Busca minha face
“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto...
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
volta do alimentador de pássaros parecem negramente molhados. Hope acende as luzes fluorescentes da
cozinha, orifícios encravados num teto rebaixado que oculta o outro, de zinco prensado, pintado em cor
de abóbora e esfumaçado salmão, já assim quando ela e Jerry compraram o lugar vinte anos atrás. O
relógio digital sobre o micro-ondas indica em números vermelhos segmentados 13h22.
“Faz tanto tempo”, ela repete, “e sei que Bernie gostaria que eu fosse discreta. Ele e Jeanette tinham
entre si o tipo de arranjo tácito ao qual Zack e eu nunca chegamos. Eu era jovem e idealista demais; Zack,
primitivo demais, quadrado demais à sua maneira. Agora, Kathryn. Vamos pensar juntas. Eu poderia
esquentar uma sopa em lata — ervilhas, ou frango com arroz — e fazer uma salada de atum. Sei que
ainda tenho uma lata porque fiz uma anotação para comprar mais em Montpelier.”
“O que você faria se estivesse sozinha?”
“Mas não estou sozinha. Se estivesse, provavelmente sairia para passear aí fora com um punhado de
castanhas-do-pará e damascos secos; há uma loja de produtos naturais em Montpelier onde tudo é comida
de macaco, para ser comida com as mãos, todo tipo de nozes e frutas secas e pequenos pretzels com
cobertura de iogurte, os quais você imagina que sejam terrivelmente bons mas na verdade estão
carregados de calorias e açúcar. As pessoas falam de alimentos naturais como se a natureza não fosse, em
última análise, o lugar de onde vem tudo de ruim. Estou olhando na geladeira, mas não queremos fazer
sanduíches, queremos? Amido demais, quem foi que disse que o pão é o sustento da vida? Foi Jesus ou o
sr. Pepperidge. E a sopa em lata, uma papa espremida cheia de sal e conservantes. Você deve passar
fome para se manter tão magra, aqueles drinques e refeições pesadas que os namorados fazem você
consumir quando a convidam para sair, tentando te impressionar com as carteiras recheadas. Ou você
está numa, como é que dizem agora, numa relação?”
“Eu corro”, diz Kathryn, ignorando a última pergunta. “Adoro correr desde menina.”
“Eu também, mas naquele tempo não era considerado apropriado após certa idade, fora do campo
de hóquei. Agora fazer exercício está tão na moda, no verão há pessoas correndo aqui por todo lado, é
admirável que muitas delas não sejam mortas.”
“Moro na Liberty Street, perto do World Trade Center, e posso correr em Battery Park City, ao
longo do rio.”
“É seguro?”
“Ah, com certeza. Meu prédio é cafona, mas o aluguel é mais barato que em TriBeCa. Moro em cima de um showroom de colchões e de um cabeleireiro. Durante o dia a área inteira fervilha com todos
aqueles jovens musculosos da área financeira, mas quando eles voltam para casa em Nova Jersey, ou seja
lá onde for, tudo fica calmo. É uma área muito segura.”
“Bom. Nova York costumava ser mais segura em todo lugar, ou assim pensávamos, quando éramos
mais jovens e tolos. Por favor, sente-se. Ou você prefere dar uma volta, olhar por aí e pegar detalhes
para o seu artigo?”
“Não é esse tipo de artigo, exatamente.”
“Que tipo de artigo você disse que era, exatamente?”
“Meus artigos não são como os das outras pessoas; são mais como ensaios. Impressionistas, pode-
se dizer. Não sei bem o que vou dizer até começar a dizer.”
“Uma ótima maneira de proceder. Eu gostaria de poder pintar mais desse jeito. Eu preciso sempre
olhar em frente, é a minha timidez. Agora, vejamos: salada de atum. Aqui está o atum. Você pode abrir
esta lata para mim? Minhas mãos ainda são boas para a maioria das coisas, mas virar aquela alavanquinha mexe com a minha artrite, espero que você nunca a tenha, ela vai chegando junta por junta;
comecei a notar quando fisgava a página de um livro para marcar o lugar enquanto atendia ao telefone. O
dedo doía, e depois disso qualquer pressão incomoda, especialmente em dias como hoje, que prometem
neve ou chuva. Um dos motivos de eu agora diluir com óleo é que a tinta se espalha mais fácil. Aipo. Sei
que tenho aipo numa das gavetas, espero que não esteja murcho demais.”
“Quer que eu corte o aipo para você?” A face da moça, acima da lata redonda e achatada de atum
que ela abriu habilmente, parece ela própria também ter se aberto numa expectativa infantil sob a forte
luz da cozinha, a iluminação que preenche cada fenda e forma uma massa contra a escuridão lá fora, onde
as sombras das nuvens pairam por cima da relva morta como andorinhas no verão. Kathryn se aboleta
num banquinho junto à bancada de tampo sinuoso, e a lata aberta libera um gênio, o cheiro de peixe no
óleo, o atum arrastado e sacudido, arfante, a milhares de quilômetros de distância, lá fora no agitado
Atlântico, sendo arremessado, escorregando, debatendo-se e morrendo.
“Não, não, só fique aí sentada. Deve estar cansada de uma noite mal dormida num hotel estranho.
Você vai voltar esta noite ao hotel?”
“OK. Não, esta noite volto direto a Nova York. Eu achava que já estaria a caminho.”
Hope fica aliviada. Esta intrusa vai embora logo, e se não logo, pelo menos há um fim definido para
a visita. Por que Hope não pode ela própria fixar o limite, fazendo valer as prerrogativas da sua idade
mais avançada e do prestígio superior? Seu desejo de agradar, de ser amada, a tem atormentado a vida
inteira. Mesmo agora, quem foi que pediu que ela desse almoço para a moça? Pela sua aparência, ela
pode muito bem se alimentar sozinha ou pular uma refeição; se é judia, foi empanturrada pela sua mãe
desde o Primeiro Dia, eles cuidam de si, em comparação à mãe de Hope, que deixava tudo para a
cozinheira ou punha a menina nas suas próprias rações de dieta, um pouco de cereal seco para o almoço,
uma pera em lata sobre uma folha de alface, enquanto devorava fumaça de cigarro e abominava os corpos
gordos da Pensilvânia ao seu redor; não admira que Hope tenha sido uma mãe nervosa, imperfeita, com
tal modelo a seguir. Ela sente agora o sangue pulsando ansiosamente nas bochechas e garganta, e suas mãos na faca de vinte centímetros tremem com a urgência desta performance totalmente desnecessária.
Está de costas para a moça, junto à pia, diante da tábua de cortar ao lado da pia, sob a faixa de luzes
instaladas debaixo dos armários, a um passo da geladeira. Ela arranca os talos exteriores duros e
fibrosos do aipo e fatia dois talos internos em arcos de um centímetro de comprimento e, com a mão
esquerda, junta rapidamente uma pequena pilha, pica esses arcos em pedacinhos menores do que dados,
enquanto a mão direita maneja a faca para cima e para baixo no fulcro de seu fio letal. Então, de uma
gaveta na parte de baixo da geladeira que contém uma quantidade de iguarias negligenciadas — ela precisa se lembrar de continuar cozinhando, continuar vivendo, de combater o desleixo de se largar numa
débil senilidade, mascando nada mais que nozes e passas — ela tira um pimentão vermelho enrugado,
cansado, um maço de salsinha murcha com a fita de papel do supermercado ainda no lugar, e um limão já
branco-esverdeado numa das extremidades. Ela pica a salsinha e corta o limão ao meio, jogando no saco
plástico a metade mofada. Abre o pimentão, raspa as sementes do interior e fatia a camada externa em
tiras que ela em seguida corta na transversal. Pega a lata de atum das longas mãos ociosas de unhas
negras de Kathryn, onde a moça está sentada observando a verde bancada sinuosa, e vira a lata sobre um
escorredor sobre a pia, removendo o excesso de água, e mistura o quebradiço peixe de carne rosada, não
muito tempo atrás ágil e flexível no gelado Atlântico, num pequeno recipiente de vidro com um bocado
de maionese, misturando junto os pedaços de aipo e pimentão vermelho, muitos deles em forma de
diamantes losangulares, ela não consegue deixar de notar; do fundo da sua memória lampeja a imagem
das mãos esportivas e vigorosas de sua mãe, os dedos, finos demais para os grandes anéis de diamante,
distraindo-se habilmente em algum serviço de cozinha no nível dos olhos de uma criança sobre um velho balcão de madeira. Então sua mãe aventurava-se na cozinha vez ou outra. Enquanto Hope mistura, ela
espreme junto todo o suco que a parte não estragada do limão exigirá dos seus feios e doloridos dedos
artríticos. Mais do que a dor ela se incomoda, ó vaidade, com a vergonha de seus dedos curvados, dedos
não mais paralelos; ela acha repulsivo o modo como eles se esfregam uns nos outros. Enquanto espreme e
mexe, ela diz à ouvinte: “Bernie era um consolo. Também tinha suas próprias tristezas naqueles tempos,
começo dos anos 1950. Suas exposições na Betty’s em 1950 e 1951 foram absolutos fracassos, foram
ridicularizadas — aquelas telas enormes com uma ou duas faixas verticais após todos seus pesados
pronunciamentos nietzscheanos, ou seja lá o que tenham sido, dos anos 1940. Ele não foi incluído na
exposição Quinze Americanos no Modern em 1952, o que o deixou furioso. As pessoas riam dele — do
seu monóculo, seu bigode, seu jeito grandiloquente de falar. Ele parecia um absoluto fiasco, sustentado
pelo dinheiro da mulher. Jeanette era sócia de uma loja de decoração de interiores na Madison Avenue.
Ia muito à cidade; eles tinham conservado o apartamento na Central Park West, podiam se dar a esse luxo, enquanto os pobres Zack e eu...”
Ela pode sentir a tensão na ouvinte, Kathryn receando que Hope vá despejar detalhes do seu caso
com Bernie Nova enquanto o gravador está ocioso na outra sala. Ela se inclina para a frente na bancada
verde, como se fosse levantar-se, e pergunta: “Posso fazer algo para ajudar?”
“Não, querida, você fica aí sentada. Isto é muito simples.” — Hope achara uma alface americana;
bate-a contra a tábua de cortar para soltar as folhas do coração e destaca quatro folhas grandes,
dividindo-as entre os dois pratos de almoço, os quais têm bordas rosadas serrilhadas e imagens
botânicas de flores silvestres no centro, Veronica anagallis-aquatica lavanda para Kathryn, Diplotaxis
muralis para si; e com uma colher para servir de prata de lei que ela viu muitas vezes na cintilante mão
de sua mãe, tenta medir porções iguais da mucilaginosa salada de atum sobre as folhas de alface
sobrepostas. Polvilha por cima a salsinha picada e, numa inspiração final, enfeita os montinhos com
algumas metades de nozes tiradas de um envelope plástico de uma loja natural na prateleira da porta do
refrigerador. “Diga-me o que você quer beber.”
“Quais são as opções?”
Sim, sua mãe a mimava, servia-lhe, como Hope está fazendo agora. “Leite desnatado, suco de
cranberry, suco de laranja, água da torneira, refrigerante, mas a garrafa já foi aberta, então não posso
garantir que ainda tenha gás. Eu vou tomar suco de cranberry.”
“Não faz você ter vontade de mijar? Quer dizer, as pessoas em geral. Eu acho que vou ficar muito
tempo no carro.”
Hope precisa sorrir da forma como essa moça continua mantendo a esperança de partir e, todavia, segue dizendo “mijar”, parecendo cada vez mais confiante e dependente. “Eu mesma não notei esse
efeito. Mas, veja, costumo ficar em casa a maior parte do tempo. Você pode tomar água, mas não vai ser a
água mineral a qual você está acostumada, os grandes galões de plástico são muito pesados para uma
velha senhora carregar do supermercado para casa, e a água aqui é da nossa fonte, um pouco mais acima
na montanha, pura como Deus a faz.” Ela supõe que “Deus” saia da sua boca tão esquisito quanto “mijar”
da boca de Kathryn. Ambas estão ficando muito acostumadas uma com a companhia da outra. São como
boxeadoras cujos reflexos vão ficando lentos nos últimos rounds.
“É filtrada?”
“Pela areia do chão.”
“Eu gostaria de provar, por favor. Verdadeira água da fonte. A salada parece apetitosa. As nozes são
uma ótima ideia.”
“Eu teria botado azeitonas e anchovas, se as tivesse.”
“Estou tão constrangida, não tinha a intenção de fazer você me dar comida.”
“O prazer é meu, de verdade, eu como sozinha o tempo todo. Vamos sentar aqui.” A mesa da
cozinha, sob a janela de Andersen, é um círculo de um metro e meio de carvalho de cinco centímetros
parafusado com firmeza a uma coluna octogonal cujos quatro longos pés de carvalho precisam de um
pedaço de cartolina dobrado — uma caixa de fósforos é grossa demais — para deixá-los no mesmo
plano; a mesa é um remanescente do seu casamento com Guy, da cozinha do apartamento da Seventy-
Ninth Street. Todos comiam nela: as crianças, a empregada, Guy e ela tarde da noite. Agora a mesa está
permanentemente posta com duas esteirinhas de palha fabricadas com um trançado contínuo que segue o
mesmo princípio do tapete de trapos oval na saleta da frente. Hope traz garfos e guardanapos de papel e,
numa segunda viagem, os copos de suco de cranberry e de água da fonte, e continua: “Dizem que os
velhos acabam se esquecendo de comer, mas isso ainda não aconteceu comigo. A comida é o quê? A
última intimidade. Não queremos desistir dela.” O atum, ela pensa quando começa a comer, podia ter um
pouco de sal. O suco de limão está forte, beirando o passado. Ela devia ter jogado fora o limão inteiro. “Nós poderíamos ter um pouco de pão, suponho”, ela diz.
“Eu acharia ótimo”, a convidada admite. A moça aceita a oferta; na idade dela isso é saúde. “Deixe
que eu pego”, ela diz, e levanta rápido, com um bater e arranhar de botas e pés do banquinho.
“Na gaveta grande do meio, na ponta da outra pia”, Hope lhe diz, “há uma caixinha de pão
embutida. A tampa tem uns furinhos para você erguer, com os meus dedos é difícil. É centeio da
Pepperidge Farm.” Ela percebe que pode estar escrito “centeio judaico” na embalagem, mas então
conclui que não tem importância, a moça pode não ser judia, seu cabelo preto nesta luz aqui revela a
tintura avermelhada, mais óbvia que um simples matiz, mais elétrica, não natural, totalmente século xxi
— essa parece ser a moda, ninguém mais deixa o cabelo em paz, ninguém mais confia que é bonito o
suficiente. Body-piercing, tatuagens, que estranho para a sua geração, para quem o corpo intocado sem
adornos, puro como mármore imaculado (mesmo na velha e sóbria Filadélfia, escravas gregas e índias
donzelas ficavam nuas nas galerias, esculpidas por vitorianos americanos em Roma, quais eram seus
nomes?), formava o ideal, a beleza final, de modo que suas próprias sardas, nos antebraços, nas canelas e na área queimada de sol acima do branco dos seios com suas veias azuladas, na sua cabeça eram um
defeito, perdoado pelas sombras de um dormitório. A casa clara de Bernie no início a desconcertou.
Enquanto a moça fuça a caixa de pão e busca nos armários uma travessa adequada — como acontece com
a maioria das crianças, teria sido mais fácil fazer sozinha — Hope vê através da janela ocidental,
enquanto controla a impaciência e espera que o pão seja trazido de modo desajeitado, como o céu está
escurecendo atrás de suas nuvens estreitamente embaladas, um céu materializou-se atrás do céu, uma
névoa cinza-azulada atrás dos cimos de couve-flor, um padrão de faixas e retalhos revolvidos como os flocos amontoados numa pintura de Jarl Anders, virada de lado, mas, por causa da não intencionalidade,
mais grandiosa do que qualquer coisa que Jarl fizera, mais misericordiosa porque não premeditada, não
indignamente calculada para conquistar glória ou reverter dois mil anos de corrupção, serena no seu
movimento, reservada porém urgente, esses espaçosos redemoinhos de atmosfera exprimindo uma
perturbação a oeste, uma convulsão vaporosa aproximando-se do estado de Nova York.
“Oh, obrigada, perfeito”, Hope diz, enquanto Kathryn traz um prato de sobremesa contendo mais que
o triplo de pão que as mulheres comeriam, e o prato de manteiga em forma de vaca descoberto em seu
escaninho na porta da geladeira. Ao comer, Kathryn engole com cuidado e mais de uma vez toca os
cantos dos lábios com seu guardanapo de papel para poupar Hope de qualquer visão da viscosa salada
de atum sendo mastigada em meio aos seus belos dentes e língua. “E mesmo assim”, ela diz, “foi a obra
de Bernie Nova que levou ao estágio seguinte: pinturas com associação de cores e minimal...”
Hope está tão ansiosa para concordar que não deixa a outra pronunciar “-ismo”. “Eu sei! Quem iria
imaginar! Os artistas mais novos viram em Bernie algo que podiam usar, enquanto Zack, Onno e Phil, não havia mais nada a fazer na linha deles a não ser eles próprios. Eram tão individuais, tão furiosamente
eles mesmos, digamos...”
É a vez de Kathryn interromper: “Eram tão quentes”, ela diz, ainda atenta à sua boca encharcada de
óleo, a língua e os dentes cobertos com o salobro odor de peixe, mas ansiosa para chegar a alguma
confluência com a linha de pensamento de Hope, “que a única direção que restava era esfriar.”
“Sim. Fico contente de Zack nunca ter visto isso, ele teria ficado possesso de raiva com o que veio
depois, teria lhe parecido tão trivial, tão pouco sincero.”
Ela e Bernie iam para a cama em algumas daquelas tardes em que Jeanette estava na cidade
trabalhando no apartamento de um cliente, mas não foram tantas tardes roubadas quanto poderiam ter
sido, se fazer amor tivesse sido a essência de ficarem juntos. Eles eram órfãos da arte, perdidos aqui, na
ponta de Long Island, entre a oscilante maestria de Onno e a liberação de Zack na época, o gotejamento;
mesmo Roger, aquele perpétuo menino escolar produzindo copiosamente suas colagens de sabor francês e traços e borrões de preto estilo zen sobre principescas folhas de papel-tecido branco, gozava de uma
segurança dentro do abastado mundo de críticos e colecionadores, museus e galerias, que ampliavam seu
modesto talento e lhe davam substância, um apoio na escorregadia moda artística. Hope ficava
desmoralizada pelo desprezo de Zack rotulando seu trabalho como pateticamente feminino e por Bernie
ser desdenhado pelo establishment artístico como afetado e “literário”. Numa escapada de uma hora de
uma casa onde tudo era ressaca rabugenta, ressentimento inflamado, bloqueio diurno e farra noturna, ela
se nutria na recém-construída casa de Nova: as tábuas do piso brilhantes de bordo claro, as vigas
expostas de carvalho, as janelas com vista para um mar cintilante e um céu leitoso que se avolumavam
sobre uma larga faixa de fileiras verdes dos campos de batatas, o estúdio de dois andares onde as
ridicularizadas telas monocromáticas de Bernie iam ficando cada vez maiores, ostentando títulos em
latim como medalhas que o próprio pintor se outorgara. O segundo andar da casa era um imenso galpão;
dava, passando por uma balaustrada baixa, para piso superior do estúdio, de modo que as pinturas eram
presenças que compartilhavam os dormitórios, que rescendiam a madeira nova e tinham a simplicidade de uma toca, em tons loiros escandinavos de teca e lã não alvejada, mais intensamente no quarto de
hóspedes, onde, num colchão sustentado por uma lâmina de madeira compensada, Bernie fazia as vezes
de anfitrião para o corpo arredondado de Hope, que mesmo através do inverno permanecia umedecido
em sardas avermelhadas, sardas tão grandes nos seus ombros e canelas que quase chegam a se fundir
aproximando-se do bronzeado mediterrâneo das outras esposas. Hope considerava seu corpo nu uma
troca justa pelo pretensioso humor sardônico de Bernie, as brincadeiras visuais pretensamente
sofisticadas de seu monóculo e ternos ingleses feitos sob medida, o troar paternal de sua voz no peito largo como de um cossaco. Ele era um judeu russo de terceira geração, seu nome, uma autoinventada
simplificação de Novakhov, e seu bigode era como um detalhe de Gógol, com vida própria. Quando
falava, as pontas enceradas se retorciam e era fácil esquecer o resto da sua face — o saliente nariz
poroso, os olhos marrons como um urso, os lábios ocultos, bastante femininos, rápidos e decididos na
enunciação.
“Estou cagando e andando se nunca mais fizer uma exposição em Nova York”, ele lhe disse. “Por
que me incomodar, é tudo política, a gente só é vítima de abuso. Eles têm medo de mim, sou sério demais
para aqueles veados fofoqueiros filhos da puta. Eu os assusto por pensar seriamente, por pensar
religiosamente. Eles não estão prontos para ter seu mundinho confortável de falatórios sacudido por uma
revolução — uma revolução chegando de dentro, da paixão de um artista. Tenho a minha pintura agora,
então é paixão pura, alta paixão pura e simples, e aqueles cagões ficam apavorados. Eu os assusto porque
enquanto eles falam, eu faço. Enquanto ficam ruminando suas velhas devoções, eu creio. Creio na minha
arte, e se os princípios dela fossem compreendidos em toda sua seriedade, isso significaria o fim do capitalismo de estado.”
“Oh, Bernie, como?”, Hope indagou sonolenta. Uma brisa de fora afagava sua pele, secando o suor
do lado não pressionado contra as pregas do lençol. Bernie, quando fazia amor, suava feito um homem
numa sauna a vapor, e a parceira fazia a sauna com ele.
“Geometria”, ele respondeu enfaticamente. “Geometria é o que nos aprisiona e precisa ser
derrubada a partir de dentro. Tudo volta ao cubismo; minha geometria refuta o cubismo. Onde eles
desenhavam arestas, usando linhas fortes para definir formas e espaços, eu trabalho com o espaço
inteiro; eu o preencho até explodir de cor. Matei o anedótico e libertei a cor, pela primeira vez na
história do homem. Nada mais de historietas, figurativas ou abstratas. Os críticos não entendem isso. Eles
são as últimas pessoas capacitadas a entender. O mundo da arte vive debaixo da mesa capitalista, feliz
em poder catar as migalhas. Os escravos não percebem que virar a mesa é a maneira de se conseguir
alimento.”
“Você soa tão violento para um gatinho.”
“Os filhos da puta me tornaram violento. Me puseram de costas contra a parede. É a sina do artista
colocar-se contra o mundo. A questão é a pintura, ponto. Ser desconhecido e humilhado é o verdadeiro
heroísmo. O anonimato é a única coisa verdadeira. Veja o seu maridinho. Agora ele é famoso — a Life,
as colunas de fofocas —, e isso o está deixando maluco, à beira do precipício. Mas ser um ninguém está
fazendo a mesma coisa comigo, francamente. É um miserável comércio, Ruiva — como foi que caímos
nessa porra?”
“Nosso amor pela beleza?”
“Beleza — ninguém usa essa palavra. Não é essa a categoria, minha pequena Hotentote.” Ela lhe
contara aquela história da sua ardente juventude; ele gira os dedos numa das pontas do bigode e solta uma
risada de vilão. “A sua categoria está condenada, minha bela lady. A categoria é o sublime. Se não for
sublime, pode jogar no lixo. É só uma historieta. Pinceladas são historietas. Levei vinte anos para
entender isso, para você ver o quanto sou bobo.”
Hope imaginou quanto do que ele disse era paródia, empregando um vocabulário que detestava.
Contudo, suas telas traziam títulos estrondosos como Vir Heroicus, Crux, Spatialis, Ultimo Ratio,
Animus Sine Termine, grandes nomes como Salomon, Moloch, Guinevere, Azarael. “Os babacas dizem
que as minhas telas são vazias, mas na verdade são cheias, cheias a ponto de explodir. Qualquer um que
pare na frente delas com olhos e coração pode sentir a cúpula do céu sobre a cabeça, o horizonte ao
fundo. Estão cheias de cor, não cores. Você sabe tão bem quanto eu que existe uma coisa que é a falsa
empolgação. Respingos e torvelinhos e borrifos que não preenchem o vazio de modo algum.” Era um cutucão em Zack, mas ela, tendo traído Zack com seu corpo, não estava em posição de defendê-lo.
“Atividade vazia”, pronunciou Bernie, rolando na direção dela de tal maneira que um sopro âmbar de sua
loção pós-barba banhou suas narinas, seguido de uma tristeza de suor já velho, o azedume que os homens
carregam nas dobras do pescoço. “Você olha, e há muita coisa ali, um monte de cor arrebatando desse
jeito, mas não há sensação e preenchimento, é anedótico, como drinques, um pede outro, e não levam a
lugar algum, é como o seriado The Perils of Pauline, cada episódio nos deixa no ar. Mas os babacas em
Nova York, os babacas responsáveis por reputações, não querem preenchimento, querem empolgação.
Fodam-se, digo. E você, o que diz, Ruiva?”
“Para ser honesta, Bernie, eu não me importaria com algum reconhecimento. Por mim mesma, longe
de Zack.”
“Eu, por meio desta, reconheço você, Hope McCoy, como a gatinha mais meiga que cruzou meu
caminho desde que cheguei aos quarenta e cinco. Estas sessões estão salvando a minha vida.”
“Como você gosta de atiçar.”
“Não estou te atiçando. Venha viver comigo e ser o meu amor, e nós vamos provar alguma coisa.”
“‘Todos os prazeres.’ Agora você está atiçando de forma cruel. Jeanette é um tesouro, Zack tem
ciúmes de...” Ela se contém para não dizer, de pintores cujas esposas têm dinheiro.
Mas ele sentiu para onde ela estava indo, e sua boquinha fina, com seus pequenos músculos
sardônicos, retorceu as pontas do bigode.
“Ciúmes da grana que ela traz. Aposto que ele tem mesmo. Quando é que o pobre shmock[5] vai
largar a birita? Ele vai acabar se matando e levar alguém junto. Não quero que seja você.”
“Bernie, você se importa. Que meigo. Ele precisa da intensidade”, ela tentou explicar. “Do jeito que
ele pinta, é como tocar jazz, ele precisa abafar outros ruídos. Não acho que, quando ele está calmo, sua
cabeça está calma, se você entende o que eu quero dizer.” Quem diz que eu sou louco? A comissão de
recrutamento, no mínimo.
“Pobre shmock”, Bernie disse e rolou pesadamente para fora da cama, lançando-os no embaraço de meter-se, Vir Heroicus e Hotentote, em suas roupas. De pé, nua junto à balaustrada, salpicada de sardas,
o cheiro de tinta e seus solventes químicos vem a ela do estúdio no andar de baixo, as vastas telas
monocromáticas, e ela lembrou o nome de um famoso escultor do escravo grego: Hiram Powers. Powers
e seu amigo Horatio Greenough, que esculpiu George Washington como um Zeus de peito nu. Através da
imensa parede de vidro de Bernie e Jeanette ela via os campos de batatas com suas fileiras ensolaradas,
industriosas; fileiras ordenadas de coisas, desde carteiras numa sala de aula a listras num tecido, sempre
falavam a ela na sua linguagem privada de paz.
“Bernie foi bacana comigo”, ela diz a Kathryn, “numa época em que eu me sentia perdida. Perdida
em relação ao meu próprio trabalho, perdida em relação ao que fazer com Zack. Ele estava se destruindo,
e para o meu próprio bem eu tinha que parar de me importar tanto.”
“Alguma vez você e Bernie chegaram a discutir sobre casamento?”
“Nunca. Ele e Jeanette tinham um belo arranjo. Ele era bastante feliz com ela e, feliz ou não, era
financeiramente dependente. Eu não era feliz com Zack, mas estava amarrada a ele. Quanto mais brigávamos, mais ficávamos amarrados. Ele tinha feito uma coisa grandiosa, e para mim isso fazia dele
um herói. E também, vamos encarar de frente, que lugar eu tinha para ir? Naqueles tempos não havia esta
liberdade absoluta com a qual a sua geração cresceu, essa quase obrigação de se fazer tudo que se quer.
Nós esperávamos dureza. Depressão, guerra, e depois os chineses e os russos para rechaçar. Nós éramos
pessoas duras, devotas à nossa própria maneira. E ainda assim, sabe, eu me pergunto se não tínhamos
mais gosto em ser americanos do que vocês têm. Os oceanos que o nosso pessoal tinha superado ainda
eram imensos, e as coisas que ainda davam uma sensação de novidade — banjos e ruas ordenadas e jazz e todas aquelas invenções pelas quais levamos o crédito, como o avião, as canções no rádio, os
comediantes das noites de domingo, as máquinas de refrigerantes e patentes de remédios — eram nossas.
Ela está começando a soar como uma falastrona; pensar em Bernie despertou sua oratória. Ele fazia
com que ela se soltasse. Com cada pessoa diferente nós somos levemente diferentes e, sim, ela gostava
do eu que ele lhe dava. Brincava com ela, e ela gostava das brincadeiras que ele lhe fazia. Seu avô
também brincava com ela, delicadamente.
“A parte física com Bernie...”
Ai, ai, esta moça está determinada a ir para a cama com Hope e seus homens, mesmo com o
gravador desligado. Num acesso de impaciência que sacode o seu velho corpo como uma barcaça
rangente numa rajada de vento, Hope diz a Kathryn com firmeza: “Bernie Nova era um homem sensível,
saudável, que geralmente não bebia antes da seis da tarde, e para mim essa era uma mudança muito bem-
vinda.” Num tom mais suave, indulgente, de mulher para mulher: “Ele era um dândi, mas não um
mulherengo. Penso que, como ocorre com muitos homens, ele achava o sexo filosoficamente embaraçoso. Ele e Jeanette tinham deixado isso para trás. Ou pelo menos foi o que ele me disse. Mas, até aí, isto é o
que os homens casados dizem. Agora: há um pouco mais de salada de atum.”
“Oh, não, não aguento mais. Estava deliciosa, porém foi mais que o suficiente. Geralmente só tomo
um copo de iogurte no almoço.”
“Então vou acabar com ela no seu lugar, direto da tigela, se você não se importa. Odeio jogar
qualquer coisa fora; é uma chatice ter que ir comprar, depois trazer para casa, mas detesto ficar enchendo
a geladeira de restos mofados.”
Recordar Bernie a deixara agitada, despertara seu apetite. A própria área oriental de Long Island
parecia jovem na época, parcamente habitada, esparsamente invadida por alguns espíritos voluntariosos
da cidade, os brejos, praias e baías rochosas cerrados em comunhão com os dias dos glaciares; o sol
batia forte mesmo em novembro, sem ser suavizado pelas pesadas árvores verdes de Ardmore, aquelas
nogueiras pretas e castanheiros-da-índia e álamos com suas folhas em forma de tulipa erguendo-se acima da relva e do chão batido como pesadas nuvens de chuva, sua sombra deixando a grama fibrosa e macia;
mesmo os jogadores de tênis mal conseguiam se bronzear sob o mormacento céu branco. Declaradamente
indo a East Hampton para algumas incumbências, ela acelerava sobre o terreno plano e arenoso no velho
Olds conversível como uma versão diurna de Emma Bovary, correndo descalça através dos prados do
alvorecer para seus encontros; Hope se vê pairando por entre os campos de batatas e barracas de
fazendas rumo à elegante casa de Bernie — as grandes telas de Bernie de cor apaixonadamente vazia, o
gosto inteligente e austero de Jeanette, estilo Madison Avenue — enquanto Zack, tendo pedalado até o
Lemon Drop ou caminhado, no seu desconcertado pânico, pelas bordas dos brejos com Trixie, era alçado
para fora da sua mente, o sombrio fardo dele. Ela, com sua echarpe esvoaçante e óculos escuros,
sentindo-se leve como uma flecha, não poluía a paisagem; em vez disso se apossava da inocência dos
campos, dos chalés alvejados de sal, do moinho coberto de ripas no fim da Fireplace Road. Zack
raramente se mexia para sair do seu estupor marital e lhe perguntar onde ela estivera, por que essas
poucas verduras da mercearia de Drayton ou de uma barraca de beira de estrada, esses artigos de higiene e a aspirina da farmácia de Rowe, levaram tanto tempo para se comprar, ou como ela gastara duas horas
provando suéteres e saias plissadas na loja de departamentos Hamptons e não comprara nada. “E
também”, ela mentiria, se ele perguntasse, “verifiquei a coleção de outono na Kip Shop. Não havia nada
para o meu corpo, é tudo para garotas esqueléticas de dezoito anos. Pensei em dar uma olhada nas lojas
em Sag Harbor, mas na metade do caminho pensei melhor. Aliás, o carro está com um barulho engraçado
na parte de baixo, quando a gente muda a marcha. Quando foi a última vez que checaram o óleo do
câmbio?” Fazer sexo com Bernie, ela quer contar a Kathryn, era como uma mulher se servir de um almoço, ter um prazer duplo, primeiro pegando a comida e depois consumindo-a.
“Não, não me incomodo”, a moça responde estupidamente, como se Hope tivesse na verdade
pedido sua aprovação. Talvez estivesse desligada, no seu próprio mundo mental, olhando atrás ou
adiante, para além da entrevista, cujos limites ela já calibrara, embora, fortalecida pela comida, não
fosse desistir com tanta rapidez.
“Sobremesa!” Hope proclama. “Tenho um pouco de sorbet de framboesa, absolutamente duro como
uma pedra, mas posso colocar no micro-ondas para amolecer, ou então biscoitos de aveia ingleses.
Carr’s Hob Nobs, é assim que são chamados, comprados na loja de comida natural, então devem ser de
baixa caloria e cheios de coisas boas para nós: farelo. Ou você pode comer os dois.”
“Não, nenhum dos dois, sinceramente. Talvez meio biscoito, se você conseguir achar um partido ao
meio. Deveríamos voltar para a saleta da frente para você poder parar de se preocupar comigo.”
“Bem, para ser sincera, Kathryn, eu estava pensando em levar você para dar uma caminhada lá fora
por um ou dois minutos, para mudar de ares. Ficar só dentro de casa dá uma sensação de aperto, um inverno inteiro sempre respirando o mesmo ar. Se dermos um passeio até a despensa externa, há um
prado do qual se pode avistar claramente até New Hampshire, as Montanhas Brancas.”
“Não, melhor não, Hope; se posso dizer: não tenho os sapatos certos, é o mínimo.”
“Você está com botas robustas.”
“Não são robustas. São Via Spigas novas e, na verdade, elas machucam.”
“Então, tire-as.”
“Não, por favor...”
“Seus pés não são do mesmo tamanho que os meus, mas tenho umas botas de borracha muito
folgadas, que não tiro do pé na temporada de lama. Mas pode ser que escorreguem sobre as agulhas dos
pinheiros, quando subirmos o morro.”
“Você é tão bacana...”
“Aposto que você gostaria de um café agora, mesmo que seja café instantâneo antigo.”
“Não, sinceramente. Nunca tomo café a esta hora da tarde. Me sobe à cabeça e fico nervosa.”
“Que horas são?”
“O relógio do seu micro-ondas diz que são quase duas.”
“Duas, oh, meu Deus, é tarde mesmo. Me pergunto o que mais há para dizer?”
“Só chegamos até 1955”, Kathryn lhe diz.
“Então Zack está morto.”
“Mas isto não é só sobre Zack, é sobre você, você como artista e como uma, uma testemunha de
todo pós-guerra...”
“‘Uma testemunha interessada’, é assim que Clem teria colocado. Ele achava o meu trabalho
patético, e não era muito polido deixar que eu soubesse que ele pensava isso. Quando finalmente comecei
a obter alguma atenção da crítica, no fim dos anos 1970, depois que Guy me deixou e antes de me casar
com Jerry, eu tinha me obrigado a trabalhar duas horas intensas depois de levar Dot à escola, e ele tentou
ser cavalheiro em relação a isso e me disse que sempre soubera que eu tinha a coisa. ‘A coisa!’ Isso dizia tudo. Ele tinha se proposto a ser a voz do expressionismo abstrato, ou seja lá o que isso fosse — a
Escola de Nova York, como ele gostava de chamá-la, como se ninguém na Costa Oeste fosse capaz de
fazer alguma coisa — e quando o movimento estava morto e enterrado ele continuou a bufar e xingar,
ainda pensando que a arte tinha de ser movida a testosterona. Você não adora essa palavra? Estou
aprendendo a pronunciá-la. Ela e ‘feromônio’. Acontece que todo esse romance que fazemos e pelo qual
morremos são feromônio; nós somos tão sem cérebro quanto os insetos. Segundo um programa sobre
natureza que não consegui desligar a tempo, leões machos entram numa espécie de transe zumbi e matam todos os filhotes da leoa e aí a convida para fazer amor. E ela vai e faz, pobre tola.”
E enquanto deixa sua língua seguir aos trambolhões, Hope imagina que feromônios nadando no
fresco e oleoso sistema dessa jovem mulher estarão se infiltrando nos seus próprios receptores, levando-
a a ser frívola, maliciosa, infantil, num alheamento a despeito de sua irreversível posição à beira do
túmulo. Mas estará ela menos viva agora do que quando media sua mãozinha gorda, comparando-a com a
largura do braço da cadeira do vovô? A cadeira ainda está aí. Ela ainda está aí. Onde há vida... Com que
frequência isto lhe foi citado como piada amistosa! Por mais ateu que seja seu espalhafatoso ambiente,
ela sempre abrigou a fria luz branca, o trêmulo e acanhado milagre de ser ela mesma, ela mesma e mais
ninguém. As pessoas que dizem que não existe o eu, que tudo é um constructo da visão dos outros, será
que nunca estiveram vivas?
Kathryn, parada de pé, ligeiramente curvada, propõe, como uma criança implorando para ser
perdoada: “Vamos lavar os pratos?”
“Não, querida, pode deixar. Quando você for embora, posso vir aqui e os pratos me lembrarão das
nossas horas agradáveis.”
Será que ela está ficando perigosamente perto de uma declaração de amor senil? Na velhice, Hope
descobre que tudo se desgasta e fica mais fino — a pela fica mais fina e expõe os danos causados pelo
sol, a cartilagem afina e os ossos se amontoam um sobre o outro, a membrana entre o que se sente e o que se diz fica mais fina. Às vezes, empurrada para um papel público, diante de escolares ou de um grupo de
professos amantes da arte, ela precisa dominar o impulso de deixar escapar o absurdo, o inaceitável; as
cerimônias de comportamento bem-educado são um esforço para o seu sistema. Olhos secos durante a
maior parte da vida, agora ela é capaz de chorar sozinha num quarto, quando algum momento que nunca
mais virá lhe passa pela mente ou ela se pega observando um instante de excepcional equilíbrio entre a
luz fenecente do dia e as formas familiares da paisagem enquanto as andorinhas do celeiro piam
incentivos para seus filhotes, ensinando-os a voar, porque voar, catar insetos na asa, é sua única maneira
de poder viver. Quando os pequenos começam a se aventurar para fora do ninho, eles se lançam
descontroladamente no ar, balas de canhões cobertas de penas, e se aglomeram na valeta da casa como se
ainda estivessem amontoados dentro do ninho abandonado.
“Preciso”, sua voz a surpreende, saindo rachada e crocitada, de modo que é obrigada a começar de
novo, ‘‘preciso de uma xícara de chá se você vai me fazer falar mais.”
“Só um pouquinho mais”, promete Kathryn. A moça ouve a persuasão parental em sua própria voz e sorri disso, o sorriso mais largo que Hope a viu dar até agora, expondo uma faixa de gengivas superiores
e dois caninos simétricos que, embora ela seguramente tenha recebido toda a ortodontia que uma garota
judia de classe média merece, não ficaram bem alinhados com os outros; em vez disso, provocam uma
impressão forte, decididamente feroz. A moça é desajeitada, o jeito de se mover na cozinha, os pés nas
botas novas um pouco delicados, os ombros curvados como se quisesse reduzir sua altura em alguns
centímetros, de modo que os braços balançam levemente, e suas compridas mãos brancas pendem
hesitantemente entre os gestos. Hope se preocuparia com o futuro de Kathryn, mas sabe que há homens
que são atraídos por essa falta de jeito, por uma aparência de grandeza numa mulher, como um grande
campo a ser posto sob controle e adicionado aos seus domínios pessoais. Sua própria pequenez eficiente,
às vezes Hope suspeitava, havia atraído homens que queriam uma mulher que necessitasse de cuidados
mínimos.
“Nada para mim, obrigada. Não quero...”
Não diga outra vez “mijar”, Hope roga silenciosamente.
“... me sentir estufada. Empanturrada. Você é tão generosa com você mesma, joga fora todos os fios
condutores que eu quero seguir.”
Hope não tivera a intenção de ser generosa com ela mesma, e sim reservada e judiciosa, sendo cada
palavra gravada em fita. Talvez estivesse morta antes de a entrevista e qualquer que fosse o absurdo
desajeitado que a moça fizesse dela estivessem impressos. O que Emerson dizia sobre a morte? Nada
mais de idas ao dentista. Ela renuncia ao chá. A saleta da frente, agora que Hope concedeu à sua cabeça
tonta o lastro da comida, firmou seus cantos e parece tão equilibrada e transparentemente retilínea quanto
uma fábrica fotografada ou pintada por Charles Sheeler. Preciosismo: ele sempre se mantém nas
redondezas, há um prazer fundamental, um triunfo primitivo, em capturar uma aparência, seja com o
trompe-l’oeil frontal de um Harnett ou os múltiplos reflexos angulares de um Estes. As mulheres retomam
seus assentos; Kathryn manuseia o gravador, inserindo uma fita nova, e o coloca ronronando sobre a
velha arca com seus pregos de bronze. “Então”, começa Hope, tomando a iniciativa, querendo afastar-se de Zack; ela já violou bastante a privacidade do pobre doente, “eu sou viúva. Na idade de Cristo
crucificado, deixada sem nada a não ser uma velha casa de fazenda e três acres de terra e um celeiro
cheio de pinturas que ninguém queria comprar.”
“Mas queriam, sim, comprar, uma vez que Zack estava morto.”
“Sim, alguns quiseram. Eu não tinha pressa de vendê-las. Agora acreditava apaixonadamente no
trabalho de Zack — no começo, não tinha acreditado — e havia tanto, tanto desse trabalho; quanto mais
conseguisse segurar os quadros, mais eles iriam valer. Eu só vendia um de cada vez, e o comprador tinha de vir até mim. Nada de marchands, nada de intermediários. Os colecionadores, que podiam tê-los
comprado por centenas quando Peggy ou Betty os estavam exibindo, me pagaram milhares, dezenas de
milhares. E, mesmo assim, levaram pechinchas. Agora, quando um Zack chega ao mercado, sai por
milhões, é maior que Picasso; ele viveu a metade do tempo e não teve todas aquelas décadas para virar
paródia de si mesmo.”
“Mas ser a marchand póstuma dele não era uma grande carreira para você, era?” Desde que baixara
a guarda durante o almoço, Kathryn voltara a ficar rígida, um tanto acusatória.
“Bem, não... mas não acredito ter considerado que estava fazendo bem desse jeito. Eu me sentia
bastante ocupada, com Zack morto. Podia pintar mais longamente, sem seu jazz buzinando na minha
orelha lá embaixo. Algumas das minhas velhas amigas — mulheres que havia conhecido durante a guerra,
na cidade — surgiram de repente com maridos e filhos, e, sem Zack por perto para deixar todo mundo
constrangido e arranjar briga toda hora, os outros pintores e suas esposas foram mais cordiais do que
tinham sido durante anos. Bernie e Jeanette, Onno e Renée, Roger e Linda — haviam acabado de se casar, ela era vinte anos mais nova que ele, uma ex-aluna dele na Hunter — Mahlon e Myrtle, embora
ambos aparentassem sua idade, ele nunca tinha conseguido realmente entrar no expressionismo abstrato,
ficou pendurado naquele limbo repentinamente datado que foi a fase final do surrealismo, mesmo Jarl e
Frieda, apesar de ele estar prestes a se mudar para a Califórnia e, de fato, não fazer mais parte da cena
nova-iorquina, como se pudesse ficar enviando por correio da terra das sequoias aquelas telas enormes e
ainda causar alguma impressão, mas lá longe, na Costa Oeste, ele virou mais um pintor místico pseudo-
oriental como Tobey ou Graves, sem carregar realmente, sabe, o fardo europeu, a vigorosa tradição,
pretextos na verdade, embora Jarl teria me matado se me ouvisse dizer isto, sempre me considerou
frívola quando eu era uma das poucas que sabia de onde ele vinha: a ira cristã, a terrível impaciência
com o fato de ser criatura. Todos foram bonzinhos comigo, e tivemos bons momentos, algumas deliciosas
festas ao ar livre, especialmente no sobrado púrpura de Onno e na casa quase toda de vidro de Bernie, e
churrascos na praia, embora a Ilha estivesse mudando, havia subúrbios no interior e um dinheiro novo de mau gosto nos Hamptons, que construía em cima das dunas como se nenhuma tempestade de inverno
pudesse atingi-los, aqueles nouveaux viviam nos convidando constantemente, mas ainda conseguimos
viver alguns belos momentos descalços e ensolarados, e as esposas tentavam ser boas, especialmente
Jeanette e Renée, em me ter junto a elas, apesar de já estarmos nos anos 1950, e era inimaginavelmente
importante fazer parte de um casal, os homens que elas arranjavam para mim nos jantares geralmente
eram gays, na época não os chamávamos assim, ainda os chamávamos de ‘bichas’, receio. Agora me
admiro de elas terem se dado ao trabalho de me incluir, pois eu tinha pegado alguns dos modos de Zack,
estava bebendo mais do que devia e gostava de cutucar as pessoas do jeito errado e era muito combativa
em relação ao trabalho dele, era apaixonada por ele agora que era tudo o que me restava de Zack, e não
tinha o menor interesse de achar outro parceiro para mim; na realidade, eram as mulheres que me
chamavam a atenção nessas festas, as esguias e vigorosas esposas boêmias, uns dez anos mais velhas que
eu, muitas delas europeias e terrivelmente engraçadas e sofisticadas e sábias, do jeito que as mulheres
podem ser, aquela sabedoria mágica espontânea, praticamente inevitável. Eu ficava me perguntando se o fato de elas serem tão boas comigo não era um jeito de esfregar na minha cara que eu estava sozinha de
novo, como se a verdadeira companheira de um artista devesse fazer o que fez Jeanne Hébuterne, jogar-
se pela janela, grávida ou não, mas a horrível verdade era que a partida de Zack teve as suas
compensações: eu podia dormir à noite sem a polícia me acordar ou Zack chegar caindo de bêbado às
quatro da manhã, e acabei mudando meu cavalete para o celeiro e fiz um inventário das coisas de Zack e
botei num depósito — difícil dizer o que estava terminado e o que não estava, então desisti de fazer a
distinção — e pintava cada vez maior, agora eu tinha espaço, coisas corredias enormes em série, usando trapos e esponjas, uma espátula de borracha, uma embalagem de spray de limpeza cuja abertura eu tinha
alargado com a ponta de um garfo, qualquer coisa para me afastar dos pincéis e lâminas de paletas, eu
queria pintar mais próximo do líquido do que aquilo, eu queria me encharcar dentro daquilo. Nunca
escovei e nunca usei o chão; na verdade o cobri de linóleo, e dez anos atrás, quando doei o lugar para
virar um sítio histórico, eles olharam debaixo do linóleo e descobriram todos os respingos de Zack fora
das bordas das telas, como uma obra-prima final, você consegue dizer pelas cores os respingos que cada
pintura deixou. Na minha própria pintura, senti pela primeira vez aquela coisa masculina em relação à
escala da qual os sujeitos sempre falavam. Um trabalho tão grande que você não sabe onde a tela acaba
— entre nela e lute pela sua vida!”
Kathryn baixa os olhos para suas anotações no colo; teria ficado assustada com a explosão de
confidências de Hope? Ela era uma criança estranha, melindrosa, assustadiça com comida e vestida como
um homem castrado, que exibia um ar ofendido toda vez que Hope começava a falar de sexo, embora
suas perguntas insistissem em arrastá-las de volta ao assunto. “Antes de irmos além de Zack”, Kathryn diz, bancando agora a condutora, a professora empertigada, “havia algo que você quisesse dizer e que
sente que deixou de fora?”
“Oh, deixamos de fora quase tudo. Já falei o bastante do lindo corpo dele, do cheiro delicioso que
tinha seu peito nu? Deixamos de fora seu jeito de falar, tão fantasticamente rude e, ainda assim,
timidamente polido ao mesmo tempo — o menino bonzinho dando suas espiadas fora do menino mau. Por
mais bêbado que ele estivesse, sempre observava as reações das pessoas. Surpreendentemente era como
eu, queria agradar as pessoas. Nas nossas constelações familiares, como dizem agora, éramos ambos
desejosos de agradar, não de liderar.”
“Liderar” faz Hope lembrar-se do rapaz inteligente e simpático do Departamento de Estado, um
adido cultural, na festa que o moma deu na primavera de 1959 para comemorar o retorno da exposição
coletiva itinerante “Novas Pinturas Americanas”, que estivera viajando pela Europa Ocidental por um
ano, por oito cidades importantes. Na multidão artística exageradamente familiar, o papo enfumaçado de velhas relações constantemente renovadas — curadores e repórteres de revistas de arte e donos de
galerias com seus esbeltos escudeiros e pálidas donzelas e os próprios pintores, as estrelas grisalhas,
piráticas — e o ar abafado de inveja rançosa e sufocado rancor, o jovem diplomata chamava a atenção
em virtude de certo brilho no seu terno de flanela cinza, camisa branca abotoada e gravata de listras
azuis, o cabelo cortado mais curto que qualquer outro homem da festa, um corte quase escovinha como o
que John Kennedy usou na campanha para presidente um ano depois, cabelo curto cor de areia caindo
reto de um lado, e atrás alguns fios curtos espicaçados para o alto davam-lhe um ar infantil; este adido
cultural do Departamento de Estado estava visivelmente eufórico com sua sancionada penetração no
submundo artístico, com sua chance de conversar com a viúva de um artista famoso, embora inicialmente
falasse de Zack com algum constrangimento, pois ela já estava casada novamente e enormemente grávida,
o bebê ainda não nascido (Paul, teria sido) intrometendo-se na conversa como um bisbilhoteiro
protuberante atrás da cortina. Face rosada, um pouquinho ofegante, o hálito colorido por champanhe, o
simpático rapaz com seus óculos sem aro deu um meio passo de aproximação e disse-lhe: “Seu marido — seu ex-marido, desculpe — era arrasador. Você devia ter visto o pessoal jovem, italianos e alemães
especificamente, juntando-se em volta das suas telas. O silêncio deles, a expressão no rosto, era como se
estivessem numa igreja. A exposição toda era uma sensação, dava para sentir o cheiro da eletricidade
quando aqueles jovens arrastavam os pés pelo salão. E a reação da crítica: a Agência de Informação está
elaborando um maço de traduções que vamos mandar para vocês, mas posso lhe dizer desde já que foi
arrebatadora ou furiosa. Os picaretas de esquerda em Paris, Milão e Bruxelas ficaram putos nas calças,
desculpe o meu francês. Sabiam que o seu jogo tinha acabado, com seu patético realismo social ratardataire e pombas da paz de Picasso e arte camponesa piegas e cartazes proletários no pior estilo de
Léger. Os comunistas são gozados”, o rapaz de óculos sem aro disse filosoficamente, tentando ver as
coisas do ponto de vista do inimigo, “eles tiveram coisas boas na arte (os mexicanos, os construtivistas),
mas esses soviéticos cabeçudos institucionalizados correm exatamente no sentido oposto, ficam
aterrorizados com qualquer coisa com um mínimo sopro de originalidade, sabem que basta qualquer um
dizer ‘Buuu!’ e todo o castelo de cartas cai por terra. Seus patetas que escrevem para o Le Monde e o
Corriere della Sera não sabiam o que os havia atingido, mas sabiam que uma bomba tinha estourado na