Cavalo de Tróia 2: Massada
9 de abril, domingo ⠀愀渀漀 ㌀ )
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
francamente obscuras.125 E ali o deixei, entusiasmado em seu novo trabalho. Um
dos mais ambiciosos do projeto.
Às 12h15, com o ânimo refeito, afastei-me da clareira que nos servia de base.
O restante do dia prometia ser especialmente tenso.
Dessa vez tomei o caminho que conduzia ao extremo meridional da cidade,
com o objetivo de entrar pela Porta da Fonte. Dali, descendo pelo bairro baixo, a
mansão dos Marcos não ficava muito distante. E enquanto passava junto às
improvisadas tendas dos peregrinos galileus, muitos dos quais haviam começado a
recolher seus utensílios com a visível intenção de regressar às terras do norte, fui
fazendo uma recapitulação do que havia visto e ouvido naquelas primeiras e
agitadas horas. Não podia tirar do pensamento as duas supostas aparições de
Jesus a Madalena e às quatro outras mulheres. Pelos textos evangélicos, ainda
deveriam ocorrer outras duas ou três materializações do rabi, além das registradas
no lago de Tiberíades. Mas essa parte da missão estava ainda muito longe. Era
preciso encontrar a fórmula para estar presente em alguns dos acontecimentos
ocorridos em Jerusalém ou no caminho para a aldeia de Emaús.
Se os evangelistas diziam a verdade, nesse mesmo entardecer, no pavimento
superior da casa de Elias Marcos, devia ocorrer uma daquelas pouco críveis
aparições. E digo “pouco críveis” porque, levando em conta o que eu vira até esse
momento, algumas das passagens dos quatro escritores sagrados sobre a
ressurreição de Cristo não pareciam ter o menor fundamento. Ninguém falara, por
exemplo, dos famosos anjos ou jovens de vestes resplandecentes que haveriam
sido vistos no interior do sepulcro, sentados sobre a pedra que havia cerrado a
tumba. O bom Mateus havia deixado levar-se por seu entusiasmo e ardente
imaginação, fazendo crer aos cristãos que a abertura da cripta fora obra de um
anjo do Senhor, o qual, além disso, provocara um terremoto. Nem Madalena nem
as demais judias viram tais personagens celestes, nem, certamente, houve sismo
algum. Quanto ao assunto dos “panos”, mencionado por Lucas e João, também não
merece credibilidade. Certamente que não estavam “no solo”, como diz João. Fosse
assim, por que acreditaria em algo sobrenatural? Isso seria, sim, um claro sinal de
profanação ou roubo do corpo.
Não me cansarei de insistir: os panos estavam arrumados e o lenço e os dois
pares de faixas utilizados para atar os pulsos e tornozelos do rabi, em seus
correspondentes e exatos lugares, como se o corpo se houvesse “esfumado”. Tanto
os tradutores desses textos como o próprio esforço dos evangelistas para enaltecer
o fenômeno da tumba vazia têm levado, quase com certeza, a erros e falsas
interpretações. A verdade ia ser mais simples e sublime.
Mas antes de “defrontar-me” com essa verdade aguardava-me toda uma séria
de obstáculos e decepções...
Na residência dos Marcos não observei mudanças importantes. Depois de
minha precipitada saída, os discípulos haviam continuado enclausurados e imersos
no medo e na tristeza. A primeira a regressar foi Maria Madalena. Relatou aos
íntimos a segunda e suposta aparição de Jesus a ela na propriedade de José, mas,
pelo que pude deduzir, não conseguiu fazer-se acreditar. Simão Pedro e o jovem
João retornaram pouco depois. Sua intenção de localizar José de Arimatéia fora vã.
Como imaginei, o ancião e Davi, alertados pelas outras mulheres, abandonaram a
casa minutos antes que o cético pescador e o Zebedeu chegassem. Ainda que a
versão de ambos sobre o sepulcro vazio não fosse muito convincente, o certo é que
o resto dos apóstolos deixou de rir-se de Madalena. Algo havia ocorrido na cripta.
Isso estava claro para todos. Mas a quase totalidade das opiniões era coincidente:
esse “algo” só podia ser um roubo ou uma astuta manobra de Caifás e seus
odiados sequazes. E o terror daqueles galileus cresceu a ponto de solicitarem à
dona da casa algumas tábuas para escorar a porta do cenáculo. E as discussões
entre eles recrudesceram de novo.
Entristecido por aquele patético clima, acabei por descer ao pátio. Ali, em
companhia de João Marcos, de sua mãe e de Madalena, que havia optado por não
tomar mais conhecimento dos teimosos amigos de Jesus, relatou duas vezes sua
segunda visão. E foi ela quem me informou também da visita de José e de Davi
Zebedeu aos discípulos. Aparentemente, cumprindo o desejo expresso do chefe dos
“emissários” na propriedade, ambos se haviam dirigido diretamente dali à casa de
Elias Marcos. Sua conversa com os oito apóstolos girou a princípio em torno do
panteão vazio e da possibilidade de que o Mestre houvesse ressuscitado. Mas,
apesar dos argumentos e do raciocínio de Davi, aqueles homens continuavam
aferrados à hipótese do roubo.
– Davi não quis discutir – explicou-me Madalena, elogiando a postura do irmão
dos Zebedeu –, mas disse-lhes o que pensava. Estas foram suas palavras: “Vós sois
os apóstolos e deveríeis compreender estas coisas. Não vou questionar convosco.
Seja como for, vou à casa de Nicodemos, para onde convoquei os mensageiros.
Quando lá estiverem todos eles, enviá-los-ei a cumprir a última missão: a de
anunciar a ressurreição do Mestre. Ouvi-o dizer que, após sua morte, ressuscitaria
ao terceiro dia. E eu creio nisso”.
Pela enésima vez maravilhou-me a inquebrantável fé daquele discípulo de
“segunda linha”.
Derrotados e, o que era pior, desesperados, os apóstolos não lhe deram
demasiado crédito. E Davi, após despedir-se, colocou nos joelhos de Mateus Levi a
bolsa que Judas lhe confiara antes dos tristes acontecimentos da quinta-feira. Era o
dinheiro do grupo. Ignoro se naquele momento conheciam a sorte do traidor.
Possivelmente não. Mas também não estranharam a transferência da bolsa. Sua
humilhação e medo ante uma possível captura em massa pelos guardas do Templo eram tais que seus únicos pensamentos gravitavam em torno de uma obsessão:
fugir da cidade. Essa era sua verdadeira preocupação: a sobrevivência. Alguns até
planejaram fugir quando caísse a noite. Quão pouco e deficientemente se refletiria
depois essa dramática e prolongada angústia dos mais chegados a Jesus de Nazaré
durante aquele interminável domingo!
O tempo urgia. Mas, ainda que um de meus “trabalhos” obrigatórios naquela
jornada consistisse na recuperação do microfone que havia servido para a
transmissão da “última ceia”, a informação de Madalena sobre as intenções do
chefe dos emissários pôs-me em alerta. Aquilo também não figurava nos textos dos
evangelistas. E pensei que talvez fosse útil e interessante estar presente à reunião
dos “correios”. Depois de tudo, as seguintes e presumidas aparições de Cristo,
sempre segundo os Evangelhos, não deveriam registrar-se antes do entardecer. O
planejado pelo Cavalo de Tróia era tão simples quanto problemático. Se eu
fracassasse nas primeiras manifestações do Ressuscitado, e assim havia
acontecido, deveria concentrar meus esforços na localização dos discípulos que
Lucas menciona (24, 13-35) e que, segundo esse relato, habitavam em um
povoado chamado Emaús, a uns 60 estádios da Cidade Santa. Se o empenho
falhasse de novo, a operação havia traçado minha imperdoável presença no que
parecia ser o último acontecimento “prodigioso” daquele domingo: a aparição no
cenáculo.
No caso de novo fracasso, tinha eu pela frente outras oportunidades: a
mencionada por João, “oito dias depois e com a presença de Tomé”, ou os
intrigantes acontecimentos da Galiléia. Mas estas últimas ocorrências, que
constituíam nossa fase final, ainda eram remotas. No momento, como já disse,
minha preocupação centrava-se nos discípulos de Emaús. E antes de partir para a
casa de Nicodemos, simulando um especial interesse pelos vimeiros que parece
que cresciam na Ammaus citada por Flávio Josefo (Guerra dos Judeus, VII, 217),126
fiz algumas discretas indagações entre os criados de Elias Marcos, enfocando-as
principalmente no ponto que me preocupava: a busca e identificação de alguém
próximo ao grupo de fiéis do Nazareno que vivesse na aldeia e pudesse auxiliar-me
na pretensa compra de vime. Como comerciante, nada haveria de estranho que
houvesse mostrado interesse no lucrativo negócio dos vimeiros. Era-me
terminantemente proibido fazer a menor alusão à suposta aparição no caminho
para Ammaus ou Emaús e, por isso mesmo, devia realizar minhas pesquisas com
infinito cuidado. Mas ninguém na casa, nem sequer a mãe de João Marcos ou
Madalena, soube dar-me informações. Descartei a idéia de interrogar lá em cima os
apóstolos. E um tanto intranqüilo por aquela nova frustração, consolei-me
imaginando que talvez Davi Zebedeu, excelente conhecedor de quantos haviam
rodeado Jesus, poderia tirar-me as dúvidas.
E com esta desculpa e a prévia autorização de sua mãe, o jovem João Marcos e
eu nos dirigimos à casa de Nicodemos, outro notável personagem na vida da
Cidade Santa e amigo público – nada “secreto”, como insinuam os evangelistas – do rabi da Galiléia. Pelo caminho, enquanto cruzávamos o bairro alto, o menino foi
respondendo a algumas de minhas perguntas sobre aquele rico fariseu, membro do
Sinédrio e aparentado com o ramo dos Ben Gorion. Anos mais tarde, segundo
Josefo (B. j., IV, 3, 9), um tal Gorion ou Gurion ocuparia um posto proeminente na
Jerusalém de 70. Nicodemos ou Naqdemon comerciava com trigo, tendo chegado a
acumular uma invejável fortuna, estimada por seus inimigos em mais de 1 milhão
de sestércios.127 Entre os 6 mil “santos” ou “separados”, como se denominava a
casta dos fariseus, enumerados na Palestina no tempo do rei Herodes,128 nosso
homem, como o de Arimatéia e outros membros da “nobreza”, se havia distinguido
sempre por seu espírito liberal e de “abertura”, mais próximo à escola de Hillel que
à de Schammai.129 Ambas as ideologias ou tendências, dentro do farisaísmo da
época, apontavam para uma espécie de “direita” e “esquerda”. Hillel, que foi
ganhando terreno, simbolizava a esquerda: mais aberta, prudente e compreensiva
que a de Schammai, rígida, reacionária e mais ritualista. E Nicodemos, seguindo o
exemplo do próprio Mestre, que teve muito em conta a escola de Hillel, sentia-se
mais próximo à cada vez mais numerosa “ala de esquerda”. E ainda que tenhamos
outras oportunidades de nos aprofundar no curioso “mundo” das comunidades dos
fariseus, ou habûrôf, e dos igualmente “separados” essênios – ambas ramos de um
tronco comum – creio não ser inconveniente insistir de quando em quando em um
fato que já apontei em outras ocasiões neste diário e que pode ser útil para
distinguir uns fariseus de outros. Infelizmente o mundo moderno meteu-os a todos
no mesmo saco. E isso não é justo. Houve fariseus que defenderam Jesus, que se
distinguiram e se orgulharam da sua amizade com o Galileu. E até mesmo, como
no caso de alguns dos dezenove sinedristas já citados, os que não hesitaram em
demitir-se do Conselho quando observaram as irregularidades praticadas por Caifás
no processo aberto contra o Mestre.
As diatribes do rabi da Galiléia não eram dirigidas contra esses, quase todos
solidários com os ensinamentos de Hillel. As famosas acusações de Mateus (13) –
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!...” – foram lançadas contra os fariseus de
“direita”. Era um segredo mal guardado que tais “santos” eram “mentirosos”,
“sepulcros caiados”, e que “lançavam às costas dos outros as cargas que eles se
negavam a levar”. Eram os popularmente conhecidos como “fariseus tingidos” e
que um velho apólogo recolhido pelo Talmud retrata às mil maravilhas: “Há sete
classes de fariseus: o fariseu ‘onde está meu interesse?’; o fariseu ‘bem o pareço’; o
fariseu ‘sangra-me a cabeça’, porque caminha com os olhos baixos para não ver as
mulheres, tropeça e bate com a cabeça nas paredes; o fariseu ‘malhador’, que
caminha tão encurvado que parece uma mão de almofariz; o fariseu ‘qual é meu
dever para cumpri-lo?’; o fariseu ‘faço uma boa ação todo dia’; e, finalmente, o
único e verdadeiro fariseu: ‘o que o é por temor e amor a Deus’”.
E nessa barafunda de critérios e posturas, Nicodemos, como eu já disse, havia
tido suficiente coragem para enfrentar não só os da “direita”, senão também a
muitos de seus companheiros de “esquerda”, para os quais os ensinamentos do crucificado eram duvidosos e excessivamente radicalizados para uma espécie de
“extrema esquerda”. Assim foram qualificadas as palavras do Filho do Homem
quando defendia as prostitutas e os “impuros gentios” ou quando aceitava em seu
grupo as mulheres e até um publicano ou arrecadador dos impostos indiretos, como
foi o caso de Mateus.
Deus meu! Como parecem haver mudado tão pouco as coisas depois de 2 mil
anos! Quantos membros das igrejas do século XX se enquadrariam na rigidez e
intransigência daqueles fariseus de “direita”?
De bom grado me haveria aproximado dos numerosos grupos de judeus que
fomos encontrando à medida que nos aproximávamos da muralha norte. Discutiam,
polemizavam e se transmitiam mutuamente as “últimas notícias” sobre o sepulcro
vazio do rabi da Galiléia. A ocorrência havia terminado por chegar à cidade, e
Jerusalém foi convertida em uma feira de mentiras e boatos em que até mesmo
apostas se faziam sobre a sorte do Crucificado. Era o prato do dia. E tão excitante e
inevitável situação alarmou-me. O sumo sacerdote e quem mais havia maquinado
para destruir o Mestre não receberiam com agrado aqueles incessantes rumores
sobre a pretensa ressurreição e a conseqüente glorificação do odiado Galileu.
Alguma coisa engendrariam para neutralizar tal movimento...
Cruzamos de novo a Porta dos Peixes e tomamos o caminho de Cesaréia, para
o oeste, sempre sob a orientação do menino. A mansão de Nicodemos, muito mais
luxuosa que a de José, estava a coisa de 3 estádios da cidade (uns 500 metros), no
mais alto contraforte do Gareb: a uns 778 metros sobre o nível do mar e no que
poderíamos considerar a zona privilegiada fora dos muros de Jerusalém. Nesse
promontório, situado entre as estradas de Samaria e Cesaréia, os judeus
endinheirados haviam levantado sólidas e espaçosas vilas, muitas delas
obedecendo às tendências arquitetônicas romanas e helênicas, à sombra de
corpulentos terebintos, carvalhos e ciprestes. Maravilhou-me a paz do lugar, assim
como as soberbas edificações, que nada tinham a ver com as míseras casinholas de
adobe e palha triturada dos grandes bairros da Cidade Santa.
O solícito e eficiente João Marcos deteve-se por fim diante de um daqueles
palacetes de dois pavimentos, cercado por um muro de pedra rematado por uma
grade de quase 2 metros de altura e semi-enterrado por uma densa trama de
trepadeiras. Um amplo jardim de finas e cuidadas plantas estendia-se diante da
casa. À direita da cancela de ferro divisei um poço sombreado por altos carvalhos.
Havia os do tipo “velani”, de uns 15 metros de altura, e os quase eternos “de
galhas”, de menor corpulência.
Uma estreita vereda de imaculados calhaus de rio, brancos como as paredes da
mansão, conduzia à fachada da casa. Seguindo a moda da época, Nicodemos havia
erguido sua vila no mais puro estilo das residências romanas ou domus. O atrium, a
parte semipública, que se destacava por sua forma de tetrastilo, consistente em
um espaçoso pátio quadrangular, rodeado por colunas sustentadas por um pilar em
cada um dos ângulos do pátio. No centro do pavimento, como havia observado, já, na casa de Lázaro, abria-se uma cisterna retangular que captava as águas das
chuvas. Umas reluzentes e semicirculares escadas de mármore branco davam
acesso à morada propriamente dita. Mas nessa ocasião não tive oportunidade de
visitá-la. Davi Zebedeu e o dono da casa, além de um numeroso grupo de pessoas,
talvez trinta ou 35 no total, dialogavam à esquerda do tetrastilo, à sombra da área
de colunas.
Pelo menos uma vez havia chegado a tempo. E ali fui testemunha de outro fato
que, embora anedótico, foi tão emocionante quanto novo.
Quando nos aproximamos, vários daqueles hebreus, jovens em sua maioria,
cobertos pelos típicos mantos de linhas verticais azuis e vermelhas, discutiam ao
estilo da raça: em altas vozes e desmedida gesticulação. Nicodemos, sentado em
uma cadeira de tesoura, contemplava a cena em silêncio. Ao ver-me chegar sorriu,
erguendo a mão esquerda em sinal de amizade. Minha obrigatória presença ao pé
da cruz me havia valido a estima de muitos daqueles fiéis seguidores do Mestre. De
fato, à medida que fui entrando e apreendendo o tema da polêmica, deduzi que
todos os presentes eram isso: discípulos de Jesus. Davi, de pé, à esquerda do
anfitrião, acompanhava as opiniões com atenção, mas com uma sombra de tristeza
e decepção nos olhos verde-azuis.
Uns vinte homens achavam-se sentados aos pés do Zebedeu, atentos ao menor
movimento ou palavra do chefe dos emissários. Seriam aqueles os “correios”
convocados pelo irmão de João e Tiago?
A discussão girava – claro! – em torno do sepulcro vazio e da ressurreição ou
não de Jesus. A maior parte das opiniões dos discípulos soara-me muito familiar.
Pareciam contagiados pelo ceticismo de Pedro e dos demais apóstolos. Zombavam
descaradamente de Madalena, qualificando-a de “cortesã bêbada”, “mentirosa
como boa mulher” e “visionária transtornada”. O tom dos insultos foi adquirindo
níveis preocupantes e Zebedeu, com um autoritário gesto de mãos, impôs silêncio,
lembrando aos mais exaltados que “entre aquelas mulheres visionárias estava sua
mãe, Salomé...”.
Envergonhados, os hebreus baixaram a cabeça, mas continuaram resmungando
os seus “impossível”, “incrível” e “fantástico”...
Então Davi, a quem não me lembro de haver visto perder sua serenidade,
retirou da cabeça o manto, deixando a descoberto sua vasta cabeleira preta,
ligeiramente branqueada por uns prematuros fios de cabelo branco, e, dirigindo-se
aos que estavam sentados no chão, disse-lhes:
– Vós todos, meus irmãos, tendes-me servido sempre de conformidade com o
juramento que nos fizemos mutuamente. Agora tomo-vos como testemunhas de
que jamais dei uma notícia falsa...
Não cabia dúvida: aqueles 20 ou 25 homens eram os “correios”, que tão
eficientes serviços haviam prestado ao grupo apostólico de Cristo.
– ... Vou confiar-vos a última missão como mensageiros voluntários do reino.
Ao fazer isso, libero-vos de vosso juramento. Amigos, declaro que terminamos nosso trabalho. O Mestre não necessita mais de mensageiros humanos. Ressuscitou
de entre os mortos!
O cálido timbre de voz de Davi ganhava em expressão e força, fazendo vibrar
os corações de seus homens. Alguns dos discípulos negavam com a cabeça...
– Antes de sua prisão – prosseguiu sem se alterar ante os gestos de
desaprovação dos hebreus –, disse-nos que morreria e que ressuscitaria no terceiro
dia.
Fez uma pausa e, com os olhos cravados nos opositores, exclamou com uma
força que não deixava margem a dúvida:
– Vi sua tumba. Está vazia!... Falei com Maria Madalena e com outras quatro
mulheres que viram Jesus. Agora vos despeço e vos digo adeus, ao mesmo tempo
que vos envio a vossas respectivas missões com a seguinte mensagem, que
levareis aos que crêem.
O silêncio foi quebrado apenas pelos alegres trinados das andorinhas que
esvoaçavam sobre o pátio.
– Jesus ressuscitou dos mortos. A tumba está vazia.
A um sinal do Zebedeu, um dos criados da casa avançou de detrás do grupo
carregando uma pilha de cartuchos cilíndricos, feitos de couro e com um cordel em
forma de laçada em uma das extremidades. Foi colocar-se junto a Davi e este,
tomando um dos tubos marrons, levantou a tampa e extraiu do seu interior um
pequeno rolo de pele de cabra. Leu-o e, com um gesto de aprovação, recolocou-o
no tubo. Como um só homem, os emissários puseram-se de pé e, um após outro,
foram aproximando-se do chefe. Após abraçá-los, Davi ia entregando a cada um o
correspondente cilindro, a todos chamando pelo nome e desejando boa sorte.
Contei um total de 26 “correios”, todos, sem exceção, jovens entre 20 e 30 anos.
Traziam armas e um par de sandálias sobressalente que pendia das largas faixas
ou hagorah.
Mas a emotiva cena viu-se turbada por novas e azedas intervenções dos
discípulos, que buscavam convencer Davi a desistir de seu “louco propósito” de
transmitir uma mensagem que, na opinião da maioria, era uma falsidade. Todavia,
o imperturbável chefe dos emissários não replicou nem se dignou a olhar para eles.
Continuou a fazer as entregas, sempre sorrindo para seus homens. Estes, conforme
recebiam o seu cartucho, passavam o cordão em torno do pescoço e o cilindro
ficava pendurado ao peito.
Diante do nulo êxito com Davi, os hebreus, desolados e furiosos, tentaram
influenciar os emissários, persuadindo-os a desistir da missão. Mas o resultado foi
igualmente desastroso. Aqueles jovens e entusiastas corredores tinham uma fé
cega em Davi. Jamais os havia enganado e agora, como em tantas ocasiões,
dispunham-se a cumprir sua última missão no serviço particular de correio
organizado pelo Zebedeu.130
Pelas 14h15, os últimos mensageiros deixavam a mansão de Nicodemos, rumo
aos quatro pontos cardeais: Damasco e Síria, no norte; Beersheba, no sul; Alexandria, no oeste, e Filadélfia e Betânia, no leste. Graças àqueles esforçados e
valentes emissários, a notícia da ressurreição seria conhecida por milhares de
adeptos do Filho do Homem. No fundo era triste e paradoxal que, enquanto
aqueles 26 hebreus que mal haviam conhecido Jesus corriam pelos caminhos da
Palestina com a Boa-Nova, os íntimos do Mestre, sobre os quais pesava a
responsabilidade da expansão do reino, continuassem reclusos, mortos de medo,
incerteza e desespero. Sem planejar, eu havia assistido a uma lição de audácia e
fé. Uma lição que nem sequer consta dos Evangelhos...
Após a saída dos mensageiros, mal troquei umas palavras com Davi. Os
incrédulos discípulos continuaram envenenando-o; e ele, ansioso por dar-lhes as
costas, despediu-se de Nicodemos, comunicando-lhe, antes, suas imediatas
intenções. Passaria pela casa de José de Arimatéia, para buscar sua mãe, Salomé,
e em seguida viajaria para Betânia, à casa de Lázaro, onde estava alojada parte da
família de Jesus. Pelo que pude ouvir, o Zebedeu havia prometido a Maria e Marta
acompanhá-las até Filadélfia, onde se reuniriam com seu irmão Lázaro, ali
refugiado por causa das ameaças do Sinédrio.
Assim, Davi deixou o palacete de Nicodemos e regressou à cidade. No curto
trecho em que João Marcos e eu pudemos acompanhá-lo, o chefe dos mensageiros,
como eu supunha, proporcionou-me uma simples mas valiosa informação.
Efetivamente, conhecia os famosos discípulos de Emaús. Mas, para minha surpresa,
assegurou-me que não eram precisamente discípulos ou crentes no reino. Tratava-
se de dois irmãos, pastores por sinal e por isso de péssima reputação. Um deles,
um tal de Cleofás, o mais velho, parecia sentir certa simpatia por Jesus. Mas nada
mais que isso. O outro, Jacó, era, na opinião de Davi, pessoa inquieta e curiosa que
de quando em vez comparecia às conferências e aulas do Galileu.
“Seguramente poderás encontrá-los na casa de José”, acrescentou, advertindo-
me que, como bons pastores, talvez tentassem enganar-me.
Não era a primeira vez que eu ouvia um comentário como aquele. Para certos
setores da Palestina do tempo de Cristo, além da pureza da origem existia outra
realidade de grande peso social: os chamados ofícios ou profissões desprezíveis,
que rebaixavam de forma mais ou menos inexorável quem os exercia. Jeremias
escreveu um magnífico estudo a respeito (Zöllner und Sünder: ZNW, 30, 1931). E
chegou-se a elaborar até quatro listas com esses ofícios repudiados e
repudiáveis.131
A verdade, como sempre, encontrava-se no meio-termo. Ainda que muitos
desses ofícios pudessem expor seus praticantes à tentação do roubo, da picardia ou
da mentira, a realidade, como eu disse, não era tão dramática. É certo que para
muitos sacerdotes, escribas, fariseus e puritanos da Lei os médicos, pastores ou
ambulantes eram todos indesejáveis. Oficialmente, por exemplo, aos pastores
eram proibidos vender lã, leite ou cabritos. (Supunha-se que podiam ser produtos
roubados dos legítimos donos dos rebanhos ou a outros pastores.) Mas no geral o
povo afável convivia encantado com esses artesãos, requisitando seus serviços quando precisava deles.
De qualquer forma, a advertência de Davi, precisamente por proceder de um
homem que eu julgava justo e sincero, pôs-me em guarda. Sob a muralha norte
nos despedimos. Ele seguiu para o extremo meridional de Jerusalém e João Marcos
e eu, para o leste, em direção ao Templo.
Tivesse eu seguido seu conselho, indo consigo à mansão de José, e não teria
tido de lamentar, uma vez mais, minha pouca sorte...
Antes de sair da casa de Elias Marcos eu havia pedido a Maria, a dona da casa,
um pequeno favor. A mulher consentiu sem reservas nem receios. Como
estrangeiro, necessitava de um guia que facilitasse minhas idas e vindas pela
cidade. De certo modo assim era. O jovem João Marcos saltou de alegria ao
receber a autorização de sua mãe. Durante aquele dia – “e todos que forem
necessários” – poderia encontrar seu filho, pronto e encantado, para servir-me,
disse-me a senhora. E graças à generosidade de tão afável família, meus passos
por Jerusalém não foram tão difíceis nem infrutíferos como na primeira aventura.
Apesar disso, como é notório e como exporei brevemente, o destino continuaria
zombando de mim...
A razão por que não acompanhei Davi Zebedeu à casa de José de Arimatéia foi
quase banal. Mas assim havia sido estabelecido pelo Cavalo de Tróia e eu devia
ajustar-me ao programa sempre que possível. Como já mencionei, as seguintes e
sempre supostas aparições de Cristo não se registrariam antes do entardecer. O
ocaso teria lugar às 18h22. Aproximávamo-nos da hora “nona” (15 horas) e,
portanto, ao dispor de uma relativa folga de tempo, todos os meus esforços deviam
concentrar-se em outro dos objetivos-chave da missão: rastrear, localizar e
resgatar o microfone involuntariamente extraviado. O lampião em cujo interior eu
havia colocado dissimuladamente a minúscula e sofisticada peça eletrônica – que
por nada do mundo devia ficar perdida naquele tempo – ficara avariado durante os
movimentos sísmicos registrados nas primeiras horas da tarde de sexta-feira, 7 de
abril. E Maria Marcos havia mandado repará-lo por um dos artesãos da cidade alta.
Essa era, em suma, minha seguinte e imediata tarefa. Mas antes devia cumprir
outro obrigatório trâmite: trocar parte da meia libra romana de ouro por moedas
fracionárias. Assim, confiante, deixei-me conduzir pelo menino.
Sinceramente, se eu tivesse tentado repetir a travessia daquele setor do bairro
alto sozinho, o fracasso teria sido total. Mal perdi de vista o mercadinho dos tírios,
João Marcos tomou a esquerda, entrando em um fétido e obscuro labirinto de
voltas e reviravoltas, passadiços e becos sem aparente saída. Aquilo não eram
ruas. Era uma doida rede de casebres imbricados entre si, formando um infernal
labirinto, pestilento, devorado por uma umidade que roía a cal das paredes de
adobe, lembrando os piores trechos da Casbá de Argel.
Do interior de muitas das vivendas (?), formadas em sua maioria por um único
e cavernoso cômodo, emanava um vapor agressivo, com um penetrante odor de
urina que me lembrou o carbonato de sódio ou natrum carbonicum. Ao chegar ao negro umbral de uma das portas, mal pude perceber dois ou três indivíduos que
banhavam e esfregavam peças e peças de tecidos em enormes tachos de barro.
Em um dos cantos, escavado no chão de terra batida, um grosseiro fogão fazia
ferver a água contida em um grande caldeirão de bronze, do qual, precisamente, se
elevava aquele vapor comum a toda a zona. Eram os pisoeiros ou “lavadores”,
autênticos párias da sociedade judia, pagãos em sua quase totalidade, lutando
para eliminar a imundície das roupas de seus patrícios. Utilizavam para isso o
natrão, umas pastilhas de carbonato de sódio importadas da Síria e do Egito e que
faziam as vezes do nosso sabão.
Uma vez lavados, os roupões, as túnicas, saiotes etc. eram pendurados por
entre as casas, convertendo as já apertadas e confusas vielas em um varal
multicolorido e gotejante. De quando em quando os pisoeiros tinham a garganta
afetada pelo irritante vapor e então lançavam os seus escarros no meio dos
irregulares paralelepípedos. Aquele repugnante costume, forçado, aliás, pelas duras
condições do ofício, havia derivado, com o passar dos anos, em um símbolo de
impureza religiosa. E, ainda que constituísse um hábito generalizado em todas as
classes sociais, incluídas as mais refinadas, as sutilezas das leis e das prescrições
religiosas haviam conduzido a situações tão absurdas como esta: o escarro de um
pagão do bairro alto contaminava; o de um judeu do setor oposto, da cidade alta,
não. A “contaminação”, naturalmente, era de ordem ritual ou religiosa.
Pelo ano 20, por causa de uma dessas cusparadas, chegou-se até mesmo a
impor a obrigatória reclusão noturna do sumo sacerdote durante a semana anterior
ao solene dia da Expiação. Pelo visto, Simeão, filho de Kamith, que exerceu a
função de sumo sacerdote entre 17 e 18 d.C., teve a má sorte de receber o cuspe
de um árabe na noite anterior ao citado dia da Expiação e ficou impossibilitado de
oficiar.
Evitando a teia de aranha dos varais, a imunda criançada que nos barrava os
passos e nos estendia as mãos, na esperança de ganhar um lepton ou sestércio, e
os fogareiros chispantes colocados pelas mulheres no meio das calçadas,
desembocamos, por fim, na arenosa esplanada de Xisto, na borda direita do vale
do Tiropeon. A altiva muralha oeste do Templo apresentou-se diante de mim
branca e aquecida pelo Sol. Respirei aliviado. Apesar das centenas de agulhas e
pontas resplandecentes que coroavam o Santuário central, erguidas para evitar os
pássaros, grandes bandos de pombos e andorinhas faziam das suas sobre o
majestoso edifício, sombreando-o com seus rápidos e desordenados vôos.
Cruzamos uma das pontezinhas de pedra, construída sobre o leito seco que
sulcava Jerusalém de norte a sul, galgando depois as escadas do arco de Robinson.
Aquele acesso, em forma de “L”, conduzia a uma das treze portas do Templo: a da
extremidade sudoeste do grande retângulo amuralhado. Um grande vão, aberto na
ciclópica muralha provida de enormes portas de ébano recobertas com pranchas de
bronze nas duas extremidades, conduzia diretamente ao Átrio dos Gentios: a
imensa e bela plataforma de 225 metros de comprimento em que se permitia o acesso a todos os goyims, quer dizer, a pagãos, homens e mulheres, e até a
hereges, impuros, gente enlutada e excomungados. Como já comentei em ocasiões
anteriores, aquela esplanada vinha a ser uma espécie de praça pública, foro
romano ou ágora ateniense, na qual se passeava, discutia, se pronunciavam os
mais variados discursos e, certamente, traficava-se com os mais variados tipos de
mercadorias.
Ainda que a solene festa da Páscoa daquele ano, duplamente festiva por haver
coincidido com o sábado, já se houvesse encerrado, a animação ainda era
extraordinária. Ao longo do pórtico Real e de Salomão, nas faces sul e leste do
grande retângulo, respectivamente, os vendedores e cambistas disputavam a
atenção dos possíveis compradores, em um confuso turbilhão de gritos, pechinchas
e acesas polêmicas que, na maior parte dos casos, não iam além dos insultos e das
mútuas acusações. Sob os tetos de madeira de cedro, entre a tríplice colunata de
11 metros de altura do pórtico de Salomão, numerosos hebreus, escribas em sua
maioria, passeavam de mãos dadas, detendo-se às vezes para contemplar a
embriagadora paisagem do monte das Oliveiras. Ao longe, no quadrante noroeste,
os brilhantes capacetes dos legionários romanos, de guarda nas torres da Fortaleza
Antônia, cintilavam anunciando o próximo poente.
Fomos contornando as mesas e tendinhas dos vendedores de rolas e pombas,
mais abundantes agora do que os traficantes de especiarias, e que, com suas
monótonas cantilenas, mostravam os “excelentes e baratos passarinhos e aves”,
destinados, em sua maioria, às oferendas a que as parturientes e os leprosos
curados estavam obrigados.
A operação de câmbio de moeda era sempre aborrecida e árdua. Decerto eu
conhecia a técnica do regateio, exigida em qualquer tipo de transação, e, mesmo
sabendo que o cambista tentava sempre enganar o cliente, simulei diante de João
Marcos uma cuidadosa escolha da mesa sobre a qual devia efetuar a operação. O
adolescente, habituado a esse negócio, recomendou-me desde o primeiro
momento um velho caldeu, coberto com um turbante de cor granada e de amplos
sarabarae ou calções de seda púrpura. Concordei e, após uma exagerada
reverência, meu jovem acompanhante me apresentou como um honrado
comerciante grego de passagem por Jerusalém. Os olhinhos do cambista
percorreram num relance minha esmerada aparência e, apontando para a pequena
balança romana colocada sobre o tabuleiro de pinho de sua tenda, correspondeu
com outra não menos falsa e pronunciada inclinação de cabeça. O menino, esperto
como um esquilo, observou que eu tardava a corresponder à saudação e, com um
dissimulado toque de sua sandália, fez-me compreender que estava sendo
descortês. Inclinei a cabeça e, antes que tivesse tempo de expor o motivo da
minha presença, o homem, em um grego quase perfeito, e mostrando com orgulho
os fios de ouro que lhe sustentavam vários dentes postiços (réplicas em marfim dos
naturais), deu início a uma litania na qual mesclou sua remota e sagrada origem
babilônica com minha sabedoria por haver sabido escolher “o mais honesto dos cambistas de moedas genuínas”. O monótono preâmbulo fazia parte do cerimonial;
e, sem ânimo de contrariá-lo, aguardei pacientemente que terminasse. Soube,
assim, que seu nome era Serug e que descendia do bisavô do próprio Abraão.
Também ressaltou que, desde longo tempo, um ramo dos Serug se havia instalado
ao oeste de Jaran fundando a cidade de Sarugi. É claro que não acreditei em uma
só palavra, ainda que os nomes e dados fossem corretos.
Por fim, quando se sentiu satisfeito, entramos nas negociações. Entreguei-lhe
um dos saquinhos em que o Cavalo de Tróia havia dividido os 163 gramas de ouro
e, após derramar seu conteúdo sobre a palma da mão e tocar as pepitas com a
ponta do dedo mínimo, tomou uma delas, ergueu-a sobre sua cabeça, observou-lhe
o brilho e, por fim, depositou-a cuidadosamente sobre a mesa. Observou-me com
um ar grave e, como se se tratasse de pura rotina, apanhou uma pedra de toque.
Esfregou depois, a pepita com energia, aplicou-lhe um líquido (algo semelhante à
água-forte) e comparou o resultado com uma contraprova de outra pepita de sua
propriedade.132 Satisfeito, passou à prova seguinte apanhando um martelo de
madeira que se achava junto da balança. Ergueu-o uns dois palmos acima da
pepita e descarregou um preciso e sonoro golpe que, como não podia deixar de
ser, achatou o nobre e maleável metal. A primeira martelada seguiram-se outras
duas, que fizeram da pepita uma lâmina. Naturalmente, o ouro era excelente133 e,
com um profundo suspiro, convencido de sua autenticidade, recolheu a porção,
juntando-a ao resto dos 81,5 gramas. Perguntou que tipo de moeda eu desejava.
Pedi-lhe shekels e sestércios. Eu sabia que aquele quarto de libra romana de ouro
equivalia a uns 189 denários-prata ou, o que era a mesma coisa, ao redor de 47
shekels ou 1.134 sestércios.
O problema, em princípio, estava nas peças utilizadas pelo cambista e no tipo
de interesse que a operação merecesse dele. Despejou o ouro sobre um dos
pratinhos de latão da balança e em seguida rebuscou em um caixão de madeira em
que se alinhava uma bateria de peças de bronze. Eu havia sido treinado para esse
trabalho e reconheci as “minas” (cujo peso oficial seria de 571 gramas), os siclos
(de 11,4 gramas), os meios siclos (de 5,7 gramas) e os óbolos (de 0,6 grama).
Mas, exatamente como eu suspeitava, nenhuma atingia o peso exigido pela lei.
Não demorei a comprová-lo. Acostumado a esse tipo de manipulações, o caldeu foi
diretamente aos siclos, tomando meia dezena daquelas peças cúbicas, já
desgastadas. Com grande teatralidade, foi alinhando-as sobre o pratinho oposto e,
ao chegar ao número 6, a balança equilibrou-se. Tive de fazer grandes esforços
para não sorrir. Era óbvio que deveria ele ter colocado sete daquelas peças e ainda
haveriam faltado alguns décimos de grama... O pícaro cambista acabava de furtar-
me algo mais de 11,5 gramas de ouro. Faltava ainda a taxa ou os juros fixados
como margem no negócio. E o amigo Serug lançou mão de uma tabuinha de
madeira encerada que pendia de um sujíssimo cordel atado à sua faixa, rabiscando
não sei que estranhas inscrições com um fino estilete de osso que sacou de
debaixo do turbante. Foi murmurando para si uma prolixa e indecifrável cadeia de operações aritméticas e, finalmente, com aquele falso sorriso pendurado no escuro
rosto, mostrou-me a tabuinha com o resultado final:
– 40 shekels e 874 sestércios.
Fiz um rápido cálculo mental e deduzi que, além do furto no peso, aquele
maldito cambista havia aplicado a mais alta tarifa permitida: o meio óbolo ou meia
guerá por cada meio siclo ou meio shekel oferecido. Algo assim em torno de 10%
sobre o valor total.
João Marcos voltou a dar-me um pontapé, dando a entender que eu devia
rejeitar a oferta ou pelo menos regatear. Mas o tempo me pressionava e,
ignorando os justos conselhos do rapaz, aceitei a proposta. O pagão abriu os olhos
de par em par sem compreender e, mudo ante a inesperada postura daquele grego
supostamente tolo ou excessivamente rico, apressou-se a entregar-me a
quantidade que me cabia. Dessa vez sua reverência quase o levou a topar com a
mesa de câmbio.
Então, a grandes passadas, e com as críticas de meu amigo às minhas costas,
abandonei o agitado Átrio dos Gentios.
João Marcos havia começado a sentir verdadeiro carinho por mim. E eu por ele.
E ainda que o Cavalo de Tróia, em suas estritas normas, proibisse qualquer
relacionamento que pudesse conduzir à criação de laços de caráter sentimental,
deixei por conta do destino. Acariciei seus sedosos cabelos negros e dei-lhe a
entender que, no assunto do cambista, o enganado, realmente, tinha sido o caldeu.
Enquanto cruzávamos de novo o Tiropeon recordei-lhe os ensinamentos de seu
saudoso ídolo: Jesus de Nazaré. “A mentira” – disse-lhe parafraseando Chesterfield
e Geibel – “é a única arte dos medíocres e o refúgio dos vis. E, ainda que seja
astuta, sempre acaba por quebrar uma perna.”
Ainda que tais frases não houvessem sido ditas pelo Filho do Homem, o menino
elogiou minha fidelidade para com o Mestre, e sua estima pelo velho comerciante
da Tessalônica cresceu um pouco mais.
Quando me interrogou sobre nosso próximo destino, ficou surpreso. Pedi-lhe
que guardasse segredo e, em voz baixa, disse-lhe que desejava fazer um pequeno
favor a sua mãe. Seus olhos vivos iluminaram-se. E, tomando-me da mão,
conduziu-me para o setor noroeste da cidade. Havia-lhe pedido que me levasse à
oficina onde, ao que parecia, ele mesmo havia entregue o lampião quadrado de
ferro forjado que ficara danificada pelo terremoto. Realmente eu desejava
corresponder às atenções da esposa de Elias Marcos e não me ocorreu melhor
pretexto do que arcar com o reparo do lampião. Dessa forma – essa era minha
intenção –, meu acesso ao microfone não se daria de forma suspeita. Isso supondo,
naturalmente, que ainda continuasse no mesmo lugar...
Caminhamos ao longo da muralha que separava os dois grandes bairros e, ao
avistarmos as torres do palácio herodiano, viramos para a direita, atravessando o
grande arco da porta de Ginnot. Logo distingui o marteleio do grupo de ferreiros,
um som que, ao cessar, servia à gente dos arredores para assinalar o fim da jornada.
Assombrou-me a diferença entre aquela área do bairro alto, corretamente
pavimentada, de fachadas caiadas e sem poças de urina nem excrementos de
alimárias nos paralelepípedos de um cinzento azulado, e as míseras ruelas que eu
havia pisado pouco antes, no extremo oposto. A explicação podia estar na relativa
proximidade do palácio de Herodes. Pouco depois, ao entrar em uma das fundições
e ver o que aí se fazia, entendi as razões do tetrarca para manter contentes tais
artesãos ou “gente de ofício”, como também eram chamados...
O caso é que logo me vi em um amplo pátio descoberto de uns 15 por 10
metros. Diante de mim abria-se um espetáculo que haveria sido reconhecido pelos
homens da Idade Média e até mesmo do século XIX: meia dezena de homens
musculosos, de pele tostada e banhados de suor, cobertos unicamente pelos saq
ou tanga, trabalhavam cada qual em sua bigorna. Com a mão esquerda, e com a
ajuda de grandes tenazes, imobilizavam diversas peças incandescentes, que eram
ritmadamente golpeadas com pesados e negros martelos. Às vezes, interrompiam
o martelar para introduzir os rubros metais em umas cubas de madeira repletas de
água ou areia, o que provocava silvantes colunas de fumaça branca. O estrondo era
tão ensurdecedor que João Marcos, que se havia adiantado até um dos ferreiros,
teve de falar com ele quase por sinais.
Ao fundo do recinto alinhavam-se três curiosas forjas. Duas eram semi-
esféricas, rematadas por altas e pontudas chaminés. A terceira, construída também
de blocos calcários, tinha a forma de um poço. Na base das primeiras, através de
diferentes “janelas” abertas nas pedras, escapavam umas chamas avermelhadas e
vorazes. Segundo o quenita que dirigia a oficina, descendente de uma antiga
família fenícia de ferreiros ambulantes, os fornos fechados destinavam-se
habitualmente à fundição de pequenas quantidades de cobre. A “tostadura”
preliminar do mineral, que era extraído das minas do wadi Arabá, ao sul do mar
Morto, se fazia em fornos situados nas jazidas. Quanto aos lingotes destinados à
exportação, eram preparados em outra grande fundição: a de Esyon-Gueber, obra
de Salomão.
A Jerusalém, portanto, o metal chegava pronto para sua última e definitiva
transformação. Um engenhoso sistema subterrâneo em forma de “L” e recoberto de
ladrilho fazia as vezes de conduto de ar. E este era insuflado por grandes e não
menos artesanais “globos”, mais do que foles. Consistiam em volumosos pelegos
de boi ou vaca, amarrados pelo pescoço e ânus e inflados a sopro. Uma prancha
circular, de madeira de pinho, provida de uma braçadeira e fixada com cordas à
parte superior de cada odre, servia para desinchá-los. Quando os fogões perdiam
força, um dos ferreiros colocava o longo “pescoço” do boi no orifício de entrada do
conduto subterrâneo e, com grande habilidade, soltava o nó que prendia o ar,
pressionando com todo o peso do seu corpo o fecho superior. Com essa manobra o
fole soltava seu conteúdo, avivando a lenha ou carvão vegetal depositado no álveo
do crisol. Depois, lenta e penosamente, o homem devia soprar até encher de novo o pelego.
No momento em que o cobre ou qualquer outro metal alcançava seu ponto
exato de moldagem, os sofridos e excelentes artesãos retiravam os crisóis cônicos,
de barro, com a ajuda de uma de suas longas tenazes.
Tanto o solo de terra como as paredes altas da oficina estavam repletos das
mais variadas ferramentas, armas e instrumentos domésticos da época. Fiquei
fascinado. Havia ali rolhas de arado, aguilhões, machados comuns, muito
semelhantes aos atuais, machados duplos, picaretas (espécie de machado e
enxadão), bridões de cavalos, grandes panos de armadura, facas de múltiplas
formas e dimensões, braceletes, argolas, todo tipo de vasos, copos e pratos e uma
infinidade de pequenos utensílios de uso comum nas casas e em outras oficinas:
cinzéis, espátulas, agulhas, tenazes, fivelas etc.
João Marcos interrompeu minha observação. Ele estava acompanhado do
capataz ou chefe da forja, a quem já havia explicado minha intenção. Elevando a
voz sobre o frenético martelar de seus companheiros, deu-me a entender que o
lampião ainda não havia sido consertado. Embora a peça houvesse sido levada
para a oficina na mesma tarde de sexta-feira, a entrada do sábado e a celebração
da Páscoa haviam atrasado seu reparo. O quenita, convertido à religião judaica,
aproveitou aqueles minutos de descanso para desatar a faixa de pano que cingia
sua fronte e cabelos, retorcendo-a e fazendo escorrer o abundante suor que a
empapava. Depois convidou-me a segui-lo até o lugar onde guardava a base do
lampião.
Acostumado a ver e manipular toda classe de objetos metálicos, logo
identificou o motivo da minha presença na oficina, retirando-a sem demasiadas
buscas do meio de um montão de panelas e trastes velhos enferrujados. Temi que
resolvesse examiná-la. E dei graças aos céus pela providencial jornada festiva. Se
aqueles artesãos houvessem feito o trabalho, quase com toda a certeza teriam
encontrado a estranha peça e a antena camuflada entre os pendentes. E nesse
caso minha situação estaria comprometida.
A queda havia partido o pé sobre o qual se sustentava a caixa de ferro, que
também ficou danificada em uma de suas arestas e em três das quatro lâminas de
vidro colorido. Com certo nervosismo, simulando um especial interesse pelos
lavores do lampião, pedi-lhe que me deixasse examiná-la. E o homem, com
indiferença, estendeu-a para mim. Senti minhas pernas fraquejarem. Entre as
fissuras dos cristais percebi a tríplice mecha de cânhamo e a tigela destinada às
cargas de azeite. E por debaixo, tateando com os dedos, o microfone, solidamente
imantado na base do lampião.
Agora devia desprendê-lo e ocultá-lo na bolsa de borracha. Mas o ferreiro e
João Marcos continuavam atentos aos meus movimentos e à minha decisão.
Precisava encontrar uma fórmula para distraí-los ou afastá-los durante uns
segundos.
Perguntei ao capataz quando calculava que estivesse pronto o serviço e quanto custaria. Não soube responder a nenhuma das questões. Aquilo, aparentemente
tão fácil, começava a enredar-se. E o chefe da oficina, impaciente pelo que,
realmente, parecia uma minúcia, fez um gesto de retomar a luminária. Por um
momento pensei desfalecer. Mas, recordando minha promessa de obsequiar a mãe
do rapaz, retive a peça e disse ao quenita algo que o agradou. Aos gritos,
aproximando meu rosto do seu ouvido, expus-lhe minha intenção de comprar-lhe
algum objeto, com a condição de que fosse realmente valioso e original. Como não
especifiquei que o destinatário era uma mulher, o artesão supôs que o presenteado
era um homem. A verdade é que naquele tempo e na sociedade judaica não era
muito freqüente que os homens obsequiassem as mulheres. E muito menos
tratando-se de um pagão e estrangeiro...
O involuntário erro de ambos nos ia levar a uma sensacional descoberta, ao
menos do ângulo da indústria metalúrgica.
– Valioso e original? – repetiu o ferreiro.
Assenti sem hesitação.
Dando meia-volta, ele se dirigiu para o terceiro forno: o que tinha forma de
poço. Meu guia foi atrás dele. Aí, sem pensar duas vezes, introduzi a mão na base
da luminária e desprendi o microfone. Sem dar-me muita conta do que fazia, atirei
a caixa metálica sobre os tachos de bronze e apressei-me a guardá-lo. Sem poder
evitá-lo, fechei os olhos e respirei com todas as minhas forças.
O quenita e João Marcos retornaram logo. O primeiro mantinha nas mãos um
fino pano de algodão preto, que, obviamente, servia para envolver algo. Mas esse
algo, a julgar pelas dimensões do tecido que o recobria, deveria ser longo. O
ferreiro, ao notar minha curiosidade, sorriu divertido. Retirando a parte superior do
pano, deixou a descoberto uma obra de arte: uma espada de uns 60 ou 70
centímetros, enfiada em uma bainha de marfim, finamente esculpida em ambas as
faces com um trançado de estrelas de cinco pontas.
Percebi que havia algum erro. Mas, fascinado, apanhei-a pela empunhadura,
também de marfim, desembainhando-a. Como o gladius romano, dispunha de
duplo gume e uma pequena ponta, porém afiada. Ao brandi-la, notei algo estranho.
Pesava muito pouco. E, de pronto, o reflexo avermelhado da forja espalhou-se pela
lâmina, chamando minha atenção. Examinei o suposto ferro e, surpreendido,
descobri que ambas as faces eram recobertas por suaves e belas marcas
ondulantes que lhe emprestavam uma tonalidade branco-azulada.
Levantei os olhos e o sorriso de profunda satisfação do quenita confirmou
minhas suspeitas. Aquilo não era ferro. Era aço! Mas como podia ser? As primeiras
descrições conhecidas do denominado aço de Damasco datam do ano 540 d.C.
Devia haver uma confusão. Aproximei-me de uma das bocas dos crisóis e, à luz do
fogo, tornei a examinar com os olhos e com os dedos a enigmática superfície da
espada. Eu havia tido a oportunidade de ver em mais de uma ocasião o fascinante
exemplar existente no Museu de Arte Metropolitano de Nova York – uma cimitarra
persa do século XVII –, trabalhada à base de um aço com altas concentrações de carbono e com as típicas marcas verticais ou “escada de Maomé” em sua lâmina.
Sim, não cabia dúvidas. Aquelas partes esbranquiçadas do aço eram o
carboneto de ferro ou cementita. E as faixas escuras do fundo, ferro com um teor
inferior de carbono.
Certamente, eu sabia que o uso do aço de “Damasco”134 já era conhecido nos
tempos de Alexandre Magno (323 anos antes de nossa era). Mas até esse
momento não havia uma constatação fidedigna de que houvesse sido utilizado ou
manipulado no século I.
O ferreiro insistiu em revelar-me seu segredo. Mas depois de assegurar-lhe de
que eu só queria averiguar o lugar de origem do “misterioso material” que permitia
a confecção de semelhante arma, levou-me a uma pequena cobertura de palha,
mostrando-me uma pastilha de uns 75 milímetros de diâmetro, cor de chumbo,
muito semelhante aos discos usados no hockey sobre o gelo. Era o famoso wootz
ou aço fabricado na Índia e que – isso não me quis dizer – havia começado a ser-
lhe entregue por uma das caravanas mesopotâmicas.
No terceiro forno, sempre no maior dos segredos, o ferreiro submetia a peça de
wootz a temperaturas que oscilavam entre 650 e 850 graus Celsius, forjando
depois o aço. (Os aços com alto teor de carbono são dúcteis nessa gama de
temperatura.) Sem dispor de termômetros, esses engenhosos ferreiros avaliavam
as diferentes temperaturas por antiquíssimas referências, transmitidas de pais para
filhos, como a encontrada no templo de Balgala, na Ásia Menor. Dizia assim:
“Esquentar-se-á o bulat [aço de “Damasco”] até que não brilhe, tal qual o sol