Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 3 de 10 · parte 8/8

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Cavalo de Tróia 2: Massada

9 de abril, domingo ⠀愀渀漀 ㌀ )

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

escuridão sobre Jerusalém era completa...

Se um hipotético médium tivesse sido o responsável pela aparição, só me

cumpria felicitá-lo. Além de conseguir uma bela figura, com uma luminosidade que

transcendia os limitados conhecimentos da época, havia aperfeiçoado o seu

“trabalho” com uma voz... “Que saía de todas as partes.”

Devo, além de tudo, manifestar claramente que nunca acreditei nessas

espetaculares manifestações que os entendidos em parapsicologia denominam

“ectoplasmia”. (Segundo os especialistas como Geley, Crookes, Crawffor e outros, o

“ectoplasma” viria a ser uma substância nebulosa, esbranquiçada, com estrutura

fluida e filamentosa que alguns médiuns são capazes de expelir pela boca, ânus,

seios, ventre etc., quando dizem estar em transe. Esse ectoplasma aparece, às

vezes, em forma de estreita faixa serpenteante ou sob as mais diversas

configurações humanas ou de animais.)

E digo que não creio em tais embustes porque, embora efetivamente a mente

do homem desfrute de um poder tão extraordinário quanto pouco conhecido, de um

ponto de vista puramente científico não tem lógica que uma energia mental –

adimensional ou “espiritual” e submetida, portanto, ao indeterminismo quântico –

possa transformar-se em um “ente” dimensional e material; como seria o caso dos repugnantes “ectoplasmas”.

Não, essa explicação tinha de ser descartada.

Talvez durante algum tempo me inclinasse a pensar que tudo houvesse sido

fruto de alucinação coletiva. Mas de que tipo? A psiquiatria se esforça para

descrever umas tantas, como já me referi anteriormente. Estaria diante de uma

mescla de alucinação visual-auditiva? Estas últimas, as auditivas, ocorrem entre os

doentes psicóticos; em especial entre os esquizofrênicos. O indivíduo distingue com

nitidez “outras vozes”, quase sempre reprovatórias que o invadem, reforçando o

sistema delirante. Em outros casos, essas alucinações são agradáveis, aparecendo

em um quadro de delírio erótico ou místico. Em certas esquizofrenias, essas vozes

internas ou “externas” dão toda sorte de ordens, provocando, às vezes, situações

limite, que podem chegar ao suicídio ou ao homicídio.

Tampouco este era o caso. Das treze pessoas que ocupavam a sala naquele

momento, suponho que a maioria era bastante normal. Duvido que houvesse um

só esquizofrênico ou portador de delírios crônicos. Não havia, portanto, como

explicar a hipótese da alucinação auditiva.

Imerso em tais reflexões, adverti-me de outra penosa circunstância. Ergui-me

como impulsionado por uma mola.

“Maldição!” Não havia usado os sistemas eletrônicos da “vara de Moisés”!

Aquilo sim teria projetado luz sobre tão grande enigma. Como ser humano que sou,

justifiquei-me de imediato. Alguém já disse que “só os deuses não se justificam”...

“Foi impossível... como iria ligar os transdutores de hélio em semelhantes

circunstâncias?... Tudo foi tão inesperado e fulminante!... Nem sequer sabia onde

estava o cajado... Sem contar que o medo me paralisara...”

Para que continuar? Estava claro que havia fracassado. E registrei o fato... para

a ocasião seguinte, se é que haveria uma segunda oportunidade.

Meio erguido sobre o divã, reparei então em outro “detalhe” que quase havia

esquecido. Sim, ali continuava. Levantei-me devagar e, apanhando uma das

candeias, caminhei até a curvatura da mesa. No chão, esquecidas, estavam duas

taças de metal e uma das espadas. A memória não podia enganar-me. Aqueles

objetos, depois de chocarem-se entre si, haviam caído da mesa. Mas como?

Alguém os havia golpeado? Levantei os olhos, aproximando a lamparina da

penumbra que envolvia aquela área da sala. E tentei recordar. Achava-me na

extremidade esquerda do “U” (olhada sempre da porta). O “ser” formou-se

defronte à curvatura e a uma distância de metro e meio ou 2 metros. Curioso! Os

únicos objetos que se haviam deslocado e caído da mesa eram os que se achavam

nesse segmento do “U”. Outras duas taças, também metálicas, estavam

emborcadas na borda da mesa. Procurei não tocar em nada. E com o auxílio da

lamparina fui percorrendo toda a extensão do “U”. As espadas e os vasos do centro

e das extremidades continuavam de pé exatamente como antes “daquilo”.

E uma idéia – ou foi um pressentimento? – devolveu-me as esperanças. Nem

tudo parecia perdido...

O velho sistema da moeda deu resultado. Bem rapidamente, a não ser por uma

dor de cabeça, já me sentia em condições de recomeçar meu trabalho. Os

discípulos dormitavam esgotados por tantas e tão intensas emoções. As mulheres e

José se haviam retirado. Procurando não fazer muito ruído, pedi a um dos gêmeos

que destrancasse a porta. O ar fresco da noite reanimou-me definitivamente. O

fogo do pátio continuava aceso e junto às chamas distingui a robusta silhueta de

Simão Pedro. Junto a ele estavam o dono da casa e João Marcos. Dialogavam em

voz baixa e com invejável serenidade. Não me atrevi a interrompê-los. Deslizando

entre os jasmineiros, abri a conexão auditiva. No módulo não havia novidades.

Melhor dizendo, havia, sim, mas de ordem científica. Falarei delas a seu tempo.

Eliseu deu-me a hora: 22h45. Isso significava que eu havia permanecido

inconsciente por trinta minutos aproximadamente. Preferi ocultar-lhe o acidente da

parede e o até então inexplicável fenômeno do ser de luz. E por prevenção pedi-lhe

que me chamasse ao amanhecer.

De pé, com a cabeça meio escondida entre a ramagem, e concentrado na

transmissão, não percebi a sigilosa aproximação de João Marcos. Tocou

suavemente minhas costas, sobressaltando-me.

– Com quem estás falando? Que idioma é esse?

O rapaz devia ter escutado algumas de minhas últimas palavras – em inglês! –

e logicamente ficara curioso e surpreso.

– Eu rezava... – respondi um tanto pálido. – Eu sempre o faço – improvisei –

em um dialeto da minha terra natal, Tessalônica... É uma Koiné,140 que tu não

conheces. Aquele pequeno incidente serviu-nos igualmente de lição. Ainda que meu

irmão e eu costumássemos dialogar em Koiné ou aramaico galileu –

fundamentalmente com o propósito de praticar –, a partir de então, tanto as

conexões auditivas quanto as conversações diretas, dentro e fora do “berço”, foram

executadas nos idiomas do tempo e do lugar em que nos encontrávamos.

Antes de reunir-me com Simão Pedro e Elias Marcos, o benjamim, ruborizado,

insinuou que também ele tinha uma coisa para mim. Fiquei intrigado. Que lhe teria

ocorrido agora?

Ele ergueu até meus olhos um saquinho de pano descolorido, e o fez oscilar

suavemente sobre o cordãozinho branco e imaculado que o fechava.

– O que é?

– Uma coisa poderosa e secreta – respondeu em tom misterioso.

Aguardei uma explicação. Antes, porém, fez um sinal para que me inclinasse.

Depois, passou a laçada sobre minha cabeça e o saquinho, de apenas 5

centímetros de comprimento, ficou pendente sobre o meu peito.

– Isto te livrará das febres terçãs e dos espíritos malignos que espreitam sob as

sombras dos alcaparreiros, das figueiras e das sorveiras rasteiras. Mas olho vivo!

Não te servirá se caíres sob a sombra de um barco...

– E que é que pode ocorrer-me se eu “cair” sob a sombra de um barco?

O menino arregalou seus grandes olhos negros, olhando para mim como se estivesse diante dele um perfeito cretino.

– Corres o risco de ver o diabo!

Fiz esforços para não soltar uma gargalhada. A superstição entre aquela gente

era tão rica quanto arraigada. Até o extremo de o Talmud dedicar amplas

passagens a tais questões e às formas de combater as influências malignas.

Apalpei o conteúdo do “amuleto” e agradeci-lhe efusivamente, ao mesmo

tempo que me desculpava pela ignorância.

– Como estrangeiro – disse-lhe –, ainda não estou familiarizado com esses

graves perigos.

Segundo o benjamim, seu presente continha os seguintes e “mágicos”

ingredientes: “Sete espinhos de sete palmeiras; sete aparas de sete vigas; sete

cravos de sete pontes; sete cinzas de sete chifres e sete pêlos de sete cães

velhos”.

– Ah! – exclamei aliviado!

E sem mais demora nos unimos a Simão Pedro e ao anfitrião. No transcurso da

conversa, tive conhecimento do que havia sentido o pescador momentos antes da

aparição. E também fui informado das últimas decisões do grupo apostólico.

Ninguém abandonaria Jerusalém. Na manhã seguinte, dois dos discípulos, seguindo

a recomendação do Ressuscitado em sua última materialização, se dirigiriam a

Betânia em busca de Tomé. E tentariam convencê-lo a deixar seu isolamento e a

unir-se ao grupo. Uma vez conseguida a reunificação dos onze, partiriam para o

norte, ou seja, para a Galiléia. Eu nada disse, naturalmente, mas supus que essa

tentativa de convencer e atrair o renitente Tomé tropeçaria em sérios

inconvenientes. Segundo o Evangelho de João, oito dias depois daquele

“fenômeno” – chamemo-lo aparição – registrado no cenáculo, os onze, por fim,

conseguiram realizar seu desejo de definitiva união. Eles não podiam sabê-lo, mas

essa seria a segunda aparição de Jesus aos discípulos. Uma aparição, claro, que eu

não pensava perder e da qual, gostosamente, extrairíamos várias e insuspeitadas

conclusões. Por certo, e ainda que careça de importância, não consigo entender por

que razão três dos quatro evangelistas omitiram em seus escritos essa nona e

última aparição do Mestre naquela histórica jornada do chamado “Domingo da

Ressurreição”. Apenas João fala dela e confundindo palavras e gestos do Filho do

Homem que correspondem à segunda presença no cenáculo, com Tomé incluído.

Mas não quero precipitar-me. Falarei dessa aparição, acontecida no domingo

seguinte, 16 de abril, no momento preciso, e não será difícil notar que foi

igualmente “manipulada”, com a incorporação de frases que Cristo jamais

pronunciou e que, no tema da confissão dos pecados, acabariam por cristalizar-se

em outra “fórmula” tão mágica quanto falsa...

 

A casa de Elias Marcos, conquanto fosse sóbria, apresentava influências

helênicas e românicas, com detalhes que me surpreenderam pelo refinamento.

Avançava a madrugada quando decidimos recolher-nos. Eu, na verdade, estava

esgotado. Simão Pedro, que parecia transformado, despediu-se de Elias e de mim com muitos beijos de paz. O homem não havia esquecido minhas palavras de

consolo e meu precário exame como “médico”.

A princípio, obcecado com a idéia de não causar incômodos, sugeri a meu

anfitrião que podia descansar junto ao fogão. Meu manto havia servido já em

funções semelhantes. Elias não aprovou. E, resmungando diante das “loucas idéias

daquele pagão”, obrigou-me a entrar pela porta pela qual eu havia visto aparecer e

desaparecer Maria em minha primeira visita à mansão.

Encontrei-me diante de um longo corredor, estreito e alto, iluminado em suas

extremidades por candeias pendentes das paredes ladrilhadas. Elias apanhou a que

estava junto à entrada e convidou-me a segui-lo. Àquela hora – deviam ser 3 da

madrugada, pouco mais ou menos – a casa dormia pacificamente. Em vinte passos

percorremos o corredor de lajes de argila cozida, detendo-nos diante da última das

cinco portas que contei na parede esquerda. No lado oposto, frente a frente,

abriam-se outras portas de escura madeira de carvalho, cuidadosamente polidas

com alguma espécie de verniz.

Marcos, por sinais, me recomendou que ficasse com a lâmpada de azeite. E,

apanhando o grosso molho de chaves que pendia de seu pescoço, procurou a

apropriada. Na terceira ou quarta tentativa, a fechadura rangeu e meu amigo

empurrou a porta e entrou no aposento. Mostrou-me o lugar e, antes de retirar-se,

me indicou o cômodo situado em frente, esclarecendo que ali poderia lavar-me. E,

com um cortês “a paz seja contigo”, fechou a porta atrás de si.

O pequeno aposento, sem janelas, era extremamente simples. Ergui o

candeeiro de bronze e os sete pequenos pavios projetaram serpenteantes sombras

sobre os móveis: uma arca de carvalho, uma cama alta e, evidentemente, exígua

para meu metro e 80 de estatura, um grande jarro de barro com um esplêndido e

perfumado ramo de brancos jasmins e, também sobre a arca, uma bandeja

cuidadosamente coberta por uma gaze. Ao destampá-la, adivinhei a mão de Maria,

a dona da casa. Sorri agradecido. Junto a uma jarrinha repleta de geléia doce

encontrei uma vasilha com figos secos e nozes descascadas, cercadas por um mel

quase negro, que brilhou como um diamante à chama da candeia.

A cama era soberba. Havia sido feita à base de uma madeira branca, de pinho,

formando uma parelha de felinos, desmesuradamente estirados, cujas cabeças

constituíam os pés. Não havia colchão. Em seu lugar, sobre um trançado de lona,

três mantas de lã esponjosa e vários coxins de pluma. A “almofada”, para minha

desgraça, era um travesseiro de alabastro.

Apenas por cortesia provei as nozes, abstendo-me da geléia. As condições

higiênicas da casa e da família eram muito elogiáveis, mas as normas da missão,

nesse aspecto, eram rígidas. Rendido, deixei-me cair sobre a cama, depois de

apagar seis dos sete pavios de linho. E um doce aroma de azeite de oliva, típico

das casas judias, foi invadindo o quarto, facilitando-me um plácido e reparador

sono.

Às 5h42, pontual como sempre, Eliseu devolveu-me à realidade.

– Está alvorecendo – anunciou-me eufórico. – A temperatura desceu um pouco.

Os sensores externos marcam 8 graus Celsius. Pela leitura do anemocinemógrafo

deduzo que temos um cadim (vento do leste). O tubo de Pitot assinala rajadas de

até 30 nós. O céu continua limpo, com uma visibilidade praticamente ilimitada.

Pelo meio da manhã, terei concluído as análises. Isto é incrível, Jasão! Espero você

para o chá. Câmbio...

Agradeci a informação e a piada. E prometi retomar à “base-mãe” o mais

rapidamente possível para recolher os panos mortuários. Antes devia cumprir o

pacto feito com Civílis, o comandante da Fortaleza Antônia. Ali pela hora terça

falaríamos com o procurador. A entrevista poderia trazer benefícios para ambas as

partes. Em nossa longa permanência nas altas terras do norte, na Galiléia, todo o

apoio oficial seria pouco. E, quanto ao supersticioso Pôncio, o que eu tinha em

mente o encheria de admiração.

Estive a ponto de passar ao largo. Mas a curiosidade foi mais forte. Durante o

primeiro “salto”, as numerosas entradas no “berço” aliviaram minhas necessidades

fisiológicas. Nessa segunda exploração – e não falemos na “terceira” (e nem Eliseu

e eu podíamos prever então) – a coisa foi diferente. Eu carecia do dispositivo para

a eliminação das fezes141 e, obviamente, tive de evacuar nos lugares mais

estranhos e, às vezes, em circunstâncias comprometedoras... O caso é que, ao

empurrar a porta situada defronte ao quarto, vim a descobrir o que aquela gente

com tanto pudor quanto eufemismo chamava de “lugar secreto”.

O cômodo, de uns 5 por 5 metros, achava-se forrado e pavimentado com placas

de mármore númida de finíssimos veios negros. Só o teto não tinha revestimento;

era revestido em gesso e com três grossas vigas de sólido carvalho de Bacá. À

direita da porta, ao longo da parede, abria-se uma espaçosa banheira, quase uma

piscina; a 1 metro e meio do nível do solo, alguns degraus muito íngremes forrados

como o resto do cômodo com esteiras facilitavam o acesso à banheira. No extremo

oposto, no ângulo esquerdo, a pavimentação havia sido perfurada. Aproximei-me

curioso. Era um pequeno poço de uns 30 centímetros de diâmetro que se

comunicava, pelo que pude deduzir, com um sistema de encanamentos de esgoto,

já existente então no Templo e nas áreas adjacentes do bairro baixo. A latrina –

porque disso é que se tratava – era rodeada por um estrado de madeira quadrado

de quase 50 centímetros de largura, que se elevava ligeiramente sobre o mármore.

Bem próximo à mão, como se diz, em uma canastrazinha de fibra de palmeira,

amontoavam-se várias esponjas. Estas, juntamente com a água depositada nas

tinas que se alinhavam na parede, deviam constituir os utensílios de higiene após a

evacuação.

Um grande armário e uma série de prateleiras suspensas da parede

completavam o recinto. Naqueles vãos, em perfeita ordem, o usuário do “quarto de

asseio” podia encontrar de tudo: desde “barrinhas” de natrão, que faziam as vezes

de nosso sabonete, até pedra pomes e uma infinidade de frasquinhos de vidro e

cerâmica, com peças de cutelaria e perfumes: puche para as sobrancelhas e cílios a que os romanos chamavam stibium (uma substância de cor azul escuro à base de

chumbo); folha de al-kenna, que produz uma cinza de uma tonalidade amarela

escura e que servia às mulheres para tingir as unhas e as palmas das mãos; sikra

para os lábios e faces; macerações de lírios em azeite; ônix, chamado também

“unha perfumada”; nardo e o não menos fresco e fragrante perfume de cinamomo

e bálsamo de Jericó. Além disso, pentes de madeira e osso, colheres, espátulas e

paletas de marfim para colocar os instrumentos e vários espelhos redondos de

metal polido, com cabos de madeira primorosamente lavrada.

As afiadas e largas facas que deviam servir ao dono da casa para aparar barba

e cabelo mal ocupavam espaço entre semelhante arsenal feminino. Como em

nossos dias, a “invasão” das mulheres de então nos banheiros era algo assumido

resignadamente pelos homens...

Mas o que mais me chamou a atenção naquele “lugar secreto” foi um pequeno

cartaz pendente de uma das paredes. Mais ou menos dizia o seguinte: “Quanto

mais permaneças aqui, mais longa será tua vida”. Minutos mais tarde, ao

cumprimentar Elias, interroguei-o sobre aquela legenda. E ele, sorrindo

zombeteiramente, assegurou-me que era um adágio extraído do Talmud.

– O berakoth (LV) – acrescentou um tom de troça – conta, até, que o velho rabi

chegava a deter-se até 24 vezes em outros tantos lugares secretos, no caminho

entre sua casa e a escola em que ensinava.

Após lavar-me um pouco e purificar meu hálito com um dos dentifrícios de uso

comum na época, uma pimenta cheirosa que se mastigava como os grãos de anis,

examinei minha fronte. O hematoma havia baixado consideravelmente.

E, com um prudente otimismo, depois de lançar um último olhar àquele

“banheiro de luxo”, fui para o pátio.

As trombetas dos levitas haviam anunciado já o novo dia. E, como também era

habitual, a dona da casa e a criadagem fazia tempo que lidavam na casa. Entre

canções, a moenda do trigo foi chegando ao fim. Maria Marcos suspendeu a faina e

examinou-me a fronte. Devolvi-lhe o denário e o lenço e ela, esfregando as mãos

com satisfação, retomou à prancha abaulada na qual se coziam as apetitosas tortas

de flor de farinha.

Havia tempo de sobra. Assim, com imenso prazer, aceitei uma fervente caneca

de leite de cabra e acomodei-me junto ao fogo. A manhã, como dissera Eliseu,

estava fria.

Revisei minha aparência, examinei a bolsa com os “quadrados astrológicos” e,

após longa reflexão sobre o acontecido no dia anterior, despedi-me da família com

elogios e agradecimentos à sua hospitalidade. Como eu supunha, se passariam

alguns dias até que pudesse reunir-me com eles novamente. Maria fez-me

prometer que não abandonaria Jerusalém sem antes passar pela sua casa e

dedicar umas horas a falar de minha família. Minha família? Os homens como eu –

sempre sós, permanentemente descontentes e atormentados – não conhecem

outra família que o suplício da solidão. Mas como explicá-lo?

Elias abraçou-me como a um irmão e com um “até logo” lancei-me às já

movimentadas ruas da Cidade Santa.

O cadim, com efeito, forte, frio e seco, açoitava Jerusalém. O ar e o céu eram

um cristal. Protegi-me com o manto e, após comunicar ao módulo que me dirigia

ao quartel-general romano, e que talvez necessitasse dos serviços do Papai Noel,

empreendi a marcha para a Porta dos Peixes.

A nova e luminosa segunda-feira, ainda que um pouco mais sossegada que o

domingo, seria igualmente rica em surpresas e experiências.

 

102 Como os Apolo, nosso módulo foi programado para utilizar dois tipos de procedimento de navegação e direção: o inercial e

o de orientação óptica. O primeiro, baseado em uma plataforma orientável situada em uma posição constante, quaisquer que

fossem os movimentos da nave, graças a três giroscópios. As estrelas e o horizonte serviam como sistemas de referência.

Três dispositivos sensíveis à aceleração mediam as mudanças de posição. Estes parâmetros eram transferidos a Papai Noel

que, após compará-los com os correspondentes aos da trajetória de vôo programada, efetuava as correções oportunas. Todo

desvio desencadeava um impulso elétrico que disparava os propulsores do controle, com o objetivo de modificar a trajetória.

Certamente podíamos desconectar esse sistema automático e utilizar os comandos manuais. (N. do M.)

103 Dar pegeons, em linguagem aeronáutica, fornecer o rumo e a distância. 10 graus: rumo nordeste. O ponto Gedi

correspondia à zona localizada às margens do mar Morto: o oásis de Ein Gedi, situado a 15,6 quilômetros da vertical da

Massada. (N. do M.)

104 Os especialistas em engenharia aeronáutica e geofísica do Cavalo de Tróia haviam preparado para nossa missão uns

altímetros que algum dia, quando forem conhecidos pela navegação comercial, substituirão os atuais procedimentos de

medição da altitude de vôo de uma aeronave. Esses altímetros especiais utilizam medidas que avaliam a altura em função do

valor de “g” (constante da aceleração da gravidade). O valor de “g”, como se sabe, varia de acordo com a distância do ponto

em que se mede e o centro do planeta. Assim, enquanto na superfície da Terra “g” equivale a 9,8 m/seg2, um astronauta que

suba em um foguete a velocidade constante perceberá uma paulatina redução do valor inicial de “g”, que será avaliado como

uma perda de peso.

Ainda que eu não esteja autorizado a revelar todos os detalhes dessa nova tecnologia, oferecerei algumas de suas principais

características. Para começar, direi que o volume de tais altímetros foi reduzido a uns poucos milímetros cúbicos,

conseguindo, além disso, uma precisão equivalente a 1 centésimo de milésimo de gal. O volume total do instrumento não

alcança os 29 mm3. Quase todos os seus elementos acham-se integrados em um minúsculo cristal de boro (isótopo estável de

peso atômico 11). Eis aqui um sucinto esquema de seu funcionamento: a célula básica é formada por um espaço cilíndrico, de

9 micra de calibre, perfurada verticalmente em um módulo miniaturizado de boro cristalizado, quimicamente puro e

desidratado. O interior do recinto cilíndrico capilar não contém uma só molécula de gás e suas paredes mantêm-se fortemente

polarizadas com carga eletrostática negativa.

Na área superior, um espaço esférico termestável, contém uma quantidade infinitesimal de gás rarefeito, formado por moléculas

ionizadas de tiocianato de mercúrio com cargas negativas. Uma célula discriminadora seleciona seqüencialmente moléculas

isoladas de tiocianato, liberando-as na extremidade superior do capilar. Abandonada a molécula com um nível de energia

cinética nulo, esta inicia um processo de queda livre no interior do capilar, cujo eixo se mantém vertical e tangente às linhas de

força do campo gravitacional. A molécula não chega nunca a aderir às paredes do capilar, devido à força de repulsão que o

campo eletrostático gerado pela distribuição de carga negativa exerce sobre a própria molécula, ionizada também

negativamente.

Em outro espaço esférico escavado também em cristal de boro – um dipolo magnético (lâmina elíptica “microscópica” formada

por uma liga de cromo e ferro) –, é obrigado a girar com velocidade angular constante de uns 60 radianos por segundo. O

dipolo encontra-se em suspensão em uma massa líquida que recheia a cavidade (diâmetro: 0,74 mm. Emulsão lipídia).

Consegue-se assim um campo magnético rotatório muito débil, mas suficiente para ser detectado por um transdutor de

bismuto (valor do campo H: 0,00002 oersted).

Quando a molécula de tiocianato de mercúrio ionizado desce, gera, por sua vez, um débil campo magnético que perturba o

campo rotatório gerado pelo dipolo anterior. Essa perturbação é função da velocidade momentânea da molécula em análise,

em cada ponto de seu percurso. Mas a velocidade molecular momentânea, por sua vez, dependerá do valor de “g”. Tal

perturbação é detectada e avaliada, ainda que seu nível diferencial seja da ordem de 1 trilionésimo de milioersted.

Um minicomputador recebe três canais de informação:

1. Informação, por via elétrica, do campo magnético detectado. 2. Informação, por via óptica (filamento vítreo), sobre velocidade de rotação do dipolo.

3. Informação, por via elétrica, sobre acelerações do veículo sobre o qual se assenta o altímetro gravitacional. Esta última informação é muito importante para neutralizar os erros devidos a outras forças atuantes sobre a molécula de

tiocianato, discriminando-se das gravitacionais. O computador de integração fornece diretamente por canal informação sobre

a altura. (N. do M.)

105 O SMAC (Scene Matching Area Correlation), sistema utilizado nas tristemente famosas bombas ou mísseis “inteligentes”,

consiste em um dispositivo que regula a trajetória do artefato, com base nas sucessivas imagens do solo, comparando-as com

as previamente armazenadas no computador e que podem ser tomadas por aviões de reconhecimento ou satélites artificiais,

mediante a técnica de varredura televisual. Dessa forma o projétil vai lendo o terreno sobre o qual voa, evitando os

obstáculos. (N. do M.)

106 Segundo o eminente professor Seyle – grande estudioso da origem dos estados de tensão ou estresse –, seus estímulos ou

causas principais, que ele chamou “noxa”, acham-se muito interligados. A “noxa” sumariamente, atua assim: estimula as

glândulas endócrinas, ativando as supra-renais e o sistema adrenossimpático; as endócrinas enviam ao sangue

glucocorticóides e, em seguida, quantidades adicionais de adrenalina e noradrenalina. (N. do M.)

107 Creio já haver falado desta segunda “pele”, de grande utilidade em minhas correrias. Por aspersão, o corpo era pulverizado

com uma substância que formava uma fina película. O elemento básico era um composto de silício em dissolução coloidal em

produto volátil. Ao ser esparzido sobre a pele, este líquido evapora rapidamente o diluente e a cobre de uma delgada camada

porosa de natureza eletrostática. Essa epiderme artificial e milimétrica protegeria o explorador de possíveis ataques

bacteriológicos e mecânicos, suportando, por exemplo, impactos equivalentes ao disparo de uma bala (calibre 22 americano) a

uma distância de 6 metros. Este eficaz “traje” protetor não inibia, ademais, o processo natural de transpiração. (N. do M.)

108 O famoso “Domingo de Ramos” o comprovou. O talith ou manto judeu desempenhava um papel tão vital naquela

sociedade que a Lei – Êxodo, XXII, 26, e Deuteronômio, XXIV, 12 – obrigava o credor que o houvesse recebido em garantia

de uma dívida a devolvê-lo a seu dono antes de cair a tarde. (N. do M.)

109 Como se sabe, os pés constituem uma das partes mais sensíveis às baixas temperaturas. Num ambiente de 23 °C, por

exemplo, só alcançam 25 °C. As mãos, pelo contrário, podem manter uma média de 30. Ainda que abril já não seja um mês

rigoroso na Palestina, o Cavalo de Tróia preferiu anexar esse sistema, na previsão de possíveis mudanças climáticas. (N. do

M.)

110 Como também expliquei, embora não pudesse receber a voz de Eliseu diretamente, minhas chamadas ao módulo, em

contra partida, exigiam que eu pressionasse previamente a parte externa do meu ouvido direito para ativar a cápsula acústica.

Para evitar suspeita entre os habitantes de Jerusalém e arredores, o Cavalo de Tróia havia estabelecido que eu fingisse uma

leve surdez. (N. do M.)

111 No mercado de câmbio, aqueles 163 gramas de ouro equivaliam a uns 379 denários. Devo lembrar que o preço de um par

de pássaros era um asse. Por sua vez, 4 denários de prata ou dracmas representavam um shekel de prata. Um denário

subdividia-se em 16 asses ou 64 quadrantes ou 128 leptas. O denário romano tinha então um sério competidor: o zuz, uma

peça de prata de valor igual e cunhada pelos banqueiros fenícios de Tiro. (N. do M.)

112 Ampla informação sobre as “crótalos” em Cavalo de Tróia 1, página 361-2. (N. de J. J. Benítez.)

113 Um dos dispositivos localizados no interior do cajado – o de ondas ultra-sônicas, de natureza mecânica, e cuja

freqüência se encontra acima dos limites da audição humana (superior aos 81 mil hertz) – havia sido modificado

com vistas a essa nova missão. O Cavalo de Tróia proibia terminantemente que seus “exploradores” ferissem

ou matassem os indivíduos objeto de suas observações. O código moral, como eu já disse, era estrito. Mas, na

previsão de possíveis ataques de animais ou homens, e como meio dissuasório e inofensivo, Curtiss havia

aceitado que os ciclos das ondas fossem intensificados para cima dos 21 mil hertz. Em caso de necessidade –

como vimos – o uso dos ultra-sons poderia resolver situações perigosas, sem que ninguém chegasse a perceber

o sistema utilizado. Como expliquei também, tanto os mecanismos de “teletermografia” como os de ultra-sons

eram alimentados por um microcomputador nuclear, estrategicamente alojado na base do bastão. A “cabeça

emissora”, disposta a 1,70 metro da base da “vara”, era acionada por um cravo de larga cabeça de cobre,

trabalhado – como tudo mais – de acordo com as antiqüíssimas técnicas metalúrgicas descobertas por Glueck no

vale do Arabá, ao sul do mar Morto, e em Esyon-Gueber, o legendário porto de Salomão no mar Vermelho. Os

ultra-sons, por suas características e sua natureza inócua, eram idôneos para a exploração do interior do corpo

humano. Com base no efeito piezelétrico, o Cavalo de Tróia dispôs na cabeça emissora, camuflada sob uma

faixa negra, uma placa de cristal piezelétrico, formada por titanato de bário. Um gerador de alta freqüência

alimentava a placa, produzindo assim as ondas ultra-sônicas. Com intensidades que oscilam entre 2,5 e 2,8

miliwatts por centímetro quadrado e com freqüências próximas a 2,25 megaciclos, o dispositivo de ultra-som

transforma as ondas iniciais em outras audíveis, mediante uma completa rede de amplificadores, controles de

sensibilidade, moduladores e filtros de faixas. Para evitar o árduo problema do ar – inimigo dos ultra-sons –, os

especialistas idealizaram um sistema capaz de “encarcerar” e guiar os ultra-sons através de um finíssimo

“cilindro” ou conjunto de tubos de luz laser de baixa energia, cujo fluxo de elétrons livres ficava “congelado” no

instante da sua emissão. Ao conservar uma longitude de onda superior a 8 mil angströns (0,8 micra), o “tubo”

laser continua desfrutando a propriedade essencial do infravermelho, com o que só podia ser visto mediante o

uso de lentes especiais de contato (“crótalos”). Dessa forma, as ondas ultra-sônicas podiam deslizar pelo interior

do “cilindro” ou “túnel” formado pela “luz sólida ou coerente”, podendo ser lançadas a distâncias que oscilavam

entre 5 e 25 metros. O apelido de “crótalos” devia-se à semelhança com o sistema de que é dotado esse tipo

de serpente. Suas fossas “infravermelhas” permitem-lhe a caça de suas vítimas através das emissões de

radiação infravermelha dos corpos das presas. Qualquer corpo cuja temperatura seja superior ao zero absoluto

(-273 °C), emite energia do tipo infravermelho. Essas emissões de raios infravermelhos, invisíveis para o olho

humano, são provocadas pelas oscilações atômicas no interior das moléculas e, em conseqüência, acham-se

extremamente ligadas à temperatura de cada corpo. (N. do M.)

114 O historiador judeu-romano Flávio Josefo assegura em seu livro A Guerra dos Judeus (livro sexto) – que três

dessas torres tinham 50 côvados (uns 22,50 metros) de altura e a quarta, que se achava encostada ao muro

norte do Templo, 70 côvados (ao redor de 31,50 metros). Aquele “castelo”, sede dos procuradores romanos

durante as grandes solenidades, tinha forma retangular, com uns 100 metros de comprimento por 50 de

largura. Era rodeado por um muro ou parapeito exterior de metro e meio de altura e por um fosso de 22,50

metros, mandado escavar por Herodes, o Grande, quando ordenou a reedificação da antiga fortaleza macabéia

a que deu o nome de Antônia, em homenagem a seu protetor, Marco Antônio. Os alicerces do castelo eram

uma gigantesca penha, lisa no cimo e nas paredes. Herodes, na previsão de possíveis ataques, havia recoberto

as paredes com pranchas de ferro. Da Antônia, umas escadas conduziam ao Átrio dos Gentios, facilitando assim

o acesso da guarnição ao Templo. No centro, como ficou detalhado, abria-se um pátio lajeado, com um tanque

central dedicado à deusa Roma. (N. do M.)

115 A divisão das horas durante a noite era mais vaga ainda do que durante o dia. Nos tempos de Jesus, tanto judeus como

romanos “dividiam” a noite em “vigílias”: quatro no total. O nome estava associado às horas que a sentinela permanecia

vigiando ou o pastor apascentando seu rebanho. Cada uma somava três horas, aproximadamente. Começavam com o ocaso e

finalizavam com a “vigília da manhã”, quando o horizonte se iluminava com os primeiros raios. (N. do M.)

116 Segundo a informação acumulada no computador central, textos rabínicos como o Middot (III, 2), Pesahim (V, 8), Me’ila

(III, 3), Tamid (IV, 1) e Yoma (V, 6 e 8), entre outros, descrevem estes canais de desaguamento, assim como o uso que se

dava ao sangue. Os horticultores, por exemplo, compravam o sangue aos tesoureiros do Templo e quem o aproveitasse sem

pagar cometia um roubo contra o Santuário. O Talmud babilônico (em Pesahim, 65b) diz: “O orgulho dos filhos de Arão

consistia em andar pelo sangue ‘das vítimas’ até os tornozelos”. A quantidade de sangue no átrio dos sacerdotes era,

portanto, muito considerável. (N. do M.)

117 Os castigos do Exército romano achavam-se muito bem tipificados. Desde a época do manípulo, as infrações podiam

dividir-se em delitos comuns e de caráter militar. Políbio, por exemplo, fala disso em VI 37,9-10. Eram “comuns” os roubos no

acampamento, o falso testemunho, os delitos contra os bons costumes, e um longo et cetera. Entre os delitos “militares”

estavam: a covardia, o falseamento dos fatos, abandono de armamento ou da guarda e rebelião, sedição ou deserção. Essas

faltas conduziam inexoravelmente à morte. As penas, ademais, podiam classificar-se em individuais ou coletivas e, desse

outro ponto de vista, em infamantes e corporais. Os soldados eram geralmente apaleados e os oficiais executados com a acha

do lictor. As penas pecuniárias individuais eram: retenção de soldo, garantida ocasionalmente com o embargo (ver Políbio, VI

37,8), e desconto na participação em produtos de saque e na pensão de aposentadoria. Entre os castigos infamantes estavam

a degradação, a expulsão das fileiras e os chamados “Ignomínia”. Eram impostos pelo general e publicados na contio.

Incluíam, ademais, a redução do soldo e dos direitos passivos. Entre os castigos coletivos, o mais grave era “decimar” a

unidade, como citam Suetônio, Dion Cássio, Tácito e outros. Impunha-se por fuga desonrosa, sedição ou rebelião. Uma

décima parte dos soldados, designada por sorteio, submetia-se à morte por apaleamento. Os demais eram racionados à base

de cevada – em lugar de trigo – e, em caso de guerra, obrigados a pernoitar fora do acampamento ou fortaleza. Entre as

circunstâncias qualificadoras da responsabilidade tinha especial relevo a reincidência. Se era dupla, determinava a pena

capital para qualquer infração (Políbio, VI, 37,9). (N. do M.)

118 Hipoplásico: de queixo recortado e de desenvolvimento claramente incompleto. Dentro da tipologia de Kretschmer, Maria

Madalena se enquadraria, em boa medida, no biótipo dos “leptossômicos”, tipos de silhueta alongada, magros, nos quais o eixo

vertical do corpo domina poderosamente. Só seu nariz, reto e retraído, não correspondia ao perfil típico dessa classificação

humana. Sua pele, pálida e seca, seus ombros estreitos e longos membros, ao contrário, eram habituais entre os

“leptossômicos”. (N. do M.)

119 Magdala, às margens do lago da Galiléia, é hoje conhecida como El-Megdel. Antigamente foi famosa por suas tinturarias,

seu mercado de pombas e pombinhas e por seus bordéis. (N. do M.)

120 Chuza ou Cusa: aparentemente, um dos administradores ou superintendentes da Casa de Herodes. Tanto Joana como

Susana, segundo o evangelista Lucas (8, 1-3), foram curadas por Jesus de Nazaré e desde então o acompanhavam. (N. do

M.)

121 O sotaque dos galileus, como vimos no incidente das negações de Pedro, era tão acentuado que, por exemplo, uma palavra

tão comum como cordeiro (immar) podia ser confundida com hamar (vinho) ou com hamor (asno). Essa circunstância e os

costumes mais liberais da Galiléia, ou Guelil, como a denominavam os israelitas do sul, haviam feito com que os conterrâneos

do Nazareno fossem desprezados e discriminados e suas terras batizadas com o apelido de guelil-a-goyim ou “o círculo dos

pagãos”. Mas dessas interessantes diferenças entre os judeus falarei mais adiante. (N. do M.)

122 Os chefes do Templo desfrutavam de uma grande consideração. Além da supervisão do culto administravam tudo quanto

se referia à segurança e trabalhos policiais desempenhados pelos levitas. No ano 66, por exemplo, outro Eleazar chegou a

ordenar a supressão do sacrifício em honra ao imperador de Roma. Foi o começo da insurreição. (N. do M.)

123 O nome de Malco aparece com freqüência nas inscrições palmirenses e nabatéias. Os reis da mítica Nabatéia – Malco I

(50-28 a.C.) e Malco II (40-71 d.C.) – parecem referendá-lo. Também o historiador Josefo o atesta (B. j., 1 29, 3 e Ant.,

XVII 3,2). Segundo nossas informações, Le Bas e Waddington inclinam-se mais por uma origem síria, oferecendo até um

total de 28 testemunhos epigráficos. (N. do M.)

124 No tratado das “Tendas” (Ohalot), em um total de dezoito extensos capítulos, a Misná estabelece casos concretos de

impureza por contato com cadáveres “sob uma tenda”. O livro de Números (19, 15) afirma neste sentido: “Lei para quando

um homem morre dentro da tenda: o que entrar na tenda e tudo que houver nela ficam impuros”. Mas o conceito de “tenda”

não se limitava a tenda ou albergue, mas abrangia tudo aquilo que, como uma tenda, oferece teto ou projeta sombra, “como

um pau, uma mão, um animal, uma lápide, o próprio cadáver etc.”. Precisamente se escolheu o termo ohalot, com a desusada

terminação feminina, para indicar que as tendas de que se fala têm um sentido mais amplo que o comum. No caso de um

sumo sacerdote, o contato com um cadáver era muito grave: exigia uma cerimônia de sete dias até que pudesse oficiar de

novo. (N. do M.)

125 Uma das muitas objeções suscitadas pelos cientistas a propósito do Santo Sudário de Turim foi a do arqueólogo francês F.

de Mely. Em uma publicação de 1902, Le Saint Sudaire de Turin est-il authentique?, Mely apresentava até 44 santuários que

se atribuíam a custódia do “autêntico” sudário de Cristo. Algo realmente suspeito. Vejamos essa lista de santuários: Aix

(Provence), Aquisgran, Albi, Annecy, Aosta, Arles, Besançon, Boukovinez (Rússia), Cadouin, Cahors, Campillo, Carcasona,

Chartres, Clermont, Compiègne, Constantinopla, Corbeil, Corbie, Enxobregas, Halberstadt, Jerusalém, Johanavank (Armênia),

Karltein, Le Mans, Lirey, Mogúncia, Milão, Mont-Dieu Champagne, Pairis (Alsácia), Paris, Port-d’Aussois, Reims, Roma

(São João de Latrão, Santa Maria Maggiore e São Pedro), Breines, São Salvador (Espanha), Silos, Soissons, Turim, Utrecht,

Vézelay, Vicennes e Zinte. De todos estes supostos lençóis mortuários, só o de Turim reúne uma série de curiosos fatores

que o destacam dos demais. Todavia, como eu dizia, sua origem não está suficientemente documentada. Em alguns dos

chamados Evangelhos Apócrifos – o dos Hebreus (século 11), traduzido para o grego e o latim por São Jerônimo e nos Atos

de Pilatos (também do século 11) fazem-se breves e muito fantásticas referências a essa mortalha. No primeiro, por exemplo,

pode ler-se: “O Senhor, depois de haver entregue o Sudário ao Servo do Sacerdote, se foi e apareceu a Tiago”.

Francamente, essa alusão não parece muito séria. E idêntico parecer merecem para os historiadores as lendas de Arcufo, dos

ebionitas etc. O primeiro dado medianamente rigoroso sobre a aparição do Sudário de Turim remonta ao século XIII, com a

Quarta Cruzada (1204). No saque de Constantinopla, Robert de Clary conta que o Santo Sudário costumava ser exposto aos

fiéis todas as sextas-feiras, dobrado em ângulo diedro, de forma que ambas as figuras – tanto a frontal quanto a dorsal – se

apresentavam “de pé”, quer dizer, em posição vertical. Venerava-se a relíquia na Igreja de Santa Maria de Blaquernae. E

contam igualmente as crônicas medievais que um dos chefes da tristemente célebre Cruzada, Otto de la Roche, conseguiu

manter na fronteira os francos ali aquartelados, evitando o saque à basílica.

Em 1206 o Sudário reaparece misteriosamente. Desta vez em poder de Pôncio de la Roche, pai de Otto. A partir daí, depois de

mil peripécias, o famoso lençol acaba em poder dos duques de Sabóia, futuros reis de Piemonte e Itália. Há constatação

histórica de que em 1532, um incêndio em Chambéry esteve a ponto de destruir a relíquia. Uma gota de prata fundida da urna

que a protegia queimou parte do lençol, que posteriormente foi remendado pelas monjas clarissas. Da capela de Chambéry o

Sudário foi levado para Turim (1578), onde desde então se encontra. Desde 1694, graças ao Duque Vítor Amadeu II, o lençol

foi depositado em uma suntuosa capela, obra de Guarini, construída sobre a catedral de São João Evangelista, na mesma

cidade de Turim. Está enrolado em torno de um cilindro de madeira e guardado em uma urna de prata que descansa no altar-

mor, no centro da rotunda da capela. (N. do M.)

126 No período de preparação desta segunda exploração tivemos sérios embaraços ao tentar localizar a Emaús citada pelo

evangelista. As coisas, uma vez mais, não eram tão claras como pudessem parecer. O verdadeiro nome parecia ser Ammaus,

citado na Bíblia, em Josefo e na Misná. Era uma cidade destacada, na qual nasceu o famoso Júlio, o Africano. Achava-se

localizada no território da atual Amwâs, próximo a Latrum. Mas nem era a única Ammaus bíblica. Em Josefo, como disse,

cita-se também outro povoado do mesmo nome, muito próximo a Jerusalém, à margem da estrada de Jafa, e que hoje se

conhece por Kolonieh. Esta foi arrasada pela guerra de 1948 e, ao que parece, ocupava o lugar da antiga Motza, citada no

livro de Josué (18, 26). O nome procedia da colônia para veteranos romanos instalada em Kolonieh após a destruição de

Jerusalém no ano 70. Em princípio descartamos a primeira Ammaus, já que se encontrava a 160 estádios (uns 30 km): uma

distância excessiva para ser percorrida no mesmo dia, em uma dupla viagem de ida e volta. (N. do M.)

127 Para fazermos uma idéia aproximada do que representava tal soma, nos reinados de Augusto e Tibério, um tal Gavio

Apício dispunha de uma das maiores fortunas do mundo: entre 60 e 100 milhões de sestércios. E contam que se suicidou

quando, por um erro de cálculo, pensou que seus haveres houvessem caído a 10 milhões. (N. do M.)

128 Naquele tempo a população estimada de Jerusalém era de uns 25 mil ou 30 mil indivíduos. O total de sacerdotes e levitas

era de uns 18 mil e os essênios contavam com uns 4 mil membros (Josefo, in Ant., XVII 1,5). (N. do M.)

129 No tempo de Cristo, estas eram as grandes escolas ou tendências dentro do grupo político-religioso formado pelos fariseus.

Seus chefes eram os doutores Hillel e Schammai, respectivamente. Suas diferenças eram tão numerosas quanto extremas.

Na Beth Hillel praticava-se o liberalismo. Na Beth Schammai, o integrismo. D. Rops conta uma anedota, nesse sentido,

realmente ilustrativa. Dizem que um dia um pagão acercou-se do rabi Schammai e disse-lhe com ironia: “Faço-me judeu se

fores capaz de explicar-me a Lei no exato tempo em que consigo manter-me em equilíbrio em um só pé”. O estrito e austero

Schammai satisfez ao pagão com um duro golpe de sua régua. E conta-se que Hillel, a essa mesma pergunta, respondeu:

“Não faças a outro o que não queres que façam a ti. Essa é toda a Lei”. (N. do M.)

130 Tanto este curioso serviço de correio como os que existiam na época baseavam-se no que havia sido inventado pelo rei

persa Dario, no século V antes de nossa era. Depois, o Império Romano copiaria o serviço, criando um autêntico ministério,

com um complexo quadro de corredores, vigilantes e guardiões de revezamento. Eram previstas até mesmo velocidades

diferentes, de acordo com a urgência das cartas ou mensagens. Nesse particular é muito ilustrativa a Vita Romana, de Paoli.

O sistema, claro, não era muito rápido: o correio imperial, de Roma a Cesaréia, por exemplo, levava 54 dias. E uma carta da

Síria à capital do Império, 100 dias. (N. do M.)

131 Segundo o escrito rabínico Qiddushin (IV-2), os ofícios detestáveis eram os seguintes: guardador de asnos, cameleiro,

marinheiro, cocheiro, pastor, vendedor, médico e açougueiro. No Ketubot (VV-108): coletor de imundícies de cachorro,

fundidor de cobre e curtidor. No Qiddushin (82a., bar. 9): ourives, cardador de linho, moleiro, vendedor ambulante, tecelão,

alfaiate, barbeiro, pisoeiro, sangrador, banhador e curtidor. E no Sanhedrin (25 b): jogador de dados, usurário, organizador de

concurso de pombos, traficante de produtos do ano sabático, pastor, arrecadador de impostos e publicano. (N. do M.)

132 A prova do velho e esperto cambista não tinha outro fim senão averiguar se meu ouro era realmente puro. Certamente as

pepitas haviam sido revisadas minuciosamente, de forma que não continham inclusão alguma de quartzo, circunstância que

haveria feito baixar-lhes o preço por limitar a quantidade de ouro. (N. do M.)

133 Talvez o cambista pensasse, em um primeiro momento, que se queria passar-lhe gato por lebre, ou seja, pirita de ferro por

ouro. Para descobrir isso é necessário queimar a pepita. Nesse caso, se se tratasse de pirita, a amostra ter-se-ia desintegrado.

(N. do M.)

134 O nome do aço de “Damasco” não provém de seu lugar de origem, mas sim do ponto onde os cruzados descobriram as

peças. As melhores espadas desse tipo se fabricaram na Pérsia, sendo difundidas pelos muçulmanos, chegando até a Rússia

medieval, onde lhes deram o nome de bulat. A proporção de carbono nessas espadas oscilava entre 1,5 e 2%. Eram de

extraordinária resistência à compressão e, durante séculos, constituiu-se em um bem guardado “segredo de Estado”. (N. do

M.)

135 Os especialistas sabem que a percepção humana acarreta uma completa seqüência de acontecimentos que, baseando-se

nos níveis mais biológicos (estruturas do SNC), envolve o sujeito em seus aspectos mais psicológicos. Como diz o professor

V. Ruiloba, “as anomalias em algum dos fatores implicados no processo dão lugar às chamadas perturbações perceptivo-

sensoriais.” (N. de J. J. Benítez.)

136 O grande expert, Ey, atribui à alucinose as seguintes características: formas bem constituídas e de grande pregnância.

Anomalias intrínsecas dos estímulos. Estrutura parcial, à margem da situação real, do contexto perceptivo e do juízo.

Consciência de irrealidade e etiologia orgânica ao nível periférico ou central. Por exemplo, ver figuras muito coloridas que se

movimentam diante do sujeito que está consciente de seu caráter irreal e, portanto, de sua significação patológica.

(Psicopatología de la percepción, de J. Vallejo.) (N. de J. J. Benítez.)

137 Baruk dividiu as alucinações visuais da seguinte e correta forma: 1. Sensorial: como toda alucinose supõe uma consciência crítica de perturbação e se produz com base em uma afecção

orgânica, cuja localização pode estar em qualquer nível do sistema óptico.

2. Onírica: a característica nesses casos é o “onirismo”, instalado, por definição, em um estado de obnubilação de consciência.

A base dessa perturbação costuma ser uma psicose tóxica ou infecciosa, cujo modelo é representado pelo delirium tremens,

que se apresenta nos alcoólatras crônicos, freqüentemente durante os primeiros dias do período de abstinência. As zoopsias

(visões de animais) são típicas dessas psicoses alcoólicas, que se fazem acompanhar de outros sintomas ou sinais

característicos, tais como o tremor das mãos, a sudorese, a agitação, a desorientação de tempo-espaço etc.

3. Alucinações visuais que acompanham a desagregação do pensamento: têm um componente sensorial reduzido e entram mais

no campo das pseudo-alucinações ou alucinações psíquicas, do que propriamente no das alucinações. Apresentam-se no

contexto de uma personalidade profundamente desorganizada, como é a psicótica, e produzem no paciente uma notável

atitude de atenção e abstração. (Ver lntroducción a la psicopatologia y la psiquiatria, de J. Vallejo, A. Bulbena, A. Gonzáles,

A. Grau, J. Poch y J. Serralonga.) (N. de J. J. Benítez.)

138 Em um estudo mais aprofundado, no plano somático, os parâmetros bioquímicos de Simão Pedro nos haveriam indicado,

entre outros, um elevado nível de cortisol, catecolâminas, 17-OHCS plasmáticos, ligeiro aumento de atividade tireoidiana,

inibição talvez do sistema hipófiso-gonodal, aumento dos lipídios séricos e participação do íon lactado na síndrome de angústia.

(N. do M.)

139 A holografia ou fotografia por reconstrução de frentes de onda foi inventada por Gabor em 1947. A princípio teve outra

finalidade: a melhora do poder de resolução do microscópio eletrônico. Só nos anos 1960, graças a Juris Upatnieks e Leith, da

Universidade de Michigan, foi possível ampliar o invento de Gabor. Aproveitando o laser, por exemplo, conseguiu-se pela

primeira vez a “construção” de imagens holográficas de objetos reflexivos tridimensionais. (N. do M.)

140 Talvez já o tenha mencionado. Não me lembro. O grego utilizado pelos comerciantes da época, a Koiné, era um idioma

internacional, um grego deformado, que se impôs aos idiomas da região: ático, jônio, dório, eólio etc. As palavras difíceis

foram eliminadas, ignorando-se particularidades como declinações e conjugações. Usavam-se as construções analíticas com

preposições de preferência às formas sintéticas do grego clássico. Além disso, absorveu numerosos vocábulos estrangeiros,

especialmente latinos. E é tudo. (N. do M.)

141 Como se detalha em Cavalo de Tróia 1 (página 95), Eliseu teve de submeter-se a uma delicada operação: a inserção no

reto de uma reduzida sonda, destinada a recolher as fezes. Estas, depois de tratadas com umas turbilhonantes correntes de

água a 38 °C, eram sugadas por um dispositivo miniaturizado acoplado a suas nádegas. Dessa forma, os excrementos eram

decompostos em seus elementos químicos básicos. Parte era gelificada e transmudada em oxigênio e hidrogênio. O resto, em

forma de gás, era expulso para o exterior. (N. de J. J. Benítez.)