Busca minha face
“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto...
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
pequeno celeiro estava abarrotado de equipamentos de lavoura enferrujados que não eram usados desde
a Depressão. Não havia aquecimento central, nem água quente, nem banheiro, como eu disse. Aquele
primeiro inverno foi brutal, o pior em anos, os moradores nos disseram. Quando soprava uma tempestade
do mar parecia que a nossa casa era a primeira coisa a ser atingida. E não tínhamos carro, íamos à cidade
de trem quando precisávamos. Henry Drayton, que dirigia o armazém de gêneros a meia milha pela
estrada, emprestou a Zack dois dólares para comprar uma bicicleta velha para ir e voltar. Henry vendia
tudo a crédito no inverno: comida, utensílios, bebida, tintas. Um bocado da pintura de Zack foi feita com
marcas industriais — Duco, Devoe — direto das prateleiras de Henry. O outro estabelecimento
comercial nos Flats era um bar chamado Lemon Drop, a cerca de uma milha de distância. Um pouco
longe para ir a pé num dia de mau tempo, porém Zack o fazia. Ele se queixava que ninguém conversava
com ele como nos bares de Manhattan. Os moradores simplesmente ficavam ali sentados com suas bebidas, resmungando entre si de vez em quando. É claro, eles se viam todos os dias, todos eram casados
entre si. Chamavam-se mutuamente de ‘cara’; no começo Zack pensou que o estavam insultando, mas era
o linguajar deles. As mulheres eram ‘bonecas’, as crianças eram ‘moleques’, e o pessoal de veraneio
eram ‘flutuantes’. Nós éramos ‘flutuantes’, pobres do jeito que éramos. Eles não confiavam em nós, como
iriam confiar? Zack se importava com isso mais que eu. E trabalhou para quebrar a resistência deles; de
algum modo ele e Henry se entretinham mutuamente, e a turma no Lemon Drop foi esquentando. Mas
naquele primeiro inverno o vento e o frio estavam tão ferozes que não saímos por dias; ficamos
simplesmente encolhidos em volta do forno a lenha, debaixo de cobertores e tomando café para nos
mantermos aquecidos. As coisas não paravam de quebrar: a bomba no porão quebrou de vez, a varanda
estava desabando, as janelas estalavam como metralhadoras. Não estávamos felizes, estávamos
frenéticos. Zack mal pintava, estava frio demais na sala de cima da qual ele tirara o entulho. Ainda assim,
era uma delícia não tê-lo de ressaca a maior parte do tempo. Estava tão ingenuamente orgulhoso de possuir uma casa. Sua família nunca teve uma, depois que o pai foi embora. Os vendedores queriam
quatro mil e quinhentos, nós os fizemos baixar para quatro redondo. Para levantar o dinheiro da entrada,
Zack teve que praticamente vender a alma para a galeria de Peggy. Os bancos não queriam nada conosco,
até que por fim um banco em East Hampton concordou com uma hipoteca, depois que Roger intercedeu
por nós. Ele viera até a Ilha, também, mas é claro que em condições bem diferentes. East Hampton ficava
a sete milhas de distância, pela Fireplace Road, mas a anos-luz socialmente falando, naqueles tempos.”
“Você não era solitária?”
Hope dá à pergunta um segundo de reflexão. Quer ser honesta sem alimentar o desejo da jovem
inquisidora de se interpor entre ela e Zack, encaixar o casamento deles numa moldura de certa forma
lisonjeira para ela.
“Eu queria ser. Queria estar sozinha com Zack, porque eu o amava e porque era a melhor coisa para
ele e seu trabalho. Éramos recém-casados e essa foi a nossa lua de mel.”
“Qual era a sua idade?”
“Nós nos mudamos em novembro de 1945. Eu fiz vinte e quatro em maio de 1946.”
“Você não era terrivelmente jovem para assumir uma responsabilidade como essa?”
“Na guerra ninguém parecia jovem. Zack era dez anos mais velho, mas, como eu disse, era uma
criança. Ele carecia de mais ou menos metade dos componentes de um ser humano maduro.”
“É mesmo?”
“Kathryn, como é que você pode duvidar? Você sabe o que aconteceu depois.”
Isto cala a dona das dúvidas. Hope prossegue: “E então, por fim, a primavera chegou. Naquele ano chegou cedo, na verdade. Nas dunas havia todos aqueles diminutos brotos rosados; as pessoas os
chamavam de uva-ursina. Os fazendeiros começaram a arar o azevém para o plantio de batatas. Os
pescadores começaram a pôr as redes para a perca listrada. O mar, o mar que tinha sido um inimigo tão
sombrio e amargo enquanto sofríamos ao longo do inverno, abrandado na cor, tornou-se de um suave
azul-esverdeado. Zack ficou em êxtase. Eu mal conseguia fazê-lo vir para dentro. Ele cavou e plantou
uma grande horta de verduras e melões, como seu pai fizera anos antes. Trouxe para casa um cachorro
vira-latas do qual um vizinho quis se livrar; ele tivera um cão malhado daqueles quando criança.
Caminhávamos milhas com aquele cão, Trixie, e pedalávamos as nossas bicicletas por toda parte, até
Montauk, ida e volta, até East Hampton, ida e volta. Era um prazer andar de bicicleta, não havia nada
parecido com o tráfego de hoje. A última vez que visitei os Flats, para verificar o museu que fizeram da
nossa velha casa, fiquei impressionada com como tudo tinha ficado sufocante: o tráfego anda e para por
toda Route 27, as pessoas de Nova York trazem seu congestionamento com elas, junto dos laptops e o
Starbucks.
Hope recorda a sensação, nova para ela, de apossar-se de uma região, criar uma faixa de cenário e
história próprias, achar um canto verde nos Estados Unidos onde ela e Zack puderam saborear a
liberdade. As transações mais simples da vida campestre lhe davam prazer — ser recebida como
“madame McCoy” por Henry Drayton em seu armazém com um meneio solene e irônico que mostrava que
ele sabia que ela estava aguentando dureza, mas saudava sua irredutível juventude e desenvoltura. Ele
somava a compra à sua longa lista, ela pedalava de volta para casa lutando com o pesado balanço do
guidão por causa da cesta carregada, entre os recém-semeados campos de batatas e as amoras silvestres
que brotavam ao lado da estrada. Os sinais mais mundanos de aceitação comunal a levaram de volta para
Ardmore, onde os comerciantes pareciam gigantes na porta dos fundos, membros da família. O encanador
dos Flats, Al Treadwell, esgueirava-se ruidosamente para dentro do andar inferior, para avisá-los em
caso de estarem fazendo amor no andar de cima, ao instalar, pedaço por pedaço, papelão por papelão, um
banheiro simples mas que funcionava, pondo fim, de vez, às invernais viagens sob o vento forte até o banheiro externo. Durante duas semanas, mais tarde naquele verão, quando a albízia soltou seus brotos
penuginosos sobre o gramado em cujo centro algum dono anterior deixara uma coleção de umas seis
pedras enormes, ela e Zack acordaram cada dia seco com os sons de assobio e batidas de Jimmy Herrick
e seus dois filhos adolescentes chegando para pintar de branco as gastas ripas da casa e de azul as
guarnições e janelas. A posse dessa casa restaurou-lhe certas simplicidades da infância, quando casas e
quintais demarcavam territórios de segurança e se sustentavam de poços profundos, misteriosas cisternas
transbordando de reservas comunais. “Zack me surpreendia sendo tão prestativo”, ela conta a Kathryn.
“Eu realmente não sabia tanto sobre sua infância, só que seu pai tinha possuído uma fazenda de vinte
acres nos arredores de Santa Fé, e depois que a fazenda faliu e o pai se mandou; ele conseguiu emprego
em construção de estradas, em agrimensura, e voltava para casa cada vez menos, nunca houve uma
ruptura clara. A mãe levou todos aqueles garotos para a Califórnia e ficava se mudando de um lugar a
outro, às vezes algum pequeno internato, não sei quantos; como disse, ele não gostava de falar do
passado, sua família o deixava muito desconfortável, o que pode ter sido outra coisa que tínhamos em comum; o que estou tentando dizer é que ele não tinha medo de fazer as coisas. Serviço de encanamento,
fiação, ele encarava. Ele e Eddie Strode, um bombeiro que conhecera no Lemon Drop, arrancaram todo o
telhado da casa de Eddie, até os caibros.” Na sua visão mental Zack está sentado, a silhueta contra a luz,
sem camisa e rindo, segurando uma lata de cerveja, as pernas balançando de cada lado da viga nua da
cumeeira, atrás dele os claros raios anunciando uma tempestade que chega contra um céu de um azul tão
profundamente índigo quanto o que ela acabou de ver através da claraboia de seu estúdio. Sua cabeça
calva reluzia. “Nem ele nem eu gostávamos do jeito que aquele celeiro sinistro se interpunha entre nós e era visto do ancoradouro, então ele assentou sozinho a fundação de cimento trinta metros morro acima, de
um dos lados, e ele e alguns outros homens envolveram o celeiro e seu alpendre com traves e tentaram
puxá-lo morro acima, mas no fim tiveram de pegar um pescador local, seu nome era Brick, para rebocá-
lo com o guincho na traseira do seu caminhão.” Será que ela já contou essa história a Kathryn, ou só
passou por sua cabeça? Um conto épico, que merece ser contado com frequência; a mudança do celeiro:
Hope ainda pode sentir nas entranhas a sensação de alívio quando o guincho estalou, os cabos se
esticaram, os calços sob a traseira do caminhão foram sustentados e o celeiro, grande e vazio como um
Cavalo de Troia, moveu-se titubeante para a frente sob o grande bordo prateado naquele dia pegajoso, os
homens assistindo, tendo encharcado suas camisas de suor em vão, ovacionando, berrando ameaças e
incentivos uns aos outros, dançando ao redor para ver se o cinturão de traves estava aguentando, a face
de Brick ficando vermelha, sua gorda mão branca segurando com força a manivela preta do guincho, o
crepitante motor transmitindo sua potência ao rolo do cabo, e todos os pregos e rebites sustentando a
tensão enquanto a engenhosidade humana e a boa fortuna convertiam majestosamente o desejo em movimento. Brick tinha um enorme prolapso intestinal, que o arrastou para a morte não muito tempo
depois. “Eu ficava servindo limonada para todo mundo, e depois cerveja quando acabaram. Se não
tivessem feito aquilo, penso nisso”, Hope diz a Kathryn, “o celeiro não teria ficado perto o suficiente da
casa para ser usado como estúdio, e as pinturas de Zack teriam permanecido do tamanho do cavalete. Ele
abriu uma grande janela para o norte no alto de uma parede, mas quando sugeri outra janela mais baixa,
com vista para o porto McGonicle, ele disse ‘Não’, não queria se distrair com nenhuma paisagem. Ele
adorava a vista, passava horas sentado olhando as dunas e os charcos com os patos e os melros de asas
vermelhas, mas queria o estúdio lacrado. Ele não era articulado, mas era esperto o bastante para saber
disso: sua pintura agora precisava vir inteiramente de dentro.”
Ela chega, portanto, a um impasse, um beco sem saída, uma espécie de monumento de expressão
vazia a algo inexorável e judicioso que erguera Zack, com todas suas limitações, muito acima dela.
Recém-casados, ela julgou que se alegrava de ver Zack recobrar saúde e empreendimento, mas havia uma parte dela que se ressentia da maneira como ele se apoderava da sua iniciativa e aceitava seus serviços,
aqueles gloriosos primeiros anos na Ilha, no entanto deixando-a de fora, deixando-a muito atrás como
artista.
Kathryn lhe diz: “As pinturas que ele fez em 1946 têm uma deliciosa sensação de exterior, como
aquarelas. Aquelas claras cores pastéis, quase Matisse, pêssego e verde-limão e azul-claro. E os
movimentos do pincel”, ela continua um pouco ofegante, engatando seu tom de crítica de arte, “são tão
livres, tão fluídos, de algum modo transparentes, no extremo oposto das telas escuras e coaguladas que
vinha fazendo apenas um ou dois anos antes.”
“Nunca gostei desses, mas Herbie gostava”, Hope diz com deliberada dureza, tolhendo o
arrebatamento da outra. “Nós éramos felizes”, ela declara com firmeza. “Dormíamos o mais tarde que
podíamos, passávamos o tempo juntos no jardim pela manhã, ele trabalhava no estúdio à tarde e eu podia
fazer compras e serviços domésticos, passeávamos com Trixie na luz do fim de tarde, voltávamos para
casa e comíamos, escutávamos discos e fazíamos amor. Fazer amor sempre foi fácil para mim, mas não para Zack. Era por isso que ele falava tanto de foder e era tão rude com as mulheres quando estava com a
bebida na cabeça.” E teria sido rude com você, ela não diz, se tivesse estado lá.
Contudo, ela se lembra e pode quase sentir o gosto, uma pepita amarga em meio à sua translúcida
felicidade, sempre tinha sido a ambição de Zack, e o medo que trancava sua ambição do lado de dentro, e
sua insultuosa necessidade da magia alcoólica do autoesquecimento. Seus olhos a surpreendem com a
sensação de estarem quentes e molhados. “Eu fazia amor com ele”, ela conta a Kathryn, “para impedir
que saísse correndo para o Lemon Drop à noite. De toda maneira, ele me fodia, punha a roupa e saía. Caminhava uma milha no escuro para ficar com aqueles homens ignorantes que nem sequer falavam com
ele.”
“Você fez dele um heterossexual”, Kathryn lhe explica, em tom de censura, com aquela fácil
sapiência nova-iorquina que faz murchar tudo que toca.
Hope sente o sangue afluir à sua face em sua ansiedade de deixar de lado uma implicação tão
impudente. “Zack nunca pensou em si mesmo como outra coisa. Biógrafos deram importância demais a
certos incidentes menores. Na adolescência, quando seus irmãos estavam saindo de casa um por um e sua
mãe trabalhava até tarde da noite, ele ficava muito tempo sozinho em Los Angeles, e quando veio a Nova
York mal tinha um lugar para ficar, mas realmente, naquele mundo de macacões operários de onde ele
veio, não havia nada de homossexual em gostar de ficar sentado enchendo a cara com outros homens, era
simplesmente como os homens eram. Ele era desajeitado com as mulheres, mas não insensível a elas.
Creia-me, querida. Não peça para eu entrar em detalhes.”
“Posso perguntar se havia algo de, hã, fora do comum no jeito dele de fazer amor? Você tinha de fazer alguma coisa inusitada para excitá-lo?”
Hope mal pode acreditar que estão lhe perguntando isso, mas aí precisa admitir para si mesma que
merece isso, por se pavonear da sua sexualidade diante daquela mulher jovem — esfregando-a no seu
nariz, como dizem — com sua conversa de ser pervertida e de ir a um baile a fantasia vestindo pouco
mais que pó de carvão. Foi um jeito de atiçá-la, de impedir que Kathryn a metesse num atoleiro, mas não
havia como evitar sua exigência implacável e mal-humorada de que Hope desnudasse a sua vida. E tudo
foi tanto tempo atrás, mesmo antes da metade do século passado, quando ela e Zack vieram aos Flats
banhados pelo sol e afagados pelos ventos, e encheram a maldita velha casa da fazenda com o som de
suas vozes, aumentando o calor de seus corpos com o do forno a lenha, cujo calor tostava a pele e cabelo
pela proximidade, mas morria a meio caminho da subida para o quarto no andar de cima. “Ele era um
homem antiquado sob muitos aspectos”, ela diz à outra mulher. “A simples visão de minha nudez
geralmente já bastava. Não havia toda essa ênfase em oral e anal que há agora, embora ele gostasse, sim, de me pegar por trás. Eu dava para ele como um agrado, embora, é claro, não fosse muita coisa para
mim, fora a parte dos abraços. Às vezes eu ficava insatisfeita e zangada, suponho, mas ainda havia aquela
noção no ar, que a guerra havia reforçado, de a mulher servir ao homem porque eles eram o nosso para-
choque contra o mundo real, o mundo cruel. Eles ganhavam dinheiro e combatiam em guerras. Eu aprendi
a cozinhar quando deixamos Nova York, porque a mãe de Zack sempre pusera na mesa aquelas enormes
refeições do Oeste. No nosso sexo, se você realmente precisa saber esse tipo de coisa, eu usava
diafragma e tinha que adivinhar com antecedência quando ia precisar dele, e às vezes adivinhava errado,
o que era um pouco humilhante. Sua intuição, Kathryn, está correta, pois Zack precisava, sim, em geral,
ser induzido ao sexo, em oposição a estar sempre a fim, como dizem agora. O álcool agia como entrave
quando ele não estava ligado, e ele vivia constantemente preocupado com aquela necessidade de ser um
grande pintor — não um pintor sério e adequado como Mahlon Strunk, nem sequer um pintor famoso
como Benton e Mondrian, mas grande de algum modo profundo, final — ‘existencial’ era a palavra que
todos nós usávamos — que ele não podia se abrir e confessar, mas que todos os pintores que conhecíamos mais ou menos compartilhavam. Eles estavam aí para um jogo grande. Zack não tinha a
facilidade, a formação intelectual de Roger ou Bernie, e não era um pintor tão natural como Onno a ponto
de fazer suas coisas na tela durante horas por dia e depois simplesmente esquecer, como um exercício
natural; para Zack não era nada natural: ele precisava encontrar, ou inventar seria melhor, uma maneira
de poder ser fluente como os outros, e apesar de Bernie adorá-lo e Peggy sustentá-lo com todas as
cobranças, e Clem pensar que seria uma aposta garantida ele fazer seu próprio nome como crítico, Zack
sabia que ainda não tinha encontrado, aqueles painéis que parecem aquarelas pintadas por Matisse que você estava elogiando ainda não tinham chegado lá, embora você esteja certa, estavam mais perto, eram
mais livres; ele se afastara daqueles mortais muralistas mexicanos marrons e aquele entulho surrealista
estilo Miró. O que estou tentando dizer com tudo isto — coitado do seu gravador! — é que, apesar de
não ser muito autorreflexivo, Zack sabia que mudar-se para a Ilha comigo poderia ser sua última chance
de ser grande. Para você, isto soa estúpido e ingênuo, tenho certeza, ser grande, mas para Zack essa
possibilidade era muito real, e para os outros pintores também, como eu já disse, uma noção muito
americana, sem dúvida, uma espécie de estado sagrado — imagine se Picasso teria se incomodado com
uma ambição tão grosseira, como poderia ter brincado como brincou? — e o tempo estava se esgotando.
E ele agora tinha a mim para cuidar dos obstáculos para ele e fazer uma tonelada de trabalho chato e ficar
horas ao telefone tentando levantar a cotação dele na cidade; eu fingia acreditar nele mais do que
acreditava, e aí, por volta do nosso segundo ano na Ilha, virei crente. Então ele tinha um motivo para
tentar evitar o Lemon Drop e, quando ia à cidade, o Cedar e as festas; não era só me comer que o
mantinha em casa. Zack passou a tomar vinho e cerveja sozinho. Roger tinha um lugar em East Hampton, na seção de Georgica, e Onno e Renée tinham comprado em Two Holes of Water Road um amplo sobrado
antigo de madeira que pintaram de um sardônico púrpura-pascal para aborrecer os vizinhos nervosos, e
Bernie e Mahlon foram atrás, em 1948; Mahlon e Myrtle foram até Montauk, tipicamente isolando-se um
pouco, de modo que havia uma verdadeira colônia de artistas crescendo, com montes de festas e birita, e
foi depois que Roger levou uma garrafa de Jack Daniel’s para aquele lugar em Fireplace Road, onde
estavam dando um jantar para ele e Tasha com dois outros casais e Herbie, que Zack solenemente a
entregou de volta para ele e, olho no olho — sempre houve um pouco de sangue ruim entre ambos; Roger
era tanto aquilo que Zack não era, tão sem esforço, naturalmente —, lhe disse: ‘Obrigado, mas não
preciso mais desta coisa’.”
Será que ela se enganara? Houve sim um momento desses, mas teria sido Onno quem lhe dera a
garrafa de presente? Não Bernie, ele era sensível demais. E seu relato deixou de fora os tranquilizantes
que o médico em Southampton prescrevia e que deixavam Zack tão dopado e amável que nem ia ao celeiro, só perambulava o dia todo com Trixie pelos campos e dunas. E as farras aqui e ali que o faziam
cambalear de volta para casa às três da manhã, tendo desmaiado no mato ao lado da estrada quando
voltava do Lemon Drop. Após dois anos pedalando e pedindo carona, juntaram um dinheiro sofrido para
um carro, um Ford Modelo A que custou noventa dólares, e Hope ficava deitada desperta no andar de
cima, aterrorizada que ele jogasse o carro contra uma árvore; suas bebedeiras tinham adquirido um
potencial letal. Ainda assim, Zack juntara-se a ela na sua luta contra a bebida, estavam do mesmo lado do
problema, e se para dominá-lo fosse necessário virar as costas mais do que ela teria escolhido para si,
assim era a vida da criatura, e o prêmio potencial valia a pena. Ela adoraria ver a grandeza desse homem
sair de dentro dele. E, para ser justa, Zack era lindo, aquela sua penugem loira, pequeninos pelos
enrolados sobre o bronze da pele, e o musculoso empurra-e-puxa do seu torso sob a luz de verão, das
clavículas e mamilos até a moita púbica lá embaixo, todo o terreno clássico da anatomia humana
simetricamente subdividido como os moldes de gesso de kouroi na Cooper Union, um abdome de jovem
apenas com uma ligeira barriguinha que Zack tinha aos trinta e cinco anos, o inchaço do álcool contrabalançado pelos serviços de carpintaria em casa e suas caminhadas e o trabalho no jardim. Com a
maré de álcool vazante de seu sistema, Zack cheirava a cigarros e óleo de linhaça e terra de jardim e ar
salgado. Quando Trixie levava um jato de gambá, o cheiro do bicho se espalhava do pelo do cachorro
para as mãos e os jeans azuis de Zack, e dele para ela, e por estarem tão sozinhos naquelas primeiras,
gloriosas e duras temporadas na Ilha, não se importavam. Ela pode ver-se ajoelhada lavando as costas
dele, ela também nua, na velha banheira de ferro fundido com pés em forma de garras que Al Treadwell
resgatara de outro serviço e, economizando-lhes dinheiro, como ele não se cansava de ressaltar, instalara no banheirinho novo; ela pode ver a si mesma, seus braços sardentos arredondados, seus dedos curtidos
pontudos, ensaboando as costas e os ombros de Zack enquanto ele fumava um cigarro dentro da banheira,
mantendo uma mão seca para retirá-lo da sua boca pensativa e bater a cinza na lata de amendoim que no
aposento servia de cinzeiro.
“Quando foi que ele começou a respingar?”, Kathryn indaga, e rapidamente ela própria responde:
“No começo de 1947? O que você se lembra desse momento? Pareceu algo histórico para você e Zack?
Ele falava disso como algo revolucionário?”
Subitamente entediada, como que tocada por uma mão pegajosa pela desolação dessas mesmas
velhas perguntas, Hope procura escapar rumo à janela e vê que pequenas nuvenzinhas balofas, meros
retalhos, apareceram no azul imaculado rico em ozônio emoldurado uma hora atrás pela claraboia. À
medida que o sol aquece as montanhas, esses tufos de vapor são atiçados para a visibilidade acima dos
vales. As janelas da saleta da frente, com cortinas de um chintz desbotado com rosas mais marrons que
vermelhas, têm treliças delicadamente finas, que eram um dos charmes da casa quando Hope se apaixonou por ela e persuadiu Jerry a comprá-la. Jerry não conseguia vê-la como grande parte do seu
futuro, mas ela sabia nas suas entranhas que a casa seria sua para o resto da vida. Não só os caixilhos
corrediços, mas o vidro em si, as vidraças com bolhas levemente onduladas, vidraças de coloração
ligeiramente violeta, pareciam finíssimas, como a pele de uma pessoa velha; uma lufada de vento de
certo ângulo, ou mesmo um instante de resfriamento num fim de tarde, e a janela vibra como uma corda de
harpa sendo tocada. A casa conversa com ela. Essa moça não está evitando o óbvio, conforme sua voz
polida e fatual ao telefone parecera prometer; houvera algo difuso e descentrado em sua proposta que
levou Hope a dizer sim e marcar um dia bem no futuro, que acabou sendo hoje. Se apenas estivesse fora
da casa, Hope poderia ficar em silêncio, e o passado teria permanecido intocado, como folhas caídas na
floresta: cutuque algumas folhas e as traças saem em debandada, miseravelmente expostas, em pânico sob
a claridade. Houve nos seus anos com Zack uma dor considerável que não se foi; a incurável dor dele
havia passado para ela pelo contato e se transformado numa área de vergonha, de culpa. Ela o alçara para a grandeza que ele queria — achara para ele o espaço de que necessitava —, mas talvez para servir
a si mesma, não a ele. A natureza de Zack fora frágil demais para o sucesso.
“A coisa essencial”, ela diz comportadamente à entrevistadora, “foi o próprio celeiro, fazer dele um
estúdio. Ele nunca tinha tido antes uma área grande o suficiente para trabalhar. Desde que conheci Zack
ele movia a pintura no cavalete, olhando-a de lado, ou de cabeça para baixo, ou mesmo pintando a tela
dessa maneira; seu instinto era libertar a imagem da gravidade. Mesmo aquelas cenas de família
figurativas do começo dos anos 1940 são como um jantar visto de cima.”
“Ou como as pinturas de areia dos navajos que ele tinha visto quando criança.”
“Zack”, diz Hope, balançando um pouco para trás e falando em tom neutro para ocultar o ódio que
está começando a sentir por essa intrusa bisbilhoteira, voltada apenas para si, “nunca foi um sujeito
típico do Oeste como gostava de deixar transparecer. Era, no máximo, um Angelino: seus anos críticos no
ensino médio foram em Los Angeles, junto dos primeiros professores de arte que foram, de certa forma,
inspiradores. No entanto, uma vez que grudava com fita a tela ao piso do celeiro, podia atacá-la de todos os lados, e o gotejamento começou a acontecer. Respingar era um jeito de ele atingir o centro da tela. Há
tinta espalhada no seu trabalho inicial, é claro; ele já pintava com o tubo mesmo antes da guerra, e os
surrealistas haviam brincado com o derramar ou espirrar de tinta para dar efeitos automáticos. Sabe,
Matta, Masson. Mas Zack sempre insistiu que não havia nada de acidental em seu gotejamento, que tudo
era intencional. Era verdade, ele aprendeu exatamente a como tornar a tinta delgada e que instrumentos
— bastões, mato seco, conta-gotas de vidro — podiam fazer o quê. Ninguém jamais havia tentado antes
dominar esses recursos; era maravilhoso observá-lo, tão gracioso e seguro de si, de um jeito que não costumava ser habitualmente. Penso que foi isso, seu porte atlético, que gerou a publicidade, o apelo para
as massas: era como o que viam nos filmes. Aquele torso lindo numa camiseta preta, os jeans escuros
apertados, a cabeça careca, a intensidade. Ele não era só extraordinariamente gracioso, era decidido.
Quando aquele alemão horrível, vivo esquecendo o nome dele...”
Kathryn fornece o nome.
“Sim. Quando Hans fez aquelas filmagens, queixou-se de que Zack não hesitava o suficiente, não
ponderava, simplesmente pulava dentro, borrifando e sacudindo seu bastão molhado no ar. Isso fazia
parte, a rapidez, quando ele estava, como costumava dizer, dentro da coisa.”
“Que maravilhoso de assistir!” Kathryn exclama espontaneamente, Hope conclui, e não para
demonstrar que ama Zack de forma mais pura que Hope jamais amou, esse homem morto vinte anos antes
de ela nascer.
“Eu não assistia com frequência. Teria sido violar sua privacidade, perturbar o processo.” Ela
continua forçando com sua queixa: “Hans tinha uma ideia de diretor de como um pintor devia pintar, com muita contemplação. Zack saía para o celeiro e contemplava à noite, eu sabia que ele olhava as obras em
andamento o dia todo e nunca as tocava. Mas em ação ele tinha um ritmo a manter. Uma espécie de jazz,
os pés não podem tocar o chão. O alemão interferia nisso. Havia repetição de tomadas e esperas
enquanto o câmera mudava para uma nova posição, ou rebobinava o filme. Zack ficava ali parado,
esperando com seu bastão de gotejamento, enquanto o alemão conversava com ele. Estava sendo dirigido
e, aceitando a direção mais ou menos humildemente, isso fez Zack voltar a beber, acredito sinceramente
nisso. Uma pessoa comum não teria levado tão a sério o negócio todo, encarando-o como um mero
caminho para ganhar dinheiro — pois ainda não estávamos ganhando dinheiro, umas poucas vendas por
algumas centenas de dólares aqui e ali, durante todos os anos 1940, quando, graças à Life, tínhamos
ficado bastante famosos, ‘notórios’, creio que é a palavra real —, mas Zack não era uma pessoa comum.
Ele tinha aquele antiquado senso de honra machista, e colocá-lo em exposição daquela maneira — apesar
de Picasso conseguir fazê-lo, até mesmo de calção de banho, já velho —, para Zack, era a traição da única coisa em que ele acreditava: a pintura. As pinturas que fez diante da câmera para ele eram inúteis,
tanto que nunca as olhou nem as exibiu, eram fracassos porque ele não estava nelas, estava na câmera.
Seu jeito de trabalhar produzia fracassos, é claro. Às vezes os quadros ficavam aquilo que ele chamava
de ‘sujos’: gotas demais, borrifos demais, a superfície toda coberta, e qualquer ritmo se perdia. Então,
para aliviar, ele recortava pedaços, formas biomórficas tipo Miró, e montava o restante numa placa de
fibra, e salpicava a placa; nunca gostei muito dessas placas, mas era de novo a sua teimosia, recusando-
se a desistir, pensando que podia tirar alguma coisa da sujeira que tinha feito. Naqueles invernos de 1947
e 1948 estávamos tão carentes de telas que ele pintava por cima de algum velho trabalho meu para
Hochmann, derramando aqueles emaranhados e deixando-os secar, e aí voltava três semanas depois, saía
para o celeiro mesmo quando estava tão frio que ele só aguentava ficar uma hora e voltava para casa
apavorado que os dedos congelassem, mantendo-os perto do forno.”
“Maravilha”, repete Kathryn, em tom mais fraco, observando a face de Hope para ver se não está
ofendendo ou invadindo demais.
“Talvez seja por isso”, Hope arrisca, “que estão entre os meus favoritos, pois vi como ele sofreu ao
fazê-los, aqueles primeiros, quando ainda tinham nomes e eram mais verticais que horizontais na forma.
Galaxy, de certa forma eram todos galáxias. Na Ilha podíamos avistar as estrelas de um modo que não
era possível na cidade. Full Fathom Five, Sea-Change, quando ainda havia algum trabalho de pincel
misturado com as gotas. Cathedral, Phosphorescence. Ele havia descoberto a tinta de alumínio, galões
vendidos diretamente das prateleiras de Henry Drayton. Nunca houvera nada parecido com aquelas
pinturas que ele fez no frio daqueles primeiros invernos. Ele dizia que fazia frio, mas a luz no celeiro, com a neve, era gloriosa. Ficava tão empolgado de ver como os quadros saíam, tão orgulhoso que, como
você sabe, um dos primeiros em tamanho de mural ele bateu com a mão cheia de tinta preta no alto, como
para dizer: ‘Fui eu que fiz isso’. Virou clichê pintar com o corpo, mas Zack foi o primeiro. Totalmente
sozinho naquele celeiro com seus bastões e tintas industriais, ele estava inventando a arte performática.”
Após uma pausa reverente, vendo que Hope nesse momento não tinha mais figuras verbais para ela,
Kathryn indaga: “E você, o que estava pintando na época?”
“Nada. Zero, querida. Necas. Meu cavalete estava no andar de cima, na salinha que Zack tinha
esvaziado, mas basicamente juntando pó. Eu estava ocupada com o tipo de trabalho feminino que não
deixa vestígios. Cozinhar, como já disse. Zack esperava refeições substanciais como as que sua mãe
fazia, e tive que aprender praticamente do zero, minha mãe sempre tinha tido cozinheiras, e estas me
expulsaram da cozinha assim que passei da idade em que a minha presença era agradável. Para ser justa,
outras garotas talvez tivessem insistido mais em aprender, mas eu gostava de estar fora, de brincar com
os meninos. E aí casei com um artista e virei escrava doméstica por ele. Nós dávamos pequenos jantares, principalmente no verão, quando podíamos tomar drinques fora de casa, sentados nas pedras, na sombra.
Oito, dez pessoas no máximo, contando conosco; talvez algum outro pintor e sua esposa, um crítico e a
esposa dele, e alguém do mundo das galerias; tudo planejado, percebe, para adiantar a carreira de Zack.
Eu passava um tempão ao telefone, tentando gerar mais vendas; as obras menores em papel eram a
melhor aposta, mais baratas e podiam ser penduradas numa parede pequena, num hall de entrada ou num
dormitório. E não exigiam todo o oxigênio da sala da maneira como os grandes quadros derramados.”
“Alguns deles são adoráveis, os trabalhos menores em papel. Como ideogramas chineses. Aqueles
em que o esmalte preto secou com uma borda prateada, aqueles que têm uma cor inesperada como laranja
ou verde-azulado. Uma sensação bastante zen.”
Hope concorda, mas resiste em admitir. O que não dá uma sensação zen quando olhado de modo
inexpressivo? “Ele não gostava muito de fazê-los, achava que eram mal-acabados. Acho que essa era a
expressão que ele usava. Não eram grandes o bastante para ele se forçar a entrar neles.”
Sua afetação, sua vaidade, ficaram piores depois do artigo na Life, e o mundo mostrou sinais de se
aproximar de sua ingênua e imensa autoestima. Colapsos ocorreriam, às vezes em um dos jantares que ela
tão cuidadosamente organizava, às vezes numa viagem a Nova York, onde a sensação dos holofotes sobre
ele, de luzes resplandecentes e fortunas a serem feitas na prosperidade do pós-guerra infiltrada no
mercado de arte, deixa Zack em pânico e ele fugia para as profundezas escuras de um bar, permitindo
deixar-se encontrar apenas quando encharcado e agressivo. Mijar na cama: Hope tentara esquecer esse
aspecto da sua embriaguez, mas era para ela o mais humilhante. Sua pele dentro da roupa se retrai com a
lembrança do toque molhado e pegajoso, morno quando emitido na sua inconsciência, mas frio quando a
alcançava e a despertava, lençóis e colchão liquefeitos impossibilitando que dormisse, e Zack,
impossível de ser acordado para trocar a roupa de cama. Ela o desertava para se acomodar no sofá de
baixo ou no quarto de hóspedes, sua camisola de lã meio ensopada e inteiramente impossível de vestir,
os cobertores que conseguia encontrar não quentes o bastante na casa gelada, o pré-amanhecer saturado
de humilhação e desconforto infantil. Sua mente zangada, agitada, por fim a empalaria na sua vergonha e derrota e cativeiro de esposa, e pela manhã podia acordar com os murmúrios e o farfalhar de Zack
estendendo a roupa de cama poluída sobre os encostos das cadeiras para secarem ao calor do forno
revivido. Ele se orgulhava de acordar da bebedeira mais degradante com sua energia masculina intacta,
faminto pelo desjejum, uma tábula rasa diante de si, o mijo noturno para ele era uma descarga, uma
liberação, uma reafirmação de seu contrato com a terra. Não há nada mais maravilhoso nos alcoólatras
do que a maneira como fazem o mundo assumir o fardo de seu mau comportamento.
Hope decide contar a Kathryn: “Quando tentei retomar a pintura, ele me acusou de imitá-lo. E disse que eu era uma porcaria de pintora, que qualquer mulher seria”.
“Quando foi isso?”, Kathryn pergunta asperamente, os olhos faiscando para baixo, querendo
assegurar-se de que o Sony ainda estava gravando.
“Quarenta e oito. Quarenta e nove. Seguia acontecendo. Tudo seguia acontecendo. Ele bebia, ele
pintava, nós íamos a festas, nós dávamos festas, nós íamos a psiquiatras. Os irmãos dele, suas esposas e
filhos apareciam no dia de Ação de Graças e no Natal, trazendo sua mãe a reboque. Ela era como um
carro alegórico num desfile, impressionante e alheia; sabe, a multidão enfileirada nas calçadas
ovacionando, as pessoas no carro alegórico sorrindo e acenando, o desfile seguindo adiante, a mesma
coisa acontecendo mais à frente na rua. Sua mãe tinha todas aquelas habilidades domésticas: cozinhar,
lavar roupa, fazer crochê, découpage, fazer todas essas lindas coisinhas artísticas, montar a casa numa cidadezinha do Oeste depois da outra, tentar estar acima de tudo, criar essa ilha, entende, ignorar os
vizinhos, fechar as cortinas, ignorar a areia e a poeira e a desolação do lado de fora, ignorar a maneira
como seus meninos iam vivendo à solta e o marido não estava presente havia anos. Ela era, qual é a
palavra? ‘Impermeável’; tinha aquele encantador talento para a negação, e penso que Zack tinha seu
poder de concentração, de trancar as coisas do lado de fora, herdado dela. Tinha seu talento artístico
herdado dela, e você pode pensar nas pinturas de respingar como um enorme tipo de crochê. Eu gostava
dela, embora ela não fosse de conversar muito e não tivesse como me prender. Para ela, eu era uma
garotinha rica e boba da Filadélfia. A única razão que ela tinha para gostar de mim é que eu havia tirado
Zack e seu alcoolismo das mãos da família. Ele era o menininho querido dela, e bebês crescidos
costumam dar muito trabalho. Ela tinha aquele jeito absolutamente estranho de acalmar Zack quando
estava por perto. Acho que por ser o caçula ele nunca tinha recebido atenção suficiente dela e ainda tinha
esperança de recebê-la. Ela era como — ah, essas palavras! Nunca envelheça, Kathryn, tudo voa da sua
cabeça — uma ‘víbora’,[3] não é isso a que me refiro? Ela tinha um olhar. Em todo caso, você não me perguntou nada disso. Você fica tentando me perguntar sobre mim e o meu trabalho, e fico me escondendo
atrás de Zack: o fato é que meu trabalho não era muito interessante na época, Zack tinha conseguido
aquela assombrosa conquista e não havia lugar para dois artistas interessantes na nossa casinha de
fazenda; retomei a pintura basicamente para me dar um pouco de respeito próprio, um espacinho
minúsculo onde eu não fosse absolutamente esmagada pela coisa tremenda que Zack estava fazendo, e
pelos intrusos que passaram a viver grudados em volta, e pelas entrevistas que ele devia dar, e Zack
estava certo, as minhas tentativas de fazer grandes gestos não eram muito convincentes. Eu me
atrapalhava toda, tentava retocar, e me doía ter borrões, simplesmente não se encaixava na minha
filosofia perder o controle desse jeito, alguns borrões nas telas de Zack eram tão grandes e grossos que a
tinta formava coágulos e enrugava ao secar, aqueles esmaltes Duco que ele trazia para casa nunca eram
para ser despejados juntos daquele jeito, com areia misturada, e cinzas de cigarro, e percevejos que por
engano estivessem passeando pelo celeiro. E também eu não tinha um celeiro, tinha uma pequena sala no andar de cima com uma janela que era sombreada pelo bordo prateado, e então a sala vivia na penumbra;
teria sido uma ótima sala para revelar fotografias em dias nublados, ou uma sala de costura com uma
lâmpada de pedestal, e eu estava lá encalhada com pincéis e colagens, que é ainda mais delicado; eu não
podia imitá-lo, não tinha o equipamento, que é o que suponho que ele estava dizendo. Eu não tinha um
pau.”
O rosto longo de Kathryn adquire um rubor de irritação consigo mesma à medida que o dia nublado
vira o meio-dia. Hope nos idos tempos da Cooper Union costumava se debater com pele e cor de pele,
com a transparência da pele e o modo como ela requer luz vinda de dentro, com diferentes brilhos e
profundidades. Se ela fosse pintar Kathryn teria de usar uma porção de verde para captar o fosco
embotamento, o tom de outro mundo. No verão essa pele podia adquirir um bronzeado profundo e
uniforme, a léguas de distância das sardas róseas de Hope. A mulher se remexe um pouco na grande
poltrona xadrez onde Hope se media quando criança e limpa a garganta da secura acumulada. Talvez
esteja preparando uma pergunta para fazer, mas Hope rapidamente continua para impedi-la: “Então eu estava chafurdando na sombra de Zack e fiquei bastante interessada no que os outros pintores estavam
fazendo. Tinham vindo todos para a Ilha, a grande maioria, aqui e ali, num raio de dez milhas de East
Hampton. Por volta de 1948 ou 1949, digamos, depois de Zack ter feito sucesso, apesar de nenhum deles
gostar de admitir, cada um se assentou no seu estilo, um estilo próprio que esperavam que fosse tão
identificador quanto eram as gotas de Zack. Quer dizer, todos eles ainda falavam de pintar em termos de
autoexploração e uma agoniada autenticidade que revolucionaria o mundo e sabe lá mais o que, mas os
resultados eram um pouco como logotipos de uma empresa, todo mundo trabalhando na escala da arte acadêmica do século xix, mas cada um deles tendo surgido com alguma simplificação para chamar a
atenção. Phil Kaline tinha suas barras em preto e branco, e Jarl, aquelas formas escamosas flamejantes
em duas ou três cores achatadas, telas verticais que iam ficando tão altas que ele precisou reformar uma
velha igreja metodista não usada em Amagensett para trabalhar, e Seamus, o pobre, meigo e gordo
Seamus, que mesmo quando fazia seu realismo urbano nos anos 1930 — suas maravilhosas cenas no
metrô! —, pintando numa espécie de grade tomista, por assim dizer, havia transformado aquelas nuvens
retangulares flutuantes numa cor leitosa indefinida, as mesmas tintas de loja de ferragens que Zack usava,
porém diluídas; os curadores dizem que são desesperadamente instáveis, que poderia ter sido parte da
sua intenção: vita brevis, ars brevis também. Roger, que vivia sempre pensando tanto e cheio de teoria
francesa — simbolismo, existencialismo, estruturalismo, antes de as pessoas terem ouvido falar naquilo
—, na realidade tinha um único quadro, formas ovais pretas como feijões gigantes espremidos entre
suportes de livros retos pretos com amostras de cores espiando por trás, e Bernie, o outro muito
inteligente entre nós, deu de fazer faixas coloridas da largura de fitas adesivas entre campos gigantes de cores achatadas. Parecia a mim e à maioria das outras pessoas uma coisa árida e doutrinária, mas ele
sempre falava da grande paixão com que tinha pintado, e efetivamente foi essa direção que a pintura de
Bernie tomou nos anos 1950; neste sentido ele foi o mais influente e menos árido. Eu adorava Bernie,
mas me sentia mais perto de Roger como pintora, sempre emperrado com aqueles enormes feijões
espremidos, embora na verdade havia outra coisa que ele vivia fazendo, que ele chamava em tom
grandioso de ‘portais’, que eram retangulares, um único retângulo parcialmente delineado em
encantadoras folhas de papel-tecido; cada folha devia ter custado dólares; bem, você esteve nos museus,
você viu tudo isso, mas na época não estava tão claro que era isso, a arte americana amadurecendo,
aquelas grandes abstrações cartunescas que, para mim, quase pareciam uma desistência, a redução de um
complexo processo subjetivo a ideias, em comparação ao que Zack fazia a partir dos seus instintos. Dois
que não conseguiam parar de pintar, pintando à moda antiga, com pincel e variedade e uma espécie de
representação, e ainda davam títulos aos quadros — Anão, Mulher — eram Mahlon e Onno, que subitamente pareciam exóticos, nem aqui nem ali. Como é mesmo aquela coisa da Bíblia — porque és
morno eu te vomito? Devo ter mostrado sem querer um pouco das minhas reservas, porque no sobrado de
madeira púrpura que Onno e Renée haviam infligido à paisagem, lembro-me de ele ter posto o braço em
volta da minha cintura e me puxado para perto, dizendo: ‘Num si preocupe por mim, Hope. Mondrian está
morto, Picasso está a caminho’. Queria dizer que o que estava fazendo, aquelas loucas confusões
multicoloridas em que você mal conseguia ver mulheres sentadas, com pernas despidas cruzadas e saltos
altos, sobreviveriam às geringonças inventadas por gente como Roger e Bernie, que eram intelectuais que
não sabiam realmente pintar nada do jeito da escola antiga. Zack ele respeitava, sabia que Zack não
estava sendo mole consigo, não deixava a coisa ficar mecânica. Se Zack estivesse disposto a virar a
maravilhosa máquina de gotejar americana, não teria empacado depois de 1950. Não teria se matado. O
comportamento de Zack era repetitivo, mas sua pintura, não. Ele não deixava ser, e isso o matou.”
Onno era bonitão, tinha um cabelo claro estilo holandês, cílios brancos e lábios carnudos, um
queixo longo e olhos verde-garrafa cuja mirada se fazia sentir como um leve açoite na pele da face de Hope. A mão dele em torno da sua cintura era larga, mão de trabalhador braçal; embora bebesse e
fumasse sem qualquer cuidado, o bastante para ser um da gangue, e adorasse o biruta e condenado Korgi,
era sadio, Hope sentia, sadio como Zack não era. As pinceladas de Onno pareciam selvagens e eram
sujeitas a expedientes de dérèglement, tais como pintar com a mão esquerda ou pressionar um jornal
sobre a tela molhada transferindo a impressão para outra tela para começar de novo, todas essas
manobras racionais para suprimir sua facilidade natural, sua infância picassoesca como produto precoce
de clássico treinamento europeu em arte. Ele aprendera a imitar a violência americana; Zack, nascido nessa violência, era cativo dela. A mão de Onno pousou na cintura de Hope tempo suficiente para enviar
uma mensagem. Ele e Renée eram um desses casais continentais que pareciam em público bem demais
para ser verdade. Hope tinha vinte e seis anos, vinte e sete, velha o bastante pra acreditar que merecia um
gênio que não precisasse de babá. Ela podia se virar sozinha com um pouquinho de cuidado. O hálito por
entre os carnudos e inquiridores lábios de Onno, sob o cheiro rançoso de tabaco, possuía uma doçura
licorosa.
“Onno de Genoog”, Kathryn pronuncia. “Você gostaria de falar sobre a relação de vocês?”
“Para falar a verdade, não. Era um homem querido, gentil, trabalhador, e um pintor maravilhoso. E
foi meu incentivador quando precisei, quando Zack”, como dizer isso? “Estava desmoronando.”
Kathryn inclina-se para a frente para verificar se o Sony ainda está correndo e pergunta num tom do
qual todo sentimento de companheirismo foi editado: “É verdade que no começo dos anos 1950 ele
pensou em deixar Renée por você?”
“Não. Nunca. Ele e René eram uma coisa só, eu jamais teria desejado quebrar aquilo. Ela tem sido a viúva perfeita de um grande homem, guardando castamente a chama, nunca voltando a se casar, ao
contrário de mim.”
“Você assumiu o papel muito mais jovem que ela”, enfatiza Kathryn. “E quanto àquela vez, no
começo dos anos 1950, quando Zack quebrou um tornozelo lutando com Onno? Eles estavam brigando
por sua causa?”
“De modo algum. Querida, como eu disse antes, as mulheres não contavam muito naquele mundo de
machos. Eles se embebedavam e se provocavam, tinham rivalidade artística, e Zack caiu feio num
desnível no terreno da famosa casa púrpura.”
“É verdade”, Kathryn prosseguiu mal-humorada e implacável, menos de uma hora depois de tomar o
chá de Hope, usar o banheiro e parecer desajeitada e culpada no corredor para o estúdio, como uma
criança perdida, “que Onno chamou o trabalho de Zack de ‘mijar na tela’?”
Hope sorri. “Não foi um comentário depreciativo. Qualquer um que conhecesse Zack sabia que ele estava sempre mijando, em público se pudesse. Ele costumava contar que assistiu o pai urinar de uma
plataforma rochosa no Arizona e isso causou profunda impressão sobre ele, na sua mente infantil aquilo
definia a masculinidade, aquele grande arco dourado e reluzente. Você deve se lembrar, Kathryn, que
quando um dos artistas pop, esqueço quem mas não foi Guy, tentou parodiar Zack, foi urinando na tela
coberta de tinta metálica de cobre, para que a oxidação criasse padrões. Os padrões, no entanto, eram
salpicados e feios, ao passo que as pinturas gotejadas de Zack eram lindas, impressionantemente lindas,
você não concorda?”
“Ah, sim. Com certeza.” Mas Kathryn sente-se afrontada ao ser chamada para o palco desta
maneira, para dar uma opinião em sua própria fita.
“As dos primeiros tempos, como eu talvez já tenha dito — por favor, perdoe-me se eu estiver me
repetindo —, são as minhas favoritas. A tela no chão mas ainda cortada em escala humana, um e oitenta
por um e vinte, ou algo assim, antes de ele começar a dar-lhes títulos numerados. Antes de uma exposição
ele costumava me chamar para o celeiro para ajudá-lo a dar nomes. Era uma das coisas que fazíamos juntos, uma das poucas maneiras que eu podia colaborar. Ele usava muita tinta de alumínio no começo, e
as pinturas davam uma sensação de céu, coisas girando, então eu sugeria nomes de um livro de estrelas
que Zack havia comprado quando fomos para a Ilha e podíamos ver as estrelas da mesma maneira que ele
as via lá fora, no Oeste. Sirius, foi como chamamos uma pintura de aspecto especialmente frio, e uma
avermelhada de Betelgeuse, e outra eu quis chamar de Cassiopeia porque me lembrava que ela tinha se
gabado de como sua filha Andrômeda era linda, ou talvez ela mesma, mas Zack não queria que as pessoas
ficassem procurando constelações nos respingos, então usamos termos mais gerais como Galáxia ou Cometa; e de fato há um cometa nela; as gotas eram mais alinhadas do que passaram a ser nos anos 1950,
quando ele chegou àquilo que chamava de desenhos no ar, que aquele alemão cujo nome vivo suprimindo
fotografou. Um quadro pequeno feito em azul e tinta de alumínio sobre gesso preto nós chamamos de
Nuvem de Magalhães. Zack tinha pouco interesse em viajar — uma das suas inseguranças —, mas
costumava falar em ir à América do Sul para poder ver o Cruzeiro do Sul, o Saco de Carvão e as Nuvens
de Magalhães do seu livro de estrelas. E eu tentava pensar em nomes de contos de fadas como Simbad ou
Wotan. Ele gostava da ideia junguiana de protótipos míticos, mas não queria que as pessoas pensassem
que suas pinturas fossem qualquer tipo de retrato, então, a partir de 1948, ele e Peggy os rotulavam com
números e as cores dominantes: Azul, Vermelho, Amarelo; Amarelo, Cinza, Preto. A triste verdade, que
eu contaria só a você, Kathryn”, um traço de ironia, para ver se a entrevistadora ainda está prestando
atenção, “é que eu gostava das telas posteriores um pouco menos em parte porque fui excluída de dar-
lhes nomes. E não foi muito depois disso que comecei a retomar a minha própria pintura, o que Zack
interpretou, não de todo incorretamente, como um gesto hostil.”
“Sim. Eu queria voltar a isso.”
“Não precisa se preocupar, querida. Foi algo desprezível, a boa esposa dentro de mim brigava o
tempo todo com a pintora. Como eu disse, tentava ser Expressionista Abstrata, como as pessoas estavam
começando a chamar — acho que aquele crítico de arte grandão, ruivo, da New Yorker, Bob Coates, foi o
primeiro, e escreveu só o ‘e’ maiúsculo —, mas, como Zack observou, eu não era muito boa naquilo;
quando fiz não havia aquele estranho controle que Zack tinha, não importava quantas pedrinhas da praia
ou pontas de cigarro ele deixava cair no quadro; ele tinha um senso de equilíbrio, de equilibrar ritmos,