Busca minha face

John Updike · Capítulo 2 de 2 · parte 9/11

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Busca minha face

“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto...

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

consciência a nós todos e tão depressa se esvaem.

“Depressa”, ela diz à sua calada companheira. “Você precisa ver meu jardim. Do outro lado da

casa.” Elas abrem caminho através da relva irregular congelada, em que algumas bordas de saliência se

projetam da grama, fluxo congelado de um fogo que fundiu rochas há milhões, ou seriam bilhões, de anos,

essas duas mulheres desiguais em idade e altura, mas acorrentadas uma à outra por uma determinação

fraterna de fazer o momento dar certo, um momento como a mais fina casca de tempo possível, mais fina

que líquen, calejado sobre as rochas, sem consciência. Mas o jardim, adoravelmente estendido e cercado

quando Jerry estava vivo, e ainda cuidado por Hope na medida que sua força permite, sem mais auxílio no verão do que os homens da família Warren podem abrir mão de tarefas mais másculas e que ela

consegue persuasivamente arrancar da filha de Mildred e Jason, uma adolescente acima do peso com

seus pensamentos a milhas de distância, irremediavelmente estúpida quanto a rapazes e música, música

que ela usa na cabeça em fones de ouvido que ficam chiando, música para abafar a mais ínfima lasca de

pensamento se algum se dispusesse a vagar pelo seu pobre cérebro; Hope não pode crer que ela própria

tenha sido algum dia tão apatetada, a música lhe chegava pelo rádio de seus pais e mal arranhava sua

consciência, homens nasais cantando através de megafones, música de hotel de Nova York soprando com

trompetes silenciosos; mesmo na guerra dançava-se quando a música, o swing, estava lá, mas não se

usava a música na cabeça como um boné ridículo — o jardim não apresenta quase nada para ver: o

restolho da flox do último verão, algumas poucas folhas de hosta achatadas sobre a terra quando ela as

arrancou às pressas num dia excepcionalmente frio de outubro, as mãos doendo, e um suporte para pêonia

de arame enferrujado inexplicavelmente esquecido e então perdido durante meses debaixo da neve.

Mortas, mortas como pedaços de pau parecem as retorcidas hastes espinhentas da trepadeira rosa que ela assentou sobre a treliça da cerca verde que ela e Jerry fizeram os gêmeos Warren montar para dar à tela

multicolorida do jardim uma espécie de moldura. Jason era um fanfarrão extrovertido, um vendedor, mas

Ezra era o artesão.

“Deve ser lindo no verão”, diz Kathryn, sem graça, embora Hope não possa culpá-la por isto; é uma

ocasião sem graça, ela agora se pergunta por que estava tão ansiosa para sair ao ar livre.

“É estilo inglês”, Hope diz à sua hóspede, “isto é, atulhado e desleixado, e tenho a tendência de

perder o entusiasmo perto do fim de junho, quando fica muito quente, mesmo aqui em cima.”

Ela já está vendo, na terra que mal acabou de acordar, rachaduras indicando que esta amoleceu e

voltou a congelar, e as línguas arredondadas de narcisos e as línguas pontudas de margaridas estão

começando a despontar. Na frente da casa, do lado sul, perto do granito aquecido pelo sol da fundação,

campânulas brancas e açafrão já começam a florescer. Linhas verdes de alho em breve começarão a

surgir na relva. O jardim com seus cuidados parece um desafio sufocante, uma montanha cruel que ela precisa galgar para entrar no futuro. Ela não consegue deixar entrar em seus pulmões ar suficiente do dia

que escurece; os pulmões têm enfisemas por causa das décadas de fumo imprudente. Foi só no casamento

com Guy e suas gravidezes que ela parou; Guy nunca fumou e se queixava do cheiro de cinzeiros no

apartamento, havia algo de queixoso e choramingão nele que ela se recusava a se permitir desgostar; o

público que o via como a personificação do inventor maluco, da irreverente revolta pop contra os sete

séculos de tradição de pintura desde Giotto, teria ficado decepcionado em saber o quão pedante, ordeiro

e abstêmio ele realmente era. Bebia com moderação, raramente algo mais forte que vinho, e fumou

maconha com ela pela última vez quando tiraram férias no México, o último suspiro do casamento;

chegaram de 727 em vez da Route 10 num Nash Rambler 56 de dois tons de bege com um duo birracial,

bissexual, com belos corpos e ambições vagas, mas assim que ela e Guy pousaram em Guadalajara a lua

parecia de fato maior, como uma peça de cerâmica numa vitrine, e sua luz pálida cheirava a flores, as

flores arbóreas que encharcavam o sereno noturno e se fechavam quando a aurora surgia com o cantar

dos galos. Seu marido arranjou um pouco de fumo de um menino de rua bem na frente do Hilton, e aquela doce noite na sacada, ambos em roupa íntima, realmente a conduziu de volta a 1958. Ela saíra com Guy

para uma viagem selvagem, mas a viagem acabou ficando mansa e terminou com um sobressalto. O

sobressalto veio se formando; ele sabia que a mansidão desfazia a arte e que nenhum movimento artístico

no século xx mantém seu impulso por dez anos se o rótulo seca e se fecha em si mesmo; embora os

artistas vivam para sempre com a medicina moderna, seu momento torna-se um cadáver e não há como

reverter a dissolução, a ressurreição foge em face da biologia molecular, e Guy era sensível o bastante

para sentir-se um cadáver ambulante, com uma esposa já passando bem dos cinquenta, e três reféns da fortuna recebendo uma dispendiosa educação privada; não foi à toa que ele se voltou para a durona

Gretchen em busca de uma viagem mais leve.

“Kathryn, eu estava pensando”, Hope diz, a voz saindo tensa e ofegante sob a pressão de estar ao ar

livre, “olhando para a Corcova do Camelo — Jerry e eu costumávamos escalá-la facilmente, mesmo já

não sendo tão jovens, com uma cesta de almoço e uma garrafa de vinho — pensando nos animais

humanos, como é maravilhosa a máquina biológica que nos dá consciência, e como nós basicamente a

jogamos fora; mesmo não cometendo suicídio, nós temos a presunção de achar a vida enfadonha e nos

entediamos a maior parte do tempo, e estamos descontentes, e simplesmente a desperdiçamos; aposto que

é por isso que Hamlet nos atrai tanto, entre todas as peças de Shakespeare, é aquela que tomamos

pessoalmente, pois expressa esta qualidade de vida desconsiderada, o desperdício de nossas mentes,

nossos corpos, de tudo que deveria nos deixar felizes e cuidadosos. Estou fazendo algum sentido?” Pois

ela pode ir longe, longe demais, ela bem o sabe; desde a infância ela já sentia seu espírito transbordante

encontrando resistência na face dos outros, o sangue na sua própria face sendo represado num rubor.

A moça alta puxa sua jaqueta emprestada, estupidamente vestida como um xale, e aperta-a contra os

ombros, o rosto branco no exterior, uma espinha visível no ponto onde a narina encontra a bochecha,

vestígios de pó de arroz no nariz adunco. Com cautela, responde: “Não penso que alguém diria que você

desperdiçou a sua vida. É isso que a torna tão interessante para mim.”

“Ah, é? Realmente? Você está sinceramente interessada? Para mim tudo pareceu terrivelmente

disperso; como diz a minha filha, sempre me oferecendo aos homens e depois pintando de um jeito que os

homens diziam irritá-los, e agora que é quase tarde demais, pintando de um jeito que me parece

verdadeiro, mas talvez seja uma fuga de mim mesma, da cor do mundo que, naquela minha declaração

pomposa que você leu para mim, eu disse ser o Diabo — que esquisito eu mencionar o Diabo, você deve

pensar, mas há alguma coisa aí, se é que você tem algum sentimento pelo que é bom, que resiste ao bom,

que força para o lado contrário. Sei que você e a sua geração vão me achar muito louca, mas a não

existência de Deus é algo ao qual não posso me acostumar, parece não natural.”

Os lábios de Kathryn — intrincadas tranças de músculos, observadas de perto nesta luz externa fria,

projetadas para dar prazer a ela e aos outros, se ela não teme contaminação; mas como pode sua geração

não temer contaminação, exatamente como Hope temia coação? — se atrapalham com as palavras

seguintes, o cérebro talvez embotado por esta aventura não solicitada nos grandes espaços externos, onde

pequenas e frias gotas de chuva fazem pequenos furos no véu da sensação. Ou talvez, se for judia, seja

incapaz de colocar a questão de Deus da maneira que uma cristã colocaria, em termos urgentes de ou isto

ou aquilo. Para o povo eleito a relação evoluiu para além da possibilidade de um conhecimento

abandonado para entrar na familiaridade que gera desprezo: foi deste modo que Bernie uma vez expôs a

Hope sua extenuada massa corporal cheirando a suor e cigarros ao seu lado na cama, enquanto suas telas

no andar de baixo lhes enviavam gritos surdos de cor chapada, apaixonada. Ser judeu o divertia; ele

brincava com o fato, empilhava suas cinzas sobre sua cabeça de dândi e transformava sua fúria tribal em

socialismo visionário. Kathryn afirma hesitante: “Um velho namorado meu, estudando na graduação em

Columbia para ser físico, me contou que com o entendimento meticuloso que eles têm agora, realmente não há lugar para Deus no universo.”

“Em nós, querida. O lugar está em nós, fracos e tolos como somos.”

“Segundo ele me explicou, é uma questão de energia, de equações. Tudo vai acabar eventualmente

muito longe de todo o resto, e trilhões de anos vão se passar, com tudo morto e escuro. Não haverá lugar

para nós, mesmo como puras almas. Elas também precisam de energia.”

As palavras dão calafrios em Hope. Pingos de chuva impossíveis de ignorar estão caindo sobre

suas mãos e rosto e batendo no tecido sintético das jaquetas. “Tenho certeza de que ele está correto, de um ponto de vista”, Hope diz com impaciência. “Mas olhe lá em cima, nos bosques, você pode só

vislumbrar um brilho do telhado da despensa refrigerada. E pode ver a trilha que nos leva lá para cima e

para uma vista ainda mais ampla. Todo verão temos que derrubar algumas árvores para manter a vista

aberta. Eu digo ‘nós’, mas é claro que são os homens que contrato que fazem o serviço. Uma família de

chauvinistas que detestam receber ordens de uma mulher.”

“Eu...”

“Pode passar sem a vista. Eu sei. Vamos voltar para dentro, antes que toda a água do chá evapore.”

Ainda assim, fez bem a Hope sair lá fora no cosmo, de um sentimento tão diferente, tão espaçoso,

intrincado e benigno do quadro pintado pelo velho namorado de Kathryn. Quão velho? Será que a moça

tem um namorado que não é velho, que está esperando para aquecê-la e consolá-la, e escutar sua história

sobre esta velha bruxa tagarela na sua montanha solitária, e que levou uma eternidade para chegar lá e

ainda mais tempo para voltar? Hope sente sua face revigorada pelo seu contato com o ar livre; sua pele

está retesada com essa plenitude da qual ela se recorda da infância, quando parecia bom demais para ser verdade que ela fosse ela, sua vida um crescimento diário abastecido por comida de dia e sono à noite, a

lua e o sol exatamente do mesmo tamanho no céu, embora não houvesse razão necessária para isso. Ela

conduz Kathryn de volta ao redor da casa, passando pelo alimentador pendurado na faia despida, sobre a

lama cintilante junto à pedra de moinho que serve de degrau até a porta da cozinha; a porta vai-e-vem

desconjuntada oscila na sua mola enferrujada, e a porta real, ligeiramente afundada nas dobradiças, se

abre com um empurrão de ombro de Hope. Kathryn também, a despeito de si, pela vivacidade de seus

passos e a rapidez com que se livra da jaqueta cor de tijolo de Jerry, está com o ânimo renovado. “Como

deve ser bom”, ela exclama, “ter tanto espaço para si. Meu apartamento todo não deve ser maior do que a

sua cozinha. E há aquelas torres chatas dominando absolutamente a vista.”

“Meus garotos pensam que é espaço demais para uma senhora idosa sozinha. Agora, o que posso lhe

dar para comer?”

“Comer? Não preciso de nada, mas se pudesse usar o seu banheiro...”

“É claro. Você sabe onde é. Mas você precisa pôr alguma coisa na barriga antes de partir.”

“Ainda tenho algumas perguntas. Nós só chegamos até os anos 1970.”

“Eu sei, mas a minha história acabou. A parte incomum, casamento com dois homens de gênio, e

Jerry, que não era nenhum gênio, mas era um doce. Antes de tudo, é chá que você quer, ou aquele café

instantâneo antigo para o qual você torceu o nariz antes?”

“O café, por favor. Estava gelado lá fora.” Sua voz se afasta e a porta do banheiro se fecha debaixo

da escada. Hope, sozinha, sente o cosmo ao seu redor, tantas estrelas sob os pés quanto sobre a cabeça,

as infinitas galáxias e trilhões de anos escuros por vir, e ela apressadamente junta xícaras e pires, um

saquinho de chá para si — camomila, da loja de produtos naturais; a esta hora do dia, uma noite de

insônia, depois de ter sido agitada o dia inteiro, é a última coisa de que ela precisa, quer começar uma

tela nova amanhã, um pouco mais larga nas listras e um cinza mais quente, mais para o marrom, do que a

última; para dormir bem ela precisa de exercício físico, e passar o dia sentada na cadeira de balanço não

é bem isso — e para sua hóspede o descafeinado Taster’s Choice com seu rótulo vermelho e circunferência amiga (as laterais do vidro nos seus dedos curvos a fazem lembrar de algo; o quê?), e da

geladeira a pesada baguete de arroz selvagem com pecã (Sem conservantes, adoçado com suco de

frutas) da mesma loja exótica dirigida pelos ex-hippies já velhos em Montpelier, e do armário de louças

ao lado da pia dupla os potes achatados de lados retos de geleia Dundee e manteiga de amendoim Skippy.

A moça precisa comer. Vem a Hope o que as laterais côncavas do frasco de café instantâneo a

recordavam: as paredes curvas da galeria de Peggy, Art of This Century, desenhadas por, como era

mesmo o nome dele, Fritz, um daqueles alemães invasivos como o tal do Hans que fez Zack voltar a beber, Fritz Kiesler, não Kreisler, Kiesler com suas cadeiras de sete utilidades, que podiam se

transformar em mesa, atril ou cavalete, uma ideia que não pegou mas que na época parecia perfeitamente

adaptada para o futuro, madeira revestida de cores fortes de linóleo, a moldagem plástica ainda não

inventada, o piso turquesa. O futuro era aqui, 1942, acima da mercearia na West Fifty-Seventh Street.

Havia umas engenhocas, um cata-vento de Duchamp, uma esteira transportadora de Klees; Hope acabara

de chegar a Nova York, tudo parecia tão vertiginosamente divertido para ela, tudo tão novo; as paredes

curvadas para fora, não como as laterais do frasco de café, mas a ideia era a mesma, de curvas onde

eram esperadas linhas retas, foi isso que a fez lembrar, o toque delas, levando-a tão de volta no tempo

que chegava a ser assustador, a sensação de retornar que ela costumava ter no alto das catedrais e na

Torre Eiffel quando Jerry começou a levá-la à Europa, coisa para que Zack e Guy eram pobres ou

desinteressados demais para fazer, a sensação de que ela estava no alto demais, que poderia escorregar

através do chão sobre todas aquelas indiferentes galáxias sob seus pés.

Kathryn retorna, depois de ter feito xixi. Hope pode ver a diferença no seu rosto agora relaxado; como é modesta a baixa de tensão necessária para satisfazer aquilo que Freud chamou de princípio do

prazer. “Este é um trato que às vezes me dou”, anuncia Hope. “Um sanduíche de geleia com manteiga de

amendoim neste pão especial de arroz selvagem com pecã. Você precisa comer um comigo. Vai nos dar

força para ir em frente.”

“Eu...”

“Você não come porcaria, mas isto não é porcaria”, Hope termina a frase por ela. “O pão é de uma

loja de produtos naturais a treze milhas daqui, e eu arrisco a minha vida toda vez que vou de carro até lá.

Você deve estar faminta, querida; eu sei que eu estou.”

Contrariando sua essência autonegativa, ambiciosa porém trapalhona, Kathryn senta-se e

cautelosamente consome metade do sanduíche, seu pão de cor escura, o recheio espalhado infantilmente,

não espalhe muito grosso senão os dedos ficam lambuzados, Hope aprendeu com a experiência. As duas

mulheres, que têm estado tão ocupadas perguntando e respondendo, comem num silêncio novo para elas. O tempo urge; o relógio digital da cozinha marca 17h06. A chuva, avolumando-se, corre pela janela mais

distante pela qual Hope anteriormente estudara o céu desgrenhado, sua tormenta resolvida numa

claridade pérola além dos regatos de chuva, o sul oculto baixando a oeste. Kathryn toma um gole de café,

embora ainda deva estar, como o chá de Hope, escaldante, e Hope tem pena dela: “Se você está com

tanta pressa, podemos levar nossas xícaras de volta para a sala da frente e gravar. Mas acabe o

sanduíche. Não está bom?”

“Está, ele me traz recordações. Delicioso. Mas, realmente, só consigo comer metade. Engraçado,

nos fins de semana meu namorado me diz que como feito um cavalo, que é um milagre eu não ser gorda,

porém quando estou num compromisso de trabalho, realmente não tenho apetite, fico tão concentrada. E

também não dormi muito na noite passada. O hotel ficava ao lado da 89, o tráfego não parava, achei que

diminuiria aqui em cima no campo.”

Então ela tem, sim, um namorado atual, ativo. Hope sente alívio. E ciúme. “Coitadinha. Você devia

estar ansiosa. Por causa de quê?”

“Não fazer as perguntas certas.”

“Oh, tenho certeza de que estão certíssimas. Eu lhe digo se deixarmos passar algo importante. Mas

não é isto que diz a teoria de Freud sobre psicoterapia, de que tudo acaba girando em torno da coisa

principal se você vai falando ao acaso? O que faz o seu namorado. Posso perguntar?”

Kathryn baixa as pálpebras, pálpebras que, sob a luz fluorescente da cozinha, parecem

magnificamente oleosas, pálpebras de uma pecaminosa, desafiadora rainha bíblica. A moça está ofendida

porque a entrevistada tomou as rédeas, mas aceitou suficientemente a gentileza da outra mulher para ver algum tipo de saída. “Ele faz cinema, é o que ele adora”, ela diz. “Está numa equipe que faz trailers,

meio período, mas quer se mudar para a Costa Oeste e galgar a escada até ser diretor. E também atua,

mas essa não é a dele.”

“Não? Interessante”, Hope diz, sem achar particularmente que seja. “Ele não é pintor?”

“Ah, não. Ele vai comigo às inaugurações e exposições de vez em quando e não consegue enxergar

o que eu vejo nisso. Sob esse aspecto é um verdadeiro filisteu.”

“Você diz que ele ajuda a fazer o quê?”

“Trailers. Prévias dos filmes. Também há uma arte nisso, fazer a sequência dos trechos mais

enérgicos. Às vezes eles trabalham a partir de trechinhos de um filme que nem está pronto e do qual

ninguém sabe o final.”

“Bem, o final é justamente o que não queremos que esses — o que são mesmo? — ‘trailers’

revelem. Jerry era um aficionado de cinema, gostava de sair, então nós nos mexíamos e íamos à Eighty-

Sixth Street, em Nova York, e a Burlington, aqui perto. Mas depois de um tempo todo filme parecia ser feito para garotos adolescentes; faziam a gente se sentir num liquidificador — tantas perseguições de

carro, tantas explosões e fugas por um triz, e era isso aí. Para você deve ser uma preocupação, saber que

ele quer se mudar para Los Angeles.”

“Bem, não muito. São menos de seis horas de voo. Quero que ele tenha sucesso e seja feliz fazendo

o que gosta.”

“É claro. Mas, e você? Nova York é o lugar onde você precisa estar, certamente.”

“Eu gostei de l. a. da vez que estive lá. O clima ameno, o sabor espanhol, as avenidas expressas. Dá

uma sensação de futuro.”

“Você não achou a cidade... meio forçada?”

“Eles têm arte lá. Aliás, um cenário artístico muito vívido.”

“Eles têm aqueles carros grandões e alguns belos museus, quase vazios.”

“Você saiu de Nova York.”

“Mas não fui longe. Não na minha cabeça. Eu vivia voltando para lá, até ficar pesadona demais para

viajar. Não sacrifique o seu trabalho por causa de um homem.”

Kathryn não diz Você sacrificou, mas ambas pensam isso; Hope, com a reserva de nunca ter traído a

si mesma totalmente, adiou e não sacrificou, de algum modo ela sabia que tinha tempo para esperar,

chegar ao presente, de ser ela mesma no final.

Kathryn a surpreende com uma risada — uma risada mais bonita, mais leve e mais musical do que

sua face equina havia preparado Hope para ouvir. “Você parece não aprovar Alec e nem mesmo o

conhece!”

“Eu quero o melhor para você”, Hope lhe diz, sem sorrir. “Não tenho certeza do que um fazedor de trailers pareça ser. Sempre me senti enjoada perto de gente que quer estar ‘no cinema’. Por que o seu

amigo não gosta de atuar? Pelo menos parece ser uma coisa direta, uma arte antiga.”

“Ele chama isso de mercado de carne. Alec é realmente muito bacana, você iria gostar dele se o

conhecesse, mesmo que ele ache que a pintura já não vale mais muita coisa. Quando os quadros

começaram a se mexer, ele diz, tudo acabou para os que não se mexiam.” Ela muda de posição na mesa,

olha para a metade restante do sanduíche como se fosse começar a comer, e em vez disso dá um gole no

café que está esfriando rapidamente. Por alguma razão microscópica o calor do micro-ondas some muito

mais depressa que o velho e antiquado calor da água fervida: este fato fascina Hope. “Sabe”, Kathryn

diz, não exatamente em tom de censura, “a maioria de nós não consegue achar esses homens geniais para

casar. A maioria de nós precisa se conformar com o meio e torcer para que, pelo menos, seja do meio.”

“Nenhum homem me atraiu por ser famoso”, diz Hope, sentando-se mais ereta à mesa, sentindo a

face quente. “Guy me atraiu por causa da sua jovialidade, sua impudência. Zack não era desconhecido em

círculos artísticos quando me casei com ele, mas certamente era pobre e estava descendo a ladeira rapidamente. E na verdade eu não gostava das pinturas dele. Minha família achava que era uma união

desastrosa, como na verdade foi, sob muitos aspectos.”

“Mesmo assim, você estava lá quando ele estourou, você foi parte daquilo.”

“Eu o trouxe para longe, para Long Island, e isso foi bom. Por algum tempo. Mas ter sido uma

pequena parte daquilo me dá menos satisfação, e isso eu posso contar só para você, do que se eu tivesse

sido quem estourou.”

É mesmo verdade? Receber Zack de volta na casa quentinha depois das horas geladas no celeiro

havia tido suas satisfações — um maravilhar-se compartilhado, um preocupado orgulho. Esse homem

assolado por necessidades clamorosas, por dependência química e incoerência social, podia, não

obstante, buscá-la de volta através da neve não com uma carga sangrenta nas costas mas como o espírito,

nas mãos e nos olhos, seus fulvos e adoráveis olhos do Oeste, o espírito da beleza espalhado naqueles

enormes pedaços de tela grudados no chão, com seus torvelinhos e borrifos de pura tinta secando. E então, quando ele falava com sua parceira com o hálito ainda visível, como vapor congelado, era como

se ela tivesse feito aquilo com ele, rasgado aquelas horas imperecíveis de um mundo que perecia.

“Não quer mais um sanduíche?” Hope pergunta a Kathryn. Está um pouco magoada, sendo rejeitada

nesse trivial específico. “Vou embrulhá-lo em papel-alumínio para sua viagem de volta. Realmente, mal

não vai lhe fazer, apesar de a geleia conter açúcar. Passei alguns dias só vivendo disso, quando fiquei

presa pela neve.”

“Pobre Alec”, diz a outra mulher, distante em seu próprio mundo, onde seu amado foi ferido. Hope

esquece o peso que suas palavras têm para esses inocentes, deslumbrados até mesmo por um brilho fugaz

de fama. Era verdade, ela não tinha gostado de ouvir falar de um homem que não gostava de galerias. Aos

seus olhos, as galerias eram as cavernas de Aladim, desde a sua primeira visão rápida da Art of This

Century com suas paredes curvas, e então, quando casada com Guy, da Hansa, e da Reuben, e da Judson,

e da Red Grooms’, onde eram encenados happenings e minipeças que deixavam atordoadas as pequenas

audiências, mas que, em algum canto de sua mente, aderiam a um modo novo de ver as coisas, com menos preconceito, com menos expectativa de hierarquia familiar, e aí as galerias do centro, de Leo e de Sidney,

que deram ao Pop sua fama e o abriram aos novos colecionadores, o novo lúdico dinheiro americano; ela

conhecera Jerry numa dessas galerias. As galerias geralmente davam uma sensação de fortaleza

silenciosa, parcamente habitadas, as moças em suas escrivaninhas lutando contra a sonolência, os

quadros em sua claridade e as esculturas em sua estase primitiva esperando por amor, pelo espectador,

pelo comprador, enquanto ruídos entediados e ociosos vazavam da sala dos fundos. Essas galerias

abrigavam obras produzidas em solidão e confusão mas também num estado de espírito de exaltado contentamento, de afastamento das turbas do mundo, trabalho feito à beira da utilidade, arte minando seus

próprios usos tão logo pudessem ser identificados, arte à beira do precipício da arte, fragmentos

dispostos nessas nuas, mas para ela longe de desoladas, câmaras de Manhattan; nelas, Hope sempre

ficava remexida e feliz, elas eram casas de encontro sagradas em seu silêncio, prontas para visitação.

“Não dê bola para mim”, ela diz à visitante, sentindo, mas não se importando muito, que a moça foi

insultada. “Vamos para a saleta da frente. Posso lhe oferecer mais alguma coisa? Uma salada rápida?

Castanhas-do-pará? Que tal um biscoito de aveia sem glúten e de baixa caloria?”

Kathryn se levanta, mãos apoiadas sobre a mesa para ajudar o movimento, sem dignar-se a

responder. A chuva açoita a claraboia da cozinha. Na saleta da frente o som é suavizado. As duas

mulheres, com as xícaras na mão, reinstalam-se em suas cadeiras, e, ao mesmo tempo que se inclina para

a frente para voltar a ligar o gravador, Kathryn diz: “Gostaria de voltar a Guy por um instante. Não está

muito claro para mim ele ter abandonado você.”

“Nem para mim”, concorda Hope, sentindo que sua interrogadora estava prestes a cavar mais fundo, a revidar a dúvida demonstrada por Hope em relação a Alec. “Ele simplesmente pareceu estar saindo

discretamente da minha vida e da das crianças, após dezessete anos estando ali, ou pelo menos batendo

ponto fielmente.”

“Você realmente acredita que ele não se envolveu com todo aquele uso de drogas no Hospício? E

anfetaminas? Coca? Tranquilizantes? Numa porção daqueles filmes que foram lançados sob o nome dele,

os atores estão claramente viajando: o do travesti, ou um dos de travestis, Sick Roses, eu estava

assistindo em vídeo com Alec uma noite dessas, e quase não há interrelação, os atores estão cada um

fazendo sua parte com aquele sorrisinho de transe na cara, não há nenhuma tentativa de se conectarem

entre si, muito menos lembrar alguma fala que pudesse apresentar uma história.”

“Mas, Kathryn querida, talvez o ponto seja que não há história porque não deve haver história,

porque já não há mais histórias, exatamente como a pintura, como você diz, ou Alec diz, deve desistir de

relatos. Era por isso que Hopper e Wyeth nos pareciam tamanhos dinossauros, eles pareciam ainda estar nos contando histórias. Uma história pressupõe um autor, manuseando os atores lá de cima, manuseando a

nós lá de cima, para algum fim inteligível, e quem acreditava que alguma coisa mais, após o Holocausto,

após a bomba atômica...”

Kathryn reage tão rapidamente que o maço de perguntas no seu colo escorrega e precisa ser contido

com um tapa rápido para não cair no chão, nas velhas tábuas pintadas de um brilhante vermelho quase

preto de cerejas maduras. “Obrigada por mencionar a bomba atômica. Em todo o período da Guerra Fria,

de 1945 a 1989, a ameaça de aniquilação nuclear chegou a afetar seu pensamento? Alguma vez você teve

medo?”

“Um pouco em 1962, a crise de Cuba sobre a qual acabaram de fazer um filme, mas não realmente.

Era um maravilhoso dia de outubro, aquele dia em que o mundo poderia ter explodido, com os navios

russos navegando em direção aos nossos. Eu me lembro de empurrar Paul e Piet no carrinho de gêmeos o

caminho todo até o pediatra, na East End Avenue, e estar sentindo muito calor no meu casaco novo de

outono, e a televisão do consultório ligada numa novela. As pessoas são otimistas. Precisam ser. Nunca pude acreditar que os líderes mundiais fossem estúpidos a ponto de explodir o mundo.”

“Mas...”

“Hitler teria explodido, você vai dizer. Mas os russos, os soviéticos, eram como nós: países

grandes e desastrados, sem necessidade de Lebensraum, não países pequenos cheios de realizações

como a Alemanha e o Japão, levados à loucura por aqueles mitos racistas, amantes da morte, que tinham.

Os russos amam a vida: leia seus romances. Eram comunistas os que mandavam, mas comunistas também

era a maioria dos pintores mais velhos que conheci, mesmo durante a guerra. Quando descrevem o período pós-guerra, vocês mais jovens ficam nos dizendo como éramos assombrados pela ameaça do

Armagedon nuclear, mas o fato é que ele dificilmente algum dia entrou na minha cabeça, e se entrou, o

que é que eu podia fazer? Era como ser atropelado por um bonde; isso também podia acontecer. E quanto

a Guy e as drogas, você deve se lembrar de que a maioria dos seus assistentes no Hospício era uma

geração mais nova do que ele e muito mais autoindulgente e niilista, eles haviam crescido protegidos e

mimados e acreditavam ao mesmo tempo que absolutamente nada lhes devia ser negado e que a estrutura

de poder existente, que lhes dera tudo que tinham, era totalmente maligna. Guy era três anos mais novo

que eu, mas ambos havíamos sentido a Depressão e a guerra; na verdade, como você sabe pela sua

pesquisa, ele serviu na guerra, dois anos na Guarda Costeira, atracado lá em cima nas Aleutas, a bunda

magra congelando, mas ele fez sua parte. Não falava muito disso, mas a cada cinco anos costumava ir

àquelas pequenas reuniões dos sujeitos que tinham servido no navio corta-gelo. Havia uma ligação,

apesar de você ter razão, ligação não era a onda dele. Nem paixão. Os artistas que primeiro conheci

estavam sempre falando de paixão, Bernie, é claro, e Roger, sempre mencionando seus sentimentos ao pintar, e Onno e Zack vertendo paixão na tela, aqueles traços furiosos e pintura exagerada e frenética,

mas nunca vi Guy perder a calma nem expressar decepção ou desgosto em relação a outra pessoa, mesmo

os críticos que, no começo, eram tão estúpidos acerca da beleza e da variedade realmente estarrecedora

do que ele fazia. Ele lia suas críticas, mas não lhes dava importância, no máximo agia como se estivesse

achando engraçado. E tampouco manifestou muito arrebatamento quando o dinheiro começou a jorrar no

seu bolso.”

Por que ela está falando sem pausa? Porque quer exaurir essa mulher do assunto, quer esconder a

humilhação que Guy efetivamente lhe infligiu com seu abandono displicente, a ela e aos filhos, a dor de

ver isso, seus únicos filhos mutilados e intrigados pela sua deserção. Ela era como Guy em ter sido bem

criada, em ver o valor numa fachada, em ver tudo como fachada, em acreditar num fim controlado, a

despeito de todos os percalços incidentais. Ela se sentia em sintonia com sua tranquilidade, aquela

distância calmamente considerada nele que era necessária para sua natureza boa e firme, e aí ela fora desdenhosamente repelida, expulsa do seu pequeno clube. Ela diz a Kathryn antes que a moça, tenaz e

insistente, possa pensar em outra pergunta: “Perto do fim, como eu já disse, à medida que ia passando a

década de 1970, penso que ele começou a sentir tensão, a tensão de se manter à frente, de se manter sexy

para as galerias e os museus. Não é fácil fazer lixo e entulho parecerem outra coisa. A tragédia do artista

moderno, ou deveríamos dizer pós-moderno, é que a atenção do público é tão mais curta do que a vida

criativa normal do artista. Duchamp deu o fora e ganhou muitos pontos, Korgi e Seamus cometeram

suicídio, e Zack também, de certa maneira, mas para um artista não autodestrutivo há simplesmente tempo

demais. Se ele acerta o veio cedo, sua arte acaba se exaurindo. As coisas que Guy estava fazendo antes e

depois de me deixar, as gigantescas estátuas públicas, os pseudoletreiros, os livros de colorir gigantes

com cores hediondas, não eram boas. Tinham o mesmo descaramento, mas careciam do — como

podemos chamar? — entusiasmo original. Ele achou que me abandonar poderia lhe trazer de volta seu

entusiasmo.” Era assim que ela enquadrava o abandono, como subproduto da busca do artista.

“Havia certo escândalo ligado ao trabalho de Guy, especialmente os filmes e os happenings, com toda sua nudez e homoerotismo. Como você lidava com isso? E como seus filhos lidaram, quando

ficaram mais velhos?”

“Era parte do negócio do papai”, Hope conta, mentindo levemente sem se importar; a inquirição da

visitante estava desgastando seu senso ético. Ela se sente mais ética pela manhã, ao pintar, e sua

exaltação vai desmoronando à medida que o dia se passa. Faz um esforço para refletir e ser honesta. “Os

meninos lidaram com a coisa tornando-se muito quadrados, a começar em Buckley — aliás, foi Guy quem

quis mandá-los para lá, eu tinha pensado numa escola mais progressista, mas ele disse ‘Não’, não queria que seus filhos ficassem estereotipados, queria que tivessem a educação séria que ele e eu havíamos tido

— e depois em Putney, onde quase ninguém mais era quadrado. Dot fez sua rebelião pessoal, como já

discutimos extraoficialmente. O que é difícil de lembrar naqueles anos é que, apesar de Guy não vestir

terno e gravata como os outros homens do prédio, na sua gola rulê e paletó de tweed e blue jeans, ele

saía sim para a cidade, igualzinho a eles, e voltava para o jantar, ou então me telefonava para dizer que ia

ficar preso no trabalho e que eu devia comer com as crianças sem ele, outra vez muito parecido com os

outros homens. Ele cumpria seus deveres, ia aos eventos da escola e jogava beisebol com os outros pais

e filhos quando tinham passeios pelo Central Park, e durante a primeira dúzia de anos pelo menos tentou

ser um marido normal para mim. Íamos juntos a um daqueles balés no porão da Judson Church para

assistir a um monte de jovens perambulando nus, esfregando-se uns aos outros com as mãos cheias de

tinta para simbolizar o lucro sujo capitalista, ou seja lá o que fosse, e aí voltávamos para casa e

comíamos uma salada de lentilhas e tomávamos um copo de leite na cozinha, cochichando para não

acordar as crianças. Guy era sensível, meigo...”

“Ou geleia e manteiga de amendoim”, Kathryn interrompe.

“O quê?”, o olho interno de Hope estivera concentrado no quadro doméstico, focalizando o que

precisava dizer, para ser justa, a respeito de Guy.

“Eu me lembrei do sanduíche que você acabou de me dar”, diz Kathryn. “Foi muito doce da sua

parte.”

“Doce demais, suponho. Você não comeu até o fim. Você tem tanto medo de açúcar.” Esta mulher

jovem, com a presunção de fazer piada sobre os gostos aparentemente inocentes da mais velha, causa a

Hope uma irritação que ela resiste a revelar, pois qualquer sinal de briga ou diferença a ser aparada

prolongará a permanência já excessivamente demorada da entrevistadora. Hope faz uma nova tentativa:

“Um homem meigo, sensível, e era fácil para todos nós esquecermos que ele era uma celebridade, uma

das mais importantes forças na arte americana quando ainda era líder no mundo, e que, por trás de todos

os seus compromissos como homem de família, ele estava lutando por sua vida. Acordava no meio da noite e não voltava a dormir, eu me revirava, ajustava a máscara dos olhos e o deixava sentado sob o

abajur de leitura, e o encontrava de manhã com o Times já todo lido e dobrado novamente, e havia linhas

no seu rosto que eu nunca tinha visto antes. Com aquele seu senso intuitivo sem esforço, ele podia sentir

tudo escorregando por entre os dedos, ele estava sendo deixado para trás. No fim dos anos 1960, não

eram só Pop e Op e o pouco que restava do Expressionismo Abstrato; tudo estava começando na época

— o minimalismo, a arte de dispersão, as obras da terra, a arte conceitual que usava apenas palavras,

alegando que era uma mentira fingir que percepção não era uma questão de linguagem, ou de teoria. A

Europa estava nos mandando sua teoria crítica para matar nossa criatividade, Guy costumava dizer.

Chegou a tal ponto que qualquer arte que ainda produzisse pinturas ou combinações que, mesmo

desengonçadas, podiam ser penduradas numa parede, e esculturas que podiam efetivamente ficar de pé ou

serem colocadas numa sala de estar não terrivelmente imodesta de alguém, corria o risco de ser

considerada coisa velha. Não importava o quanto Guy trabalhasse duro, com suas bandeiras e pilhas de

caixotes, enquanto aqueles moleques raivosos estavam nas ruas queimando bandeiras americanas, começando a parecer, odeio dizer isso, aconchegantes, e era por isso que eu não podia me importar

demais com as drogas lá no Hospício e os filmes pornográficos que agora parecem tão gozados e

confusos, porque mantinham o seu empreendimento — vamos chamar assim — na moda, mantinham Guy

no seu limiar de maudit. Por razões egoístas e por causa das crianças, que não deixa de ser egoísmo por

procuração, eu o queria o mais domesticado possível, mas para ele como artista não era sadio, não

podemos mais ter Vermeers e Chardins, não podemos glorificar mais a vida burguesa, não quando ela era

de certa forma culpada pelo Vietnã e Birmingham e o colonialismo e assim por diante, e era uma tensão para Guy, como eu disse, fingir ser burguês, fingir que a arte podia ser um negócio. E culpo em parte a

mim mesma por concordar com aquilo, com o fingimento de Guy, pelo meu próprio conforto burguês, e é

por isso que quando ele se levantou e foi embora, eu resisti pela metade. Dot sentiu aquilo e me odeia até

hoje por ter sido tão fraca. Não ponha isto em nada do que você for escrever, por favor. Mas o que eu

podia fazer? Achei que seria melhor para ele, para sua arte.”

“Eu me pergunto por que”, Kathryn pondera, “a arte não pode ser negócio. Costumava ser um ofício,

e não havia vergonha nisso.”

“Suponho que seja a mesma coisa da religião não poder ser negócio, ou ser só negócio. Exceto que

a religião tem um produto seguro, nosso medo e solidão, com que negociar, enquanto a arte precisa

convencer as pessoas de que é necessária, de que as pessoas necessitam de algo mais puro e mais

autêntico do que obtêm em outra parte, em todos os outros negócios da vida. Vale a pena ter essa pureza e

autenticidade, ou presenciá-las mesmo que de longe. A alma — você aguenta a palavra? — não pode ser

conspurcada por preocupação com o interesse próprio. Guy tinha um adorável e despreocupado desinteresse produtivo quando o conheci, morando naquele galpão cheio de entulho que havia roubado

das ruas, e à medida que o dinheiro e a bajulação e os prêmios foram jorrando, ele sentia aquilo

escorregando para longe dele, a pureza, a despreocupação que pode tornar algo verdadeiramente novo.

Ele começou a se preocupar demais, porque tinha de se preocupar, porque todos nós ao seu redor

dependíamos dele; era cruel. Porém, devo dizer, ele nunca fez nada de importante — que tivesse alma

suficiente, desinteresse suficiente para ter importância — enquanto esteve aos cuidados da Pequena

Senhorita Bundadura. E agora ela é enfermeira de um homem que não tem ideia de quem ela é ou quem

ele é.”

“Deveríamos seguir em frente”, Kathryn tem o atrevimento de dizer a Hope, quando foi sua obtusa

pergunta que provocou o monólogo. “Fale-me de Jerry. Vocês dois se conheceram quando? Você se

lembra da ocasião?”

“Oh, foi numa das inaugurações de Guy. Ao contrário da maioria das pessoas ali, ele estava tentando olhar os trabalhos, e eu estava cheia das conversas forçadas, e estávamos parados lado a lado

na frente de uma máquina de escrever antiga, flácida, o dobro do tamanho real e feita de vinil branco

brilhante, todas as teclas redondas sobrepostas e embaralhadas, e as teclas e o mecanismo de transporte

voltavam balançando como as patinhas indefesas de um carneirinho recém-nascido, e nós dois dissemos,

juntos: ‘Lindo!’. Lindo. O que posso dizer sobre Jerry que todo mundo já não saiba? Era um homem

muito querido. Era querido pelo menos para mim, divorciou-se da esposa para se casar comigo, um favor

que devo dizer nunca ter recebido de Bernie. Não que eu quisesse. Bernie era... urbano demais, ele e

Jeanette formavam um time. Como estávamos dizendo antes, na década depois que eu... eu o conheci bem,

Bernie desabrochou, o pai disto, o pai daquilo, quando na verdade eles não tinham filhos, Color Field,

Hard Edge, até mesmo o pai, supostamente, de alguns dos trabalhos na terra, aquelas linhas de giz de

duas milhas que alguém desenhou no Deserto de Mojave no fim dos anos 1960, segundo me recordo,

usando o deserto como uma das grandes telas monocromáticas de Bernie. Aquelas enormes pinturas

planas que todo mundo detestou durante anos — Peggy não as suportava e Betty também não — acabaram se revelando a rota para o futuro, enquanto as imensas coisas verticais desgrenhadas de Jarl eram um

constrangimento para os museus que ele forçara a comprar os quadros, ocupavam muito espaço na

parede, Jarl queria sala atrás de sala para si, e Zack estava encalhado no seu momento, um clássico como

Ryder ou Bierstadt, mas absolutamente fatal de imitar, na verdade ninguém mais sabia como fazer aquilo,

quanto de esmalte diluir e qual bastão usar. Bernie foi nomeado pai até mesmo do visual plano e da

ausência de massa dos primeiros trabalhos de Guy, e nunca vi Guy tão irritado, era como se ele se

ressentisse do pequeno papel que Bernie desempenhara antes na minha vida, é claro que eu havia lhe contado, mas esse tipo de ciúme sexual convencional era a última coisa que Guy se permitira confessar.”

“E não houve lá, mesmo enquanto vocês estavam casados, alguns rapazinhos jovens”, Kathryn

indaga no tom cauteloso, ligeiramente retraído, com o qual ela espera que Hope mergulhe na corrente

sanguínea sem romper a pele, “artistas performáticos?”

Jovens corpos masculinos, como sombras, a redonda massa muscular do ombro e da coxa, as

barrigas lisas e os tenros pingentes, agitam-se na sua mente como corpos enterrados na lama, faces sem

expressões marcadas. Jeb, Randy. Eles tinham nomes, endereços, filosofias, aspirações. Tinham tido

esperança de usá-la, mas ela era difícil de ser usada, inclusive por si mesma em seu próprio benefício.

Os negros eram uma aventura para ela, dançarinos, seus tocantes pés calejados e nodosos. Henry, Kyle.

Diferenciavam-se dos brancos num aspecto: assim que você começava a conversar com eles, eles

assumiam saber o que você queria dizer e estavam certos. Ela queria liberação. Eles eram delicados para

se prender e delicados para soltar, muito para seu próprio proveito, mas era uma época em que

concessões sem lucro estavam politicamente na moda: “Por favor, querida”, Hope protesta. “Eu estava no começo da casa dos cinquenta anos. Eu era uma grande dame.”

“Mas ainda muito atraente. Vi um monte de fotografias. E também vi”, Kathryn continua quando

Hope não diz nada, “você descrita como uma das discípulas de Bernie. As faixas.”

“Minhas faixas são muito menores e mais numerosas que as dele”, Hope argumenta, a voz mais

firme sobre os alicerces de sua arte. “Eu me descreveria como discípula de Hochmann, uma das últimas.

Ainda estou tentando fazer o ‘empurra e puxa’ que ele nos ensinou, mas num espaço mais tranquilo, mais

raso.” Com os dedos dobrados Hope faz a medida de uma polegada ou menos de espaço, para mostrar o

quanto o empurra e puxa se tornou sutil em suas névoas cinzentas. “Como o empurra e puxa, quase

imperceptível, da respiração.”

Ela se pergunta agora se suas infelicidades magoaram Guy. Na época ela sentiu, ou se fez sentir, que

ele queria isso, com aquele obscuro impulso que o levava a esconder-se numa massa de identidades, uma

produção de paródias, uma arte que não se comprometia pessoalmente com nenhuma personalidade. O pequeno bando de amantes de Hope era seu Hospício, seu paraíso auto-obliterante.

Kathryn resolve que não vai penetrar mais fundo nessa direção, e diz: “E esse tempo todo você se

apegava ao seu lugar e ao de Zack nos Flats.” Parece uma acusação. Embora Hope tenha tentado vender

Guy à entrevistadora, pintando um retrato afetuoso de sua bela fluência e faro, e sua eventual tristeza

frustrada, o mundo da arte deslocando até mesmo o talento mais jovial, é em Zack que repousa o coração

de Kathryn; Zack uniu as duas mulheres. A entrevistadora está insinuando que Hope traiu seu segundo e

terceiro maridos apegando-se à casa onde vivera com o primeiro.

Ela não nega: “Era segurança, suponho, ter uma propriedade toda minha, que havia herdado. No

começo eu tinha os quadros que ele deixou para negociar e proteger. Depois, quando se tornaram

valiosos demais para que eu pudesse protegê-los, e eu passava mais tempo na cidade, era mais fácil

deixar a velha mobília no lugar, ela teria parecido entulho misturada com as minhas coisas caras e as de

Guy. Passávamos verões ali, as crianças adoravam — as praias, a sensação especial da ilha tão distante

—, apesar de Guy vir conosco cada vez menos, ele dizia odiar festas de gente rica e areia nos sapatos. Penso que o fantasma de Zack o oprimia. A nova turma de arte era mais Fire Island que New Hampton.

Fora da temporada eu a alugava, por bem pouco se o locatário fosse simpático, às vezes um companheiro

de Zack do Lemon Drop ou um dos protegidos de Guy precisando de algum lugar para esfriar a cabeça; o

dinheiro era menos importante do que ter o local não danificado ou em ruínas. Quando Jerry entrou em

cena, ele tinha seu próprio espaço em Southampton, mas nunca viu necessidade de vender os Flats, ele o

chamava de tacada certa. O colecionador dentro dele na verdade ficava empolgado; contratou um zelador

para morar na casa, pois as coisas estavam se quebrando ou sendo roubadas sob a minha administração, e ambos vimos que o valor estava em manter o lugar, especialmente o celeiro, do jeito que era quando Zack

morava lá”.

“E agora é um museu.”

“Só com hora marcada. Alunos vêm em excursões. Documentaristas usam a casa, sou a única que

resta que sabe o que não está exatamente certo, que móveis estão faltando e assim por diante, mas está

bem parecido. Há pessoas para quem Zack se tornou um culto, não tão grande como Elvis ou Marilyn,

mas como James Dean, digamos; Zack foi um pintor muito mais importante que Dean como ator, mas

ainda assim, acidentes de carro e aquele olhar intranquilo e pretensioso; essas pessoas deviam ter um

lugar para visitar, e que lugar melhor que aquele onde ele fez todo seu trabalho importante?”

“É claro”, diz Kathryn. “E também mantém intacta uma parte da sua vida.”

“E você tem objeção a isso?”

“De modo algum. Tenho inveja. A maioria de nós vive num lugar, e aí se muda, e então o senhorio

põe outra pessoa no lugar.”

“Não me inveje, querida. Você tem a sua vida pela frente, e a minha já ficou para trás. Você não

gostaria de estar no meu corpo nem sequer por um minuto, há tantas dores que aprendi a não considerar e

que você notaria; você as acharia insuportáveis.” Não seria polido contestar isso, embora Hope veja que

Kathryn está tentada a discutir, sua cabeça comprida está se distendendo como se para farejar ou escutar

a chuva que bate nas janelas e faz aquele ruído grave harmônico na calha, e Hope nota pela primeira vez

uma beleza na parte inferior do nariz da outra: sua curva termina numa ponta onde se encontram dois

pequenos planos, a faceta inferior contínua à carne do septo, que se estende mais para baixo que o

habitual, de modo que sua narina se dilata em perfil, tenra e ávida e irrigada de vermelho do sangue. O

vislumbre de uma criatura viva faz com que os outros traços da moça se alcem para uma glória feroz:

seus olhos de ameixa escuros com sua curiosa vitricidade, seus lábios não pintados cerrados e sem sorrir

sob a tensão da entrevista, suas orelhinhas brancas meio em concha e sinistramente brancas, pequenas

para o tamanho do maxilar e completamente expostas pelos pentes prateados que achatam seu cabelo contra o crânio, um cabelo que, se deixado às suas próprias tendências, se espalharia profusamente sobre

a almofada. Hope vê a outra mulher como alguém que um homem pode adorar, ficar doente de amor,

enterrar sua semente na entranha dela como se com isso sua obra de vida fosse realizada. O estranho

conceito, que ela se ouviu acabar de propor, desta jovem identidade sentada em frente ser transposta ao

corpo de Hope, com seus dedos artríticos, dores no peito constantes, frequente falta de ar e sintomas

abdominais na medida em que em seu estômago, que vai encolhendo, resiste às refeições diárias que ela

lhe impõe, engendra mais fantasias rápidas — os devaneios que esvoaçam por uma mente cansada — da

interpenetração de ambas, escorpiões numa garrafa, a moça invadindo-a com perguntas enquanto Hope,

por sua vez, tenta imaginar a vida íntima de Kathryn, a criatura sensível que jaz sob os oleosos pelos

púbicos.

“Então”, vem a pergunta seguinte, “a sua relação com Jerome Chafetz começou quando você ainda

estava casada com Guy Holloway?”

“Sim, vários anos antes, mas de forma perfeitamente correta. Jerry havia comprado uma quantidade das esculturas brancas em vinil de Guy justamente quando o mercado, não só para o Pop mas para todo

tipo de arte, estava esfriando”, Hope afirma. Agrada-lhe demonstrar que, graças ao seu terceiro

casamento, ela sabe como o dinheiro fala: “Os árabes tinham embargado carregamentos de petróleo para

os Estados Unidos porque ajudamos Israel a ganhar a Guerra do Yom Kipur, e a economia havia entrado

no que chamaram de estagflação pelo resto da década.”

Continuar: parte 10 de 11