Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 3 de 10 · parte 3/8

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Cavalo de Tróia 2: Massada

9 de abril, domingo ⠀愀渀漀 ㌀ )

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

duvidosa eficácia como sedativo. Pouco depois, na casa de Elias Marcos, teria

ocasião de testar suas decantadas excelências.

Ao trasvasar os 250 gramas da poção em uma minúscula redoma de vidro

verde, o médico não deixou de exaltar “minha alta inteligência e melhor gosto”,

assegurando-me que havia feito uma boa compra. Mas seus desmedidos elogios

converteram-se em gritos de admiração e surpresa quando, obrigado pelas

circunstâncias, não tive alternativa senão colocar em suas engelhadas mãos um

denário de prata... Naquele momento carecia de moeda divisionária e, para minha

desgraça, os uivos de alegria do médico atraíram os demais vendedores, que se

precipitaram para mim como corvos carniceiros sobre uma suculenta peça.

 

Saltei como pude por entre aquelas bugigangas e os cestos de frutas e

hortaliças, safando-me das garras dos gesticulantes e falastrões perfumistas,

alfaiates, sapateiros e demais artesãos, fugindo rua abaixo e confundindo-me entre

os peões que entravam e saíam do agitado bazar.

Ninguém seguira atrás de mim. Uma vez reposto do ataque, cruzei a “primeira

muralha”, margeando o mastodôntico palácio dos Asmoneus na direção oeste. O

grandioso edifício, que seria restaurado e ampliado por Agripa II, marcava para

mim o início da cidade baixa.

Aquela zona de Jerusalém achava-se ligeiramente mais bem urbanizada do que

o território dos tírios, gregos, sírios e demais “impuros pagãos”. Algumas de suas

vielas, calçadas com pedras brancas e calcárias, guardavam um simulacro de

paralelismo, quase obrigatório devido ao profundo desnível entre os dois extremos

do setor sul da Cidade Santa. O que se situava à sombra da muralha ocidental,

dominado pelo palácio de Herodes e os jardins reais, levantava-se em uma das

cotas máximas de Jerusalém: 760 metros. Dali, os cachos de casas cúbicas, caiadas

e de mesquinhas portas e janelas, precipitavam-se em sucessivos e intermináveis

terraços para o lado oposto: o muro oriental. Nesse lugar, como já disse, junto à

piscina de Siloé e à Porta da Fonte, o nível do terreno achava-se muito mais baixo:

660 metros, aproximadamente. Tão acentuada inclinação havia obrigado os

construtores a uma edificação escalonada, aberta a cada 50 ou 100 metros por

ladeiras, mais do que ruas, que, nascendo no palácio de Herodes, o Grande,

cobriam os mil metros que separavam dito ponto do ângulo sul. Eram estas as

“artérias” mais bem pavimentadas, dispondo, até, de pequenos canais centrais que

davam vazão à água nas grandes chuvas. Dispunham igualmente de outra “rua”

principal, a do mercado sul, que corria paralela ao muro oeste do Templo e da qual

partia outra trama de vias menores, tão escuras, estreitas e pestilentas quanto as

que eu acabava de deixar para trás. O piso da artéria de pórtico suportava as

aduelas de um arco, hoje conhecido como de Robinson, que ligava o Átrio dos

Gentios com a parte norte.

Pressionado pelo tempo e sem o menor desejo de repetir minha anterior e

agitada experiência, tomei como referência as altas torres de Mariamme e Phasael,

no palácio herodiano, dirigindo meus passos para o poente. Contornei o bairro das

tinturarias e, após alguns momentos de hesitação, identifiquei a grande casa de

Anás e o murinho gradeado que cercava o memorável pátio das negações de Pedro. E a coisa de um minuto, ao dobrar uma das esquinas, ofereceu-se diante de

mim a luxuosa mansão dos Marcos.

Eliseu, com certa premência, recordou-me que faltavam duas horas e meia para

o meu obrigatório regresso ao módulo.

Avancei rapidamente, passeando a vista pela sólida fachada de pedra

trabalhada, trazida pelos pais de Elias Marcos das pedreiras de Beth-Kerem, em

uma colina próxima a Teqoa. Aquela mansão de dois pavimentos, de tão cálidas

recordações, parecia morta. Silenciosa... Postei-me diante da alta e pesada porta

de carvalho, contemplando e reconhecendo a mezuza que lhe adornava o flanco

direito: uma fina tira de madeira de sicômoro de 10 por 3 centímetros, encravada

na ombreira e em cuja superfície haviam sido gravados a fogo os mandamentos de

Deus. Todo judeu respeitoso para com a tradição punha especial empenho em

tocar a mezuza com os dedos e depois levá-los aos lábios, ao deixar o lar e ao

retomar.

Inspirando profundamente, empurrei uma das folhas, que girou

preguiçosamente nos gonzos.

 

Transpus o curto vestíbulo e, ao atingir o espaçoso pátio a céu aberto, distingui

ao fundo algumas caras conhecidas. O jovem João Marcos, de cócoras, observava

atentamente um dos serviçais. Armado de um longo bastão, o criado batia com

ímpeto um inflado odre de pele de cabra que pendia de um trípode de madeira. Um

segundo criado, ajoelhado diante das toscas tábuas, segurava dois deles,

procurando com que as certeiras pancadas não os deslocassem do lajedo

avermelhado. Era uma ancestral e habitual fórmula, entre os povos do Oriente,

para fabricar a manteiga. O odre era enchido com leite azedo, geralmente de cabra

ou ovelha, já que o de camela não tem nata, e, de acordo com os costumes de

cada região, golpeado ou agitado, remexendo-se assim o conteúdo.

– Paz aos desta casa!

Ao ouvir minha tímida saudação, o filho de Elias voltou o rosto, enquanto o

criado suspendia o trabalho. Os negros olhos do audaz adolescente abriram-se de

par em par e, de um salto, atirou-se para mim abraçando-se ao meu peito.

– Jasão!... Ouviste o que dizem as mulheres?

Tomei seu rosto entre minhas mãos e, agradecendo aquele gesto de afeto,

sorri-lhe, fazendo com a cabeça um gesto negativo.

– Onde tens estado? Todo mundo fala do Mestre... Sua tumba está vazia. As

mulheres dizem...

Passei meus braços sobre seus ombros e ele, atropeladamente, enquanto nos

aproximávamos dos criados, foi-me informando de alguns dos pormenores dos

sucessos registrados pouco antes.

– Paz, irmão! – responderam os serventes, retomando o trabalho.

O rapaz, cada vez mais excitado, saltava de um assunto a outro, multiplicando

minha já considerável confusão. Pedi-lhe que se sentasse e, acariciando seu rosto

de pomos marcados, tomei a iniciativa.

– Dize-me, filho... As mulheres estão aqui?

– Sim, estão, amigo Jasão.

A afirmativa partiu de Maria, a mãe, que, com o rosto radiante de felicidade,

olhava-me da porta situada às costas dos criados, no extremo oposto ao lugar por

onde eu ingressara no pátio. E, ainda que não fosse costume entre os judeus,

apressei-me a sair ao seu encontro e aliviá-la do pesado cântaro que trazia ao

quadril esquerdo.

– Bem-vindo, irmão!

E, sem mais comentários, encaminhou-se a um dos cantos do pátio, cuidando

do cozimento do pão. Segui-a em silêncio. Ardia em desejos de interrogá-la, mas,

prudentemente, aguardei que concluísse. A mulher inclinou-se sobre uma prancha

de ferro convexa, examinando as dez ou doze tortas redondas que já

apresentavam uma apetitosa tonalidade dourada. Aquela espécie de escudo

metálico descansava sobre uma lareira igualmente circular, feita de negras pedras

basálticas. Junto ao fogo, esparramados pelo piso, contei três alguidares de pedra

de diferentes diâmetros e profundidades, um grande caldeirão de bronze e outra

vasilha pequena de metal. Uma vez moído o grão, as mulheres haviam disposto a

massa, feita à base de farinha, água, sal e levedura, que estava dividida naqueles

recipientes. Uma vez amassada a mão, a pasta leitosa era delicadamente cortada

em forma de tortas e posta a descansar sobre o candente e improvisado forno.

Maria tocou um dos pães com a ponta do indicador esquerdo e, suspirando,

endireitou-se e levou as mãos aos rins:

– Esta dor acabará comigo...

Antes que eu pudesse interessar-me por sua saúde, Maria perdeu-se pela

escura portinha pela qual surgira. Coloquei o cântaro no chão e vi que se tratava de

leite quente. João Marcos, de novo a meu lado, havia compreendido minhas

verdadeiras intenções. E, disposto a satisfazer “ao pagão que, segundo ele, havia

demonstrado mais coragem do que muitos dos discípulos de seu amado rabi”, fez-

me a pergunta-chave:

– Queres falar com elas?

Agradeci sua boa vontade, mas fiz-lhe ver que talvez devesse aguardar a

permissão de sua mãe. E estávamos nisso quando, tão diligentemente como havia

desaparecido de nossa vista, assim se apresentou de novo a esposa de Elias

Marcos. Carregava uma larga bandeja de madeira e, sobre ela, duas pilhas de

vasilhas fundas igualmente de alva madeira de pinho.

Ao ver-me esboçou um sorriso de cumplicidade. Naquele instante não

compreendi a razão de sua transbordante alegria. Mas logo o soube. Ela, como

Davi Zebedeu e outros poucos seguidores mais, lembravam e acreditavam na

promessa do Galileu. Maria fora das primeiras a conhecer a notícia do sepulcro

vazio e não hesitara em associá-la com a prometida ressurreição. Fraco serviço o

dos evangelistas não deixando registro desta elite de indefinidos personagens que,

diversamente dos apóstolos, souberam conservar-se à altura das circunstâncias! Mas não nos precipitemos...

Fez-me sinal que a ajudasse com a bandeja. Depois recolheu os pães, ajeitou o

cântaro no quadril, piscou-me um olho e me fez acompanhá-la. A aguda intuição da

hebréia vinha simplificar meu objetivo...

João Marcos, alvoroçado, correu adiante, desaparecendo na penumbra do

vestíbulo. Quando comecei a subir os degraus que conduziam ao pavimento

superior, meu coração acelerou. Se as notícias se confirmassem, ali mesmo, no

próprio cenário da última ceia, estaria a maior parte dos íntimos de Jesus de

Nazaré. No entardecer da véspera, sábado, como ficou dito, os onze apóstolos e

outros discípulos haviam celebrado algo assim como uma assembléia de urgência,

em que analisaram a situação. E ainda que eu imaginasse qual seria o estado de

ânimo geral, a extraordinária possibilidade de verificá-lo por mim mesmo deixou-

me excitado. Que me esperaria do outro lado daquela porta?

 

Enganei-me. A cena que se ofereceu a meus olhos foi mais dolorosa e

deprimente do que eu havia imaginado.

Maria foi a primeira a entrar. E seu filho, detendo-se, deu-me passagem.

Lembro-me de que minha primeira sensação foi muito desagradável. Um

característico e azedo odor a lugar fechado e longamente ocupado por seres

humanos. A luz matinal entrava muito reduzida pelas esguias janelas daquela

memorável sala retangular de 20 metros de comprimento por 6 ou 7 de largura. E

os candelabros pendentes das paredes, com suas amareladas e vacilantes chamas,

não eram suficientes. Sobre a mesa em forma de “U” os criados haviam colocado

outro par de lâmpadas de azeite que contribuíam para endurecer os perfis dos

presentes.

Não foi fácil adaptar-me e começar a distinguir as formas e silhuetas dos

ocupantes da escura e carregada sala. A maior parte dos divãs continuava

praticamente nos mesmos lugares onde os havia visto na noite de quinta-feira:

estrategicamente divididos ao redor do “U”. Só um havia sido deslocado para junto

da parede da direita (sempre tomando como referência a porta de entrada da

sala). Meus olhos foram ajustando-se à penumbra e, entre as sombras, enquanto a

mãe de João Marcos punha o leite sobre a mesa, livrando-me da bandeja, pareceu-

me ouvir uns gemidos. Ao fundo, no ângulo esquerdo, descobri então a origem dos

velados lamentos. Eram quatro ou cinco vultos.

Avancei uns dois passos, ouvindo o ranger do assoalho. João Marcos agarrou

meu braço e puxou-me para aquele lado. Diante de mim, reclinados ou sentados

em nove dos doze bancos, achava-se a maioria dos apóstolos. O mutismo entre

eles era total. Em uma primeira e incompleta observação não soube se os que se

encontravam recostados dormiam ou simplesmente descansavam. Creio que nem

me viram. Deixando-me arrastar pelo menino, desfilei lentamente diante dos

abatidos galileus. Sim, talvez seja essa a expressão mais apropriada: abatidos,

com as cabeças pendentes e as mãos escuras e crispadas entre as pregas dos

mantos multicoloridos. Detive-me, contando de novo e procurando identificá-los. Faltavam dois. O Iscariotes, por certo; e o outro... Mas, qual? O décimo homem, o

que se achava reclinado no divã recuado, tinha o rosto colado à parede. Em torno

do “U” distingui os irmãos Zebedeu; Mateus Levi; os gêmeos, que, com sua

habitual presteza, ergueram-se e ajudaram Maria a encher as canecas com o leite

quente; Felipe, o “intendente”, e Bartolomeu, deitados ambos e com as cabeças

semicobertas pelos roupões; o chefe de todos, André, que não deixava de olhar

para o lado de onde partiam os intermináveis soluços, e Pedro, sentado e

esfregando sua cara redonda com ambas as mãos. O décimo apóstolo, o que se

ocultava à direita da sala, só podia ser Simão, o Zelote, ou Tomé...

João Marcos terminou por conduzir-me até o ponto onde se agrupavam, de

fato, cinco mulheres. Uma delas era rodeada e assistida pelas demais. Mas, de

súbito, quando me preparava para averiguar a identidade daquela que gemia, uma

conhecida, potente e rouca voz obrigou-me a virar para trás.

– Visões!... Isso é o que tivestes! Visões próprias de mulheres assustadiças e

tolas!

Era Pedro. De pé, gesticulando, pescoço inchado por aquele súbito

arrebatamento, prosseguiu em tom de censura:

– A tumba vazia!... O jejum e o choro te transtornaram...

Maldita sejas! Por que não nos deixas em paz com nossa dor?

André intercedeu, pedindo calma a seu fogoso irmão. E Simão, resmungando,

acedeu em sentar-se de novo, enquanto Judas de Alfeu, um dos gêmeos, oferecia-

lhe uma caneca e um dos pães. Mas com um safanão o pescador atirou a caneca

ao solo, e o leite se esparramou pelo brilhante piso de madeira. A violenta reação,

típica de Pedro, só contribuiu para exaltar mais os ânimos. E vários dos discípulos

recriminaram sua atitude, surgindo daí uma áspera troca de insultos e impropérios.

Aquela explosão, como me confirmaria André pouco depois, outra coisa não era

senão a lógica e humana conseqüência da forte pressão a que se achavam

submetidos desde a prisão e crucificação do rabi. Não eram as dúvidas ou o

desespero que haviam aturdido a inteligência daqueles homens. Era algo muito

pior: o medo do Sinédrio e da guarda do Templo e a vergonha individual e coletiva

diante da ignominiosa execução do seu líder. O fato de haverem permanecido no

pavimento superior da casa de Marcos por tantas horas, com as espadas na cinta e

sem forças para voltar para casa, na Galiléia, era a melhor e mais palpável

demonstração do terror que os dominava. Certamente, essa tensa situação havia-

lhes feito esquecer até a promessa de Jesus de voltar à vida. Por isso, quando as

mulheres correram agitadas para a casa dos Marcos, todos, sem exceção, as

tomaram por loucas, estúpidas e visionárias.

E, no meio dos gritos e maldições, enquanto Maria, silenciosa e pacientemente,

procurava enxugar o leite derramado e João Marcos, assustado, agarrava-se ao

meu braço, uns baques secos retumbaram na sala. O discípulo que estava no divã

ao pé da parede havia começado a golpear a fronte contra a pedra. João Zebedeu

saltou de seu banco e precipitou-se para seu companheiro, agarrando-o pelos ombros. Mas o robusto apóstolo, tomado de um ataque de histeria e desespero,

continuava lançando seu crânio contra a parede. Impotente, o esguio e jovem

discípulo voltou-se para o grupo pedindo ajuda. André e os gêmeos rapidamente

puseram-se ao seu lado e imobilizaram Simão, o Zelote. Tratava-se, efetivamente,

desse impulsivo simpatizante do grupo revolucionário. Precisamente como o Mestre

previra na “última ceia”, aquela tragédia havia-o lançado em uma desolação que

não tinha igual entre seus irmãos. Todos os seus ideais, seus sonhos e suas ânsias

de liberdade haviam desmoronado com a morte de Jesus.

Desfiz-me do cajado e, aproximando-me do desesperado galileu, esforcei-me

por examiná-lo. Simão, com os olhos fechados, lutava por desembaraçar-se dos

braços de seus amigos. Cabeceava repetidamente, procurando a parede, e emitia,

ao mesmo tempo, uma série entrecortada de agudos e angustiados gritos. A muito

custo agarrei-lhe o braço e tomei-lhe o pulso. Estava muito acelerado. Apanhei a

vasilha com a cevada e o leite coalhado e, a um sinal meu, André e o jovem

Zebedeu tentaram abrir-lhe a boca. Sem hesitar, derramei parte do líquido entre

sua negra e hirsuta barba. Ao sentir a repugnante beberagem, seus olhos abriram-

se espantados. Estavam vermelhos devido às longas horas de pranto. Pouco a

pouco, entre suspiros e esporádicos estremecimentos, se foi acalmando. Não sei se

foi efeito daquela mistura malcheirosa ou das palavras de consolo de seus irmãos,

mas Simão, o Zelote, caiu logo em um doce torpor. E, revirando os olhos, voltou a

reclinar-se no divã, totalmente alheio a quanto acontecia ao seu redor.

Os gêmeos permaneceram a seu lado, enquanto João e André, com um olhar

muito triste, retomavam à mesa. O patético espetáculo de Simão atirando-se

contra a parede havia acabado com a discussão. E aqueles oprimidos seguidores do

Nazareno entregaram-se, impotentes, a obscuras reflexões.

O silêncio porém, duraria pouco. Após recuperar a “vara” dei meia-volta e

resolvi prosseguir em minhas averiguações junto às mulheres. Nem foi preciso.

Uma delas, a que havia estado soluçando, acabava de destacar-se do grupo e

parara a meio metro de Pedro. Era Maria Madalena, uma das hebréias mais

destacadas (ao mesmo tempo audaciosa e sensata) de quantas seguiam o rabi.

Ao vê-la, fiquei paralisado. Agora começava a compreender o porquê de seus

queixumes. Aquela brava mulher, de queixo hipoplásico, 118 rosto estreito e

triangular, olhos perdidos em profundas órbitas sombreadas por largas olheiras,

encarou valentemente o homem que a havia advertido. A fúria inflamou as artérias

de seu grácil pescoço e uma temível chispa faiscou no seu olhar de azeviche. Pedro

mal teve tempo de levantar seus apagados olhos. Como um terremoto, com suas

ossudas e longas mãos sobre o magro peito, Maria jurou-lhe pelo divino nome de

Deus que não mentia, que não sofria de alucinação alguma e que – obstinado

galileu! – se quisesse fosse com ela mesma comprovar...

Simão Pedro empalideceu diante da justificada cólera de Madalena. Em sua

veemência, o manto que lhe cobria a cabeça acabou por resvalar para o chão,

deixando a descoberto uns cabelos negros desordenados mas suaves. E os finos cordõezinhos dourados que pendiam dos orifícios dos lóbulos das orelhas oscilaram

ritmadamente, enquanto na silenciosa sala se ouvia o entrechocar de seu colar de

conchas.

Uma das mulheres, discretamente, recolheu o manto, entregou-o à furiosa

Maria e tentou dissuadi-la. Mas ela, que não em vão havia sido cortesã na

industriosa e dissoluta vila de Magdala,119 sabia enfrentar os homens; e, com a

força que proporcionam a segurança e o conhecimento da verdade, refutou sua

companheira, acrescentando:

– E não só dou testemunho, como estas outras, de que a tumba estava vazia...!

Também vos juro que o vi e falei com Ele!

Pedro, farto de tanto palavrório, pôs-se a esfregar a calva, encolheu os ombros

e voltou as costas.

João Marcos salvou a embaraçosa situação. Antes que Madalena se atirasse

novamente contra o incrédulo apóstolo, o menino se interpôs entre ambos os

contendores suplicando à mulher que me relatasse o que dizia haver visto e ouvido.

O espontâneo impulso do caçula da casa pareceu acalmar os nervos da hebréia. E

diante da expectativa geral fui acomodar-me em um dos divãs vazios, renovando o

pedido de João Marcos. Madalena observou-me com desconfiança. Aparentemente,

eu era o único homem, entre os ali reunidos, que dava atenção a suas palavras. A

dona da casa, Maria, contribuiu para distender a desagradável atmosfera,

enchendo as restantes canecas e oferecendo, solícita e conciliadora, as já frias

tortinhas de pão. Todos aceitaram com prazer, mesmo Pedro, que, com a mesma

espontaneidade, pediu perdão à esposa de Marcos.

Então, a de Magdala, com seu ar cansado, sem mostrar demasiado crédito à

minha boa fé, recolheu as pregas de sua túnica verde e sentou-se de pernas

abertas no divã de honra. Ao deixar a descoberto parte de suas pernas, um leve

brilho fez com que eu fixasse a vista em um de seus tornozelos. À trêmula luz das

lanternas, vi reluzir uma pérola pequena, presa a uma correntinha que envolvia o

tornozelo.

Sorri para ela, animando-a a começar. E ela, após cobrir-se com o manto,

suspirou com grande sentimento, cravou seus olhos em mim e, por fim, deu-me um

sorriso de agradecimento que revelou uma dentadura impecável. Eu estava a ponto

de conhecer o que, segundo aquelas mulheres, constituía o primeiro de uma longa

cadeia de misteriosos e inquietantes acontecimentos...

– Estas que vês aqui – e Madalena apontou as quatro mulheres que haviam ido

sentar-se a seus pés –, e outras dez ou quinze que crêem no reino do nosso

Mestre, passamos a festa do shabbat recolhidas na casa de José de Arimatéia. Era

tão grande nossa tristeza e tão profunda nossa desolação que muitas de nós

acreditamos que íamos morrer.

“E antes de apontar o primeiro dia da semana, de acordo com o prometido a

José e Nicodemos, levamos os azeites e aromáticos...

– Então – interrompi-a, cuidando de reunir todos os dados – eram cinco as mulheres?

– Sim.

E Maria foi indicando e identificando cada uma delas.

– Joana, esposa de Chuza... Maria, a mãe dos gêmeos Alfeu... Salomé, de João

e Tiago de Zebedeu, e Susana, a mais jovem de Ezra, o de Alexandria.120

Apenas o curtido rosto de Salomé me era familiar. A verdade é que eram tão

numerosas as mulheres que seguiam habitualmente Jesus e o grupo apostólico que

era difícil memorizar seus nomes e fisionomias. Mas algum dia terei de falar destas

esforçadas, imprescindíveis e esquecidas discípulas do rabi da Galiléia. Sim, quem

sabe mais adiante, supondo que Deus continue iluminando-me e sustentando-me.

– Caminhamos apressadas. Não tardaria a amanhecer e queríamos concluir o

mais rápido possível o doloroso transe da lavagem e preparação do corpo de nosso

Senhor. Chegamos à tumba e ao vermos a lápide...

Madalena falava muito rapidamente. Eu precisava de mais detalhes. Por

exemplo, o que sabiam elas das patrulhas de vigilância colocadas no sepulcro?

Como pensavam agir para que elas lhes permitissem o acesso à cripta?

– Estava removida! Compreendes, Jasão?

De novo defrontava-me com uma delicada situação. Devia mover-me com tato

e delicadeza extremos. Por nada do mundo poderia sugerir, antecipar ou revelar o

que eu já sabia. Isso se chocaria com o rígido código moral da operação. Assim,

pesando meus pensamentos e palavras, fui conduzindo a veemente Madalena para

onde me interessava.

– Pelo caminho – prosseguiu a mulher – minhas companheiras e eu havíamos

mostrado certa preocupação com o assunto da rocha. Tu a viste e sabes que se

precisa de quatro ou cinco homens para movê-la. Mas, como te dizia, ao chegarmos

à escada, vimos a pedra deslocada.

Ergui as mãos fazendo-lhe sinal de que desejava falar. Madalena, intrigada,

consentiu.

– Mas... e a guarda?

Minha pergunta despertou interesse entre os apáticos discípulos.

– Ah, sim! Esses bastardos!...

– Estavam lá? – perguntei.

Confundida por tantas e tão excitantes emoções, a hebréia – como eu supunha

– havia esquecido algo. Foi Salomé quem se encarregou de recordá-lo:

– Quando chegamos à Porta dos Peixes cruzamos com uma patrulha da

Antônia. Eram uns dez legionários. E pareciam ter muita pressa. Gritavam entre si e

não cessavam de olhar para trás. Como se alguém os perseguisse...

“Surpreendidas, tentamos descobrir o que acontecia. Aquela zona, tu sabes,

está deserta a essas horas e tememos que houvesse algum perigo...”

– Qual, por exemplo?

– Não sei, talvez bandidos ou animais selvagens. Mas os soldados,

descompostos e suarentos, nos ignoraram e continuaram em sua precipitada marcha para a fortaleza.

Era estranho. Aqueles soldados romanos estavam mais do que acostumados a

enfrentar os salteadores de estrada e as feras. As mulheres deveriam ter levado

em conta essa indiscutível circunstância. Se pareciam fugir, a causa tinha de ser de

outra natureza. Eu a conhecia, mas durante alguns minutos fiquei intrigado. Por

que as cinco hebréias não haviam atinado com a questão?

– Um momento – intervim novamente –, então ninguém as avisou a respeito da

custódia ordenada por Pôncio?

– Não, naquele momento ignorávamos que o sepulcro estivera guardado por

uma patrulha.

Madalena, talvez sentindo algo de suspeito em minhas perguntas, mirou-me

diretamente nos olhos.

– E tu, como sabias dos guardas?

João Zebedeu, que não perdia um detalhe, livrou-me da explicação:

– Ele estava comigo quando, na manhã de sábado, José deu-nos notícias da

suja manobra do Sinédrio.

A mulher ficou satisfeita e, retomando o fio da narrativa, prosseguiu:

– Salomé tem razão. A atitude dos legionários em fuga deixou-nos inquietas.

Mas não a associamos com a sepultura do Mestre. Como te fizemos ver, nem

sequer estávamos a par de que houvera vigilância.

Minhas suspeitas, portanto, tinham fundamento. José de Arimatéia, não sei por

que razão, não as havia informado sobre as patrulhas. Por isso as mulheres saíram

da casa do ancião absolutamente ignorantes do cerco militar que se estabelecera

no sepulcro. Talvez tenha sido melhor assim. Se o soubessem, o mais provável era

que os fatos se houvessem desenvolvido de outra forma. Talvez houvessem

questionado o acesso ao sepulcro e até desistido do propósito. Na verdade, os

caminhos da Providência são misteriosos...

Madalena, como sempre, foi categórica. A julgar por suas palavras, nem ela

nem suas amigas chegaram a pensar sequer na possibilidade de que o rabi

houvesse ressuscitado. Não me cansarei de insistir nesse ponto. Salvo Davi

Zebedeu, os demais discípulos e simpatizantes de Cristo não acreditaram nem um

pouco nas promessas do Galileu. Não fosse isso e aquelas mulheres não haveriam

perdido tempo em preparar os ungüentos e demais utensílios necessários ao

embalsamento.

– ... Assim, mortas de medo – acrescentou –, cruzamos os hortos e chegamos à

propriedade de José.

– Havia já amanhecido?

Madalena, cada vez mais confusa com minhas aparentemente superficiais

perguntas, olhou para suas companheiras tentando lembrar-se.

– Não...

Suas amigas concordaram.

– Mas não faltava muito. Creio que estávamos no final da última vigília da noite.

Por alguns dos detalhes que fui obtendo ao longo daquela instrutiva conversa, e

pelas informações que pude recolher no dia seguinte, em minha entrevista com os

legionários da Antônia, quase estou em condições de afirmar que o encontro das

mulheres com os soldados romanos (os levitas haviam fugido muito antes) pode ter

ocorrido ao redor das 5 ou 5h15 dessa madrugada. Quer dizer, faltando 45 ou 30

minutos para o nascer do Sol. João, o Evangelista, em conseqüência, era o que

mais se aproximava da verdade:

“Quando ainda estava escuro”. (João, 20,1)

– Durante algum tempo, surpreendidas ante a visão da tumba aberta, não

conseguimos mover-nos da borda da escada. Não sabíamos o que fazer. E o medo

se foi apossando de nós todas. Algumas achavam que devíamos regressar e

transmitir o fato aos homens. Mas eu sentia uma curiosidade irresistível e por isso

animei-as a descer a escada. Deixamos os volumes no chão e, tirando forças da

fraqueza, aproximei-me da boca da gruta. Tudo estava escuro e, não dispondo de

tocha, minha primeira observação do interior foi nula.

Sorri para dentro de mim. A narração de Madalena começava a parecer-me

“familiar”... E entendi seu terror.

– Minhas companheiras, imóveis ao pé da escada, suplicaram-me que desistisse

e voltasse com elas. Mas ainda que meu corpo inteiro tremesse tomei a firme

decisão de entrar e averiguar o que estava acontecendo. E assim fiz. Sem pensar,

penetrei na escura gruta. Tateando, dei enfim com o banco de pedra sobre o qual

devia estar o corpo do Senhor. Ao verificar que estava vazio, quase desmaiei. Gritei

horrorizada. E, meio enlouquecida pelo susto, com as mãos estendidas, lutei por

encontrar a saída. Mas o pânico perturbou-me os sentidos e fui chocar-me com uma

das paredes do sepulcro. Foram momentos angustiosos...

Emocionada pelas lembranças, fez uma pausa.

– Quando, por fim, palpei as arestas da entrada e saí para o exterior, minhas

companheiras haviam desaparecido.

Olhei para as quatro atentas mulheres e uma delas, Susana, confirmou-o:

– Ao ouvir o alarido de Maria, a tensão e o pavor explodiram e nos precipitamos

escada acima. Não sabíamos o que estava ocorrendo, mas corremos. Corremos

como loucas, tropeçando aqui e ali, até chegarmos às muralhas. Uma vez junto à

cidade, enquanto tentávamos recuperar o fôlego, Joana, mais serena que as

outras, fez-nos ver que havíamos abandonado Maria. Discutimos, mas, por fim, de

mãos dadas e tiritando de medo, refizemos o caminho e entramos de novo no

horto.

Madalena desculpou suas amigas com um sorriso. E acrescentou:

– Quando as vi aparecer lancei-me ao seu encontro gritando-lhes: “Não está

mais! Levaram-no!”.

Estas primeiras expressões de Madalena, de meu ponto de vista, eram

especialmente importantes. Refletiam suas autênticas convicções e pensamentos em tão crítico momento. Não gritou: “Ele ressuscitou!”. Simplesmente, sua lógica

materializou o que lhe parecia evidente: “que o haviam levado”. Mas, desejoso de

escutá-lo de seus próprios lábios, carreguei nas tintas do grito:

– Levaram-no? Isso foi a primeira coisa que pensaste?

Humildemente, sem o menor desejo de arrogar-se uma falsa fé na promessa de

Jesus, respondeu com um categórico “sim”.

Fiz silêncio, emocionado por sua sinceridade.

– Então, quase arrastando, as conduzi até a boca da gruta e obriguei-as a

entrar e certificar-se do que eu dizia.

– Assim o fizemos – confirmaram todas.

– E qual foi vosso primeiro pensamento?

– O de Maria: que alguém havia roubado e trasladado o corpo para outro lugar.

Pouco me faltou para indagar-lhes se haviam visto “algo” mais. Por exemplo, os

“anjos de vestes luminosas” citados pelos evangelistas; ou se ouviram ou sentiram

o “terremoto” de que fala Mateus. Mas optei por esperar e tatear o assunto um

pouco mais adiante, quando elas tivessem concluído sua versão, e com a

delicadeza suficiente para não levantar suspeitas. De qualquer forma, era muito

sintomático que nenhuma das mulheres houvesse feito referência alguma a um

acontecimento tão fora do comum como a possível aparição de um “anjo do

Senhor”. A haver ocorrido tal coisa, nenhuma a teria ignorado...

– E que fizestes depois?

– Tão confusas estávamos que durante um bom tempo ninguém disse nada.

Fomo-nos sentar na segunda pedra, a que estava atirada no centro da vereda, e

começamos a discutir entre nós. Nem José nem Nicodemos nos haviam dito que o

corpo devia ser trasladado. Chegamos a nos sentir até magoadas pelo que

considerávamos uma falta de delicadeza. Mas quase no mesmo instante

repudiamos essa possibilidade. O furto teria de ser obra de outras pessoas.

Seguramente, comentamos, os responsáveis foram Caifás e suas ratazanas... Além

do mais, havia outro pormenor inexplicável. Quando começou a clarear, com um

pouco mais de luz e serenidade, entramos de novo na gruta e constatamos a

estranha ordem em que estavam os panos.

Aquilo me interessava particularmente. Simulando não haver entendido, pedi-

lhes que repetissem as explicações. Efetivamente, as mulheres, mais perspicazes

do que os homens para essas questões, também haviam reparado na singular

disposição do sudário e do lenço.

– Era muito curioso – insistiram. – Se alguém rouba um corpo, por que se

preocuparia em deixar o lençol tão bem disposto?

Naqueles momentos de confusão, apesar da evidência da mortalha, Madalena e

suas companheiras continuaram convencidas de que tudo aquilo era obra humana.

Foi preciso acontecer “algo” especial para que começassem a entender...

 

– O primeiro toque das trombetas do Templo – continuou Madalena – tirou-nos

de tão emaranhada discussão. E já estávamos prontas para regressar e comunicar os fatos quando, de repente, ao subir a escada do panteão, vimos um homem sob

as árvores.

– E como soubeste que era um homem?

A súbita pergunta de Simão Pedro envolvia uma irritante carga de ironia. E a

maioria dos discípulos riu do aparte.

O rosto de Madalena voltou a endurecer. Nesse momento reparei no jarrão de

barro colocado sobre a mesa. Ali continuavam os ramos de alfazema e os lírios

brancos e cor de amora que eu havia colhido nos arredores do Getsêmani e que

haviam enfeitado a mesa em “U” durante a última ceia. Ainda conservavam boa

parte de sua fragrância e viço. No intento de aliviar a tensão e provar minha fé nas

palavras da hebréia, estendi o braço e apanhei uma daquelas delicadas flores.

Levantei-me, abri as palmas de suas mãos e, com um doce sorriso, roguei-lhe que

a aceitasse. Maria, comovida, passou da dor e da raiva à gratidão. Voltei para o

meu divã, ante o assombro dos mordazes discípulos e o olhar de aprovação de

João Marcos, e fiz-lhe ver que ardia em desejos de ouvir o resto.

Fazendo um esforço – e respondendo diretamente a Pedro –, Madalena

prosseguiu:

– Sua túnica e seu manto eram de homem. Alguma coisa diferentes, sim, mas

os de um homem...

– Por quê? – perguntei intrigado.

– Não saberia explicá-lo.

Passeou o olhar pelas suas companheiras como que buscando apoio.

– Eram de linho e lã. Disso quase estamos seguras. Mas suas cores... As roupas

pareciam nevadas.

Pedro soltou outra inoportuna e sonora gargalhada. Mas dessa vez Maria fez

como se não tivesse ouvido.

– Brilhantes, queres dizer? – animei-a.

A cabeça de Madalena oscilou à direita e à esquerda, em sinal de vacilação.

– Não exatamente. Seu brilho era fosco. Em um primeiro momento tive a

impressão de que as vestes estavam cobertas de pequeníssimos flocos de neve.

Mas sei que isso é impossível...

– Está bem. Continue, por favor.

– Ficamos quietas. Em silêncio. Observando-o. Estava a certa distância...

– A quanto?

– Não sei... Sob as árvores frutíferas.

Isso queria dizer a 4 ou 5 metros da borda da escada.

– Parecia concentrado em algo que havia no chão. Parece-me que eram uns

mantos amarelos e uns bastões com cravos.

– Uns bastões? – perguntei, simulando estranheza.

Mas as mulheres deram de ombros. Evidentemente não sabiam a razão da

presença de tais objetos nas proximidades do sepulcro. Então guardei prudente

silêncio.

– Uma de minhas companheiras sussurrou-me alguma coisa sobre o jardineiro

de José. Mas não estávamos certas. Era tão alto e forte como o horticultor, isso

sim, mas vestia-se de forma diferente. Além disso, seu rosto...

Ao pronunciar aquela palavra, o silêncio na sala fez-se mais denso. Ainda que

alguns tratassem de dissimular, a verdade é que a quase totalidade dos apóstolos

seguia o relato com especial curiosidade.

– ... Seu rosto, Jasão, não te rias, era como o cristal.

Claro que não movi um só músculo. E a mulher agradeceu minha discreta

atitude.

– ... É tão difícil de explicar!...

– Queres dizer que seu rosto era luminoso?

– Não, ninguém lembra que aquele homem emitisse luz. Era outra coisa.

Conquanto nos mantivéssemos a uma certa distância, pudemos observar seus

traços e seus cabelos. Não eram como os de um ser humano. Pareciam

transparentes!

“Transparentes?” Aquilo sim era novo para mim. E devo ser sincero. Ao ouvi-lo

duvidei. Estava alvorecendo. A luz era ainda difusa. A visão das coisas, muito

parcial e limitada. As mulheres estavam submetidas a um intenso choque... A

imaginação e o desejo de voltar a ver o Mestre bem que poderiam tê-las levado a

uma ilusão. Era preciso que eu presenciasse alguma daquelas supostas aparições.

Assim, lutando por não deixar transparecer minha dúvida, tratei de eliminar as

descrições perguntando-lhe sem rodeios:

– E que ocorreu?

– Minhas amigas não se atreveram a dar um passo sequer. Mas eu, pensando

que aquele homem soubesse algo sobre a desaparição do corpo, fui até ele; e

quando cheguei a 2 ou 3 metros chamei sua atenção perguntando-lhe: “Para onde

levaste o Mestre? Onde repousa? Dize, para que possamos recolhê-lo”. O

estrangeiro não respondeu. Nem sequer olhou para mim. Ali continuou, com os

longos braços caídos, a cabeça baixa, olhando para o chão.

– Estrangeiro? – indaguei. – Por que o chamaste “estrangeiro”?

– Porque não o conhecia. Além disso, suas roupas...

Ainda que agora, em nossa época, o gesto de Maria nos pareça normal, indo ao

encontro de um homem e interrogando-o, naquele tempo não era assim. Muito ao

contrário. A sociedade julgava mal a mulher que tivesse a ousadia de dirigir a

palavra aos homens ou de deter-se na rua para conversar com um estranho.

O caso é que Madalena, no limite de sua resistência, e não recebendo resposta

por parte do misterioso personagem, pôs-se a chorar e deixou-se cair sobre o solo

argiloso do horto.

– Em meio ao meu desespero – acrescentou Madalena com renovada energia –,

aquele “estrangeiro”, por fim, ergueu o rosto e falou-nos.

– Lembras suas palavras... exatamente?

– Uma por uma. Parece-me que o estou vendo e ouvindo...

Maria levou o lírio aos lábios. E as asas de seu nariz tremeram levemente.

“– ‘Que buscais?...’

“Fiquei surpreendida. Aquela voz... Enxuguei as lágrimas como pude e,

olhando-o, consegui responder:

“– ‘Buscamos Jesus... enterrado na tumba de José... Mas já não está. Sabes

para onde o levaram?’”.

A impaciência me consumia. E, sem deixar que ela terminasse, abordei seu

comentário a respeito da voz do “estrangeiro”, pedindo mais detalhes.

Madalena, com os olhos umedecidos, moveu a cabeça afirmativamente. Creio

que lhe faltavam as palavras. Finalmente, em um tom mais cálido, quase

confidencial, superou sua emoção:

– Era Ele... Então o soube. Sua voz... sua voz... Ocultou o rosto entre as mãos

e, por um instante, pensei que ela estava a ponto de começar a chorar. Todos ali

presentes, comovidos, mal se atreviam a respirar.

– Sua voz! Sim, eu a conheço... Era Ele!

– Mas que respondeu?

– “Este Jesus não vos disse, já na Galiléia, que morreria, mas que

ressuscitaria?”

– Estás certa de que essas foram as palavras do “estrangeiro”?

Maria, apertando os dentes, afogada em sua emoção, apenas pôde responder

com vários e sucessivos movimentos de cabeça. Por fim, suas lágrimas correram

pelas brancas faces. Algumas das mulheres apressaram-se a consolá-la, enquanto

o silêncio se fazia violento, pesado.

– Todas nos comovemos – prosseguiu Salomé. – Todas compreendemos... Mas

não soubemos reagir... Mas logo ele voltou a falar. Sua voz, doce e afetuosa,

pronunciou um nome:

“– Maria!”.

Esperei que Madalena recuperasse sua calma. Enxugou o pranto e, ao ver que

meus olhos continuavam fixos nela, desculpou-se e pediu-me que relevasse sua

fraqueza. Alguma coisa devia ter notado em meu olhar porque, esboçando um leve

sorriso, exclamou:

– Obrigada, Jasão!... Tu és diferente de todos estes.

O brilho de meus olhos foi a melhor resposta. E a valente hebréia continuou:

– Então, ao ouvir meu nome, já não duvidei. Era o Mestre! Mas como estava

mudado!...

“E, presa de uma mescla de alegria, surpresa e medo, enterrei meu rosto no

pó, murmurando: ‘Meu Senhor!... Meu Mestre!’

“Minhas companheiras me imitaram e caíram igualmente de joelhos, atônitas.

Sei que pode parecer uma criancice, mas, ardendo em desejos de abraçá-lo, beijá-

lo, estreitá-lo em meus braços, fui-me aproximando dele. E, quando me dispunha a

fazê-lo, Ele retrocedeu, dizendo: ‘Não me toques, Maria! Não sou o que tu

conheceste na carne...’”

Interrompi-a de novo. E minha pergunta, claro, devia ter-lhe parecido absurda.

Mas tinha de fazê-la.

– Chegaste a ver os seus pés?

Maria, surpreendida, sem perceber minhas intenções, franziu as feições.

– Não sei... Creio que sim.

– Como eram? – continuei, sem dar-lhe tempo a recorrer à memória.

– Bem... agora me recordo. Espera... sim... eram como o vidro! Sim, Deus meu!

Podia ver a terra através deles!

Não fiz mais comentários. O detalhe da “transparência” me havia transtornado.

Por um lado duvidava, mas, por outro, a segurança da testemunha parecia tão

sólida...

– Claro que não me atrevi a desobedecê-lo. E ali fiquei, de joelhos, absorta...

– Visões! Isso é tudo...

Pedro voltou à sua idéia fixa, movendo-se inquieto em seu divã e remoendo

entre dentes sua teoria.

– Por que crês que te disse que não era o que tu havias conhecido na carne?

E Maria respondeu com uma lógica esmagadora:

– Porque, ainda que tivesse forma humana, não parecia de carne e osso.

– Disse mais alguma coisa?

– Sim. Depois de ordenar-me que não o tocasse, acrescentou: “... Sob esta

forma permanecerei entre vós antes de ir para junto do Pai”.

“Sob esta forma?” A que podia referir-se Maria? Que tipo de “corpo” era o que

asseguravam ter visto? Que novo mistério teria diante de mim?

Madalena levantou-se e, com os olhos fixos no obstinado Pedro, gritou:

– E disse algo mais!

Deu a volta pelos divãs e, aproximando-se do pescador, explodiu:

– “Agora ide todas e dizei a meus apóstolos e a Pedro que ressuscitei e que me

falastes!”.

A reação do rude galileu surpreendeu-nos a todos. Ao ouvir seu nome levantou-

se e, lívido, sem desviar os olhos de Madalena, resmungou:

– Dis... se meu no... me?

– Todas o escutamos – responderam as mulheres ao mesmo tempo.

– Estais... cer... tas?

– “Agora ide todas e dizei a meus apóstolos e a Pedro que ressuscitei e que me

falastes!”

Maria repetiu as palavras de Jesus, pondo especial ênfase na alusão ao

incrédulo galileu.

Compreendi então que aqueles homens, com suas zombarias e críticas, nem

sequer haviam permitido às mulheres explicar-se e narrar o acontecido em sua

totalidade. E algo que dormia no coração de Pedro despertou, fazendo-o reagir. Pôs

o manto nos ombros e, em outro de seus característicos impulsos, saiu da sala

correndo.

Um segundo depois, como que movido por outra mola, João Zebedeu o imitava.

Saltou do banco e correu atrás de Pedro.

Nenhum dos demais discípulos moveu um só dedo. A incredulidade continuava

refletida em seus rostos.

Não pensei duas vezes. Tomei o cajado e, sem trocar palavra alguma com os

presentes, venci a distância que me separava da porta e desapareci.

Em minha mente acumulavam-se ainda muitas perguntas. O relato de

Madalena não havia feito senão estimular minha curiosidade. Mas devia executar o

plano do Cavalo de Tróia. Era imprescindível que estivesse junto a Pedro e João no

momento em que descobrissem a demolidora realidade da tumba vazia. Como

reagiriam? Ocorreriam os fatos como contam alguns dos escritores sagrados?

Nesse aspecto, pelo que já havia visto e ouvido, nem sequer o confiável João

havia respeitado a ordem cronológica daqueles primeiros acontecimentos. E mais:

essa parte de seu evangelho está desordenada. No capítulo 20, como é fácil

comprovar, a famosa corrida para o sepulcro é intercalada antes da aparição do

rabi a Maria Madalena. Lendo o evangelista em questão, tem-se a impressão de

que Maria Madalena foi ao sepulcro sozinha, sem as mulheres, e que, ao descobrir

que ele estava vazio, correu à cidade, deu a notícia aos discípulos e Pedro e João

precipitaram-se para a propriedade de José. Incompreensível.

Como já referi mais de uma vez, e como continuarei demonstrando, a correção

dos evangelistas como historiadores e anotadores dos fatos e ditos de Jesus de

Nazaré deixa muito a desejar...

 

Ao sair da casa estabeleci uma rápida conexão com o módulo, anunciando a

Eliseu que me preparava para cobrir outro dos objetivos do plano. Eram 8h45.

O barulho havia aumentado nas ruas da cidade e, seguindo a inteligente

recomendação de meu irmão, decidi evitar as aglomerações. Havia perdido de vista

os discípulos, mas imaginava qual poderia ser sua rota. Com toda probabilidade

fariam ao inverso o mesmo caminho que eu havia feito para chegar à mansão de

Elias Marcos. Se fosse diligente talvez chegasse ao horto ao mesmo tempo que

eles...

Subi rapidamente a rampa que desembocava na fachada sul do palácio

herodiano, abandonando o recinto amuralhado pela Porta dos Jardins ou do Ângulo.

E dali, correndo sempre em paralelo aos setores oeste e norte da muralha, não

tardei a avistar a dupla corcova rochosa do Gólgota. Estremeci ao reconhecer as

stipes verticais, negras e nuas, recortadas sobre o fundo azul do céu. Procurei não

olhar e continuei minha frenética corrida, em meio aos surpreendidos olhares dos

peregrinos que haviam montado suas tendas ao pé dos muros e que, sentados

sobre suas esteiras, ocupavam-se na moagem do grão, penteavam barbas e

cabeleiras com largos pentes de madeira ou mexiam os grandes caldeirões

comunitários. Deixei atrás o concorrido caminho que partia da Porta de Efraim em

direção a Jafa, mas antes tive de escutar as maldições de um indignado aguadeiro

com quem havia topado e cujo odre, inevitavelmente, rolou por terra. Não estou muito certo, mas creio que minha descida desde a colina do Gareb até o vale do

Tiropeon foi acompanhada de uma ou outra pedra fortemente atirada pelo

atropelado e pelos cuidadores de ovelhas cujos rebanhos ficaram meio

desgovernados à minha passagem.

Ofegante, cruzei o caminho de Cesaréia, correndo ladeira abaixo, ao encontro

da rota que conduzia ao norte. Ao chegar ao caminho de Samaria detive-me por

alguns segundos. Necessitava de oxigênio. Tomei a vertente oriental da calçada,

procurando reconhecer a propriedade de José. Uma cintilação fez-me voltar o rosto

para a esquerda. E com uma não pequena inquietação distingui ao fundo do

poeirento caminho uma turmae romana: uma pequena unidade de cavalaria. No

total, uns trinta cavaleiros, com suas reluzentes couraças de ferro trançado e seus

característicos calções vermelhos justos. Certamente voltavam à Fortaleza Antônia.

E, ainda que seus cavalos tordilhos cavalgassem a passo e se achassem ainda a

uns 200 metros, tratei de evitar novo encontro com as longas e afiadas lanças dos

soldados. Saltei o pronunciado talude e ocultei-me entre as fileiras de oliveiras

silvestres e as saliências do terreno. Dessa vez a sorte esteve ao meu lado. Dentro

em pouco, quando vi que a patrulha distanciava-se, retomei a marcha.

Não demorei a divisar a cerca de madeira caiada. Saltei e, procurando fazer o

menor ruído possível, depois de ver a posição do Sol, caminhei para o sudeste. A

área ocidental da propriedade achava-se plantada de hortaliças. Fui esquivando-me

como podia às fileiras de cebola egípcia, assim como aos “alhos de cavalo” ou

alhos-poró, às belas e cuidadas escarolas e berinjelas e, logo, à minha direita,

entre as primeiras fileiras de árvores frutíferas, reconheci as imaculadas paredes da

casa do horticultor. A propriedade continuava em silêncio.

À minha frente abriam-se as altas videiras – as “tamareiras de Beirute” – que o

ancião proprietário havia importado da costa fenícia e que tratava com grande

esmero. No outro lado do vinhedo erguia-se o pombal, de angustiosa recordação

para mim.

Que faria? Deveria ocultar-me de novo no pombal? Afastei a idéia. O que

primeiro devia fazer era averiguar se os discípulos haviam chegado. Escolhi o

pomar e, sigilosamente, como em ocasiões anteriores, fui avançando entre as

árvores. Era muito estranho que os cães não dessem sinais de vida. Mas atribuí o

fato à prolongada presença dos guardas e legionários. Rodeei a casinha pela sua

parte posterior e, deixando o bocal do poço à minha direita, acabei por agachar-me

entre os troncos miúdos das árvores que começavam a sombrear o suave

promontório rochoso. Tudo defronte à escada que levava ao panteão continuava

inalterado: os mantos, as maças e a marmita continuavam ali, abandonados. Não

havia sinal algum de Pedro ou de João. Acertadamente, supus que sua passagem

pelas congestionadas ruelas de Jerusalém não havia sido tão rápida como a minha.

Aqueles minutos ajudaram-me a recobrar o fôlego. Dei a Eliseu minha posição

e ele, prudentemente, recordou-me que eram 9 horas e que eu teria noventa

minutos para retornar ao “berço”. Não me havia esquecido. Mas antes devia inventar um meio para subtrair temporariamente uma das peças vitais em todo

aquele enredo e, certamente, em nossa nova “exploração”.

Não tive de esperar muito. Poucos segundos depois de interromper a conexão

auditiva, João aparecia na bifurcação da vereda que nascia na cancela de entrada.

Vinha suarento, muito agitado, respirando espalhafatosamente pela boca e com

seus grandes olhos negros quase fora das órbitas. Em suas feições havia medo e

esperança.

Antes de escolher o caminho para o sepulcro dedicou alguns instantes a

inspecionar à sua volta. O jovem sabia da guarda e, ainda que Madalena houvesse

dito e repetido que o lugar estava deserto, quis certificar-se. Uma vez convencido

de que tudo estava calmo, deu uns poucos e cautelosos passos e se deteve ao

descobrir os mantos dos levitas, espalhados pelo chão. Aquilo surpreendeu-o.

Agachou-se e, tomando um dos bastões, resmungou com raiva:

– Bastardos!...

Atirou fora a arma com asco e, enxugando o suor da fronte com a ampla manga

esquerda de sua túnica cor-de-marfim, caminhou em frente, diretamente aos

degraus que desciam ao fosso ou ante-sala da cova funerária. Hesitou. E ao descer

o primeiro degrau ficou imóvel. Voltou a cabeça em direção à vereda pela qual

havia chegado e, com um esgar de impaciência diante da demora de seu amigo,

encolheu os ombros. Vi-o saltar os breves degraus e deter-se de novo na estreita

passagem. Como se achava de costas não pude saber qual sua reação à vista das

pedras removidas. Continuava indeciso. Colocou-se diante da boca da gruta e, após

lançar uma segunda olhada às suas costas, inclinou-se e tentou perscrutar o escuro

interior da cripta. Assim permaneceu, de cócoras e com a mão esquerda apoiada

na borda superior da lápide circular que tapava metade da entrada, até que

sonoros e dramáticos ofegos o alertaram e obrigaram a voltar-se pela terceira vez.

Era Pedro.

Embora houvesse saído antes da mansão de Elias Marcos, a idade e a nada

desprezível gordura que se acumulava no ventre e dorso haviam atrasado a marcha

de Pedro.

Não pude evitá-lo. Senti pena do esgotado pescador. João precipitou-se escada

acima e, ao vê-lo, Simão Pedro ficou calado, interrogando-o com os olhos. Mas seu

esforço havia sido excessivo e teve de reclinar-se em uma das árvores, enchendo o

silêncio do lugar com intermináveis e intensas inspirações. Sua barba branca e

irregular gotejava copioso suor, enquanto sua túnica já estava empapada e colada

à pele.

Mas sua curiosidade e inquietação eram mais fortes do que o cansaço. Então,

com um gesto de mãos – incapaz que estava, ainda, de articular palavra –,

interrogou de novo seu companheiro. João, da borda da escada, fez com a cabeça

um gesto negativo, mas não consegui descobrir o que quis dizer. E imagino que

tampouco Pedro tenha interpretado corretamente aquele gesto negativo. Estaria

João referindo-se à ausência do corpo ou queria explicar que ainda não tinha tido tempo nem oportunidade de penetrar na gruta?

Pesadamente, sem deixar de ofegar, e com um mal dissimulado desgosto que

Continuar: parte 4 de 8