Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 3 de 10 · parte 4/8

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Cavalo de Tróia 2: Massada

9 de abril, domingo ⠀愀渀漀 ㌀ )

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

fazia mais pronunciadas as rugas de seu rosto, Simão caminhou até João e, sem

pergunta ou comentário de qualquer um deles, ambos lançaram-se degraus abaixo.

No meio do caminho, ao ver o negro orifício de entrada, Pedro titubeou. Foi uma

fração de segundo. Então, como um meteoro, pôs-se de joelhos e entrou

decididamente no sepulcro. João, perplexo e admirado diante da indubitável

coragem de seu companheiro, não se moveu.

Não havia transcorrido um minuto quando vi reaparecer a calva do galileu.

Dessa vez, sua saída da cova foi lenta e cansada. João, como eu, aguardava sua

reação. Levantou-se com dificuldade e, cambaleante, sem abrir os lábios, foi

acomodar-se na pedra que servia de proteção à boca da gruta e que, como eu já

disse, se achava tombada junto à fachada de pedra do panteão. Seus olhos claros

estavam perdidos, sem fixar-se em parte alguma. Parecia hipnotizado. Pálido e

alheio a quanto o circundava.

João, nervoso, impaciente, interrogou-o da boca do sepulcro. Então compreendi

que o Zebedeu não havia tido ocasião de distinguir com nitidez a superfície do

banco onde descansara o corpo do Mestre. Era lógico. Ainda que o Sol houvesse já

remontado o perfil do monte das Oliveiras, iluminando toda a área com uma doce e

meridiana claridade, a luz que entrava na câmara mortuária era escassa. E

suponho que o decidido Pedro, como Madalena e eu mesmo, se havia contentado

em apalpar o vazio...

– Quê...?

Simão Pedro nem pestanejou. E com um vago gesto da mão esquerda mandou

que ele entrasse.

João franziu o cenho e, contrariado pelo mutismo de Pedro, ficou de cócoras,

agachou a cabeça e se perdeu nas trevas do sepulcro. Sua estada no interior foi um

pouco mais prolongada do que a de seu companheiro. E quando retomou,

diversamente de Pedro, seu rosto estava radiante, transfigurado...

Durante uns dois minutos nada disse. Deixou-se cair de costas contra a fachada

da cripta e, virando os olhos, chorou. Foram lágrimas silenciosas, de paz, que

diziam mais do que todas as palavras do mundo.

Pedro acabou por voltar à realidade, e, com um amargo ricto nos lábios,

exclamou:

– Filhos de mãe velhaca!... Profanaram sua tumba!

A reação do pescador deve ter inflamado o ânimo de João, que, abrindo os

olhos, foi sentar-se a seu lado. Visivelmente alterado, apontando a boca da cova, o

mais jovem dos Zebedeu tratou de convencê-lo de algo em que, aparentemente,

seu amigo não havia reparado: a estranha disposição da mortalha. Como explicá-

lo? Por que os supostos profanadores não haviam levado a mortalha e o lenço?

Os argumentos – tão sutis quanto razoáveis – não sensibilizaram Pedro.

Enquanto João argumentava e o chamava de “teimoso” e “estúpido”, Pedro, inalterável, limitava-se a negar com a cabeça, repetindo como um papagaio:

– Eles o roubaram!... Roubaram!

João, que parecia convencido da misteriosa ressurreição, invocou a promessa

do rabi de voltar à vida ao terceiro dia. Foi inútil. Sua alegria e seu envolvente

entusiasmo chocavam-se sempre com o ceticismo de Pedro.

Em uma desesperada e derradeira tentativa de fazê-lo entender que aquele

sepulcro vazio não podia ser obra de ladrões, João pegou Pedro pelo braço e o

convidou a entrar de novo. O galileu concordou de má vontade. E ambos perderam-

se pela segunda vez na escuridão da tumba.

Não sei do que falaram, mas estou quase seguro de que os dois tatearam a

superfície da plataforma rochosa, encontrando, como eu, o lençol de linho e o

lenço, misteriosamente e inexplicavelmente “desinflados”... e vazios.

Dentro em pouco saíram. Pedro, sem mudança aparente: confuso e aferrado à

idéia da profanação. João, ao contrário, exultante. Cada vez mais convencido de

que o Mestre havia ressuscitado. Saltava de júbilo e golpeava a fachada do

panteão com ambas as mãos, ao mesmo tempo que repetia aos gritos:

– Ele o fez!... Cumpriu!... As mulheres tinham razão!

Simão, mal-humorado e temeroso, tentou fazê-lo calar-se. Seu medo dos

sinedristas não havia passado. O medo de ser igualmente capturado continuava

dominando e dirigindo sua débil vontade. E, ao ver que seu jovem amigo não

cedia, deu meia-volta e se afastou escada acima.

A verdade é que, ao rememorar essa passagem, eu não soube o que pensar.

João, o Evangelista, não alude em momento algum à dura e arisca postura de

Simão Pedro. No seu texto (João, 20, 1-10), o escritor deixa claro que ele “viu e

acreditou”. Mas por que não fala da incredulidade e do nevoeiro mental de seu

companheiro? Por compaixão? Talvez por benevolência? Ou, como já vimos na

“última ceia”, por que não convinha empanar a imagem daquele que depois seria o

cabeça visível da Igreja?

As cenas da famosa corrida e da entrada na sepultura estavam terminadas.

Mas não as surpresas daquela agitada manhã de domingo, 9 de abril do ano 30...

 

No fundo, como passarei a relatar, a imprevista irrupção daquela mulher na

propriedade contribuiu, e não pouco, para multiplicar minha desolação. Isto foi o

que presenciei.

Pedro, como eu disse, subiu os degraus e, gesticulando e resmungando

incongruências, dirigiu-se para o caminho. Parecia disposto a deixar sozinho seu

amigo. Mas de súbito o ruído de uns apressados passos obrigou-o a deter-se. Eu,

que me havia erguido e me preparava para sair ao encontro dos apóstolos, fiz o

mesmo. Aquilo não estava previsto nem está nos textos evangélicos.

Ao fundo da vereda, entre a ramagem das árvores, aproximava-se

impetuosamente uma silhueta. João subiu à pequena esplanada aberta diante da

rocha e, lentamente, foi colocar-se junto a seu expectante companheiro. Não se

falaram. Pedro levou a mão esquerda ao punho de sua espada. Temendo um encontro desagradável, esperaram.

A alta e espigada figura chegou na bifurcação do estreito caminho. E ao

descobrir a presença dos dois galileus deteve seu nervoso caminhar. Era uma

mulher. Tinha o rosto coberto por um folgado manto verde. Acreditei reconhecer o

talhe e aquelas delicadas vestes. E foi João quem confirmou minha suposição.

– Maria – exclamou o Zebedeu. E, abrindo os braços, precipitou-se para a

hebréia. – Maria! Perdoa-me!... É verdade, é verdade!

Madalena descobriu o rosto, acolhendo o feliz discípulo. Simão tirou as mãos da

espada e, respirando aliviado, ficou imóvel. João e Madalena puseram-se a chorar e

assim ficaram durante vários minutos, fortemente abraçados. Mas Simão, cuja

paciência não era precisamente generosa, tratou de cortar aquela emotiva cena,

censurando-lhes a “infantil credulidade” e instando João a sair quanto antes

daquele “perigoso lugar”. Foi então, ao lançar um inquieto olhar à sua volta, que

descobriu minha presença. Sobressaltado, o pescador desembainhou a espada.

Então saí do meu esconderijo e dei-me a conhecer, pedindo-lhe calma...

Ao reconhecer-me, João enxugou as lágrimas e, não obstante o gesto de

contrariedade de Pedro, chegou-se a mim para relatar-me aquilo que eu já sabia.

Durante alguns instantes eu não soube o que dizer ou fazer. Tinha consciência de

que não devia influir em nenhum sentido no ânimo e nas decisões daqueles

homens. Meu papel era de mero espectador. Todavia, em situações como aquela, a

fria e necessária imparcialidade tornava-se extremamente difícil... Então limitei-me

a acariciar seus revoltos e sedosos cabelos enquanto ele falava.

Foi Pedro quem, agora mais sereno, tirou-me de tão embaraçosa situação.

Deixando-se levar pela sua lógica e senso comum, e ignorando a presença de

Maria, deu alguns passos entre os bastões e a marmita dos guardas do Templo e

enunciou o que, em princípio, me pareceu uma excelente sugestão:

– Devemos comunicar o roubo a José e aos demais...

Ao ouvir a palavra “roubo”, Madalena reiniciou seu choro, presa de um novo

ataque de desespero. Mas o teimoso galileu nem olhou para ela. Agarrou João pelo

pulso e o arrastou vereda acima. E desapareceram ambos de nossa vista.

Por um lado, alegrei-me. A intransigência do pescador havia começado a crispar

meus nervos.

A missão obrigava-me a permanecer no horto, atento à sorte dos panos

mortuários. Esse era meu próximo e delicado objetivo: tomá-los e, durante umas

horas, submetê-los a uma exaustiva análise científica no interior do módulo. Uma

vez colocados no “berço”, teria início a segunda fase daquela, no momento,

acidentada aventura. Mas sigamos a ordem cronológica dos fatos...

Comovido, aproximei-me de Maria. Ela se havia ajoelhado e, abatida, ocultava

o rosto entre as mãos. Deixei-a chorar e desafogar-se. E quando vi que seus

soluços e suspiros começavam a espaçar-se, fui retirando delicadamente suas

longas mãos do rosto, pedindo-lhe calma. Mas Madalena, com os olhos inchados e

vermelhos, moveu a cabeça, revelando toda a sua impotência e profunda angústia. Era triste e desesperador, para mim, não poder ajudar mais aquela bela hebréia de

20 ou 22 anos. Bem que eu desejaria antecipar-lhe algo do que eu conhecia. Mas o

estrito código moral que regia nosso trabalho impôs-se mais uma vez.

De joelhos diante dela, solidário com sua amargura, tive de pronto a sensação

de que alguém nos observava. Senti um calafrio na nuca. E, ao voltar-me, dei, de

fato, com a robusta figura de um homem. Achava-se descalço. Talvez por isso não

o ouvisse chegar. Ergui a vista e respirei com alívio ao reconhecer o horticultor de

José. Vestia um tosco chaluk de lã de cor cinza descolorida e cobria-se com um não

menos gasto chapéu de folha de palma. Na mão esquerda trazia uma tocha. O am-

ha-arez – como eram conhecidos os sofridos trabalhadores do campo e a massa do

povo – sorriu-me, deixando ver os dois ou três únicos dentes que continuavam em

pé em suas inflamadas e negras gengivas.

Parece-me que aquela foi uma das poucas ocasiões em que o ouvi falar. Fiel

seguidor dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, o homem havia ouvido os rumores

que já circulavam pela cidade sobre o desaparecimento do corpo do Mestre e, em

um quase indecifrável aramaico galileu, perguntou-me se eu sabia alguma coisa a

respeito.121

Pus-me em pé e, apontando Maria, improvisei, explicando-lhe que sim, havia

ouvido qualquer coisa, mas que não estava muito certo...

O horticultor caiu então no seu habitual mutismo. Olhou para a mulher e,

hierático como um poste, afastou-se em direção ao fosso. Percebendo que ele

estava disposto a confirmar os fatos por si mesmo, decidi, após uns segundos de

vacilação, unir-me a ele. A tocha era importante. Até então minhas sucessivas

incursões à cripta tinham sido feitas em precárias condições de visibilidade. Então,

deixei Madalena e apressei-me a seguir os decididos passos do horticultor.

Em má hora...

 

O nauseabundo odor de sebo de vaca que impregnava a tocha tomou conta de

tudo. E a vacilante chama, entre esporádicas chispas, foi arrancando reflexos

avermelhados das paredes da gruta e alongando e deformando nossas sombras. O

silencioso horticultor, com a cabeça e o torso inclinados, para não bater no teto,

permaneceu com os olhos fixos no banco vazio. Parecia hipnotizado.

Durante uns segundos fiquei observando o homem, à espera de algum

comentário ou expressão de surpresa. Em vão. Frio como o gelo, limitou-se a

explorar com a tocha toda a plataforma rochosa, para verificar, como eu, que o

lençol apresentava uma posição estranha.

Passados uns minutos, fez um gesto de retirar-se do lúgubre recinto. Mas –

leviano que fui! – fiz-lhe um sinal e o seco mas atencioso servidor de José acedeu

ao meu pedido, aproximando a tocha do linho. Obviamente, devido à escuridão,

nas anteriores oportunidades eu não havia podido reparar em um “detalhe” que

agora, à luz da chama, me deixou atônito. Um “detalhe” do qual havia tido

conhecimento “em meu tempo”, mas que, honestamente, nunca valorizei como

“sério” e “científico”. Estou-me referindo a umas assombrosas manchas, de um tom caramelo, que se viam em ambas as faces interiores do pano de linho. Mas vamos

por ordem.

Lembro que, em uma primeira exploração da metade superior do lençol, me

chamara a atenção uma série de coágulos e filetes de sangue. Quase colei o nariz

sobre tais manchas, observando com não pequena perplexidade que estavam

intactas. “Limpas.” Perfeitamente definidas. Aquilo era incompreensível. Depois de

34 horas – tempo aproximado de permanência do corpo na sepultura –, a maioria

das feridas e grumos sanguinolentos deveria ter ficado colada ao pano. Se o corpo

tivesse sido roubado e trasladado, o lógico teria sido que, no percurso, ao descolar-

se, os coágulos borrassem o lençol. Ao contrário, os decalques de sangue

conservavam-se intactos.

Deus meu! que haveria sucedido no negrume daquele lugar na madrugada de

domingo?

Levantei a face superior do lençol e, à luz da tocha, entre uma constelação de

fios de sangue igualmente nítidos, descobri aquelas “manchas” douradas. Ou não

seriam “manchas”? Nervoso e confuso diante de tanto desatino científico, alisei a

superfície da metade inferior da mortalha. As pontas dos dedos roçaram primeiro

em alguns grumos de sangue. Mas, ao fazer o mesmo sobre as supostas “manchas”

de cor escura, não percebi a rugosidade dos coágulos. A deficiente iluminação e a

proibição estabelecida pelo Cavalo de Tróia de manipular ou alterar a disposição

daqueles panos, ao menos enquanto permanecessem na tumba, não me

permitiram chegar a conclusão alguma. Enquanto durou a curta e apressada

exploração vieram-me à mente várias hipóteses. Tratava-se de manchas originais

pelos ungüentos? Ou quem sabe seriam fluidos de origem orgânica, resultantes da

decomposição do cadáver, que haviam empapado o linho?

O assombroso era que tais “manchas” reproduziam o perfil do corpo que

estivera envolvido no lençol.

– Isso é loucura!

Minha exclamação deve ter removido a frieza do jardineiro porque, imitando-

me, aproximou sua vista do pano. Cruzamos um olhar de incredulidade. Todavia,

não foram as misteriosas “manchas” douradas ou a desconcertante estrutura dos

coágulos que surpreenderam o sagaz horticultor. Suponho que estas sutilezas

escaparam ao seu fino instinto. Não assim, porém, em relação a outro “detalhe”

que, se não houvesse sido por ele, certamente teria passado inadvertido para mim.

Sem pronunciar palavra, apontou com o indicador da mão direita para o centro do

lençol. Ao ver “aquilo”, o coração saltou-me no peito. Quase no centro do banco,

entre ambas as partes da mortalha, e justamente no ponto onde haviam repousado

os pulsos do Nazareno, estava a estreita tira de pano que, uma vez pulverizada

com aloés, havia servido para atar suas destroçadas mãos. O incrível é que a peça

estava enrolada, em forma de anel, perfeitamente atada e envolvendo o... vazio!

Fechei os olhos. Será que eu também era vítima de uma alucinação ou da

histeria coletiva? Mas não. Ao abri-los, a “descoberta” do jardineiro continuava ali, desafiando a lógica humana. Como ocorrera com o lenço que havia sustentado a

mandíbula inferior do rabi e que, como expliquei, encontrava-se firme e “em seu

lugar”, aquela peça de pano, obrigatória nos sepultamentos judeus da época, não

mostrava sinais de manipulação. Se um hipotético profanador houvesse carregado

o corpo, por que soltaria as tiras para atá-las novamente e, para cúmulo do

absurdo, as colocaria delicada e calculadamente no mesmo ponto e posição que

haviam ocupado?

Ali havia ocorrido “algo” extraordinário. “Algo” que superava minha capacidade

mental. Mas que seria?

Como imaginei, a faixa que Nicodemos havia atado à altura dos tornozelos do

Mestre estava em posição e condições idênticas. Meticulosamente enrolada e com

os nós intactos...

Satisfeita minha curiosidade, mas não minhas dúvidas, recoloquei a metade

superior do lençol na sua posição original. Agora, mais do que nunca, devia

apanhar aquela mortalha e submeter o tecido, os coágulos e as “manchas”

douradas a uma completa análise médico-científica. Mas não imaginava então as

múltiplas surpresas que nos reservariam esses estudos! E antes teria de resolver

um “pequeno problema”: como e quando retirar os panos?

Creio que estávamos a ponto de abandonar a cripta quando, de súbito, uma

sucessão de gritos nos alarmou. Que havia acontecido?

 

De fato, creio que foi uma leviandade de minha parte. Jamais deveria ter retido

o horticultor na cripta. Mas o destino, como se verá, tem estas coisas...

Fui o primeiro a sair. Meio cego devido à forte claridade da manhã, estive a

ponto de tropeçar na segunda lápide.

As vozes vinham do ponto onde, pouco antes, havíamos deixado a aflita Maria

Madalena. Não pareciam gritos de medo ou de dor. Era difícil explicar. Soavam

como invocações. Como se alguém, uma mulher, sem dúvida, reclamasse a

atenção ou a presença de outra pessoa.

Ao chegar ao último degrau, vi que se tratava de Madalena. De costas,

ajoelhada e com os braços para o alto, ela não parava de clamar, repetindo uma

mesma e única palavra:

– Rabbuní!...

O termo – “Mestre” – referia-se ao falecido rabi da Galiléia. Disso tenho

certeza. Mas por que ela invocava seu nome? E, principalmente, por que o fazia

naquele estranho tom?

Tive um pressentimento. Olhei ao meu redor mas não tardei a afastar tão

absurda idéia. Ali não havia ninguém. Tudo se achava em calma. Além disso, os

textos sagrados consultados pela equipe do Cavalo de Tróia não falam de uma

segunda aparição do Nazareno a Madalena.

A mulher não se havia movido, praticamente, da borda do pomar. Talvez,

pensei, tenha sido vítima de outra depressão.

O horticultor parou junto a mim e nos olhamos sem compreender. E devagar, procurando não assustá-la, caminhamos para ela.

– Rabbuní!

Aquilo era uma chamada...

Detivemo-nos cada um a um lado dela e, por um intervalo de alguns minutos, a

contemplamos com tanta inquietação quanto curiosidade. Maria Madalena

apresentava uma expressão diametralmente oposta. O abatimento anterior havia

desaparecido de sua face. Era muito estranho...

Seus olhos, muito abertos, sem pestanejar, pareciam fixados em um ponto

invisível do espaço. Havia neles uma sombra de espanto e surpresa. Foi então, ao

olhar para suas mãos, que reparei na direção e posição de seus dedos. Estavam

rígidos, crispados e em atitude de querer tocar ou agarrar algo...

– Rabbuní!

Imóvel, Maria nem se apercebeu de nossa presença. E continuava a repetir o

título do Nazareno, num tom, evidentemente, de súplica. Eu não sabia o que

pensar. Todos os sintomas indicavam uma nova crise. E comecei a questionar-me

se a saúde e o equilíbrio mental da antiga cortesã estariam normais.

Não fora a fulminante reação do jardineiro e talvez aquela situação se

prolongasse indefinidamente. Mas o homem, compreendendo que Maria se achava

fora de si, acabou por lançar-se sobre ela e sacudi-la pelos ombros, quase a

levantando para o ar. As secas e violentas sacudidas tiveram efeito: Madalena

pestanejou várias vezes, voltando à realidade. Suas faces recuperaram a cor. Então

baixou a cabeça e suspirou ansiosamente.

– Estás bem? – atrevi-me a perguntar.

Ergueu os olhos e suas pupilas da cor do azeviche falaram em silêncio e com

uma força que me recordou o poderoso olhar do Filho do Homem. Estremeci e ela

percebeu. Sorriu com íntima satisfação e, erguendo a mão esquerda para as

árvores do pomar, comentou sem vacilação:

– Eu o vi!

O horticultor, instintivamente, voltou a cabeça para o ponto assinalado pela

mulher.

– Sim, tu nos contaste... – respondi em tom conciliatório.

– Não! – bradou trêmula. – Agora!... Foi agora!

Dessa vez fui eu quem empalideceu. Mas, suspeitando que Madalena podia

estar sendo vítima de suas próprias emoções, esforcei-me por conservar a calma e

seguir a corrente.

– Fica calma. Sabes que acreditei no teu testemunho. Sei que o viste.

– Não! – interrompeu-me ela violentamente. Sua face havia mudado. Madalena

sofria por ver que, uma vez mais, não era acreditada. – Repito que o vi pela

segunda vez!... Aqui!

Avançou dois passos e foi colocar-se a 1 metro das árvores. O silencioso

jardineiro fez um ar de dúvida. Voltamos a trocar um olhar e, prudentemente, não

fizemos nenhum comentário. Uma segunda suposta aparição do não menos suposto ressuscitado era demais... E, sem querer, vi-me colhido pelo mesmo

ceticismo que, paradoxalmente, eu havia, no íntimo, criticado em Pedro. Era

curioso. Apesar da veemência da hebréia, fui incapaz de crer em sua palavra. Ou

seria que a sensação de frustração que vinha germinando em meu ânimo

bloqueava minha mente até o ponto de refutar seu testemunho só para buscar

minha própria justificativa? Agora sei que só a idéia de que aquilo era verdade, de

que Ele havia estado ali, tão próximo, havia começado a minar minhas forças...

– Era Ele!...

E Maria, sem que ninguém lhe perguntasse, repetiu a mesma descrição do

“estrangeiro” de túnica e manto “nevados”. Deixamo-la que desabafasse. Que mais

podíamos fazer?

– ... E me falou – continuou ela com uma crescente emoção. – Disse-me: “Não

fiques em dúvida. Tem coragem... Crê no que viste e ouviste. Volta aos apóstolos e

diz-lhes outra vez que ressuscitei... que aparecerei diante deles e que logo, como

lhes prometi, os precederei na Galiléia.”

Ela examinou nossos rostos. O silêncio que se seguiu ao seu relato foi

revelador. Mas dessa vez Madalena não se alterou. Não houve protesto ou

lamento. Sabia quais eram os pensamentos daqueles homens e, ocultando o rosto

com a borda do manto, afastou-se em passos rápidos.

Eram 9h40. Supondo que esta segunda manifestação do Mestre houvesse sido

real, devia ter-se registrado três ou quatro minutos antes.

Confusos, sem saber o que dizer, vimos a mulher tomar a vereda e correr.

Nesse momento, enquanto ela desaparecia, em direção à cancela, outras duas

figuras apareceram entre a ramagem. Ao cruzar com Madalena detiveram-se, mas,

aparentemente, ela nem sequer respondeu à saudação dos dois homens.

Continuou a correr e perdeu-se vereda acima. Os novos visitantes, visivelmente

contrariados, hesitaram por um momento, mas, ao descobrirem nossa presença,

retomaram a marcha. Eram José de Arimatéia, dono do lugar, e o eficiente Davi,

irmão dos Zebedeu e chefe dos “mensageiros”.

Tanto um quanto outro, do mesmo modo que a maioria dos seguidores de

Jesus que eu havia tido ocasião de ver até esse instante, traziam no rosto o

esgotante cansaço de dois dias e duas noites de vigília, a angústia e o horror da

tragédia e, sobretudo no caso de Davi Zebedeu, uma chispa de esperança no olhar.

Ambos se mostraram alegres ao ver-me. E José, sabedor, desde o princípio, da

existência da férrea vigilância do panteão, elogiou minha presença no lugar,

comparando-a com a “mesquinha e covarde atitude” de muitos dos íntimos do

Mestre. Tentei dissuadi-lo, mas o ancião, mudando de assunto, entrou logo a falar

daquilo que era o verdadeiro motivo de sua visita à propriedade: o sepulcro. As

mulheres que haviam acompanhado Madalena naquela madrugada – disseram eles

–, depois de transmitirem aos apóstolos a notícia da tumba vazia, da desaparição

das patrulhas e da suposta presença do rabi no jardim, haviam estado na mansão

de José e contado à sua filha e às restantes mulheres tudo o que haviam visto e ouvido. Pouco depois a filha de José e as quatro testemunhas em questão foram à

casa de Nicodemos. Ali estavam Davi Zebedeu e o ancião membro do Sinédrio.

Repetiram a história, mas, segundo as próprias palavras de José, quase todos

duvidaram da veracidade de tais fatos. Sobretudo da pouco crível ressurreição de

Jesus. Tanto Nicodemos como os discípulos que se ocultavam na casa inclinaram-se

a crer que o corpo podia ter sido roubado. Só Davi e José recordaram as promessas

do Filho do Homem e, movidos pela esperança e curiosidade – no caso de José,

esta última era mais poderosa do que a primeira –, tomaram a decisão de ir ver a

cripta e esclarecer o enigma.

Davi quase não abriu a boca. Observou minuciosamente a esplanada e depois,

tremendo de impaciência, instou com o ancião para que não perdesse mais tempo

e tomasse a frente no ingresso do sepulcro. José concordou e, a um sinal seu, o

horticultor os acompanhou como guia. Eu, cauteloso, fiquei atrás e aguardei no

meio da escada. Durante os poucos minutos que durou a visita, um pensamento,

quase uma obsessão, atormentou-me impiedosamente:

– “E se aquela segunda aparição tivesse sido real?”.

 

Os acontecimentos que eu estava presenciando nem mesmo figuram nos

Evangelhos. Nem a segunda e até então presumida aparição do Mestre a

Madalena, nem a visita de José e Davi à tumba e muito menos o que ocorreria logo

depois. Não me cansarei de repetir: é uma lástima que os escritores sagrados não

se tenham empenhado em uma narrativa mais minuciosa e completa dos sucessos

que cercaram a vida e a morte do Filho do Homem! Se o houvessem feito, os

cristãos e não crentes haveriam compreendido melhor os protagonistas dessa

época. Quanta razão tem João, o Evangelista, quando, em seu último versículo (21,

25), afirma que “há, ademais, outras muitas coisas que Jesus fez...” Mas não quero

incidir em novas elucubrações pessoais.

Curiosamente, aqueles dois homens seriam os últimos fiéis seguidores de Cristo

a terem acesso à cova quando ainda “intacta”, quer dizer, com os panos mortuários

tal como haviam sido vistos depois da enigmática desaparição do corpo.

José de Arimatéia não tardou a sair do sepulcro. Sua atitude, a princípio, foi de

contrariedade. Levou as mãos às costas, caminhou um pouco e abanou a cabeça,

como que repelindo a idéia da ressurreição. De certo modo lembrava Simão Pedro.

Davi Zebedeu, ao contrário, tal como seu irmão João, saiu da tumba com novo

ânimo. Com uma eloqüente felicidade no olhar.

Antes que o chefe dos “emissários” fizesse comentário ou desse opinião, o

euschemon – nome com que também naquele tempo se designava um rico

proprietário rural – aproximou-se de seu amigo, olhou-o fixamente e perguntou-

lhe:

– Qual é sua opinião?

A resposta do galileu, no meu entender, foi perfeita:

– Fiz bem em convocar meus homens para hoje... Estou curioso para conhecer

as reações dos apóstolos. Irei à casa de Elias e lhes perguntarei. Jesus prometeu ressuscitar no terceiro dia e cumpriu. Quando chegar o último dos meus

“emissários” darei as ordens para que divulguem a boa-nova.

– Mas...

A previsível impugnação de José nem chegou a ser formulada. Um distante

vozerio obrigou-nos a voltar a atenção para o alto da escada. Davi interrogou com

o olhar o sinedrista. Este, encolhendo os ombros, consultou o horticultor. Ninguém

sabia do que se tratava.

Subiram os degraus cautelosamente e, uma vez em cima, detiveram-se.

Apressei-me, por minha vez, a segui-los. Espalhados entre as árvores – juraria que

em posição de combate – aproximavam-se uns vinte homens. Vestiam-se de forma

bem variada. Cinco ou seis tinham longas túnicas verdes que roçavam o solo e

camisas de escamas metálicas até o meio da coxa. Cobriam-se com capacetes

polidos e em forma de cúpula e portavam arcos de dupla curvatura. Avançavam no

centro da formação e um deles, talvez o chefe, ia ligeiramente adiantado e com

uma tocha acesa na mão esquerda.

Outros vestiam roupões amarelos idênticos aos que haviam sido abandonados

no solo. Reconheci em suas mãos ou nos cintos alguns daqueles longos e temíveis

bastões com cravos. Os demais, ao menos os que caminhavam na primeira linha,

vestiam umas curiosas peças – parecidas com as nossas camisetas – de um pano

forte e mangas curtas, todas de uma só cor, pardo-canela. Sobre uma minguada

túnica da mesma cor – talvez se tratasse da mesma peça – cingiam a cintura com

uma larga faixa de couro reluzente, de uns 30 centímetros, dividida em três barras,

com todas as características de uma couraça abdominal. Suas cabeças estavam

cobertas com turbantes de tom igual ao das vestes. Um dos pendentes daquele

simulacro de capacete caía sobre a orelha direita, com longas franjas que

repousavam sobre a clavícula. Uma lança de madeira, de mais de 2 metros, e com

ponta de ferro triangular, e um grosso escudo ovalado, também de madeira de

sicômoro (capaz de resistir aos vermes) completavam o armamento. A estampa

daqueles guardas do Templo, porque disso se tratava, trouxe-me à memória o

detalhe de um dos alto-relevos descobertos no palácio de Senaquerib, em Nínive,

em que se representa a conquista da cidade judaica de Lakis, em 701 a.C.

Ao ver-nos assomar no alto da escada, a guarda judia deteve sua marcha.

Vários deles, os que traziam arcos em forma de canga, moveram as mãos para trás

e tiraram várias flechas de umas aljavas cilíndricas, de cor granada. Mas o da

frente fez um sinal com a acha e as flechas voltaram às aljavas.

Davi Zebedeu, percebendo as intenções daqueles ammarkelîn ou strategoi

como os chamou Flávio Josefo, desembainhou seu gladius e, frio como o próprio

gelo, cobriu seu amigo ancião. Mas este, consciente de sua superioridade sobre os

esbirros de Caifás, obrigou o discípulo a guardar sua arma. Depois, adiantando-se

até a orla do pomar, censurou o que parecia o cabeça, chamando-o por seu nome.

Tratava-se de um tal Eleazar, um dos sagan ou chefes do Templo. 122 O capitão dos

levitas adiantou-se até José e ambos discutiram acaloradamente por alguns minutos. Por fim, depois de fazer um sinal ao grupo que permanecia atento e a

curta distância, saiu de trás dos guardas um judeu de longa túnica branca de linho,

com um cinto de pano da mesma cor do qual pendia uma pequena caixa de fina

madeira. Impressionou-me seu nobre porte, tranqüilo e circunspecto. Devia estar

pela mesma idade de José: uns 60 anos. O recém-chegado saudou José de

Arimatéia com uma leve reverência e, introduzindo a mão na ampla manga direita

mostrou-lhe um rolo de pele de borrego, cuidadosamente atado por um

cordãozinho vermelho. José abriu-o e o leu atentamente. Sem poder resistir à

curiosidade, inclinei-me dissimuladamente sobre Davi, perguntando-lhe ao ouvido,

num sussurro, se podia adiantar-me uma explicação. Sem deixar de observar os

três homens, o Zebedeu disse-me que não tinha certeza.

– Talvez pretendam fechar a tumba...

Mas o chefe dos “mensageiros” estava equivocado. A intenção daqueles

homens ou, para ser mais preciso, do sumo sacerdote Caifás e dos saduceus que o

secundavam no “problema” chamado Jesus era muito mais sibilino...

José devolveu o pergaminho ao ancião e, dando meia-volta, encaminhou-se

para nós. Seu rosto, habitualmente tranqüilo, estava congestionado. Indicou-nos

com um gesto de mão que nos afastássemos para o lado, deixando livre o acesso

ao fosso, e, com um conciso e seco comentário, assim resumiu a situação:

– Ordem de registro...

– Mas, por quê? De quem?

José olhou para Davi e respondeu com um sorriso mordaz. Foi o Zebedeu quem

respondeu a si próprio, e corretamente, claro:

– Caifás! Esse bastardo!

A princípio, como meus companheiros, não compreendi o sentido de tal

registro. O sumo sacerdote havia sido informado pela própria patrulha judia da

desaparição do corpo e do não menos inquietante fenômeno das pedras rolando

por si mesmas. Que obscuras intenções podiam ocultar-se, portanto, atrás daquela

absurda ordem? Não tardaria a averiguar.

Os levitas cercaram por fim o acesso à cova e nós, em silêncio, permanecemos

de lado, atentos à desconcertante manobra. O capitão reclamou então a presença

dos elementos que não pareciam fazer parte do corpo de vigilantes do Templo.

Vestiam-se como a maioria dos am-ha-arez ou plebeus: túnicas gastas e de uma

cor indefinível debaixo da imundície. Um deles tinha a cabeça enfaixada à altura

das têmporas, o que lhe ocultava a orelha direita. Ao olhá-lo mais detidamente

pareceu-me reconhecer o servo do sumo sacerdote que havia provocado a

alteração nos arredores do horto do Getsêmani. Aquele sírio ou nabateu,123 que se

chamava Malco e a quem eu havia procurado em vão nas últimas horas do meu

primeiro “salto”, parecia bem recuperado do terrível golpe desferido por Pedro. Se

as circunstâncias não fossem tão rígidas, certamente eu teria tentado satisfazer

uma íntima curiosidade: examinar a orelha e o ombro direitos do servo. Mas não

podia senão dominar-me. “Quem sabe haverá uma terceira ocasião”, disse a mim mesmo. De qualquer forma, enquanto Eleazar, o capitão dos guardas, dava

instruções aos esfarrapados, pude esclarecer outro interessante dado. Aqueles

indivíduos não eram em realidade serviçais, no sentido que podemos atribuir hoje a

tal qualificativo. O ostensivo orifício no lóbulo da orelha direita do segundo

personagem revelava claramente que se tratava de escravos. Nesse caso, escravos

pagãos. (Procurarei, mais adiante, penetrar no tenebroso e pouco conhecido

mundo da escravatura em Israel no tempo de Cristo, à qual,

incompreensivelmente, Jesus não prestou excessiva atenção.)

O caso é que, para minha surpresa e desaponto, o chefe do Templo cedeu a

tocha a Malco e este, em companhia do segundo escravo e de três dos levitas de

túnicas verdes, desceu a escada e se dirigiu para a entrada do sepulcro. O capitão

ordenou que fossem recolhidos os mantos, os bastões e a marmita deixados pela

patrulha que havia estado de guarda na tumba; depois desceu e introduziu-se na

cripta. Pelo que pude ver, só os escravos e o chefe daquele novo pelotão entraram

no sepulcro. Este último, certamente, deslizou pela abertura com precauções que

me pareceram tão absurdas quanto excessivas. Os três levitas restantes

mantiveram-se diante da fachada, guardando o acesso ao interior.

A explicação para a quase teatral maneira como o capitão ingressou no

panteão – evitando por todos os meios roçar sequer a pedra circular que servia

para fechá-lo – foi-me dada por Davi, que, espontaneamente, relembrou uma

diatribe do Mestre:

– “Sepulcros caiados!”

Que quereria dizer o Zebedeu? Muito simples. A lei mosaica era estrita no que

se referia à contaminação pelo contato com cadáveres. Na Misná, por exemplo,

capítulo Ohalot124 lêem-se, entre outros, os seguintes preceitos, fundamentados no

livro de Números (19, 14): “A pedra circular que fecha a tumba” – reza o capítulo

11 – “e as pedras de apoio propagam impureza por contato e sob a tenda, ainda

que não por transporte...

“As seguintes coisas são puras se forem imperfeitas, quer dizer, se não

alcançarem a medida: como meia azeitona de um cadáver, como meia azeitona de

substância cadavérica putrefata, uma colherada de podridão, um quarto de log de

sangue (um log equivalia a 500 gramas), um osso do tamanho de um grão de

cevada, um membro de um ser vivo ao que falta o osso.

“Se uma pessoa toca um morto e depois alguns objetos, estes tornam-se

impuros. Se projeta sua sombra sobre um morto e depois a projeta sobre alguns

objetos, estes permanecem puros. Mas, se sua mão tiver uma extensão de um

palmo quadrado, os objetos tornam-se impuros...”

Todas essas medidas – que a princípio tiveram, sem dúvida, caráter higiênico-

sanitário – haviam sido distorcidas e manipuladas pelos doutores da Lei,

transformando-se, com o passar dos séculos, em um pesadelo. E ainda que a

maioria do povo desprezasse aquelas centenas de regras e absurdas prescrições

não acontecia o mesmo com os sacerdotes e certas castas, direta ou indiretamente vinculadas ao Templo ou à Lei. Esse era o caso do chefe de turno dos levitas. E

essa era a razão pela qual se haviam feito acompanhar de dois “desprezíveis

escravos pagãos” que não estavam obrigados ao ritual sobre “impurezas”. Como

teria ocasião de presenciar minutos mais tarde, aqueles “sepulcros caiados”

obedeciam às formalidades até o extremo de não tocar nos panos mortuários.

Malco e o outro pagão é que os manipularam. Foi até surpreendente que Eleazar se

houvesse dignado ultrapassar a porta da cripta. Mas suas ordens, aparentemente,

o obrigavam a tal “aberração religiosa”... Seguindo os costumes de Caifás, e dadas

as especiais circunstâncias, a Lei, nesse caso, havia sido acomodada aos

inconfessáveis interesses da hierarquia.

Em poucos minutos, com efeito, o “registro” foi ultimado. E vimos o capitão e

seus homens reaparecerem. O da orelha perfurada levava sob o braço um

envoltório. José reconheceu logo o lençol de linho que ele mesmo havia comprado

e que servira para o transporte e o provisório amortalhamento do corpo do rabi.

Enfurecido, saiu ao encontro do chefe da patrulha exigindo o lençol. Eleazar

interpôs-se bruscamente. Foram segundos de muita tensão. Davi levou a mão

esquerda ao punho da espada, mas antes que a arma deslizasse para fora da

bainha de madeira os levitas que nos cercavam encostaram os ferros de suas

lanças em nossos quadris e ventres.

Os protestos do ancião sinedrista foram estéreis. E os soldados, cumprida a

missão, dispuseram-se a abandonar o horto. Antes, aos empurrões e sob a

contínua ameaça das lanças, o horticultor, Davi e eu fôramos forçados a retirar-nos

para a vereda de saída da propriedade. Mas José, que não fugia das dificuldades,

voltou a enfrentar o capitão. E, apontando o velho da túnica de linho, lembrou-lhe

que aquela era uma propriedade sua e que eles tinham quando menos a obrigação

de lavrar ata do confisco. Eleazar, desorientado, esperou a resposta do rabi ou

escriba. Este, conhecido pelo nome de Johanan ben Zakkai, concordou

discretamente. O chefe do Templo cedeu e, a um sinal seu, os levitas nos

obrigaram a voltar à esplanada. Íamos servir de testemunha.

O servo que carregava as roupas atirou-as no chão e, após consultar Eleazar,

apressou-se a abri-las. Tanto o capitão como os esbirros retrocederam vários

passos, como que movidos por uma mola. E o ancião, depois de assegurar-se de

que sua sombra e as dos levitas não se projetavam sobre o pacote fúnebre, foi

sentar-se diante dele à maneira turca. Depois colocou a caixa retangular sobre as

coxas e, silenciosamente, recreando-se no que sem dúvida constituía todo um

cerimonial, começou a abri-la. Fiquei fascinado. Era uma espécie de módulo,

chapeado em madeira fina, com duas concavidades circulares em uma das

extremidades. Nelas, pelotas de tinta solidificada. Uma preta e outra vermelha.

Possivelmente fuligem e ocre, misturados com goma, e que se diluíam em água na

hora de usar. (Algo semelhante a nossa tinta nanquim, que permitia lavagem fácil

e, naturalmente, toda sorte de falsificações.) A massa avermelhada obtinha-se

também da sikra, um pó que resultava da moagem de cochonilhas e era aproveitado pelas hebréias como cosmético. No centro da caixa havia um terceiro

orifício no qual se acomodavam os utensílios próprios da escrita: os cálamos ou

pequenos juncos marítimos, que faziam as vezes de penas. Tinham sido recortados

obliquamente em uma das extremidades e, na outra, esmagados, com o que

podiam ser utilizados como pincéis.

Por último, em outra concavidade aberta na caixa, o escriba guardava uma

série de tabuinhas de madeira, muito delgadas, cobertas de cera. Junto delas havia

um estilete de osso. Uma das pontas formava uma espátula que deveria servir para

amassar a cera e assim desfazer a escritura e reaproveitar a tabuinha. A

extremidade oposta era afiada e pontiaguda.

O tal Zakkai tomou uma daquelas tabuinhas e, com a esquerda, dispôs-se a

perfurar a cobertura de cera. Deu o sinal com o estilete e o escravo foi erguendo

cada uma das peças mortuárias e mostrando-as aos presentes.

Da direita para a esquerda, em aramaico – o hebraico só era usado em

assuntos religiosos –, o rabi foi escrevendo sem pressa e com grandes letras:

“Um lenço... duas faixas para mãos e pés... e um lençol de linho de Palmira”.

Ao erguer parcialmente o longo lençol, todos, incluídos Davi e o de Arimatéia,

pudemos observar “algo” que, sobretudo para mim, nos surpreendeu. À clara luz da

manhã, entre os restos sanguinolentos, o sudário apresentava umas insólitas

“manchas” douradas, as que eu havia descoberto na cripta e que reproduziam

parte de uma figura humana. Ainda que breve, a exposição do pano permitiu-nos

distinguir as plantas de uns pés nus e a metade inferior de umas pernas. O incrível

“desenho” – no momento não pude defini-lo melhor – não passou despercebido a

Eleazar e ao escriba. Este, ao notar as “manchas”, permaneceu um instante com a

pena no ar, atônito. Davi Zebedeu olhou-me de soslaio, interrogando-me com uma

quase imperceptível elevação da cabeça. Eu me limitei a arquear as sobrancelhas,

dando-lhe a entender que também não tinha uma explicação para aquilo.

A abrupta reação do capitão foi muito significativa. Ao perceber que aquela

mortalha continha “muito mais” do que coágulos de sangue, simulou uma súbita

pressa, deu por concluído o protocolo e ordenou que o escravo refizesse o pacote. E

o rabi, após estampar seu selo ao pé de tão concisa “ata”, guardou o instrumental

e se levantou.

A partir daí, tudo se passou com rapidez. Os levitas nos provocaram com suas

armas e nos obrigaram a sair da propriedade, enquanto o resto do pelotão, com

Eleazar à frente, seguia-nos a curta distância. Transposta a cerca de madeira, os

soldados deixaram-nos em paz, unindo-se aos seus companheiros. José e Davi,

indignados pelo que consideravam uma violência, convidaram-me a acompanhá-los

até a casa de Elias Marcos. Hesitei. Aquela parte da missão não havia sido

concluída. Eu devia cuidar dos panos mortuários e levá-los para o “berço”. Mas

como? O servo que os levava não parecia disposto a perdê-los nem a entregá-los a

ninguém. Assim, desculpando-me, disse-lhes que nos veríamos mais tarde. Sem

mais palavras, meus amigos tomaram a direção da cidade. O horticultor perguntou ao chefe do Templo se podia voltar ao seu trabalho na plantação e, uma vez

autorizado, desapareceu igualmente pela vereda do horto. Minha obsessão era

apoderar-me do sudário. Mas a sorte não parecia estar ao meu lado. Que fazer?

 

Os entendimentos de Eleazar com sua gente foram brevíssimos. Eu precisava

manter os olhos bem abertos e seguir a pista do sudário. Não havia outra solução.

Assim, simulando um inexistente cansaço, deixei-me cair ao pé da paliçada,

sentindo a agradável e tépida carícia do Sol em meu rosto. Semicerrei os olhos,

lamentando não haver sido mais rápido e não haver-me já apossado da mortalha.

O Cavalo de Tróia, no planejamento desta segunda missão, havia sido categórico:

a análise daquela peça era vital para o nosso intento de esclarecer o hipotético

fenômeno que os cristãos chamam “ressurreição”. Em conseqüência, deveria eu

levá-la para o módulo a qualquer preço. Mas aquele pensamento foi rejeitado de

pronto. Já não havia remédio. Além disso, haveria ido contra o curso natural dos

acontecimentos que, em parte, eu havia presenciado. Um erro dessa natureza,

confiscando a mortalha antes do tempo, poderia ter alterado substancialmente os

fatos históricos, tal como os conhecemos. Se eu houvesse apanhado o sudário em

uma de minhas primeiras incursões no interior da cripta, o relato de João

Evangelista, por exemplo, não haveria sido o mesmo. Nem ele nem Simão Pedro,

depois da famosa corrida, teriam tido oportunidade de ver os panos e sua estranha

disposição sobre o banco de pedra. Minha responsabilidade, uma vez mais, era

muito grande. Tinha de esperar, tinha de aguardar o momento propício. Um

momento em que o pacote passasse a segundo plano, historicamente falando. Mas

quando e onde? E se as intenções do sumo sacerdote fossem de destruí-lo? De

Caifás e sua gente podia esperar-se qualquer coisa. Se o embrulho que o servo

levava terminasse em algum obscuro lugar de Jerusalém ou simplesmente fosse

incinerado, adeus nosso objetivo...

Mas talvez eu estivesse superestimando a agudeza daqueles esbirros. A julgar

pelo que haviam feito, não estavam convencidos nem um pouco de que os rumores

sobre a volta à vida do Galileu fossem verdadeiros.

A patrulha, congregada em torno de seu chefe, deu por terminado o “conclave”

e, enquanto o grosso dela punha-se em movimento em direção à muralha norte,

Eleazar, o escravo que tinha o envoltório funerário e dois dos arqueiros deram

meia-volta e se afastaram em sentido contrário ao da tropa. Então um raio de

esperança brilhou no meu coração. Qual seria sua intenção?

Nem sequer repararam em mim. Os quatro indivíduos cruzaram por aquele

maltrapilho e dorminhoco estrangeiro, contornando a cerca da propriedade em

direção ao nordeste e a grandes passadas. Vi-os desaparecerem no interior de uma

fileira de espessas algarobeiras carregadas de vistosas flores vermelhas. Foi uma

excelente referência.

Levantei-me rapidamente e, após assegurar-me de que o grosso dos levitas

prosseguia em seu caminho para a Porta dos Peixes, saltei a sebe da propriedade

situada diante da de José, procurando contornar o pequeno bosque de algarobeiras pela frente leste.

Não tive de caminhar muito. Em sua vertente oriental, a reduzida massa de

árvores aparecia cortada bruscamente por uma das muitas depressões dos

contrafortes das colinas e desfiladeiros de Beza’tha. Tratava-se de uma das mil

rampas rochosas de marga, tão freqüentes na tortuosa superfície da Judéia. Colei-

me ao pó vermelho do terreno e, oculto entre os matagais, vi o capitão e seus

homens na borda do precipício.

Eleazar apontou para o rochedo e o escravo, obedecendo à ordem, atirou o

envoltório ao fundo da escarpa. Cumprida a missão, afastaram-se pelo mesmo

caminho que haviam trilhado.

Aguardei alguns minutos. Tudo naquela remota paragem achava-se deserto e

silencioso. Verdadeiramente, o lugar em que se desfizeram da mortalha não podia

ser mais bem escolhido. A estrada mais próxima – a de Samaria – ficava muito

mais ao oeste e a escarpa dos penhascos a estava isolando de qualquer caminho

ou atalho. Quem podia aventurar-se por semelhante abismo?

Com todas as precauções fui-me aproximando do declive rochoso e não tardei

em distinguir meu objetivo. Havia ficado meio enganchado nos ramos novos de um

alcaparreiro silvestre. A verdade é que da borda do pequeno bosque não havia sido

muito difícil localizá-la. Qualquer hipotético observador teria visto sem dificuldade o

estranho pacote, salpicado por uma infinidade de manchas de sangue já

obscurecidas pelo passar das horas.

Estive tentado a desatar o envoltório e satisfazer minha ardente curiosidade.

Aquelas “manchas” de cor tostada me intrigavam demais. Mas é claro que o

momento e o lugar não eram os mais adequados. Haveria tempo para examinar os

panos e surpreender-me com seu “conteúdo”.

Rasguei meu imprestável manto e atei o farrapo a um tenro ramo do

alcaparreiro. Dessa forma, ainda que não me esquecesse do ponto exato da queda

dos panos mortuários, teria menos problemas quando os fosse repor no lugar em

que haviam sido ocultos e abandonados.

Os evangelistas omitem também esse caso. Talvez não o considerassem

importante. É possível que João, o único dos escritores sagrados que “viu” os panos

“arrumados”, não tivesse tido oportunidade de reparar nas misteriosas “manchas”.

Ou, se o fez, como em outros muitos capítulos da vida do Filho do Homem, não lhe

deu importância. Entretanto, em nossa opinião, como terei ocasião de demonstrar

mais adiante, os panos em questão – especialmente o lençol – teriam uma decisiva

importância quando se enfocasse o controvertido fenômeno da ressurreição. Refiro-

me, naturalmente, ao lado científico do tema, não ao da fé.

Como naturalmente já terá adivinhado o possível leitor dessas lembranças e

apressadas anotações, esse longo pano de linho que serviu para envolver o corpo

sem vida do Mestre tinha muito a ver com uma polêmica relíquia venerada no

século XX na cidade italiana de Turim. Como comentei, eu havia tido conhecimento

dela, mas não lhe dei a devida atenção. Como tantas outras relíquias dos cristãos, pareceu-me algo pouco sério do ponto de vista da ciência. Como estava

equivocado!

Sem poder conter minha alegria, comuniquei a Eliseu meu “achado”,

anunciando-lhe que partiria imediatamente para a “base-mãe” e com todas as

peças mortuárias.

Eram l0h45. Meu ingresso no módulo se daria com um apreciável atraso sobre o

programa previsto pelo Cavalo de Tróia. Um atraso que provocaria novas

frustrações a este péssimo explorador...

 

Sem nenhuma complacência, rasguei o linho de minha túnica, com o meu

“tesouro” oculto no flanco esquerdo. O Sol caminhava para o zênite. A passos

largos, tomando como referência a piscina das “cinco galerias” e o monumento ao

pisoeiro, no ângulo nordeste da muralha setentrional, fui desembocar na poeirenta

pista que corria pela garganta do Cedron e serpenteava pela falda ocidental do

monte das Oliveiras. Com o auxílio das “crótalos”, a localização do “berço” foi

extremamente simples. E às 11h15 dessa manhã do “domingo de glória”, exausto e

pleno de satisfação, voltava a abraçar meu irmão.

Não havia tempo a perder. Substituí minhas destruídas roupas por outra túnica

e roupão exatamente iguais, prendendo ao cinto uma segunda bolsa confeccionada

com uma estopa tosca, quadrada, de 25 centímetros de largura, que continha os

astrolábios assírios e os “quadrados” astrológicos egípcios, tudo isso em madeira

policromada. Eliseu, aparentemente recuperado de sua passageira indisposição,

não fez muitas perguntas. Ambos estávamos conscientes do grave atraso no

programa e do muito que havia por fazer naquela tensa e memorável jornada do

domingo, 9 de abril. Nem sequer me aborreci de ter de colocar novas pepitas de

ouro na bolsa de borracha. Os primitivos 163 gramas-ouro e os 100 denários, que

não havia tido tempo de trocar por moeda divisionária, continuavam sendo mais do

que suficientes para minhas necessidades. Depois de tudo, meu segundo e forçado

retorno ao módulo deveria dar-se em poucas horas. De acordo com o plano, uma

vez examinados, os panos deveriam ser devolvidos, intactos, claro, ao lugar onde

os apanhara.

Antes de abandonar a nave, e enquanto ajudava meu irmão na abertura da

mesa giratória de alumínio e aço inoxidável, especialmente desenhada para o

Cavalo de Tróia para a análise do grande lençol, Eliseu, consumido pela

curiosidade, não resistiu à tentação e me interrogou sobre um dos objetivos

fundamentais daquela primeira fase da operação: a suposta ressurreição do

Mestre. Não soube o que responder. E, apontando a impressionante figura que se

destacava sobre a suja e sanguinolenta mortalha, comentei:

– Talvez as análises “disto” lhe digam muito mais do que eu, por ora, poderia

adiantar-lhe.

Ao observar a “mancha” dourada – réplica fiel de um corpo deitado – meu

companheiro ficou perplexo.

– Isto...

A surpresa e a admiração de Eliseu eram justificadas. Como eu próprio, ele

também havia identificado a majestosa figura “impressa” no linho com a do Sudário

de Turim, a enigmática relíquia a que me referi.

– Você acha que se trata do mesmo?

Preferi não me pronunciar. A origem e a história do Santo Sudário são

Continuar: parte 5 de 8