Busca minha face

John Updike · Capítulo 2 de 2 · parte 11/11

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Busca minha face

“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto...

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

fascinante, que os nossos olhos adquirem a resolução fina que possuem porque sobre a película de água,

que aplaina algumas das irregularidades microscópicas da córnea, pequenas glândulas sebáceas ao longo

da borda dos cílios, literalmente centenas delas, secretam um revestimento de óleo que as aplaina ainda

mais. O olho de um falcão é cinco vezes mais aguçado que o nosso; cinco vezes mais oleoso, pode ser.

Ver é o sentido predatório, não é? Nós escutamos e cheiramos para nos proteger, mas vemos para

capturar e matar.”

Ela duvida, tão logo o diz, que isto seja realmente verdade; a voz da entrevistadora, inclinada para

a frente com um fio de ansiedade, interrompe as suas dúvidas com outra pergunta: “Você acha que homens

e mulheres veem da mesma forma? Pintam de um jeito igual?”

Hope se arrepia, começando a sentir-se esfolada pelas exigências deste encontro. A pergunta é

feminista mas não necessariamente estúpida; ela quer responder da melhor forma possível e fecha os

olhos, como se aquilo que os elisabetanos chamavam de feixes dos olhos pudesse se insinuar pela

escuridão avermelhada rumo a uma resposta honesta. “Nós olhamos”, ela diz, “para aquilo que nos interessa, aquilo que nos diz respeito. Uma mulher, por exemplo, ao entrar numa sala, por ser dona de

casa, vê sujeira à qual os homens são cegos. Ela vê como as outras mulheres se vestiram e se pintaram

para realçar suas melhores qualidades. As mulheres temem o perigo de uma gama maior de direções que

os homens, então suponho que haja menos, como posso chamar, frontalidade em seu trabalho. Mulheres

teoricamente deveriam se interessar por falos, e há — me corrija se você não concordar — um momento

fisiológico em que nos interessamos, mas há muito mais imagens fálicas nas pinturas masculinas do que

nas femininas. Desde O’Keeffe e suas malditas flores, e não o contrário. Nós pintamos nós mesmas.

Então não, não exatamente, mas bastante parecido, seria minha resposta. A espécie humana é menos

diferenciada por gênero que muitos — macho e fêmea de certos parasitas intestinais, acredito eu, não se

parecem em nada. Nós, homens e mulheres, somos ambos feitos para correr, e nos pendurar nos galhos, e

comer nozes e frutinhas silvestres.”

“Que interessante.”

“Bem, é mesmo? Venho pensando na minha pintura desde que você me acertou na cabeça com aquela declaração que dei cinco anos atrás. Eu estava numa conjuntura religiosa mental bastante distinta,

parece. Cor equivale ao Diabo; que coisa bruta de se dizer! Eu misturo montes de cores em tons de cinza

para produzir apenas insinuações de lilás, de bege, até mesmo de rosa, para estabelecer uma vibração

entre as listras, a atividade, a atividade atômica que está em tudo, aparentemente até na superfície de

aparência mais achatada, se você consegue acreditar no microscópio, esse fervilhar, como os turbilhões

e respingos de Zack, de certa maneira, ou as melecas de Guy na época em que fiquei atraída por ele,

antes de se tornar uma fábrica, declarando que não podemos tirar a imperfeição da arte, que é parte da

perfeição.”

“Elas são sua declaração de conclusão? As suas pinturas recentes. Elas parecem mais escuras, mais

ricas.”

“Elas têm, suponho, o terror e a tristeza das últimas coisas, da morte, por que não dizer? Mesmo que

seja impossível capturar, retratar.” Involuntariamente ela visualiza seu quarto, do qual está sentindo falta. Na mesinha de cabeceira, óculos de leitura de reserva num estojinho de pano xadrez escocês, um

exemplar da última pequena novela de Muriel Spark, um relógio Braun quadrado preto com a face tapada

para ela não ver os ponteiros brilhantes se acordar no meio da noite, o que lhe provocaria insônia, uma

máscara para os olhos para mantê-la dormindo quando a luz da primavera penetra, cada vez mais cedo,

pelas frestas das venezianas, tampões de cera para as orelhas numa caixinha plástica — quatro punhados

espremidos em linha como no quadro de Roger Merebien — para espantar o barulho das corujas de

Vermont e dos coiotes invasores e o murmúrio do tráfego. Estranhamente audível à noite, de algum modo

soando mais próximo, vindo da Route 89. Sobre a pequena penteadeira, escovas com a parte de trás em

prata que pertenceram à sua mãe e pequenas fotografias coloridas de seus netos, inclusive os três

nascidos após a morte de Jerry. E então, nos anos 1990, Dot e sua companheira holandesa gigante

adotaram uma menina vietnamita; Hope ficou sabendo disso por intermédio de Paul, que lhe deu uma

cópia colorida de uma foto que Dot enviara a ele, já que ela não mandara uma para a mãe. A menina, com

cerca de quatro anos na foto, tem aparência esquálida e apreensiva sob o clarão do flash, mas sorri resolutamente, disposta a tornar-se mais uma americana. “Por outro lado”, continua Hope, “quando estou

no cavalete, não penso no quadro em que estou trabalhando como minha última pintura, nem perto disso;

no meu olho mental há toda uma série deles, uma fileira infinita de dominós, à minha frente.”

“Que encantador”, diz Kathryn, tendo esperado pela continuação da imagem. Que interessante, que

encantador, a moça secou, como os homens. Os homens fazem o que vieram fazer e vão embora, e pelo

mais longo dos tempos isto parecia impiedoso para Hope.

“Você deveria ir agora”, ela diz à hospede.

“Realmente deveria. Mas está tão gostoso aqui, eu tenho essa...”

“Inércia.”

“Sim. Exatamente.”

“Você precisa voltar à sua vida. Diga àquele seu rapaz para ele se abrir quando for com você a uma

galeria. Se ele não consegue ver o prazer dela, talvez não seja o homem certo para você.”

“Acho difícil que Alec tenha prazer com tanta coisa na sua vida — sua carreira e tudo mais — sem

estar decidida.”

“Quando tudo estiver decidido, será tarde demais. O momento é sempre agora. Não há depois,

acaba-se descobrindo. Tudo que é real é uma espécie de agora.”

“Diga isso a ele”, diz Kathryn.

“Eu ficaria feliz em dizer. Nasci há muito tempo para ter vergonha de aprender com os homens, mas

há coisas que eles podem aprender de nós, também, e os mais espertos sabem disso. Os homens veem o

que está na frente deles, mas nem sempre todo o resto.” Kathryn está diante de Alec, é a impressão de Hope, e ele não vê bem que ela pode não estar aí para sempre, que está madura e que deve ser colhida.

As duas mulheres hesitam no limiar à sua frente: o fim das palavras, a retomada dos fardos. “Antes

de desligar a máquina, há alguma coisa que você ainda queira dizer?”

Hope mantém a boca aberta e olha para a extremidade distante do teto, levemente vergado,

descolorido aqui e ali, como algo estarrecedor. “Tenho a sensação de que há, mas não imagino o que

possa ser.” E acrescenta: “Tenho sido uma mulher afortunada. Não acredito realmente que o mundo seja

do Diabo. Ou só do Diabo.”

Kathryn se inclina para a frente com aquela sua despertada impaciência, como se superasse uma

tendência mecânica de ficar emperrada, e aciona o botão de modo a silenciar o minúsculo Sony cinza, a

terceira presença na sala, imóvel, em vigília, onisciente. Com um suspiro a entrevistadora se põe de pé, e

Hope balança para a frente e para trás sua cadeira de muitas madeiras ao esplendor desse desdobrar —

as longas pernas negras; as calças bem ajustadas em torno das coxas e alargadas acima do cano das botas; e a jaqueta curta de suave imitação de couro preto, que a moça nunca tirou, um comentário

silencioso sobre o frio da sala em comparação a quase todo apartamento em Nova York. A contrastante

gola rulê branca protege sua garganta, e sobre suas pequenas orelhas em concha dois pentes prateados

prendem junto à cabeça seu longo cabelo acetinado tingido de hena. Das solas das botas de ponta

quadrada até o topo da cabeça ela deve ter bem um metro e setenta e cinco; uma das coisas que prendem

Alec a ela provavelmente é que ele seja tão alto quanto ou mais alto que ela. Hope, sendo baixa, teve sua

cota de homens. Ambas as mulheres assumem o penteado puxado para trás, arrumado rapidamente, das

seguidoras do campo da arte, daquelas que buscam, por meio de uma mistura de comércio, desleixo e

envolvimento pessoal, uma reluzente atividade desinteressada, incorruptível e ardente. Kathryn enfia o

Sony e suas anotações impressas na grande bolsa preta, quase do tamanho de uma sacola, que ficou

esperando ao lado da poltrona, sobre o tapete de retalhos trançados.

Hope pergunta: “Você gostaria de levar seu meio sanduíche para a viagem? Eu poderia fazer um

saquinho de nozes, passas e frutas secas. Estou preocupada com você; realmente não há muitos lugares para parar entre aqui e a rodovia direta para Nova York; aquelas horríveis lojas de conveniência que

vendem principalmente doces velhos e revistas National Enquirer. Você não adora as manchetes? Amor

verdadeiro de Julia sequestrado por alienígenas. Perda de peso de Whitney horroriza os fãs.”

“Não, ficarei bem, Hope. É o carro de Alec, e se eu deixar o volante melado de geleia, ele me

mata.”

“Ai, ai. Ele não parece ser muito fácil de agradar.”

“Ele é um doce, basicamente. Mas, como expliquei, está numa fase difícil da vida.”

“Bem, não estamos todos? Como seria uma fase fácil da vida? Tchau, Kathryn. Estupidamente eu me

esqueci o seu sobrenome.”

“D’Angelo. Com apóstrofo.”

“É claro.” Hope tem uma lembrança muito longínqua da conversa telefônica introdutória entre

ambas, um sussurro distante no ouvido. Como ela foi estúpida, sentada ali todas aquelas horas, achando

que a moça era judia. Bem, ela é filha do mediterrâneo, a passível mãe do vinho e das raças de pele cor

de oliva e de todas as ideias segundo as quais ainda vivemos, nós, filhos das névoas do Norte.

“Eu lhe agradeço muito” a intrusa diz. “Você me deu tanta coisa, muito mais do que possivelmente

posso usar. Sinto-me culpada de tomar o seu dia todo.”

“Eu fiz a minha hora ou duas ao cavalete antes de você chegar. Depois disso, meu tempo vale muito

pouco, e parece haver tempo de sobra. Receio ter cansado os seus belos ouvidos. Passo muitos dias aqui

em cima sem falar com ninguém, exceto ao telefone — não que ele toque todo dia.”

“Você devia ter um bicho de estimação.”

Esta sugestão a toma de surpresa, mas talvez ela tenha pedido por isso, ao parecer mais

desamparada do que se sentia. “Jerry e eu tínhamos cachorros aqui em cima, goldens adoráveis, muito

amáveis, nós os levávamos de um lado para o outro quando íamos à Nova York, e os púnhamos num canil

próximo a Bolton quando íamos à Europa, eles pareciam tão magoados quando o carro se afastava, e

ficavam tão frenéticos de nos ver quando voltávamos, eu tinha medo que seus corações explodissem de

felicidade, e falamos de paixão! Depois que Jerry morreu, Júpiter, o último dos goldens, morreu também,

ele se desgastou muito indo até a porta à procura de Jerry. Os cachorros realmente não respeitam as

mulheres como respeitam os homens, e eu pensei em pegar um gato, mas achei melhor não ter bichos de

estimação e não deixar aos meus rapazes o problema de como se livrar deles. Meus bichos de estimação

são as criaturas da vida selvagem. Até mesmo os ursos, embora eu não goste de ver as marcas de suas

garras nos bosques muito perto da minha casa. Sabe, há mais ursos nestes bosques agora do que jamais

houve desde o século xix.”

“Eu não sabia.”

Havia algo que Hope estava em vias de dizer ao ser interrompida e agora diz: “Para mim foi uma

dádiva, poder falar tanto. Dar uma olhada na minha pobre vida em retrospecto.”

Kathryn combina esta declaração um tanto afetada com uma declaração sua: “É tão incomum para

alguém da minha geração”, ela diz, “conversar com alguém tão contente com sua vida. Meus amigos, eles

são bem alimentados, alguns deles ganham um bom dinheiro e têm sexo suficiente, acho, mas não estão de

fato contentes. Eles não têm essa capacidade. Você está contente, não está?”

Hope ri, a coisa voltou a ficar tão estranhamente formal.

“Estou contente de conhecer você, srta. D’Angelo. E estou contente, acho, porque toda vez que

fiquei sozinha na vida ainda tive uma razão para seguir adiante. A arte, se você tem alguma vocação para

ela, não abandona você. Está sempre disposta a flertar. Agora, realmente, antes que você saia correndo,

deveria usar o banheiro. Eu insisto. É tão difícil, mesmo sem chover, achar banheiros ao longo da estrada

que não nos humilhem fazendo pedir a chave.”

Ao mesmo tempo que Hope lhe diz essas coisas, Kathryn cruza a saleta até o hall de entrada e, com

um único gesto largo, veste o manto de caxemira púrpura com que veio e que havia jogado sobre o

canapé. O capuz lhe dá um ar sinistro porém cativante, o longo nariz agora sobressaindo da sombra, sua

grande bolsa preta balançando no antebraço dobrado. Ela reflete e decide: “Sim, isto eu vou aceitar.

Obrigada.”

Mais uma vez, então, naquelas botas barulhentas, ela vai ao banheiro sob a escada dos fundos. Na

cozinha, Hope tira rápida, furtivamente, uma embalagem plástica de sua caixa na gaveta e, abrindo a geladeira, pega, de um conjunto de recipientes plásticos na prateleira da porta, porções de uma modesta

quantidade de castanhas-do-pará, amendoins crus, nozes-pecã torradas levemente salgadas, uvas-passas,

minirosquinhas com cobertura de iogurte, e damascos secos. Ela lacra a embalagem com um doloroso

aperto dos dedos; Kathryn aceita o gordo pacote de merenda sem protesto nem palavra de agradecimento,

como uma criança que sai correndo para a escola. Sua cabeça já está na viagem pela frente; os olhos já

estão olhando pelo para-brisa, os limpadores batucando. “Você é muito gentil”, ela diz em seu torpor da

partida. “Devo lhe mandar uma transcrição quando tiver uma pronta?”

“Oh, minha nossa, não. Eu não suportaria ler.”

“Você gostaria de aprovar as citações que eu usar no artigo? Como eu disse, você me deu muito

mais do que posso usar.”

“Sinceramente não, querida. Tenho certeza de que você fará direito. Você tinha o gravador. E,

sinceramente, não posso imaginar quem será o leitor desse artigo.”

“É possível que tenhamos até mesmo algumas opções impressas, dependendo do tom que eu der. Minha agente está muito entusiasmada com as possibilidades.”

“Nunca tive um agente; suponho que o negócio deles é ficarem entusiasmados. Se você começar a

sentir cansaço e os olhos começarem a fechar, e se comer um damasco seco não adiantar, querida, você

tem que me prometer que vai encostar o carro, e não simplesmente no acostamento ou num desses postos

de descanso de caminhões onde acontecem coisas pavorosas, mas perto de um restaurante com as luzes

acesas e gente entrando e saindo.”

“Vou ficar bem, de verdade. Mais uma vez, até logo, sra. Chafetz.” Kathryn vira a maçaneta da

porta, mas não consegue abri-la; Hope, que conhece todos os truques desse trinco, em tempo úmido ou

seco, escancara a porta para ela. O vívido sopro molhado da chuva, o som e a agitação dela no escuro, o

lampejo sob a luz da porta de suas finas hastes verticais reluzindo com reflexos, sua presença

avassaladora estendendo-se até fora da vista e penetrando na escuridão da qual ela cai: a fera confronta

as duas mulheres. As lâmpadas da sala de estar revelam apenas alguns passos de grama morta, mais as copas reluzentes dos arbustos plantados perto da casa, teias de aranha brancas encharcadas e espalhadas

sobre o teixo de corte reto como rendas sobre uma mesa. As pedras irregulares levam com dificuldade

para a escuridão sussurrante, tamborilante, onde o carro da visitante está escondido. “Oh, não saia!”,

Kathryn grita, quando Hope pisa fora do abrigo do pequeno telhado sobre o alpendre de laje que vinte

anos atrás substituiu as tábuas podres. “Você vai se molhar!”

“Só um minuto. Vai me fazer bem. Jerry sempre acompanhava as visitas até o carro.”

Sem ter escolha, a menos que use seu tamanho e força juvenil para empurrar a mulher mais velha de

volta para a casa, Kathryn vira-se com um giro talvez desesperadamente engraçado de seu braço,

saltando para fora do negror da capa, e se dirige pelas pedras com passos no começo firmes e depois, no

escuro, hesitantes. Hope, que conhece cada saliência e vão do caminho, pega o braço de Kathryn,

sentindo através da caxemira a carne tensa, resiliente da outra, uma carne endurecida pela “malhação”,

correndo sobre o pavimento. Chuva, frio e um vento leve cobrem a face de Hope com uma sensação

deliciosa. Sob a faia, os pingos são maiores, reunidos e largados pelos galhos nus. Eles batem ruidosamente sobre o metal oco; o automóvel emprestado, o para-lama sem pintura reluzindo, compõe

uma forma à noite menos distinta ao olho do que ao ouvido quando Kathryn chega ao seu lado e com a

chave arranha a porta, que ela trancou sem motivo, pelo hábito da cidade, aqui nesta montanha de

Vermont onde raramente passam mais de seis carros por dia. É um carro velho e barato, sem equipamento

para travar e destravar com o aperto de um controle remoto eletrônico, como a Caravan azul-royal de

Hope. Oh, ela sabe que o seu suv bebe gasolina, todavia o espaço interior, suficiente para telas de um e

meio por um e oitenta, e a exaltação de sentar-se tão alto acima da estrada, parecem luxos que ela deve a si mesma perto do fim da vida: que os jovens herdem um mundo exaurido. Metano está chegando, e

hidrogênio separado da água por energia elétrica gerada pelo vento, ela ouviu falar disso na estação npr

num programa de ciências na sexta-feira.

Sob a faia ela sente a face inundada de um excitado calor de pena e inveja, como se encontrasse no

escuro das gotas um eu mais jovem; quando Kathryn se vira, depois de destravar a porta, para dizer um

último adeus formal, estendendo uma longa mão branca e molhada, Hope, em vez de fazer o mesmo, a

abraça, apesar de que, sendo tão mais baixa, seus lábios pousam não sobre a bochecha da outra, mas

sobre a angulosa curva de seu maxilar. Ainda assim, ela permanece firme, desfrutando desse outro corpo

agasalhado, impaciente, nu e saboroso sob as roupas, mais quente que o ar: em meio às hastes de chuva,

um aroma do espesso cabelo preto: “Tenha a sua vida”, ela diz, num sussurro empurrado de dentro como

um berro, “vá e tenha sua vida, querida. Não será a minha, não pode ser a minha, de certa forma éramos

todos tão ingênuos, pensando ser tão importantes para o mundo, mas será a sua, a sua própria vida. Não

fique parada. Não deixe esse Alec ou qualquer outro homem tirá-la de você.”

Kathryn, momentaneamente rígida, retribui o abraço, talvez mais apertado do que ela pretendia, e

baixa o rosto o suficiente para prometer: “O.K., tentarei não deixar.” A bicada de beijo que sua face

molhada dá na face molhada da mulher mais velha tem a qualidade severa, estatuesca, da sua boca:

endurecida pela seriedade, pela concentração do esforço de uma entrevista, negando a si tudo exceto

alguns poucos sorrisos. Agora ela parece, sim, sorrir de dentro de um ensopado capuz de lã macia. A

invasora diz: “Obrigada por ser tão generosa com o seu tempo, e tão franca. Por favor, você precisa

voltar para dentro.”

“Obrigada a você por me deixar falar e falar, tornando tudo real para mim mesma outra vez.” Será

que ela foi franca? Franca demais? Sobre dor? Sobre Zack? Não importa. Tão pouco importa, é como

acaba sendo. Por que ficamos tão aflitos? Hope solta o abraço; sente a chuva se infiltrando através da sua

grossa camisa de lã até chegar à pele, e mais além, àquela sua camada onde um dia a morte se instalará.

“Agarre sua morte” era uma frase de sua infância usada por adultos em relação a resfriados, que pairavam no ar como fantasmas, e a pólio e as ondas de rádio. Nossos ancestrais africanos pensavam que

caminhávamos por entre enxames de espíritos e acontece que, de fato, estamos rodeados de micro-

organismos.

Kathryn encontra a maçaneta da porta do carro de Alec; a escuridão e a chuva soltam o baque

ruidoso da porta do lado do motorista se abrindo, espalhando uma cunha de luz sobre as botas de pontas

quadradas de Kathryn, o fragmento de terra se transformando em lama debaixo delas, algumas lâminas de

grama achatadas aqui na borda do gramado e um espalhar de seixos cada um com sua aguda projeção de

sombra, como algo que o sr. Hartz gostaria que Hope visse. O que pensaria ele vendo-a, chegando perto

dos oitenta e tão cega agora quanto aos dez anos! Sem ousar correr, ela abre o caminho de volta pelas

pedras, cuja localização seus pés sabem de cor, embora ela ainda seja grata pela visibilidade ao se

aproximar das janelas iluminadas da casa. Os faróis de Kathryn se acendem e aí giram no começo da

curva, de maneira que a terra sob os pés de Hope parece rodar, deslizar numa onda de luzes que se

mexem exagerando cada contorno e bolsão de sombra na relva incolor; as luzes sobem até ela como a superfície lunar para um visitante da lua ao pousar, mas desaparece quando o automóvel da visitante faz

outra curva, muda a marcha e segue descendo pela estradinha de terra com as lanternas traseiras

vermelhas que piscam como olhos de um dragão zangado. A buzina soa uma vez, os cones de luz cheios

de chuva cintilante param um instante e depois desaparecem atrás do muro de pedra na parte superior da

estrada pública, asfaltada. Hope chegou à metade seca da varanda, faz um aceno invisível e entra em

casa.

Você devia ter um bicho de estimação. Um gato mataria os passarinhos que vem para o comedouro. Um cão infligiria a ela a opressão de amor e necessidade de ser levado para passear, de ser alimentado,

de ser agradado, de ser aceito como uma pessoa plenamente qualificada embora frequentemente

intrigada. Depois de falar tanto, Hope sente-se enjoada consigo mesma, como depois de comer muito.

Nada a fazer a não ser deixar o metabolismo expulsar do seu sistema; leva dias. Os ponteiros finíssimos

do relógio sobre o console marcam sete e quarenta e sete, um pouco cedo para a cama, mesmo para ela,

mas sua camisa verde-musgo está molhada, assim como o cabelo e as sandálias e as meias cor de

algodão, e ela não quer agarrar sua morte. Pneumonia é o que acontece quando o câncer e a estenose

arterial não fecham negócio. Quando ela tenta personificar a morte, visualiza um dono de galeria que

sempre tem a vantagem, por mais que ele seja pequeno, corcunda e atencioso. Ela estende a mão atrás da

cabeça e puxa o elástico cor de bala da loja de Montpelier que vinha mantendo no lugar seu fantasma

cinzento de um rabo de cavalo, e distraidamente o coloca no pulso esquerdo enquanto entra na cozinha,

onde fricciona vigorosamente o cabelo molhado num pano de prato azul xadrez sobre a pia. Desabotoa a

camisa de lã, pesada pela chuva absorvida, e anda de um lado a outro na sua gola rulê amarelo-trigo, que está molhada só no pescoço, e, com uma mão apoiada sobre o balcão de mármore, tira as sandálias e as

pesadas meias cinza encharcadas. Aumenta o termostato da cozinha em dois graus. Abre a geladeira, sua

luzinha obediente que automaticamente se acende, lembrando-lhe a luz espalhada sobre as caras e

desconfortáveis botas de Kathryn. Após contemplar a magra ração sobre as prateleiras de hastes de

cromo paralelas, ela tira o meio sanduíche que embrulhou em papel-alumínio para Kathryn levar, mas que

a moça desprezara. Ao desembrulhar o sanduíche, brilhos refletidos do alumínio que estala dançam

despercebidos pela textura composta dos painéis do teto rebaixado com suas luzes embutidas,

reostatadas. Desprezou seu sanduíche, ela pensa, desprezou seu café instantâneo, insinuou que amava

Zack mais do que Hope jamais amou, e depois de tudo isso, de um dia inteiro de agressão, manifestou

agradecimentos meramente formais. Hope morde o canto do pão de arroz selvagem com pecã, sentindo

primeiro o sabor adocicado da geleia, depois a oleosa manteiga de amendoim, e desce o corredor até o

estúdio comendo enquanto anda, espalhando migalhas. Alimentando os ratos. Um gato poderia matar ratos, também, outra coisa desagradável, trazendo os pequenos corpos peludos, mastigados, para que ela

os admire, ou para ensiná-la como também matar ratos, como se fosse uma gatinha. Seus dias de gatinha

já passaram. Seguramente, tendo dado à moça um dia inteiro do seu escasso tempo no planeta Terra, ela

pode dar aos ratos algumas migalhas. Mildred Warren virá amanhã fazer a limpeza. Amanhã é um dia

cheio — a mulher de limpeza e uma consulta dentária em Burlington com o dr. Weiss, para cuidar de uma

cárie onde sua gengiva recuou de uma coroa numa bicúspide, expondo a raiz à deterioração. Talvez

preenchê-la tire o gosto ruim na sua boca, que nenhuma quantidade de escovação e bochecho com

Listerine parecem alterar. Sua boca é uma tamanha colcha de retalhos de coroas e canais tratados e

implantes; em qualquer época anterior ela seria uma dessas idosas grotescas que Leonardo, com seu

modo frio e distante, desenharia, com um ou dois dentes restantes e o perfil todo encavado. Pobre

homem, o gênio dos gênios, o primeiro homem desde os gregos e romanos a ousar olhar para tudo, o

corpo e seus ossos e entranhas e os aquosos saca-rolhas dos ventos e correntes dos rios, mas que

evidentemente nunca tinha visto uma vagina; pelo menos aquela que está em seus cadernos de notas é claramente a de um cadáver feminino, insensível e escancarada.

Hope esquecera de desligar as lâmpadas fluorescentes do estúdio desde que brevemente entretivera

a entrevistadora ali. Seus tubos no teto derramam luz azul vívida em cada canto do grande espaço, uma

luz fria não natural sob a qual ela prefere não pintar; mesmo num dia carregado de nuvens a luz

setentrional quando cai, com seu arco-íris oculto, através das duas altas janelas e pela cúpula da

claraboia de acrílico, é melhor, mais verdadeira. A claraboia tamborila com o som da chuva como um

homem demente sozinho numa sala falando consigo mesmo. Hope sempre teve medo de que ela vazasse, mas até hoje não vazou, Jerry assegurou-lhe que isso não aconteceria quando mandou construir o estúdio

para ela. Ela a deixou confortável. Sabia que ela ficaria sozinha de novo. O espaço é grande demais, ele

não entendia que o seu tipo de pintura acontecia nas polegadas entre a mão e o olho, que ela teria se

contentado em trabalhar no quarto extra que tinham em cima, exatamente como na casa dos Flats até o

celeiro se tornar seu. Junto das paredes, atrás dela, há diversos cavaletes — pois ela gosta de trabalhar

em dois ou três quadros ao mesmo tempo, cada um com sua própria música cinzenta como harpas sendo

dedilhadas na neblina, o cinza do grafite e o das penas da pomba e da prata e da pedra e da espuma do

sabão —, telas jaziam empilhadas com os lados dos esticadores para fora, seus próprios, secos e

endurecidos e aguardando a viagem para Nova York e a próxima exposição, uma retrospectiva em

homenagem ao seu octogésimo aniversário no ano 2002, e alguns dos seus primeiros dois maridos; de

Zack, vários fragmentos tamanho cartão gotejados tão casualmente que ela nunca os colocou à venda, em

seu modo caótico ele era um perfeccionista e destruía o que considerava um trabalho fracassado, trabalho

que carecesse do ímpeto das profundezas junguianas, e de Guy, algumas obras lúdicas pequenas, em papel e pastel, uma em acrílico, madeira, arame e papel colorido formando um buquê pop entrelaçado

com as palavras numa fita, primavera eterna, obras que lhe foram dadas em ocasiões de família,

aniversários e datas de casamento nos dezessete anos que ficaram casados. Ambos, isto lhe ocorre agora,

acreditavam que ordem e beleza deviam ser feitas pelo homem, obtidas com um titânico esforço

consciente como o exibido nos musculosos murais dos anos 1930 que propagandeavam a visão trágica do

humanismo socialista, enquanto ela sentava-se diante dos seus cavaletes esperando que, ao manter um

recato quieto, ela conseguiria ouvir a música que está além do barulho humano. Que tolice, talvez. Mas

todas as desculpas para a arte são tênues e fenecem; o que resiste é a arte em si, a pintura mantendo

intacta qualquer que seja a esperança ou intenção trabalhada por aquele arriscado momento.

Ela esqueceu de desligar a pródiga iluminação que Jerry proporcionara e agora esquece por que

veio até aqui, molhada e exausta e sentindo levemente a falta da visitante, aquela moça corajosa, tenaz,

exasperadora, e então se lembra: para recolocar o telefone de parede da cozinha no gancho. Ela tem uma secretária eletrônica para pegar recados na cozinha, embora Hope soubesse que faria força para escutar

da sala de estar o que diziam ao aparelho; e teria sido ainda mais impolido desconectar ali ou na sala,

infligindo à visitante o periódico grasnido com que a companhia telefônica tenta dizer a você que o seu

telefone está fora do gancho. Melhor grasnir sem ser ouvido no estúdio, em meio às pinturas não vistas. O

receptor — tão menor que os antigos, que iam do ouvido à boca como naqueles pôsteres de pin-ups de

Petty, ao passo que estes receptores novos e os telefones celulares com abas que se abrem sugerem que

basta estar próxima dos lábios que falam, centímetros para o lado, talvez parte do embotamento geral da

atenção, os filmes e programas de tv onde as falas cruciais são jogadas fora com o Método de atuação e a

tela da cnn tenta nos dar três novas matérias de uma só vez, a cabeça falante e o texto correndo e os

resultado dos esportes — a faz lembrar, enquanto ela o coloca de volta no gancho, dos antiquados

telefones públicos de Guy em vinil flácido, flácido como os coelhos mortos de Chardin, apesar de que na

época em que ele os estava fazendo ela estava impensadamente viva demais para se perguntar se a morte

era a metáfora pretendida por Guy, e agora ele está caduco demais, o cérebro endurecendo numa cartilagem inútil, conforme as publicações médicas descrevem, para responder se ela lhe perguntasse.

Observando-se diariamente em busca de sinais do mesmo destino, ela frequentemente se pergunta como é

a sensação de saber cada vez menos e sempre chega ao enigma de que não se sabe o que não se sabe,

mais do que um cachorro entende a superestrutura da linguagem e da organização política e econômica

por trás das presenças humanas para as quais o animal é tão alerta, suas narinas revestidas de camadas e

matizes de odor humano. A analogia óbvia é entre nós e a mente de Deus; não temos a menor pista, ou

melhor, pistas são tudo que temos.

Então. O telefone a reconecta com o mundo, com Mildred, que pode ter tentado ligar para cancelar

— ela é toda amigável, com suas fofocas do vale e presentes de tortas e geleia de maçã na estação dessa

fruta e repetidas ofertas de um filhote de labrador quase de graça, mas mantém o seu próprio cronograma

e tem uma postura altiva, tratando Hope como igual, como se estivesse lhe fazendo um favor —, e com

seus filhos, caso Paul ou Piet quisessem vir saber as novidades ou apaziguar suas consciências filiais,

embora geralmente as visitas sejam nos fins de semana; Hope está potencialmente reconectada, com os

operadores de telemarketing e arrecadadores de dinheiro, com alarmistas e fofoqueiros, com as outras

várias mulheres idosas da região com predileções e passados metropolitanos não dessemelhantes, que

cuidam da vida umas das outras, e com aquelas ocasionais vozes mais jovens, oportunistas ansiosos,

filhos ou netos de velhos amigos — a neta de Jarl Anders apareceu no verão passado, com a sua cor da

alta Escandinávia mas os traços finos e penetrantes de Frieda, e um leve ar de benevolência que foi o que

restou dos terríveis êxtases proféticos de Jarl —, ou jovens bolsistas de arte ativos na esperança de

embolsar ainda que um mínimo de atenção ou benção de qualquer um do passado com nome ligeiramente famoso. Ela está novamente plugada a tudo isso, embora duvide que o telefone vá tocar agora que já

passa das oito. Apagando as luzes fluorescentes excessivamente claras de Jerry, deixando suas telas para

as trevas e o monólogo balbuciante da chuva na claraboia, Hope sente ter se livrado de um peso, a moça

alta e escura tendo ido embora, engolida pela tempestade, perdida no vórtice agora que o momento úmido

é passado, quando ela sentiu-se sólida em seus braços, como Dot naqueles longínquos dias quando a

criança está deitada se remexendo em seu berço solitário, morrendo de vontade de ser apanhada e

segurada, e deu aquele beijo frio e molhado que a fez enrijecer-se ao lado do pálido para-lama do carro;

Hope está aliviada de estar novamente sozinha, mas a longa entrevista a deixou com a inquietante

sensação de que os eventos da sua vida estiveram próximos demais, comprimidos numa única fatia

colorida de tempo, em vez de desenrolarem-se numa orgânica, sagrada e lenta procissão de noites e dias

se alternando, fases de solidão e incerteza e desolação, mas também de um frutífero sonhar, devaneios

entremeados de rompantes de atividade, de sociabilidade, de dançar convidativamente ao redor de um homem lindo e gastar a energia acumulada em indolência inerte.

Uma pequena lavanderia foi adicionada quando Jerry construiu a ala do estúdio para ela, e no seu

pequeno espaço, bem instalada como uma bandeja de gelo com dois cubos enormes, dois utensílios

gêmeos e prateleiras de detergente e lâmpadas de reserva e latas de spray de engomar e

folhas/feuilles/hojas de amaciante de tecidos; Hope joga a camisa flanelada xadrez molhada e tira a gola

rulê amarela, o pescoço encharcado como um garrote pegajoso, e suas calças marrom de veludo tendo

ficado mais largas por estarem lá fora na chuva, e põe tudo na lavadora sem baixar a trava laranja ou

tocar os comandos — o ciclo de lavagem seria de vinte e cinco minutos e secar poderia levar quarenta ou

cinquenta, mas se a roupa é deixada na secadora a noite toda, tudo fica amarrotado, e ela não quer descer

de novo ou ser impedida de cair no sono se a pequena novela de Spark a embalar. Mildred pode pôr para

lavar amanhã, enquanto aspira o pó onde lhe der na telha e espana as superfícies mais fáceis de alcançar,

sem nunca chegar às teias de aranha na base da cadeira ou nos cantos mais altos. A mulher, além disso,

fuma, como fazem tantos desses vermontenses “de verdade”, e o áspero cheiro de não-dou-a-mínima na casa lembra Hope afetuosamente dos dias em que todo mundo fumava, no Cedar na Praça da

Universidade ou na Cafeteria Waldorf na Sixth Avenue, nas festas no galpão do Sindicato dos Artistas na

esquina da Sixteenth com a Sixth, grossos rolos de fumaça, efeitos atmosféricos de Whistler, fumaça de

depressão e guerra e temerária aspiração artística. Hope sente o ar na sua pele nua, o que lhe provoca

arrepios. Se algum gatuno ou urso de garras longas olhar pelas janelas laterais, terá o que merece, a visão

de uma velha senhora descalça em roupa de baixo — calçolas brancas estilo largo, não biquíni, não fio

dental, e um sutiã da chamada cor da pele, embora não seja a cor da pele de Ticiano nem Fragonard nem Bonnard nem Modigliani.

Sua boca está seca e mole de tanto falar. Ela suga os dentes para ver o quanto seu hálito está ruim;

ela nunca consegue saber direito. Lambe os dedos, ainda melados do sanduíche de geleia, e tira da caixa

de pão dois frágeis biscoitos Carr’s Hob Nobs e se serve de um pequeno copo de leite desnatado,

verificando primeiro se há o bastante para o cereal do desjejum do dia seguinte mais uma dose na caneca

de chá que ela leva consigo para o estúdio pela manhã. Ela se vê fazendo isto tão vividamente como se a

noite já tivesse passado. A sensação de simultaneidade comprimida paira na sua cabeça como o

deslocamento cerebral na manhã seguinte a uma noite tomando vinho e fumando maconha, uma espécie de

ressaca derrapada. Com medo de estragar suas cabeças, ela e Guy largaram o fumo, pelo menos no

apartamento da Seventy-ninth Street ele largou — indubitavelmente, como Jeanette Nova maliciosamente

insinuava, no Hospício a coisa podia ter continuado mais do que ela percebia, fatos fora do campo de

visão como uma infiltração de água que acaba por minar as fundações de uma casa — mas ela e Guy,

descendentes do protestantismo radical, eram semelhantes na desconfiança de dourar o lírio da existência terrena, estar vivo era a própria viagem. No seu olho mental Zack parece mais distante que Guy, um ogro

lastimável que virava mesas e batia carros, enfiado no canto distante da Ilha para onde ela o levara; ela

deveria sentir-se próxima a ele, pois ele deixou traços claros e dinâmicos de sua mão nas suas pinturas

gotejadas, mas aquelas telas derramadas e respingadas numa dança xamânica tornaram-se monumentos

tão rígidos quanto os do Egito, construídos com blocos de pedra lapidada a mão.

Na sala de estar, por onde Hope vagueia com o último punhado de amêndoas não salgadas do dia,

sua atenção gravita para os objetos resgatados das casas de Germantown e Ardmore, aqueles que seu

irmão sobrevivente não reivindicou. Sobre o tampo de uma simples mesa de costura quadrada de bordo

curvado ela vê uma gasta passadeira de algodão azul e vermelho cujas linhas desbotadas ainda

descrevem duas estilizadas aves árabes cuja anatomia exata havia intrigado seus olhos infantis, e um

cinzeiro de cobre torcido ainda contendo manchas de sujeira dos Chesterfields apagados por seu pai, e

um candelabro de cerâmica rústica com esmalte brilhante e braços abertos, como os braços de um homem com as mãos nos quadris: o significado havia sido herdado por esses objetos antes que ela tivesse

palavras para enfraquecê-lo, seus braços e olhos tendo-os explorado na silenciosa antessala bem ao lado

da sua entrada no mundo. No fundo da penúltima prateleira de uma cristaleira com portas de vidro há

dois curiosos vasos que ela tentou pintar em aquarela quando estava tomando aulas com Rudolph Hartz.

Um era pesado e marrom, tão pesado que parecia estar cheio apesar de estar sempre vazio, com sua

circunferência atarracada e listras púrpuras no esmalte, e o outro vaso, cilíndrico e com listras diagonais,

lembrava vagamente a um poste de barbeiro com faixas de cores opacas, lembrando-lhe das guardas

marmóreas de um livro fino ou, agora, as cores nas asas do anjo ajoelhado na Anunciação que Fra

Angelico havia pintado na parede da galeria no alto das escadas no Convento de San Marco. Era uma

obra imortal, mas exibicionista, com suas penas e, pilares e flores, o recluso pintor culpado de

virtuosidade; Hope preferiu, quando passeou pelo convento com Jerry duas décadas atrás, a Anunciação

mais severa na cela de um monge, duas criaturas femininas transfixadas num quarto vazio.

Como ela observara esses vasos sob a luz da varanda lateral em Ardmore! — observara e misturara cores do conjunto de aquarela, seu arco-íris quebrado em quadradinhos côncavos, roubando com seu

pincel molhado uma lambida de vermelho de um dos quadrados, e de outro, uma trêmula gota de azul,

buscando na sua mistura o equivalente do reluzente castanho arroxeado do vaso cinturado de parede

grossa, ou do turbilhão enlameado multicolorido do outro de lados retos. O mundo era todo cores, mas

jamais cores sem mistura. Este mundo desaparecido continha peças de mobília que ela ainda pode

visualizar — uma louceira de canto feita de pinho tingido de vermelho; um forno a carvão no qual sua

avó cozinhara na casa em Germantown, puxando de suas entranhas crepitantes, com uma luva de asbesto florida, uma bandeja de biscoitos de passas; uma cama com quatro postes de dossel que sustentava seu

colchão sobre cordas e rangia em vez de afundar quando se saltava em cima dele; o descanso para os

pés, com suas longas fatias triangulares de couro colorido como cobertura, que “vivia”, era a expressão

usada, no solário do vovô, junto dos filodendros plantados em vasos e do suporte de revistas de bordo,

partido ao meio por uma divisória com um buraco largo perto das bordas para ser levantado pelos dedos.

Ali ficava ele, carregado de revistas fora de circulação havia mais de meio século, perto da cadeira

xadrez; ele lia fielmente The Saturday Evening Post, romances e tudo mais, a cabeça reclinada para trás

para tirar proveito de suas bifocais.

De roupa de baixo, Hope senta-se na cadeira xadrez de braços largos e abre os dedos de uma mão

sobre o carvalho curvo. O polegar e o dedo mínimo alcançam facilmente de um lado a outro. As costas

de sua mão estão sarapintadas e marcadas pelo sol e pela idade como se tivessem sido escaldadas, as

veias mais proeminentes formando padrões como letras retorcidas que ela quase consegue ler, pequenos

rios casuais que permaneceram em seus cursos toda sua vida. O inchaço da artrite em numerosas articulações fez com que os segmentos superiores de seus dedos se desviassem da linha reta. Ela se

maravilha que esta mão deformada de velha seja dela.

Seu avô entra na sala com seu passo macio, manhoso. Embora não seja alto, ele se move pela sua

grande casa inclinando-se furtivamente, ao ardiloso fingimento do proprietário de ser o mais manso dos

homens. Hope se sobressalta culpada de ter sido descoberta na cadeira dele, mas ele parece achar graça,

os olhos saltando de um grau de ampliação a outro enquanto ele move sua penteada cabeça cinzenta para

cima e para baixo, inspecionando-a. Ele parece a Hope totalmente cinzento, o cabelo liso dividido ao

meio e muito misturado com branco, o colete de lã cinza sobre sua camisa listrada sem colarinho, as

calças que um dia foram pretas mas que agora, tão frequentemente passadas e gastas nos joelhos

alargados, são foscas como uma sombra, suas botinas tão enrugadas que pegam brilho em listras. O

buraco onde deveria estar o botão do colarinho está aparecendo, e as mangas compridas são conservadas

no lugar por elásticos pretos acima do cotovelo. Dele vem um cheiro similar ao de roupas de inverno mantidas durante todo o verão num alto armário de cedro. Com cômica formalidade ele ergue uma mão,

como que para reter o tráfego na mente de Hope, para dar seu texto: “Não te inquietes. O que estavas

medindo com tua mão?”.

A criança que ela foi há muito tempo carece das palavras para explicar.

“Só vendo uma coisa”, ela começava, e parava.

Após uma pausa ele concedia:

“Esse é um assento agradável para observar a Criação. Meus planos tinham sido sentar com o

Evening Bulletin de ontem, à procura de notícias que eu possa ter perdido, e esperar pelo correio

vespertino. O bom sr. Brubaker geralmente faz a entrega às três horas e trinta, caso se omita de demorar-

se em conferência com a viúva Kendall rua acima. Está escrito na Constituição, evidentemente, que o

dever mais importante do Departamento de Correios é coletar a fofoca de cada domicílio.”

“É mesmo?”

“É maneira de falar, criança. Assim parecendo, assim se torna. Eu fiz o que em linguajar comum chama-se piada. Diga-me, não há, para as jovens damas, brincadeiras hoje, nenhuma visita de colega?”

Ele via dentro da vida dela. Lisonjeada, Hope fornecia um relatório completo:

“Freddy Traphagen veio aqui, mas teve de ir para casa. Vovó foi a pé até o açougue para comprar

um assado e patê de porco, mas eu não quis ir junto, odeio todo aquele sangue e o jeito como o homem de

avental grande sorri para mim. Mamãe está tirando um cochilo e disse que eu não devia fazer nenhum

barulho. Você e eu poderíamos jogar Fish.”

Seu rosto estava quente de tentar aumentar a atenção que ele estava prestando, de forma tão grave e cortês.

“De fato poderíamos, embora eu tivesse que fazer um leve reajuste nos meus já mencionados

planos. Em vez disso, poderíamos caçar um tesouro.”

“Caçar um tesouro?”

“Se eu fechar os olhos, tenho uma ideia de onde pode haver algum escondido. Mas terás de reajustar

tua posição na nossa cadeira. Terás de ajoelhar-te ao lado dela. Tua mão é tão fina e pequena comparada

com a minha; faz-me uma gentileza, minha neta, e coloque-a entre as duas almofadas.”

Ela olhou para a mão dele, pendendo meio fechada na altura do bolso da calça que continha seu

canivete com cabo de osso, com o qual ele não só descascava maçãs e pêssegos em longas tiras espirais,

mas também cortava as próprias unhas; quando aparava as unhas, sua boca, mais flexível que a dela

porque os dentes podiam sair, enrugava de concentração, e os olhos ficavam enormes na metade inferior

dos óculos. Ela viu que ele tinha razão, a mão dele era grumosa e enrugada, marrom como jornais

guardados durante anos no fundo das gavetas, e seus dedos tinham bordas como as lombadas arredondadas dos livros ou palitos de chocolate quando tinham endurecido na bandeja do fabricante de

doces. Hope assistira a doces sendo feitos da calçada na Chelten Avenue através da grande vitrine perto

da loja de sapatos quando saía para fazer compras com a mamãe; o chocolate saía do panelão fumegante

e pastoso, mas endurecia muito depressa, dando à gorda mulher sentada, cercada de toda aquela doçura,

o tempo exato de rabiscar um desenho em cima com sua colher, rápida como a luz.

Obedientemente Hope ajoelhou-se ao lado da cadeira e empurrou sua própria mão, pequena e

redonda com gordura entre as juntas, enfiando-a na fenda, que no começo estava assustadoramente

apertada. Tateou em volta num espaço de pano secreto, rezando para que nenhuma aranha a picasse nem

que uma centopeia, com suas horríveis patas oscilantes, subisse na sua mão. Sob o pano esticado havia os

pedaços de metal que a mantinham firme por baixo, e sobre um dos lados, quando estava prestes a

desistir, sentindo o braço apertado como que por um garoto maldoso, as pontas de seus dedos

encontraram as bordas curvas e duras de um — não, dois — pequenos objetos circulares. Pinçando-os cuidadosamente, ela os trouxe para cima e os exibiu na sua palma: duas moedas, uma grande prateada e

outra pequena marrom. A marrom ela conhecia, era um penny, mas a maior ela nunca pegara na mão

antes.

“O que é isto?”, ela perguntou ao avô.

“Não sabes ler?”, indagou ele.

“Palavras ainda não. A professora do jardim de infância nos disse que isso vem no próximo ano, na

primeira série.”

A srta. Fox tinha dentes grandes que se sobrepunham e estragavam sua beleza natural, dizia mamãe.

Mamãe entendia de beleza e disse a Hope que ela nunca seria linda, mas um espírito radiante poderia

compensar isso.

“Nem mesmo números e o alfabeto?”

“Talvez”, ela disse, sem ter certeza se estava mentindo.

A voz do avô tinha adquirido um arquejo suplicante.

“Leve a moeda grande até a luz da janela, jovem dama, e diga-me o que teus olhos detectam.”

O ar por aqui pegava emprestado um tom azulado das hortênsias do lado de fora, espremidas pétala

contra pétala como se esforçassem para olhar janela adentro, tentando sair do sol que estava branqueando

seu azul.

“Há uma dama entrando numa grande bola, o sol está se pondo...”

“Ou nascendo, diriam alguns.”

“E debaixo dos seus pés há alguns números pequenos... um, nove, dois, dois.”

“Esse é o ano em que ela foi cunhada, o mesmo que o teu. E o que há do outro lado?”

“Um pássaro amedrontador, indo na mesma direção.”

“Uma águia marcial. Nosso emblema nacional. Benjamin Franklin achava que o peru selvagem seria

mais adequado.”

“Há um monte de palavras em volta dele.”

“Na base, você consegue soletrar essas letras?”

Isso era difícil. Por que faziam essas moedas para parecerem tão antiquadas e confusas? Ela sentia

uma intrincada força divina pressionando o desenho, tornando-o obscuro.

“‘H’, eu acho, como o meu nome, e ‘A’, e... é aquela com uma perna só...”

“‘L’”, disse o avô. “Sem som, na forma ilógica da língua inglesa. Um meio dólar, minha criança.

Uma peça de cinquenta centavos”, o avô anunciou, a voz outra vez mudada, mais assentada no peito. “É

tua, com minha benção.”

Hope virou-se da janela e viu que ele se sentara na cadeira de braços largos. Era por isso que sua voz soara ligeiramente diferente. Ele lhe roubara o lugar. E já pusera os sapatos gastos confortavelmente

sobre o descanso com tiras de couro enfeitadas, embora Hope tivesse ouvido mais de uma vez vovó

dizer-lhe para não fazer aquilo, pois enchia as costuras de sujeira.

“Ei”, ela disse. “Essa cadeira era minha.”

O avô não pareceu ouvir. Recebeu seu protesto com um sereno olhar azul-cinzento dividido pelas

lentes bifocais, um olhar dentro do qual os olhos da criança leram total aprovação, um amor bifocal de

longe e de perto, próximo e duradouro.

Hope sorri, lembrando-se do truque do velho homem, e percebe que ele havia plantado as moedas

ali, para que ela as descobrisse no dia que ele escolhesse. O meio dólar e o penny tinham uma simetria

suspeita; a data na moeda maior era fortuita demais. Desse dia em diante ela procurava entre as

almofadas com tanta sinceridade que às vezes não havia moedas — elas não tinham tido tempo de crescer

— e raramente mais que uma de dez centavos. Às vezes havia um clipe de papéis, outra vez alguma pastilha preta mentolada para a tosse, com uma estrela estampada, e uma vez seu canivete, que

escorregara do seu bolso para a fenda. Quando ela devolveu a faca com cabo de osso, as sobrancelhas

grisalhas do avô se ergueram de surpresa, e ele a recompensou com uma moeda de um quarto de dólar.

Hope pensa em ir explorar a fenda entre as duas grandes almofadas xadrez neste exato momento, mas as

costas e o quadril doem com a antecipação de ter de se abaixar, gemendo, e ficar de joelhos sobre o

tapete de retalhos oval, e ela tem medo de não achar nada.

Você terminou Busca minha face

John Updike

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