Busca minha face

John Updike · Capítulo 2 de 2 · parte 5/11

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Busca minha face

“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto...

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

que os críticos desde então atribuíram aos seus anos sob, entre todos eles, influência de Benton. As

coisas que eu fazia, tentando ser livre, saíam como se eu tivesse queimado o jantar, então comecei a

seguir a orientação de Roger — a imitá-lo, suponho que se possa dizer — e fazer aquelas colagens

austeras, papel sobre papel, com alguns traços pretos em crayon Conté ou uma pincelada de caligrafia

japonesa. A mesma coisa, Kathryn — sei que você não veio até aqui para eu, ai, qual é a palavra, pulverizar obras que já receberam toneladas de críticas —, a coisa estranha em relação às telas

gotejadas de Zack é que, com toda a violência dos detalhes, os respingos, as poças gosmentas, o efeito

geral tem essa, essa quietude. Alguém, em algum lugar, talvez tenha sido Frank O’Hara, o velho e

engraçado Frank com seus poemas rabiscados em pedacinhos esquisitos de papel nos bolsos, chamou

Zack de nosso Ingres. Nosso Ingres. E isso me fazia pensar, na verdade me fazia chorar, anos depois de

ele morrer, quando o turbilhão que Zack sempre criava ao seu redor já tinha se acalmado. Havia aquela

paz, aquela calma e equilíbrio nas suas pinturas, e posso apenas pensar que era esse o estado de espírito

dele, lá fora no frio do celeiro, longe de mim, longe dos críticos metidos a espertos, longe das piranhas

ricas e estrangeiros manhosos que dirigiam as galerias, longe até mesmo da sua necessidade de beber:

ele ficava em paz, derramando uma imagem em cima da outra até precisar parar e esperar a tinta secar. E

há tanta inocência naquele homem dançando e se ajoelhando em volta do pedaço de tela no chão, uma

absorção tão doce no fazer, que eu quero abraçá-lo e pedir seu perdão por levá-lo aonde ele podia

enfrentar a beleza até domá-la e, ainda assim, ser incapaz de lhe mostrar como conseguir uma felicidade duradoura pelo simples fato de tê-lo feito.” A imagem de Zack pintando e a imagem dos dois, lado a lado,

outorgando nomes às suas telas como se fossem um grupo de bebês, afligem Hope de tal modo que ela

fica com um nó na garganta e precisa fazer uma pausa. Talvez a felicidade não possa ser duradoura.

Talvez a pepita de angústia e confusão dentro de Zack fosse impossível de dissolver. Contudo, a memória

dele, com sua carranca habitual — aquele destrambelhado vinco que adicionava uma pele extra entre as

sobrancelhas — e os velhos sapatos respingados de tinta, fazendo aquelas coisas lindas num estilo nunca

antes conhecido, para um público que quase nunca comprava, para um dono de galeria que vinha perdendo interesse nele, enquanto a fumaça de cigarro confundia seus olhos vesgos e o frio entorpecia

suas mãos, na mente de Hope parecia a imagem de uma vida perdida, uma vida bela que se apaga, como

seu corpo jovem na saleta manchada com o pó de carvão sendo apagado pelas longas horas de dança

suarenta.

Para resgatar Hope de sua pausa, Kathryn lhe diz: “Por que haveria de ser função sua mostrar a ele

como colher a felicidade? A felicidade de Zack era responsabilidade dele, seguramente”.

Hope limpa a garganta e sorri, lacrimosa, para agradecer à outra mulher por lhe devolver sua voz.

“Oh, sei que isso faz sentido, cada um é responsável por si, esta é a teoria agora, facilita sair de uma

relação, mas naquela época a esposa, mesmo uma esposa-criança como eu, já que eu era dez anos mais

nova, devia fazer tudo pelo marido, da mesma forma que as mulheres faziam tudo pelos filhos; se alguma

coisa desse errado com o filho, a culpa era sua, e Zack era muito dependente, realmente pior que uma

criança, pois você levava a culpa, mas não tinha a obediência, tinha a culpa e não o crédito. As mulheres

agora falam em assumir seu poder e têm todos esses empregos remunerados, mas naquele tempo a mulher era realmente considerada onipotente, sem nenhum salário, e se alguma coisa desse errado na sua

vizinhança, a culpa era toda sua. Quaisquer ressentimentos em relação à minha criação sempre os dirigi à

minha mãe, por exemplo, e não ao meu pai que, apesar de nos sustentar, era considerado perfeitamente

ineficiente, como um homem numa charge de Thurber”.

“Que ressentimentos você tinha em relação à sua criação?”

Como essa esguia intrusa sabe reagir rápido! “Oh”, Hope responde devagar, “não muitos. Nosso

conforto, suponho; eu pensava nele como que saído dos abrigos dos pobres. Nossa complacência, embora

eu não pulasse nenhuma refeição e me vestisse exatamente como as outras meninas de Shipley. Nossa

herança quacre me parecia bem sombria e sem cor; eu costumava ter devaneios de ser católica romana e

ter todos aqueles santos e estátuas pintados. Eu achava que meus dois irmãos recebiam toda a atenção

séria e esperava-se deles que fizessem algo sério, não como eu, de quem se esperava apenas que

arranjasse um homem que servisse. O tipo usual de ressentimentos que uma moça de boa família teria.”

Kathryn aceita a insinuação de Hope de que este é um beco sem saída, pelo menos por enquanto, e

muda de posição seu peso revestido de preto na ampla cadeira onde Isaac Ouderkirk costumava se sentar

e ler seu Evening Bulletin com lentes bifocais na ponta do nariz.

“Você e Zack alguma vez discutiram sobre ter filhos?” ela pergunta.

“Discutimos. Ele alegava ter bastante vontade.”

“Alegava ter?”

“Zack tinha seus entusiasmos, mas, com exceção da pintura, não se apegava a nada. Eu lhe disse que

não queria criar filhos com um homem tão instável.”

Na verdade ela dissera: “Não quero um doido para pai dos meus filhos”.

A expressão dele ficou estática. Os olhos se estreitaram num brilho magoado. “Quem disse que eu

sou doido?”

Sua pressão sobre ela para ter filhos tornou sua língua mais áspera do que pretendia, mas ela não

conseguiu pedir desculpas, pois acabaria cedendo. Zack tinha seu jeito insinuante bem como o destrutivo, a criança vitoriosa que se desenvolvera do bebê reclamão. Ele se insinuava em torno dela, e a polidez da

sua boa criação era uma fraqueza que usava contra ela. “No mínimo, a comissão de recrutamento”, ela

respondeu. “Você fez seu psiquiatra dizer que não poderia suportar a disciplina do Exército, e eles não

contestaram.”

Isto o magoou, e ela sabia. Ele mal conseguia falar. “Sua puta idiota, não foi tão simples assim.”

Hope tentou cobrir com palavras apressadas a mágoa que infligira: “Não dou a mínima para se você

serviu ou não, fui criada para ser pacifista, meu irmão acabou sendo morto porque não quis se esconder atrás dos Amigos, mas sei que você se importa, sim, de ficar encalhado em Nova York com um bando de

bichinhas ineptas durante toda a guerra. Não penso mal de você por causa disso, Zack, mas não quero um

bebê: o seu bebê, qualquer bebê. Nós somos artistas. Somos pobres. Você está à beira de uma coisa

grandiosa neste momento e não vai querer ficar trocando fraldas. Nem tenho certeza se você seria capaz

de trocar uma fralda.”

Isso era injusto. Em pequenas tarefas mecânicas Zack geralmente era especialista. E o seu

sentimento por crianças, pelos filhos dos seus irmãos e dos amigos, pois muitas pintoras procriam, sim,

era meigo e fácil de inflamar. Em encontros na praia ou festas ao ar livre onde crianças ignoradas se

reuniam ao fundo, Zack gravitava na direção delas, bamboleando, drinque na mão, como se no íntimo

ainda fosse uma delas, um tio indulgente digno de ser recriminado. Mas Hope o negara, nos termos mais

ásperos que conseguiu juntar, chamando-o de inepto para o serviço de pai em potencial. Seu desejo de

um filho chegara a ela como um desejo de fazê-la mãe, estupidamente atrelado às necessidades de uma

criança no momento em que ela buscava se recuperar como artista, como espírito independente. Quando foi isso, 1949? Embora ele viesse a ser produtivo por mais um ano, a estação ensolarada do casamento já

havia passado; a recusa dela ao seu desejo tão normal se interpôs a eles. Na memória de Hope ele tomou

essa recusa estreitando os olhos como uma criança que, tendo levado um tapa injusto de um pai ou mãe

cruel, finca o pé no chão, à espera de outro tapa, silenciosamente jurando vingança.

“Poderia tê-lo deixado mais estável”, Kathryn tem a presunção de lhe dizer.

“Ou talvez não. Aí seriam dois de nós sofrendo, sentados a noite toda sem saber onde ele estava ou

se tinha sido morto.”

“Mas isso foi no seu último período de bebida.”

“Ainda havia algumas noites.”

“Ele alguma vez foi violento? Alguma vez bateu em você?”

Hope tenta ser honesta. “Não até bem mais tarde, nos anos 1950, quando ele estava bloqueado no

trabalho. Era eu que ocasionalmente batia nele; ele conseguia ser tão frustrante, tão cabeça-dura e inatingível. Mas penso, agora gostaria de pensar, que nós dois entendíamos que eu era violenta porque o

amava e não aguentava vê-lo se destruir. Não bater em mim era um jeito de ele manter sua distância,

insistir na sua superioridade. Ou era assim que eu sentia. Lembre-se, eu tinha só vinte e sete, vinte e oito

anos, e ainda era muito romântica. Os psicólogos ainda falavam do masoquismo feminino em tom de

aprovação. Eu não me importaria de apanhar, se isto significasse contato real.”

“Você estava com vinte e oito em 1950, quando ele fez aquelas três telas enormes, tão diferentes

uma da outra. Penso nelas da mesma forma que as três últimas novelas de Henry James.”

Coturnos pretos de cano alto e, além disso, jamesiana. Talvez tê-la deixado vir aqui não tenha sido

inteiramente um erro, os jovens têm seus bolsões de conhecimento, sua surpreendente humanidade.

“Exceto”, diz Hope, “que James tinha sessenta e Zack nem mesmo quarenta. Você acha que ele sabia

que ia morrer? As pessoas me perguntam isso e eu nunca sei.”

“Penso”, declara Kathryn, como se o gravador agora fosse também para ela, ela e suas opiniões,

“que tinha removido as barreiras de segurança. Estava cortejando a morte. Mas isto não significa necessariamente que a morte dissesse Sim. Ele teve sorte, pode-se dizer, na sua falta de sorte.”

“Parece um modo frio de colocar as coisas.” Zack vivo, mesmo que tão inchado de álcool que os

olhos eram duas fendas fulvas, como um porquinho, estava apostando em um lado seu de fazer mais do

mesmo, uma vida longa o bastante para a redenção que mais uma obra-prima traz. Ele podia tirar aquilo

de dentro, tirar algo de dentro assim como concebera um meio de se desfazer da imagem, como não pintar

nada além da pintura. Suas mãos, ela se recorda, às vezes estavam surpreendentemente quentes, quentes

em torno da sua cintura e traseiro na cama. Embora pensasse em si mesmo com tendo sangue quente, um corpinho rechonchudo e ajeitado ansioso demais para agradar, Zack às vezes dava um pulo quando ela

encostava nele, reclamando que suas mãos estavam frias.

“Como podem estar frias?”, Hope indagava, magoada.

“Circulação”, explicava ele. “As mulheres têm coração menor que os homens. O sangue não chega

às extremidades.” Zack tão raramente se dispunha a explicar qualquer coisa, que lhe deu prazer ouvir seu

senso mecânico, prático, aplicado a eles mesmos, em quem ela pensava principalmente em nebulosos

termos espirituais. Zack via ambos como exemplos diretos de encanamentos flexíveis.

Kathryn está sorrindo para ela, buscando uma concessão. “Acontece que eu tenho vinte e sete”, ela

diz à mulher mais velha. “Isso me torna romântica?”

Hope sente um rubor aquecer sua face. “Mais do que você se dá conta, talvez. O romantismo não é

uma função da mente, mas do sangue; é a febre pela qual a Natureza faz seu trabalho.”

Como antes, quando Hope amolece o tom para ela, Kathryn endurece. “Você via alguma contradição

entre o amor que diz que sentia por Zack e a sua recusa em ter um filho dele?”

“Bem, é claro. Mas eu estava convicta de estar certa. Para o bem dele e o meu, idem. Ele era a

criança, queria o que queria quando queria. Zack tinha pouca capacidade de reflexão: de imaginar, por

assim dizer, além das bordas da tela. Como eu disse, aquele alemão ficou chocado quando viu como Zack

hesitava ou pensava pouco no que estava fazendo. Ele não conseguia entender como uma cabeça daquelas

funcionava. Nem eu, para ser honesta. Se Zack tivesse tido uma mentalidade normal, não teria conseguido

fazer o que fez. Teria tentado pensar para resolver as pinturas, como Roger e Bernie. Até mesmo Onno,

com todas suas pinceladas selvagens e dérèglement surrealista, pensava, era prudente. Só Phil e Seamus

tinham a temeridade de Zack, seu estilo de se ligar, de apostar toda sua alma. E ambos morreram jovens,

ambos beberam até morrer; no caso de Seamus, ajudado por pílulas. Ele estava sempre tentando alguma

dieta. E olhe seus quadros: a tinta vai ficando mais e mais fina, até ficar aguada, um fantasma de tinta.

Diziam que eles bebiam para alimentar suas visões, mas acho que era porque sabiam que não

aguentariam, a intensidade, o pintar sem nenhuma razão, nada em que se apegar a não ser suas próprias mãos à sua frente, movendo-se.”

Kathryn ergue o queixo, seus olhos opacos protuberantes faíscam como os de um predador farejante.

Ela quer que o espírito analítico de Hope continue se expandindo, mas o esforço já constrangeu a mulher

mais velha com sua falta de modéstia. Quem é ela para falar em nome desses homens mortos, só porque

sobreviveu a eles?

“Você não queria ter filhos com Zack, no entanto com Guy...”

“Guy era são”, rebate Hope. “Era excepcionalmente equilibrado. A Pop Art tratava de sanidade, de

modéstia, de aceitar o mundo como era, bandeiras, lixo, anúncios e hambúrgueres melequentos, e não de

tentar alçar algo impossivelmente portentoso para fora do pobre e nebuloso eu. Guy era frescor, era

irresistível; ele me fazia rir, e fazia nossos filhos rir, quando prestava alguma atenção neles. E no começo

prestava. Ele os adorava.

“Antes de falarmos de Guy...”

“Não vamos falar dele. Ele ainda está vivo.”

“Mas tem Alzheimer.”

“Eu sei. Mas nossos filhos não têm. Não quero vê-los magoados pela sua velha mãe tagarela.”

Kathryn baixa o olhar, recompondo-se. Suas narinas são sugadas para dentro, sua comprida mão

branca de unhas escuras se estende, como que tentando alcançar o gravador, depois se recolhe para o

longo colo preto.

“Será que entendi direito quando você disse que o fato de Zack ter sido desqualificado para o

serviço militar criou ou salientou suas dúvidas sobre sua própria sexualidade?”

“Não creio ter dito isso, mas outros disseram. Sua pintura à parte, você deve perceber, Zack não

tinha autocrítica. Se ele teve algumas experiências homossexuais, possivelmente estava bêbado demais

na hora para lembrar-se delas. Qualquer boca é boca, ele deve ter pensado. Ter sido dispensado do

Exército por incapacidade o incomodava menos do que achei que devia incomodar. Ele estava além, ou

abaixo, da política; se Hitler e os japoneses tivessem tomado o país, não tenho certeza de que ele teria

percebido. Seu pai havia sido um daqueles tipos de sindicalistas de esquerda, e penso que isso chegou a

Zack como um brando desdém pelo sistema, antes de ser chamado assim. Quando tratava com o Projeto

Federal de Artes, pegava o que lhe ofereciam e dava em troca o mínimo possível. Nunca assinou

comprometendo-se com um projeto de mural, embora seu irmão tivesse, sim, trabalhado naquele que foi

restaurado no Terminal Aéreo da Marinha. A coisa principal que Zack tirou dos mexicanos foi a escala e

os símbolos arcaicos.”

“Não é bem isso que eu quis dizer. Tenho visto algumas entrevistas e declarações de homens em

Nova York que afirmaram ter tido contato sexual com Zack durante a guerra e que ele teria participado de orgias só de homens.”

“Bem, realmente. Que tétrico.” Hope percebe-se repelida por essa mulher e suas perguntas, tão

comuns, tão fomentadoras de escândalo. E detesta ter sido conduzida para a armadilha de um tópico no

qual precisa duvidar de sua própria sinceridade. “Você está me perguntando”, ela diz a Kathryn, “o

quanto Zack era bicha. Como eu já disse, ele era tímido sexualmente, mas não havia nada de bicha”, ela

enrubesce, que maldição, “em sua abordagem comigo, era um homem americano da sua geração, bastante

puritano. Uma vez, quando ainda estávamos em Nova York, ele me pediu para eu me masturbar para ele,

de modo que pudesse assistir, e depois de um ou dois minutos estava tão envergonhado que parou de

olhar.” Se o assunto é esse, ela vai esbofeteá-la com o assunto, puni-la friamente com ele. “Tínhamos

sexo certinho, bem frequentemente naqueles primeiros anos na Ilha, depois com menos frequência por

volta de 1949, e nos últimos anos, quando ele estava se encontrando com aquela patética tiete, quase

nada. Éramos como animais enjaulados um com o outro, só garras e dentes. Mas no mesmo dia em que morreu, mandou um telegrama afetuoso para o meu hotel em Veneza. O telegrama dizia: ‘Sinto sua falta’.

E assinou, ‘Sem esperança’.”[4]

“Onde está esse telegrama? Eu adoraria vê-lo.”

“Ah, céus, já se foi faz tempo. Acho que nem o trouxe para casa, porque no dia seguinte recebi o

telegrama dizendo que ele estava morto.”

Essa é uma mentira descarada. Os dois telegramas estão lá em cima numa gaveta de aço, num

arquivo, junto com resenhas guardadas de velhas exposições suas e de Zack e de Guy, e corajosas cartas

de preocupação da sua família quando ela era uma jovem em tempo de guerra em Nova York, e os

recortes do Public Ledger cobrindo sua estreia em 1939, e até mesmo o livro do ano de Shipley assinado

“Um montão de sorte” pelas garotas que conhecia. Por que ela deveria ir remexer as coisas para que essa

intrusa de mentalidade estreita os visse, os tocasse, esses telegramas antigos — tiras de teletipos coladas

em papel amarelo amarrotado, o mais barato possível, feito para durar um dia — que um dia tiveram a

força de deixá-la sem ar? O segundo fora um golpe ao qual ela pensou não poder sobreviver. O primeiro, Zack tinha mandado apenas para agradá-la. Seu coração ficara leve com a abertura dele, seu tímido

trocadilho, depois voltou a pesar exausto por saber que seu retorno para ele significaria o terrível e

encharcado fardo da vida dele apoiado na dela, uma vida da qual ele perdera a capacidade de levar,

piedade e cautela brigando dentro dela ali, no seu quarto que dava de frente ao Danieli, o Grande Canal

defronte à sua janela tomado de vaporetti e cargueiros e alguns veleiros além de San Giorgio Maggiore

reluzindo o brilho do mar, e as hordas de turistas, americanos e alemães já indistinguíveis, em 1955,

prósperos, brandos, loiros, os derrotados fazendo uma imitação perfeita dos vencedores, arrastando-se em seus tours ao longo da ampla calçada para a obrigatória espiada na ponte dos Suspiros, tentando

imaginar as paixões de prisioneiros condenados e agrilhoados.

Do lado de fora das janelas de vidraças finas não se veem pássaros, um silêncio torna espesso o ar.

Os pequenos retalhos de nuvens ganharam fundos achatados azul-chumbo e copas brancas em forma de

couve-flor. Hope se pergunta se dar o almoço a essa moça encerraria a entrevista, que está se tornando

cada vez mais invasiva. É estranho como, nestes tempos destituídos de vergonha, uma brecha na

privacidade dá ao invasor mais e mais direitos, como se um arrombador começasse a mudar de forma

barulhenta a mobília de lugar, ridicularizando a decoração: ter de defender como normal seu sexo com

Zack e descrever a si mesma nua, só coberta de graxa e pó de carvão. Ou isto fora ideia sua, trazer o

episódio à tona, sentindo novamente a lufada de ar em seu abdome exposto naquele baile superquente

durante a guerra? Ruk a julgara exibicionista, citando a descuidada presteza com que ela despira o

modelo, sua “Pocahontas quacre”, e Bernie, no seu dormitório rural que cheirava a madeira recém-

cortada, gracejava com ela chamando-a de sua Renoir ruiva. Desde então ela ganhara alguns quilos, chegando aos trinta anos, bebendo para fazer companhia a Zack, para abafar sua miséria de casada.

“Kathryn, posso lhe oferecer um pequeno almoço? Não sei bem o que tenho: peru defumado em

fatias para um sanduíche, ou uma lata de atum que eu poderia usar numa salada. Você deve estar faminta,

eu estou.”

Num arroubo de autopromoção, a moça diz:

“Oh, quando estou interessada no que estou fazendo, esqueço totalmente de comer. E aí, por volta

das quatro, estranho por que me sinto tonta. Mas você acorda cedo, e...”

É velha e frágil, ela não diz, e tem tão poucos prazeres além da comida. Comida e reminiscências.

O que é que vivemos tentando recuperar no nosso passado, que maravilha deslocada caminha sob a nossa

pressa de viver os dias, os dias que, uma vez passados, adquirem a majestade do testemunho eterno —

estive lá, fiz isso, os tempos eram assim, eu era linda e prenhe do meu potencial, meu belo futuro?

“Eu estou bem”, Hope garante bruscamente a Kathryn. “Vamos até o fim desta fita. Fará bem para as nossas silhuetas. Pergunte-me o pior.”

“A ‘tiete’. Você alguma vez leu as memórias dela? É melhor do que se poderia esperar e mostra uma

imagem de Zack bastante diferente da que você está apresentando. Inteligente, até mesmo suave, um

homem do mundo, não só do mundo da arte.”

“Inteligente, tão inteligente que a teria matado se ela não tivesse sido jogada fora do conversível

quando ele bateu nas árvores. A amiga que ela levava junto não teve tanta sorte, ficou debaixo do carro

quando ele capotou. Zack voou direto em frente num tronco de carvalho, como uma bala de canhão

humana. O caixão estava fechado no funeral porque a cabeça dele estava uma porcaria.” A palavra

“porcaria” prende sua língua, tem o sabor e o ardido de algo perdido, uma palavra que Zack gostava,

usando-a para se referir a alguma pintura em que sua tentativa de pintar por cima e desfigurar a imagem

havia ido longe demais, a ponto de ele raspar partes com uma lâmina para deixar a vida voltar. “Não, não

li o livro da tiete. Só podia ser em causa própria e semianalfabeto.”

Kathryn parece espantada; o tom de Hope é novo para ela, e seus termos estão fora do vocabulário crítico sem julgamento ao qual está acostumada. Como que tentando melhorar sua audição, ela ajeita

levemente os longos fios pretos de cabelo sobre a orelha e cuidadosamente responde: “Poderia não ser

inteiramente doloroso, se você se propusesse a ler. Ela escreve que, depois que você lhe deu o ultimato e

foi embora para a Europa, ela se mudou na esperança de assumir o controle, mas depois da primeira

semana vivendo na casa, a maior parte do tempo vestindo roupa de baixo — aquele verão foi

especialmente quente, evidentemente —, ele se tornou incontrolável. Não comia as elaboradas refeições

que ela preparava, não a defendia quando os seus velhos amigos a censuravam, ele bebia uma caixa de cerveja por dia. E não faziam amor. Quando ele olhava para ela, só via você, ela escreve. Tinha dito para

a amiga que morreu debaixo do carro que nunca daria certo, mesmo ele sendo tudo que ela sempre quis,

um grande artista. O livro dela mantém esse tom enlevado, mas ela admite que não pode imaginar como

teria sido se tivessem ficado juntos. Você ainda estava demais na cabeça dele.”

“Como eu disse, ‘patético’”, Hope diz, seu próprio tom sem a menor compaixão.

Kathryn realmente devia parar de alimentar esse papo rançoso, um papo possivelmente delicioso

para fomentadores de escândalos e amantes da arte, mas, depois de quase cinquenta anos, muito sem

gosto. Zack reencenara com — qual era o nome dela? Um nome de garoto — Meredith, durante duas

semanas, a rudimentar insensibilidade que ela suportara por dez anos. Muito antes de Zack se agitar para

encontrar outra mulher, ou ela encontrá-lo no antro de celebridades que o Cedar Tavern se tornara, Hope

já se dera conta de que o casamento estava arruinado. Enquanto ele estava pintando, gesticulando com

suas tintas industriais diluídas acima de grandes retângulos de tela que aceitavam espirais de alumínio,

lavanda, marrom e branco, para se tornarem clarões de movimento, átomos, respiração, a profundidade salpicada do próprio ar; enquanto suas exposições anuais na galeria de Peggy, e aí na de Betty, depois

que Betty, apesar de ir contra seu próprio bom julgamento, assumira o péssimo arranjo com Zack quando

Peggy abriu as asas e foi para a Europa, eram fielmente listadas nas revistas de arte como entre as

melhores do ano; enquanto houvesse algumas vendas e seu nome penetrasse no murmúrio da publicidade

nacional como um ungido; enquanto efetivamente houvesse trabalho a ser feito como apenas ele em toda a

história da arte era capaz de fazer, a aturdida ganância do seu egocentrismo podia ser suportada, e ela

podia se imaginar como parceira e acreditar que a dádiva diária de si mesma era, em alguma dourada

contabilidade celestial, levada em conta. Mas quando, na esteira daquele filme do ditador alemão, Zack

começou a beber de novo seriamente, e ela retomou, naquele quartinho mal iluminado no andar superior,

sua própria pintura, seu único caminho para um futuro ordenado, então a verdadeira face do casamento se

revelou e deixou-a aterrorizada. Um dia, no meio da manhã, naquela hora do dia em que, novos na Ilha,

estariam se curvando e mexendo no jardim, que era agora um negligenciado remendo de ervas daninhas, com a cerca tombada e o portão construído por Zack meio podre e que não mais se abria, ele subiu as

escadas, os pés pesados, entrou no estúdio e olhou a tela úmida no cavalete e as outras amontoadas,

secando e endurecendo contra as paredes, e disse, por fim, a língua grossa: “Nada mau. Nada ótimo, mas

nada mau”.

Sua voz saiu mais irritada, com mais agressividade do que ela queria. Ela estava em seu próprio

terreno, por mais estreito que fosse. “Pelo menos estou fazendo uma tentativa. Não estou me escondendo

atrás da bebida nem bagunçando por aí num velho Olds, incomodando os amigos. Os poucos amigos que

restaram.” O Ford tinha sido substituído por uma grande barcaça branca de segunda mão, um Oldsmobile

conversível atrás de cujo volante Zack se tornara um risco ainda maior para si e para os outros.

“De que porra você está falando?” Ele genuinamente parecia não saber.

“De você, Zack. Estou falando de você.”

“Esses ditos amigos dizem que eu os estou incomodando?”

“Não precisam dizer. Basta olhar a cara deles quando você entra cambaleando. Olhe como as pessoas nas festas vão para o outro lado da sala para te evitar, porque você está sempre querendo

arranjar briga.”

Seus olhos baixaram envergonhados. “Fodam-se todos. Quem são essas pessoas?”

“Roger. Onno. Bernie. Bernie me disse que tenta suportar você em consideração a mim. Até mesmo

Clem, que era o seu maior incentivador não muito tempo atrás e acha que fez o seu nome e deu a você a

teoria que você precisava para funcionar, até mesmo Clem te evita.”

“Ele me ferrou na última crítica.”

“Ele está preocupado com você. Quer que você volte a trabalhar. Trabalho sério.” Havia um odor

de perigo pesado na sua presença próxima; ela ouvia sua respiração — úmida, ofegante por causa das

escadas — bem perto atrás de si enquanto tentava aplicar uma longa e suave pincelada de alizarina

carmim para equilibrar uma mancha vermelha na parte superior do quadro, como um sol ardendo através

de uma neblina marítima. Ela queria uma tela selvagem, cheia de empurra-e-puxa, mas estava saindo

silenciosa, enevoada, composta por um rigor e cuidado que ela não conseguia evitar.

“Clem é um merda. Fui eu que fiz ele, não foi ele que me fez. Roger é uma bicha. Pelo menos,

graças a Deus, você parou de imitá-lo, todo aquele branco neutro e portal de vida e aquela merda toda.”

Isso tinha, com seu humor grosseiro, um disfarçado toque de reconciliação. Hope aproveitou o

instante de remissão na desajeitada pressão de Zack para tentar avaliar se o traço de carmim fazia o resto

da tela brotar para a vida que Hochmann acreditava surgir da tensão entre as cores.

Zack viu para onde foram os olhos de Hope, afastando-se dele, e ressentiu-se. “Isso aí fede, você

precisa saber”, ele disse. “Fede a paisagem. Aí está a porra do sol, espiando através da porra das nuvens cinzentas. Olhe aqui a porra da nossa casa, aí o celeiro, a porra dessas ondulações devem ser as nossas

árvores.” Ao fazer o gesto, seus dedos arranharam a tinta molhada, e ele enxugou a mão no guarda-pó

dela. O guarda-pó já estava coberto de tinta, mas mesmo assim ela ficou furiosa.

“Não me toque, seu bebum estúpido. E não meta os dedos na minha pintura. Você não sabe o que

está fazendo.”

O vinco entre suas sobrancelhas se aprofundou. “Eu sou um bebum e você é uma boceta”, ele

explicou com altiva calma alcoólica. “Bocetas não pintam. Há potes e pincéis, potes não pintam. Não se

ressaltam. Varas e pincéis pintam. Olhe.” Com a ponta cega de um pincel pousado sobre o cavalete, ele

atacou a tinta molhada, fazendo um dos seus desleixados hieróglifos.

“Zack, eu te disse para não tocar a minha maldita tela.”

“Estou dando algum valor a ela. Aqui, vou assinar o pedaço que eu fiz. O pedaço sem preço. Isso

vai fazê-la valer um milhão algum dia.” Ele se curvou, resfolegando pelo nariz, para rabiscar sua assinatura com o lado errado do pincel por cima da pincelada molhada de alizarina carmim. Ela nunca

gostara da assinatura dele, parecia-lhe semianalfabeta. Ela afastou a cabeça dele com uma pancada, de

modo que uma porção de tinta se soltou da manga do guarda-pó e grudou na parte da frente do seu crânio

calvo. O cotovelo dela doeu e deve tê-lo machucado, pois seus olhos lacrimejaram e se estreitaram até

sua cor morena desaparecer. Ele disse, ainda se empenhando no meio do atordoamento em ser seu

professor: “Sua pentelha petulante, o maior pintor do mundo está lhe dando um conselho. Pare com isso.

O que você faz é lixo. Lixo pseudofigurativo. Você nunca conseguiu nada, Hope. O seu herói Hochmann

era um chucrute fajuto que também nunca conseguiu nada. Ele era capaz de falar até sair pelo cu, mas não

tinha colhões de ser um pintor de verdade. Você é como ele, tentando bolar a porra de um jeito de estar

por dentro.”

“Me deixe em paz, Zack. Me deixe pintar uma hora por dia e o resto do tempo serei sua escrava

idiota. Só uma hora, é tudo que peço. Estou encalhada com você aqui neste fim de mundo sem ninguém,

fora os vagabundos que você encontra para te fazer companhia no Lemon Drop — você ofendeu todo o resto das pessoas, nós nunca somos convidados para nada, na casa de Onno e Bernie a sala emudece

quando você entra tropeçando.”

Ela se atinha a este aspecto das coisas porque lhe doía pensar que era verdade; apesar de tudo ele

se imaginava encantador, o irmãozinho caçula, o xodó da mamãe, e ele se atinha à pintura dela porque

sabia que era o jeito de machucá-la, mexer na sua ferida aberta. Ele tinha um pensamento: machucar,

atacar; era como um dos percevejos que punha na sua pintura junto com as gotas: a tinta endurecia e o

corpo peludo e seco do inseto ficava ali para sempre, mumificado. “Sua pobre boceta, tentando achar que está por dentro das coisas. Pare de pensar. Pare de ficar aí parada. Nada vai acontecer. Vá lá para baixo,

porra, e faça uma faxina, a casa está parecendo um chiqueiro. A minha mãe, da última vez que esteve

aqui...”

“A sua mãe, não me venha com ela para cima de mim, ela cuidava da casa e era tudo que ela fazia,

era um delírio, ela achava que se fizesse toalhinhas de crochê, todos seriam respeitáveis, mas vocês não

eram respeitáveis, eram um bando de refugos indisciplinados sem pai que saíram de casa assim que

puderam; a única coisa de que ela gostava era a aparência de respeitabilidade, de ser um tiquinho acima

do que ela realmente era.”

“Minha mãe foi uma mulher supercorajosa. Ela nos manteve alimentados e vestidos com a grana que

o meu pai mandava e mantinha uma casa muito legal. Outras crianças queriam vir comigo para casa,

nossa casa era muito bacana. Ela lhes dava biscoitinhos que ela mesma assava. Ela não morava numa

mansão na Main Line cheia de criados, fazia tudo sozinha. O que você não consegue meter nessa sua

cabecinha dura é que nós não temos criados, nós somos os criados.”

“Eu sou a criada, você quer dizer. Eu é que cozinho tudo, limpo tudo, faço a cama, corto a grama,

pois você desistiu e não faz nada a não ser encher a cara; se a casa parece um chiqueiro é porque há um

porco morando nela: você. Um porco bêbado como um gambá. Não é de admirar que os nossos amigos

nos detestem. Nossos ex-amigos. Seus colegas. Eles têm pena de nós, Zack.”

“Eu sou o maior pintor do mundo e eles sabem disso. O jornal italiano disse que eu fiz Picasso

parecer um pintor do passado, como foi que disseram? Povero Picasso — pobre Picasso? Escute aqui,

sua pobre boceta presunçosa. A minha mãe é seis vezes a mulher que você jamais será.” A fúria

momentaneamente queimara a névoa do seu cérebro, mas agora ele estava novamente tropeçando e

cambaleando.

“Saia desta sala, por favor”, Hope disse. “Este é o meu pequeno povero estúdio, é escuro e

pequeno, mas é meu, o único lugar por aqui onde posso achar um pouco de paz e respeito próprio.”

Zack ficou ali parado, um percevejo preso na tinta, a face intrigada buscando alguma destilação, alguma moral que a menção à sua mãe o lembrara e que jazia na base de toda circunstância. “O lugar da

mulher”, ele se saiu com essa, “é atrás da vassoura ou deitada de costas.” Soava como algo que ele tinha

ouvido no Lemon Drop.

“Ah, é?”, disse Hope. “É assim que você me quer? Deitada de costas? Vamos lá, garotão, já faz

séculos. Só me dê um minuto para limpar os pincéis e enfiar o meu diafragma.”

“OK, tudo bem!”

“Zack, será que você não enxerga que você nem consegue foder mais? Precisa buscar ajuda.”

“O sentido de foder é ter filhos”, ele disse.

“Ah, isso aí outra vez. Como se você estivesse em condição de ser pai. O sentido de foder é ter

saúde, saúde psicológica e emocional.”

“Então é isso?”, ele zombou. “Vá se ferrar, Hope. Você não é minha analista.” Mas ela tinha

conseguido mandá-lo embora; ele estava virando as costas. “Vá foder outra pessoa.”

Em breve estariam num ponto sem volta. “Não, Zack. Espere. Você não está querendo dizer isso. Eu não queria dizer metade das coisas que disse, só fico tão frustrada porque eu amo você.”

“É como eu disse, vá foder outra pessoa. Larga do meu pé.”

Meio virado para o outro lado, ele se voltou para encará-la, dar a ela sua cara inchada e com uma

mancha de tinta alizarina vermelha onde o cotovelo dela atingira sua testa alta, mas sempre sua, aquelas

três covinhas, os anéis de músculos ainda dando uma impressão amigável de recurso masculino. “Larga a

porra do meu pé”, repetiu, imóvel, e tentou focalizá-la mas fracassou, e a excitação do amor, o impulso

urgente de reconciliação, morreu dentro dela com o que viu: ele não se importava. Não se importava absolutamente nada com ela. Ela se tornara um mero ruído no seu ouvido, um obstáculo para sua visão;

importava-se apenas com a busca no fundo de seu cérebro, a busca no celeiro, onde atualmente não

estava encontrando nada. Ele costumava ficar sentado contemplando as telas em progresso durante horas,

mas então agia, adicionava tinta. Agora não fazia nada. No seu cérebro alcoólico ferido ele estava

travado, e ela não era auxílio algum, não era nada para ele, era uma figura numa névoa tão espessa que

podia estar ali ou não estar; se ele sentia algo por ela era ódio, porque ela reivindicava como uma mosca

zumbindo reivindica, ocupada em pousar no seu pulso ou nos seus lábios e criar uma comichão

insuportável; ele necessitava de silêncio e quietude, só se importava com a arte, o fogo no fundo da

caverna, e o resto do mundo era ilusão, uma distração incômoda, ele a espantaria como aquela mosca e

nem sequer notaria que ela se foi com sua pesada dedicação a alguma outra coisa, um sacrifício de tudo

que fosse ordeiro e decente e cotidiano no mundo da lúgubre, obsessiva labareda de sua arte, sua arte

estúpida e egoísta. Em seu entrave, ele ultimamente revertera algumas pinturas em preto e branco em

imagens, faces e figuras, garatujas que deixavam claro o que as pinturas gotejadas haviam deslumbrantemente ocultado: ele não sabia desenhar. A face que ela sempre julgara linda com seu cenho

intrigado e atentos olhos fulvos lhe dava agora a impressão de uma parede, um vazio ingrato no qual ela

jogara sua jovem vida e a desperdiçara. Mesmo agora, a lembrança da revelação põe um gosto cáustico

na sua boca, o gosto de água de torneira que viajou milhas e mais milhas através de canos enferrujados.

Hope diz a Kathryn: “Suponho que deveria me dar prazer saber que ele tratou Meredith do mesmo

jeito miserável que me tratou, mas ela o teve, a pobre coitada, só quando ele já estava longe, ela nunca

conheceu o Zack sóbrio, o Zack que trabalhava duro e adorava o ar livre, o Zack que era sempre tão

meigo com as crianças. Na praia ele costumava puxá-las para o lado e construía torres de pedras

redondas; aquele alemão tirou fotos dessas torres, como se também fossem obras de arte. Estou me

repetindo?”. Ela sorri para ocultar o sabor na boca, um sabor de pesar e derrota. “E talvez fossem algum

tipo de Tanguy. Há momentos, Kathryn, em que todo esse negócio de arte, que tem sido a minha vida, é

claro, parece terrivelmente transitório e descartável. Entro em museus agora e olho para aquelas telas gigantes, vistosas, de Zack e Phil e Jarl, e tudo parece tão cansado, especialmente os quadros de Phil,

que racharam e enrugaram, o preto parece piche seco num telhado plano ao sol, e as cores de Seamus se

alteraram quimicamente, aquele maravilhoso efeito de pairar que costumavam ter não acontece mais, o

rosa e o salmão ficaram aguados e escovados, afundaram num embotamento, e até mesmo a tinta de

alumínio que Zack tanto usava no fim dos anos 1940 pretejou; conversei com os curadores e eles dizem

que não há nada a se fazer; posso me lembrar de quando esses elementos faiscavam na nossa frente.”

Hope olha diretamente para Kathryn como se de algum modo fosse contestada por ela, de algum modo

posta em dúvida. Suspira e prossegue: “Eles não eram Velhos Mestres. Não eram nem sequer Picasso:

aquelas pinturas cubistas que ele e Braque fizeram lado a lado naquela aldeiazinha nos Pireneus em

1910, como era mesmo o nome? Céret, ainda são frescas como novas, eu as olhei da última vez que

estive no moma alguns anos atrás; talvez um pouco mais que alguns, pensando bem. Zack e os outros se

afastavam da permanência, não trituravam seus próprios pigmentos nem tinham aprendizes para fazê-lo,

pegavam os materiais que estavam à venda ao redor, não se preocupavam com a centena de anos a partir de agora, a partir deles, talvez não acreditassem que houvesse um futuro tão longo, com a bomba atômica;

eram de certa forma artistas performáticos, correndo atrás do efeito no presente sem fingir que estavam

fazendo algo eterno. Bernie era um pouco diferente: ele se importava com os métodos tradicionais.

Pintava lentamente, em telas de tamanho normal. Quando visitei o moma daquela vez, os dois ou três

Novas grandes tinham a mesma aparência que sempre tiveram, eram velhos e queridos amigos.”

“Você tem declarado publicamente”, Kathryn lhe diz, “a pouca utilidade para a arte performática.”

“Bem, de um lado, é uma — qual é a palavra? — tautologia: toda arte é performance, das telas em diante. De outro lado, o que comumente se entende por isso vai contra o meu senso do que é arte. A vida

é a performance; a arte é o que vai além da vida, que, obviamente, é por que a fazem as almas antiquadas

e perturbadas como eu. Mas ela própria ficou rapidamente fora de moda, não ficou?”

Kathryn não responde; formula outra pergunta num tom de voz com pretensão de ser exatamente

igual ao que usou para assentar a anterior, mas para o ouvido de Hope é revestida de um verniz, um

endurecimento transparente como que para neutralizar quimicamente sua entrada numa região mais íntima

da memória. “Qual era a importância da sua relação com Bernie Nova?”

Hope não lhe dá a satisfação de mais do que um momento de pausa. “Foi importante como

transição”, declara. “Bernie sempre me provocava, eu sabia que ele gostava de mim, todos nós sabíamos,

e após a morte de Zack não havia tantos da velha turma do Cedar Tavern que quisessem, francamente, ter

alguma coisa comigo. Tinham ciúmes da fama de Zack; ele se tornara, quase no instante que sua cabeça

bateu naquela árvore, o pintor da sua época, ao mesmo tempo o realizador e o símbolo, embora tenha

sido um bêbado grosseiro tão impossível perto do fim que uma espécie de fedor também se grudou à sua viúva. Eu tinha só trinta e três anos quando Zack morreu; tinha aquela enorme vida vazia à minha frente.”

Ela tenta limpar a garganta de sua súbita rouquidão, seu nó de desolação revivida. “Ah, meu Deus”, ela

diz, rindo, enquanto seus olhos se enchem de lágrimas e a expressão severa de Kathryn fica borrada, “de

repente me deu esse pigarro. Minha garganta não está acostumada a falar tanto. Deveríamos comer.”

“Antes de comer”, persiste Kathryn, “há uma coisa à qual eu gostaria de voltar. Você fala dos

últimos cinco anos de Zack como puro desastre, mas vários críticos nos anos 1990 têm olhado com

seriedade para aquilo que ele conseguiu fazer. Um daqueles biomorfos semirrespingados em preto e

branco na tela saiu por quase três milhões na Sotheby’s o ano passado.”

“Pobre Zack, ele nunca viu nenhum dinheiro de verdade. Nós vivíamos daquelas relutantes

doações.”

“Angel Bower foi usado num selo postal, como você sabe, a série de artistas do pós-guerra. Sempre

adorei seu retorno às cores estilo Matisse.”

“Fui eu que dei o nome, foi um dos últimos que ele me deixou ajudar a dar nome. Havia aquele

canto de sombra onde ele pendurou uma rede, debaixo do bordo prateado, do lado de cá do celeiro. Mas

não lhe pareceu — como posso dizer de um jeito bacana? — uma garatuja?”

“Não, eu o considero resultado de muita contemplação. O grande painel vertical que ele fez já em

1954, Número 61, as línguas faiscantes devorando o centro negro, os críticos o chamam de sua

homenagem a Jarl Anders, mas acho melhor que Anders, pois tem o que Anders nunca teve: um

sentimento de paixão e dúvida, uma sensação de brigar através de algo, para chegar a algo diferente. Em

Anders, para mim, tudo acontece sem resistência suficiente.”

“Jarl era filho de ministro. Costumava escrever a Zack aquelas cartas insanas, pareciam histórias

em quadrinhos batidas à máquina, dizendo-lhe para manter sua integridade, lutar a boa luta, revolucionar

a humanidade, jogar fora as coisas comerciais, etcétera, e Zack as tomava como um incentivo dirigido ao

seu melhor eu, que quase ninguém mais lhe dava crédito de ter, estavam tão enciumados da fama dele e

enojados de sua bebedeira e rudeza. Penso que Jarl de certa forma fazia Zack se lembrar de Benton, um daqueles homens rabugentos do interior. E de certa forma as dificuldades de Zack após 1950 provaram a

tese de Jarl sobre a sociedade como uma cilada autoritária e a comunidade artística, irremediavelmente

corrupta. Ele via a pintura como uma questão de consciência e isso atraía Zack, com seu intenso e frágil

modo de trabalhar. Mas quando Zack entrava no velho Oldsmobile — ele nunca teve um carro novo,

nunca, pense nisso, só o Modelo A e depois aquele trambolho superpotente que fazia talvez dez milhas

por galão e precisava de pelo menos meio litro de óleo toda vez que parávamos para abastecer — e fazia

de carro todo o caminho até onde Jarl e Frieda tinham a casa de Amagansett e Jarl trabalhava naquela igreja metodista abandonada, Jarl não saía de baixo do seu Jaguar, que ele vivia consertando. Frieda

tinha algum dinheiro, ao contrário de mim. Meu pai ainda estava vivo, e o meu irmão mais velho, o que

não foi morto na guerra, era o queridinho lá na Filadélfia; ambos me desaprovavam, assim como o meu

casamento com Zack, a quem consideravam um brutamonte beberrão, e não conseguiam imaginar o que

me atraiu nele. E na verdade, se você tem que saber, Kathryn, não restava muito dinheiro da família, meu

pai tinha feito merda — suponho que agora seja aceitável dizer isto — com o que havia herdado do meu

avô. Ai, céus, onde eu estava? Jarl. Ele tinha aquela visão de eliminar a influência europeia na pintura

americana, que era mais ou menos como tentar eliminar o sangue europeu da população. Ele chamava o

trabalho de Zack de ‘impressionismo desemaranhado’. Tinha uma língua bem afiada e engraçada, mas

Jarl foi um dos poucos homens, devo dizer, eu já sabia naquela época, que não me impressionava como

homem atraente. Era alto e esquálido e de cor amarela, com cabelo mortiço e dentes protuberantes. E um

olhar. Um olhar tão feroz que eu me sentia murchando debaixo dele. Ele tampouco me aprovava. Via-me

como um brinquedinho. Via-me como a parte do diabo.”

Kathryn inclina-se cuidadosamente para a frente a fim de verificar o gravadorzinho cinza e fica

satisfeita ao ver que ainda está rodando. “Hope, será que poderíamos voltar um momento à sua relação

com Bernie Nova?”

Abordada com essa súbita familiaridade, Hope toma uma iniciativa, para ela, violenta, e se levanta;

a cadeira de balanço de muitas madeiras, aliviada do peso, oscila afastando-se da parte de trás de suas

pernas. Os joelhos doem, a garganta está ressecada, um vazio está instalado na sua barriga como uma

pílula de analgésico que ela não consegue digerir. “Ai, minha cara”, diz ela. “Foi há tanto tempo. Vamos

comer alguma coisa, você deve estar morrendo de fome.”

Embora não seja alta, ficar de pé altera sua perspectiva de modo que a sala, esta saleta quadrada da

frente, levemente mobiliada, com suas graciosas janelas e cortinas de um algodão marrom desbotado,

adquire uma estranheza: o consolo da lareira com sua coluna iônica reduzida porém formal, pintada de

creme; sua carga composta de um pequeno relógio de caixa dourada e dois candelabros de bronze e uma foto colorida numa moldura prateada, as cores esmaecendo, de seus três filhos em trajes de banho

sorrindo ao lado de uma piscina turquesa em Connecticut, quando todos tinham menos de dez anos, mais

de trinta anos atrás; a mesinha de cerejeira com sua gorda bola azul de cerâmica, base de uma lâmpada e

quatro descansos de cortiça empilhados que parecem fichas de pôquer gigantes; a poltrona xadrez e uma

enferrujada luminária de piso de uma safra antiga similar, sua cúpula de papel escurecida como se

queimada e mostrando a imagem impressa de um ponteiro; o tapete oval formado de um trançado de

trapos multicoloridos; as tábuas de pinho do piso pintadas de vermelho escuro e mais largas do que as

que se podem obter agora; as paredes nuas e sutilmente irregulares de gesso verdadeiro, ornadas

friamente com algumas pequenas gravuras abstratas, presentes de velhos amigos agora mortos; encostada

numa das paredes, uma estante cujas prateleiras inferiores são estreitas demais para todos os livros de

arte, que ultrapassam as bordas. Tudo parece carregado de estranheza, a estranheza que o pós-vida, por

mais que seja parecido com a nossa vida na terra, deve ter para os recém-mortos. Ela raramente senta-se

nesta sala; a cozinha, seu quarto acima dela e o estúdio mais adiante fazem parte de sua órbita habitual. Toda noite, depois de adicionar o prato e o copo do jantar àqueles que já estão à espera na lavadora de

louça, até que esteja cheia o bastante para ser acionada, ela pensa em entrar aqui e puxar as cortinas atrás

da poltrona xadrez e ler seu livro da semana, ou mesmo dar uma espiada num dos livros de arte que estão

ficando empoeirados, mas raramente o faz, optando em vez disso por subir para o calor do seu quarto.

Subir as escadas — “escalar o morro de madeira”, seu avô costumava dizer — faz doer seus joelhos e o

quadril do lado esquerdo, mas ajuda a mantê-la capaz de se mover, acredita ela, ajuda a mantê-la por

mais um ano longe daquelas instituições de vida assistida, com pisos de borracha e escadas confortáveis, onde seus dois filhos gostariam de instalá-la para alívio de sua própria consciência; seria muito ruim

para a imagem deles se ela morresse sozinha e fraturada nas escadas à la Edna St. Vincent Millay. Ela se

acomoda tão raramente na saleta da frente que o espaço visto da sua perspectiva em pé, com uma

momentânea tontura, parece deslumbrante, os cantos sacudidos num voo, elásticos e oblíquos como os

cantos das salas de Van Gogh ou Lucien Freud. Há algo de lavanda, um tom psicodélico nas paredes

revestidas de papel, nas finas vidraças arqueadas, que em certos momentos penetram nos olhos de Hope

pelas laterais, como se os habitantes da sala no século que se foi tivessem soprado um matiz de suas

vidas sobre essas superfícies.

Ela se vira para conduzir a visitante até a cozinha, e atrás dela Kathryn desliga o pequeno Sony, a

testemunha fiel de ambas, impassível como uma câmera de segurança cuja evidência confusa acaba sendo

excluída do tribunal. Ela vê, passando pelas janelas, que o céu da manhã de um azul tão límpido e puro

está se fechando, as nuvens brancas espalhadas expandindo-se para ocupar o espaço entre elas,

aglutinando-se como lousas cinzentas, com algo de vaporoso erguendo-se entre os vãos, de modo que o sol que vaza através delas é trêmulo, como os reflexos tremidos nas janelas de um trem que passa.

Quando as sombras retornam após esses intervalos luzentes, a luz parece mais profunda, mais circundada,

tendo mergulhado mais fundo em algum elemento mais escuro, de tal modo que os troncos e os galhos em

Continuar: parte 6 de 11