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“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto...
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto, uma figura esguia, sentada tensa e
empertigada na beira da espreguiçadeira de um tecido xadrez grosseiro e desbotado, os braços de
carvalho cor de laranja envernizados, que Hope conheceu inicialmente no solário em Germantown, onde
seu avô se instalava para ler o jornal, com a cabeça reclinada para trás para usufruir as vantagens das
grossas bifocais, sim, isso há mais de setenta anos, “uma declaração sua tirada do catálogo de sua última
exposição, em 1996.”
Quando criança Hope sentava-se na cadeira tentando sentir como era ser adulta, apoiando seus pequenos cotovelos nos braços largos, espalhando os dedos, um anel de gordura em volta de cada
articulação, na ponta da cavilha, que era encaixada no braço ligeiramente curvo, uma espécie de cunha de
madeira com uma barra, a extremidade do assento fixando a cavilha. Os braços da cadeira eram
separados demais para ela apoiar mais de um cotovelo e uma mão ao mesmo tempo. Devia ter — quanto?
— uns cinco, seis anos. Mesmo quando nova, na década de 1920 ou ainda antes, a cadeira devia ter sido
uma coisa desajeitada, deselegante, um tipo de mobília de verão torrando no calor do fundo do solário
envidraçado, com o filodendro plantado no vaso e o descanso inclinado para os pés, e a parte de cima
dividida como uma torta em longas fatias de couro triangulares de diferentes cores. Quando a morte da
avó nos anos 1950 provocou, por fim, a desmancha da casa de Germantown, Hope desejou a velha
cadeira e, não havendo objeção do seu bem-humorado irmão sobrevivente, trouxe-a para Long Island,
onde foi colocada no andar superior, no seu assim chamado estúdio, no qual às vezes ela tentava ler junto
à janela que dava para o norte, a janela corrediça que deixava penetrar o vento que vinha do estreito de
Block Island, enquanto lá embaixo Zack ouvia discos de jazz — Armstrong, Benny Goodman, um arranhado Beiderbecke — alto demais; e de lá para o apartamento com Guy e as crianças na East
Seventy-ninth, no quarto extra dos fundos com suas paredes pardas, ao lado do aquecedor que estalava
como um prisioneiro demente enquanto ela tentava determinar seu próprio ritmo com o pincel carregado
de tinta; e dali para Vermont, onde ela e Jerry haviam comprado e reformado uma casa e lá se enfurnado
em seu último reduto na vida, uma cadeira transportada da mormacenta Pensilvânia para um clima mais
frio, mais alto, todavia dificilmente incongruente nesta saleta da frente despojada, afetada, de teto baixo,
os pés dianteiros redondos da cadeira pousados sobre o tapete oval de retalhos trançados em espiral, os
pés traseiros quadrados sobre as tábuas do piso colorindo o reluzente preto-avermelhado de cerejeira, os
marrons, os verdes e os estreitos carmins do tecido xadrez desbotando ainda mais num tom pálido, aqui
na esparsa luz montanhosa do começo de abril. Estranho, Hope pensava, como as coisas nos seguem de
lugar em lugar, mais leais que amigos de carne e osso, que nos abandonam quando morrem. A casa de
Germantown tornara-se grande demais nos últimos e solitários anos de sua avó, suas grossas paredes de pedra foram abocanhadas até os peitoris do segundo andar por um sombrio matagal, hortênsias e
azevinho e um pau-rosa cujos galhos se quebravam a cada tempestade de gelo ou neve, a caiação
descascando e o reboco caindo em longos fragmentos quebradiços que se perdiam entre os caules de
peônias, as raízes do pau-rosa. Ela tinha adorado morar lá quando pequena, mas depois que seus pais se
mudaram para Ardmore, as visitas à casa davam uma sensação estranha, a gigantesca cicuta de ramos
caídos ficara sinistra, o quintal com sua relva macia com um cheiro quente e estagnado, como o ar de uma
estufa, a balança que seu ativo avozinho, a primeira pessoa cuja morte Hope conheceu, tinha pendurado
no galho de uma nogueira apodrecendo, as cordas e a tábua de um jeito eternamente negligenciado que a
assustava.
A jovem, uma lâmina fina e nova no velho e fofo revestimento da cadeira, lê com sua entrecortada
voz nova-iorquina, uma voz que se inclina na direção de Hope com uma pressão de ansiedade mas
também com o que parece ser, sob esta luz trêmula de um período tardio da vida, uma espécie de afetação
filial, “ Por um longo tempo vivi como reclusa, temendo as muitas evidências da não existência de Deus abundantes no mundo. O mundo veio-me lentamente, é a colcha de retalhos do Diabo, colorida
em vez de imaculada. Restrinjo minhas atuais telas a tons de cinza cada vez mais juntos um do outro,
como que na pré-aurora, antes de a luz começar a alçar as arestas para a existência. Estou tentando,
pode ser, pintar a santidade. Suponho que deveria ficar lisonjeada quando alguns críticos chamam
esta de minha melhor fase — eles escrevem que finalmente me livrei da sombra do meu primeiro
marido. Mas miraculosamente, pode-se dizer, parei de me importar com o que eles pensam, ou que
imagem tenho aos olhos de estranhos. Fim da citação. Isso foi há cinco anos. Você diria que isto ainda é verdade?”
Hope tenta desacelerar a jovem, arrastando sua própria voz como se fosse um pensamento.
“Bastante verdade, diria eu, apesar de soar num tom de autodramatização. Talvez ‘temer’ seja forte
demais. ‘Sentir horror e desgosto em relação a’ poderia ter sido mais acurado — e apropriado.”
Hope sente um nó na garganta com a presença dessa intrusa nervosamente agressiva, com sua face
urbana branca, suas longas mãos de unhas escuras e seu traje dogmaticamente preto — gola rulê preta,
jaqueta de couro sintético preta com um grande zíper central, cabelos pretos presos acima das orelhas
por dois pentes curvos prateados e que caíam sobre as costas como um leque solto e sedoso — e o
sinistro acabamento de um calçado grosseiro de bico quadrado, uma espécie de coturno, os cadarços
passando por uma dúzia ou mais de ilhoses como duas escadinhas pretas subindo e sendo cobertas pelas
bocas largas de suas calças, as quais eram feitas de um tecido finamente canelado, um pouco brilhante,
que Hope nunca viu antes, um tecido sem nome. As botas, com aquele novo tipo de salto alto, largo para
os lados mas estreito no sentido do comprimento, não aparentavam ser muito confortáveis, a não ser que agora o aspecto masculino fosse considerado confortável. É um novo século — mais espantoso ainda, um
novo milênio. Este fato milenar é para Hope uma grande porta em branco que se fechou com uma forte
batida, retendo atrás dela sua vida como uma criança sendo sufocada num refrigerador abandonado.
A voz da visitante, insistente com certa raiva, embora ainda femininamente flexível, insinuando-se
para dentro dos ouvidos da presa, afirma, “Você foi criada como quacre”.
“Bem, ‘criada’ é um termo delicado. Meu avô era um ancião, é verdade, mas meu pai,
especialmente depois que nos mudamos para Ardmore, frequentava as reuniões apenas uma ou duas vezes
por ano. Os Ouderkirk foram quacres holandeses; quacres holandeses povoaram Germantown, que, na
realidade, é um nome impróprio: cidade alemã. Deveria ter sido chamada Dutchtown, cidade holandesa,
da mesma forma que os ‘holandeses da Pensilvânia’ deveriam ter sido corretamente chamados de
‘alemães da Pensilvânia’.[1] Bolsões desses quacres holandeses vinham ocupando o vale do Reno; os
Ouderkirk vieram de Krefeld; o próprio Penn os visitara na década de 1670, falando-lhes da sua encantadora colônia, seu ‘experimento sagrado’ de além-mar. Quando vieram, nos anos 1680, alguns
moraram em cavernas até poderem construir suas próprias casas. Minha mãe, porém, era relativamente
episcopal, morna eu diria, mas jamais teria se considerado irreligiosa. Nós fomos todos juntos às
reuniões algumas vezes, parece que foram bem poucas, mas na mente de uma criança o pouco representa
muito. Lembro-me principalmente da luz e do silêncio, todos aqueles adultos esperando Deus falar por
intermédio de um deles: tosses contidas, pés se embralhando no chão, o rangido de um banco. No começo
aquilo me aborrecia, sabe como as crianças sempre ficam constrangidas por causa dos adultos. Aí a
qualidade do silêncio mudava, dobrava uma esquina, como um anjo passando, e percebi que era um tipo
benigno de jogo. Os Amigos falam de ‘silêncio vivo’. Na verdade, alguém acabava, sim, falando. Os
quacres faziam, sim, arranjos, mas deixavam espaço para Deus, por assim dizer, estragar esses arranjos.
Havia uma espécie de elaborada cortesia naquilo tudo. Numa época havia um banco na frente para os
anciãos e ministros registrados, mas do tempo que eu lembro, deve ser o final dos anos 1920 ou começo
dos 1930, eu tinha dez anos em 1932, os bancos estavam dispostos num quadrado, de modo que ninguém tivesse prioridade nos assentos. Apesar disso, meu avô nunca nos levou para um banco dos fundos.”
Cale a boca, Hope diz a si mesma. Este sempre tinha sido o seu defeito, falar, dar, flertar, tentar
agradar demais, esforçar-se para seduzir. Seu avô usaria uma expressão quacre, “da criatura”, para
qualquer coisa que fosse demais, humana demais, mundana demais, egoísta e cruel demais. A guerra era
da criatura. Luxúria e intemperança, é claro, mas também razão, estudo e debate em excesso. As artes —
com exceção da arte doméstica e edênica da jardinagem e da arte oculta de ganhar dinheiro — eram da
criatura, uivos por reconhecimento e singularidade. Coisas da criatura eram fracas, sujas e indignas; eram uma forma de ruído. Quando criança, Hope falava demais, sentindo sua carinha redonda e sardenta corar
de excitação, o coração quase explodir com seu próprio batimento, querendo, dentro de suas costelas,
que ela inteira, da cabeça aos pés, do alto da cabeça à sola dos pés, fosse amada, segurada, desejada.
Mesmo agora, à beira do túmulo, setenta e nove anos completados no mês passado, o infeliz mês de
março, ela está tentando encantar a ágil estranha vestida de preto, por mais que tenha perdido seus
encantos nas suas calças de veludo marrom e malha amarela de algodão, a gola alta desbeiçada e a
grossa camisa xadrez flanelada desabotoada para disfarçar a barriga, mas na verdade tendo o efeito
contrário; sua barriga se sobressai, mas seus seios e nádegas estão achatados; por baixo da roupa ela se
tornou uma bruxa nua de Schongauer, com diabinhos de dor artrítica familiares a ela, ou a sonhadora
Saskia de Rembrandt várias décadas depois, perdida em dobras e rugas. A reluzente franja ruiva, sua
marca registrada quando moça, agora não está nem mesmo grisalha, mas branca, tão fina e seca e carente
de corpo, cada fio espetado para os lados como se tivesse vontade própria, como se representasse uma
mera recordação daquela que um dia cobrira sua testa com o delicado volume de uma couraça de cobre. Na época, ela usava cabelo curto, duas pontas curvando-se para tocar os ângulos de seu maxilar, o
maxilar largo definindo o pentágono pálido que olhava do espelho de volta para ela com enganadora
calma, firme em seu olhar sardento de avelã, o nariz pequeno e reto, os lábios não exatamente carnudos
mas bem delineados, rápidos para expressar receptividade, rir, sorrir, até de si mesma, avaliando com
tanta seriedade sua face no espelho, uma covinha destacando-se na parte inferior da bochecha esquerda.
Quando criança ela se perguntava aonde ia o reflexo quando ela saía; espelhos pendiam nas paredes de
Germantown como pinturas que sempre mudavam de tema. Os anos 1960 a liberaram do batom e
daquelas encaracoladas permanentes dos anos 1940 e 1950, bem como de cintas e ligas; deixou o cabelo
crescer, liso ao longo das costas, prendendo-o num prático rabo de cavalo para pintar ou fazer o serviço
doméstico; ela tinha todo tipo de artificiosas presilhas e pentes curvos articulados, de casco de tartaruga
e marfim antes de os elefantes ameaçados de extinção virarem um problema. O fantasma grisalho desse
rabo de cavalo agora está preso na nuca com um desses elastiquinhos de cores de balas vendidos nas
lojas de cinco-e-dez[2] de Montpelier (uma das poucas cinco-e-dez que restam, embora não se use mais
esse nome, é só a expressão que ficou, pois com dez centavos já não se consegue comprar mais nada), e
nos pés ela calça grossas meias cor de gaze e sandálias Birkenstock macias e confortáveis, que também
são de outra época. Os anos 1960 tinham sido para ela uma grata liberação, um prazer, embora estivesse
na casa dos quarenta na maior parte da década. Preocupações com dinheiro, com casamento haviam
ficado para trás; ela era uma moradora de Manhattan com uma fazenda de cavalos em Connecticut, casada
com Guy Holloway, o super bem-sucedido menino prodígio da Pop Art, e, mais gostoso ainda, mãe de
três filhos pequenos, empurrando, de minissaia jeans e franja ruiva, um carrinho de metal com a pequena
Dot sentada de macacão de veludo (no bolso da frente um ursinho observador ou um inocente canário) e
os dois meninos indo atrás, choramingando por isto ou aquilo, pelos corredores da Gristede na Lexington
Avenue, atulhados de cores consumistas sob o incandescente teto ventilado, aquelas cores tão
desinibidas, laranjas e verdes fosforescentes e cáquis ácidos, uma década de arco-íris escandalosos, de
folheado a ouro e prata voltando às telas, de cintilantes viagens psicodélicas. No entanto, os entrevistadores sempre lhe perguntavam sobre os lúgubres, atemorizadores, anos 1940 e 1950, os
primeiros, uma década de cinza-metálico, os últimos com aquele azul-claro doentio que pode ser visto
nos filmes desbotados dos anos 1950 na televisão.
“Como as telas do seu primeiro marido”, propõe a voz, contente com a conexão. “Atacado de todo
lado da tela. Sem prioridade”.
Ela está se referindo, Hope percebe, à casa de reuniões dos quacres. “Zack não tinha nada de
quacre. Não tinha a menor paz interior, nenhuma. Sua mãe, depois que o pai de Zack foi embora, tentara engajar a família numa dessas grotescas seitas ocidentais, que sobem em altas montanhas esperando que o
Senhor desça e acabe com tudo. Era uma das coisas sobre as quais ele não gostava de falar. Uma das
muitas coisas. Ainda mantinha o ressentimento.”
“Ressentimento porque era obrigado a subir, ou porque o Senhor não descia?”
Está sendo divertido, Hope se dá conta. Esta jovem talvez não precise ser enfrentada com
resistência absoluta. Ela continua, sua voz ao mesmo tempo afiada e sedosa: “A falta de prioridade
também me sugere as suas pinturas, as posteriores. Tudo equilibrado, nada intenso demais. Cada
centímetro quadrado igualmente importante”.
“Nunca fiz essa ligação”, Hope lhe diz secamente. O tom seco teria sido abrandado com o
acréscimo do nome da moça. Seu nome... Qual é mesmo o nome que ela deu, nas cartas e e-mails que a
galeria de Hope na Fifty-Seventh Street lhe encaminhou, e depois ao telefone e finalmente à porta? Lá
estava aquele corpo vivo, incongruente com as montanhas eternas às suas costas, surpreendente, uma
pessoa alta de cabelo preto, a face pálida-urbana, num manto púrpura com um capuz enorme, como uma aparição da morte num filme de Bergman. Hope visualiza o “K” se ressaltando acima da linha, o “y” se
lançando abaixo: Kathryn. Escrito desse jeito esquisito, rebuscado. As pessoas, agora que se afastaram
de seus ancestrais e da Bíblia, dão os nomes mais estranhos, nomes que inventam, mães negras vivendo
da previdência social e dando nomes às suas bonecas: Luceen, Baylee, Maryvonne. Seus próprios netos,
cinco ao todo, e nenhum John ou Mary entre eles, nem mesmo um Bill ou uma Barbara. Agora é Barbra.
Ardmore e Shipley eram cheias de Barbaras e Mary Anns. Hope imagina se sua visitante é judia. Ela
nunca desenvolveu a habilidade que os antissemitas e os próprios judeus têm de identificar quem é judeu.
Nos círculos artísticos presume-se que qualquer impetuoso ou com presença o seja, qualquer pessoa que
fale rápido dando certo sabor às consoantes, dando ênfase àquele “g” final, mas nem isso parece
funcionar sempre. Na Filadélfia os únicos judeus que eles conheciam eram seus dentistas; embora
quacres e judeus tenham sido ambos perseguidos e estivessem mais próximos da religião bíblica do que,
digamos, os católicos romanos, eles pertenciam a outras firmas de advocacia, a outros clubes de campo. A família de Hope pertencia ao Germantown Cricket Club, porque, ao contrário do Merion Cricket Club,
tinha piscina, apesar de o salão de jantar ter aquele teto baixo deprimente. Havia enclaves inteiros que
imitavam o estilo Tudor, grama espessa e cercas vivas altas, das quais corretores imobiliários invisíveis
mantinham fora os judeus. Ela achava que Bernie Nova, por exemplo, com seu monóculo afetado e
bigode enrolado com goma nas pontas era alemão, ou até mesmo armênio, como o grande e doido Korgi
de fato era. Bernie e Roger Merebien eram aqueles entre a multidão de concorrentes de Zack com quem
ela se sentia mais à vontade, que estimava mais fraternalmente; eram os mais articulados, redatores de
declarações e cartas aos editores, formuladores de credos e cartas altivas à imprensa e, por conta disso,
bastante condenscendentes com outros, com Zack e Phil e Seamus, por serem loquazes demais para a
sublimidade, carecendo da paixão americana apropriada, além das palavras. A pele de Kathryn tem o
lustro fosco, a maleabilidade racial, mas agora tanta coisa é maquiagem que ela pode ser também de
descendência mediterrânea, ou da Europa Oriental. Estamos todos tão assimilados. No último sábado
Hope estava assistindo ao noticiário vespertino e a apresentadora, em vez de Tom Brokaw, era uma moça perfeitamente deslumbrante, olhos claros de topázio distantes entre si como os de um gatinho, boca larga
de cantos bem definidos pronunciando tudo com uma inflexão ágil e perfeita, mais americana que os
americanos, mais nítida, um toque daquela voz fragmentada rápida dos filmes de gângster e das comédias
românticas dos anos 1930, e quando os créditos mostraram seu nome, não era nem sequer grego, era algo
mais próximo ao turco, uma rápida retorcida de sílabas como uma palavra em inglês pronunciada de trás
para a frente. O velho rebanho americano está sendo encoberto. Não era sem tempo, é claro: não há
motivo para lamentar. Ao contrário. Ela e Zack eram do velho rebanho — quacre, ianque, pioneiro do Oeste, protestante, cada um sendo pastor à sua própria maneira, egressos nas névoas do norte da Europa
para este país de sol forte, cancerígeno. “Kathryn”, diz Hope, cimentando seu controle sobre o nome,
“esse é na verdade mais um artigo sobre o Zack? Será que já não foram artigos demais?”
“Zack, não, você. Você inteira. O momento, o momento histórico, a explosão, quando tudo se juntou,
e os Estados Unidos sobrepujaram Paris, e pela primeira vez lideramos a arte mundial. Por quê? Como?”
Ela soa como uma apresentadora de notícias, lendo o teleprompter à medida que as linhas vão subindo.
Hope sente os ossos pesados, como se fossem de chumbo, com a realidade que esta pessoa jovem está
lhe atribuindo — precisa lhe atribuir, para justificar seu tempo, sua energia gasta, a monótona viagem
pela autopista Thomas E. Dewey até Vermont, serpenteando através das fazendas de gado em pastos
pedregosos e dos telhados exageradamente inclinados das casas de esqui e dos pequenos e belos
colégios experimentais para os filhos complicados dos ricos, os postos de gasolina que também são
minishopping centers, os pequenos restaurantes de almoço que tentam ser acolhedores com suas cortinas
brancas nas janelas e geralmente estão fechados nesta época do ano, e então a noite de sono irregular no motel para conseguir estar à porta de Hope às 9h30; Hope lhe disse pelo telefone que seus dias
começavam cedo, com algumas horas no estúdio depois do amanhecer, e terminavam cedo. A moça receia
não obter o suficiente pela milhagem percorrida.
Aquele “você inteira”, no entanto, foi simpático. Hope nunca foi considerada um soldado
significativo, apenas uma adepta de campo, uma das muitas, e depois esposa, algo que poucas adeptas de
campo conseguem. Suas pinturas constrangiam Zack, de certa forma uma subversão de sua masculinidade,
e ele a escondia como pintora no andar de cima, como a maluca sra. Rochester. “Bem”, ela sugere, “para
ser simples em relação a isso, a guerra tinha deixado os outros países arruinados. Estavam exauridos. Da
mesma maneira dominamos as Olimpíadas de 1948; todo mundo ainda estava fraco de fome.”
Kathryn deixa isso de lado como algo ridículo, que não vale a pena. Não consegue imaginar fome e
miséria como fatores culturais reais. Seu rosto se força a penetrar alguns centímetros no espaço entre
Hope e ela mesma, ela na velha e macia cadeira do solário e Hope na sua dura cadeira de balanço, uma cadeira de balanço feita por antigos hippies em Burlington com não menos de, dizia o caprichado folheto
impresso (em tinta verde) que veio junto, cinco tipos de madeiras diferentes; elas encolhiam em
diferentes graus e tornavam o encaixe mais apertado à medida que a cadeira envelhecia, assim alegava o
folheto. Ela dera a cadeira para Jerry no seu primeiro aniversário aqui, e tal alegação ainda não foi
refutada. A cadeira sustenta seu peso quando ela se recosta para manter a inquisidora à distância. A rude
claridade da luz matutina — nem uma única nuvem no céu azul, um reluzir de lama na terra nua diante da
porta da cozinha quando ela abastecera o comedouro de pássaros dez minutos antes de Kathryn chegar,
pontualmente demais — despe de beleza a face da entrevistadora, mostrando-a bruta e mal-humorada,
seus olhos de ameixa escaranchados sobre um nariz comprido com um leve calombo, os lábios virados
para baixo, determinados a não se distrair nem a serem cativados muito facilmente, lábios que poderiam
derreter-se caso beijados mas que correm o risco de se consolidar numa permanente carranca azeda de
ambição não realizada. Kathryn lança um olhar para as folhas de papel equilibradas sobre seu colo preto,
suas coxas finas pressionadas com força uma contra a outra, páginas de perguntas impressas por um computador para ajudá-la enquanto a fita da entrevista vai correndo na maquininha, uma Sony de dois
tons de cinza, seu ronronar metálico no silêncio, na mesinha baixa entre elas, não uma mesa mas um velho
baú de madeira que Hope comprou em Riverhead nos anos 1940 por vinte dólares, lixou e envernizou,
naqueles primeiros anos quando ela e Zack estavam entusiasmados em criar um lar juntos na pontinha
ventosa inundada de luz de Long Island, mundos distante do que ele chamava, eufemisticamente,
encobrindo suas farras de bar em bar, de “uso e abuso” de Manhattan. Kathryn diz apressada, como se
Hope fosse sensível a esses assuntos: “O triunfo foi explorado politicamente, eu sei, pelos Rockefeller e pela cia, entre outros, mas não vejo isso como movimento político, originalmente. Vejo como algo
inocente, a última chama da nossa inocência idealista”.
“Oh, não”, Hope responde. “Não nos sentíamos inocentes em relação a nós mesmos. Sentíamo-nos
muito sofisticados e um pouquinho malvados. E os pintores não se conheciam todos entre si igualmente
bem, ou eu deveria dizer, não se gostavam igualmente entre si. Alguns dos outros, os mais intelectuais e
bem organizados, não gostavam muito de Zack, especialmente depois que seus quadros tornaram-se tão
famosos e seu hábito de beber voltou a ficar terrível. Zack não era fácil de se gostar, ou mesmo, após
algum tempo, de se amar.” Ela deixa a frase flutuar alguns segundos, atormentando a outra, tentando-a a
decalcar prematuramente essa palavra atraente, “amor”, mas Kathryn ignora a provocação, e Hope tem de
continuar, explicando, esclarecendo o que sempre teria sido melhor deixar misterioso. Entrevistadores e
críticos são os inimigos do mistério, da indeterminação que dá vida à arte. Ela agita a mão — nodosa,
sardenta, cheirando a solvente de tinta — na ponta da manga da camisa xadrez flanelada do seu homem e
diz: “Agora se espera que todo mundo se vire do avesso a um simples comando, como sementes impacientes quando tocadas, ou — como é que se chama aquela planta? — Maxixe. Zack detestava ser
entrevistado; ofendia o seu senso de dignidade de classe mais baixa, de haver coisas que não se diz.
Todos nós — Clem, Peggy, Betty, Herbie Forrest, costumávamos orientá-lo sobre o que dizer, mas
quando chegava a hora ele se recusava a falar, ou só resmungava as palavras. Era sua arrogância — ele
achava que não se podia buscar o reconhecimento, este devia vir a você sem ser pedido. Ele era louco
por reconhecimento e, ainda assim, recusava-se a fazer o jogo”. Ele continua lhe voltando aos poucos,
sua cara quadrada de menino mau desorientado, seus três vincos salientes, covinhas profundas como se
fossem uma amplificação — uma reafirmação mais forte — de sua própria covinha solitária, e com seu
rosto a aparência das ruas de Manhattan de então, antes da arquitetura com fachadas de vidro e sacos
plásticos para lixo: os passeios da East Ninth Street atulhados em dias de coleta com latas de lixo
galvanizadas corroídas, lançadas com raiva na aba hidraulicamente erguida do caminhão de lixo, e o
intenso barulho de metal que faziam no meio da noite, os lixeiros dando o troco a todos que dormiam a salvo acima deles. Na época as latas cheiravam claramente a lixo, e a guerra de classes não era
disfarçada, sindicatos versus diretoria, os vermelhos contra os ricos. Não se desejava a ninguém que
tivesse um bom dia; os prédios pareciam os mesmos em Manhattan e em qualquer outra cidade: de tijolo
e com quatro andares de altura; cada quarteirão formava uma pequena aldeia, com um sapateiro, uma
barbearia, um bazar dirigido por irmãs, uma lavanderia chinesa, um porão de carvão e lenha, uma
drugstore com balcão de mármore para vender refrescos. A Eighth Street era uma espécie da shuk — um
mercado oriental onde se era empurrado a cotoveladas até a sarjeta —, e a área ao norte e a leste de
Washington Square tinha uma furtiva característica europeia, a Grace Church com seu campanário cinza
em padrão losangular destacando-se onde a Broadway fazia uma leve curva, como uma rua medieval
insinuante, e onde a Cooper Union flutuava em sua praça como um palácio veneziano marrom. A
University Place era uma fieira de bares, inclusive o Cedar, o qual sempre parecia quente quando se
abria a porta e suficientemente escuro para manter seus defeitos do lado de fora. Tinha cheiro de fumaça
e serragem.
“Ele era” Hope diz, hesitante, consciente de si como possuidora, aos olhos negros pendulares da
outra, de um estado mental divagador, esfiapado, além de qualquer utilidade a não ser alguns fiapos de
memória a serem tecidos na história de outra pessoa, “ele era autoindulgente e dificilmente autoeducado.
E obviamente bebia demais. Mas todos nós bebíamos demais, era parte da guerra, dos apagões, do nosso
estado de espírito sombrio e desesperado, toda aquela morte, os jornais tratando diariamente da morte,
centenas, milhares, números que hoje dariam manchetes gritantes. Era um mundo de homens. A arte era
um mundo de homens. Eles mal podiam abrir espaço para as mulheres, mesmo quando se casavam conosco. Era um mundo rude, masculino. Você fala de Zack e do resto dos heróis desse momento
histórico que você – qual é a palavra agora? – construiu, você os vê como titãs nas nuvens, mas os titãs
eram na verdade um grupo triste, que teve um triste fim, se me lembro bem de Bulfinch, do livro sobre
mitologia da minha infância. Exceto o velho e engraçado Bernie, que tinha se casado com o dinheiro, e
Roger, que tinha um fundo fiduciário, e Onno, que começou a vender antes de qualquer outro, ele tinha
aquele gosto europeu que marchands e compradores já podiam entender, não o nosso pobre tatear
americano, vindo das profundezas, Jung e todos aqueles arquétipos; todo mundo era pobre e vinha sendo
pobre havia anos, vivendo do Projeto, o Projeto Federal de Artes, antes da guerra e mesmo durante a
guerra, embora a verba estivesse secando. No momento que você menciona, o pós-guerra, mesmo depois
de a publicidade ter começado a entrar, Zack ainda não estava vendendo pinturas. Algumas gravuras e
trabalhos em papel, mas não grandes pinturas. Ele estava em vias de ficar famoso, mas nós
permanecemos supreendentemente pobres, e isto o enlouquecia. A galeria de Peggy deu a Zack um
subsídio, tivemos de pedir-lhe emprestado para comprar a casa, uma casa e três acres por quatro mil dólares, pense nisso, só a terra valeria um milhão agora, lá perto dos Hamptons; ele nunca conseguiu
ganhar aquela quantia, então a galeria ficou com os quadros. Simplesmente ficou com eles, durante anos.
A maioria das pessoas não tinha ideia de que estava acontecendo algo maravilhoso. Não sabia que havia
um momento. As pessoas ainda pensavam em Picasso e Miró e os surrealistas. Não Dalí; ele era tão
desprezado quanto Benton e representava tudo que odiávamos.”
“É claro”, Kathryn murmura, em tom apaziguador, sentindo a inflamação, querendo que Hope fosse
em frente.
“Dalí era um circo de um homem só, decoração de vitrine de loja de departamentos. Aliás, ele fez
algumas vitrines para a Bonwit’s e aí se jogou pela vidraça arrebentando a montagem quando a gerência
insistiu em vestir os manequins, que estavam, sei lá, pisando dentro de banheiras revestidas de pele e
deitados em leitos de carvão em brasa, um monte de plumas e mãos sem corpo segurando espelhos. Saiu
em todos os jornais, o que, obviamente, era o que ele queira. Ele entendia a publicidade e não tinha vergonha. Os europeus têm vergonha quando chegam aqui. Isso foi antes de eu me mudar para Nova York,
mas Zack, por algum motivo, estava lá e descrevia a cena rindo, mas também ofendia o seu senso de
dignidade que um artista se vendesse daquela maneira. Zack podia estar em farrapos, imundo de uma
noite na sarjeta, mas tinha esse ideal de dignidade, sei lá, do artista não como um executante ou parasita
da sociedade, mas como operário, e ao menos tão digno de respeito quanto um pregador ou um
banqueiro. Era uma das coisas que eu amava nele.” Hope sente-se excitada, a face corada, o coração
batendo forte, tentando agradar, picada pelo medo de parecer vacilante; as velhas inseguranças e a
sensação de ridículo parecem tão próximas, como se essa moça clandestina fosse uma das loquazes
jornalistas de arte que distribuía gracejos fáceis nos anos 1940 na Time e na Life. Mas na época em que
essas publicações começaram a reparar nisso, a maré tinha virado. “Você fala de um momento histórico,
Kathryn, mas a atenção estava toda voltada para algumas poucas galerias, com alguns críticos que, aliás,
tinham seu próprio peixe para vender, seu próprio nome a fazer — Clem usou Zack para fazer seu nome,
e quando Zack vacilou, Clem foi o primeiro a saltar do barco. As telas, aquelas que mais tarde todo mundo pôde ver que eram magníficas, e isso foi por milhões, de que serviam elas? Eram grandes demais.
Eram arte pública sem público. Zack — era patético —, quando estava bêbado de cair, costumava dizer
às pessoas que grande investimento seus trabalhos seriam, e é claro que tinha razão. Um homem nos Flats
— Jimmy Quinn, que dirigia uma barraca de verduras realmente vistosa — pegou como pagamento um
pequeno quadro de Zack em mdf de trinta por quarenta e uns dez anos atrás finalmente o vendeu por dois
milhões de dólares. Ele ainda anda por aí na sua picape caindo aos pedaços. Zack teria adorado.”
Hope faz uma pausa, e os lábios de Kathryn se entreabrem para disparar outra pergunta na gravação, mas Hope ainda não terminou seu longo pensamento cheio de rodeios; há um retrato de Zack que ela quer
acabar, embora a memória dele ameace sugá-la de volta, para longe, para baixo, como ondas espumantes
nos seus tornozelos numa das praias, alguma praia rochosa além das falésias, além das fábricas de
pescado, rumo à Ponta, onde permaneciam enquanto a tarde abandonava sua luz forte e ficava
avermelhada e a brisa se instalava, e não havia nada ao sul além do Atlântico, alguns navios cinzentos no
horizonte como etiquetas num arquivo. “Todos nós bebíamos”, ela repete, “mas para Zack era um veneno,
libertava demônios. Como muitos bebedores famosos, ele realmente não podia beber. Eu segurava o
álcool melhor do que ele e na casa dos vinte eu não passava de uma coisinha minúscula.” Zack estava na
casa dos trinta quando começaram a sair juntos: ele, com seus quadris estreitos, seu peito e ombros
recobertos de uma penugem loira; mesmo seus pés descalços eram lindos, protuberantes e largos nos
artelhos, e o peito do pé branco como a pele do lado interno de um braço de mulher. Ela ficava parada ao
seu lado, sentindo o sugar da arrebentação na altura dos tornozelos, o modo como ela puxa a areia de sob
os calcanhares. Havia o barulho branco das ondas e o espargido aroma de praia, sal e iodo, e corpos marinhos apodrecendo, peixes e águas-vivas deixando seus redondos cadáveres ocres como poças de
verniz nas rochas, abatidos, incapazes de voltar ao seu elemento, sua anatomia vagamente vislumbrada
dentro da poça, inútil, arruinada, algo como uma respiração ainda acontecendo, pobres criaturas
condenadas, como todos nós. Ela gostava do fato de Zack não ser muito mais alto que ela, como alguns
homens, inclusive Ruk; sentia-se como uma Eva que combinava com ele, como naqueles maravilhosos
painéis de Cranach em Pasadena, ou nos dois afrescos na capela Brancacci, o Masaccio tão angustiado e
envergonhado, o anjo rubro sobre suas cabeças banindo-os, e o Masolino tão sereno, imponente e altivo,
a pequena e benigna cabeça feminina de cobra acima da cabeça de Eva, Eva calma com seu cabelo loiro
repartido ao meio, sem arrependimento, antes da Queda, a fenda de seu sexo não oculta, tampouco o
pênis de Adão. Encare o fato: esta mulher jovem também é lenda. Hope imagina o corpo nu de Kathryn
— o balanço do quadril na coxa, os seios com suas pontas rosadas flutuando sobre a caixa torácica, o
triângulo púbico puro marfim-negro e oleoso como num Corot, tudo num lampejo, e então renuncia à imagem: é da criatura. Sua suscetibilidade à beleza, Hope sempre soube, é o que a manteve menor como
artista. Os grandes vão além da beleza, eles a desdenham como os santos do deserto desdenhavam visões
de concupiscência e conforto: o Diabo oferece o mundo como recompensa.
Ela diz à inquisidora, “O momento que você descreve, quando os Estados Unidos se autodefiniram
em termos de arte, os artistas já vinham dizendo desde a Armory Show que isso devia acontecer; o que
foi o Regionalismo senão uma tentativa de fazer acontecer? Benton e tudo mais, os murais da wpa. Nós
éramos extremamente marginais, a abstração era um sonho etéreo como o comunismo. A mídia, que na
época não tinha esse nome, ria às nossas custas; nós éramos uns loucos idiotas. Os Estados Unidos se
deleitavam. Aqueles retratos de Zack na Life, e aí o filmezinho que aquele alemão terrível, mandão, fez,
Hans qualquer coisa, foi aquilo que realmente o matou. Ele se odiou por virar celebridade, o novo Dalí.
Por ter sido obrigado a reconhecer, suponho, que virar celebridade era o que ele quisera o tempo todo.
Ele realmente tinha pouquíssimo talento, do jeito que a maioria dos estudantes de arte tem; tinha apenas
esse terrível impulso de ser grande. Ele era desesperado para ser não só bom, mas grande. Outros também achavam que tinham o impulso, mas não se apegaram a ele, distraíam-se com seu talento. Zack
não se distraía dessa maneira; ele se apegou. Ele não tinha nada a não ser essa...” Ela não quer dizer
‘esperança’, ‘hope’. E prossegue, “Ele era terrivelmente desajeitado com o lápis, com o pincel. Suas
mãos pareciam ser grossas demais para eles. E ele não sabia nada, comparado à maioria das pessoas.
Havia ingressado com Benton na Art Students League; Benton via-se nele, suponho, seu lado fanfarrão,
aquela coisa a oeste do Mississippi, e o talento de Zack não era ameaça; e aí, quando de volta à
Califórnia Zack finalmente conheceu Siqueiros, embarcou na bagunça, nas novas pinturas industriais, no protesto social ou seja lá o que for, tudo novo e bagunçado, e foi de carro até o Pomona College para ver
um mural que Orozco tinha feito de Prometeu; quando voltou para o Leste pegou o carro e foi até
Dartmouth para ver aqueles Orozcos e adorou aquelas cores de terra, o desenho ruim, e como todo mundo
em Nova York nos anos 1930 ele respirou o surrealismo, mas sem ter muito senso de teorias psicológicas
por trás, era tudo como se aplicava a ele pessoalmente, o futuro grande Zack McCoy. Você mencionou a
política, mas não me lembro de nós termos prestado muita atenção a ela, as coisas que as pessoas falam
agora. Truman e o Plano Marshall, a China sob o domínio de Mao, a Europa à beira do abismo, e todos
aqueles testes, testes de sirenes, a conversa sobre aniquilação: não tinha nada a ver conosco. Éramos
absolutamente egoístas. Mesmo a guerra, embora nem todo mundo tivesse se safado de servir, muitos
conseguiram. Os médicos do Exército os classificavam de loucos ou homossexuais, mesmo quando
tinham esposa. Fiquei tão chocada, quando vim a Nova York com vinte anos, com o fato de ninguém
mencionar a guerra, no seu pior ano, quando parecia que realmente podíamos perder e Hitler e Tojo
dominariam o mundo. Nós só falávamos de pintura, de quem porra era quem.”
“Mas uma boa parte do grupo”, a entrevistadora objeta, com seu afetado conhecimento de livros,
“era muito política. Muito esquerdista tipo anos 1930. Bernie Nova e Jarl Anders, especialmente. Se
você lê os manifestos pós-guerra, eles são francamente — qual é a palavra? — apocalípticos. Eles viam
o que estavam fazendo como uma revolução. Anders dizia — não tenho aqui a citação exata — que iria
desfazer dois mil anos de falsidade e traição do espírito humano.”
Por que essa moça está recitando a vida da própria Hope para ela mesma? E não está fazendo
direito. Bernie adorava fazer pronunciamentos, quanto mais afrontosos melhor, mas também era um
homem extremamente engraçado, envolvente e gentil, um urso com seu bigode encerado e o ridículo
monóculo antiquado, as palavras simplesmente brotavam dele, toques e abraços avunculares
estimulando-a quando ela estava por perto. Jarl era mais distante, mais limitado, cinzento e lúgubre como
um cadáver insepulto, um pouco paralisado em seus movimentos, observando com aqueles olhos, olhos
obscurecidos como um maníaco vampiro de filme, mas também capaz de certa ternura agressiva, um súbito enxergar do interior de uma mulher, de um modo impossível para Zack. Zack via apenas uma mãe,
um inimigo íntimo, qualquer que fosse a mulher para quem estivesse olhando: uma delicadeza
ameaçadora, um sugar da areia sob os pés nas praias rochosas, onde ele fazia esculturas improvisadas
das rochas, especialmente se houvesse filhos de outras pessoas para entreter. Ele gostava sim de
crianças, mas sem senso de responsabilidade. Achava que seus filhos seriam como os de qualquer outra
pessoa, a quem você vira as costas quando a hora de brincar chega ao fim.”
Hope admite, “Todos eles eram mais velhos, eu era o bebê; eles tinham lutado durante a Depressão
tentando ser artistas, poderiam ter passado fome e virado alguma outra coisa não fossem o governo e o
fap. Vinte e três dólares por semana era uma fortuna naquele tempo. Eram uma geração mais velha em
alguns casos e, sim, restava neles muita coisa da Velha Esquerda. Acreditavam que deveria existir uma
sociedade melhor do que esta, com um terço dos homens sem trabalho e os ricos usando cartolas e
falando mal de Roosevelt. A guerra suprimiu tudo isso. Mas não de verdade. Persistiu debaixo do pano a
necessidade de revolução. Ela se introduziu na arte. Tempo de guerra era privação, mas a mesma coisa era a vida artística. Todas as notícias, de algum modo, passavam quase despercebidas, exceto as de arte.
Fiquei tão surpresa, quando cheguei a Nova York aos vinte anos, com o fato de as escolas de arte ainda
estarem tão fortes. Racionamento e títulos de guerra e propaganda onde quer que se olhasse, as ruas
cheias de uniformes, e mesmo assim...”
“É claro”, Kathryn interrompe delicadamente, confundindo a pausa de Hope com uma divagação
senil, “havia todos os emigrados, Duchamp e Mondrian e os surrealistas, Breton, Max Ernst...”
“Sim”, Hope responde de supetão. “Nós — eu, pelo menos; você talvez tivesse chegado a eles — nunca os víamos. Os ricos faziam deles bichinhos de estimação, eles badalavam em Connecticut e no
Upper East Side, de todos eles só Mondrian não era esnobe em relação à vida americana, achava que
podia aprender com ela; mas eles estavam lá, sim, do nosso lado do Atlântico, valorizando, criando uma
atmosfera. Havia exposições. Essa era uma das nossas queixas, que as galerias davam todo seu espaço
aos europeus. E naquela época Barr, no Museu de Arte Moderna, obviamente só podia pensar europeu.”
Quem era essa jovem, Hope imagina, para se intrometer (ela deve ser judia) na sua vida, lendo o
que Hope viveu a partir de suas aplicadas folhas impressas? À medida que Hope envelhece, os fatos
externos de sua vida, inclusive seu lendário casamento com Zack, parecem ter cada vez menos a ver com
sua vida interior, uma vida que começou com ela notando as pinturas e reproduções penduradas na casa
de Germantown, coisas singulares coletadas por um tímido gosto quacre — alguns exemplos da bela arte
gráfica holandesa da Pensilvânia, a Dutch Fraktur, rebuscados certificados de matrimônio com
bonequinhos coloridos a aquarela, oleografias com qualidade de revista da Pinkie de Lawrence e da
Mulher com jarro de água de Vermeer emolduradas, e cabeças de faces rosadas com cabelos empoados, possivelmente retratos de Copley do grande museu cor de caramelo na Filadélfia que ela podia ver do
banco de trás do Packard do pai quando iam de carro até Center City, ladeando o rio Schuylkill, preto
como carvão. E a casa do seu avô continha algumas pinturas originais: pendurados na parede e envoltos
em caixinhas de veludo, retratos em miniatura ovais de Ouderkirks mortos havia muito tempo e
amontoados em túmulos, minúsculas e reluzentes presenças pontilhadas com pálpebras e dobras de
orelhas e aneizinhos, se ela olhasse bem, e aquarelas de nastúrcios ou do reluzir do vale de Brandywine
entre árvores com sua pesada folhagem pendente cujas sombras refletidas ela podia delinear na água, o
trabalho de alguma prima ou tia de seus avós que tomara aulas de arte na virada do século e era
considerada muito talentosa entre suas amigas fidalgas, e pinturas a óleo retratando picos e cordilheiras
na tinta endurecida; havia uma com uma bacia de frutas sobre uma toalha de mesa xadrez, que Hope já
desde muito pequena podia ver que era muito difícil de acertar, os quadradinhos subindo e descendo
pelas dobras do pano, e outras maiores com bosques, troncos caídos como corpos com crosta apodrecendo, pinturas lúgubres estas, não agradáveis mas poderosas, fazendo a criança sentir a úmida
melancolia, a estranha verdade de que esse emaranhado musgoso e sombrio, esse frouxo esparramado
sobre um leito de folhas marrom-amareladas, esse retalho descuidado de floresta, da área selvagem
original da Pensilvânia assombrada pelos índios, estaria sempre aí, quer houvesse alguém com cavalete
ou não. A tinta endureceu, Hope via, tocando (a menina estava sozinha na sala, não havia ninguém para
lhe dizer que não tocasse) suas pequeninas escamas ásperas. A tinta endurecida carregava um lampejo de
radiante eternidade, junto do tatear, perfurante, da mão e do olho do pintor. Ela sentia nisso uma infinita e
extensa magia, e também o elemento de protesto que fazia querer pregar na parede pedaços de um mundo
que sempre lhe escorregava de sob os pés; o mundo era uma linha de montagem despejando bens adiante,
numa pilha do perdido e esquecido. Com o protesto vinha um contentamento, a alegria de pequenas e
provocadoras vitórias sobre o tempo, criando coisas para guardar.
Era sua mãe quem guardava seus cuidadosos desenhos e também foi ela quem sugeriu que um
vizinho em Ardmore, para onde tinham se mudado da casa dos avós em Germantown, uma grande casa recém-construída imitando o estilo Tudor, numa sombreada rua sinuosa, viesse lhe dar aulas de desenho.
Ela tinha oito, nove anos. Por mais que olhasse, Hope não conseguia ver o que esse homem atarracado,
com seu cheiro inusitado de fumo para cachimbo e de xerez culinário, e dentes podres, via nas sombras, o
verde nos vermelhos, os azuis escondidos nos marrons. O pequeno “talento” de Hope tendia a
desmoronar sob o peso da sua atenção masculina — seu nome era Rudolph Hartz —, e ela ficou aliviada
quando os aluguéis de verão da família no Maine puseram fim às aulas de verão, que tinham lugar sob o
mormaço da Filadélfia, com suas dores de cabeça, no quintal lateral ou à sombra do salgueiro ou da nogueira inglesa, a vegetação se espalhando com sutilezas de cor como serpentes ou sapinhos. As aulas
dentro de casa ocorriam na biblioteca; páginas do Evening Bulletin eram espalhadas sobre a mesa de
café, cujo mosaico formava uma longa corrente quadrada de pedaços mais claros, triangulares e
trapezoidais, de madeira. Era como se seu pai esguio e tranquilo tivesse ficado mais largo e incorporado
um odor de vícios germânicos e força bruta, debruçando-se sobre seu ombro, uma mão peluda segurando
seu pincel, mergulhando-o no copo de água e nos escavados retangulozinhos de cor bruta na pequena
bandeja dobrável do estojo de aquarela, misturando para formar uma cor lamacenta que parecia toda
errada, mas quando salpicada no lugar fazia o objeto — o vaso, ou a boneca Kewpie, ou a pimenta
amarela — de algum modo ganhar solidez. A pequena Hope sentia-se delgada demais para se sustentar
sob a paixão do sr. Hartz, sentia-se um desperdício do tempo dele, sentia junto do cheiro de tabaco e de
axilas rançosas a mediocridade dele, seu desapontamento; ele fazia parte da legião de ilustradores
frustrados da Filadélfia, consignado à encomenda ocasional do retrato de um amigo ou de um cenário
para montagens suburbanas de teatro amador.
As aulas, mesmo nos fins de semana de inverno, cessaram. Seus pais devem ter falado polidamente,
como fazem os adultos, com o sr. Hartz. Hope taticamente deixou-se flutuar à deriva para longe da arte,
de suas turvas saudades — o copo d’água turvando-se com a penetração do pincel, a lisa paleta de tília
com pequenos círculos de óleos remexidos acinzentando-se com a mistura —, da mesma forma que para
longe de um garoto que, por mais fascinante que fosse, jamais seria um marido apropriado. Ela tinha dez,
onze anos. Como parte de uma boa educação, visitava museus: o interior da Casa do Tesouro no alto de
Fairmont dava a sensação de um grande banco de mármore com alguns clientes zanzando e sussurrando
sob as claraboias, enquanto no alto, fora do alcance, uma esguia Diana nua se equilibrava na ponta do pé;
a mais eclesiástica — papai dizia “bizantina” — Academia de Belas Artes da Pensilvânia tinha
compridas escadas que se erguiam entre as duas enormes e assustadoras telas de Benjamin West que, de
algum modo, provinham da Bíblia, e, atrás delas, salas com estátuas brancas nuas porque eram deusas em
vez de pessoas reais, e, no lugar de velhas figuras de penhascos e cachoeiras, retratos de Ben Franklin com seus lábios pequenos e maliciosos e George Washington parecendo dolorido e ruborizado; as salas
mais distantes exibiam os trabalhos dos alunos da Academia, desenhos a carvão de faces negras
monumentais e taciturnas observando, e trabalhadores da indústria postados defronte a fábricas fechadas,
vestindo grossas toucas de pano com as barras baixadas até o cenho, envergonhadas pelo desemprego,
amarrotadas pela injustiça, a abreviada perspectiva funcionando para encurvar e diminuir seus corpos
como uma invisível prensa industrial, espremendo toda a cor do mundo; na comunidade vizinha de
Merion um certo dr. Barnes havia transformado seus milhões da fábrica de antissépticos Argyrol numa
coleção de quadros e, para abriga-la, construíra uma mansão com colunas dóricas em cujo interior alguns
poucos escolhidos, admitidos mediante cuidadosos arranjos prévios, inclusive risonhas classes de moças
do Colégio Shipley nos seus blusões verdes xadrez e meias verdes até o joelho combinando, podiam
observar paredes cobertas com até quatro quadros um em cima do outro de corpos franceses e luz solar
provençal, o impressionismo e seus filhos mais selvagens, estocadas policromáticas num novo
paganismo, a arte despida de seus deveres com a história, com a devoção, com qualquer coisa que não a glória de cada dia e sua pele sarapintada de cor. Essas visitas rápidas, esses contatos sancionados,
mantiveram Hope ligada à sua capacidade infantil de maravilhar-se com essa cintilação chamada arte.
Em Bryn Mawr, nos dois primeiros anos da nova década, com a guerra na Europa escurecendo o
horizonte do outro lado do Atlântico, o departamento de história da arte, ainda assombrado pela recém-
falecida Georgiana Goddard King, amiga íntima de Gertrude Stein, reviveu o interesse de Hope pela
beleza criada pelo homem — reviveu isso o bastante para que ela percebesse que Bryn Mawr não era o
suficiente, estudar e admirar não era o suficiente, havia um mundo a menos de duas horas de trem onde a arte era vida, onde seu jovem corpo virginal com seu cérebro e seus olhos podia ser um instrumento,
podia fazer e acontecer e ser, de alguma maneira, num estilo que sua gentil e desbotada Filadélfia jamais
permitiria. No fim do seu segundo ano, enquanto sua mãe se arrepiava com os detalhes da mudança
daquele ano para sua ilha no Maine, onde seu pai, cansado de aluguéis não lucrativos, comprara uma
propriedade telhada cuja manutenção custou mais do que todos os aluguéis anteriores, Hope dirigiu-se a
Nova York, no auge do calor de verão, para tornar-se artista. Seus pais ficaram chocados, mas era um
tempo de choques, e ela tinha vinte anos e era 1942. Seu irmão mais velho deixou-se recrutar; o irmão
caçula já havia se alistado. O pacifismo quacre estava suplantado, assim como a passividade feminina.
Ela seguiu adiante com uma panóplia, retrospectivamente absurda, de um conjunto de bagagem azul que
incluía duas caixas de chapéu em forma de tambor para envolver a vida colorida da criatura, seus
pigmentos e artimanhas. Enquanto caminhava pelas perigosas ruas, abrindo caminho entre olhos nos quais
registrava um golpe similar ao de um pincel, sua liberdade a encantava.
A voz de Kathryn se sobrepõe a ela naqueles lotados pavimentos vespertinos; está se mantendo no ritmo da mente de Hope. “Vamos deixar as galerias e a Arte Moderna para depois.” Ela examina as
folhas impressas sobre seu longo colo preto. “Você primeiro foi aluna da Escola Feminina de Arte da
Cooper Union para Progresso da Ciência e da Arte.”
“Fui. Elas tiveram dúvidas, mas me deixaram entrar, por força de alguns esboços que eu tinha feito e
um autorretrato de seios nus, em acrílico. Naqueles tempos a Cooper Union era muito acadêmica, de
mentalidade muito prática. O treinamento era organizado em ‘alcovas’. Na primeira alcova, os alunos
desenhavam a partir de mãos e pés de gesso. Na segunda, de moldes de torsos. Na terceira havia moldes