Catarina de Bragança
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Com 23 anos a infanta Catarina de Bragança, filha de D. Luísa de Gusmão e de D. João IV, deixou para trás tudo o que lhe era querido e próximo para navegar rumo a uma vida nova. No coração um misto de tristeza e alegria. Saudades da sua Lisboa, de Vila Viçosa, do cheiro a laranjas, dos seus irmãos que já haviam partido deste mundo e dos que ficavam em Portugal a lutar pelo poder. Mas os seus olhos escuros deixavam perceber o entusiasmo pelo casamento com o homem dos seus sonhos, Charles de Inglaterra, um príncipe encantado que Catarina amava perdidamente ainda antes de o conhecer. Por ele sofreu num país do qual desconhecia a língua, os costumes e onde a sua religião era condenada. Assistiu às infidelidades do marido, ao nascimento dos seus filhos bastardos enquanto o seu ventre permanecia liso e seco, incapaz de gerar o tão desejado herdeiro. Catarina não conseguiu cumprir o único objectivo que como mulher e rainha lhe era exigido. Se ao menos não o amasse tanto!, pensava nas noites mais longas e tristes...
Paço de Vila Viçosa, 25 de Novembro de 1638
suor caía-lhe pelo rosto, apesar do frio que se fazia sentir no
quarto. Fechava os olhos e assistia sempre à mesma cena, uma menina de olhos assustados a partir num barco, as ondas, violentas, a baterem contra o casco, um país longínquo, uma bandeira ao vento - que cores eram aquelas? Rejeição, ódio, intrigas, o corpo doente, o ventre liso, o sangue que escorria sem parar, uma Virgem, o coração despedaçado, corpos inocentes pendendo de uma corda, e ela escondida, a guarda pronta para a levar, uma torre, uma torre onde todos morriam... O grito da menina e o impulso de estender os braços e de a proteger faziam-na contorcer-se na cama, para ser logo tranquilizada por duas criadas que lhe diziam:« Sossegue minha senhora, sossegue, é só mais um bocadinho e já está... já aí vem.»
Quem é que vinha?, pensava, em delírio, a água dos pachos que lhe punham na testa para arrefecer a cabeça que estourava a pingar--lhe sobre o rosto, os olhos a fecharem-se, a fecharem-se para afastar a dor, e a alucinação a voltar, aterrorizando-a de novo. A menina e uma coroa, um dragão que cuspia fogo e S. Jorge que o desa iava, que o enfrentava para salvar aquela que não passava de uma criança indefesa. Uma criança, uma menina, uma mulher, a luz dos seus olhos, mas perdida e distante, tão mal-amada, não merecia as traições e o ciúme, as lágrimas amargas das convicções de que não abria mão. O ventre liso, liso e infértil, a sua menina, envolvida num círculo de ódio e de amor, de admiração e de desprezo, e ela impotente, sem a poder trazer para junto de si.
O «não» saiu alto, soou estridente, quase histérico, e as aias em seu redor assustaram-se, a infusão de laranja que lhe faziam chegar aos lábios derramada sobre a camisa de noite de brocados e rendas, já ensopada de suor, lágrimas e sangue.
O gemido de um bebé, transformado repentinamente em choro forte, encheu o quarto, atravessou as portas e as janelas, correu os corredores do paço, penetrou nas frinchas das paredes e cruzou o espaço para o terreiro onde tanta gente esperava, há tanto tempo, aquele som, as candeias acesas, suportando o frio graças às samarras quentes e aos xailes de lã grossa. Um gemido, um choro, um sinal de vida, que pareceu trazer a mulher trémula, dorida e assustada de volta a si mesma:
- Dêem-ma, dêem-ma, dêem-ma - dizia Luísa, sempre tão irme, tão controlada, tão forte, morta e trazida de novo à vida.
A parteira obedeceu à duquesa, pousando-lhe nos braços um bebé enrolado em panos, os olhos negros despertos, ixos no rosto da mãe. Luísa soltou um soluço e apertou-a com força, como se a quisesse proteger hoje e para todo o sempre.
A noite estava ainda escura e gelada quando deram a notícia ao duque, adormecido sobre o seu cravo, onde dedilhara horas a io, procurando controlar o nervosismo de um parto que parecia não ter im. A mulher já dera à luz três vezes, a pequenina Ana morrera poucos minutos depois de nascer, mas só após o Santo Baptismo, que Deus guardasse a sua alma, mas nenhum dos «trabalhos» fora tão comprido e tão doloroso como este.
Acordado por frei Pedro, o frade da capela do Paço de Vila Viçosa, que lhe pousou a mão levemente sobre um ombro, João perguntou imediatamente:
- Está bem, a minha mulher, está bem? E o bebé, e o bebé?
- Mãe e ilha, as duas bem - disse-lhe o frade, com o seu sotaque alentejano cerrado.
- Uma rapariga? -, perguntou o duque, entusiasmado.
- Uma menina, sim.
Pressentiu, na notícia, mais um calafrio do que uma revelação, de que, se nada tinha sido fácil até agora, nada seria fácil a partir daqui. Afastou o medo com um encolher de ombros, levantou-se e, apa rentemente a despropósito, mas o frade sabia que não o era, exclamou:
- Mas, afinal, quando é que a vida foi simples!?!
Com as pernas entorpecidas, seguiu frei Pedro, bem mais acordado do que ele, até aos aposentos de Luísa de Gusmão, senhora de Medina-Sidónia, duquesa de Bragança, com o seu sangue andaluz sempre tão à lor da pele.
Bateu gentilmente à porta e entrou, a luz das velas a banhar de uma luz suave a cama de carvalho escuro, grande e confortável, onde tinham concebido aquela criança nove meses antes.
Luísa virou a cabeça quando o ouviu chegar e chamou-o, comovida:
- João, é uma rapariga.
O duque de Bragança pegou no embrulho que a mulher lhe entregava religiosamente, e os olhos da criança hipnotizaram-no, abertos e ixos, agora no pai, que havia de amar mais do que a todos os homens. Ou a quase todos.
- Luísa, que olhos ela tem...
A mulher estremeceu e, tocando-lhe com a mão no braço, puxou--o para junto de si, sentando-o na cama ao seu lado, e murmurou:
- João, temos de a proteger. - Disse num sussurro que mais parecia a revelação de um segredo bem guardado.
Mas não falou dos seus sonhos, do dragão e do fogo, do ódio e do ventre liso. Calou-os durante tantos anos, que houve um tempo em que julgou mesmo que os conseguira esquecer, ingenuamente convencida de que a memória limpa aquilo que alguma vez a marcou tão profundamente.
Felizmente, os ilhos de Deus conseguem deitar para trás das costas os seus receios mais terríveis, e continuar a vida como se nada fosse, pensou para si frei Pedro, que entendera melhor do que o duque aquele apelo da duquesa, lendo nele mais fundo e mais longe.
Quanto ao duque, sorriu-lhe, meigo:
- Proteger Catarina? Haverá muitos que darão a vida por ela, contempla-me estes olhos, esta boca determinada. Luísa, descansa, que esta menina não se vai perder...
- Catarina? - perguntou Luísa, surpresa. - Não lhe íamos chamar Conceição, como a Virgem de Vila Viçosa?
- Catarina - retorquiu seguro o pai, enquanto se levantava e cami nhava até à janela com a ilha nos braços e a virava para que olhasse as laranjeiras naquela noite iluminadas por tochas, para que os cantares de embalar que a gente lá fora entoava lhe enchessem os ouvidos.
- Nasceu no dia de Santa Catarina - explicou frei Pedro, fazendo uma ligeira vénia ao dizê-lo.
- Que tonta sou, claro. Então, Catarina será - concordou a mãe, exausta. Para baixinho repetir «Catalina, a minha Catalina, a luz dos meus olhos», como se só em castelhano, na sua língua natal, o nome da ilha tivesse o vigor que queria ver naquela criança que a nascer quase lhe levara a vida e o juízo.
Quando João regressou dos cânticos e do perfume de laranja, Luísa dormia como um anjo. Com a ajuda da ama, abriu um espaço entre os lençóis de linho com que a cama acabara de ser feita de lavado e pousou a sua Catarina, que adormeceu ao lado da mãe, entorpecida pelo cheiro da barrela e do ferro, da alfazema e do alecrim.
Paço de Vila Viçosa, 16 de Junho de 1640
uísa olhava pela janela para o claustro de D. Jaime. Um ligeiro
sorriso curvou-lhe os cantos da boca, quando reparou em Teodósio, pendurado na borda do tanque de pedra, as mãos dentro de água na tentativa de apanhar um peixinho encarnado. Joana, com o chapéu de palha de abas largas a tapar-lhe o cabelo negro, puxava-o pela jaqueta, e os seus gritos de menina de quatro anos chegavam aos ouvidos da mãe:
- Mano, quero peixe. Peixe para mim.
A ama conversava distraída com um dos moços da cavalariça, e não dava por nada. Luísa pensou que havia de a chamar à atenção, mas os olhos voltaram-se de novo para o seu primogénito. João estava sempre a dizer-lhe que o mimava, e Luísa não podia enganar-se a si própria: adorava o
ilho, que era simultaneamente meigo e decidido, inteligente e
determinado. O que não confessava a ninguém é que suspirava de alívio por o seu filho mais velho ter muito pouco do pai!
Demorara muito tempo a adaptar o seu temperamento de mulher de Medina-Sidónia, com o ferro de uma princesa andaluza, ao feitio generoso, mas demasiado acomodado, do duque de Bragança. Teodósio nunca teria as hesitações do pai, estava certa disso, e como acontece a qualquer mãe sempre que um dos seus ilhos herda um dos traços de carácter que considera do «seu lado», Luísa inchava de orgulho: Teodósio saía ao avô materno, e ninguém podia desmenti-lo.
O ilho, agora já completamente ensopado - e aquela parva de olhinhos no cocheiro! -, levantava o braço triunfante e gritava para a irmã:
- Aqui tens o teu peixe, Joana!
O peixinho encarnado contorcia-se-lhe nas mãos, tentando escapar dos seus dedos fortes, mas Teodósio não o largava.
A mãe olhava ansiosa, não o queria cruel, mas depois de Teodósio ter deixado que Joana tocasse com um dedo nas escamas suaves do peixinho, os olhos semicerrados e uma cara enojada que contradiziam a vontade de o segurar nas próprias mãos, lançou-o de novo ao tanque. A birra da irmã voltou a incendiar-se. Teodósio olhava-a, divertido:
- Deixa-te de fitas, Joana. O peixe foi ter com a família dele.
Joana olhou-o com a admiração com que sempre o olharia:
- Foi... mãe? - perguntou.
- Sim, foi ter com a mãe dele - disse-lhe o irmão, passando a mão suavemente pelos seus cabelos grossos e negros. Depois saltou para o terreiro e gritou um «Não me apanhas!»
Mas antes de desatar a correr por entre as colunas, qualquer coisa o levou a olhar para cima e, quando viu os olhos de Luísa postos nele, o seu rosto iluminou-se. Luísa devolveu-lhe o olhar mas, com um dedo cúmplice colocado à frente dos lábios, mandou-o silenciar aquele momento. Teodósio guardou-o.
Perdera um ilho há pouco mais de dois meses. Não era o primeiro que Deus lhe dava e voltava a tirar, mas Manuel fora diferente. Embalara-o no colo, sentira a sua mãozinha apertar com força o seu dedo indicador. Era um bebé perfeito, de pele muito branca, uma penugem clara cobria-lhe a cabecinha redonda, e o nariz era pequenino e arrebitado. Lembrava-lhe Duarte, o cunhado, por quem se tinha apaixonado nos primeiros tempos de casada, e que quase arruinara o seu casamento. O marido, habitualmente pací ico, enfurecera-se com os olhares que trocara com ele - não izera mais do que isso, Santo Deus -, mas a rivalidade entre o duque e o irmão era já tal que não precisava de muito para subir de tom. Duarte entendeu que o seu futuro não passava por Vila Viçosa, onde só podia agudizar con litos. Partira há cinco anos para a Alemanha, nunca chegaria a ver este menino tão parecido com ele. Seria por isso que sentira como insuportável que Manuel lhe morresse nos braços, silenciosamente, como se adormecesse num sono suave mas sem retorno? Como Duarte, que a deixara sem um adeus, para arriscar a vida a combater pelo impe rador Fernando III. Que culpa podia ser a sua por se ter sentido atraída pelo irmão errado, quando nunca tivera a oportunidade de escolher?
Como sempre, fora o seu confessor, frei Pedro, que a soubera consolar, com aquele jeito de poucas palavras mas directas ao assunto, capaz de ler os cantos mais recônditos do coração. Tinha sido claro quando insistira que não era tempo de Luísa se entregar à melancolia pós-parto, pois a agitação do povo em torno da opressão dos Filipes crescia, e mais dia menos dia João iria precisar de toda a determinação e força da mulher para tomar a decisão certa. A «decisão certa», como misteriosamente era designada nos corredores do paço, a decisão que, a acontecer, lhe mudaria em absoluto a vida.
Era uma mulher de armas. Pelo menos, o marido acusava-a frequentemente de o ser, como se sentisse que a sua determinação servia apenas para fazer sobressair a sua fraqueza. Hoje criticava-a menos, tendo entendido que Luísa queria o melhor para ambos e para os seus filhos, mas os primeiros anos tinham sido complicados.
O nascimento de Teodósio, no entanto, pusera um interregno nas suas contendas diárias, como se ambos soubessem que a partir de agora não havia regresso possível. Dera-lhe um herdeiro, um rapaz como tanto desejava, que baptizaram com o nome do avô paterno, o ídolo de João. Depois do desgosto da pequenina Ana, viera Joana, que recebera o nome da avó materna, e, há quase dois anos, Catarina. Mais precisamente Catarina de Bragança, um bebé cheio de vigor, nascido um mês antes do Natal, como o Menino que chegava para preencher as palhinhas vazias do Presépio.
Luísa voltou a pensar em João. Aos poucos entendera que as hesitações do marido talvez não fossem sinal de cobardia ou medo, mas uma forma disciplinada de ponderar antes de agir, de não entrar em con litos só porque sim. Aos poucos percebera melhor a história destes Bragança, orgulhosos do seu mote «Depois de Vós, Nós». Aqueles que, não sendo reis, eram os primeiros do reino, com propriedades e riquezas espalhadas por todo o país, de norte a sul, mas sem a força da coroa.
Primeiros do reino, convictos da pureza e da força do seu sangue, mas inteligentemente fechados no seu Paço de Vila Viçosa, porto seguro na estrada entre Lisboa e Madrid, tinham aprendido desde há muito a acenar com a bandeira branca da paz a todos aqueles que, temendo o seu poder, podiam ser tentados a retirá-los de cena. «Depois de Vós, Nós» obrigara a uma diplomacia imensa, provavelmente aprendida no berço. Luísa franziu o sobrolho, recordando a noite em que o marquês de Ferreira, grande amigo da família, lhe contara, enquanto se aqueciam na lareira crepitante, que o pai de João o educara para a música, a caça e as Letras, segundo os avisos dos seus conselheiros, que lhe diziam que quanto mais discreto fosse o per il político e militar do jovem duque, mais seguros estariam todos.
Por educação não dissera nada, mas nessa noite não conseguira pregar olho: que conselheiros estes, que, em lugar de prepararem João para o lugar que um dia poderia ocupar, tentavam escondê-lo na «paisagem», de forma que passasse despercebido. Educação tão diferente da que lhe tinha sido dada a ela, para que superasse a falha de ser mulher, de não ser tão rica como desejável, de não ter os títulos su icientes para ambicionar mais alto do que um duque, que podia, ou não, vir a subir acima disso. Decididamente, ninguém dissera a Luísa que a sua missão era passar despercebida, e tinha a certeza de que nunca ensinaria os seus ilhos dessa forma. Queria o melhor, e apenas o melhor, para o seu Teodósio, para Joana e Catarina, e para todos os que estivessem ainda para vir.
Olhou de novo pela janela. A desvairada da ama já fora atrás dos meninos, constatou de repente, e o silêncio caíra sobre o claustro. Luísa agradeceu a brisa que se levantara e abriu um pouco mais a janela, para que este ventinho de fim de tarde arrefecesse a casa.
Recostou-se no seu cadeirão de verga, almofadado para que não sentisse tanto as dores que lhe haviam icado do parto, e durante uns segundos deve ter dormitado, porque quando acordou viu que o missal que segurara entre as mãos estava caído no chão. Dobrava-se apressadamente para o apanhar, pedindo desculpas a Deus pelo sacrilégio, quando ouviu a voz alarmada da ama Carminho:
- D. Luísa, D. Luísa, a menina arde em febre. Ai, que nos valha Nossa Senhora da Conceição...
Paço de Vila Viçosa, 17 de Junho de 1640
esde que Carminho a chamara aos gritos, Luísa não saíra da beira
do berço da pequenina Catarina. João também a visitara de meia em meia hora, tirando-a da cama com o brasão dos Bragança embutido na cabeceira, onde tantos duques e duquesas antes dela haviam dormido, embalando-a suavemente nos braços. Luísa seguia-os pelo quarto, as compressas frias aplicadas na testa a ferver.
- Arde em febre, João, e logo hoje que a noite está tão quente...
- Temos de ter fé, Luísa. Já pedi ao padre António de Brito e Sousa e ao frei Pedro da Fonseca que dessem ordens para que se rezasse por ela em todas as igrejas da vila e os sinos já repicaram para afastar o mal.
- Mas este médico é um incompetente - vociferava a mulher, ansiosa por encontrar um bode expiatório para a doença que tomava a sua filha.
Os caracóis de Catarina colavam-se à cabeça, ensopados, e os seus olhos enormes abriam-se para o pai, mas como se não o vissem. O sorriso fácil e encantador tinha desaparecido. Catarina não lhe estendia os braços, nem os apertava em redor do seu pescoço, com a força e o amor que o duque sentia que só ela, apesar de não ter mais de um ano e meio, lhe dedicava. João estava desesperado. «Senhor, não me leves a minha mourinha», rezava para dentro, as costas das mãos procurando arrefecer as bochechas ainda mais encarnadas da criança.
Na manhã seguinte, Catarina continuava quase inconsciente, num delírio de que se soltavam gemidos dolorosos.
Luísa afugentava o medo e a ansiedade dando ordens.
- Maria do Carmo, manda fazer um chá de laranja-amarga, que faz descer a febre mais depressa do que o das doces, e que o arrefeçam antes de mo trazer - dizia num português arrevesado de castelhano que não conseguia esconder.
- Cecília, leva-me daqui os meninos, por louvor da Santa. Leva-os para o Convento das Chagas e pede às irmãs que cuidem deles, que não os quero nem perto deste quarto.
Teodósio ainda tentou passar a soleira da porta, habituado a levar a melhor da mãe, mas a irmeza com que foi empurrado para fora dali deixou-o sem pio. Joana, ao ver o irmão tratado assim, nem se atreveu a protestar e, segurando na mão de Teodósio, puxou-o:
- É melhor fazermos o que a mãe diz!
O som do cravo não deixava dúvidas de onde João se tinha refugiado. Luísa não sabia se havia de irritar-se com ele, ou de agradecer que o pobre tivesse uma forma de se distrair desta angústia imensa de assistir à doença de um filho sem poder fazer nada.
Com o pé, baloiçava suavemente o berço de Catarina, os olhos nas árvores do jardim, que via sem ver, quando sentiu uma mão pousada discretamente no seu ombro. Virou-se, assustada, mas o sorriso de frei Pedro surtiu o seu habitual efeito. Sempre aquela sotaina coçada, os livros debaixo do braço, um olhar com um cintilar cínico, que o seu humor e a sua generosidade disfarçavam.
As lágrimas tão furiosamente contidas soltaram-se. Beijou-lhe a mão e depois escondeu a cara entre as suas.
Frei Pedro aproximou-se de Catarina, fez-lhe uma pequena cruz na testa, puxou para trás o lençol e na sua voz serena perguntou:
- D. Luísa, posso abrir a janela? Está tanto calor aqui e lá fora já corre a brisa...
Luísa acenou que sim com a cabeça e endireitou-se. Frei Pedro abriu a vidraça, olhou o Sol a pôr-se no horizonte, e, de costas viradas para a duquesa, começou a falar:
- D. Luísa, posso repetir-lhe o meu sermão de hoje?
Sem esperar por uma resposta, continuou:
- Falei de Maria puri icada, que quarenta dias depois de ter dado à luz o Menino, O apresentou no Templo, como era costume então, oferecendo dois carneiros e pombas em acção de graças.
Luísa sufocou um soluço. Passavam 40 dias desde que dera à luz, mas não havia menino para apresentar, que Deus lhe tinha levado o seu pequenino Manuel.
- Não percebo onde quer chegar, frei Pedro, sabe que esse assunto me magoa, logo agora que me sinto prestes a perder Catarina...
- Fé, D. Luísa, fé. Deus escreve direito por linhas tortas. Falei de Nossa Senhora das Candeias, ou da Puri icação, a Virgem que dá a luz aos que não vêem...
- Mas por que me fala agora de cegueira, frei Pedro? - perguntou Luísa, aflita.
- O médico não vos disse que teme que D. Catarina, com estas febres estranhas, perca a visão, como tem acontecido a tantas outras crianças por estes dias?
Luísa tremeu. O que deveria temer mais? Que a sua ilha tão perfeita, de olhos tão abertos para o mundo, passasse a viver na escuridão, ou que partisse, agora, sem sofrimento?
- Já sei onde quer chegar, frei Pedro. Acha que me devia apresentar com ela à Senhora das Candeias, Nossa Senhora do Tojal, como lhe chama o povo; que me devia juntar à peregrinação que parte para Mourão, onde está a imagem da Virgem que dizem fazer milagres?
Frei Pedro não se virou, mas inspirou fundo o cheiro a rosmaninho que já estava em flor, e continuou, como se não tivesse ouvido a duquesa:
- Vivemos tempos de escuridão. Ter fé na luz é o único caminho. A luz virá, se acreditarmos nela. Se lutarmos por ela.
Luísa voltou a suspirar. Suspeitava que o frade falava de muito mais do que da doença de Catarina, o que se por um lado a sossegava - era como se ele soubesse já que a sua ilha seria salva -, por outro a deixava assustada, com medo de que frei Pedro estivesse apenas a prepará-la para seguir por um caminho entre as trevas. Levantou-se, de um salto. Não valia a pena fazer-se de tonta, sempre fora inteligente, e, pensando com mais serenidade, sabia bem a que luz frei Pedro se referia.
Olhou de novo para a filha e o seu coração deu um salto.
- Frei Pedro, frei Pedro, Catarina já sorri.
Frei Pedro voltou-se muito devagarinho, como se nada daquilo o surpreendesse, e aproximou-se do berço. Catarina virou para ele o olhar e sorriu de novo, os dentes muito brancos numa cara redonda e rosada. Frei Pedro debruçou-se sobre ela, pegou-a e sentou-a no colo da mãe.
- Até amanhã, D. Luísa.
A duquesa não encontrou voz para lhe responder, mas, na sala lá do fundo, o cravo deixou de tocar, como se João tivesse pressentido tudo, sem ser necessário que lhe dissessem fosse o que fosse. Os passos apressados do duque soavam no soalho de madeira e escutavam--se cada vez mais próximos, confirmando a sua suspeita. Como soubera?
Castelo de Terena, 15 de Setembro de 1640
hovera furiosamente nas primeiras semanas de Setembro e as
ervas verdes tinham coberto o campo queimado do sol. O milho estava alto e as vinhas, onde as havia, exibiam os seus enormes cachos de uvas.
A comitiva avançava há dois dias. Partira do Paço de Vila Viçosa em peregrinação destinada a agradecer a Nossa Senhora das Candeias a saúde da pequenina Catarina. E a pedir luz. Catarina recuperara rapidamente da doença e os seus imensos olhos negros continuavam a ver, louvado fosse Deus. Brilhantes e cintilantes, incapazes de esconder uma tristeza, iluminando-se com a mais pequena alegria.
«A luz dos meus olhos», cantarolava-lhe Luísa, enquanto a fazia saltar nos joelhos.
Na primeira noite pararam na vila de Terena, com o seu magní ico castelo, engalanado para os receber, as gentes na rua gritando «vivas», dobrando a cabeça em vénias a Teodósio e às armas dos Bragança.
Depois do descanso na modesta casa da Irmandade da Misericórdia, as armas portuguesas por cima da porta, o que frei Pedro sussurrou ser um bom presságio, em quartos arranjados com esforço e o maior dos luxos para a duquesa e ilhos, a comitiva dirigia-se agora para a vila de Mourão, passando antes, para um momento de oração, na Confraria de Nossa Senhora da Boa Nova. Um santuário tão antigo como o próprio tempo, pensou Luísa, ao olhar as paredes sóbrias de pedra, quase um castelo em miniatura, onde uma Santa Catarina, num altar lateral, merecia uma Ave-Maria.
As carruagens iam enfeitadas, os cobres luziam, acabados de polir. A guarda vinha a cavalo, e Teodósio montava também, mas Luísa, Joana e Catarina seguiam protegidas do pó da estrada, luxo que não era partilhado pelo povo que se fora juntando à comitiva.
A carruagem da duquesa atraía os olhares de todos. Era um presente de casamento e Luísa não se cansava do seu fausto. Nem do simbolismo - fora nela que viajara da sua terra natal, San Lucar, até Elvas, onde casara a 12 de janeiro de 1633, sete longos anos atrás, na magní ica catedral. O cunhado Duarte e o irmão, com o mesmo nome, um em cada estribo, apesar da chuva torrencial, e a partir da ponte do rio Caia, João, a seu lado. O homem que conhecera naquele minuto e a quem iria oferecer a sua vida para sempre.
O Castelo de Monsaraz impunha-se do lado esquerdo da estrada, as muralhas contornando o cume, as lascas de xisto empilhadas umas nas outras como lâminas. O sol brilhava contra os sinos de uma das torres e D. Luísa teve pena que a imagem da Senhora não estivesse na ermida daquela terra, toda em pedra escura, num pequeno monte vizinho. Sempre poupava umas léguas de estrada e de calor.
Pensava nisto quando ouviu os dedos de Teodósio a bater na vidraça da janela. O filho chegara o cavalo à carruagem, para lhe falar:
- Mãe, olhe, vê ali ao fundo, muito ao longe, a torre de Mourão? Se não fosse o barulho dos cascos dos cavalos e do ranger das rodas, ouvia a música que toca e a brisa nos traz. Mourão está à nossa espera. Não aguento ir a este passo, posso galopar até lá?
Luísa endireitou-se, zangada, que o amor ao ilho nunca a fazia esquecer a disciplina:
- Teodósio, que te livres de saíres daqui. O futuro duque de Bragança não abandona a comitiva e as mulheres da família, para desarvorar pelos campos como um louco. Senta-te direito nessa sela e cumpre a tua missão, que estás aqui no lugar do teu pai.
Joana deitou-lhe a língua de fora; adorava ouvir a mãe ralhar a Teodósio. Ia ser sempre assim, uma adoração desmedida pelo seu magní ico irmão mais velho, e uma raiva contida por se ver sempre preterida, ou pelo herdeiro, ou pela mais pequena da família, que todos pareciam obcecados em proteger.
Desta vez o pai pensara como Joana. Tentara dissuadir Luísa de partir até Mourão, com o argumento de que a devoção dos Bragança sempre fora a Nossa Senhora da Conceição. Mas mesmo enquanto falava, sabia que a batalha estava perdida. Primeiro, porque a mulher fazia sempre o que entendia, e, depois, porque desta vez era secundada por frei Pedro, e contra aquele frade João nunca diria uma palavra.
O duque hesitara. Deveria acompanhar a família ou deixar-se estar no paço? Era bom que os Bragança fossem vistos nas suas terras, e naquelas, como Mourão, que tinham dado o seu apoio aos Filipes.
Mourão já fora bastião da independência, ora nas mãos de uns, ora nas de outros, mas, agora, que sentido fazia isso, se o reino inteiro pertencia a Castela e o sangue derramado pelos seus antepassados fora derramado em vão?
Até pensar nisso lhe parecia perigoso, educado que fora para andar sempre entre os pingos da chuva, praticando a diplomacia suprema de recusar os cargos e lugares que Filipe lhe propunha - sempre ilustres, sempre distintos - sem dar a ideia de que o fazia por oposição ao seu poder. Ou, pior, com vontade de o confrontar.
Mas nesses primeiros tempos tudo era diferente, como lhe diziam os conselheiros. O Juramento de Tomar, feito por Filipe II, parecia garantir a independência do nosso reino, assegurando que os principais lugares seriam ocupados por políticos e militares portugueses, mas longe iam essas promessas. Se João não tinha vontade nenhuma de se meter em sarilhos, não tinha também coluna vertebral para suportar os atropelos que iam descaradamente sendo feitos aos direitos dos portugueses. Ainda pensou em falar com o rei de Castela, sugerir-lhe que um bocadinho mais de bom senso o poderia levar longe, mas depressa compreendeu que conversar com Filipe III de Espanha era comprometer-se com ele, e isso não queria.
Como frei Pedro lhe dizia enquanto bebiam um copo de vinho quente na sala grande, em frente à lareira, com os frescos do tecto iluminados pela luz das 50 velas do lustre, os tempos das hesitações já tinham acabado. Nunca o aconselhava directamente, da mesma forma que não o criticava, optando sempre por falar como que para os anjos no céu ou para os toros de madeira que ardiam no fogo. Assim, ia dizendo que há destinos que um homem não pode recusar.
Vila de Mourão, 15 de Setembro de 1640
oana puxou-lhe pela manga do vestido de seda verde:
- Mãe, mãe, estamos a chegar. Música...
Luísa voltou ao presente. Endireitou Catarina no colo e procurou alisar os vincos do vestido branco amarrotado pela viagem.
- Ai, meu Deus, como é que vou apresentar a ilha do duque de Bragança à Virgem e ao povo com o vestido todo amarfanhado - queixou-se a Teresa, que sorriu.
- Deixe-se disso, D. Luísa. Viemos em peregrinação. O que importa é agradecer a saúde de D. Catarina e deixar que a Senhora das Candeias a ilumine para todo o sempre. Que a duquesa veja sempre mais longe e guarde no seu coração a luz da fé.
Luísa olhou-a meio envergonhada. Escusava de ter ouvido tudo isto da boca da sua aia. Pensou em amuar, mas depois sacudiu os cabelos enfeitados com brilhantes e encostou a cabeça ao seu ombro:
- Teresa, foste o melhor presente que a minha mãe me deu.
Teresa soltou uma gargalhada divertida:
- Melhor ainda do que esta carruagem?
Mas a conversa icou por ali, porque estavam parados na praça principal, frente à Igreja da Misericórdia, e nem podiam avançar mais, tal era a multidão que os rodeava.
O bispo de Évora, vindo até aqui para a ocasião, abriu a porta da carruagem e estendeu-lhe a mão a beijar, para depois lhe segurar o braço para a amparar na descida dos frágeis degraus que o pajem se apressara a preparar:
- Bem-vinda, D. Luísa de Gusmão.
Baixinho, para que só ela ouvisse:
- Julgo que o melhor é deixar aqui a carruagem e subir a encosta até à pequena Ermida de Santa Maria do Tojal, em peregrinação.
A luz da tarde era tão intensa que Luísa teve de puxar para cima dos olhos o chapéu, e só então percebeu que as ruas estavam cobertas de
lores, as janelas decoradas com mantas e colchas bordadas, e homens e
mulheres aguardavam-na, em silêncio. Sentiam-se muito orgulhosos pela visita da duquesa, senhora daquela terra, mas mais orgulhosos ainda de albergarem no pequeno templo, incrustado na Torre do Relógio do magní ico castelo, fechada e protegida entre as suas paredes altaneiras, no topo do morro de tojo, que tinha dado o nome à igrejinha, a imagem milagreira de Nossa Senhora das Candeias.
D. Luísa desceu com Catarina presa nos braços; a veste branca símbolo de pureza contrastava com a sua pele morena, os imensos olhos escuros, o cabelo em caracóis até aos ombros. Joana, tão parecida com a irmã, segurava a mão da mãe, muito direita e digna como a ama lhe ensinara. Teodósio, já pelo seu pé, apressou-se a chegar-se próximo das mulheres da sua família.
Luísa foi cumprimentando as gentes que ladeavam as ruas e quando deu por isso estava à frente da procissão que a seguia, compacta, pela encosta.
Os canhões, de cada lado do grande portão, revelavam anteriores conquistas - e outras que haviam de vir, disse Luísa para consigo -, e à porta a guarda fardada a rigor fez soar salvas à duquesa. O padre de Mourão, um homem baixo e bonacheirão, recebia-a vestido no melhor dos seus paramentos e insistiu em ser ele a conduzi-la ao santuário.
Catarina olhava em redor, prestando atenção a este e àquele, sem medo, nem temores, como se tivesse nascido para atravessar multidões. Sorria às pessoas à distância, mas não se debatia para ir para o chão. Dir-se-ia que queria agradar, mas guardando a distância, pensou Teresa, que a observava de perto. Tão diferente do seu irmão Teodósio, que apertava mãos a torto e a direito, deixando cada pastor de Mourão, cada trabalhador da terra, com a certeza de ser único.
As aias, a rir, diziam umas às outras:
- Esta gente já não lava as mãos, depois de D. Teodósio lhas ter apertado.
A verdade é que anos depois muitos avós relatavam com entusiasmo aos netos aquela tarde em que o filhinho do senhor duque viera a Mourão.
A ermida era pequena, as paredes de xisto sobreposto como fatias de um bolo de bolacha, o tecto abobadado como só os alentejanos o sabiam fazer. Pequenina e escura, como se fosse a caixa aveludada de uma jóia preciosa que o sol podia estragar, dela emanava uma serenidade impossível de encontrar num lugar sem a marca do sagrado.
Hoje, a imagem não saía no seu andor, para ser vista e adorada pelos peregrinos. Hoje, a Virgem esperava no seu posto a visita da duquesa e da pequenina Catarina. Eram elas, e só elas, que lhe faziam a genu lexão, lhe acendiam uma vela e se ajoelhavam para orar.
Frei Pedro, que se mantivera anónimo entre a comitiva, deixando que o bispo izesse todas as honras da casa, e o prior de Mourão as restantes, avançou para junto da duquesa, segundos antes da sua entrada. Silenciosamente, dobrou um joelho e fez o sinal da cruz na testa de Catarina, empurrando-a suavemente para a porta de carvalho escuro. Luísa seguiu o seu sinal, retirou os sapatos, perante o olhar de aprovação da multidão, descalçou Catarina e colocou-a no chão. Entregando a mão de Joana a Teodósio, avançou com a ilha, de passos já tão certos apesar da tenra idade, até junto da imagem.
Com um metro e vinte de altura, quase o dobro de Catarina, feita de pedra de Ançã, que permitia sempre aquela textura leve, branca e sem veios, vestida nos seus trajes brancos de festa, bordados cuidadosamente a ouro, a imagem era imponente. Os seus cabelos negros (Tão negros como os meus, pensou Catarina) caíam em tubos sobre as vestes e os brincos de prata trabalhada re lectiam a luz das velas que a rodeavam. O Menino era rechonchudo e loirinho, aconchegado à mãe, uma coroa na cabeça de um e na de outro. As pombas voavam em seu redor no retábulo ao qual se mantinha encostada, onde brilhavam também estrelas douradas. O Menino estava virado de frente para quem chegava, como se ele e sua mãe os acolhessem. Acenderam a vela alta de cera de abelha, rezaram, e depois Luísa ordenou a Catarina que lhe beijasse os pés, em sinal de reverência e gratidão.
Mas, levantando a cabeça, Catarina pediu:
- Colo, mãe - e apontava com o dedo para o Menino e para as pombas.
Luísa ergueu-a à altura do Menino Jesus, recomendando-lhe todo o cuidado. Catarina, com o dedinho indicador esticado, percorreu as feições da criança, como se procurasse memorizar todos os seus detalhes. Catarina percebia bem que a Virgem que tinha à frente não era um boneco, nem um brinquedo.
O silêncio foi subitamente interrompido pelo choro de uma criança, e Joana apareceu de repente, as lágrimas a correrem-lhe pela cara, fugida de Teodósio, as mãos presas com força às pernas da mãe. Porque é que toda aquela festa era só para a Catarina, um bebé de colo?
Luísa, em lugar de se zangar com ela, pousou Catarina, que se sentou de pernas cruzadas, levantando em seu lugar Joana, beijando-lhe a cara molhada pelo calor e pelas lágrimas. Chegando-a mais perto, sussurrou-lhe ao ouvido:
- Joaninha, desculpa. A Virgem tem um coração que chega para todos. Queres pedir-lhe a bênção?
Joana estendeu o corpo para os pés da Virgem e beijou-os. Depois, reconfortada, ajoelhou-se de olhos fechados, benzendo-se como uma boa aluna de frei Pedro.
Catarina olhou-a, espantada, e imitou-a. Joana abraçou-a:
- Desculpa, Catarina. Estou muito contente que aquela doença não te tenha feito mal.
Luísa enxugou os olhos, e, baixando-se, pôs um braço em redor de cada uma delas, rezando alto:
- Luzes dos meus olhos, que a Senhora das Candeias vos ilumine sempre o caminho.
Anos depois, nos momentos mais di íceis da sua vida, Catarina ouviria sempre no mais fundo de si a voz da mãe, a entoação única da mãe, a pedir à Virgem que lhe iluminasse o caminho. Mourão nunca mais saiu do seu coração.
Paço de Vila Viçosa, 25 de Novembro de 1640
oana estava mais excitada do que Catarina, que percebia que o dia
era de festa e que todos pareciam andar à sua volta desejosos de cumprirem as mais pequenas vontades, mas não sabia bem porquê.
A ama tirara-a da cama e abraçara-a contra si com toda a força. Dera-lhe um beijo lambuzado, que Catarina se apressara a tentar enxugar com as costas da mão, e entregara-lhe uma laranja enorme. Catarina apertara o fruto entre as mãos e preparava-se para lhe dar uma dentada quando Joana interrompeu a cena:
- Ama, ama, a pateta da mana julga que a laranja se come assim.
A ama tirou-lhe apressadamente a laranja da mão, e Catarina desatou num pranto de fúria e raiva:
- Ai, D. Joana, que esta sua irmã há-de ter cá um feitiozinho. É toda sorrisos quando a vida lhe corre de feição, mas se alguém a contraria ica a terra inteira a saber que não lhe fizeram a vontade - comentou.
Luísa também ouvira os gritos da sua ilha mais nova, exactamente quando atravessava o longo corredor, batendo com os saltos suaves na madeira polida. Apressou o passo, mas sem medo: conhecia bem aquele choro de Catarina, e, embora lhe repreendesse as birras com uma determinação e uma severidade até provavelmente exageradas, por dentro sorria orgulhosa pela força do carácter da sua mais pequenina.
Lembrava-se bem de como há dois anos o seu parto fora longo e doloroso, corrido pela noite fora. Catarina estava determinada a não sair do conforto da sua barriga, pensou divertida, para se benzer rapidamente, quase como se fosse uma heresia ter esquecido Ana e Manuel, que Deus os tivesse junto de Si.
Entrou no quarto de brinquedos e encontrou a ilha sentada na sua cadeirinha alta, um enorme guardanapo para proteger o vestido de seda cor-de-rosa, que a avó materna lhe mandara de presente, frente a um prato com uma laranja cortada às rodelas, que insistia em comer sozinha, apesar dos protestos da ama.
- Que gritaria era aquela, menina Catarina? - perguntou-lhe, aceitando os braços que a criança logo lhe estendeu e puxando-a para si.
- Mãe, mãe, era a Catarina que queria comer a laranja que a ama lhe deu de presente de anos, com a casca e tudo... - disse Joana.
- Menina impaciente... Então não sabe que a laranja não se come com a casca, minha pateta pequenina - ia dizendo à ilha, enquanto a balouçava ao colo, como se a fosse deixar cair. Catarina ria a bandeiras despregadas, totalmente con iante nos braços que a sustentavam, sentindo que aquele, sim, aquele era o melhor dia da sua vida.