Busca minha face

John Updike · Capítulo 2 de 2 · parte 3/11

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Busca minha face

“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto...

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

público mais que o necessário. Era como ele dizia: ‘Não sou muito bom com esta coisa na cama, mas

com certeza sei mijar’.”

“Peggy Guggenheim?”, a voz de Kathryn ficava um pouco mais ansiosa quando surgia um nome, um

velho nome escandalosamente famoso; era bastante decepcionante para Hope, essa suscetibilidade à fama. Ela teria preferido que Kathryn fosse mais do tipo je-m’en-foutisme que imaginava para si naquela

tenra idade. Antes de ser celebridade, Hope considerava a fama vulgar e uma afronta ao proletariado,

cuja ditadura anônima estava chegando, assim que a guerra limpasse o ar de plutocratas e príncipes. Será

que o ar também ficaria limpo de estrelas de cinema? Elas eram o que parecia ter importância para o

proletariado, flutuavam sobre a nação escurecida pela guerra como dirigíveis prateados.

“Acho que sim. Esqueço de quem era a lareira de mármore, com toda certeza Zack mijou em mais

de uma. Ele era patético quando estava bêbado. Não tinha nenhum dom para o álcool, não como Ruk, que

estava sempre consciente, sempre comportado. Zack retornava à infância, aquela drástica insegurança e

megalomania, balbuciando, mostrando o pênis, fazendo qualquer coisa para virar o centro das atenções,

dando um soco em alguém. Ele gostava de derrubar uma mesa com toda a comida em cima. Ele fez isso

comigo mais de uma vez.” O banquete de Ação de Graças com a família dele da Califórnia; a festa da

galeria depois da publicação do artigo da Life e a fama o deixaram um horror: as incessantes humilhações naqueles últimos anos em Long Island, todas as tentativas dela de criar um lar decente foram

contestadas e derrubadas, tendo inesperadamente afetado os olhos de Hope. A velhice faz isso:

senilidade dos dutos. Quando jovem ela se orgulhava de nunca chorar, não importava o quanto estivesse

ferida ou ofendida — para não dar a satisfação ao mundo cruel, colorido, da criatura.

A voz de Kathryn fica mais suave, retraindo seu agudo ríspido, ficando quase indolente no seu

incitar prestativo: “Era Herbert Forrest quem ficava chamando a atenção de Peggy para o trabalho de

Zack. Ela não gostou do trabalho dele por muito, muito tempo”.

“Na realidade, nunca gostou. Coitado do Herbert, é sim, acho que ele amava Zack tanto quanto eu.

Só que ele também gostava daqueles quadros confusos estilo Picasso anos 1940 que Zack fazia, todos

aqueles símbolos junguianos rabiscados. Eu não. Herbie era uma pessoa infeliz, pobre alma: acima do

peso, bicha, terrivelmente epiléptico, o que ele tentava esconder; mas ele tinha o treinamento, estivera em

Paris, tinha o olho para ver a genialidade em Zack. Desde o primeiro momento chamou Zack de gênio.

Para mim, na minha ignorância, Zack tateava e pesquisava demais, e nunca encontrava o suficiente. Ele não sabia realmente desenhar, como eu dizia, e até começar a usar tintas industriais vindas direto da loja

de ferragens, sua cor era sombria, eu achava. Mas o que eu sabia? Eu era tímida e caprichosa; detestava

sujar uma tela limpa, aquelas primeiras pinceladas que Hochmann dizia ser tão importantes. Não, não foi

a pintura de Zack que me atraiu, na verdade ela me repelia; foi o próprio Zack, seu corpo, seu rosto. Ele

era lindo, e era uma beleza que, ao contrário de Ruk, me exigiu alguma criatividade para descobri-la.

Você vai pensar que eu achava todos os homens lindos, eu era a habitual ex-quacre desreprimida com

fogo no meio das pernas, mas não... era Zack. Algo na trama do seu rosto, e sua cor; ele tinha pele, pele do Oeste tal como eu a imaginava, como um couro macio, ela não enrugava, ela formava dobras, e ele

mantinha um bronzeado descorado durante o inverno, e no verão nunca usava loção; seu rosto tinha

aqueles adoráveis realces de músculos em baixo-relevo, mesmo na testa, os dois pontos altos em

diagonal acima das dobras profundas onde suas sobrancelhas se franziam, e ele vivia franzindo o cenho;

à medida que seu cabelo ia afinando, ele cada vez menos parecia ter tido cabelo algum dia; foi a calvície

mais natural e bem assentada que já vi. Quando me mostravam fotos dele com aquele topete loiro da

infância, eu sentia uma espécie de aversão. Suas covinhas sempre são mencionadas nas descrições que

fazem dele, mas havia alguma coisa nas áreas planas, um empurra-e-puxa perfeitamente simétrico que

talvez fosse aquilo a que Hochmann sempre se referia. E orelhas perfeitas — olhe as fotografias, elas são

bastante impressionantes, grandes mas perfeitas, sem lóbulos. E o resto dele: na época a gente nunca

falava da “bunda” dos homens, mas a dele era apertadinha, um encanto; como ele não podia vê-la, não

tinha consciência dela, as duas nádegas apertadas uma contra a outra com aquela vaga inocência; ele

tinha muito pelo no corpo, mas era um pelo claro, e as pernas pareciam quase curvadas para fora, os músculos da panturrilha eram tão redondos que ele vivia dizendo às pessoas que tinha sido caubói, e era

mentira, mas o corpo parecia dizer que sim. Não se pode fazer uma pessoa bonita item por item, existe a

unidade, havia um jogo no seu corpo, uma estocada, acho que posso dizer, sem ficar freudiana demais,

que costumava me tirar o fôlego quando ele não sabia que eu o estava observando. Sabe aqueles corpos

masculinos que costumavam fazer nos murais, como no Rockfeller Center, não os que estão trazendo as

lâmpadas elétricas ou seja lá o que for, mas os operários lidando com o maquinário capitalista ou

arrastando fardos de algodão cais acima? Zack tinha esse tipo de corpo, mas como nunca se exercitava,

não havia nada de embonecado nele. Teria violado seu senso de masculinidade ficar satisfeito com o

próprio corpo. Sua arte era estrangulada pela autoconsciência, antes de subitamente ficar grande, mas seu

corpo sempre acontecia de ter essa graça. Exceto, agora me ocorreu, que ele não sabia dançar.

Simplesmente não conseguia acompanhar o passo, nem deixar você acompanhar o dele.”

Ela sente emanar de Kathryn uma opinião de que isso é suficiente sobre o assunto, mas Hope continua com uma insistência superior: “Ele era encrenca, sim, mas, querida, a vida é uma encrenca.

Bernie costumava dizer que a vida perturba a calma mineral inconsciente da matéria, é por isso que

temos um desejo de morte.” Para se forçar de volta aos limites de uma entrevista, Hope diz à moça,

improvisadamente: “Venho tentando lembrar o ano daquele baile que fui fantasiada de hotentote, o Ano-

Novo pode ter sido 1944, mas o estado de espírito, a temperatura da guerra lá fora, era mais para 1945;

já não tínhamos tanto medo, o fim, pelo menos na Europa, estava à vista, embora as pessoas se esqueçam

de como foi impiedoso aquele avanço rumo à Alemanha e que ainda não parecia impossível que Hitler

nos jogasse de volta para dentro do Canal. Hitler fazia o impossível. Ele era surreal, era o espantalho

que tinha fugido do subconsciente coletivo e achado um país para ir. Os alemães seguiam todas suas

ordens, por mais loucas que fossem, até o bunker de Berlim; agora tudo parece bastante inacreditável. Ao

mesmo tempo, tínhamos aquele aleijado aristocrata para nos liderar, e a Grã-Bretanha, um velho

empapado de álcool. Stálin, acabou-se descobrindo, era melhor para matar russos do que o próprio

Hitler. Foi a maior e pior história da carochinha que o mundo já viu, o tipo de carnaval com aqueles cabeças gigantes de papel machê.”

Kathryn, talvez estúpida afinal, parece tensamente atenta em cravar um ponto que possa usar:

“Entendi direito quando você disse que não achava que Zack tivesse futuro como pintor?”

Hope busca uma forma de evitar dar-lhe satisfação. “Já é bem difícil lembrar o que você fez, quanto

mais o que você sentiu. Eu queria gostar dele como artista porque comecei a gostar dele como pessoa.

Ele tinha seus defensores, como o pobre Herbie, e em 1943, antes de eu realmente me envolver com ele,

Zack participou daquela exposição Arte Deste Século, organizada por Peggy — quem haveria de sonhar que Este Século poderia algum dia virar Aquele Século? —, e recebeu o famoso assentimento de

Mondrian — embora possa ter havido alguma política por trás, afinal, havia outro artista na exposição

que tinha ajudado Mondrian a fugir de Paris, e foi por isso que Mondrian resolveu vir à exposição; ele

não estava bem, morreu no ano seguinte —, mas eu realmente me impressionava menos com o trabalho de

Zack do que com sua teimosa maneira de insistir nele, contra todas as possibilidades. Mesmo assim, ele

estava perdendo entusiasmo, as farras estavam ficando piores, ele sumia por duas ou três noites; se fosse

para eu ficar com ele, teríamos de sair da cidade.”

“É verdade que ele insistiu num casamento na igreja?”

“Eu tinha insistido para nos casarmos, uma coisa era viver em pecado com um homem na cidade e

outra coisa, na zona rural de Long Island em 1945. Eu teria me contentado com um casamento na

prefeitura, minha ranhosa família meio que tinha desistido de mim, a morte do meu irmão mais novo na

guerra os havia deixado meras sombras das suas velhas personalidades desaprovadoras, mas, sim, foi

Zack quem insistiu num ministro, penso que ele o fez principalmente para dificultar tanto as coisas para que eu desistisse, mas Myrtle Strunk e eu achamos aquele velho congregacionista numa triste igreja

embolorada para lá de Bleecker e que não se importou de eu nunca ter sido batizada — os quacres não

batizam, sabe —, e Zack não sabia dizer se tinha sido batizado ou não, sua criação religiosa fora num fim

de mundo. O ministro ficou sorrindo o tempo todo, como um demente — a face absolutamente sem cor, a

gente sentia que a vida toda dele fora vivida sob aquela rocha na baixa Manhattan —, e com Myrtle e

Herbie ali como nossas testemunhas ele deu um breve e estranhamente adorável sermão falando-nos do

casamento e da Criação e como, agora que a guerra havia acabado, as nossas vidas seriam belas. A única

coisa que pediu de nós foi que eu usasse chapéu e Zack, paletó e gravata; por sorte eu ainda tinha as

minhas caixas de chapéus, com o resto da minha bagagem azul, guardadas num armário atrás de todas as

minhas pinturas secas de estudante. O que eu pedi a Zack foi para ficar sóbrio, e ele ficou. Levou tudo a

sério. É difícil dizer no que ele acreditava, mas decididamente acreditava em alguma coisa; tinha estado

numa série de psiquiatras por causa da bebida, e todos eram junguianos. Isso se encaixa na sua pintura, é claro, os arquétipos, a magia dos símbolos, o aflorar do eu mais profundo. O que não fez nunca, nunca,

foi curar o seu hábito de beber. Então, sim, em resposta à sua pergunta, foi um casamento na igreja. Um

nostálgico interior branco com bancos cercados e altas janelas com vidraças losangulares, um lado com a

luz bloqueada por um prédio vizinho, como a Sainte-Chapelle, e no alto, acima do altar, uma janela

circular com um vitral mostrando Jesus com um carneirinho. Jesus vestindo um manto cor de uva e um

carneiro não alvejado. Ah, minha nossa, minha boca está seca e a minha cabeça está aérea de tanto falar.

Falar muito, demais. Eu vou fazer uma xícara de chá agora. Por favor, posso fazer uma para você?”

Kathryn inclina-se para a frente, fazendo uma careta para o gravador, e relutantemente o desliga.

“Eu prefiro café, se você tiver”, ela diz, talvez sem perceber sua indelicadeza.

“Café. Eu larguei há tanto tempo — disseram que isso baixaria minha pressão e prolongaria minha

vida, e suponho que tem dado certo — que nem tenho bule. Nem pó. Pode ser que haja um café

instantâneo num dos armários, se você puder espiar para mim nas prateleiras de cima; você é mais alta

que eu.

Mas quando as duas se puseram lado a lado, Kathryn, mesmo com suas botas, não parece tão mais

alta; seus olhos chegam na altura da cabeça de Hope. Ela se rende: “Chá está bom. Nunca fui fã de café

instantâneo. Essas cafeteiras que eles têm agora com relógio para programar para a manhã seguinte

acabam deixando a gente mal-acostumada, acho.”

“É Taster’s Choice”, informa Hope, sentindo pena pelo pequeno pote de rótulo vermelho juntando

poeira em algum lugar no fundo de uma prateleira que há anos ela não se dá ao trabalho de subir no

banquinho da cozinha para olhar. Sua mãe deve se lembrar de que o pote tinha um formato sutil, amigável, para facilitar seu manejo.”

“Não, de verdade, chá seria ótimo. Minha mãe costumava me dar chá, metade leite e metade chá,

quando eu ficava doente.”

“Ótimo”, diz Hope, “se você está mesmo a fim.” Ela toma impulso e levanta da cadeira de balanço,

depois dá os primeiros passos com cuidado, em caso de seus joelhos terem se enrijecido ou de um pé

estar dormente. O tapete de retalhos já a fez tropeçar mais de uma vez, correndo para atender à

campainha, que ninguém que a conhece ou conhece a casa jamais usa, ou levantando-se depois de se

perder num livro na cadeira xadrez, um bom mistério para pegar no sono ou alguma história de suspense

internacional escrita pelo filho de algum velho amigo; imagine ser jovem e acreditar que o mundo é uma

conspiração dessas. Numa ocasião, há não muitos anos, ela se estatelou no chão, seu reflexo preto-

avermelhado nadando sob seus olhos enquanto ela verificava mentalmente o corpo em busca de um sinal,

primeiro débil, depois pulsando freneticamente, de algum osso quebrado. Ela conhecia a sensação

porque havia quebrado a tíbia esquiando nos montes Pocono quando tinha dezesseis anos; na época as travas não tinham praticamente nenhuma folga, e o reboque era meramente de corda e cadeirinhas de

metal, um metal gelado com o frio passando pelas calças de esquiar e as ceroulas de lã, tudo muito

desconfortável, mas os meninos faziam, então a gente também tinha de fazer.

“Vou esquentar a água numa panela, já que somos duas. Quando estou sozinha, ponho uma caneca no

micro-ondas, mas o calor da água, por algum motivo, não dura muito. É o jeito que as moléculas são

agitadas, suponho.” Uma das razões de Hope não gostar de falar com gente jovem é o medo de ser burra

em relação a toda essa nova tecnologia que surgiu — não desde que ela era menina, mas desde mais ou

menos 1980. A linha divisória foi o videocassete; até então, era a sua tecnologia, e ela era capaz de

manuseá-la, mas nunca foi capaz de programar um aparelho de vídeo, mesmo usando óculos de leitura.

Agora que ela está de pé, ereta, sua voz soa como se originasse, estalada e indistinta, a alguma

distância dela, como um desses pequenos rádios que havia por toda parte, tocando o dia todo seleções

musicais em lojas, consultórios de dentistas e nos balcões de recepção das lavanderias a seco, antes que as pessoas tivessem telefones celulares e aparelhos de tv para se sentirem conectadas. Agora, quando ela

vai a Montpelier, fica estarrecida com todo mundo tendo celulares, até mesmo crianças em idade escolar

andando com suas mochilas nas costas, e no verão todas aquelas moças sérias fazendo trilhas, com shorts

muito curtinhos, seguram numa mão um telefone celular e na outra, uma garrafa de água; de repente todo

mundo no novo milênio tem que ter uma garrafa de água para si. Parece que há, de fato, menos

bebedouros públicos, costumava haver em todo lugar; essa era uma das grandes coisas nos Estados

Unidos: sempre se podia ter um gole de água grátis. Atrás da casa do seu avô, perto da cicuta gigante de

ramos caídos, passando por umas tábuas escorregadias, havia uma fonte aberta cercada de pedras

musgosas e uma concha de lata para qualquer um usar, mesmo alguém da rua que quisesse se aventurar

pela trilha de tijolos ao lado da casa. Estranhos podiam ser anjos, era a antiga superstição.

No caminho para a cozinha é preciso passar por uma mesa sobre a qual há um antigo telefone preto

de disco e ao lado dela, uma cadeira de bambu de encosto alto para o caso de a conversa ser tão

demorada e importante que Hope necessite sentar, conversas que são cada vez mais raras; e depois um corredor que passa por um pequeno saguão junto a uma escada estreita e íngreme de um lado e do outro, a

porta dos fundos e a porta contra tempestades. Do outro lado do vidro duplo — nove vidraças quinze por

vinte, embora não se alinhem exatamente — o mundo externo a chama, luminoso, ermo e ainda invernal,

pedaços de neve visíveis nos bosques como roupa espalhada, o gramado lateral sob o comedouro cinza

de sementes de girassol que os pássaros ou esquilos derramaram. A faia de cujo galho inferior pende o

comedouro parece, num relance que lampeja através de seus olhos até o cérebro ainda deslocado pelo

seu esforço de relembrar o passado, a fotografia de uma explosão prateada, monstruosa, multiforme, espalhando-se para os lados como uma estrutura de Richard Lippold, as estreitas folhinhas novas de

ponta branca da faia ainda rigidamente embainhadas mas adquirindo um bronzeado róseo e viçoso. E o

bosque atrás tem um tom castanho-avermelhado onde os bordos se aglomeram, um brilho escuro de terra

degelando apesar de não ter chegado ainda a estação de lama nesta parte de Vermont. A relva ainda

parece dura o bastante para se andar em cima. Hope a imagina rochosa e esmagando-se sob seus pés. Os

trechos de neve que pairam nas sombras das árvores parecem, ela o tem notado com frequência em suas

caminhadas, fumaça; e o mesmo se passa, estranhamente, com montanhas distantes e um lago, e até mesmo

uma casa azul vista através dos galhos: para o olho aberto de uma pintora o mundo é abundante em

ilusões de óptica. Outro dia, junto à janela da sala de jantar, ela ficou transfixada pelo que parecia ser um

pedaço de papel translúcido, papel-vegetal, preso no arbusto na beira do gramado e que tremulava na

brisa, e ela se perguntou que descarado teria jogado ali aquele lixo, para depois perceber que era um

esquilo cinzento, pendurado num broto de amieiro grosso o bastante para ocultar metade do corpo do

animalzinho, mas tão fino que não parava de balançar.

Esta é uma estação ardente. Se a moça fosse embora logo, Hope poderia passar uma hora lá fora

recolhendo gravetos — as faias e nogueiras os deixam cair incessantemente — para a fogueira de mato

que Jason Warren acenderia quando viesse neste sábado, se o vento não estivesse muito forte. Embora

seja um desses homens para quem as mulheres estão sempre atrapalhando, estranhos animais de duas

pernas que falam incessantemente, agora encontrados até mesmo nas encostas das montanhas, Hope gosta

de ficar ao seu lado, ajudando as labaredas com gravetos do jardim e galhos secos, sentindo o calor na

face, o suficiente para chamuscar suas sobrancelhas se estas não tivessem virado pequenos tufos séculos

atrás. Até chegar aos setenta ela fazia sozinha quase todo o trabalho do quintal; Zack, por mais que ela o

amaldiçoasse por isso, tinha lhe mostrado o que uma pessoa é capaz de fazer sozinha; tinham sido pobres

demais para pensar em contratar muitos trabalhadores ali nos Flats. Zack derrubou divisórias, substituiu

telhas e apoios da varanda, mudou o celeiro para o alto do morro, fora do centro de visão do brejo e da

distante faixa de água salgada que era, na verdade, um pequeno ancoradouro. Zack fez os vizinhos — Andy Silcox, Glenn Urquhart — o ajudarem a empurrar o celeiro sobre rodinhas, movendo quinze

centímetros cada vez que o alavancavam para cima, a menos que a inclinação aumentasse, e por fim

tiveram de recorrer a um pescador com um guincho e uma rede de arrasto na traseira do caminhão para

puxar a enorme coisa dilapidada e colocá-la sobre uma fundação de cimento que o próprio Zack tinha

assentado, distendendo o ombro no processo de espalhar o concreto que ia endurecendo. Os Flats haviam

sido para eles uma fronteira, embora marinheiros ingleses e seus descendentes de sangue viessem

cultivando as terras e pescando aqui desde 1640. Vizinho ajudava vizinho, e Zack retribuiu sua dívida de

trabalho, seja reconstruindo a varanda de Urquhart ou ajudando Silcox na colheita de batatas. “Era o fim

do mundo”, Hope diz em voz alta. “Eram só os elementos.”

“O que era?”, Kathryn pergunta atrás dela. Perto demais atrás dela, sente Hope, receosa de que lhe

pise o calcanhar das Birkenstocks e rasgue uma tira da sandália. É cada vez mais difícil achar

Birkenstocks para comprar, as verdadeiras, não as imitações que laceiam e ficam frouxas rapidamente.

“Os Flats. Desculpe. Eu estava pensando em voz alta. A gente faz isso quando vive sozinha. Aí está a cozinha, mas há um banheiro à esquerda, debaixo da escada, se você precisar.”

“Não, obrigada, Hope. Ainda não preciso.”

Hope, é isso, não é? Como esses jovens presumem — todas essas cartas que a gente recebe sem um

sra. na frente, Hope McCoy, como se não tivesse havido dois maridos desde então ou ela não tivesse

assinado sua obra com “H. Ouderkirk”. E ainda estava se pavoneando pelo seu controle superior da

bexiga. Ela realmente não devia deixá-los entrar, eles ocupam o seu dia e mandam você tonta para a

cama, e aí escrevem o que estavam determinados a escrever antes de vir. Alguns anos atrás ela se sentara com um rapaz simpático até perto da meia-noite, um professor de belas-artes em algum lugar do Meio

Oeste que estava escrevendo seu primeiro livro, uma expansão da sua tese, e quando o livro saiu tudo

que ela lhe dissera ficara reduzido a uma nota de rodapé contradizendo alguma outra pessoa. Mas já fazia

algum tempo desde a última vez que alguém lhe pedira uma entrevista, não só Zack estava sumindo do

que as pessoas no campo da arte falavam, mas também Guy, o que ela achava que jamais iria acontecer,

suas ideias eram tão joviais e alegres (gay no velho sentido em inglês), tão impudentes e frescas e

incansáveis, ele sozinho era um movimento artístico, até que carregar tudo nos ombros começou a lhe

pesar. Zack sentira o peso apenas por algum tempo e saíra de baixo dele. “Quando nos mudamos, logo

depois da guerra, a maioria das casas nos Flats ainda tinha o banheiro fora da casa. Quando tentávamos

chegar ao nosso naquele primeiro inverno terrível, quase éramos arrastados pelo vento, jogados contra

aquele enorme bordo prateado, e quando a gente estava lá dentro o vento uivava por baixo, era

assustador.”

Elas entram na cozinha e Hope fica preocupada que a moça pense que estivesse falando desta casa, que ela e Jerry compraram em outra época, outro casamento. Arrancaram — contrataram trabalhadores

para arrancar — o linóleo do piso, as pias baixas de pedra e uma velha geladeira que vazava para

colocar tudo novo, mas isso foi há uma geração, e a moda em fogões, pias, fornos e bancadas de cozinha

já havia mudado. Os armários suspensos, pintados com spray creme liso como um acabamento de carro,

exibem puxadores soltos e manchas de sujeira onde os dedos os tocam mais amiúde, e a fórmica marfim

na longa bancada sob os armários rachou onde a madeira por baixo cedeu e encolheu. As hastes pretas do

queimador que ela mais usa se desgastaram, e as grandes janelas Andersen que oferecem uma ampla vista

do velho pomar de maçãs subindo a encosta em direção ao norte não abrem e fecham mais com

facilidade, chuva e neve se infiltraram pelo revestimento e dilataram o caixilho. É uma cozinha arejada e

cara ficando velha e gasta. Apenas o tampo verde sinuoso acima da placa que sustenta os queimadores de

gás se revelou impenetrável ao tempo, seus veios preservando as ondulações e círculos e nódoas de mica

de um fluxo metamórfico fundido num momento inconcebivelmente remoto, há milhões e milhões de anos, tempo suficiente para a espécie humana ser extinta uma centena de vezes — rocha metamórfica mais

velha que as Montanhas Verdes sendo erodidas ao seu redor, mas neste momento fria e lisa ao toque

enquanto com a outra mão ela coloca a chaleira redonda com bico sobre as hastes gastas do seu

queimador favorito. Sua mão se estende grotescamente no espelho de alumínio da chaleira; sua face é um

ponto pálido distante com franjas brancas patéticas, um bocado de palha branca, esfumaçada, seca

demais para ser domada.

Hope liga o gás, segurando o botão apontando para o meio-dia até que o cliquezinho bastante

frenético acende uma chama azul que se reduz quando ela vira o botão para onde seriam onze horas. Ela

sente Kathryn examinando a cozinha, as superfícies descamadas e os cantos de bagunça, imaginando

aonde teria ido o dinheiro de Hope. Ela não vai lhe perguntar isso, mas Hope tem uma resposta pronta.

Ela guardou o dinheiro e o investiu conservadoramente para deixá-lo aos seus filhos, a maior parte para a

filha: dinheiro de consciência, mas ela não vai entrar nisso. Seu pai jogara o dinheiro do pai dele fora,

então ela tem orgulho de sua perspicácia e parcimônia. Ela reteve as pinturas de Zack até seu valor subir mais e mais; Guy era um astuto e diligente explorador do gordo mercado de arte nos anos 1960 e 1970; E

Jerry foi generoso, deixando-lhe a mesma parte de sua fortuna que deixou para cada um dos filhos da ex-

mulher, e pôs a casa de Vermont em seu nome desde o começo. A casa fora dela, assim como o fora a

busca pelo silêncio e a simplicidade do campo. Zack foi seu parceiro nessa busca por algum tempo; um

filho dos espaços do Oeste precisava de espaço para vagar, como vagara no primeiro verão, o verão de

1946, atordoado pelos brejos e dunas quando floresceram.

“O que eu adorava nos Flats”, ela conta a Kathryn, “era a luz, a maneira como a terra a aceitava, como se fosse a palma da mão na extremidade de um braço estendido. A sensação era de um fim de

mundo. Você esteve lá, é claro, como parte da sua pesquisa, mas não naquela época, logo depois da

guerra. Nada mudou durante tanto tempo. As terras cultivadas tinham aquele aspecto sem árvores, embora

a nossa terra tivesse nela o bordo prateado e uma árvore de aparência tropical com flores translúcidas

cor-de-rosa e brancas e folhas emplumadas que pareciam gafanhotos que, quando a gente as segurava,

queriam se fechar feito a página de um livro. Uma albízia, ou árvore-de-seda, embora as pessoas a

chamassem de mimosa. Um dos fazendeiros que tinha sido dono do lugar a plantara como ornamento. Ali,

naquele longínquo lugar em Long Island, quase não havia casas que não fossem de fazenda — uma igreja,

uma loja maçônica —, e os campos de batatas se estendiam para todo lado. A terra não cultivada era

arenosa e pantanosa, e aqui e ali grandes rochas extraviadas haviam sido deixadas pelo glaciar. Montauk

fora uma ilha até que o glaciar preencheu o vão com uma morena. De frente para o leste, como

estávamos, víamos uma faixa azul de água salgada — o porto de McGonicle —, uma faixa de terra mais

adiante e um imenso céu de vento. Água, ar, areia, o sol. Mas aposto que você gostaria que eu não falasse sem o seu gravador ligado.”

“Eu preferiria, apesar de a minha memória ser bastante boa. Ainda assim, é melhor ter as suas

palavras exatas.”

“Oh, querida, será que tem mesmo importância? Eu mal confio nas minhas palavras, sempre foi uma

falha minha dizer o que acho que as pessoas querem ouvir. E duvido que haja algo que eu possa dizer que

já não tenha dito algum dia em algum lugar. O que você gostaria no seu chá?”

“Meu chá? Ah, não, nada. Só chá puro, obrigada.”

Por que essa pergunta tão simples a teria surpreendido? A mente da entrevistadora estava em outro

lugar. Hope sente-se magoada com isso, essa falta de atenção quando ela está se colocando inteira,

fazendo chá, falando com tanta liberdade. No entanto, essa estranha deve ter uma vida, lá na cidade —

amigos homens, preocupações no emprego, aluguel para pagar, ou taxas de condomínio, o que é mais

provável nos dias de hoje. Quando Hope era jovem, era mais fácil, pagava-se por semana e se escondia do locador quando atrasava o aluguel. Ele ficava encalhado com você até certo ponto, o despejo era um

procedimento legal, então havia um jogo de cintura na situação. Kathryn está olhando ao redor,

decepcionada com a simplicidade — o calendário Redouté que qualquer um pode comprar numa

papelaria, os armários com os puxadores estragados, os utensílios vinte anos obsoletos, as lembranças

fotográficas desbotadas: fotos de férias e fotos oficiais escolares dos netos tiradas numa cabine com

cortina, uma por uma, e presas à porta da geladeira com pequenos imãs em forma de verduras. “Você

gostaria de ver o meu estúdio?”, Hope pergunta à entrevistadora.

“Oh, sim. Gostaria muito.” Contudo, o entusiasmo da moça carece do fervor que Hope julgava a

oferta merecer: a oficina da feiticeira, o cenário do milagre cotidiano.

As casas de fazenda no norte da Nova Inglaterra dão a sensação de trens, um vagão grudado no

outro para poupar o fazendeiro de vadear pela neve. Quando ela e Jerry compraram o lugar, um estábulo

de vacas não usado e caindo aos pedaços, este era ligado à cozinha por meio de um espaço de

armazenagem coberto, cheio de latas de leite de dez galões e outros equipamentos para a finada operação de leiteria; esse espaço comprido, de teto baixo, agora contém as ferramentas de jardinagem e consertos

que Hope foi gradualmente entregando à equipe semanal da prole de Warren. Mesmo os pequenos

utensílios para cuidar das flores — espátulas, rastelos de mão, forquetas de aspargos, aparadores de

mão, suportes de arame para peônias sempre incrivelmente emaranhados como quebra-cabeças chineses

— são tocados por ela menos do que ela pretendia; parece que tirar o corpo da cama e fazer sua hora

matinal no estúdio é tudo que ela consegue, embora nesta primavera ela tenha a firme intenção de fazer

um novo recomeço, mais enérgico. A porta embolorada dos fertilizantes do ano passado — Milorganite, Holly-Tone — e sacos de cobertura de casca de trigo sarraceno enchem esse espaço comprido, sem

aquecimento, com uma destilada essência de terra sob cultivo, o aroma de uma estação adiante mas ainda

fora de alcance. Passando por um banco com vasos de barro e bocais de mangueira manchados e um

amontoado de estacas verdes de jardim, ela conduz a moça da cidade, que se encolhe para evitar o

contato de seu belo traje preto com alguma sujeira, suas botas de bico quadrado sentindo o caminho ao

longo do piso de concreto rachado como se pisassem numa trilha de pedras, através da porta dupla

controlada eletronicamente do elegante estúdio que Jerry construíra para Hope, para o seu sexagésimo

aniversário, onde um dia o velho estábulo se aninhava lateralmente sobre suas vigas cansadas,

trepadeiras entrelaçadas com suas tábuas laterais, uma fileira de malvas-rosa, em pálidas cores estilo

Kate Greenaway, quase três metros de altura ao longo da face sul perdidos para a reconstrução. O alto

espaço quadrado está espessamente isolado e iluminado por uma claraboia-bolha de acrílico voltada

para o norte, transbordando nesta manhã um azul tão profundo que chega ao índigo, camada sobre camada

de átomos de pura ilusão. Zack nunca teve uma instalação tão perfeita, embora ao planejá-la Hope não pôde evitar reconstituir seu velho estúdio, fazendo-o melhor. Trilhos elevados sustentam acessórios

fluorescentes; ela aciona diversos interruptores num painel do lado de dentro, e um agudo brilho

artificial, após algumas oscilações e tremulações, intensifica a luz natural vinda do norte.

“Oh”, diz Kathryn. “Tão claro.”

“Para ver você melhor, minha querida.”

A visita de Hope, cuja postura poderia ser melhor — é como se ela, quando teve sua arrancada de

crescimento, tivesse se retraído e encurvado para não ficar muito mais alta que as colegas —, aproxima-

se da tela no cavalete central, ainda úmida com o trabalho daquela manhã, uma tela de um metro e oitenta

por um metro e cinquenta, de listras horizontais. Será que ela é míope? Observa com tanta intensidade,

tão de perto, que uma guinada lateral a faz esfregar-se contra a crosta da mesa atulhada de tubos

semiespremidos de tinta a óleo, potes de óleo para diluir e placas de vidro, placas comuns, vinte e cinco

por trinta, que Hope usa em vez de paletas de madeira. Assustada pelo contato, Kathryn dá um apressado passo para trás e, juntas, ela e Hope olham para ver se alguma tinta molhada estragou sua calça preta, seu

exótico tecido canelado. “Não estou vendo nada”, Hope a tranquiliza.

“Nem eu, não se preocupe.” Sem confiar nos olhos da mulher mais velha, ela inspeciona

independentemente, esfregando de modo espalhafatoso o local sem mancha nenhuma. Por fim, erguendo

os olhos, ela muda o foco: “A pintura é encantadora. Tão refinada”.

“Eu me perguntava, olhando neste instante para ela, se os dois tons de cinza estão suficientemente

próximos. Não queremos que as listras sejam a primeira coisa a se notar, não é para ser Op. Queremos

que elas sejam tão sutis que uma emerja da outra. Lentamente.”

“Como aqueles retângulos de Ad Reinhardt. Ele nos conduz para dentro da pintura, para ver que não

têm exatamente o mesmo tom de marrom purpúreo. Você também tem isso em Seamus O’Rourke: a

fugacidade, a sensação de quase-aí.”

Hope vacila com a observação falsa, a observação de estudante. Mas, e então, será que os próprios

pintores se saíam melhor ao verbalizarem? Essa era uma das belezas de Zack, sua recusa ou incapacidade de verbalizar. Os artistas deviam ter as línguas cortadas. “Essa era uma das ideias deles,

imagino”, ela diz taticamente. “Mergulhar o espectador, pintar numa escala tal que o observador cessa de

estar consciente das bordas da tela.”

“Você nunca entrou na escala maior”, Kathryn lhe diz, e indaga: “Isso tem algo a ver com o fato de

ser mulher?”

“Provavelmente. E também porque a teoria nunca me pareceu se sustentar direito. As telas enormes

de Bernie Nova, a gente tem consciência das bordas porque elas são tão enormes, tão distantes na parede. Você pensa no espaço em que ele deve tê-la feito e se admira sobre onde ela pode ser pendurada,

a não ser num museu. Com os murais da Renascença, o próprio edifício é a borda, e tudo se funde, flui

em alguma coisa não nitidamente distinta. Mas num museu, com as paredes brancas, o guarda parado no

canto... só em algumas das maiores de Zack, as três que ele fez em 1950, antes de seu talento se esgotar,

isso realmente acontece, nós nos perdemos na pintura, do jeito que ele disse que ele se perdeu. E mesmo

assim, nos deparamos com alguma coisa, uma abelha, a marca de um tênis, uma bituca de cigarro que

entrou na pintura, que nos faz lembrar o que estamos olhando, um grande pedaço de tela, com bordas.

Acho muito arriscado basear qualquer abordagem à pintura no que um espectador hipotético irá fazer ou

sentir. Tem que ser entre você e a tela, pergunta e resposta, empurra e puxa, e deixar o espectador entrar

do jeito que ele puder.”

Mesmo em meio ao cheiro resinoso, alcoólico de tinta fresca, Hope capta uma lufada do perfume de

Kathryn, um doce falso-floral finamente combinado a um aroma mais rude, a aura quimicamente

carregada de uma jovem fêmea. Na impiedosa luz uma pequena mancha vermelha, não exatamente uma espinha, arde ao lado da aba de uma narina do longo nariz encerado; um aplicador de blush impõe

pálidas sombras alaranjadas nas maçãs do rosto e uma tintura de hena transforma em ferrugem os negros

filamentos metálicos que brotam da sua testa. Sua face é longa, mas o cabelo começa baixo na fronte.

Hope imagina uma febre de desejo pressionando debaixo dessa fronte, dando-lhe sua textura irritadiça,

suas sombras de tensão; essa gente jovem sabe, ao contrário da geração dela, que por mais que se

conquiste, nunca será o bastante. O sexo azeda, a riqueza derrete, a fama é por quinze minutos. Os olhos

solenes de ameixas molhadas — rímel azul na pálpebra superior, um traço de kohl na inferior, os cílios

suficientemente longos para se curvarem para trás, mas quase certamente naturais, lampejam na direção

dos cantos da grande sala impiedosamente iluminada, onde outras telas cinzas de Hope, secas, com suas

leves intimações de uma beleza na fronteira de uma invisível calma, apoiam-se em outras, mais berrantes,

obras menores, não vendidas, de seus dois primeiros maridos, conservadas por passivo companheirismo

e como seguro para sua velhice, como se esta já não estivesse aí. Fotografias de si com outros em tempos distantes recuando até Ardmore nos anos 1920, certificados de graduação e comendas emoldurados

(Commandeur de l’ordre des Arts et des Lettres, Erster Preis Kuntsfest München), os hediondos troféus

de cristal e metal pintado que se ganham como sinais de reconhecimento e gratidão pública (o mais

deselegante deles tendo sido entregue timidamente pelo primeiro presidente Bush, um alto e pueril senhor

de Connecticut que parecia tão agradavelmente surpreso quanto ela de se encontrar na Casa Branca; no

almoço que se seguiu, sentado ao seu lado, ele indicou a Hope que admirasse as flores cotidianas, os

guardas da Marinha elegantemente fardados, o cerimonial esplêndido e imponente que os cercava por um

momento, duas crianças comportadas da evanescente hegemonia protestante): esses suvenires, ainda

ordenados na apressada arrumação de uma tarde quando o estúdio estava recém-construído, atraem a

atenção de Kathryn menos do que Hope esperava. Apenas as velhas fotos tentam a interlocutora a se

aproximar, o pescoço esticado para a frente daquela maneira indecorosa. “Como você era bonita.”

“Nunca me achei bonita, mas tentava ser divertida e não preguiçosa. Se você é educada como

quacre, o mundo parece extremamente excitante, como uma festa para a qual você não espera ser convidada. A festa do Diabo, se levarmos a sério esta minha velha declaração.”

Hope pensa que valia a pena dizer isso e lamenta que Kathryn não esteja com seu gravador ligado.

Mas, então, que tipo de captação é essa, palavras numa fita, palavras no papel, se ninguém escuta,

ninguém lê? Tudo é simplesmente despejado no escuro, o escuro que existe mesmo no meio da luz; a luz

em si é cega.

“Esta é a melhor”, Kathryn diz, sua atenção de volta à pintura no cavalete. A afirmação toma Hope

de surpresa; quem é essa moça para julgar?

Hope suspira com ar de autodesconsideração. “É muito parecida com as outras, embora existam

pequenas diferenças que eu posso sentir. Cada quadro é uma aventura, mesmo na minha idade.”

“Você precisa parar de pensar tanto na sua idade. Nunca penso na minha.”

“Na sua idade eu também não pensava.” É verdade? Hope duvida. Era parte do jeito antigo, o jeito

ainda traçado pela religião, ver-se num caminho, numa jornada da qual você podia ser chamada a

qualquer momento para prestar contas. Ela não consegue visualizar como esta jovem concebe sua própria

e única existência — como um tempo presente incontábil, um agora desenquadrado que lhe impõe

deveres, tais como esta entrevista, sem possibilidade de um fracasso drástico, duradouro? Hope conhece

bastante gente jovem, seus filhos e os filhos deles para começar, que jamais pensaria em ser gratos pela

existência; na melhor das hipóteses, ela pensa, para eles o universo é uma espécie de piada que provoca

um dar de ombros, um espirro cósmico que rapidamente se dissipa no nada original. O que há para

louvar? A quem culpar? Seu pai, Hope veio a sentir na infância, tinha um senso religioso de fracasso,

com sua bela casa de madeiramento falso e reboco e tijolos calcários, e seu escritório com vista para a Market Street de uma altura conveniente, e sua bela e enérgica esposa organizando sua vida social e

casas de veraneio, e sua vivaz filha de cabelo ruivo e seus dois filhos, ambos tendo herdado seus bons

ossos e fino cabelo claro e a calma pensativa, ligeiramente melancólica. Seus pios ancestrais, aqueles

fanáticos que se arriscaram à forca e ao exílio no seu zelo de despir o cristianismo para fazê-lo voltar à

sua essência incorrupta, faziam-no sentir-se um fracasso em seu status mundano, um rebento bem-educado

do sucesso de seus ancestrais mais imediatos em comércio, manufatura (uma fábrica de tapetes cujo vasto

ruído e movimento de teares e sensação de aprisionamento formaram uma das primeiras memórias de

Hope, uma visita ao avô pouco antes de a fábrica fechar sob pressão dos salários mais baixos no Sul) e

investimentos (ferrovias, carvão, cortiços). Para “alimentar” sua “face” — uma de suas frases prediletas

— década após década, alimentar as faces dos seus filhos, botar roupa nos seus corpos, prepará-los com

as credenciais educacionais necessárias para manter a participação na sua classe social e mediar, numa

época em que advogados também serviam como consultores financeiros, entre o velho dinheiro da Filadélfia e os riscos do mundo sempre novo que abrigou um colapso de mercado seguido de um

presidente democrata radical que ria dos privilégios, sempre ele próprio privilegiado; nada disso

parecia, pela luz interior que ardia debilmente dentro dele, suficiente. Ele não protestou muito quando sua

filha rebelou-se e caiu na loucura de Nova York.

Ela acha que Kathryn já viu o suficiente do estúdio. Era importante para Hope que seu estúdio desse

a sensação de segredo, uma extensão do seu cérebro inundado de um silêncio pensativo, uma

fluorescência limpa de traços de visitantes. “Onde está seu chá?”, ela pergunta.

“Oh! Esqueci e deixei na cozinha!”

“Não creio que você seja uma bebedora de chá. Não seja. Mancha os dentes. Você tem dentes

lindos. Deveria sorrir com mais frequência.”

De volta à cozinha, passando pelos sacos de fertilizantes e cascas de trigo sarraceno, Kathryn diz,

procurando algo amável para dizer: “Aqui é mais quente.”

“O estúdio esfria; ele tem um sistema separado, o aquecimento elétrico é extremamente caro, e reduzo para quinze graus quando acabo o dia de trabalho.”

“Estou ocupando muito do seu dia. Me dispense quando você precisar.”

“Mas só chegamos até 1946!”

“É verdade.” A moça vê num lampejo, com um pouco de pavor nos olhos, que a mulher mais velha

está disposta a mais. “Acho que vou sim aceitar sua oferta de usar o banheiro, antes de nós...”

“Voltarmos ao trabalho”, Hope termina a frase para ela. “Saindo no hall, vire à direita, debaixo da

escada, uma porta estreita à sua esquerda. Tivemos de espremê-lo ali.”

Momentaneamente só, Hope esvazia as canecas — a sua, quase vazia; a de Kathryn, quase cheia —

na pia. Aí deixa cair um jato de água quente da torneira em volta delas e as coloca viradas para baixo no

escorredor. Os bichos de estimação que ela e Jerry tinham morreram todos, mas mesmo essas canecas,

com seus papagaios pintados e listras vermelhas e verdes, têm essa qualidade das coisas de estimação,

de compartilhar sua existência doméstica mais íntima, de modo que você chegue em casa com uma

sensação de gratidão após se aventurar na sociedade humana. Elas lhe devolvem o seu eu depois que

outros o sujaram e estragaram. Ela para junto à porta dupla que leva ao pátio lateral, incomodada pelo

fato de as vidraças não estarem bem alinhadas, e sente que aquele comedouro balançando no arame,

aquela bétula cinzenta e o bosque ao fundo, com seu matiz vermelho e vãos esfumaçados de palidez, são

amigos cuja silenciosa confiança ela está traindo com seu falatório excessivamente ansioso para uma

intrusa. Ela anseia pela solidão como se fosse o Paraíso. O que foi que Freud disse que era a felicidade?

Liberação da tensão, da qual a liberação sexual era o modelo. Quão bizarra e inescrupulosa, realmente,

sua própria atividade sexual lhe parece vista da altitude dos anos.Comportamento de percevejo, a repulsiva complexidade de genitais e estratégias de insetos, estratégias nas quais a morte do indivíduo

está casualmente contida. Atiçar, morder, esguichar, morrer. Bernie, que apreciava a ideia de Nietzsche

de que a verdade é feia, costumava falar dessas coisas; seus pais certa vez lhe deram um microscópio, e

ele desenhava para Hope genitais de insetos, para ver se ela se desestimulava. Não adiantava. Que

embriaguez química deve ter sido para lhe permitir sempre ver genitais masculinos, especialmente

quando eretos e excitados — a veia azul, a cabeça cor de lavanda, a pele translúcida dolorosamente

esticada —, tão belos, tão belos que ela queria a coisa dentro de si, incorporada, possuída. Qual é a

irritação que percevejos fêmeas sentem para se submeter?

No toalete do hall ouve-se a descarga: Kathryn levantando-se do assento, tendo afagado sua oleosa

fenda escura com um pouco de papel. A água desse banheiro de baixo às vezes fica correndo, a tampa

balança sobre a articulação e falha em descer, de modo que a água corre sem preencher a caixa de louça,

e por isso a bolinha de cortiça não sobe e tapa o fluxo. Hope escuta aguardando a denunciadora mudança de tom no murmúrio da água que significa a tampa caindo e a vedação. Ela imagina tê-lo ouvido, por trás

do ruído de uma torneira aberta: Kathryn lavando as mãos. Será que Hope tirou uma toalha de mão

limpa? A outra mulher surge com aquele seu curioso andar de cautela, como se caminhasse sobre uma

trilha de pedras irregulares, um andar de louva-a-deus. Hope se pergunta se deveria seguir o exemplo da

mais jovem, mas prevê que o assento estará quente, uma intimidade inquietante e indesejada, e decide

que pode esperar. O chá vai querer sair em uma hora ou menos.

Forçando um meio-sorriso incerto — Hope lamenta ter dito algo sobre sorrir com mais frequência,

sua língua sempre a trai, tudo por sempre fazer força para agradar —, Kathryn volta com seu passo

cauteloso para a saleta da frente, para a cadeira xadrez do vovô Ouderkirk. Irritantemente a

entrevistadora espia o pequeno Sony cinzento, segurando-o diante do rosto como um míope, para checar

se a fita nova está rodando, e depois o recoloca sobre o velho baú, entre as cabeças dos pregos de

bronze. “Casamento na igreja”, ela incita.

Hope se refreia com essa ênfase renovada. “Como eu disse, em 1945 mal podíamos morar juntos numa comunidade rural como os Flats sem uma certidão de casamento. Não se podia fazer isso nem

mesmo em Hollywood, e é por isso que todas aquelas estrelas como Lana Turner e Sei-lá-o-nome dela —

aquela com olhos arroxeados — ficavam se casando. Os moradores já eram suficientemente desconfiados

de nós. Não podiam entender como Zack ganhava a vida. E, na verdade, ele mal ganhava: o acordo com

Peggy lhe pagava cento e cinquenta por mês, que era menos que os vinte e três dólares e oitenta e seis

centavos por semana que ele vinha ganhando do Federal Arts Project mais os sessenta por mês que meu

pai me mandava. Isso acabou, é claro, quando nos casamos. Quanto à parte da igreja, Zack tinha esses tocantes bolsões de convencionalismo. Talvez tenha pensado que ia me agradar. E de fato agradou. Pude

usar um dos meus chapéus.”

“Seu trabalho. Quanto você estava pintando na época?”

“Alguma coisa. No outono de 1944 eu tinha saído do Hochmann e trabalhava de garçonete num

restaurante italiano, o Eugenio’s, ao sul do parque. Nos fins de semana e à noite tentava pintar, mas uma

vez que Zack entrou na minha vida, não havia muito tempo para mim.”

“Ele era exigente?”

Hope suspira, sentindo que esse é um terreno instável. “Ele era o mais novo de cinco irmãos, e era

como uma criança no sentido que você tinha de prestar atenção nele a cada minuto; exceto quando estava

pintando, não tinha recursos internos. Mesmo quando não estava lá, era preciso ficar preocupada se ele

não ia ser morto, atropelado por um carro ou ter o pescoço quebrado por algum cara num bar com quem

tivesse puxado briga. Ele vivia arranjando brigas e sempre se dava mal. Era como a bebida; era pobre

naquilo. Minha teoria era que, sendo ele o caçula da ninhada, levar aquelas surras o faziam lembrar-se de casa. Quer dizer, ele provocava para se sentir em casa.”

“Ou talvez pensasse”, diz Kathryn, “que daquela vez venceria.”

Hope está suficientemente acostumada à subserviência de entrevistadores para ficar melindrada.

Será que essa moça acha que, por meio da sua pesquisa, conhece Zack melhor que sua esposa, que o

alçou das sarjetas do Village para a grandeza?

Kathryn percebe o enrijecimento de Hope e diz humildemente: “Aconteceu de fato com a pintura

dele. Ele venceu.”

“Aconteceu”, Hope admite. “Mas aí ele estragou tudo. Detestava o sucesso, o sucesso lhe parecia

de mau gosto. Fazia com que ele aparecesse demais, ele se sentia dolorosamente exposto, apesar de ter

achado que era isso que queria.”

“A sua pintura”, diz Kathryn, tentando fazer Hope ceder, “era abstrata nessa época, mais ou menos

na época que vocês se mudaram?”

“Eu vivia escorregando, tendo recaídas, você sabia? Fragmentos da cidade — faces do restaurante

em Little Italy, luzes de neon refletidas nos pavimentos molhados, as silhuetas do centro da cidade que se

viam subindo a East Ninth Street — viviam se forçando para dentro de mim, através do que Hochmann

chamava de ‘buracos’ na tela. Zack desdenhava. ‘Que merda figurativa é essa?’, ele perguntava. ‘Quem

você acha que é, Hopper?’ Ele me dizia, ‘Deixe que Levine e Ben Shahn façam as charges políticas’.

Jack Levine já era grande antes da guerra e nos anos 1940, e Zack desgostava dele de forma especial,

penso que porque ele sabia fazer todas aquelas coisas dos Velhos Mestres — desenhar anatomia,

trabalhar com sombras e luz — que Zack seria incapaz de fazer, mesmo se sua vida dependesse disso, e

muito menos compor um quadro pseudorrenascentista com equilíbrio de luz, como Benton.”

“Havia muita coisa que Zack não sabia fazer na sua opinião.”

Ela pensa que conhece Zack melhor e o ama mais.

“Mas havia algo”, diz Hope, “que ele sabia fazer, um tipo de emoção de impacto, uma espécie de

verdade estrangulada escavada daquela infância atribulada com aquela mãe esquisita, dominadora. Mesmo Alfred, no Modern, foi obrigado a ver isso, embora seu gosto fosse para os mais europeus entre

os americanos jovens — Roger, Onno — que sabiam falar francês e dar belas pinceladas. Em 1945, Barr

concordou com a aquisição de uma das confusas telas junguianas de Zack, aquela com o lobo que parece

uma vaca. Aqueles seiscentos dólares pagaram uma porção de artigos de construção no nosso primeiro

ano nos Flats.

“Fale-me dos Flats. Ali você foi feliz, pelo menos nos cinco primeiros anos, antes de Zack começar

a beber de novo.”

“Feliz. Deixe-me pensar. Nós éramos ocupados, o que vem dar mais ou menos no mesmo. O lugar

tinha sido deixado numa completa bagunça, totalmente atulhado de mobília pesada e roupas velhas, e o

Continuar: parte 4 de 11