Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 1 de 12 · parte 2/3

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Catarina de Bragança

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Durante o dia brincou no quarto, mas, às quatro da tarde, a ama veio trocar-lhe novamente o vestido por um de seda pesada, castanho, com rendas bordadas em redor do pescoço, que Catarina bem tentava arrancar. Joana já tinha posto o seu, exactamente igual, e dava voltas sobre si mesma para mostrar à irmã a roda que o vestido tinha. Teodósio interrompeu a cena, entrando de rompante pela porta, vestido também de gala, na mão um badalo de ovelha, preso num cordão de couro curtido.

Abanou-o com força em frente dos olhos da irmã mais nova. Joana tapou os ouvidos, mas Catarina sorriu, divertida:

- Dá, dá, dá mim? - perguntou, enquanto lhe estendia a mão. Hoje isto resulta, pensou, porque todo o dia a mão tinha voltado cheia, e ninguém lhe tinha dito o habitual «Não mexa», ou «D. Catarina, isso não é para si».

Teodósio, divertido, pendurou-lho à volta do pescoço e o cordão era su icientemente comprido para que Catarina conseguisse, sozinha, fazer tocar o sino. Depressa percebeu que bastava abanar a cabeça para que aquele som, que lhe era tão familiar, se soltasse.

Joana e Teodósio riam divertidos, mas a ama interrompeu a brincadeira:

- D. Teodósio, a fazer da sua irmã uma ovelha. Credo, menino. Se os senhores duques aqui entram, eu sou despedida na hora, julgam que faço pouco da menina.

Frei Pedro, que dava as primeiras letras a Teodósio, estava sempre a corrigir-lhe o sotaque alentejano, e D. António Brito de Sousa, então, icava doente quando o ouvia falar como os miúdos da terra, com quem brincava sempre que conseguia saltar os muros do jardim do paço. Mas Teodósio adorava aquele tom cantado, e respondeu-lhe na mesma:

- Carminho, mas o que são as minhas irmãs senão ovelhas do meu redil... aqui neste pasto, quem manda sou eu.

O sorriso da ama iluminava-lhe a cara, aquele menino tinha tudo para fazer o que quisesse de qualquer pessoa, pensou: era bonito, educado, esperto e meigo. Passou-lhe a mão pelo cabelo, e ele encostou--se por momentos ao seu avental, talvez saudoso dos tempos em que não se tinha de comportar como o ilho mais velho do duque, mas apenas como um menino de colo, que podia saltar para o regaço da ama e deixar-se embalar pelos seus cantares.

Carminho recuperou a compostura:

- Os três direitos, que já ouvi a porta bater por mais de cem vezes, e os convidados de D. Catarina já estão, de certo, na sala à vossa espera.

D. Teresa surgiu naquele preciso momento e, pegando em Catarina, deu a mão a Joana, enquanto Teodósio, esquecido de qualquer desejo de ser menino de colo, marchava à sua frente com a postura de um pequeno duque.

Nessa tarde, o primeiro a chegar fora D. Francisco de Melo, marquês de Ferreira, assim formalmente anunciado pelo mordomo-mor que, vestido com as cores da casa de Bragança, acompanhava os recém-chegados ao topo das escadas.

Luísa estendeu-lhe a mão imediatamente, e D. Francisco ajoelhou--se para a beijar. Um dos homens mais poderosos do reino, e que demonstrara sempre uma lealdade imensa por João, ao ponto de não parar de lhe dizer que chegara o momento de enfrentar Castela. João e Luísa tinham-lhe agradecido a idelidade, pedindo-lhe que aceitasse ser padrinho de D. Catarina, honra que até o izera corar, recordava--se agora Luísa, ao vê-lo estreitar o marido num abraço apertado. O baptizado fora um acontecimento discreto, na capela do próprio paço, o altar decorado com folhas de cameleira que a mulher de D. Francisco izera questão de trazer de Sintra para a ocasião.

- A 12 de Dezembro - disse uma voz familiar, e Luísa deu um salto.

D. António de Brito e Sousa, que já naquele tempo era deão da capela dos Bragança, acabara de chegar, e, com aquela magia que sempre tivera e teria, conseguia ler os seus pensamentos, como se a cabeça de Luísa não passasse de um livro aberto.

- Não é a cabeça, mas o coração - acrescentou D. António, e Luísa quase sentiu que o seu parara de bater.

- D. António, não faça isso, que me assusta. Sei-o abençoado por Deus e pelos anjos, mas essa sua maneira de saber tudo em que estou a pensar, mesmo antes que eu tenha consciência do que é, ainda o leva à fogueira -disse Luísa, a mão estendida e os olhos verdes mais verdes ainda.

- Pensava ou não pensava no dia do baptizado de D. Catarina? -retorquiu o deão, que tinha um gozo imenso na sua capacidade de pressentir o que ia na alma dos outros. Para dizer a verdade, aprendera a arte com frei Pedro, esse, sim, um mestre, e conhecia a duquesa su icientemente bem para que certos olhares fossem inconfundíveis. Não hesitava em fazer uso do «dom», desde que o seu priorzinho não estivesse por perto, porque aí sentir-se-ia como um amador a fazer habilidades perto de um mestre.

- Pensava, sim, D. António. Na felicidade de Catarina estar hoje aqui. Parecia-me tão frágil, aquele novelinho envolto em mantinhas, tal o frio que fazia na capela, o Natal à porta, e eu cheia de medo de que apanhasse alguma coisa quando o deão lhe izesse correr a água gelada da pia pela cabecinha abaixo.

- Falta de fé, D. Luísa - disse-lhe o padre António, divertido.

- Fé, senhor?

- Claro, acha que frei Pedro alguma vez deixaria que baptizasse D. Catarina com aquela água gelada? Aqueceu-a sem dizer nada a ninguém, com a cumplicidade da ama, suponho. Só dei por isso quando toquei na bacia, e não ia interromper a cerimónia para perguntar o que se passava.

Luísa suspirou, comovida:

- Mais uma dívida que tenho para com frei Pedro.

Em silêncio, pediu a Nossa Senhora das Candeias que abençoasse a sua ilha, a quem devia a bênção de uma Catarina viva e forte, que aqui estava a celebrar dois anos.

A sala estava quente, porque os criados há dias que acendiam as lareiras, de noite e de dia vigiadas para que o seu calor não esmorecesse, mas apesar disso as senhoras mais friorentas chegavam-se ao fogo para aquecer as mãos. O chá, moda recente vinda do Oriente, foi servido em chávenas de porcelana azul que as convidadas não se cansavam de admirar.

Quando a porta se abriu e Catarina surgiu, ladeada pelos irmãos, uma salva de palmas irrompeu entusiástica. Catarina estendia as mãos, no gesto que hoje lhe parecia tão rentável. O padrinho pegou--lhe ao colo e ela olhou em redor ligeiramente aflita: não se lembrava de o ter visto antes, mas o ar con iante e seguro da mãe disse-lhe que podia deixar-se estar entre os braços daquele homem alto e que cheirava a chá de lúcia-lima, de que tanto gostava.

Francisco aproximava-se de João com ela, dizendo-lhe numa voz doce palavras que não entendia mas a sossegavam, quando um dos camareiros surgiu à porta e, atravessando, sem grandes cerimónias, os grupos de convidados, aproximou-se do duque, saudou-o e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. João empalideceu ligeiramente mas, procurando recompor-se, puxou pelo braço do padrinho da ilha e empurrou-o para o seu escritório, contíguo à sala.

D. Francisco seguiu-o, tão encandeado pelo seu olhar que praticamente não reparou que trazia consigo a pequenina a ilhada. Catarina, por seu lado, face ao olhar tão invulgarmente sério do pai, achou por bem reduzir-se à sua insigni icância e permanecer ao colo do padrinho, tão imóvel quanto possível. Mas os seus olhos imensos estavam tão abertos que pareciam prontos a cair-lhe da cara.

No escritório de janelas altas, abertas sobre o terreiro fronteiro do paço, já os esperava o conjurado Gaspar Coutinho. Os três homens cumprimentaram-se. Gaspar passou distraidamente a mão pelos caracóis de Catarina, enquanto dizia:

- D. João, está tudo preparado para enfrentar os espanhóis.

De seguida, contou tudo o resto: a conspiração, o ódio crescente à mandatária de Castela e ao seu amante, a decisão de um conselho secreto de nobres dispostos a avançar, com a condição de que o duque de Bragança aceitasse ocupar o trono, que de boa vontade reconquistariam para lhe dar.

Catarina virou os olhos para o pai. O pai foi preso por eles, como se sossegar a sua ansiedade naqueles lagos imensos e tranquilos fosse uma forma de encontrar a segurança que não sentia.

Gaspar percebeu que D. João não tirava os olhos da ilha, e não hesitou em utilizar Catarina como uma carta sacada da manga:

- Essa criança tem direito a ser princesa. Olhe para ela, D. João, para a forma como se senta direita, a seriedade com que ouve esta conversa como se entendesse tudo. Com ela ao seu lado...

Não teve tempo de acabar a frase, porque D. Luísa acabara de entrar. Surpreendida, olhou para aquele trio de homens, suspensos no olhar de uma criança, e, pegando em Catarina ao colo, virou-lhes as costas, não sem antes dizer:

- A resposta é sim. Que conste que é este o presente de anos que D. João dá à sua ilha Catarina, a Joana, e sobretudo a Teodósio. Já chega de Castela, e digo-o eu que tinha todas as razões para não o dizer. Já chega de vivermos servos de outros, João, quando os teus antepassados deram a vida para preservar a independência deste reino...

Fechou a porta suavemente atrás de si.

- Como vêem, senhores, as mulheres de minha casa respondem por mim. Primeiro Catarina, depois Luísa, que posso eu dizer?

Gaspar e Francisco izeram-lhe uma vénia profunda. O primeiro saiu pela escada lateral por onde entrara, Francisco deu o braço ao «compadre» e voltou para a sala onde frei Pedro dizia uma oração de acção de graças por Catarina e pela sua família.

- Que a Senhora das Candeias me ilumine é a mim! -, disse João ao ouvido da mulher, enquanto se ajoelhavam para receber a bênção.

Paço de Vila Viçosa, 1 de Dezembro de 1640

 

 

oão não conseguira dormir. Sabia que tudo se passaria na alvorada

que daqui a pouco nasceria. Estava combinado que os 40 conjurados, como se tinham auto-intitulado, se reuniriam nos jardins de Almada para discutir os últimos detalhes, na noite de dia 31, ou seja, por esta hora já teriam regressado a casa, se tudo tivesse corrido bem. Sabia também que planeavam encontrar-se no terreiro frente ao Paço da Ribeira às nove da manhã e ocupá-lo, aprisionando a duquesa de Mântua e o seu secretário Miguel de Vasconcelos.

Deteve-se por uns minutos a pensar em Margarida de Sabóia, Mântua por casamento com um duque já falecido e cujo único ilho varão morrera em criança, vendo-se obrigada, depois da morte do marido, a refugiar-se em Espanha. Estivera com ela muitas vezes, prima direita de Filipe III, tratava-o, também a ele, sempre por «primo», lembrando-lhe constantemente que descendia de portugueses. Era uma mulher invulgarmente bonita e muito ambiciosa, pensou deve ser a minha sina, suspirou, lembrando-se de que Luísa não lhe ficava atrás.

Quando Filipe a nomeou para governar Portugal, esquecidos e maltratados os princípios do juramento de Tomar que garantiam uma política de não ingerência, tinha ficado surpreendido. Mas não tão espantado como quando a viu gerir o reino com mão-de-ferro, sem consideração por ninguém. É claro que a má-língua dizia que não era ela, que não lhes era fácil a humilhação de Espanha, somada à humilhação do poder entregue a uma mulher. Preferiam mil vezes acusar Miguel de Vasconcelos, dizendo que, de facto, era aquele que executava as políticas do soberano castelhano e do seu ministro omnipotente, o conde de Olivares.

Virou de novo a cabeça na almofada, irrequieto e cansado. Mas os pensamentos continuavam a correr, como um io de um novelo que nada conseguia quebrar. Fosse de quem fosse a culpa, a verdade é que havia uma falta de bom senso gritante.

Filipe, sempre Filipe. Falava nele e a imagem surgia-lhe na mente, perfeita e de inida: Filipe IV de Espanha, Filipe III de Portugal, que fora nomeado herdeiro em 1619, tinha João 15 anos. Para dizer a verdade, sentia uma grande empatia por ele: colocado nas mãos do perigoso Olivares aos 10 anos, aos 16 carregava sobre os ombros títulos sem im -rei de Portugal, de Nápoles, da Sicília, rei titular de Jerusalém, rei da Sardenha, príncipe das Astúrias, era obra para quem tinha um carácter sedutor (era pai de mais bastardos do que de ilhos legítimos!) mas uma grande di iculdade em fazer valer a sua vontade acima daqueles que o rodeavam e abafavam desde criança. Aos 16 anos tinha somado aos «cargos» o mais complicado de todos, quando o pai morreu e foi aclamado rei de Espanha, herdando um conjunto de Estados, em que Portugal se incluía, todos eles insatisfeitos com a hegemonia de Castela.

Quando, ainda há alguns meses, o convocara para ir ter com ele a Madrid, a im de o acompanhar nas investidas contra a Catalunha, percebera a armadilha, recusara inventando uma desculpa - tinha sido a doença da ilha Catarina ou a morte do bebé Manuel, já não se lembrava sequer, mas sabia perfeitamente que o rei de Espanha, agora com 35 anos, um ano mais novo do que ele - suspirou! - se tornara, desde aí, mais descon iado do que nunca. Mesmo os maiores não conseguem estar sempre, em todos os momentos, em todo o lado, e Filipe previa, certamente, o que iria acontecer em Portugal, mas contava provavelmente com mais tempo, o tempo su iciente para pisar a Catalunha, que era rica, e voltar depois a sua força contra os vizinhos ocidentais.

João estava plenamente consciente, assim como os seus conjurados, de que a oportunidade era esta e mais nenhuma: com Filipe de costas voltadas, com todos os seus homens e canhões apontados para norte, era tempo de agir. Os espiões dos conjurados sabiam onde estava cada peão no tabuleiro do xadrez político de Castela e garantiam que era o momento certo para agir, abrindo o caminho para o rei de Portugal. Para o xeque-mate final.

A duquesa de Mântua tornara-se odiada pelo povo, o símbolo de uma mulher que se amantiza com um criado do seu senhor, e tudo isso para bene ícios pessoais. Bastava ajudar o povo a lembrar aquela outra Leonor Teles, que com o conde de Andeiro pusera em risco a independência, usando a bonomia do marido para favorecer Castela. Bastava colar as duas, e a raiva cresceria por si. João só esperava que os seus homens, ou aqueles que lutavam por ele, sem que lhes tivesse pedido nada, não dessem a Vasconcelos o mesmo im que o mestre de Avis oferecera, pelas suas próprias mãos, ao conselheiro espanhol.

Tapou a cabeça com a almofada.

 

Luísa também não dormia. Cansada de dar voltas na cama, decidiu levantar-se, cobrir-se com o manto de pele de urso e ir ver se Catarina não tinha piorado da constipação que há dias a a ligia. Pediu à criada que lhe levasse uma infusão de cidreira ao quarto de brinquedos e, com a vela na mão, encaminhou-se para lá, mandando deitar de novo as camareiras que, aflitas, se tinham levantado para lhe prestar serviço.

Luísa tapou Catarina melhor com a manta quente tecida pelas gentes de Monsaraz, depois de se assegurar que a sua testa estava fresca. A ilha remexia-se no sono, como se nem a noite lhe trouxesse descanso. Com que sonharia?, pensou, sorrindo ligeiramente.

Soprando a vela que a ilha tinha na mesa-de-cabeceira e mandando de novo para a cama a ama e a criadita que se tinham levantado para se colocarem ao seu dispor, Luísa aproximou-se da porta para sair. Mas, num último impulso, virou-se e olhou as suas duas ilhas adormecidas. A partir desta noite, as suas duas princesas! Ou talvez não, pensou de repente, angustiada.

Paço de Vila Viçosa, 3 de Dezembro de 1640

 

unca três dias tinham demorado tanto a passar. João estava mais

magro, saltava as refeições, escondia-se na sua sala de música e compunha. Tentava pensar no Natal que estava a chegar, numa música que o marcasse, que marcasse as crianças, e as folhas de pauta voavam pelo quarto, já sabia que teria de ouvir um raspanete da mulher que o acusava de ser uma criança desarrumada.

Luísa decidiu trazer-lhe, ela mesma, um tabuleiro com o almoço. Estava frio, sabia que a ansiedade o obrigava a esta vigília e que os dedos nas teclas e a cabeça a traduzir sons em notas eram a única forma de conter a angústia que o tomava. Que os tomava a todos, que Teodósio e frei Pedro estavam na mesma, ainda agora passara na sala de estudo e os vira debruçados sobre os livros, mas com o olhar no in inito. Mas não havia maneira de saber - os mensageiros estavam a postos, passariam a notícia, boa ou má, de uns para os outros, em locais pré-combinados, mas era impossível fazer aquela distância em menos de dois dias.

Luísa nem sequer bateu à porta, porque, primeiro, não era um hábito seu, e, segundo, João não a ouviria, imerso como estava na sua composição. Pousou o tabuleiro na mesinha junto do cravo e num gesto contido, mas cheio de signi icado - então vindo dela -, passou--lhe a mão pelo cabelo. Olhou para a letra da música escrita na caligra ia certa e segura do marido, uma composição que já parecia muito adiantada: «Adeste Fidelis, vinde triunfantes», leu.

- É para as crianças cantarem na noite de Natal - sussurrou o duque, passando a mão pela testa, subitamente consciente de que não comia há horas.

- Interessante - disse Luísa. - «Vinde, fiéis, vinde triunfantes, vinde adorá-lo» - leu alto, com a voz comovida.

João percebeu a insinuação e irritou-se:

- Não confundas os nossos problemas terrenos com os do Céu. É ao nascimento de Cristo, e ao nascimento do Menino apenas, que me refiro.

- Que o Senhor me fulminasse já, se estivesse a brincar com uma coisa tão séria. Mas pensa, João, o Menino veio trazer uma nova vida ao mundo, cortou com o poder instituído, nasceu numa manjedoura e foi rei.

- Chega, Luísa. Deixa-me comer em paz. Se vires a Joana e o Teodósio, pede-lhes que passem aqui. Frei Pedro também, por favor.

Luísa fez-lhe a vontade. Seria melhor para todos se estivessem ocupados.

Uma hora depois, o paço enchia-se com as vozes das crianças, com o pai e frei Pedro em contratenor, e quem escutasse com atenção reconheceria a voz suave de Catarina, porque até ela tinha sido incluída no programa, por benevolência do pai e dos irmãos mais velhos, que despacharam a ama Carminho com a promessa de que tomariam conta dela.

Teodósio passou a composição a limpo, com a sua letra perfeitinha e redonda. Catarina olhava fascinada enquanto ele soprava para as folhas e tentou imitar o sopro com a boca.

O pai pegou em Catarina ao colo enquanto Teodósio lhe passava a partitura para a mão, e Catarina aproveitou o facto de o pai ter o papel para soprar para cima dele, como vira Teodósio fazer.

- Pai, o que diz a música? - perguntou Joana.

Teodósio aproximou-se da pauta para mostrar como já dominava o latim. O pai deixou-o ler, tudo de seguida, corrigindo-lhe a pronúncia:

Adeste Fideles

Laeti triumphantes

Venite, venite in Bethlebem

Natum videte

Regem angelorum

Venite adoremus, Venite adoremus,

Venite adoremus, Dominum

Catarina ouvia atentamente e franzia a testa com ar de quem não estava a perceber nada.

- Pai, conta história! - pediu.

- Sim, pai, e em por-tu-guês! - indignou-se Joana.

João e frei Pedro sorriram, divertidos.

- «Cristãos, vinde todos, com alegres e triunfantes cantos, vinde, vinde, até Belém. Vinde ver o Menino, nascido o rei dos anjos, ó vinde, adoremos, Cristo Senhor.»

- Mais, pai! - insistia Catarina.

- Mais só quando vocês as duas perceberem latim e conseguirem ler sozinhas!

- Mais, pai! - repetia Catarina, enquanto puxava a manga do duque.

- Então conto-vos uma parte que ainda não está aqui sobre as ovelhinhas, como aquelas que se vê do vosso quarto, sabem?

- Memés? - perguntou Catarina.

- Sim, mana, deixa o pai contar - disse Joana, impaciente.

Catarina sorriu, meteu o dedo na boca para o chuchar e refastelou-se no seu canto do colo.

João sorriu, pensando em como podia estar ali, em sua casa, no seu paço, na sua querida sala de música, com as suas ilhas ao colo e o reino a desmoronar-se à sua volta. Talvez fosse hoje o último dia em que podia ser assim, estar em família, com a cabeça posta numa simples canção de Natal.

Nesse momento, o mordomo entrou, apressado, e com muitas vénias murmurou que D. Pedro de Mendonça e D. Jorge de Melo subiam as escadas com um recado urgente. O que lhe vinham dizer já o povo na rua gritava:

- Viva o rei! - ouviu pela primeira vez.

- Viva o rei! Viva o rei! - perdeu a conta das vezes que as gentes o repetiam.

Teodósio, Joana e Catarina precipitaram-se para o banquinho de pedra junto da janela e, sem que o mordomo tivesse tempo de os impedir, o irmão mais velho abriu a janela e todos se penduraram para olhar melhor aquela multidão reunida à porta de casa.

Luísa, que acordara da sesta com o barulho, ia tendo um ataque de coração quando viu os seus três ilhos, e logo Catarina ainda tão pequenina, debruçados daquela altura. Silenciosamente, para não os assustar e precipitar alguma queda, aproximou-se por trás e prendeu Joana e Catarina com as duas mãos, gritando a Teodósio:

- Filho, que loucura é esta? E onde estão as vossas amas?

Mas Teodósio nem a deixou acabar:

- Mãe, o pai é rei de Portugal. Ganhámos aos espanhóis.

- Ganhámos, ilho? Isso não é maneira de falar e lembra-te sempre que a tua mãe é andaluza - apressou-se a dizer Luísa, cheia de medo que a Restauração não estivesse segura e a família ainda tivesse de pagar por aquilo que aos olhos de Filipe seria sempre uma traição. Mais valia agarrar-se aos seus costados, como bóia de salvação.

- Mãe, a mãe é rainha - exclamou Teodósio. E virando as costas à multidão, com a elegância que só ele tinha, ajoelhou-se e beijou-lhe a mão.

Depois levantou-se e procurou com os olhos o pai. Mas João tinha saído da sala ao aviso da chegada dos conjurados, e já estava noutra a assistir a uma cena semelhante. Mal entrara para cumprimentar as suas visitas, ambas lhe izeram a vénia mais solene que alguém jamais lhe tinha feito, e D. Pedro, estendendo a mão para a sua, trouxe-a aos lábios e beijou-a:

- Sua Alteza!

João gostou do que ouviu. A partir de agora teria de decidir. Decidir, sabia-o bem, tinha sempre custos, e era por não conseguir distanciar-se dos sentimentos dos que icavam a perder que lhe custava tanto optar. Mas Luísa estaria ao seu lado. Luísa, Teodósio, Joana e Catarina, no fundo eram essas as únicas pessoas que lhe importavam realmente. Teria de partir no dia seguinte para Lisboa, com a consciência clara de que ser rei de Portugal implicava começar uma guerra contra Espanha, uma guerra dura e difícil. Que Deus estivesse com ele, um homem de paz.

Paço de Vila Viçosa, 18 de Dezembro de 1640

 

atarina era pequenina de mais para saber explicar por palavras o

que sentira ao deixar Vila Viçosa, mas percebia perfeitamente que o humor daqueles que lhe eram mais próximos se alterava a cada dois segundos. Ora a deixavam mexer em tudo e a encorajavam a lançar brinquedos para dentro da grande arca onde todos os objectos do seu quarto estavam a ser armazenados, ora se zangavam, furiosos, porque decidira galgar para dentro dela para recuperar a boneca que, pensando bem, preferia levar ao colo.

Ouvia falar em partir, deixar tudo, ir embora, e isso assustava-a. As criaditas choravam pelos cantos, mas a ama parecia entusiasmada com a ideia de abalar para Lisboa, a grande cidade, onde a água já corria em torneiras e havia bailes e festas. A ama contava-lhe, enquanto se sentava com ela ao colo para lhe dar a sopa de legumes, que o Natal naquele ano iria ser numa casa ainda maior do que o seu querido Paço de Vila Viçosa, frente a um terreiro imenso, onde toros de madeira ardiam noites a io, ainda mais noites do que os da Igreja da Misericórdia.

Joana também lhe contava muitas coisas. Dizia-lhe que o pai era rei e as duas eram princesas, ou melhor, «infantas», explicou, frisando sempre, com um sorriso de orgulho, que ela era um bocadinho mais princesa do que Catarina, porque era mais velha. Teodósio, se por acaso ouvia a conversa, endireitava-se todo e explicava que importante, importante era ele, porque era príncipe herdeiro, já que o pai já fora aclamado rei no dia 15 de Dezembro, em Lisboa. Catarina recordava-se de nesse dia ter sido vestida a rigor, num vestido adamascado e pesado, uma gola de rendas, em tudo igual ao de Joana e à jaqueta do irmão, para que todos assistissem a uma missa solene na capela do Paço de Vila Viçosa, rezada pelo deão, e a que toda a gente da casa, do mais importante ao mais humilde dos serviçais, tinha assistido. Depois da bênção inal, as vozes tinham-se levantado em coro para um «Viva D. João IV de Portugal.»

Era hora de partir. Naquela sexta-feira, bem cedo de manhã, o nevoeiro ainda cobria a paisagem, enregelando os ossos por dentro e fazendo desaparecer da vista os campos verdes, os rebanhos de ovelhas, os cavalos a pastar e até as laranjeiras. Apesar do frio, o povo juntara--se no terreiro, em redor das carruagens engalanadas e prontas frente à porta principal, enquanto as carroças que levavam as arcas recheadas com tudo o que Luísa achara «essencial» ainda estavam a ser carregadas nos portões da cozinha e das entradas secundárias.

Luísa desceu as escadas, com as duas princesas pela mão e Teodósio com a sua nova armadura vestida a rigor (nem as explicações da mãe de que viajar assim por três ou mais dias seria desconfortável o tinham demovido de se vestir como um soldado pronto a lutar contra o inimigo).

A família foi acolhida com uma ovação imensa - os «seus» duques transformados em família real eram uma alegria que o povo de Vila Viçosa tinha de festejar. Os guardas, no entanto, estavam nervosos. Sabiam que a notícia da aclamação do duque já chegara há muito a Madrid e temiam que algum assassino a soldo castelhano atentasse contra a vida da rainha, ou das ilhas, mas, sobretudo, contra a do herdeiro. Quando perceberam que D. Teodósio se preparava para ir montado, o nervosismo cresceu e o capitão da guarda chegou-se à janela da carruagem, pedindo a D. Luísa que izesse o favor de ordenar que o príncipe viajasse numa das carruagens fechadas, seguindo assim mais protegido.

Luísa sentiu um súbito aperto no coração. Que ingenuidade a sua, levada pelo entusiasmo das multidões esquecera o que o militar percebera de imediato, que o príncipe herdeiro passara a ser um alvo a abater, nestes tempos que prometiam ser da maior instabilidade política. Mas convencer Teodósio a perder a emoção de cavalgar entre as pessoas, de ser aclamado pelas gentes do seu Alentejo, parecia-lhe tarefa impossível.

Sorriu para o militar, agradeceu-lhe o seu cuidado, mas foi irme quando explicou que naquele dia não tiraria esse prazer ao ilho. No dia seguinte, ou talvez depois da recepção em casa dos marqueses de Ferreira, em Montemor, convencê-lo-ia a resguardar-se, explicando--lhe que era a Pátria que lhe pedia esse sacri ício. O militar baixou a cabeça em respeito, prometeu-lhe que escoltaria a criança pessoalmente e afastou-se, com a certeza de que, se o rei fosse contagiado com a determinação da sua rainha, talvez os Filipes não voltassem, de facto, a dominar Portugal.

Luísa olhou pela janela, julgando que ia ver Teodósio subir para o seu alazão preferido, mas para seu espanto deu com ele a medir a fachada a passos, para em seguida vir a correr até à sua janela e exclamar:

- Mãe, Joana, Catarina, ixem isto para sempre: a fachada do nosso paço mede 450 pés dos meus. Aposto que não há nenhum no mundo maior do que o nosso!

Estranhamente, Catarina lembrar-se-ia daquela cena para sempre. Talvez porque a emoção que rodeava todo aquele momento tivesse tornado a sua memória tão permeável, tudo se gravou nela a ferro e fogo. Era princesa, ilha de reis, e nascera numa casa com uma frente de 450 pés de Teodósio, medida pelo seu adorado irmão. Da vida nunca esperaria menos.

Vendas Novas, 24 e 25 de Dezembro de 1640

 

atarina tinha pouca experiência de natais, mas durante os últimos

meses tinha ouvido incessantemente Joana, e até Teodósio, falar sobre os presentes, o Presépio, e percebia, pelo ar amuado de Joana, que este ano tudo isso não ia acontecer.

Sentia-se moída, cansada e farta de estar há dias e dias en iada numa carruagem, sem que a deixassem correr à vontade. Mesmo a mãe, a quem toda a gente se dirigia agora por Sua Alteza, e Teodósio a tratavam com uma rispidez pouco habitual: «Pára-me com esses pés, Catarina, não vês que os teus sapatos magoam as pernas de quem vai à tua frente.» Bolas, nem os pés podia mexer.

- Presentes, mãe? - perguntou Catarina, com uma voz sedutora, porque, para dizer a verdade, se o Presépio ainda não lhe dizia grande coisa, presentes sabia perfeitamente o que era, e começava a sentir a falta de pelo menos um...

Luísa sorriu, um sorriso triste. Que di ícil era trocar o conhecido pelo desconhecido. Nunca se imaginara a passar a noite da Consoada numa casa que não a sua, separada do marido, de quem só tinha recebido uma breve carta, onde a chamava com urgência a Lisboa, incumbindo-a de trazer o que pudesse, porque o Paço da Ribeira estava tristemente mobilado. De facto, apetecia-lhe perguntar o mesmo a João. Onde estavam os presentes? Luísa icara assustada: que palácio de reis era aquele, que tinha menor riqueza do que um paço perdido no Alentejo? Depois, lembrou-se de que há 60 anos que a Ribeira não era habitada por reis portugueses e que, apesar de algumas obras feitas pelos monarcas espanhóis, pelo menos nos últimos anos tudo tinha sido deixado à gestão da duquesa de Mântua, com os cordões da bolsa fortemente apertados pelo poder castelhano. Agora, Luísa levava as carroças carregadas com o tesouro dos Bragança, e depressa trataria de torná-lo um paço à altura de todos os outros paços europeus!

Consolava-a, no entanto, a notícia da glória com que João fora aclamado solenemente. Tinham-lhe contado como haviam construído uma imensa varanda contígua ao palácio só para a ocasião e como os nobres portugueses em peso se apresentaram, para lhe prestarem a devida vassalagem. Pela primeira vez içaram a nova bandeira, a bandeira da Restauração, que substituía a dos Filipes, queimada em enormes fogueiras em todos os adros das igrejas.

Estavam lá todos os membros do recém-criado Conselho de Guerra, um dos primeiros conselhos nomeados por João, com dez experientes militares, que tinham a árdua tarefa de preparar a defesa, um juiz e um secretário, responsáveis por gerir a defesa do reino contra Castela e as divergências entre os nobres que se tinham aliado ao novo rei e aqueles que continuavam ligados a Filipe, e de quem se poderia esperar uma traição.

Estava, a inal, tudo por fazer, num reino que há 60 anos não tinha um exército próprio, ou que pelo menos o deixara chegar a um estado miserável, sem ordem nem comando.

Havia muito que fazer, e os nobres acorriam ao paço ansiosos por preencher os lugares vagos, desejosos de deixar bem claro o «lado» em que se colocavam. Luísa era obrigada a reconhecer que o marido não era um homem que se comprasse com lisonja ou que necessitasse de adulação: quem não quisesse estar com ele teria de ter a coragem de lho dizer na cara e sofrer as consequências. João via mais longe e o que o preocupava era a reacção violenta do primo Filipe, que já começara a atacar todas as fronteiras, felizmente apenas com as escassas tropas que não lutavam em Barcelona, e de que forma iria ele, agora rei de Portugal, angariar fundos para sustentar a defesa do território. Os cofres do Estado estavam vazios -a estrutura inanceira tinha sido pensada para reverter para Espanha e era preciso vencer esses obstáculos e outros tantos. Acima de tudo, Luísa sabia que o que lhe tiraria o sono era a imensa responsabilidade que sentia por tudo e por todos. O horror de ter assumido um posto para o qual não estivesse preparado. Não podia desiludir os que tinham apostado nele. Era esse o seu pesadelo, suspirou a mulher, e no suspiro sentia-se o seu próprio medo de que João não fosse, de facto, capaz de segurar o poder com o pulso-de-ferro que a situação exigia.

Por enquanto, e apesar das dissidências, contava com o apoio da Igreja e de grande parte da nobreza. Sabia também que João iria precisar dos seus constantes conselhos, do seu apoio e da sua força - e mesmo que não precisasse, sorriu num instante de autocrítica, dar--lhos-ia na mesma.

Naquela manhã de 25 de Dezembro, que nascera gelada mas transparente, iluminada por um sol radioso e um azul como nunca vira, Luísa chamou os ilhos ao quarto para lhes desejar um feliz Natal e lhes pendurar ao pescoço um io com uma medalha de Nossa Senhora da Conceição. Até Catarina pressentiu a solenidade do acto. Luísa, olhando cada um deles nos olhos, e ajoelhando-se para ver os negros faróis da sua filha mais pequenina, disse-lhes a todos, com a sua voz mais determinada:

- Vão ser tratados como príncipes, rodeados de gente que vos quererá fazer todas as vontades, mas não se esqueçam de que os príncipes e os reis só servem a Deus.

Partiram, logo cedo, para a Aldeia Galega.

- O pai, Catarina, o pai vai estar à nossa espera - sussurrou-lhe Joana ao ouvido, enquanto se tentava soltar da mão férrea da sua ama Carminho.

- Presentes, o pai dá presentes? Agora? - perguntou Catarina, sorridente, virando-se para a irmã, cheia de esperança. - Presentes para mim e para o bebé? - insistiu, mostrando a Joana a boneca de porcelana que não deixara nem por um segundo desde que partira de casa.

Joana sorriu:

- Hoje não sei, Catarina, é o Natal mais estranho que alguma vez tivemos.

Esperava que Carminho encorajasse a ideia de que, no inal daqueles dias de viagem, um enorme embrulho as esperaria nas mãos do pai, mas a ama nem teve tempo de responder. O som de trombetas irrompeu pelas janelas da carruagem e Teodósio deu um salto até à janela que dava para o rio Tejo:

- É o bergantim real. É o pai, é o pai!

A carruagem estacou e, antes que a mãe o pudesse conter, Teodósio precipitou-se pela porta fora, seguido de Joana. Luísa pegou em Catarina ao colo, penteou-lhe os caracóis e virou-a para a janela:

- Vês, Catarina, vamos naquele barco, com o pai, para Lisboa.

Catarina nunca vira tanta água junta, e o re lexo das árvores e dos juncos encandeavam-na. Um rio, disse-lhe a ama. Um rio chamado Tejo...

Catarina juraria, anos e anos mais tarde, que aquela imagem se ixara para sempre na sua cabeça. Um rio, chamado Tejo. Um pai que era rei. Uma mãe que seria para ela a maior rainha de todas. Um irmão príncipe herdeiro, uma irmã e princesa, um bocadinho mais do que ela, e ela, Catarina, que só queria era ser a princesinha de todos, e não crescer nunca. Ah! Era preciso não esquecer, uma princesa nascida num paço com 450 pés de comprimento, como não havia outro igual em todo o mundo, de certezinha absoluta.

Ao colo da ama, a boneca presa com força contra o peito, entrou no barco para depois desembarcar no cais da Casa da Índia, em Lisboa, entre aplausos e gritos de gente, tanta gente como nunca vira, que dava «vivas» ao pai e à mãe, de senhoras gordas, que a beijavam nas bochechas tão reconchudas quanto as delas, furando todos os cordões de segurança que os guardas do rei tentavam criar em redor da nova família real. Após 60 anos de Filipes, o povo de Lisboa não podia perder este dia memorável por nada deste mundo. O primeiro rei da dinastia de Bragança ocupava o trono de Portugal. Se Filipe assim o quisesse, suspirava João, enquanto tentava impedir a multidão de atropelar a rainha, que descia a custo da carruagem.

Durante segundos, Luísa desejou com todas as forças que a sua mãezinha a estivesse a ver lá do Céu.

Cortes em Lisboa, 28 de janeiro de 1641

 

uando tudo fora desempacotado das arcas e colocado nos sítios,

Catarina dera um suspiro de contentamento. Agora sim, esta casa estranha parecia de novo a sua.

Mas o Paço da Ribeira só era semelhante ao de Vila Viçosa para uma criança pequenina, que continuava a viver dentro dos seus aposentos, como depressa foi descobrindo à medida que os irmãos a arrastavam para conhecer salas desconhecidas ou a desa iavam a escorregar de pantufas pelos longos corredores de quadrados de mármore pretos e brancos.

Teodósio fora aquele que sofrera uma mudança mais radical no seu dia-a-dia, obrigado a responder perante uma mão-cheia de tutores que o pai já lhe tinha destinado. Mas Teodósio adorava mudanças e aventuras, não tinha nem um grãozinho dos temores do rei, seu pai, e sonhava com o dia em que o deixariam partir para uma qualquer fronteira, de espada em punho, para defender o reino contra aqueles que não conhecia e a quem nem tinha dificuldade nenhuma em chamar de inimigos.

A pressão das atenções e das expectativas que todos pareciam depositar nele só o deixava ligeiramente nervoso, porque lhe transmitiam a impressão de que o pai poderia desaparecer de um momento para o outro, como acontecera com o seu tio Duarte, que quisera voltar para estar perto do irmão aclamado rei, mas que Filipe de Espanha mandara cruelmente prender como retaliação contra o «usurpador» João.

Para dizer a verdade, o que mais lhe custara fora habituar-se ao mau cheiro que penetrava até pelas frinchas da janela e ao barulho constante que de dia e de noite parecia encher as ruas. Mas tinha compensações: as aulas eram lá em cima, na torre mandada construir por Filipe II, sobre o rio, e abrindo as janelas de par em par, mesmo nos dias frios de Inverno, o vento norte trazia um cheiro de maresia, de um mar que diziam tão próximo mas que ainda não tivera oportunidade de ver. Um mar que sabia ter sido a porta de partida para descobertas de outros mundos, a porta que agora era preciso vigiar com todos os olhos, porque o inimigo tentaria franqueá-la, ou pelo menos impedir que os barcos que chegavam do Brasil e da índia desembarcassem em Lisboa com as suas mercadorias preciosas, que constituíam a única esperança de financiar a «guerra da Restauração», como ouvira os conjurados chamar-lhe.

Além do mais, percebera que a escolha do Paço da Ribeira, pelo menos deste lado do paço, não era pací ica entre o pai e a mãe. D. Luísa ficara desiludida com o palácio vazio e sem qualquer esplendor, mas o marido

izera questão de que fosse aquele, porque o Paço da Ribeira era o paço

dos reis, e era fundamental que a família Bragança assumisse, de cabeça erguida, a sua continuidade, defendendo a sua legitimidade para assumir o trono. João concordava, no entanto, que o palácio precisava de obras, e Teodósio e Joana riram com o ar arrogante com que a mãe dissera «E de tudo o resto!», para logo de seguida ordenar a um secretário que a mobília, os quadros e as tapeçarias que haviam icado para trás em Vila Viçosa fossem imediatamente empacotados e trazidos para Lisboa. Para depois rematar ao marido estupefacto:

- O rei de Portugal não pode receber ninguém neste paço decrépito até que tudo esteja pronto!

Continuar: parte 3 de 3