Cavalo de Tróia 2: Massada
9 de abril, domingo ⠀愀渀漀 ㌀ )
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
depreciativo comentário para que surgisse uma discussão.
– Gregos!
Não sei bem quem disse isso. Tampouco me senti agredido. Não havia razão. O
caso é que, em um segundo, como um ciclone, Simão Pedro, de mãos às costas e
andando de um lado para outro, arvorou-se em chefe dos recalcitrantes.
– Por que aos pagãos...?
João Zebedeu, paladino dos que acreditavam na ressurreição do Mestre,
reprovou Pedro pelo comentário pouco caritativo que fizera. E de pronto
enroscaram-se no velho círculo vicioso de “ressurreição sim, ressurreição não, e por
que primeiro as estúpidas mulheres e impuros infiéis”. Já não era bom que Ele se
houvesse mostrado às hebréias antes que aos “eleitos do reino”, mas “aquilo dos
gregos” – argumentavam – enchia todas as medidas...
Os gritos, as mútuas acusações e os desaforos foram aumentando, convertendo
o local em uma jaula, onde só se respirava mal-estar.
Cansado e deprimido, tirei João Marcos daquele manicômio e desci para o
pátio. O ar fresco da noite reconfortou-me. Maria e os serviçais continuavam
felizes, entregues à faina da preparação do jantar. Tomei o pequeno pela mão e
passeamos sossegadamente junto às trepadeiras e aos perfumados jasmins que
adornavam o alto muro. Soube assim que aquele Flávio era um pagão, velho
conhecido de Jesus, e que morava perto de Jerusalém.
Quanto aos gregos, segundo as informações do benjamim, eu tinha tido a
oportunidade de conhecer muitos deles no Átrio dos Gentios, no almoço celebrado
na casa de Arimatéia e no Getsêmani. Ao que parece, tratava-se dos mesmos que
haviam presenciado a prisão do Filho do Homem e que, juntamente com Pedro e
João Zebedeu, se haviam lançado contra Malco e os levitas.
Senti-me tão frustrado que não quis tirar conclusões. Se todas aquelas histórias
estavam certas, minha missão começava a transformar-se em um flagrante
fracasso. Bastava repassar a cronologia das supostas “aparições” do Galileu
naquele domingo para reconhecer que não havia tido muita sorte. Chegava sempre
tarde...
Primeiro, de madrugada, no encontro de Madalena e as quatro mulheres no
horto de José. Onde estava eu? Perdido em estúpidos problemas...
Depois, na segunda e não menos suposta visão de Madalena, por volta de
9h35, a poucos metros, mas “ausente”, ensimesmado no exame dos lençóis
mortuários...
Às 12, enquanto Ele aparecia em Betânia, encontrava-me a ponto de deixar o
“berço”...
Às 15h30, aproximadamente, na quarta manifestação – também em casa de
Marta e Maria –, eu me achava estupidamente ocupado na troca de ouro por
moedas fracionárias...
E que dizer da quinta visão, acontecida, segundo testemunhas, às 16h30 na casa do ancião sinedrista de Arimatéia? Se ao menos não me tivesse entretido no
assunto do aço de “Damasco”...
Quanto à sexta, a dos gregos, que talvez tenha tido lugar a poucos minutos da
que Madalena e as hebréias haviam assistido, pilhara-me, como é sabido, em pleno
lar de José.
Se já sabia que abrira mão da sétima, ou seja, a dos irmãos Emaús, da qual
ainda não tivera notícias, que me restava? Somente a do cenáculo...
Pobre de mim! A “corrida de obstáculos” em que se havia convertido minha
pessoal perseguição do Ressuscitado estava a ponto de sofrer outro incrível
fracasso...
Por volta das 19h30, um dos criados tirou-me de tão negros pensamentos. O
jantar estava pronto. E, apesar dos protestos da dona da casa, ajudei no transporte
dos caldeirões de madeira cheios de um apetitoso e fumegante guisado de
lentilhas, ao qual Maria acrescentara jeezer, uma variedade de alecrim silvestre.
Era curioso. Ignorando olimpicamente as controvertidas opiniões dos discípulos do
Mestre, a família – feliz e convencida da realidade da ressurreição – havia decidido
celebrá-la junto com o pessoal do cenáculo. Aquela ceia, na realidade, era uma das
primeiras manifestações do regozijo e da fé dos verdadeiros fiéis. E, além do
delicioso primeiro prato, Maria e sua gente se haviam esforçado por aprimorar o
pequeno banquete com uma das especialidades da mãe de João Marcos: os
bolinhos de mel. Em um forninho separado, à medida que consumíamos as
lentilhas, a senhora, com ajuda de um dos criados, ia fritando em um amplo tacho
de ferro porções de uma massa elaborada à base de farinha, levedo, mel, ovos e
leite de cabra. Enquanto desapareciam os dourados e crocantes bolinhos,
completava a sobremesa outra não menos saborosa fritura: umas tortas também
de flor de farinha perfumada com cominho, canela e outras especiarias.
Essas iguarias, assim como várias bandejas repletas de figos secos, tâmaras,
cidra, foram sucessivamente transportadas ao cenáculo.
Eu me instalei em um dos extremos do “U”, mas antes tive de submeter-me ao
ritual da lavagem dos pés. Os criados, diligentemente, cumpriram as obrigatórias
normas de hospitalidade oriental. E, mesmo que alguns dos discípulos não
estivessem de humor propício para as abluções, o certo é que a suculenta ceia os
fez esquecer suas divergências, reunindo-se todos em torno à mesa e devorando
em silêncio os manjares que iam chegando do pátio. Cada um, de acordo também
com o costume, devia lavar suas próprias mãos. Bastava a direita.
Os lampiões de azeite foram acesos em sua totalidade e, talvez com a
generosa intenção de amenizar as angústias e tensões dos apóstolos, Elias fez
subir da sua adega um espesso e excelente vinho tinto, rico em álcool e taninho e
previamente filtrado. Seguindo uma das modas greco-romanas, e a pedido de cada
um, o anfitrião foi adicionar em algumas das taças de bronze e latão pequenas
porções de canela, tomilho e também flores de jasmim. Esse toque servia para
aromatizar o vinho. Os mais prudentes, uma minoria, preferiram misturar àquele vinho do sul da Judéia apenas água. Os demais, possivelmente em muito humano
desejo de aliviar suas penas, tomaram copo atrás de copo, sem mais respaldo e
ajuda que as generosas porções de lentilha ou de bolinhos.
Tiago Zebedeu, Simão Pedro, os gêmeos e Mateus Levi, ainda dentro das
normas de boa conduta, desfizeram-se previamente de suas espadas, que
repousaram cintilantes ao longo da baixa mesa de madeira. Simão, o Zelote, foi o
único que nada provou. João Marcos, que se sentou com seu pai e comigo junto
aos nove, ofereceu-lhe uma das panelas. Mas o discípulo recusou amavelmente.
Durante coisa de dez ou quinze minutos somente se ouviu na sala o surdo
entrechocar das colheres de madeira mergulhando nas lentilhas, o voraz mastigar
dos manjares, o alegre e cantante borboteio do vinho ao ser despejado nas taças
de metal estanhado e, como não podia deixar de ser, as obrigatórias eructações.
Lutou Elias sem resultado por animar a reunião, mencionando as boas notícias
procedentes de suas propriedades na Galiléia e que, especialmente na operação de
“ceifar o linho”, eram altamente promissoras. (Esse trabalho, que costumava
realizar-se nos meses de março e abril, consistia em cortar as plantas ao rés do
solo para não estropiar os talos, sendo utilizadas depois de secas no florescente
negócio da confecção de tecidos e cordas.) Com a mais absoluta das descortesias,
nenhum dos presentes tomou conhecimento do dono da casa, ocupados
unicamente em satisfazer a sede e o apetite. João Zebedeu e Pedro não podiam
libertar-se facilmente da “pedra” que pesava sobre eles. Cochilaram várias vezes e,
com mostras de inapetência, acabaram por recostar-se em seus divãs.
Pelas 8 da noite, Simão Pedro, que não podia tirar da mente os acontecimentos
do dia, pôs-se em pé, visivelmente alterado. Ou muito me equivocava ou era presa
de outra crise.
Deu uns passos, golpeou com o punho uma tapeçaria que pendia da parede e,
voltando-se para o “U”, permaneceu uns dois minutos com o olhar fixo e vidrado na
chama ambarina de uma das lanternas de azeite. Nenhum dos comensais prestou-
lhe a menor atenção. Melhor dito, nenhum não. André e eu, que espreitávamos
seus movimentos, trocamos um olhar de preocupação. Sabíamos das suas
intenções de desertar do grupo e nos perguntamos se não teria chegado o
momento.
De súbito, sem despedida nem explicações, encaminhou-se para a porta, que
permanecia entreaberta.
Esperei pela reação de seu irmão; mas André nada fez. Empalideceu. Encheu
seu copo e, lentamente, tomou o vinho de uma só vez.
Mais uma vez me senti confundido. Aquilo não estava nos Evangelhos.
Cumpriria o pescador sua promessa de fugir da cidade? Deveria lançar-me atrás
dele? Ou permaneceria no cenáculo à espera dessa última e teórica aparição tão
esperada por todos, incluindo eu próprio?
Perturbado, reparei que o manto e o gladius hispanicus haviam ficado, um
sobre o divã, outro sobre a mesa. Isso me tranqüilizou. Talvez voltasse para recolhê-los. Mas e se não o fizesse?
Transcorridos uns quinze minutos, meu desassossego foi crescendo. Concluí que
havia agido mal. Por tratar-se de quem se tratava, aquela situação tinha
prioridade. Assim é que, esquecendo a seguramente próxima, mas sempre
hipotética aparição mencionada pelos evangelistas, escolhi o certo: seguir o
pescador.
Solicitei de Elias permissão para retirar-me, mas, quando estava a ponto de
fazê-lo, a inesperada intervenção de André me reteve. Tão impaciente como eu,
quando de uma das entradas dos criados, perguntou-lhes pelo irmão. Um dos
criados tranqüilizou-nos aos dois. O galileu achava-se no pátio passeando.
“Talvez tenha mudado de idéia”, disse-me a mim mesmo, ao mesmo tempo
que, contrariado, buscava apressadamente uma desculpa que me permitisse
desconsiderar minha anunciada saída. A sorte foi que meu pequeno amigo João
Marcos, perspicaz como poucos, saltou de seu banco para interpor-se em meu
caminho para me perguntar onde eu pensava passar a noite. Não soube o que
responder. Na verdade, eu nem pensara nisso. Diante da minha indecisão, o pai do
benjamim interveio, fazendo o resto. Ofereceu-me sua casa e foi com suma
facilidade, reconheço, que me “convenceu” a aceitar sua hospitalidade. Relutei por
puro protocolo e, finalmente, agradeci encantado e retomei meu lugar à mesa.
Eram 20h35. Novos e singulares feitos estavam a ponto de maravilhar-nos.
Mas, antes de tentar narrar o que vivemos na sala – oxalá o Todo-Poderoso
continue dando-me luz e força para isso –, por uma só vez e em benefício dessa
débil narração, pressinto que devo desobedecer ou desrespeitar a ordem
cronológica dos acontecimentos. E assim farei.
Aquela noite, quando os ânimos se acalmaram, mantive uma longa entrevista
com Pedro. Assim foi que conheci o que rondava pela sua cabeça quando ocorreu o
que ocorreu...
Tanto André quanto eu tínhamos razão em nossa inquietação pela sorte do
abalado pescador de homens. Enquanto permanecíamos no cenáculo, Simão,
decidido a fugir, mas temeroso de ser reconhecido pelos espiões ou pelos levitas de
Caifás, propôs-se a abandonar a casa quando a noite fizesse desertas as ruas de
Jerusalém. E, sem vontade para voltar ao salão, refugiou-se no amplo pátio. Os
servos, com efeito, viram-no passear ao longo do muro com as mãos às costas e a
cabeça abaixada. Mas, respeitosos com sua dor e silêncio, foram-se retirando.
Naqueles amargos momentos – segundo me confessou o apóstolo –, os remorsos
pela sua traição eram insuportáveis. Seu complexo de culpa era tal que chegara a
pensar na morte. Estava convencido de que havia perdido seu posto como
emissário do reino. A essa negra trama ainda se acrescentava sua íntima convicção
de que Jesus – se é que na realidade havia ressuscitado – não apareceria aos seus
enquanto ele estivesse ali. Todavia, e sem que soubesse nem como nem por que,
também foram surgindo em seu coração outras recordações cheias de esperança.
“Viu” os olhos do Mestre, cheios de ternura no momento em que, à saída do palacete de Anás, mirou-o durante uns breves segundos. E igualmente lhe veio à
memória a mensagem de Jesus quando apareceu às mulheres, citando-o: “Ide
dizer a meus apóstolos e a Pedro...”.
– Não sei o que me sucedeu, Jasão, mas pus-me a chorar...
No fundo era muito simples. Simão Pedro, apesar de suas violentas e
disparatadas reações, amava seu Amigo e Senhor. Durante horas e horas havia
sufocado seu ardente desejo de crer nas promessas do Filho do Homem. Mas,
finalmente, um raio de luz iluminou seu desespero e, enquanto caminhava pelo
pátio, sua adormecida fé triunfou...
– Não sei como foi, Jasão, mas de repente me detive, apertei os punhos e,
erguendo os olhos para as estrelas, bradei: “Creio que ressuscitou de entre os
mortos! E vou dizê-lo a meus irmãos!”.
Feito esse parêntese, voltemos ao cenáculo e à hora já mencionada: 20h35.
Recordo-me de que assim que me sentei, enchi uma taça do espesso vinho
tinto do Hebron. E já me dispunha a levá-la aos lábios quando um ciclone humano,
um terremoto ou um possesso – não tenho palavras para descrevê-lo –, empurrou
as duas folhas da porta, enchendo o cenáculo com seus gritos, saltos e
gargalhadas. Era Pedro! Ficamos sem respiração. Até Simão, o Zelote, assustado,
se levantou de seu divã.
– Vi o Mestre!
Foi a primeira frase que consegui entender. Com a face iluminada e os olhos
azuis dançando nas órbitas, o galileu corria enlouquecido ao redor do “U”.
– Eu O vi!
Os apóstolos haviam perdido a fala e a cor de seus rostos. Tiago Zebedeu, com
a agilidade de um felino, ao ver irromper Pedro na sala com tal estrondo e aparato,
logo empunhou a espada, convencido de que alguém perseguia o pescador.
Mas Simão, à borda da loucura ou de um colapso cardíaco, continuava
saltitando entre os divãs e repetindo aos gritos, com os braços erguidos.
– Eu vi o Mestre!
Sinceramente, ao vê-lo naquele estado, pensei que meu diagnóstico tivesse
sido muito brando.
Na terceira volta, André e Mateus o agarraram e ao mesmo tempo todos os
outros correram em auxílio do “transtornado” galileu. Esse era o pensamento
coletivo. Mas estávamos errados. Simão estava perfeitamente bem. Sua freqüência
cardíaca, que eu testei no momento, era agitadíssima. E também sua respiração.
Mas, segundos mais tarde, ao ouvi-lo, tive de inclinar-me diante da realidade.
Aquele alvoroço era apenas a manifestação da sua alegria.
– Eu O vi!... Ele esteve no jardim!
Obrigamos Pedro a sentar-se em um dos divãs. Elias, pedindo-lhe calma,
ofereceu-lhe uma taça de vinho. Simão agarrou-se a ela com ambas as mãos e
sorveu-a sem controle.
– Digo-vos que O vi! – exclamou de novo, engasgando-se.
André sacudiu-o pelos ombros e, a um palmo de seu rosto, ordenou-lhe que
não fosse criança e deixasse de tolices. Seguiram-se momentos de tenso silêncio. O
pescador, compenetrado da sua paradoxal situação, relaxou seus nervos. Deixou o
vinho sobre a mesa e, afastando suavemente seu irmão, narrou o ocorrido com um
autodomínio que ainda me surpreende.
– Eu estava no pátio, passeando, decidido a renunciar à minha missão no reino
quando diante de mim surgiu a forma de um homem. Não o reconheci, mas
reconheci sua voz...
A voz... Aquele “detalhe” voltava a repetir-se. Por que nenhuma das
testemunhas parecia reconhecê-lo pelo físico e sim pela voz?
– ... E aquela voz familiar me falou. E me disse: “Pedro, o inimigo quer possuir-
te mas Eu não te abandonarei”.
Seus rubros e carnosos lábios abriram-se em um sorriso largo e feliz. Olhou um
por um de nós, suplicando nosso beneplácito. Mas ninguém respondeu.
– ... Então disse-me: “Sabia que em teu coração não me havias renegado. Por
isso perdoei-te antes que me pedisses. Agora é preciso que cada um deixe de
pensar em si próprio e nas atuais dificuldades. Prepara-te para levar a boa-nova do
Evangelho àqueles que se encontram nas trevas. Não te preocupes pelo que possas
conseguir do reino. Ou melhor, vê o que tu podes dar aos que vivem na terrível
miséria espiritual. Apronta-te, Simão, para o combate de um novo dia, para a luta
contra o obscurantismo espiritual e as nefastas dúvidas do pensamento natural dos
homens”.
Nessa noite, o próprio Pedro reconheceu não haver entendido as palavras do
Ressuscitado. No fundo, porém, isso era de menos.
– Crede-me! – acrescentou Simão ao ver as expressões de assombro e
incredulidade de seus companheiros. – Depois disso, aquele Homem e eu
passeamos pelo pátio por mais de cinco minutos, recordando coisas do passado. E
falamos também do presente e do futuro. Depois, na despedida, voltou a dizer-me:
“Adeus, Pedro, até que te veja em companhia de teus companheiros”.
Depois daquela visão, Simão permaneceu alguns minutos no pátio como que
hipnotizado. E quando se convenceu de que havia visto e falado com o Galileu,
começou a correr louco de alegria para o cenáculo.
– E como desapareceu?
– Como estás seguro de que era o Mestre?
– Viste as feridas?
– Não O terias confundido com um dos servos de Marcos?
O torvelinho de perguntas dos discípulos foi inevitável. E Simão Pedro, com a
boca aberta e sem saber a quem responder, acabou por baixar os olhos, consciente
de que era objeto das mesmas dúvidas e suspeitas que ele próprio havia
manifestado ao longo de todo o dia. Então o vi chorar amargamente. A partir desse
momento, o decepcionado pescador negou-se a pronunciar qualquer palavra.
Como era previsível, a nova aparição remexeu o rescaldo das visões anteriores. Mas, curiosamente, pouco a pouco, a maioria dos apóstolos começou a ceder,
dando seu apoio ao hermético e silencioso galileu. E provavelmente haveriam
abandonado suas dúvidas se não fosse a súbita, fria e impiedosa intervenção de
André. Com expressões muito bem calculadas, lembrou aos presentes as
“fantasias” de seu irmão, “capaz de ver coisas irreais, até mesmo sobre as
águas...”.
Na hora, associei essa afirmação com uma das mais famosas e misteriosas
passagens evangélicas. A de Jesus caminhando sobre a superfície do lago de
Tiberíades. Que havia querido insinuar o ex-chefe dos apóstolos? E no mais íntimo
do meu coração me propus averiguá-lo. Mas esta é uma história que talvez conte
mais adiante.
André, com uma dureza implacável, imprópria dele, continuou falando a seus
companheiros com a única e declarada finalidade de fazê-los esquecer as “tontices”
de Simão. Este sentiu-se ferido no mais profundo de seu íntimo; levantando-se do
divã, retirou-se para um canto da sala. Só os gêmeos tiveram a delicadeza e a
coragem de juntar-se ao humilhado pescador, consolando-o e declarando em voz
alta, de forma que todos pudéssemos ouvi-los, que eles acreditavam e que sua
mãe também havia visto o Senhor.
O irmão de Pedro olhou depreciativamente para os gêmeos e, cada vez mais
enfurecido, prosseguiu no seu empenho de desfazer nas mentes dos apóstolos as
supostas visões do pescador.
Mas o caloroso afã de André ver-se-ia subitamente frustrado.
Em parte alegrei-me. O impertinente discurso do antigo chefe dos apóstolos
estava causando estragos.
A princípio ouvimos um pequeno tumulto. Vozes masculinas e um ou outro
breve mas agudo grito de mulher. O irmão de Simão Pedro titubeou. Elias virou a
cabeça para a porta e João Marcos, que brincava com um punhado de caroços de
tâmaras, formando sobre a superfície da mesa a cabalística palavra Yeshua ou
Jesus, mas que naquela língua significava também Yah (Javé e “saúde”),
desmanchou o querido nome de seu ídolo, temendo que fossem os guardas do
Templo. Mantivemo-nos silenciosos e alguns dos discípulos, a um sinal de Tiago
Zebedeu, empunharam as armas. Elias indignou-se. E com um gesto autoritário
recordou-lhes que se achavam em sua casa e que não permitia violências de
nenhum tipo. O alvoroço foi fazendo-se mais nítido. Ouviram-se passos que subiam
pela escada de acesso ao cenáculo e novas vozes. Tiago e alguns mais levantaram-
se, maldizendo os gêmeos por não haverem trancado a porta.
Umas ríspidas e fortes mãos empurraram as folhas da porta e, imediatamente,
sob o lintel, surgiram dois indivíduos que eu não havia visto em nenhuma das
minhas explorações. Entre cochichos mal contidos, adivinhavam-se as miúdas
silhuetas da esposa de Elias e de outras mulheres.
O gesto do “filho do trovão” e dos demais, atirando as armas sobre o “U”,
interpretei-o como um novo falso alarme.
Após uns segundos de vacilação, o anfitrião fez uma saudação convidando os
homens a se aproximarem. Quando os vi à débil e amarelada luz das candeias, sua
aparência me levou a supor que se tratasse de pastores ou talvez de porqueiros.
“Pastores?”
Meu pulso descompassou-se. Seriam aqueles os irmãos de Emaús?
Um dos recém-chegados sentou-se ao lado do dono da casa enquanto seu
companheiro e as hebréias, entre as quais reconheci Maria Madalena, se dividiam
ao redor da mesa. Os hebreus, como ocorrera com Simão Pedro um pouco antes,
respiravam agitadamente. O suor corria abundante pelas suas fontes fazendo
brilhar suas epidermes curtidas e as negras e revoltas barbas. Pareciam cansados.
Um deles, o que permanecia de pé, desfez-se do grosso e impermeável manto de
pêlo de camelo que trazia aos ombros, deixando-o no chão. A peça era tão rígida e
pesada que permaneceu tesa e na posição vertical no assoalho. Em meus
treinamentos prévios eu havia tido notícia desses capotes, especialmente feitos
para o frio e a chuva e que eram fabricados em terras da Cilícia e Anatólia. Entre o
cinto de couro que cingia a tosca túnica de lã distinguia-se o cabo de um enorme
punhal. Do mesmo modo que seu acompanhante, aquele desconhecido protegia
suas pernas, até os joelhos, com polainas formadas por tiras de couro negrusco e
ensebado. (Aquele costume havia sido introduzido pelos soldados romanos que, por
sua vez, o haviam importado da Gália.)
Não havia dúvida. O cheiro pestilento de ovelhas que encheu a sala em questão
de minutos e que parecia fluir de cada centímetro quadrado daqueles indivíduos
confirmou meu primeiro pensamento: eram pastores, os controvertidos pastores da
Judéia...
– E então? – perguntou-lhes Elias, dando a entender que esperávamos uma
explicação por tão brusca invasão.
O que se achava sentado, um pouco mais loquaz do que o outro, começou por
apresentar-se. Ao que parecia, salvo um ou dois dos presentes, ninguém os
conhecia. Disse chamar-se Cleofás. O outro era Jacó, seu irmão mais novo. Senti
um estremecimento. Estava a ponto de ouvir outra das supostas – ou não devia
mais empregar esse termo? – aparições do Mestre.
Após um prolixo preâmbulo no qual procurou congraçar-se com os presentes,
assegurando que acreditava em Jesus e que por essa razão havia sido banido de
uma das sinagogas de seu povoado, Ammaus, o pastor explicou a razão de sua
presença em Jerusalém. Como bons fiéis, haviam assistido aos sacrifícios,
cerimônias e demais festejos pascais. E nessa mesma tarde, faltando umas duas
horas para o ocaso, haviam partido da casa de José, o de Arimatéia, rumo ao seu
povoado, distante, como afirma Lucas, uns 60 estádios.
Umas duas horas antes do ocaso? Fiz as contas e cheguei à triste conclusão de
que os dois haviam partido da mansão de José entre 4 e 4 e meia. Levando em
conta o tempo necessário para cruzar Jerusalém, era muito verossímil que Cleofás
e Jacó tivessem atingido o caminho de Ammaus não mais além das 5 horas da tarde. E digo “triste conclusão” porque minha chegada naquela casa se deu
minutos mais tarde.
Mas vamos ao que importa.
Os discípulos haviam acompanhado as longas explicações e circunlóquios dos
irmãos sem saber onde queriam eles chegar. Em um dado momento da narração,
levantei o rosto buscando o olhar de Maria, Marcos ou de Madalena. Esta
encontrava-se às minhas costas, e só pude distinguir a esposa de Elias. Sorridente,
a mulher deu-me uma das suas típicas piscadelas de cumplicidade. Claro que sabia
de alguma coisa...
O caso é que, pelo que pude captar na arrevezada linguagem do rústico pastor,
quando se encontravam quase a meio caminho, ou seja, a uns 5 quilômetros da
cidade de Jerusalém, Jacó e Cleofás matavam a solidão da caminhada falando
sobre a notícia do dia: a tumba vazia. Discutiram. Ele se sentia inclinado a crer no
que diziam as mulheres sobre a figura de um ressuscitado. Jacó, ao contrário,
pensava que tudo era uma superstição.
– E assim, conforme nos íamos aproximando da vila – resumiu ele –, saiu-nos
ao encontro um homem...
Um murmúrio correu entre os presentes.
– Um homem? E como era?
Agradeci a oportuna pergunta do impulsivo Felipe.
Cleofás voltou-se para a esquerda procurando quem o interrogava. Então
descobri umas profundas cicatrizes que marcavam sua sobrancelha e pômulo
direitos. Aquele velho corte lhe havia esvaziado o olho. Parecia a marca de uma
pata com garras.
– Um homem!...
A resposta do pastor foi assim, simples e contundente. Aquilo me deu o que
pensar. Eu não havia perguntado a Pedro sobre esse particular, mas nem o galileu
nem o homem de Ammaus haviam feito referência alguma à estranha
“transparência” mencionada por Madalena e as mulheres.
– Queres dizer que era um homem de carne e osso vestido como nós?
João Zebedeu, irritado à nova pergunta do intendente, censurou-o sem
contemplação, ordenando que não interrompesse o pastor.
Cleofás não sabia o que fazer. E, ante os gestos gerais de impaciência, optou
por continuar seu relato.
– ... A nós nos pareceu um homem. Cobria-se com um manto leve e de cor
vinho.
João Marcos, atento a tudo, sobressaltou-se ao ouvir aquela descrição. Aquela
era, efetivamente, a cor habitual do manto de seu Mestre. Mas isso não queria
dizer nada. Mantos dessa tonalidade havia-os aos milhares em Israel.
– ... Eu já havia visto o rabi, perdão – desculpou-se ruborizando-se –, o defunto
rabi. Comi em sua companhia em várias ocasiões e sei como era.
Vários dos apóstolos entreolharam-se intrigados. Não se recordavam do tal Cleofás, muito menos participando de refeições com o Nazareno. Tive impressão de
que duvidavam da veracidade das palavras do pastor. Não era sem razão que
levavam fama de mentirosos...
– ... Todavia – prosseguiu pensativo – não o reconheci...
Aquilo era demais. Nem mesmo pastores acostumados a distinguir o gado a
longas distâncias haviam podido identificar o suposto Jesus?
– Acompanhou-nos por um trecho e logo, inesperadamente, desconcertou-nos
com a seguinte pergunta: “Quais eram as palavras que trocáveis com tanta
seriedade quando me aproximei de vós?”.
“Meu irmão e eu, perplexos, detivemo-nos olhando para ele sem acreditar no
que havíamos escutado. Como sabia aquele homem o que discutíamos? E eu lhe
disse: ‘É possível que vivas em Jerusalém e não saibas dos acontecimentos que
ocorreram’. E Ele perguntou: ‘Que acontecimentos?’.
“Se desconheces esses fatos (disse-lhe eu um tanto mal-humorado), és o único
na cidade que não está a par dos rumores referentes a Jesus de Nazaré, que era
um profeta rico em palavras e obras diante de Deus e do povo. Os chefes dos
sacerdotes e os dirigentes judeus O entregaram aos romanos, exigindo sua
crucificação. Mas isso não é tudo”, acrescentei, convencido de que, com efeito,
aquele forasteiro nada sabia sobre o Mestre. Além disso, hoje estamos no terceiro
dia de sua crucificação, e algumas mulheres nos assombraram declarando que
haviam ido muito cedo até o sepulcro, encontrando a tumba vazia. E essas mesmas
mulheres repetem com insistência que conversaram com Jesus e sustentam que Ele
ressuscitou de entre os mortos. Quando o contaram aos homens, dois dos
discípulos correram à tumba e confirmaram que ela estava vazia...”
João Zebedeu, com o rosto radiante, assentiu com um sinal de cabeça.
E Jacó, adiantando-se até a mesa, interrompeu seu irmão.
– Dize-lhes toda a verdade...
Cleofás franziu o rosto.
– Bem – consentiu a contragosto –, Ele, depois de minhas explicações sobre a
visita dos apóstolos ao sepulcro, observou, para vergonha dos dois: “Mas não viram
Jesus”.
Jacó deu-se por satisfeito, voltando a ocupar sua posição junto ao manto de
pêlo de camelo. Depois não voltou a falar.
– Continuamos caminhando – prosseguiu o pastor – e, depois de um instante
de silêncio, aquele homem voltou a falar e nos disse: “Como sois lentos para
compreender a verdade! Se dizeis que o motivo de vossa discussão eram os
ensinamentos e as obras desse homem, vou esclarecer-vos já que estou mais
acostumado a esses ensinamentos. Não vos recordais do que sempre disse e
pregou Jesus, que seu reino não era desse mundo e que todos os homens são
filhos de Deus? Que devem encontrar a libertação e a liberdade na alegria
espiritual da comunhão fraterna do serviço afetuoso neste novo reino da Verdade,
do Amor, do Pai celestial?”.
Cleofás emudeceu. E com certa timidez passou a interrogar os presentes.
– Que significam essas intrincadas palavras?
Elias sorriu-lhe com carinho, recomendando que não se preocupasse no
momento com aquela questão. A memória do pastor era excelente, ainda que não
o fosse o seu entendimento.
– Ele continuou falando. E disse: “Não vos recordais como o Filho do Homem
proclama a salvação de Deus para todos os homens, curando os enfermos e os
aflitos e libertando aqueles que estavam unidos pelo medo e que eram escravos do
mal? Não sabeis que este Homem de Nazaré preveniu os seus discípulos de que
haveria de ir a Jerusalém e de que O entregariam a seus inimigos, que O
condenariam à morte, ressuscitando depois ao terceiro dia? Não lestes as
passagens das Escrituras relativas a esse dia de salvação dos judeus e pagãos,
onde se diz que nEle todas as famílias da Terra serão, em verdade, benditas, que
ouvirá o grito lastimoso dos necessitados e que salvará as almas dos pobres que
buscam a sua ajuda e que todas as nações O qualificarão de bendito? Não ouvistes
que este Libertador aparecerá à sombra de uma grande rocha em um país
desértico? Que alimentará o rebanho como um verdadeiro pastor, acolhendo em
seus braços os cordeiros e carregando-os docemente ao peito? Que abrirá os olhos
aos cegos espirituais e trará os presos do desespero à liberdade plena e à luz?...”.
Ao escutar as últimas palavras, Pedro abandonou seu escuro canto e se uniu ao
grupo com timidez e curiosidade.
“... Que todos os que moram nas trevas verão a grande Luz da Salvação
Eterna? Que curará os corações destroçados, proclamará a liberdade dos cativos do
pecado e abrirá as portas do cárcere aos escravos do medo e do mal? Que levará
consolo aos aflitos e estenderá sobre eles a alegria da salvação, em lugar da dor e
da opressão? Que será o desejo de todas as nações e a perpétua alegria dos que
buscam a Justiça? Que este Filho da Verdade e da Retidão levantar-se-á sobre o
mundo com a Luz que cura e o poder da salvação? Que perdoará os pecados aos
seus fiéis? Que buscará e salvará os extraviados? Que destruirá os débeis, mas que
levará a salvação a todos aqueles que têm fome e sede de Justiça? Não ouviste
que os que crêem nele gozarão da vida eterna? Que estenderá seu Espírito sobre
toda a carne, e que em cada fiel esse Espírito da Verdade será um manancial de
água viva na Vida Eterna? Não compreendestes a grandeza do Evangelho do Reino
que esse Homem vos deu? Não vedes quão grande é a salvação de que vos
beneficiais?”
O pastor fez nova pausa, aturdido sem dúvida por muitas daquelas idéias, tão
estranhas e inatingíveis para sua curta inteligência. Eu, simplesmente, não pude
senão maravilhar-me. Se o rude Cleofás – que não sabia ler nem escrever – era
capaz de “inventar” frases como as que eu acabara de ouvir, de duas uma, ou era
um gênio ou um louco iluminado. Claro que também se poderia considerar uma
terceira opção, que, simplesmente, estivesse dizendo a verdade...
– Não nos atrevemos a abrir a boca – lamentou-se o judeu. – Que podíamos replicar nós, pobres miseráveis guardadores de ovelhas? E assim chegamos à
aldeia. A noite já apontava do lado do leste e lhe pedimos que ficasse conosco.
Mostramos-lhe nossa humilde choça e, embora parecesse ter o propósito de
continuar seu caminho, acabou por aceitar. Jacó e eu, nervosos e felizes por tão
distinta companhia, nos esmeramos na ceia. O melhor pão, o melhor queijo e o
melhor vinho... Sentamo-nos à mesa e, à luz da candeia de azeite, fiz-lhe a entrega
do pão de trigo, desculpando-me porque estava um pouco duro... Mas o homem
sorriu e, cortando-o com grande facilidade, o benzeu, dando-nos um pedaço a cada
um...
Observei os presentes. Ao descrever a divisão do pão, todos compreenderam...
– Por minha santa mãe que na glória esteja! – Os olhos do homem se
umedeceram. – Então me dei conta! Era Jesus. E, quando ele deu o bocado a meu
irmão, exclamei: “É o Mestre!”. E desapareceu.
Desta vez fui eu quem rompeu o silêncio que caíra sobre a sala.
– Desapareceu? Queres dizer que saiu pela porta?
Cleofás negou com a cabeça. E, enxugando as lágrimas com a enegrecida
manga de lã de sua túnica, respondeu sem muito entusiasmo:
– Desapareceu de nossa vista! Não sei como, mas o fez...
Outra onda de murmúrios e cochichos propagou-se entre os discípulos e as
mulheres.
– Não era de estranhar que os nossos corações ardessem inquietos enquanto
caminhávamos para o povoado. – Cleofás parecia falar consigo mesmo. – Ele
estava abrindo nossa inteligência...
A narração do pastor concluiria com alguns pormenores finais sem maior
transcendência: suspenderam a ceia e saíram precipitadamente de Ammaus,
dispostos a comunicar a notícia aos fiéis, amigos e seguidores do rabi da Galiléia.
Haviam corrido sem respirar até Jerusalém, procurando primeiro a casa de José de
Arimatéia. Como estivesse ausente, foram Madalena e as demais hebréias que os
aconselharam a procurar Elias Marcos, e os acompanharam até onde nos
encontrávamos. O resto era conhecido.
Quando Cleofás terminou seu relato, Elias ordenou a um criado que servisse
aos pastores quanto desejassem. Mas Cleofás, levantando-se, agradeceu as
atenções do anfitrião dizendo-lhe que, cumprida que estava sua missão, deviam
retomar à aldeia. O trabalho era inadiável...
Passava já das 9 da noite quando se retiraram.
Esperei pelos acontecimentos. Não tinha forças para mais nada. Havia até
perdido a conta das “visões”. Senti-me desmoralizado e incapaz de pôr ordem em
minha mente. Por isso mesmo mal prestei atenção às palavras de Madalena, que
vinham ratificar a boa-nova dos pastores com a já conhecida aparição do Mestre na
casa do sinedrista. Da inevitável discussão participaram dessa vez Maria Marcos, as
mulheres que acompanhavam Madalena e até a criadagem. Havia quase uma
unanimidade. Com exceção de André e de Simão, o Zelote, mudos de assombro, os demais felicitavam-se e comentavam repetidamente os detalhes das últimas
visões. João Zebedeu, em um ímpeto de alegria, começou a bailar, enquanto Felipe
e Bartolomeu esvaziavam as já esgotadas jarras de vinho. Durante dez ou quinze
minutos, aquilo foi uma festa e eu mesmo me vi obrigado a fazer coro com as
palmas. Talvez a maior emoção tivesse sido a de Simão Pedro. Assim que partiram
os irmãos de Ammaus, atirou-se aos pés de Madalena e, em prantos, como uma
criança, suplicou-lhe seu perdão. A jovem, emocionada, obrigou-o a levantar-se e o
abraçou em meio à aprovação e à alegria de todos.
A comemoração, todavia, duraria pouco. Uma má notícia entrou de súbito no
cenáculo, trazida pelo próprio José de Arimatéia.
Foi como se caísse um raio. À vista do rosto severo do sinedrista, imóvel no
umbral da porta, os risos, palmas e abraços foram desaparecendo e cedendo lugar
a um embaraçoso silêncio. Algo sucedia. Algo grave. Todos o sentimos. A face de
José, como a de qualquer amigo e simpatizante do Cristo, deveria apresentar outra
expressão...
O de Arimatéia esperou que Elias se aproximasse e, ante a inquietude geral,
sussurrou-lhe algo ao ouvido. O dono da casa encarou-o sem compreender, mas,
obedecendo, fez um gesto e a criadagem e as mulheres se retiraram. Maria Marcos,
discreta e submissa, tomou seu filho pela mão e fechou a porta atrás de si.
Então, obedecendo às indicações de José, vários apóstolos escoraram
novamente a porta dupla, com o reforço de um dos divãs.
Em meio a um silêncio de morte, os íntimos do Mestre, à exceção de Simão, o
Zelote, tomaram seus lugares em torno do “U”. José o fez no divã de honra.
Recusou o copo de vinho que um dos gêmeos lhe ofereceu e, ocultando suas mãos
entre as dobras do grosso manto negro, lançou um olhar triste aos nove apóstolos.
– Pouco depois do pôr-do-sol – começou ele ante a mal dissimulada expectativa
de todos – tive conhecimento de uma reunião urgente e secreta de Caifás e os
seus...
Alguns rostos se tornaram lívidos. Uns mais, outros menos sabiam o que isso
poderia significar.
– Suponho que estais bem informados sobre as notícias e rumores que circulam
pela cidade desde as primeiras horas da manhã.
Vários dos discípulos assentiram em silêncio.
– Bem, esta é a situação. O sumo sacerdote, seu sogro e os saduceus, escribas
e os demais fanáticos vêm tendo completo conhecimento do caso da tumba vazia,
de algumas das visões das pessoas que dizem ter visto Jesus e de não sei que
concentração na Galiléia...
José devia estar falando de uma das mensagens de Jesus, quando anunciou
que “precedia os seus no caminho para a Galiléia”. Uma vez mais, como havia
ocorrido sempre, os boatos e rumores, à força de circular, acabavam
irreconhecíveis.
– ... Nessa assembléia, segundo meus confidentes, foram adotadas diversas medidas. Algumas delas vos dizem respeito muito especialmente – acrescentou o
ancião. – Primeira medida: todo aquele que cite ou comente (em público ou na
intimidade) os assuntos do sepulcro e da ressurreição do Mestre será expulso das
Sinagogas.
Os apóstolos protestaram.
– Segunda...
Elias pediu silêncio.
– Segunda: – repetiu José, adotando maior solenidade – aquele que proclamar
que viu ou falou com o Ressuscitado... será condenado à morte.
Uma geral exclamação de repulsa e perplexidade pôs ponto final nas graves
notícias de Arimatéia. E a anterior alegria daqueles homens esfumou-se por
completo. Aos poucos, seus comentários e críticas se foram extinguindo e o medo
caiu de novo sobre seus corações.
– Esta última proposta – esclareceu José de Arimatéia em uma inútil tentativa
de animar os íntimos de Jesus – não pôde ser submetida à votação.
– Por quê? – interveio Elias que, como Mateus Levi, Simão Pedro e Tiago
Zebedeu, parecia não haver perdido a serenidade.
José esboçou um sorriso irônico.
– Pelo visto, diante do contínuo fluxo de notícias sobre as aparições (não só às
mulheres, mas também a judeus honestos e a gregos valorosos), o medo se
apoderou da assembléia e mais de um teve de correr à sua casa para mudar de
saq...
A zombaria não foi bem recebida. O pior que podia suceder era que Caifás e
seus esbirros se vissem descontrolados pelo seu próprio terror. Nesse caso, os que
ali estavam reunidos, e muitos mais, podiam considerar-se homens mortos. Com
razão anota João, o Evangelista, que “as portas achavam-se fechadas por medo
aos judeus...”.
– É necessário – concluiu José – que deixeis a cidade. E o quanto antes!
Simão Pedro opôs-se. E lembrou a seus irmãos as palavras do Mestre no pátio:
“Adeus, Pedro, até que te veja em companhia de teus companheiros”. André
rechaçou a sugestão de seu irmão. Quem poderia saber quando se realizaria a
aparição, “supondo” – rematou acentuando as sílabas – “que tudo isso seja real...”.
Tiago Zebedeu, Mateus e Elias manifestaram-se de acordo com a proposta de
José, alegando que, além de tudo, faltava o “dídimo” (Tomé). A justa observação
confundiu, a princípio, Simão Pedro, mas, refazendo-se, insistiu em que deviam
permanecer no cenáculo. E, em mais um de seus clássicos arrebatamentos,
apontou para as espadas que descansavam sobre a mesa, jurando pela vida e pela
família que não voltaria a trair o Mestre.
Pôs-se em pé e com as veias do pescoço inchadas, vociferou:
– Não! Nunca mais!... Ninguém me obrigará a fugir de novo.
João Zebedeu aplaudiu seu fogoso amigo, enquanto André, por cima dos
ombros de Pedro, o chamava aos gritos de visionário, louco.
A disputa cresceu de tom. José e Elias não se mostravam capazes de
restabelecer a calma e o bom senso. E estavam quase ao ponto de chegar ao
pugilato quando, em meio àquela balbúrdia, as chamas das seis ou sete candeias
de azeite oscilaram violentamente, como se tivessem sido atingidas por um súbito
e gélido vento. E o cenáculo ficou às escuras.
Depois “daquilo”, em uma furtiva conexão com o módulo, vim a saber que as
mechas se haviam apagado ao redor das 21h30...
O medo, como uma martelada, confesso-o, cravou-me no assento. Foi tão
rápido e inesperado que não houve reação. Eu também senti aquela espécie de
brisa gelada. E os demais, pelo que averigüei depois, coincidiram comigo ao
descrevê-la como “um milhão de agulhas cravando-se na pele”. Incrivelmente para
mim, para Eliseu e para quantos membros do Cavalo de Tróia vieram a ter
conhecimento desse fato, a “pele de serpente” que me protegia falhou.
Como eu dizia, foi instantâneo. Ao ficarmos às escuras, as maldições e
impropérios cessaram. E antes que alguém voltasse a abrir a boca, uma cintilação
fez-nos voltar o olhar para o fundo da sala. Precisamente para a zona oposta à
parede de entrada. Por causa das densas trevas, aquela espécie de
“ziguezagueante, infinitesimal e azulada chispa elétrica” destacou-se no ar como
um relâmpago na mais negra das tormentas. Devo ter ficado lívido. Dos outros não
posso falar: não os via.
O revoluteio azul metálico repetiu-se. Mas agora, oh Deus, não tenho
palavras!... Dessa vez a “cabeça” da chispa rasgou a obscuridade, desenhando uma
figura... humana!
Minha garganta secou. E meu coração, meu cérebro e todo o meu ser se
negaram a funcionar. Nunca soube se estive vivo ou morto...
Com precisão matemática – como se fora governada por um computador – a
chispa, depois de imobilizada, desapareceu. E ali ficou, nascida do negror, uma
silhueta de homem, maravilhosamente contornada por uma sutil linha violeta.
E como se uma cascata de luz, também violácea, se derramasse de um ponto
indeterminado do cérebro daquele “ser”, assim foi completando-se a figura.
Quando toda sua estrutura estava formada e banhada de luz mate, surgiu diante
dos nossos olhos a massa de um “homem luminoso”. Sinto-o. Não tenho outra
qualificação.
Talvez fosse o medo. Não sei. Ou talvez a ausência de sombras e dos naturais
relevos. O certo e verdadeiro é que não soube reconhecê-lo. Era, parecia, a réplica
de um ser humano. De um adulto de longos cabelos, barba recortada e túnica que
descia até os pés. Mas, insisto, talvez tudo isso apenas sejam suposições minhas...
e sempre a posteriori.
Tive a impressão de que o tempo e espaço se haviam congelado.
De súbito, os braços daquele “ser” de luz se moveram. Em uma situação tão
crítica é difícil precisar ou fixar tantos detalhes, mas juraria que, à medida que seus
braços se erguiam em sinal de saudação, várias taças e espadas que estavam sobre a mesa na curvatura do “U” – o ponto mais próximo da “aparição” – se
entrechocavam e caíam ao chão.
E, como em um sonho, aquela forma violácea falou. Foi uma voz familiar que
me eriçou até o último pêlo. Era incrível. A voz não nascia de um ponto concreto –
presumivelmente da parte superior – mas de todas e de nenhuma parte ao mesmo
tempo. Enchia o cenáculo e perfurava minha mente como um sabre. Quisera eu
que me houvesse ocorrido apertar meu ouvido direito. Eliseu teria sido uma valiosa
testemunha... Mas meu companheiro achava-se envolvido com as tarefas de
investigação dos panos mortuários.
– A paz seja convosco!
Era Ele! Seu timbre de voz... Mas sua figura... por que não pude reconhecê-la?
– Por que estais tão assustados, como se se tratasse de um espírito?
Os comentários que agora acompanham a narração deste fato foram,
logicamente, fruto de minhas reflexões posteriores. Naquele momento não
pensava, não respirava, apenas via e sentia. O caso é que as primeiras palavras da
“visão” – como poderia defini-la melhor? – não tinham muito sentido. Era lógico
que qualquer ser humano sentisse não medo, mas terror!
– Não vos disse que os principais sacerdotes e dirigentes me entregariam à
morte, que um de vós me trairia e que ressuscitaria ao terceiro dia?
Jesus de Nazaré – porque tinha de ser Ele – foi baixando os braços devagar.
– ... Então – prosseguiu a “voz” – por que tantas discussões e dúvidas sobre o
que disseram as mulheres, Cleofás, Jacó e o próprio Pedro? E agora que me vedes
ides crer-me?
Ninguém respondeu. E quem, em são juízo, o teria feito?
– Um de vós ainda está ausente. Quando vos reunirdes mais uma vez e
souberdes com segurança que o Filho do Homem ressuscitou, marchai para a
Galiléia...
Marchar para o norte? Outra vez aquela recomendação...
– ... Tende fé em Deus! Tende fé uns nos outros! Assim entrareis no novo
serviço do reino dos céus.
O “ser” fez uma brevíssima pausa. Era assombroso! Havia matizes no timbre de
sua voz!
– Permanecerei em Jerusalém até que estejais em condição de partir para a
Galiléia. Deixo-vos em paz.
E em uma fração de segundo, senão menos, toda a figura de luz se esfumou,
recolhendo-se sobre si mesma, até que apenas restasse um ponto brilhante, branco
como o mais potente dos arcos voltaicos, no lugar que devia ser ocupado pelo
suposto “cérebro” do não menos suposto “homem”...
Depois, também esse ponto diluiu-se. E nas retinas dos meus olhos continuou
vivo, oscilando a cada movimento das pálpebras, como quando se observa
fixamente o disco solar.
Do resto do ocorrido naquela sala na noite do domingo 9 de abril do ano 30 da nossa era, quase nada posso dizer de preciso...
Não sei se transcorreu um minuto ou uma hora. A verdade é que alguém
rompeu a gemer. Foi como um detonador. Contagiados, todos nos precipitamos
sobre todos, procurando-nos na escuridão com os braços estendidos. Eu fui o
primeiro.
Tropeçamos nos divãs, na mesa e uns nos outros e rolamos como fardos sobre
o assoalho. Um pânico irracional – quase químico – explodiu em toda a sua
magnitude. Alguns soluçavam, outros riam nervosamente. José e Elias, entre
brados e recomendações de “calma” e “tranqüilidade”, empurravam à direita e à
esquerda, suponho, à procura da porta. De nada me serviu meu treinamento nem a
frieza de que me havia gabado em outras ocasiões. Havia-me deixado dominar
pelo medo. E, como mais um naquele histérico enredo humano, comecei a
engatinhar como um coelho assustado, acabando por chocar-me frontalmente
contra uma das paredes. O golpe na cabeça deixou-me inconsciente.
Agora, só de pensar nas fatais conseqüências que podia ter sofrido, ponho-me a
tremer. Se houvesse fraturado o crânio, talvez este diário nem teria existido... Foi
uma importante lição para mim.
O que primeiro me vem à lembrança é o rosto choroso de João Marcos e,
também entre brumas, as solícitas mãos de Maria, sua mãe, banhando-me a fronte
com uma esponja.
Tentei erguer-me. Uma dor aguda entre as sobrancelhas, porém, fez-me
desistir. Apertei os punhos, fechei os olhos e lutei por acalmar-me e rememorar.
– O que aconteceu?
– Um grande golpe – respondeu uma voz.
De repente, ao notar que havia perdido meu cajado, desembaracei-me de
meus amigos e me levantei. Lancei um olhar ao redor. Eu continuava no cenáculo.
As lanternas de azeite brilhavam de novo e os discípulos, em silêncio, me
observavam de seus assentos. Aos tombos, com as mãos sobre o hematoma que
crescia em minha fronte, fui-me aproximando da poltrona que havia ocupado
durante a “aparição”. A “vara” estava no chão, meio oculta pela mesa. Mas detive-
me. Meu instinto, ainda que bastante enfraquecido, funcionou. Não podia levantar
suspeitas. Depois daquele acidente, se meu primeiro impulso fosse tentar
encontrar um vulgar cajado de peregrino, meus atentos e sagazes observadores
talvez começassem a fazer perguntas. Devia agir com naturalidade. E, aparentando
uma louca ansiedade, comecei a buscar uma taça entre as que permaneciam sobre
a mesa.
– Não, Jasão! Agora não te convém beber.
Era Maria. E, com grande doçura, ajudada pelo menino, conduziu-me a um dos
bancos vazios. Tomou uma moeda, um denário de prata, imergiu-a em um cântaro
de mel e em seguida a colocou sobre um lenço empapado em uma mistura de
vinho, azeite e aloé púrpura. Um dos criados ajustou o denário fortemente contra o
hematoma, enquanto a senhora o prendia com um lenço que atou em minha nuca. Senti certo alívio. Tomei suas mãos e as beijei. O costume era desconhecido para
os hebreus e Maria, constrangida, ruborizou-se.
Por recomendação sua, deitei-me no divã, repousando durante alguns minutos.
Fechei os olhos e no mesmo momento aquela figura luminosa e aquela voz
retomaram à solidão e à obscuridade de meu coração. Tentei raciocinar sobre o
fenômeno. “Seguramente” – pensei – “tudo se deveu à extrema tensão que
vínhamos suportando...” Não pude enganar a mim mesmo. Admitindo que a visão
houvesse sido conseqüência de nossos nervos ou de um estresse passageiro, como
explicar o repentino apagar das mechas de azeite? Além disso, havia o vento
gelado. Nenhum dos presentes conhecia minha proteção cutânea. Se eles tivessem
sido capazes de provocar aquele tipo de brisa, eu não a teria sentido. O fato é que
atingiu todo meu corpo...
Quanto à cintilação e ao incrível traçado da “chispa”, que é que se podia dizer?
Suponho que algum deles dispusesse de algum tipo de poder mais ou menos
paranormal, e, admitindo que fosse capaz de “criar” ou “construir” uma
materialização ou “fantasmogênese”, por que fazê-lo de uma forma tão sofisticada
e obedecendo a algumas pautas que, de certo modo, me recordaram os complexos
sistemas da holografia?
E se me inclinasse por um holograma, quem, no século I, estaria em condições
de realizar o que só a partir de 1947, com Dennis Gabor, seria conhecido e
desenvolvido?139 Onde estava o laser, necessário para esse tipo de imagens em
relevo? E no caso de não haver usado uma luz coerente e sim uma branca – seja
por meio de lâmpada incandescente, seja através da luz solar –, deparava-me com
o mesmo problema, além do fato de que naquele momento, 9 e meia da noite, a