Busca minha face

John Updike · Capítulo 2 de 2 · parte 10/11

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Busca minha face

“Deixe-me começar lendo para você”, diz a jovem vestida de preto...

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

“Mas Jerome Chafetz não passou fome.”

“Pode chamá-lo de Jerry, se preferir. Todo mundo chamava, mesmo seus subalternos e os empregados aqui em cima. Bem antes de eu me tornar sua esposa, Jerry tinha chegado àquele delicioso

ponto em que seu dinheiro não podia evitar ganhar mais dinheiro. Ele havia sido corretor de ações e

depois analista de mercado financeiro para um dos primeiros fundos mútuos; no começo dos anos 1960,

ele se estabeleceu por conta própria e lançou seus próprios fundos, destinados a atrair pequenos

investidores bem como os administradores de fundos de pensão. Ele manteve as coisas simples, com três

fundos apenas no começo: Super-Gro, Sur-Gro e Slo-Gro. Por estranho que pareça, o Slo-Gro era o mais

subscrito; as pessoas confiavam nesse fundo, gente com dinheiro ainda era muito conservadora. A ideia

de que todo mundo era rico ou que em breve seria foi algo introduzido por Reagan.”

“Jerry”, experimentando dizer o nome, com uma retorcida do glorioso nariz, “morreu em 1986.”

“Sim. Nós nos casamos em 1977. Nove maravilhosos anos. Devemos ter tido alguns arranca-rabos,

mas não me lembro. Ele era onze anos mais velho que eu e me via, penso, como a companheira com quem

ele começaria a ter algum prazer na vida antes que o tempo se esgotasse. Os fundos estavam nas mãos de

gerentes mais jovens, e sempre íamos à Europa ou ao Caribe, ou vínhamos para cá. Nós compramos este lugar em 1980. Ele tinha sido um menino da cidade a vida inteira e descobriu que adorava o solo, a

grama, as rochas; ele construiu metros e mais metros de muros de pedra com as próprias mãos, que

ficavam cheias de calos que ele me mostrava orgulhosamente.”

“Ele era colecionador de arte; devia haver um artista frustrado dentro dele.”

“Frustrado não, ele sempre dizia que saber escolher ações era uma arte e não uma ciência. As

pessoas que lidam com dinheiro, concluí, são mais felizes que as que lidam com arte. Não estão sempre

preocupadas, podem relaxar sem ficar cegas de tão bêbadas. Jerry jogava tênis, lia romances, e até

poesia, gostava de cozinhar, lia livros de culinária, fazendo exatamente todas aquelas pequenas

medições, ao passo que Guy não podia se preocupar menos com comida se não se tratasse de fazer um

hambúrguer de gesso ou pintar uma fileira de bolos numa vitrine de padaria. Zack, bem, Zack teria caído

de cara em cima do fogão.”

Isto é injusto, Hope sente tão logo as palavras saem da sua boca: Zack fazia bifes na brasa durante aqueles primeiros verões na Ilha, e algumas manhãs, acordando de ressaca mais cedo que ela, fazia ovos

mexidos ou uma omelete com quaisquer verduras que encontrasse na geladeira ou na horta, saindo no

sereno com os pés descalços. A cerca do jardim e a carpintaria da casa que Zack fez quando se mudaram

para os Flats mostravam um instinto de ordem, um instinto brigando contra sua tendência de

autodestruição.

“Sinto muito”, ela confessa a Kathryn, “isto não é muito justo com Zack, ele na verdade tinha um

lado habilidoso, mas Jerry foi a minha primeira experiência real de alguém dedicado àquilo que se

poderia chamar de arte de viver. Meu sangue quacre desconfiava de qualquer coisa da criatura...”

“Criatura?”

“Nosso eu corporal. O eu corporal do mundo. Cor, sexo, ostentação. Sabe, os pecados. Você já

ouviu falar de pecados?”

“Claro que sim.” Kathryn vira a cabeça como se a pergunta fosse uma espécie de tapa.

Hope se arrepende, tenta se explicar, explicar ela mesma e Jerry. “Os artistas entre os quais passei a minha vida podiam ser alegres e espirituosos quando se reuniam, mas havia sempre uma ansiedade, um

monte de ciúme e gracejos falsos — Zack era o saco de pancada de muitos deles, mas aí ele arrebentava

as salas de estar deles por pura hostilidade — e uma sensação de, como podemos chamar isso, diversão

excessiva, como se eles não soubessem direito o que fazer com a vida, a parte da vida que não era fazer

algum lance pela imortalidade, os prazeres cotidianos que a maioria das pessoas tem. Jerry me trouxe de

volta para essas alegrias diárias. Ele me mostrou que um dia desperdiçado não era realmente um dia

desperdiçado.”

Surge uma memória de Jerry: o tênis. Hope jogara um bocado em Ardmore e no Maine, e em Long

Island ocasionalmente havia jogos nos quais, em comparação à maioria das esposas e namoradas e, sob

esse aspecto, os homens — intelectuais descuidados fisicamente, sem o passado dela de clube de campo

—, ela parecia boa no jogo e sentia-se forte; mas quando jogava com Jerry, na quadra que ficava na laje

do clube atlético no centro da cidade, o saque dele, por mais que Jerry tentasse sacar fraco, quicava alto

e bem na altura da cabeça dela. “Oh, minha queridíssima!”, ele gritava quando mais uma vez ela errava a

devolução. A bola dele tinha mais efeito do que ela era capaz de manejar, era vergonhoso e, contudo,

fazia-a vibrar tanto que ela se lembra agora da potência ejetada sem esforço do outro lado da rede na sua

direção, enviando aquela bala felpuda saltando entre seus olhos; era típico dele. Onde foi que ele

aprendeu, com seu passado estritamente judaico-nova-iorquino, sem as quadras de saibro de Maine Line,

sem equipes de tênis no colégio, a bater na bola com um efeito desses? Ela sorri para si e declina

compartilhar esta memória com Kathryn. Jerry tinha uma constituição musculosa — panturrilhas salientes

e duras, abdome liso e nodoso — que seus ternos cinza de trabalho ocultavam. Ele tinha uma boa forma, era um competidor.

“Como seus filhos se relacionavam com Jerry?”

“Lindamente. Ele era mais caloroso que o pai deles, no mínimo menos preocupado. Organizava

passeios, arranjava ingressos para os jogos dos Rangers ou dos Knicks durante as férias escolares,

levava Dot para o Alvin Ailey, ela estava passando por uma fase intensamente liberal e falando em sair

de Brearley e trabalhar para os pobres de alguma forma, ele passava horas escutando-a, eu mesma não

tinha paciência, parecia algo muito pretensioso, com um subtom de agressividade contra o governo eleito

que me lembrava o fascismo, um simples governo falível que não era bom o bastante para espíritos

refinados como ela. E seu vegetarianismo fazia de cada refeição uma dor de cabeça adicional para eu

preparar. Eu adorava, francamente, quando ela passava parte do verão com Guy e Gretchen. Os garotos

estavam chegando aos vinte, idade de ir para a faculdade, e os víamos cada vez menos durante o verão,

mas Jerry nunca deixou de lado seu envolvimento, seu interesse genuíno neles; seus filhos com a primeira esposa, Pearl — ele dizia que só tinha se casado com mulheres de nomes monossilábicos — a essa altura

já eram adultos e estavam casados, envolvidos em coisas que soavam meio vagas e sem direção, como

phd em mandarim e empresas start-ups de computadores e medicina holística e agricultura orgânica no

Colorado, então acho que ele teve prazer quando meus dois garotos começaram a procurá-lo com

perguntas sobre o mundo das finanças. Não que você deva formar a impressão, ou passá-la para os seus

leitores on-line, ou seja lá o que for, que os filhos dele com Pearl fossem uns fracassos; todos se

firmaram sobre os próprios pés, como filhos adultos tendem a fazer quando não estragaram sua cabeça

irremediavelmente com drogas, o que poderia muito bem ter acontecido com um filho meu com Zack, se

tivéssemos tido, mas meus filhos com Guy nasceram tarde demais para a ingenuidade dos anos 1960, e de

qualquer modo tiveram demais do bom senso protestante, meu e dele. Na realidade, mandarim acabou se

revelando uma coisa muito sensata de se estudar, o rapaz em questão mora em Taiwan e está sempre na

China continental representando várias empresas, e seu irmão mais novo se deu muito bem numa start-up

de computadores até a desaceleração do ano passado. Mas você não quer ouvir todas essas trivialidades

domésticas, esse Küche und Kinder,[6] você só se preocupa com a pintura, exatamente como eu quando

tinha sua adorável idade.”

“Qual era a postura de Jerry em relação à sua pintura?”

“Muito entusiástica. Era de absoluto apoio. Ele exigia que eu cumprisse uma cota toda manhã, e um

dos motivos por que compramos este lugar foi para fugir do telefone tocando, da vida social idiota de

Nova York. A exposição que mencionei ter feito quando ainda estava casada com Guy recebeu notas tão

mornas que precisei ser encorajada; não peguei num pincel durante anos, e quando o fiz, aqui em cima, tentei esquecer tudo que Hochmann tinha nos dito e fiz naturezas-mortas de cozinha, panelas e chaleiras

nas prateleiras, a borda da prateleira exatamente horizontal e no nível dos olhos do espectador, em tons

cinza puxando para o bege, nada brilhante, tudo fosco como argila não vitrificada. E outra vez janelas, só

que agora janelas campestres, com vista para não muita coisa, nuvens de chuva com as bordas indistintas,

tons de cinza mal distinguíveis mas de consistência cuidadosamente elaborada, como se tivessem sido

feitos por alguém parado ali no primeiro plano meditando, eu tinha que rir por estar pegando tanto o

estilo de Wyeth, todo mundo sempre torcera o nariz para ele, mas eu estava tentando me purificar da

abstração antes de entrar nela novamente. Queria que as coisas parecessem feitas à mão livre, mas ao

mesmo tempo tinha aquela fome do retilíneo e de subjugar as cores. Jerry, que tinha construído o estúdio

para mim e jamais me diria algo que me desencorajasse, uma vez me perguntou se eu não deveria ser

mais violenta. Zack, é claro, fora violento, aquele terrível espalhar de cores onde a gente consegue senti-

lo simplesmente chicoteando o ar com o pincel, como se estivesse arrebentando algo, e aí, é claro, todo o

emplastro e argamassa que Guy usava para juntar suas combinações e zombar da ideia de acabamento, e o que Hochmann pregara tinha sido violento à sua maneira, traços e retângulos de cor crua tendo que se

debater dentro da moldura, empurra e puxa, e talvez agora, com Jerry me dando um senso de ser

acalentada, um pouco como meu avô costumava fazer, eu estivesse livre para expressar uma falta de

confiança na violência, um medo da cor como a mistura variegada do Diabo, como eu disse naquela

declaração bastante hipócrita que hoje você começou lendo para mim. Ou”, Hope rapidamente se

interpõe quando Kathryn faz um pequeno gesto como que para interrompê-la, “eu estava abastecendo

Jerry, exatamente como abasteci meus maridos pintores imitando-os, mas neste caso dando a ele algo

para colecionar: telas planas, calmas, de tamanho modesto que não se chocariam com nada dentro da

sala. Veja, Kathryn, havia cada vez menos o que colecionar. A arte, Jerry costumava dizer, estava fora da

parede. Como se coleciona uma earthwork — uma obra sobre a terra? Você não consegue nem chegar até

ela, a não ser dirigindo quatro horas no Arizona. Ou uma peça de arte performática, todo o sangue de

mentira e uma lambuzeira; uma moça fica nua e enfia seu longo cabelo numa lata de tinta — látex, esperemos — e anda de quatro para trás por uma longa tira de papel para simbolizar o fluxo menstrual ou

a mentalidade sexista masculina unidirecional, ou seja lá o que for. O que sobra para guardar? A longa

tira de tinta seca não significa nada se não sabemos que foi feita com o cabelo de uma mulher. Nos anos

1970 havia uma artista corporal japonesa que costumava enfiar o cabo do pincel na vagina, então se

agachava e pintava alguns símbolos com ela, mas realmente não havia muito que ela pudesse fazer, um

círculo, talvez uma cruz, ou algumas curvas ao acaso da mesma forma que elefantes podem ser treinados

a fazer com um pincel na tromba, então precisávamos ser informados que aquilo significava que toda

criação vem da vagina. Vi Zack ser chamado de pai da arte performática — aqueles filmes que o alemão

mandão fez com ele naquele dia horrível, estava frio demais para ficar lá fora, especialmente de camiseta

preta, uma ‘camiseta para os músculos’, como dizem agora, mas na época ninguém a chamava assim

porém suas performances, assim chamadas, as danças que ele fazia quando estava sozinho, eram rotas

para um produto, uma pintura abstrata absolutamente deslumbrante, tão explosiva, meticulosa, vazia e

cheia como o próprio cosmo. Zack reinventou o sublime. Ele estava em busca da eternidade. Na sua mente era como um muralista da Renascença, trabalhando para sempre. Permanência era a própria coisa

que esses novos artistas não podiam sustentar, e a nea continuava injetando dinheiro em todas aquelas

performances, aqueles vídeos e espetáculos de luzes e instalações frágeis desmanteladas e jogadas no

lixo na semana seguinte. Oh, querida, estou parecendo uma adepta de Helms, não estou?”

“Ou como outro tipo de artista. Mas por que a arte haveria de ser permanente quando nada mais é?

Por que ela deveria privilegiar a si mesma? Você acha que aqueles artistas da caverna tinham em mente

algo mais que a caçada do dia seguinte? E olhe o estado real em que está a maioria dos murais da Renascença; Piero della Francesca é praticamente só restauração a esta altura, e A última ceia, apenas

alguns fragmentos colados numa sala vazia em Milão.”

Este é o discurso contínuo mais longo que Kathryn proferiu até agora. Ela está mostrando as garras,

o intelecto esquivo por trás da deferência. Esse verbo desconstrutivista, “privilegiar”. Ambas as

mulheres estão cansadas. As duas cabeleiras, ruivo grisalho e negro tingido, estão se soltando na

umidade enquanto a chuva martela lá fora. A luz desapareceu das janelas; as finas vidraças, com sua cor

lavanda e bolhas de empenamento, devolvem à sala reflexos fragmentários de mobília, cintilações curvas

da luz da lâmpada sobre superfícies cerâmicas, sombras pálidas e instáveis que são faces e mãos. A

primeira vez que ela foi a uma das aulas de Hochmann havia aquela natureza-morta com luz lateral

misturada ao celofane refletor. Hope levanta o queixo para repelir a invasora com uma explosão de

energia: “Como você pode colecionar um grande emaranhado de corda pendurada sobre toda uma sala

num museu? Ou uma pilha de tijolos usados, ou quatro metros quadrados de placas de zinco no chão? Ou

uma lâmina de chumbo enrolada, com doze metros de comprimento — foi a obra-prima de alguém, esqueço quem, talvez aquele grosseirão que colocou uma grande lâmina de ferro enferrujado ocupando

todo um pequeno parque no centro. Jerry tinha, sim, algumas peças minimalistas, alguns cubos muito

bonitos de acrílico, e as pessoas viviam botando os copos de drinques em cima deles. Como se pode

colecionar a assim chamada escultura de luz? Ou arte de grafite aspergida por toda a lateral de um vagão

de metrô? É tudo tão liberal chique, tão falso popular. E todas aquelas fotografias que os artistas

começaram a tirar de si, Cindy Sherman e todo o resto do pessoal, fazendo caretas ou esguichando água,

ou rolando em vidro quebrado, ou cobertos de body-piercing, como você pode colocá-los na sua parede

com a cara limpa? Ou bolas de basquete suspensas num tanque de água Perrier, ou vacas fatiadas em

formaldeído? Quem iria querer possuir essas coisas?”

“Suponho”, diz Kathryn, a voz retraída do seu surto de afirmação, “que se poderia argumentar que a

arte não tem obrigação de honrar o conceito de propriedade. Não deveria ser possuída, deveria apenas

ser.”

“Bem, quem é que vai pagar para ela ser? Qual é o sentido de ela ser, se tudo expressa os rancores

e neuroses do artista? Onde está a transação?”

A mulher mais jovem, sem dúvida não querendo que sua entrevista se deteriore numa briga, ou num

debate que poderia ser realizado numa escola de arte, ou em qualquer equivalente do século xxi às

cabines com revestimento de couro do Cedar Tavern, declina responder às perguntas de Hope e reverte

ao pessoal; volta a cruzar suas longas pernas dentro do misterioso tecido com listras pretas, limpa a

garganta de uma comichão seca e estuda suas já amassadas e embaralhadas páginas impressas a laser,

antes de perguntar numa voz fortalecida: “Pode-se dizer que Jerry, na ausência de coisas para colecionar,

colecionou você?”

Hope tem que rir, em admiração à audácia e a insensibilidade juvenis. “Isto foi dito sem dúvida”,

ela responde, “mas nunca antes na minha cara.”

“Parece bastante óbvio”, diz Kathryn, como se Hope fosse de fato um objeto a ser

desapaixonadamente apreciado e não uma pessoa, que um dia foi criança, com sentimentos e uma visão orgânica sentimental de seu próprio valor. “Zack, Guy; em você Jerry tinha os dois, artistas importantes

em termos que ele podia entender, produtores de enfeites de paredes. E você era um enfeite doméstico.”

“Como você está sendo áspera, querida. Temos sido tão amigáveis.”

A face pálida da visitante, como uma folha de papel fotossensível, registra uma sombra de

desânimo. Os jovens não creditam a si o poder de magoar os mais velhos, mais ricos e mais famosos do

que eles; pensam que mesmo a mais tênue fama reside num mundo virtual que eles não podem tocar. “Eu

me sinto muito amigável”, Kathryn diz com voz fraca, “tanto que posso estar ficando descuidada na maneira de colocar as coisas. E também a culpa está me cutucando, por ocupar o seu dia inteiro. Só estou

tentando ver você e Jerry.”

“Por que se esforçar para ver? Ele era um homem de certa idade, eu era uma mulher de certa idade,

nós nos entretínhamos mutuamente. E nos confortávamos; ele foi o único dos meus maridos que eu podia

chamar para me confortar. Ele sempre sabia o que eu pretendia dizer, mesmo que eu tivesse dificuldade

em dizê-lo.”

“Dorothy gostava dele?”

“Ele não podia ter sido mais bacana com ela, mas, não, suponho que não. Ela era leal a Guy, como

uma forma de revide contra mim, apesar de ter sido Jerry, e não Guy, quem a fez passar por Stanford,

garantindo todos aqueles anos na graduação em que ela estava ‘tentando se encontrar’. O que quer que

isso significasse — as pessoas não costumavam se perder, você era o que você era e pronto, não dava

para perder — ela conduziu a busca de forma bastante cara, me pareceu, ela e as putinhas de praia que

vivam penduradas nela. Você acha que ela não estava tirando proveito de ser filha de Guy, com toda sua ‘independência’?”

“A sua própria autoeducação não foi exatamente carente de garantias, foi?”

Outro tapa. Minha nossa! A moça está brava. Hope faz uma pausa antes de responder. “Aceito seu

ponto. Saciar os instintos criativos, a busca pela beleza, é um luxo que a maioria das pessoas não tem.

Minha filha e eu somos ambas putas voluntariosas, não é? Meus pobres pais amantes da respeitabilidade

— gente da Filadélfia, a mais discreta elite do Leste; meu pai detestava ver seu nome impresso em algum

procedimento judicial —, jamais me ocorreu que constrangimento eu devo ter sido, longe em Nova York,

fazendo coisas inomináveis e aí casando com um beberrão grosseiro de lugar nenhum. Eu acho que

pensava, se é que pensava, que eles me amavam e que qualquer coisa que me fizesse feliz também os

deixaria felizes.”

“E foi assim? Quero dizer, você era feliz?”

“Bastante feliz, querida. Tanto quanto alguém pode ser, dado o nosso hábito humano de querer mais do que temos. Eu adoraria ter uma reputação importante, em vez de ser uma espécie de nota de rodapé

vitalícia.”

“Você não é uma nota de rodapé”, Kathryn diz a Hope com surpreendente firmeza. “Não para mim

nem para um número de mulheres mais jovens. O seu trabalho — tão equilibrado e tranquilo e ao mesmo

tempo vigoroso e terrivelmente feminino — significa muito para nós. É por isto que estou aqui.”

“Por isso? Que lisonjeiro. Pensei que você estivesse aqui para compartilhar Zack comigo. E Guy.

Jerry não, um mero homem do dinheiro. Mas a arte está montada sobre dinheiro, entende?” Elogios

tendem a deixar Hope agressiva, despertando um espírito de contradição, o diabinho cristão da

autonegação.

Kathryn revida: “A arte do grafite? Jazz?”

“No final, sim. É como a palavra sai, é o meio do marketing, que está sempre procurando um

produto novo para empurrar. O dinheiro tomou conta daqueles pobres garotos do grafite, os confundiu e

os largou sem nada quando a novidade se esgotou, e deixou a droga e a aids levá-los embora. O dinheiro de Jerry me levou à Europa, aonde meus geniais maridos anteriores quase não se deram ao trabalho de ir.

Nós fomos várias vezes, os melhores hotéis, Veneza, Paris, Londres, mas também Grécia e Portugal,

Dinamarca e Noruega, várias vezes à Inglaterra e Holanda, e finalmente vi o que Henry James dizia: para

todo lugar que você olha na Europa, há algo contemplado e completado, aqueles séculos de vidas

passadas todas contribuindo com algo de interesse, pequenos detalhes como uma escada curva ou uma

velha praça com um poço no meio, uma construção torta para caber num terreno esquisito, e o jeito como

as cidades italianas cresceram a partir dos morros como árvores sobre um penhasco, e como os centros das cidades só chegavam até certa altura antes de os elevadores serem inventados, só o número de lances

de escada que uma pessoa sadia pudesse subir; tudo cortado na medida humana, e a beleza era

simplesmente o desejo de toda aquela gente morta de viver decentemente, eles e seus pais e seus filhos,

polindo as pedras do calçamento com as solas de seus pés. Eu sei, a América já não é mais tão nova, tem

muitas das mesmas coisas, e sem a tirania e o sistema de classes que ergueram os palácios europeus, mas

tudo aqui ainda é comparativamente apressado e ultrapassado e rapidamente gasto e démodé, é o que

parece; a Europa dava a sensação, quando Jerry me levava para lá durante semanas de cada vez,

alugávamos villas e apartamentos, a Europa dava a sensação de uma floresta antiga, tudo tendo crescido

junto, vinhedos e cidades e museus, embora, é claro, tudo agora esteja virando um charco, como

americanismo do tipo ínfimo, ínfimo porque eles não tiveram a única coisa que nós tivemos, nosso

encontro particular com a imensidão selvagem, aquele trágico vazio. E as pessoas, o jeito que elas tratam

você e se tratam entre si, as mulheres na rua em Florença com seus olhos redondos como atrizes, sempre

representando um papel, e as mulherzinhas francesas muito precisas, mesmo as guardas de trânsito, de salto alto e meias de seda e elegantes terninhos escuros, os gestos decididos, a maneira como as mesmas

palavras são usadas repetidamente, mesmo a maneira como os europeus humilham você, cobram preços

exagerados, é tão humana, tão prática, como se tudo tivesse sido feito mil vezes antes e nada mais

precisasse ser inventado. Na escola costumavam nos dizer que os americanos inventaram tudo, e apesar

de obviamente não ser verdade, você pode ver porque deveria ser verdade. Oh, meu Deus, e daí?, você

deve estar pensando. Mas trata-se de arte e dinheiro, você ainda vê ali as igrejas e os palácios, o

mercado oficial de arte que nunca tivemos, você sente como ele se entrelaçava com, em vez de ser

acrescentado, como sempre foi aqui, a algo extra e levemente tolo.”

A entrevistadora não estava escutando, apenas o gravador escutava, a entrevistadora ficara

embaralhando suas folhas de perguntas, à procura de pistas. “Eis uma pergunta pessoal, se me permite.

Por que a sua casa contém, pelo que posso ver, tão poucos exemplos de arte do pós-guerra, a arte da sua

vida, por assim dizer? E o que foi feito da coleção de Jerry? Apesar de você dizer que não havia nada para colecionar, sei que ele possuía, sim, alguns quadros de David Salle e Eric Fischl, e continuou

comprando Wayne Thiebaud o tempo todo, e possuía algumas esculturas em tamanho menor de Jeff Koons

e Martin Puryear; nem tudo nos anos 1970 e 1980 era arte de museu e propaganda, embora pudesse

parecer...” Kathryn tergiversa exausta. Pobre moça, veio de tão longe para terminar extraviada, dispersa

e desapontada.

Hope lhe diz vivamente, tentando animá-la: “Respondendo a sua pergunta: Jerry deixou toda sua

coleção adquirida antes do casamento comigo para os filhos do primeiro casamento. Nós discutimos a

questão e pareceu justo. Suas melhores peças, as mais apreciadas, estavam nesse lote. Aí havia impostos

de propriedade, quase a metade do valor, e foi preciso levantar dinheiro, houve uma liquidação quando

ele morreu — não foi preciso cobrir só os impostos de propriedade, mas havia algumas dívidas

insuspeitadas, inclusive mais de um milhão só para os marchands. Processos legais! Eu me tornei

bastante blasé, uma ré empedernida. No fim, depois que os advogados receberam sua parte, havia menos

que qualquer um esperava. Tive de vender a cooperativa na East Seventy-ninth Street e a casa de Jerry em Southampton, além de sua metade no condomínio de Sarasota que ele e Pearl dividiram no acordo de

divórcio; de toda maneira, não me serviam para nada. Subi para cá para viver o ano todo. Onde aqui em

cima eu manteria essa arte valiosa a salvo de qualquer um que quisesse arrombar a casa e roubá-la? Um

alarme contra invasores, na hora que a polícia local respondesse ao chamado, era inútil. Vendi os poucos

McCoys importantes que eu guardara, e os Holloways que haviam sido parte do meu acordo, pus tudo

num fundo para Dorothy, um fundo fiduciário caso alguma mulher mal-intencionada a fisgue de vez, elas

podem ser tão predatórias quanto os homens — até mais, já que têm a desculpa de serem desfavorecidas nesta sociedade patriarcal. Os rapazes não precisam do meu dinheiro, estão se dando bem; os salários e

os bônus que pagam em Wall Street, a gente fica se perguntando se sobra algum dinheiro para o

investidor. Frequentemente não sobra. Então”, Hope conclui esse turbulento relatório de perda de suas

posses e herdades, “fiz da minha filha uma mulher de meia-idade rica um dia desses, e sei que não vou

ouvir dela nenhuma palavra de agradecimento. Penso que você também não deve colocar isto no seu

artigo. Deixemos Dot ficar surpresa.”

“Meu artigo não vai ser tão extenso quanto você gostaria. Há muita coisa que vou ter de deixar de

fora.”

“Eu sei, eu sei”, Hope a tranquiliza. Mas ela nunca aprendeu quão pouco o mundo precisa que a

gente dê; sua beleza é uma beleza impenetrável, autoabsorta. Suas palavras impensadas acabaram por

magoá-la: tornaram mais real do que ela gostaria a sua própria morte, que tornará Dot rica, embora a

filha vá interpretar o fato sarcasticamente, como uma espécie de compensação a que teria direito, como

outra tentativa de sua mãe de cortejá-la e romper seu silêncio de dona da verdade, como um suborno de além-túmulo, provando-lhe que sua mãe era culpada da acusação. E qual fora a acusação? Hope não

consegue se lembrar, pois todos esses anos ela sentiu-se o foco de uma raiva que não tem quase nada a

ver com ela, que tinha relação com algum processo químico com o qual a filha nasceu e que a mantinha

acordada e que, mais tarde, acabou enfurecendo-a por sua mãe não ser obcecada com ela como ela era

pela mãe, cujo único pecado, até onde Hope podia honestamente enxergar, era não rejeitar o mundo mas

aceitá-lo com demasiada avidez, aceitar a promessa de liberdade que a América dava, aceitar seu sexo

como outra peça de potencial, e acreditar, o que é cada vez mais difícil para essa gente jovem na medida

que a evidência científica devora a religião, que você não está sozinho, que a voz que você escuta dentro

de si é uma companheira. Guy veio, Guy se foi, um abstrato arremedo de pai, mas ela, que sempre esteve

ali no apartamento, levou a culpa por ser ela mesma, o único pecado que ela não pode evitar cometer em

cada minuto de vida. A menina ingrata nunca teve um dia de fome, nunca saiu para a rua sem roupas

suficientes. Ainda assim, esse alheamento habita a área pantanosa de culpa visitada por Hope em seus pensamentos sobre sua morte próxima e a memória da morte de Jerry, que ela presenciou. Ela viu a luz

morrer em seus olhos. Ele amava a vida tanto quanto ela e fora tão vigoroso; no entanto, quando a morte

se esgueirou para dentro dele, sob o disfarce do mau funcionamento dos rins e enfraquecimento do

coração, ele se entregou humildemente ao seu abraço, com meros setenta e cinco anos. Ele ofendeu Hope

ao não lutar com mais força para ficar com ela. Ele teria de entrar na fila de um transplante de rim, a

espera poderia levar um ano, e os médicos estavam preocupados que seu coração não aguentasse o

esforço da operação. Poderiam, nesse meio-tempo, fazer uma ponte de safena, mas Jerry estava hesitante

e estranhamente desinteressado; dizia que era um aborrecimento que beneficiava principalmente os

médicos e o deixaria com intermináveis cuidados para com seu corpo. Ele tinha medo, ela percebeu —

ele, que tinha medo de tão pouca coisa, que entrara de cabeça em toda experiência, inclusive sua

experiência de Hope. Eles fizeram amor na segunda que vez que se encontraram, e o primeiro encontro

não chegara a isso por pouco, ela estava recém-separada de Guy e ainda sem acreditar que jamais

voltariam a estar juntos; ela se lembrava de Jerry do tempo em que tinham ficado lado a lado chamando de linda a mesma máquina de escrever branca de vinil, e então em outras inaugurações gravitavam um

para o outro, e ela começou a sentir a atração se acendendo sobre a cabeça deles como um balão de

pensamento em neon num cartaz de Kienholz, e ela ligou para ele, sim, foi ela quem tomou a iniciativa,

telefonou para ele no seu escritório, em vez de ligar para sua casa, e lhe disse que suas circunstâncias

estavam mudando tanto que talvez ela precisasse de algum conselho financeiro, e ele a levou para

almoçar no Lutèce, com seus dois degraus para descer e sua sala com luz natural cheia de um

deslumbramento salpicado como um Bonnard, e ele pôs sua mão quente, macia e peluda nas costas, bronzeada do tênis e da praia em Southampton, sobre a mão dela quando o almoço terminou, e ela estava

chorando e despejando seu choque e insegurança, repelida com desprezo sem ter feito nada de errado,

simplesmente tendo envelhecido, cuidado dos filhos, nem mesmo Zack no seu estado mais abusivo, pelo

menos ele lhe mandara flores no fim... A mão de Jerry deu um aperto que poderia ter sido mera

solidariedade. Mas havia um brilho intenso, acolhedor em seus olhos — seu relato da deserção e da

aflição o fizera rir em diversos pontos em que ela não tivera intenção de ser engraçada — que ela sentiu

como uma espécie de dinheiro no banco, embora isso tenha sido meses antes do segundo encontro; ele

havia esperado que sua separação de Guy fosse de conhecimento público e estivesse sob os cuidados dos

advogados, e que sua própria esposa estivesse na sua temporada de inverno em Sarasota, ele voando

para lá nos fins de semana. Aquela luz de interesse, de malícia, em seus olhos de férreo azul, olhos

surpreendentes num judeu, haviam se apagado no hospital e se tornado de uma cor baça, como que

misturada com finas cinzas, enquanto seus rins e coração corriam rumo a uma total deterioração, e os

médicos vinham a ele como consoladoras de Jó, vendedores rogando a um freguês cabeça-dura, cabeça-dura ou surdo, a vida em seus olhos e ouvidos e boca carnuda com sua pequena cicatriz retorcida que

parecia afundar quando ele relaxava sob os cuidados do hospital, seus limpos quartos brancos, seus

delicados ruídos noturnos e as luzinhas piscando como na ponta de um enorme navio singrando, a

enganadora azáfama de enfermeiras e internos, como se sua juventude e saúde eficiente pudessem ser

repartidas entre os pacientes da mesma maneira equitativa e rápida que as refeições, pílulas e

formulários de consentimento, ali, acima do lado leste do rio. Seu quarto dava para o rio, oito andares

acima, os rastos se alargando dos reboques e balsas transbordando de sucata metálica enferrujada e

barcos de turismo dando a volta pela ilha e lanchas da polícia cruzando velozmente a água e um ou outro

iate ocasional a meia velocidade, as velas enroladas e duas mulheres jovens quase nuas tomando banho

de sol na proa enquanto arranha-céus e todas as janelas de espectadores passavam voando. Jerry gostava

do hospital porque era uma cidade dentro da cidade e zunia com a corrente impessoal da cidade o tempo

todo; Hope ficava furiosa com ele por se sentir em casa ali, por não lutar com mais afinco para ficar com ela fora dessa sedutora fábrica de morte, por permitir tão passivamente que a cidade o reivindicasse e

expusesse a mentira do idílio em Vermont que ela construíra, talvez a partir da memória de seu eu juvenil

levando Zack para Long Island, trazendo Zack para os Flats inundados de luz no fim do mundo civilizado,

onde ele precisava estar para fazer sua fama, com cinco anos gloriosos de trabalho duro, a obra-prima de

Hope como esposa, ali em Gardiners Bay, à vista de McGonicle’s Harbor. A Baía fundia-se com o

Estreito, cujas mesmas águas por fim se concentravam naquele assim chamado rio, um rio apenas na

medida em que suas águas circulantes eram emprestadas do Hudson. Mas Zack fora um garoto do campo,

o espaço indomado estava em suas veias, enquanto Jerry tinha sido um menino de ruas asfaltadas e

incessantes ruídos humanos. “Jerry. Não me deixe.”

“O quê?” O apelo sussurrado o trouxe de volta de algum refúgio interior, um compartimento de

drogada paz; suas pálpebras castanhas, com seus capilares rompidos como pequenos fios vermelhos e

azuis embebidos em notas de dólar, curvas em torno de uma porção maior de seus globos oculares agora

que sua face estava encolhendo, aderindo mais e mais ao osso.

Ela tornou sua voz mais penetrante. “Eu disse, ‘Jerry, por favor, lute com mais afinco por mim. Por

nós. Não desista’.”

Ele se debatia para ficar acordado; as pálpebras pousavam sobre suas íris azul-cinzentas e ficavam

piscando. “Eu tive uma bela viagem”, dizia. “Esta última parte foi a melhor. Muito obrigado, Tiger.” Ele

a chamava de Tiger por causa de uma de suas primeiras vezes na cama, quando sua fome também a

surpreendera. O apelido combinava estranhamente com a impressão dela naqueles primeiros encontros,

do seu cabelo ficando mais fino embora ainda grosso e pungente, emaranhado como lã de carneiro. O cabelo se tornara mais esparso, mais branco, em nove anos, mas a risca dócil sempre fora sua marca. Ela

o seduzira para longe de Pearl, e agora sua morte o estava seduzindo para longe dela.

“Os médicos querem lhe dar um coração novo, Jerry. E diálise até haver um rim disponível.”

“Você não acha”, ele perguntava, forçando os olhos a ficarem abertos, o esforço provocando um

sorriso acanhado em seus lábios, com seu franzido remanescente de uma briga de rua quando jovem, “que

seria botar um motor novo num chassis já enferrujado? E depois um carburador novo. Mais um homem

biônico, levando o sistema de saúde à falência.”

“Jerry, você não quer ver seu próximo neto, o filho do seu enteado? E ver Piet virar sócio?” A

esposa de Paul, Kay, estava grávida de novo, esperando que fosse uma menina daquela vez. Jerry passara

a ter um interesse tão forte nos filhos de Hope como se fossem seus próprios filhos — ainda mais forte,

pois até mesmo Dorothy ficava menos constrangida com ele do que seus filhos com Pearl. Os enteados

podiam ser seus amigos, os filhos eram dolorosas extensões de si, quando tinha consciência deles, então

não se desviava do caminho para tomar essa consciência, poupando-se do agravo. Hope o instava a comunicar-se mais com eles, mas ele a empurrava de lado: “Nós nos entendemos, eles sabem que estou

aqui se precisarem de mim.” Era como se ela tivesse aberto uma daquelas passagens do Velho

Testamento — linhagens, leis dietéticas, o Deus punitivo, vingativo, bárbaro — que nada tinha a ver com

uma donzela quacre. Os judeus na América, por mais que tivessem conversado efervescentemente com o

mundo gentio ao redor, retinham alguma coisa, havia um quarto que permanecia trancado, e neste quarto

suas transações mútuas eram conduzidas e, imaginava ela, o segredo era mantido em seu tabernáculo.

Eles raramente viam os filhos de Jerry; eram os filhos de Hope, suas mudanças de emprego e de

apartamento, os nascimentos e promoções, que mantinham o casal de idade em contato com as aventuras

elementares de viver esses nove anos que foram casados, viajando para Vermont e voltando para Nova

York, realizando o pouco que precisavam para manter suas posições, no cenário artístico cada vez mais

difuso e sem direção, como pintora e colecionador. Agora ela pendurava junto ao leito de Jerry no

hospital aqueles bocados de vida vicária e ele não conseguia esconder seu tédio. Fechava os olhos, a orbe do globo ocular revelando-se sob sua frágil cobertura, os fios vermelhos e azuis dos capilares

rompidos que nunca seriam remendados. Ela começou a chorar sua impotência em face dos limites da

criatura, que incluíam, ela podia ver, um limite nesta, a mais plena, a menos deteriorada, de suas

relações. Sem interromper sua graciosa fidelidade, Jerry a estava abandonando. Teria havido sempre

algo de paternalista em seu bom humor: um desdém de dar-lhe a honra de um combate, de igual para

igual, como ela dera a Zack, e Pearl devia ter lhe dado? Ele parecia determinado a ultrapassar esta última

barganha e manter quaisquer déficits para si. Ouvindo o silêncio dela, ele abria os olhos, e estes vestiam

um olhar de peixe que ela vira antes, nos olhos de Zack e de Guy, quando percebeu que tudo que uma

mulher faz para um homem, todo aquele cuidado e amor, não basta, para ele é secundário, não essencial.

A arte era o que aqueles homens tinham amado — isto é, eles próprios. Jerry a pegara barato, de boa

proveniência. Ela se tornara, para Zack e Guy, onírica em sua inconsequência, como era agora para Jerry,

chorando e implorando-lhe para viver por ela. Ela o entediava, aborrecia-o, minúscula como havia se

tornado. Ele não tinha a força de mandá-la embora. “Dá um descanso, Tiger”, ele dizia. “Vamos ver como as coisas vão estar amanhã.”

Hope diz a Kathryn: “Eu tenho, sim, algumas peças valiosas lá em cima. Aqui embaixo não queria

ninguém olhando pela janela e vendo alguma coisa que valesse a pena roubar. Apesar de que quem olha

por essas janelas não é capaz de saber a diferença. Penso que os moradores locais concluíram há muito,

quando Jerry e eu íamos e voltávamos, que aqui não havia nada que pudessem revender. Na verdade,

nesta sala e na sala de jantar atrás daquele canto há alguns quadros que costumavam ficar pendurados na

casa dos meus avós em Germantown. Aquela aquarela de nastúrcios, por exemplo, perto do telefone, e a natureza-morta na parede do outro lado, e aquela velha certidão de casamento sobre a cornija, acima do

relógio.”

“Fiquei imaginando o que seria.”

“Pennsylvania Dutch Fraktur. Uma certidão de casamento, em alemão. Quando criança eu costumava

estudar as pequenas figuras que parecem bonecos, a noiva e o noivo. Eles parecem tão despreparados

para o casamento, não é? Mais como bonequinhas de papel que as meninas costumavam vestir com

roupas de papel. Há algumas miniaturas do século xix dos meus ancestrais de Ouderkirk na sala de jantar,

que eu nunca mais uso: miniaturas ovais em caixinhas forradas de veludo. Elas têm as maçãs do rosto

rosadas e olhos azul-claros, azuis como os olhos de dois dos meus três maridos. Parte do fino trabalho de

pincel e pontilhado é maravilhoso; eles pintavam sobre finas lâminas de mármore, sabe, uma coisa

preciosa finamente raspada, que não absorvia a aquarela de imediato. Você gostaria de dar uma volta e

vê-las?”

“Não acho que seja necessário. Você as descreve tão bem.”

“Lá em cima, nos diversos quartos; deixe-me pensar. No quarto de hóspedes há algumas velhas

gravuras, apagadas, nada caro. Pinkie, de Lawrence, numa moldura de bronze embaçada, e o Vermeer da

mulher com o jarro de prata, no Met, com aquela maravilhosa faixa de azul refletido ao fundo, longe da

janela; azul por toda parte, realmente, até mesmo a haste na base da toalha, a gente fica imaginando se ele

não veio à tona queimando alguns outros pigmentos que desbotaram. E na parede branca, no patamar

superior, um óleo confuso de uma floresta que ficava no estúdio do meu avô, a única parede sem livros ou

janela; quando minha avó reclamava que não entendia como ele podia olhar para algo tão lúgubre, ele

dizia: ‘Florestas são assim, cheias de árvores mortas tombadas. O pintor era um homem honesto’. E no

meu quarto tenho alguns itens modernos, que valem alguma coisa para o colecionador certo, suponho; a

primeira, uma versão mais grosseira do pastel que Ruk fez de mim e que está pendurado na Corcoran, e

uma serigrafia que Bernie me deu, uma versão íntima de um dos seus óleos heroicos, um campo de azul

quase quadrado, frio como a parte de baixo de um iceberg, com uma faixa única, bem deslocada para um lado, de garança rosa, feita com traços levemente irregulares, rápidos. Você gostaria de subir ao meu

quarto para ver?”

“Não creio que seja necessário.” Ciente de possivelmente parecer pouco receptiva, Kathryn

acrescenta: “Você deve estar cansada.”

“Você também, querida.”

Seu dormitório — ela teria gostado de exibi-lo a esta jovem intrusa de cabelo escuro, a visão da

sua rendição noturna ao sono, sua arejada cela, a cama feita com esmero, a colcha amish de borda rosada

puxada até embaixo com precisão linear, com a irrequieta meticulosidade dos velhos. A primeira coisa

que Hope faz toda manhã, uma vez esvaziada sua inelástica bexiga e escovados os dentes — coroas e

implantes, a maioria deles; seu sorriso é uma mentira —, é fazer a cama, tendo ligado na estação de

música clássica de Burlington, uma afiliada da wnyc. Ela nunca pintou ao som de música, ao contrário de

Zack e seu barulhento jazz — depois que levaram eletricidade até o celeiro, ele punha o som alto como

se quisesse mantê-la afastada —, mas ela precisa da música para fazer a cama, com as juntas dos dedos doloridas; isto ergue seu espírito acima da ignomínia das tarefas diárias, alimentar os confortos da nossa

própria criatura, os tediosos ritos de higiene. Com frequência, molhada do chuveiro, ela faz a cama nua,

seu velho e medonho corpo ossudo e bojudo, flácido e cheio de manchas, brilhando à luz fresca do

quarto, o Senhor como única testemunha, e Ele, no olho mental de Hope, bastante contente com sua

aparência de Schongauer; isto era arte protestante, Deus olhando para nós em vez de nós olhando para

Ele, todo holandês e judeu na Holanda, um santo na escuridão para o pincel carregado de Rembrandt.

“Você não deve pensar”, Hope diz a Kathryn, que mais uma vez inclinou-se para a frente ansiosamente, o corpo parecendo um canivete negro dobrado, para conferir se o Sony ainda está

correndo, “e sei que soei como uma terrível resmungona e filisteia, que Jerry e eu desdenhávamos tudo na

arte depois de 1975. Aquelas esculturas fotorrealistas que costumavam nos surpreender no Whitney

porque pareciam demais com pessoas, em tamanho real e feitas de fibra de vidro, com olhos de vidro e

cabelo de verdade, em roupas de verdade, uma delas era mesmo um guarda do museu, as pessoas ficavam

fazendo perguntas, oh, qual era o nome do homem. Hanson. Duane Hanson. Eu deveria lembrar, porque

ele morreu uns anos atrás, e era mais moço que eu. Bem mais moço, devo dizer. E havia um jovem artista

britânico, talvez fosse australiano, se é que faz alguma diferença, Ron qualquer coisa, ele estava na

exposição no Brooklyn Museum que deixou o prefeito Giuliani todo aborrecido, um nome tipo alemão,

Monk ou Munck; ele teve a mesma ideia, só que não fez em tamanho real, fez uma réplica pequena

perfeita do seu pai moribundo, não maior que um gato doméstico, e depois uma gigantesca da sua própria

face, com cada poro exibido, cada pelinho sutil. Sempre fui tão grata — você não? — de não precisar

começar o dia fazendo a barba, não creio que as feministas apreciem o suficiente aquilo pelo que os homens passam, mesmo que seja verdade que eles não precisem cuidar dos bebês, nem sofrer tanto no

amor. Quando você olha para os homens do Oriente Médio, com aquelas barbas de cinco dias que os faz

todos parecer terroristas, e agora também os lançadores de beisebol — para intimidar os rebatedores,

suponho —, pelo menos eu fico grata. Mueck: o nome dele acabou de vir. m-u-e-c-k, creio.”

Estará ela divagando para mandar a moça embora ou porque não consegue evitar esvaziar-se

completamente para ouvidos cativos?

Ela continua. “Elas me afetam, essas esculturas literalistas. Contam-nos algo sobre o ser humano:

nossa vulnerabilidade, principalmente. Só as nossas peles — tão despidas, tão fáceis de perfurar, mesmo

sem uma arma. As unhas, os cílios, mesmo a cera dos ouvidos, todos os mínimos toques que em algum

ponto da evolução aparentemente habilitaram algumas pessoas a sobreviver melhor que outras, ou a

encontrar parceiros, embora eu não tenha certeza de como a cera no ouvido pudesse ajudar nisso, para

não mencionar todas as delicadezas moleculares que notamos apenas quando ficamos doentes porque elas de repente funcionam ligeiramente errado. Olhando para trás”, Hope confessa, “é difícil lembrar por que

todos nós olhávamos o figurativismo de cima para baixo, o encarávamos com tamanho desprezo; não

queríamos que a pintura fosse fatual, essa era a palavra assustadora, Clem ficava lívido com essa ideia,

e aí precisava tomar mais um drinque para se firmar, e Hochmann, também, absolutamente sarcástico,

daquela maneira que os alemães têm de desejar que algo saia da existência, mas eu me pergunto agora se

toda pintura não é fatual, uma história que o pintor quer contar. O que ele não vai fazer, o que ele vai

fazer, o que está morrendo de vontade de tentar, o que ele está externalizando de dentro de si no sentido

de algum tipo de — o quê? — economia definitiva, digamos. A tela é uma aventura, Clem estava certo

quanto a isso, e o artista é o aventureiro, contando sua história à medida que ele vai adiante. Sinto muito,

Kathryn, receio não estar dizendo isto muito bem, é mais claro quando você volta para perto do começo,

para Giotto e Cimabue e os sienenses começando a captar a perspectiva e a expressão humana, e então

ver essas habilidades dominadas tão triunfalmente na Alta Renascença, onde o artista fica se

vangloriando do que sabe fazer, Michelangelo dizendo que você pode fazer qualquer coisa. E também Rafael, numa voz mais macia, e então essas habilidades tornam-se tão comuns que a arte por fim fica

entediada delas, pense em Ingres e Copley, aquele acabamento doentio, e então, nos anos 1920 e 1930, a

ilustração de revistas e o realismo social soviético, de fato terrivelmente habilidoso, com seu gosto de

um tipo lúbrico, você pode ver isso em Rockwell, que, Deus nos livre, está marchando pelos museus do

país neste exato momento em que estamos aqui sentadas, enquanto a linha mestra desde o Impressionismo

tem sido correr no sentido oposto, dissolvendo a imagem, deixando-a ficar tênue e esvoaçar para longe,

até chegar a Zack e Onno e Bernie, e não resta mais aonde ir a não ser a paródia. Sei que você pensou um bocado sobre decadência — como alguém pode não pensar nestes tempos? Um milênio inteiro acabou de

se desintegrar — mas parece que a arte precisa tatear para não ser decadente, precisa estar exatamente a

cúspide do possível, ou não podemos reagir a ela como algo... algo, você se importa se eu disser,

‘sincero’? Ela precisa ser sobre nós, apenas a uma fina pele de distância de não ser nada. Não nada,

talvez, não sei qual é a sua religião, mas tombar de volta para dentro do esplendor.”

As janelas negras lhes dizem que por trás do véu da chuva constante o dia se moveu para além do

crepúsculo. Os ponteiros quase invisíveis do relógio sobre a cornija mostram vinte para as sete. Se

saísse exatamente agora a moça chegaria em casa, em Nova York, por volta da meia-noite, na melhor das

hipóteses, os olhos turvos e cansados de forçar a visão através do para-brisa açoitado, ensurdecida pelo

ruído abafado dos limpadores e o chiar dos pneus molhados e o tinido do rádio, uma coisa que

Michelangelo não tinha para lhe fazer companhia no andaime, vozes e canções emitidas de uma gruta

estreita, lacrada, revestida de isolamento, ondas eletromagnéticas que temos agora em lugar de anjos

mensageiros, disc-jóqueis embalando a visitante de Hope, sentidos nos cueiros, suas pernas apertadas, uma dor nos ombros de segurar o volante com suas longas mãos brancas — mãos de Mona Lisa,

primeiros estudos para o que pode ser visto no alegado retrato de Ginevra de’ Benci na Galeria Nacional

e o de Cecilia Gallerani em Cracóvia, mas sem as unhas pretas, ou melhor, cor de berinjela, de Kathryn.

Como se já sentisse o confinamento do carro, Kathryn troca rigidamente de posição na cadeira xadrez de

braços largos e baixa os olhos para o Sony. Tecnologia digital é o que está por vir, Hope leu, com

armazenagem virtualmente infinita, mas quem escutará? Quem transcreverá e lerá a infinidade de dígitos?

“Você precisa ir”, Hope lhe diz.

“Sim. Mas ainda não falamos dos quinze anos desde que Jerry morreu e a maneira notável como

você ressuscitou a si mesma, com suas pinturas, é claro. Você criou para si uma nova reputação.”

“Criei? Como é que Shakespeare chama isso; ‘a reputação-bolha’? As pessoas acham interessante

que a velha dama se mantenha ativa. Os críticos falam do delicado espírito quacre das minhas abstrações,

porém sinto mais aquilo em que Bernie costumava insistir, a paixão. Aquelas suas grandes telas monotônicas, com uma ou duas listras em cor diferente, às vezes apenas ligeiramente diferente, as

pessoas estranhavam como podia haver paixão nelas, inclusive eu estranhava, mas lá estava ela, uma

tensão emocional incrível, como a superfície criada quando uma grande bacia de pedra é cheia até a

borda, ou aquele neominimalista, na Costa Oeste, eu acho, que encheu um cubo preto de tinta preta, de

modo que o lado de cima parece perfeitamente rígido, e você fica morrendo de vontade de tocar, mas é

claro que não se atreve. Você sabe, a minha jovem oftalmologista — agora todo mundo é jovem, todo

mundo que costumava ser velho, os médicos, os advogados — minha oftalmologista me explicou, e achei

Continuar: parte 11 de 11