas as vidas que você descreveu.
– Espero que sim, pois você nem sempre vai se lembrar – afirmou Sally Anne.
– Por que não? Acha possível que eu esqueça tudo isso? Logo eu?
– Sim. E você vai achar que tudo não passou de um sonho.
– Mas você sempre estará na escola para me lembrar, não é? – ele perguntou.
– Mesmo se não estiver, estarei em algum lugar por perto.
Ela olhou o relógio.
– Vamos! – ela disse. – Você vai perder o último trem de volta.
– Mas temos tanta coisa para conversar. Não podemos ficar um pouco mais?
– Você não entende. O próximo trem é o último!
Instintivamente, Tommy sabia o que ela queria dizer. Seria de fato o último trem de volta.
– Então conversamos amanhã, certo? – ele perguntou enquanto eles caminhavam em ritmo acelerado para a estação.
– Posso não existir amanhã.
– Bem, então no dia seguinte. Que tal um dia desses?
Ela olhou para ele, que comprava o bilhete, e concordou:
– Um dia desses. Sim, algum dia desses.
– Ótimo, não vejo a hora! – retrucou Tommy, tragicamente, sem entender muito bem.