Busca minha face

John Updike · Capítulo 2 de 2 · parte 7/11

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Busca minha face

“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto...

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

sua cara: liberdade em ação, baby. Só nos Estados Unidos. Toda aquela força, sentimento, ousadia,

introspecção e exteriorização simultâneos. Ei, você quer revolução? — olha ela aí! Em toda cidade,

mesmo em Madri, a exposição estava lotada. A Europa nunca viu nada parecido — surrealismo sem

frescura, abstração sem geometria, cada pintura, uma briga com Deus. O eu — o eu e a beleza, a beleza e

o eu. Não ficavam só impressionados, ficavam comovidos. E é uma molecada dura — cresceram

famintos e bombardeados, lavagem cerebral dos dois lados depois da guerra, cínicos o bastante para engolirem Sartre e Brecht e seus grotescos simpatizantes. Pode levar mais cem anos de impasse, mas foi

um ponto de virada. Estou lhe dizendo, sra. Holloway, os artistas deste país fizeram algo grandioso. Só

lamento que o sr. McCoy não esteja vivo para ver. Se os caretas lá em Washington acreditassem em

reconhecer artistas, seu marido ganharia uma medalha póstuma.”

Então Zack, louco demais para ser soldado quando todo mundo era, acaba merecendo uma medalha.

Por ser um americano exemplar nas lamacentas trincheiras da autoexpressão. O próprio presidente

naquele tempo havia sido um pintor dominical. Mas Hope não tenta parafrasear para Kathryn a retórica

do jovem diplomata, agora velho e aposentado, se não morto, tendo servido seu império em muitos

postos exóticos, ganhando em cada colocação outra linguagem, outra coleção de suvenires regionais.

Lembrar-se dele a fez lembrar-se do que ela mesma diz: “Durante aqueles primeiros invernos nos Flats,

Zack entrava depois de uma hora no frio e admitia que não tinha pintado nada, nem sequer aberto uma lata

de tinta. Eu lhe perguntava o que ele estava fazendo e ele dizia o mais depressa que podia: ‘Rezando’. Não penso que ele pretendia ser levado a sério, mas eu levava. Ele rezava para que lhe fosse mostrada a

luz e, durante um tempo, ele a viu. Lembre-se, foi ele quem quis que nos casássemos na igreja”.

Kathryn troca desconfortavelmente suas longas pernas negras e diz, lendo suas notas: “Foi por meio

de Bernie que você conheceu Guy.”

“Suponho que sim. Na realidade esqueço as circunstâncias exatas. Como dissemos, de algum modo,

depois que Zack morreu, Bernie tornou-se a onda do futuro. Suas cores achatadas, o minimalismo —

também o monóculo, seu toque de dândi, os títulos em latim e as cigarrilhas na piteira de casco de

tartaruga — tudo isso o tornava atraente onde Zack e Jarl, e até mesmo Phil, pareciam caipiras que

lembravam aos pintores mais jovens tudo de bruto e fanático nos Estados Unidos, coisas das quais tinham

fugido ao vir a Nova York. Bernie e Jeanette eram conhecidos por acolher e favorecer os jovens — com

seu negócio, ela usava cada festa para dedução do imposto — e faziam Guy e sua turma irem do centro

até Central Park West, por volta de 1956. Acho que conheci Guy no verão de 1957, mas não foi no

apartamento dos Nova, foi no loft de Guy na Pearl Street, onde ele estava dando uma festa para comemorar o contrato com Leo para sua primeira exposição individual; estava se virando para ganhar a

vida fazendo vitrines na Bonwit’s e desenhando anúncios de sapatos para a Bloomingdale’s, e um

punhado de nós, Bernie e Jeanette e Seamus e alguma garota que saía com ele na época — Seamus nunca

ficava muito tempo com a mesma, eram mais para ele exibir; no íntimo, ele era um padre — me

convidaram para ir junto, deve ter sido em agosto, a cidade estava com aquela sensação morta que eu

adorava. Guy tinha alugado aquele enorme espaço atulhado com toda a tralha que ele juntava das ruas,

embora a área do loft estivesse pintada com mais capricho que o celeiro de Zack, eu notei. Ele alegava que havia me conhecido antes, em alguma inauguração; eu vinha muito mais para a cidade desde que Zack

morreu, teria sido suicídio ficar sentada lá nos Flats o inverno todo, e Bernie e Jeanette tinham um quarto

extra para mim, eu tinha virado meio que uma filha para eles, já que Bernie e eu não dormíamos mais

juntos, isso acabou quando Zack se foi, pois a esposa de outro homem é uma coisa, uma viúva jovem é

outra. Na verdade os homens morriam de medo: eu era disponível demais e necessitada,

presumivelmente.”

“Presumivelmente?”

“Espero que você nunca tenha um marido que morra na sua frente, Kathryn, mas se tiver, vai

descobrir que sexo é a última coisa de que você sente falta — não que Zack estivesse proporcionando

muito. A necessidade simplesmente se perde no meio de todos os outros sentimentos, a culpa, não tanto a

culpa de sobrevivente quanto a culpa do-que-eu-poderia-ter-feito-diferente, e uma irritação com a

situação desleixada em que ele deixou todas as suas coisas, do modo como os homens largam as meias no

chão e vão embora, e o alívio, francamente, de estar desemaranhada. Pegar outro homem é a última coisa que você quer. Pelo menos no meu caso. Uma das coisas que eu gostava nos pintores mais jovens era que

a maioria deles era gay. Acho que na época a palavra era “bicha”, da qual gosto mais, não roubada de um

significado totalmente diferente, e mesmo aqueles que não eram gays eram feys, visionários. O que

faziam era complicado e inexpressivo, e quando você lhes perguntava a respeito, eles simplesmente

davam de ombros e agiam de forma evasiva; eles saíram da área comercial — vitrinistas, publicitários,

designers, pintores de cartazes e, até mesmo, de letreiros — e não tinham aquela furiosa paixão teórica,

restos do marxismo, suponho, que a geração de Zack tinha. Esses novos artistas agiam como se tudo fosse

uma farsa, como se a vida fosse uma piada, e a pintura também, embora trabalhassem duro, na surdina.

Guy era incansável, eu descobri. Uma vez tendo me instalado com as crianças num apartamento e a si

próprio no Hospício, era como estar casada com um advogado de Wall Street, ele nunca estava em casa.”

“Quando você conheceu Guy, ele a fez lembrar de Ruk?”

Isto a deixa surpresa, sentindo algo agressivo, embora obviamente uma semelhança tivesse sido notada na época por amigos dos anos 1940 (Bernie, Onno) que se lembravam de Ruk e também captada

por acadêmicos especializados que chegaram a traçar semelhanças de estilo — a suavidade, o subjacente

tom de zombaria —, mas na ocasião a semelhança não fora proeminente na cabeça de Hope: ela fora

atraída por algo novo em Guy, uma esperteza descuidada que ela não tinha visto nos homens, a menos que

fosse algum amigo rico filhinho de papai da Filadélfia que passava o dia todo no Clube de Críquete de

Germantown jogando gamão. “Bem”, ela admite, “ambos eram altos, bonitões e loiros, mas Guy tinha

aquela aparência inglesa rósea e delicada, e Ruk, uma palidez eslava, meio cor de tela de granulação

fina, e era intenso e autodramático de um modo que Guy jamais se daria ao trabalho de ser; os dois

tinham, como posso dizer, uma leveza, mas com Ruk a gente sentia que a leveza era um defeito, que se

apossava dele, era um tipo de leveza condenada, seu trabalho, com toda a sua habilidade, era pintura de

sociedade, à la mode, e a moda muda, ao passo que com Guy a leveza o ajudava a flutuar, ele não estava

ancorado a nenhum conceito de si mesmo. Ele estava sempre à nossa frente, um passo adiante, e nem

parecia correr. Não era uma questão de ironia, Ruk sabia ser irônico, mas era meio sombrio, havia uma desconfiança do mundo, enquanto Guy era, bem, alegre — surgia com aquelas suas ideias como se elas

fossem absolutamente óbvias, estivessem bem ali pousadas na superfície das coisas, e obviamente

estavam. Mas quem mais as via? Ele vivia recolhendo entulho por todo lugar da cidade onde

andássemos, como se aqueles pedaços rasgados de papel e lata fossem flores. ‘Tudo é tão adorável’, eu

ouvia dele com frequência. E não dava risada. Guy raramente ria, e quando sorria era como as pessoas

surdas sorriem quando não ouvem direito o que você diz.”

“Então você é a sra. McCoy, a verdadeira McCoy”, Guy disse a ela na festa no seu loft, na Pearl Street.

“Eu era.”

“Deve ter sido maravilhoso.”

Ela sentiu que sua face se escancarou diante de uma afronta tão calma, enigmática e extasiada.

Seguramente todo mundo da arte sabia que durante cinco anos Zack havia sido uma tortura de se

conviver.

Guy plainou as arestas: “Artisticamente, pelo menos. O resto, a mera vida, nós sempre somos

obrigados a carregar. Você deveria se orgulhar do que possibilitou. Ele é o ponto de onde todos nós

temos de começar agora. O deslumbrante recanto ao qual sua pintura o levou. E gosto do seu novo

trabalho, por falar nisso — aquelas grandes telas corredias como refeições preparadas às pressas. Elas

me fizeram salivar”.

Hope decidiu que poderia muito bem desfrutar desse encontro com um homem aparentemente

impenetrável, absolutamente bem-humorado. Ele tinha ombros largos, uma gola rolê lilás por baixo de uma camisa rosa abotoada, o lábio superior comprido, um olhar frio que não sorria, e um leve sotaque

inglês que combinava com sua maneira direta, recortada.

“Por que é”, ela lhe perguntou, “que quando as mulheres relaxam são chamadas de bagunçadas, e

quando os homens relaxam são considerados enérgicos?”

“Não é muito justo, é?”

“Não creio que seja.”

“Pelo mesmo princípio, porém, um homem tricotando no metrô faz com que olhemos duas vezes, e

uma mulher tricotando, uma vez só.”

“Você faz tricô?”

“Oh, não, querida. Não tenho a paciência requerida. Tudo que faço, preciso fazer depressa, penso

que a coisa fica poluída se houver a intervenção de um segundo pensamento. A contemplação mata — não

foi o que disse um dos gregos?”

“Eu duvido”, ela disse, forçando a passagem por ele para inspecionar seu trabalho arrumado no loft,

com sua vista, para o leste, aos melancólicos prédios de tijolos e, nos vãos entre eles, barcos, água e o

Brooklyn. À primeira vista suas pinturas não se distinguiam facilmente dos refugos de rua catados nas

calçadas e depósitos de entulho da baixa Manhattan. Havia uma quantidade de animais empalhados —

uma raposa, uma águia, um galo com o peito inflado para cantar — que um taxidermista ou sua viúva

tinham jogado fora, e um monte de latas — cerveja, sopa, óleo — comprimidas em formas pregueadas

pelo tráfego da rua, e guarda-chuvas quebrados abandonados no meio de um aguaceiro, fragmentos

listrados de barreiras policiais derrubadas, pretejadas placas de rua caídas ou arrancadas dos postes,

caixas de papelão com os logos e dizeres, utensílios inúteis, revistas velhas, fotografias descartadas,

cartazes rasgados. Algumas dessas coisas haviam sido amontoadas sobre lâminas de madeira aparelhada

que serviam de base para a composição e respingadas e emplastradas com cores que pareciam casuais e

insignificantes, e contudo funcionavam produzindo uma impressão casta e fresca: um espectador humano

cobrira esse refugo normalmente despercebido, essas escamas perdidas pelo dragão do excesso industrial, com gestos de tinta. E mais surpreendente, com um efeito curiosamente sedutor, uma cama fora

simulada num painel vertical — colcha, lençóis e um flácido travesseiro, todos pregados com percevejos

aos cantos superiores: a fronha rabiscada com um lápis mole e todos os panos atacados com tinta fina que

escorria. Era uma cama estreita, bem arrumada, como que por um solteirão caprichoso. Um sabor fresco

e inescrutável, como um verniz de preservação, se sobrepunha a esses achados esfregados de tinta, essas

colagens tridimensionais, numa ordeira homenagem à desordem.

“O que você acha?”, Guy indagou ao lado de Hope, seu tom recortado um pouco apressado pelo desejo de uma opinião boa dela. Haviam se afastado do lado mais claro da sala, onde a festa prosseguia,

os nova-iorquinos fortemente espremidos, como se estivessem no metrô ou num elevador de carga.

“Bastante terrível, não?”

Em vez de confirmar ou negar seu julgamento infantil, ela disse cautelosamente:

“Estou vendo o que você quer dizer com começar a partir de Zack.” E tocou a tinta escorrida

endurecida, a caixa de papelão emplastrada e a lata amassada. “Liberdade”, ela disse. “A liberdade de

pintar, pintar sobre qualquer coisa. Mas há uma ironia aqui que Zack nunca teve. Ele era mortalmente

sério.”

O jovem pintor protestou: “Não me sinto irônico quando trabalho. O que foi mesmo que o seu

falecido marido teve fama de dizer: ‘Eu sou natureza’? Eu não sou natureza, mas tudo na cidade ao redor

de nós é natureza: o lixo, os anúncios, a cultura da porcaria”.

“Gosto da cama”, Hope concedeu, querendo gostar do trabalho de Guy mais do que gostava.

Continha uma zombaria no fastidioso distanciamento de seus materiais, que era o oposto da abordagem de Zack, e de Onno, e de Hochmann, e de Korgi. Cada um deles, à sua maneira, havia se colocado à

mercê da tela em evolução, de sua vida ativa. Este mesmo processo com objetos reais intervindos —

exemplares de taxidermia respingados, ou fachadas de rádios antigos feitas de plástico — assumia outro

caráter, mais seguro e insinuante. Obtendo, o que quer que fosse, dos dois jeitos. Esse era Guy. “É uma

cama de solteiro”, ela observou.

“Como a minha.”

“Você deveria voltar à sua festa. Estou monopolizando você.”

“Você vai gostar mais destas aqui, aposto. Eu fiz alguns anos atrás.”

Ele a conduziu para um conjunto de telas, não enormes — um e vinte por um e oitenta, um e oitenta

por dois e quarenta —, empilhadas em suportes de pinho de uma polegada por duas, e duas por quatro,

construídas com um capricho para o qual Zack, com toda a sua pretensão de ser um homem da capacitada

classe trabalhadora, não teria achado tempo. Ao se aproximar do seu lado, Hope sentiu Guy mais alto que Zack, mais alto do que ela inicialmente o percebera; seus membros e tronco pareceram crescer à medida

que ele se estendeu para pegar uma tela guardada na altura de sua cabeça. Foi cuidadoso ao deslizá-la

para fora; pequenos tufos amarelados de jornal colado se sobressaíam da tinta, cuidadosamente

pincelados de tinta encáustica em vez das profusas quantidades de óleo, com sua massa mais rugosa, mais

brilhante.

“O que é?”, ele lhe perguntou, segurando a larga tela nos braços esticados, a face pálida acima da

borda superior endiabrada naquela luz — as íris azuis como o vidro, o lábio superior virado para baixo.

Seus dentes eram longos, como de um homem inglês.

“É uma... bandeira americana.”

“É? Ela não está tremulando, não está hasteada num mastro.”

“Estou vendo o que você quer que eu diga. É uma imagem da bandeira, como o Ceci n’est pas une

pipe de Magritte.”

“É um signo”, Guy lhe disse. “Acho mais fácil pintar quando o tema não me pertence. Quando a imagem vem como se fosse preesestabelecida. Não quero que a pintura seja sobre mim, que seja uma

revelação dos meus sentimentos.”

Será que ele tinha sentimentos? Ela estava curiosa. “Mas”, disse Hope, cônscia — como estivera

quando exposta pela primeira vez às aulas de Hochmann, e novamente quando viu no celeiro gelado as

primeiras pinturas puramente gotejadas de Zack, e mesmo quando visitava a casa de Bernie, onde seus

grandes campos de cores e estreitas listras verticais vibravam na ampla luz do andar de baixo, o golfo

radiante sob seu adultério — de estar vendo algo novo, “como pode não ser? Você é o criador.”

“Existem jeitos de criar sem ser o tema. Eu sou meramente um meio”, disse-lhe o alto estranho, com

aquele estranho verniz de modéstia difícil de distinguir da altura do conceito. “Você, você é um fim em si

mesma. Você e Zack e aqueles outros antagonistas.”

“Antagonistas. Você nos vê como antigos. Quando você nasceu?”

“Mil novecentos e vinte e cinco.”

“Quer saber quando eu nasci?”

“Se quiser me contar.”

“Mil novecentos e vinte e dois.”

“Na mesma faixa”, Guy sorriu, lendo sua mente de forma pouco prazerosa, mas talvez não

inacurada. De trás do seu escudo de acanhamento, Guy tinha uma visão arguta. Ela estava sexualmente

interessada, excitada pelo novo ataque à beleza. Quando, no outono, na novíssima galeria de Leo, Guy

teve sua exposição individual, Hope registrou novamente, em luz pública, o impacto, a impudência da

cama simulada, a águia respingada, a bandeira sem expressão, e uma bandeira feita toda em branco, apenas pinceladas e diferenças sutis em tom amarelo definindo as estrelas e listras, e alvos e mapas

servindo ao mesmo propósito de fornecer os contornos do interior a ser pintado, imagens drenadas de seu

propósito e preenchidas de pintura, traços que, ela podia ver especialmente onde eles dançaram e

voltearam sobre pedaços de jornal semiocultos, eram tão expressionistas quanto Zack e Onno e Phil, mas

no tom de uma piada subjacente, uma camada de um sanduíche de significados oblíquos. Guy continha um

Zack resfriado, um Zack sem a congestão e a ameaça e a ingênua ganância de glória.

Kathryn, em tom acusatório, de vamos-esclarecer-tudo, como se houvesse um júri invisível, diz a

Hope: “Zack estava morto havia apenas dois anos, na época, quando você assumiu Guy Holloway.”

“‘Assumiu’ é um modo bastante absoluto de colocar as coisas. Nós nos víamos aqui e ali,

principalmente na casa de Bernie e Jeanette, mas às vezes no loft de Seamus O’Rourke na Mercer Street.

Seamus estava dando sua arrancada exatamente nessa época, os retângulos embaçados, os retalhos de cor

flutuantes, as pessoas falavam deles como versões modernas do Espírito Santo, havia sim esse veio religioso em Seamus, ele estava vibrando com o reconhecimento que finalmente recebia e obviamente

começou a beber muito, demais, eu podia ver os sinais, mesmo sendo uma bebedeira mais feliz que a de

Zack, pois ele tinha um histórico religioso que em parte sancionava aquilo, e fui bastante lerda para levar

a sério quando Guy começou a — qual é a expressão que vocês usam agora? — ‘dar em cima’ de mim,

porque eu achava, como já te disse, que ele era gay, seu ambiente com certeza era gay, vitrinistas e atores

menores que não conseguiam muita coisa, e esse foi um dos motivos de ter me permitido relaxar com ele

e apreciar tanto a sua companhia. Ele era o homem de melhor índole, mais flexível, com quem eu já tinha

estado. Fazíamos coisas tolas juntos, íamos a restaurantes étnicos estranhos, como albanês e etíope, antes

que todo mundo fizesse isso, e havia um banho turco abaixo da Delaney que tinha uma seção mista, coisa

que eu certamente não faria com um homem que eu julgasse hétero. Lembre-se, ainda eram os anos 1950,

e quase todo pequeno desvio parecia ousado. No começo de 1958, naquele inverno depois que ele teve a

exposição na galeria do Leo, que vendeu quase tudo, foi impressionante, apesar de ridicularizada por

quase todos os críticos, Clem nem se deu ao trabalho de ir; eu estava me desfazendo das obras de tinta derramada sobre papel feitas por Zack por poucos milhares cada, e Guy me disse que eu as estava dando

de graça; entre seus outros talentos, ele era uma absoluto mago em saber o que o mercado comportava;

naquele inverno, quer dizer, já devia ser quase primavera, Nova York estava fria, cinzenta e horrível, e

ele me convenceu a ir de carro para o oeste com ele, com ele e um par de rapazes mais jovens, um deles

tinha um pai que estava na indústria de cinema, Hollywood estava se desintegrando, a televisão, matando

os estúdios, mas esse garoto, de qualquer maneira, queria um emprego confortável, queria ser diretor e

mais tarde chegou a tomar parte de alguns eventos de Guy, e o amigo dele era um negro claro, acho que na época ainda não dizíamos ‘negro’, que estivera na escola de balé e tinha sim um corpo maravilhoso,

todos cansamos de ver aquele corpo, em cada motel com piscina ele punha um daqueles calçõezinhos de

banho sumários, pretos, estilo francês, e era um escândalo local, mas eu simplesmente adorei ver o país,

especialmente o sudoeste e o sul da Califórnia, era outro planeta em comparação ao nosso nordeste, toda

aquela luz derramada, todas aquelas estradas retas, intermináveis, entre montanhas púrpuras como em

O’Keeffe, e depois vinhedos e laranjais, e tudo tão aberto, inclusive as maneiras. Talvez minhas

impressões fossem realçadas porque estava fumando maconha pela primeira vez, ‘erva’ era como

dizíamos então, ‘fumo’ alguns diziam, pelo menos eu não estava engordando; quando tentava fazer

companhia a Zack, o álcool se concentrava nos meus quadris e, na verdade, nunca sumiu de todo, os três

quilos que você não consegue perder viram uma plataforma sobre a qual mais tarde você adiciona mais

três, certo? Mas você é jovem demais, ou naturalmente magra demais, para eu fazer essa pergunta. Foi

durante essa viagem, já em West Virginia, que percebi que Guy era hétero, na verdade bastante hétero

quando metia na cabeça.”

“Você se casou com ele nesse mesmo ano”, Kathryn segue acusando.

“Querida Kathryn, sim. Naqueles tempos não se vivia em pecado, e éramos loucos um pelo outro.

Ele era tudo que Zack não foi e, além disso, também era genial, e eu... bem, quem sabe o que ele viu em

mim? Uma mãe que ele podia foder, suponho, algo bastante clássico. Sua mãe real era de Rhode Island,

descendente dos refugiados que achavam os puritanos de Massachusetts uns tiranos. Não eram quacres e

sim outra coisa: antinomianos, penso que eram assim que eram chamados, querendo dizer que

acreditavam que tudo vale, ou deveria valer. O nome de solteira dela era Pearson. O pai, o sr. Holloway,

era inglês, foi assim que Guy pegou o sotaque, que ele podia ligar e desligar, e seu sentimento pela

América: ele nos via como selvagens, na verdade, cheios de vitalidade e apetite e uma ultrajante e

magnífica vulgaridade, quando o meu sentimento em relação aos americanos é que são basicamente

conscienciosos, conscienciosos e geralmente exaustos, como o clima mormacento e a ética de trabalho e

as expectativas que aqueles heroicos pais fundadores atrelaram a nós, embora no fundo tivessem opiniões bastante negativas sobre o homem comum, os pais fundadores tinham, sim. O americano médio é muito

menos vulgar e presunçoso do que, digamos, os próprios ingleses; não temos nada parecido com os

hooligans do futebol, por exemplo. O pai de Guy tinha ido embora cedo. Sua mãe ainda vivia em Rhode

Island, em Jamestown, em uma casinha frágil de telhas na baía, com vista para a ponte, e uma das coisas

que Guy gostava em mim, talvez uma das coisas principais, era que eu conseguia confrontá-la. Como eu,

ela era baixinha e invocada; ela irradiava aquela malevolência sedutora que se adquire vivendo em

lugares bonitos isolados, e nós nos dávamos ‘esplendidamente’, Guy diria, sua mãe e eu, quando nos

encontrávamos, o que tentávamos não fazer com muita frequência. Ela me via como se o estivesse

pegando pela mão, assumindo que ele precisava daquilo, ficar solteiro depois dos trinta; e imaginava a

vida dele em Nova York como nada mais que insensatez e Sodoma e Gomorra, e era tão materialista e

esnobe que ficava alheia ao sucesso realmente notável que ele estava tendo. Eu supria essa omissão,

também; dizia a ela como nunca tinha visto um artista produzir obras e ganhar dinheiro como o filho dela.

Especialmente nos anos 1960: parecia que toda cidade no país com mais de duzentos mil habitantes tinha aqueles novos prédios altos com apartamentos com paredes vazias, e todos tinham de ter um Holloway

preenchendo o espaço. As coisas que ele pintava para demonstrar seu ponto assustadoramente sagaz

sobre representação e realidade — ‘Isto não é um cachimbo, ou é?’ —, eles só consideravam pelo valor

nominal; as bandeiras e garrafas de Coca-cola gigantes e painéis ampliados de tiras de quadrinhos eram

coisas que ele conhecia e adorava, coisas americanas. Devo dizer — posso lhe dizer isto mesmo que ele

ainda esteja vivo, está com Alzheimer demais para se magoar — que eu tinha minhas reservas em relação

a grande parte daquilo. Aquelas pinturas alfabéticas gravadas, por exemplo, com a-z-u-l escrito em laranja, e placas de p-a-r-e pintadas de verde, me davam o tempo todo a sensação de dadaísmo; Zack e

sua geração haviam rejeitado a lúdica arrogância dos surrealistas que aqui estiveram durante a guerra,

estavam em vez disso tentando estender, após o cubismo, o legado de Cézanne e Velázquez — a

majestade da tinta, da cor e da forma. Guy tinha um olho bom, profissional — suas composições, mesmo

as combinações com animais empalhados e essas coisas, eram sempre equilibradas, e ele sabia quando

parar, quando o bastante era bastante —, mas era basicamente um homem de ideias. Depois dele, a arte

americana virou uma ideia após a outra.”

“Gotejar tinta não era uma ideia?”

“Kathryn, a salada de atum fez você ficar ‘do contra’. Gotejar, não tocar a tela, deixá-la deitada no

chão, eram tudo ideias, mas as ideias não eram nada sem a execução. Ninguém jamais imitou Zack sem

parecer algo de segunda ordem. Nem mesmo isso, de terceira. Enquanto Guy, uma vez pronta e

funcionando toda sua linha de montagem no Hospício, podia dar uma ideia a um assistente e fazê-lo

transformar a ideia num Holloway enquanto estava sentado comigo no nosso apartamento ou indo ao cinema na Times Square. Ele reinventou a oficina medieval, fez a arte deixar de ser uma confissão, algo

todo seu, e voltou a torná-la um artefato, algo pertencente a todo mundo e a qualquer um. De certa

maneira, ele foi além do conceito de bom ou ruim: se um assistente usasse a cor errada ou lambuzasse a

tela numa serigrafia, Guy olhava e decidia que podia dar certo, o artista não era um juiz, não estava ali

sentado de toga e peruca ordenando execuções.”

“Eu penso que é maravilhoso”, Kathryn diz, inclinando-se para a frente ao fazer a declaração, a mão

esquerda com as unhas negras provocando uma contorção no seu colo, “que você possa ser tão

entusiástica em relação a Guy depois do jeito miserável que ele acabou te tratando.”

“Foi miserável? Não houve nada de malévolo naquilo. Tínhamos sido úteis um ao outro por

dezessete anos, e o uso que ele fazia de mim se exauriu antes do uso que eu fazia dele. Era um homem que

precisava seguir se movendo. Da última vez que nos encontramos, antes do Alzheimer efetivamente tomar

conta, sua inquietação deixara de ser jovial, ele não conseguia mais contê-la, os olhos ficavam faiscando pela sala, e ele ficava arreganhando seus longos dentes. Tinha um ar aterrorizado, sabia que as coisas não

estavam em ordem. Pobre Guy. Nunca antes tive pena dele.”

A lembrança da sua percepção da decadência de Guy se espalha para sua própria situação; e liga-se

ao fato cada vez mais surreal e inexorável da presença de Kathryn — uma presença que está se tornando

monstruosa, aqui na casta e pouco usada saleta da frente de Hope, com suas cortinas marrons de chintz e

vidraças manchadas de lavanda, como uma águia empalhada respingada de tinta liquefeita escorrendo.

Uma vez Guy comentou com ela, enquanto caminhavam juntos pela West Broadway num dia de verão,

como tudo, até a hora em que você focaliza, parece goma de mascar. Na época isso pareceu uma pontada

casual de niilismo, uma tirada leviana das profundezas de sua cultivada superficialidade, com intenção

de divertir, mas a frase permaneceu com ela, como uma pista para a monstruosidade intrínseca de tudo,

seu estar ali informe e incolor. Esta moça tem tal qualidade, insistindo em ficar sentada ali, cavoucando

Hope sem nenhum conceito claro do que quer, ou quando terá o bastante.

“Qual era a aparência dele? Em geral.”

Hope hesita; a pergunta parece tão simples que deve ser uma cilada.

“Quero dizer”, Kathryn enrubesce, vitoriosa, “qual era a aparência dele para você. Os relatos

variam, e não há sequer duas fotos de Guy Holloway que sejam exatamente iguais.”

“Suave”, Hope finalmente deixa sair. “Tinha um rosto suave que para mim muitas vezes parecia

inclinado para trás, talvez por ser tão mais baixa. Seus traços não eram muito marcantes: um nariz

pequeno e reto, o lábio superior comprido, lábios que pareciam abotoados, de certo modo, e levemente

doloridos, talvez porque ele sorrisse tão pouco — sua inexpressividade era muito da sua força — e olhos ligeiramente saltados daquele azul diluído, como aquela pintura de louça. Era um rosto que mostrava

pouco atrito com o mundo.”

“Ao contrário de Zack.”

“Ah, Zack era todo atrito, é por isso que ficava encalhado tanto tempo. Com Guy eu tinha aquela

sensação maravilhosa de não precisar empurrar a carroça, ou ficar puxando para tirá-la de dentro das

valas; bastava seguir junto.”

“E aí, rapidamente, você lhe deu três filhos. Isso, para mim, é o fato isolado mais surpreendente na

sua vida.”

“Mas por quê? Nada mais natural, é uma coisa da Natureza fazer isso acontecer. Eu teria adorado

começar mais cedo; acabei descobrindo que eu era boa naquilo, dar luz a filhos. Tinha a pélvis para isso,

mesmo sendo pequena como sou. E eles não vieram tão depressa assim, cada um levou nove meses: Paul

em junho de 1959, Piet em novembro de 1960 e Dot em 1962. Ficamos emocionados de ter uma menina,

tínhamos combinado depois de Piet que tentaríamos mais uma vez na esperança de que viesse, e ela veio só um mês antes de eu fazer quarenta anos. Você usou a palavra ‘surpreendente’; eu fiquei surpresa de

Guy me pedir para dar-lhe o nome da sua mãe, não pensei que eles fossem tão chegados, mas talvez na

sua cabeça fossem sim; tínhamos dado aos garotos nomes dos nossos pintores favoritos, mais favoritos

dele do que meus, pintores cerebrais, secos; meu pai tinha sido um escroto em relação ao meu casamento

com Zack e o dele tinha abandonado a família, então por que recompensar a eles? Mas era desconcertante

ter de falar com a minha inocente trouxinha, minha própria filha, com um nome que pertencia à minha

intimidante sogra. Mas ‘Dot’ resolveu a situação, chamá-la de Dot. E Guy começou a sua série Benday,

painéis de tiras de quadrinhos com grandes pontos mecânicos, pouco depois, numa espécie de

homenagem. Ele foi um bom pai, divertido, para os garotos, embora visivelmente competitivo, mesmo

quando tinham dois e três anos, mas ter uma filha o deixava absolutamente derretido. Ele chegava a trocar

suas fraldas, algo que era muito reticente em fazer com os garotos. Falava em começar uma série de telas

com merda de bebê, e creio que chegou a analisar detalhes técnicos, mas nunca a fez; mencionei esta manhã as paródias de Zack que envolviam urinar em bandejas de cobre, mas não foi Guy, pelo menos

minha memória diz que não.”

Claro que não foi. Foi alguém secundário, procurando um tipo de fama barata. Urina, fezes, a

primeira mídia. Hope dá uma olhada de soslaio pela janela para o dia de abril que vai escurecendo. Uma

luminosidade branca doentia jaz pouco acima do horizonte de montanhas, mas nenhuma luz do sol penetra

diretamente pelas nuvens. A escuridão a oeste expandiu-se e passou também para o sul, e contra o seu

azul-preto flutuam alguns flocos de neve de um lado a outro, para cima e para baixo, como se não fossem

jamais tocar o chão. Mas ela sabe nos seus ossos sensíveis que o dia não está frio o bastante para nevar,

pelo menos nesta altitude mediana. No alto, perto dos picos, onde os alegres esquiadores deslizam sobre

o granular congelado quase no fim da estação, a neve pode se acumular, mas aqui embaixo ela se

transformará em chuva. O formigamento do suspense faz com que ela esfregue os braços por cima das

mangas de lã. Ela se pergunta se já seriam três horas. Nunca teve o hábito de usar relógio, mesmo quando

vivia num mundo de compromissos urbanos. Sabe que o tempo é mais elástico do que diz o relógio. Algumas atividades — pintar, jogar tênis quando ela e Jerry ainda eram jovens o bastante para esportes

— o aceleram, então uma hora passa como se a sua vida tivesse pulado um dente na engrenagem, e outras

— cuidar do jardim, tarefas domésticas, ter conversas com companhias incômodas — o esticam como se

a vida fosse durar para sempre, como aqueles flocos de neve incapazes de tocar o chão.

“Você acha”, Kathryn pergunta no tom acusatório que sua voz assumiu desde que Guy se tornou o

tema, um tom que faz Hope recordar-se de uma filha cheia de induzida indignação psicoterapêutica, “que

você e Guy estavam tentando provar alguma coisa?”

“E o que teria sido?”

“No caso de Guy, que ele não era gay, e no seu, que você ainda era uma mulher jovem.”

“Eu era, não era?”

“Não para ser mãe.” A voz da moça retraiu-se defensivamente, pois nunca tinha sido mãe.

“Oh, querida.” Hope dá um suspiro de pena. “Eu tinha metade da idade de agora. Devia ser bastante

jovem.”

Os filhos. Quem haveria de pensar que eles se encaixariam como parte do passado, um capítulo

encerrado? Durante vinte anos estiveram presentes a cada momento, não meramente companheiros e

dependentes na sua vida, mas a própria justificação da vida, de seu ambiente quase total, seu ego

inocente e voraz preenchendo todo espaço com seus choros, e sua comoção acelerando cada dia, de

modo que o tempo passava voando, pelo menos assim parece num olhar retroativo por todos aqueles véus

de mudança e crescimento que rompia limites, um crescimento com suas fatais correntes subjacentes de

deixar para trás, de deixar um conjunto de brinquedos para trás e ter fome de outro, de abandonar dificuldades de fala e gramática errada, de desaprender os encantadores erros no falar, ganhos deles,

perdas dela, a respiração deles sendo a respiração dela ao se curvar sobre as camas onde dormia cada

cabecinha, morna e úmida ao seu toque na febre da vida nova e frágil, na beleza de outro mundo que são

as crianças dormindo, os membros abandonados fluindo palidamente entre as cobertas desarrumadas, os

sonhos às vezes despertando-os para o terror, os temores deles sendo os dela mesma, a raiva deles sendo

nódoas no coração dela, as perdas e ganhos deles sendo dela enquanto cresciam dia a dia, centímetro por

centímetro, penetrando na linguagem, nos costumes sociais, na escolaridade, em personalidades cada vez

mais definidas e limitadas — Paul desconfiado e correto, e astuto como o pai; Piet excitável e maleável

como ela; e a pequena Dot, que herdou o nome Dorothy aos treze anos quando sua avó morreu, uma

intrigante e instável mistura de genes latentes por gerações, lábios carnudos e pele morena amante do sol,

e rebelde cabelo preto que podia atribuir apenas à avó materna de Hope, Virginia Lafitte, que veio de

Nova Orleans e que morreu no ano que Hope nasceu, e ao fugido pai de Guy, cujas fotografias mostravam uma coroa de cabelo escuro empinado e pronunciadas sobrancelhas pretas acima dos olhos brancos como

leite, levemente protuberantes. Dot insistia, como uma moleca, em vestir roupas de menino, em ser como

o papai. Até os seis ou sete anos, seu sistema nervoso a acordava no meio da noite e a levava ao quarto

dos pais em busca de conforto. Tantas vezes repreendida por perturbar o sono deles, ela se resignou a

esperar sozinha que fossem embora os feitiços que a mantinham desperta; Hope se entristecia, com uma

tristeza que parecia próxima da existência humana, ao descobrir no quarto da menina a evidência, na

forma de algumas bonecas espalhadas, uma casa de bonecas desarrumada, ou um livro de figuras aberto,

de que ela se entretivera sozinha no fosso da noite enquanto seus irmãos e pais dormiam, metidos a salvo

dentro de seus sonhos. Em algum ponto da infância de Dot, no apartamento da East Seventy-Ninth Street,

eles compraram um gato, Pierre, um siamês sem garras com uma cabecinha sedosa que ele forçava a ser

afagada, com a força de um punho e um ronronar que podia ser ouvido no quarto ao lado: o propósito de

Pierre, que nem Hope nem Guy o admitiram tão abertamente, era prover Dot de outra criatura noturna

enquanto seus pais dormiam absortos em si. Que estranho o pouco que a memória de Hope trouxera à tona daquela longa e atropelada peregrinação pela maternidade — o empurrar do crânio ronronante de

Pierre; o peso morto feito um saco de açúcar do pequeno corpo de Piet quando ela o amamentava no

enorme pufe de couro (Paul, no ano anterior, tinha parecido tão mais leve, embora a diferença dos pesos

de ambos ao nascer tivesse sido de apenas cento e quinze gramas); o cheiro de linóleo das barulhentas

escadas da pré-escola secular do lado do parque num dia chuvoso; o interminável recolher de blocos e

peças de Lego e carros plásticos quebrados e bonecas Barbie sem roupa; as refeições para as crianças,

de ervilhas e pedaços de peixe e sanduíches cortados em pedaços do tamanho de dominós sobre pratos de plástico com desenhos de confusos patinhos, toupeiras, ouriços e coelhinhos, de casacos azuis com

botões enormes.

No seu olho mental Hope vê uma mão feminina marrom com sua unha descolorida, a mão de Brenda

ou Martine ou Josie colocando um prato desses diante de uma das crianças na mesa branca da cozinha, e

admite para Kathryn: “Eu tinha ajuda. Você tem razão, eu era velha demais para ter três filhos com menos

de quatro anos. Só correr atrás deles me dava dor nas costas, e no inverno era só acompanhar todo mundo

durante dez minutos no playground do parque até que começassem a choramingar que estavam com frio.

Felizmente, Guy tinha bastante dinheiro, quantias ridículas após 1962, então pudemos contratar ajuda,

babás, embora não as chamássemos assim; havia a moça diurna que cozinhava para as crianças e a moça

das cinco às sete que lhes dava o jantar que a moça diurna tinha preparado, além do banho nos meninos.

Eu cuidava de Dot em outra banheira, os meninos ficavam brincalhões e agitados demais para mim, e ela

tinha medo que entrasse sabão nos seus olhos. Eu queria fazer tudo, porque a minha mãe não teve ajuda,

mas era velha demais e mal-acostumada, suponho, e preocupada em querer voltar à minha pintura.”

Sua memória agora remete à pobre Dot aos treze anos indo a Brearley, chorando e berrando ali no

saguão de entrada porque o aparelho nos dentes e as espinhas a humilhavam, e ela não queria ir, nunca,

nunca, ela odiava aquelas piranhas magrelas e loiras, delicadinhas e mimadas. A figura de Dot na

adolescência tornara-se atarracada, e sua pele descorada estava estourando, e Hope sentia-se tão

impotente, incapaz de mudar o corpo da filha da mesma forma que podia raspar e refazer uma pintura, e

não havia pai presente para dizer a Dot que ela ainda era uma garotinha linda, porque a esta altura, em

1975, Guy já tinha ido embora. Sua mãe morreu e ele se foi, como se o desejo distante dela, seu senso de

propriedade, o estivesse mantendo aqui, entre quartos vazios, brinquedos esquecidos e vozes femininas.

Paul e Piet tinham ido para um internato. Jeanette Nova — Bernie também morrera, um velho mestre

loquaz gozando acanhadamente a fortuna dos holofotes após uma vida de desafiadora obscuridade, mas

Jeanette seguia vivendo, cada vez mais magra, um fio vibrando no tear da cidade, mantida viva pela

decoração de interiores e festas em galerias e fofocas — disse que era um elogio para Hope que ele tivesse ficado tanto tempo. Ela fora uma santa, fazendo-se de cega daquele modo. Fazendo-se de cega?

Mas Hope na verdade não queria perguntar, Fazendo-se de cega em relação a quê? Jeanette circulava

agitada, suas mãos enrugadas cheias de anéis prateados tremulando na sala que abrigara essa conversa,

luzes da cidade salpicadas atrás das janelas de vidro triplo, talvez um traço de vingança na sua animação,

o afeto das duas mulheres uma pela outra era uma mistura, como café irlandês, de várias facetas.

“Ninguém”, ela disse a Hope na sua voz rouca, maltratada por festas, “previu todos esses filhos.”

“As pessoas ficaram surpresas”, Hope diz a Kathryn, “que Guy tenha provado ser o pai que foi, mas

essa era a sua natureza, dar uma chance a tudo e ser produtivo. O que ele não tinha, suponho, era poder de

permanência. Seus estilos tendiam a durar dois ou três anos no máximo, e frequentemente ele trabalhava

em dois estilos ao mesmo tempo. Por exemplo, ao mesmo tempo em que fazia aquelas hilárias

reproduções plásticas enormes de junk food, totalmente lambuzadas de tinta, exatamente como um Big

Mac de verdade, com mostarda, ketchup e raiz-forte, ele e seus assistentes produziam aquelas serigrafias

múltiplas de acidentes de carros e cadeiras elétricas, após 1963, depois da aparência aturdida de Jackie com aquele chapéu, com uma sensação visual diferente, impessoal, naquelas cores fosforescentes

geladas. Apesar de haver em tudo que Guy fizesse uma receptividade ao acidental, ao não planejado. É

um paradoxo: Zack, cujo melhor trabalho tem total aparência de acidental, como se um dervixe

rodopiante tivesse sido solto entre as latas de tinta, na verdade era muito enfático em insistir que seu

trabalho não tinha nada de acidental, como posso ter dito antes; perdoe-me, Kathryn, se já disse. Era uma

das poucas coisas consistentes em suas declarações públicas, quando Clem e eu não tínhamos de pôr as

palavras na sua boca. Tinha a ver com a dignidade do que estava sendo feito, seu controle masculino sobre a obra. Ao passo que Guy, que fizera de si uma espécie de fábrica, uma vez tendo comprado aquela

casa na cidade, na Twenty-Seventh Street, chamando-a de Hospício Holloway, chegando a assinar tudo

com um ‘hh’ de impressão, dependia do acidental, da intervenção da imperfeição humana. Lembro-me,

antes de ficar tão claro que ele não queria me ver no Hospício — e ele muito feliz com o bando de

esquisitões e drogados ali reunidos — de tirar uma tarde longe das crianças e ajudá-lo com algumas

serigrafias em acrílico; eu estava interessada em aprender o processo, não tinha encostado um pincel

numa tela havia anos, não tinha feito nada a não ser um esboço em carvão das crianças dormindo e uma

ou duas pinturas em guache da vista das janelas do apartamento. Em todo caso, lá no Hospício — Guy

alegava que o nome queria dizer que a arte estava nas últimas, era lá que ela tinha ido para morrer — ele

olhou meus resultados daquele seu jeito rápido, quase assustadoramente concentrado, e disse: ‘Não,

querida, você as fez perfeitas demais, precisa permitir um pouco de descuido. Olha aqui’. E lambuzou

várias delas com o lado da mão, e, uma vez superado o choque, pude ver que estava melhor, o mecânico

havia sido tocado pelo humano, o que aguçava toda a ideia de repetição, de um processo repetitivo. As imperfeições somos nós, tentando romper a casca. Quanto menor a imperfeição, de certa forma mais viva

ela é. Ele deixou de inserir caixas de papelão rasgadas nas composições para duplicar as próprias

caixas, da forma mais precisa possível, mas ainda assim é possível ver que foram feitas à mão. Não creio

que seus auxiliares no Hospício compreendessem melhor do que eu por que fazer uma serigrafia de um

parágrafo de jornal é apenas copiar, mas fazer todo um monte delas, dezesseis, todas sobrepostas de

cereja ou turquesa, era uma obra de arte capaz de dizer algo numa parede de museu. Zack estava

interessado apenas em expressar o que o pintor sentia, e Guy, mais no que o espectador via. À sua

maneira era um teórico tão sofisticado quanto Bernie e Roger, mas nunca falava de teoria. Pelo menos

para mim.”

Hope sente que está tentando vender Guy para Kathryn como um digno sucessor de Zack, mas a

outra não está comprando a ideia, alguma mácula ou pequenez em relação a Guy prende-se à sua mente,

ao passo que Zack é todo glamour em tela grande. A voz da moça, agora enrouquecida com um toque raspado de catarro enquanto a sala esfria de tom com o escurecer cuspindo neve do dia lá fora, sugere

que já ouviu demais a respeito de Bernie e Roger e teorias artísticas. “Você trouxe à tona o Hospício”,

ela diz em tom acusatório. “Havia um bocado de atividade com drogas associado ao pessoal que transava

por lá, especialmente quando Guy começou a fazer filmes experimentais. Pelo menos um da equipe

morreu de overdose de heroína, e uma atriz num dos seus filmes — impossível de se assistir, é claro; a

brincadeira era essa, imagino — cometeu suicídio. Como você se sentia, enquanto tentava criar três

filhos no Upper East Side, em relação a Guy saindo todo dia para o local de toda aquela loucura dos

anos-sessenta-começo-dos-setenta?” Uma fungada concludente ressoa no seu nariz longo e entupido.

“Bem”, diz Hope. Ela sente o sangue aquecer suas bochechas, seu sangue quacre subindo para

protestar. “Nunca achei que um artista moderno pudesse ou devesse ser um membro pronto-para-uso da

burguesia. A arte não tem lugar confortável na vida americana; o artista precisa estar fora do sistema.

Mas Guy nunca foi um viciado. Não fumava cigarro e mal bebia. Mesmo na nossa pré-lua de mel na

Costa Oeste, ele era comedido com a maconha; não queria pôr em risco nenhuma partícula do seu cérebro, sabia desde a infância que precisava viver segundo seu juízo. E tinha, é claro, aquela belíssima

habilidade de compartimentar. Como a maioria dos homens americanos, tinha uma vida profissional e

uma vida doméstica. Nós éramos como a protegida e mimada família de um dono de oficina com

péssimas condições de trabalho no século xix, que não trazia para casa detalhes feios. Ele passava uma

noite comigo e os meninos assistindo The Andy Griffith Show, e depois punha um Schubert no hi-fi e

jogava gamão comigo, e na manhã seguinte descia para onde alguns de seus parasitas pirados faziam uma

suruba a três com as câmeras rodando. A sordidez não incomodava Guy, pois ele a via como parte da realidade urbana pela qual passamos diariamente. Tinha grande fé na sua capacidade de se manter puro,

um transmissor puro, transformando tudo em arte. E fazia isso simplesmente dizendo que era arte. E sem

jamais levantar a voz; era isto que mais me maravilhava nele, seu bom humor e gênio equilibrado. Com

as crianças ele, acredite ou não, era um disciplinador calmo, eu era cabeça quente demais e tomava tudo

que elas faziam como uma afronta pessoal. Quando Dot entrava no nosso quarto e nos acordava, apesar

de termos lhe comprado um gato, era eu que — qual é a expressão? — ‘ficava uma vara’ e Guy era quem

a tranquilizava e a levava delicadamente de volta para a cama. Ao mesmo tempo, alguns dos críticos da

sua arte, que a esta altura já se sentiam à vontade com o expressionismo abstrato, justamente quando ele

estava claramente morto, o denunciavam como um anticristo artístico, uma espécie de Rei do Desgoverno

reciclando tudo que era crasso e estúpido na vida americana e iludindo os museus a exibir aquilo; Robert

Hughes na Time era especialmente virulento. Era verdade, os diretores de museu gostavam do que ele

fazia, aquilo combinava com tudo fora do museu pelo que as pessoas precisavam passar para chegar lá;

conectava-se com a vida da rua. Conectava-se com a loja de presentes.”

“Bem, você é certamente generosa ao falar de Guy.”

“Ele foi generoso comigo. Mesmo no final, no acordo. Dinheiro era uma coisa que não o

interessava, exceto sua real aparência; ele sempre disse que o dinheiro americano era o mais bem

desenhado. Não tive de me casar com Jerome Chafetz por razões financeiras. Eu o fiz porque nós nos

apaixonamos.”

Kathryn produz o que soa para Hope como um suspiro pelo nariz, ligeiramente líquido. Pobre

coitada, ela está lutando contra um resfriado e ainda tem uma longa viagem de carro de volta para a

cidade pela frente. E ainda está aguardando para acompanhar esse amor do qual Hope fica se

pavoneando. Algumas mulheres se apaixonam com facilidade e têm bebês com facilidade, e seus genes se

derramam pelo futuro, tornando a espécie ainda mais romântica. E aí existe esse outro tipo de mulher,

onde a coisa para. A entrevista deve estar chegando ao fim.

“Sua filha, Dorothy. A preferência sexual dela te chocou ou perturbou?”

Agora Hope dá um leve suspiro, voltando a cruzar as mãos sobre o colo depois de se balançar uma

ou duas vezes, tentando pensar qual seria uma resposta honesta. Seu desgraçado amor pela filha lésbica

forma dentro dela um pântano negro de tristeza que suas viagens interiores geralmente contornam. Ela

empaca, ganha tempo. “Não, por que haveria?”

Sua primeira e única filha necessariamente negligenciada. Os meninos ainda eram pequenos, uma

ameaça a si mesmos e um ao outro; ela punha o bebê para descansar no carrinho de vime no andar da sala

de estar como um pacote endereçado a outra pessoa, e quando suas passadas apressadas diziam ao bebê

que havia alguém por perto, a pequena Dot se remexia no seu casulo de cobertas com, assim parecia,

puro prazer de estar compartilhando a terra com outra presença viva. Tomada nos braços de Hope, seu

corpo morno e sólido tensionava-se e estremecia em sua indizível bem-aventurança particular, como uma

canção que ela não podia evitar cantar; sugava avidamente, apertando e soltando um dos dedos da mãe

numa mãozinha enrugada que agarrava com a maciez de uma erva-bezerra. Seu corpo aderia e se ajustava

ao de Hope, o que não acontecera com o dos meninos, que resistiam e empurravam desde o início. Como num espelho embaçado, seu próprio espírito se curvava sobre o sopro vital deste outro ser feminino,

antecipando os jogos que compartilhariam, o retorno à sua própria infância, e ao mesmo tempo

consignando Dot ao estoicismo de seu sexo, sentindo-se justificada em negligenciá-la durante esse

intervalo, enquanto as exigências dos machos da família tinham precedência. Seus irmãos continuaram a

superá-la, a gritar mais alto, a brilhar mais; ela e a mãe nunca tiveram realmente a união plena e sincera

de espíritos, a abertura para a conspiração afetuosa que Hope antecipara. Em vez disso, bloqueios,

estagnação. Quando ela levava a criança para passear no seu carrinho pela barulhenta área da Seventy-Ninth com o Parque, a avenida fabulosamente larga parecia uma imensa esteira deslocando-se

ruidosamente com seus táxis amarelos rumo à barreira do edifício Pan Am, a trinta quarteirões de

distância e, como uma esteira, essencialmente sem ir a lugar algum.

Kathryn não se dignou a responder. Está esperando que sua vítima elabore, que vá buscar outra

pepita disforme no charco da memória. Qualquer coisa que Hope diga sobre Dorothy será gravada e

possivelmente impressa, embora ela duvide que esta desajeitada, implacável interrogadora, sua

substância espiritual tão densa e inflexível, venha a colocar impressa mais do que uma minúscula fração

destas palavras gravadas nesse artigo que está escrevendo para, agora Hope se lembra do velho

telefonema delas, uma revista “on-line” que existe apenas no ciberespaço.

Continuar: parte 8 de 11