Cavalo de Tróia 2: Massada
9 de abril, domingo ⠀愀渀漀 ㌀ )
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
os companheiros. Esse mesmo indivíduo adiantou-se e, colocando-se junto ao da
espada, lançou-me uma série de acusadoras perguntas:
– Por que corrias? A quem roubaste? Reconheces que és um bastardo e sujo
judeu? Fala!
Dificilmente poderia eu fazê-lo. Apontando com o indicador da mão esquerda a
ponta da espada espetada no meu queixo, pedi-lhes que baixassem a arma. A
pressão cedeu, mas o gladius permaneceu a poucos centímetros do meu pescoço.
Engoli em seco e, simulando um inexistente prurido, pressionei o ouvido direito,
ao mesmo tempo em que me preparava para desfazer aquele mal-entendido.
– Sinto!... Não era minha intenção... Sou grego e amigo do procurador. Tenho
um salvo-conduto!
A firmeza do meu acento e a menção do salvo-conduto aliviaram a tensão. Mas
o improvisado “intérprete”, desconfiando e tocando os rasgos da minha túnica com
a ponta do pilum, insistiu:
– E isto?...
Quando me dispunha a esclarecer a razão da minha lamentável aparência, o
infante colocou de novo sua lança em posição vertical e, num gesto arrebatado,
desferiu-me uma forte e sonora bofetada.
– Mentes! Por que corrias?
Meu rosto endureceu-se. E, pressionando as mandíbulas em um ataque de ira,
encarei o jovem infante lançando-lhe em pleno rosto:
– Civílis!... Levai-me ante vosso primipilus!
O nome do centurião, comandante-em-chefe das sessenta centúrias e homem
de confiança de Pôncio, causou o efeito que eu desejava. Os lábios do legionário
que me havia golpeado tremeram nervosamente e a expressão do seu rosto
mudou. Balbuciou umas ininteligíveis palavras e no mesmo instante a hispanicus
voltou para o fundo da bainha.
Quando estava pronto a mostrar-lhes o rolo com a firma e o selo do procurador,
o “intérprete”, sem abandonar o tom autoritário, ordenou-me que o acompanhasse.
Ao franquear o parapeito de pedra e distinguir, ao fundo, do outro lado da
ponte levadiça, a monumental porta coroada por um arco de meio ponto e provida
de sólidos batentes de madeira, novas e emocionantes recordações acudiram à
minha mente. Quão distantes e próximas me pareciam, ao mesmo tempo, aquelas
cenas do interrogatório de Pilatos e da enfurecida multidão clamando pela
libertação de Barrabás.
Um grande grupo de legionários apareceu, então, sob o portão. Vestiam
também a indumentária de campanha e estavam providos de escudos vermelhos,
retangulares – de uns 80 centímetros de altura – e com a mesma e bela águia
amarela que eu havia admirado em ocasiões anteriores, decorando o umbon ou
protuberância central. Avançaram rapidamente e na borda mesma do fosso se
uniram a meus três guardiões. Trocaram algumas palavras e sem deixar de
observar-me, puseram-se de novo em movimento obrigando-me a cruzar com eles
a ponte de grossos troncos e a penetrar no interior da fortaleza.
Até esse momento – quase 6 horas da manhã – a esquiva sorte só nos havia
proporcionado desgosto atrás de desgosto...
Resignado, deixei-me conduzir.
Ao cruzar a muralha pensei que a patrulha se dirigisse para o terraço onde
Pilatos havia tentado administrar justiça – na cadeira curul – na manhã de sexta-
feira. Não foi assim. Mal chegados ao largo pátio, com os alvos seixos rolados que
o pavimentavam, os legionários detiveram-se. Aí, dois deles entraram em um
quartinho encostado ao muro e à esquerda da grande porta aberta na muralha.
Aparentemente, fazia as vezes de “posto da guarda”.
Por um momento, no silêncio e na lassidão daquele amanhecer, voltaram-me à
lembrança os gritos da turba congregada naquele mesmo recinto, reclamando a
liberdade de Barrabás, o revolucionário, e a execução do Mestre.
A silhueta robusta de um suboficial, recortando-se na penumbra da porta do
“posto da guarda”, dissipou minhas recordações. Era um optio, uma espécie de
ajudante ou homem de confiança dos centuriões e responsável pela uigiliae ou
vigilância noturna naquele setor. Vestia-se como os legionários, com o gladius à
direita e um pequeno punhal no flanco oposto. A única diferença consistia em uma
peça metálica – espécie de greba – que se adaptava à perna direita, cobrindo-a
desde o joelho até o começo do pé. (Sem dúvida, um vestígio militar da época do
manípulo. Segundo autores como Arriano e Vegécio, esta couraça apenas se usava
na perna direita, já que a esquerda ficava protegida pelo escudo.) As caligas ou
sandálias de correia, de solas fortes e cravejadas, envolviam os tornozelos e o
dorso dos pés, completando o uniforme de campanha.
Durante breves instantes, reclinado displicentemente no gonzo da porta e
tamborilando com os dedos no interior de uma escudela de madeira, me
“repassou” dos pés à cabeça. Concluído o exame, se foi aproximando lentamente e
com um ar cansado. Ao chegar junto a mim baixou os olhos brincando com os
girões do manto e da túnica. Tirou uma tâmara do fundo da tigela e, com um
sorriso malicioso, levou-a à boca. As negras cáries que devastavam os poucos
dentes que ainda lhe restavam eram um exato reflexo dos seus pensamentos.
Mastigou o fruto parcimoniosamente e, diante da expectativa de seus homens,
cuspiu o caroço entre minhas sandálias.
Não pestanejei. Com idêntica frieza sustentei seu olhar desafiador e estendi-lhe
o salvo-conduto.
Minha firmeza fê-lo hesitar. E com um safanão arrebatou-me o rolo.
– E por que desejas ver Civílis? – perguntou por fim, ao devolver-me o
documento.
Era preciso arriscar. E admitindo que a patrulha de vigilância no sepulcro já
havia regressado à fortaleza e que a notícia da estranha desaparição do corpo do
crucificado era mais que conhecida pelo optio, anunciei-lhe que “havia ocorrido algo
especial”.
– Especial? – ajuntou com curiosidade. – Onde?
– No túmulo situado na propriedade de José, o membro do Sinédrio, e que,
como sabes, era vigiado por levitas e homens desta guarnição.
O optio franziu o cenho.
– Que sabes desse assunto?
Movendo a cabeça, fiz-lhe ver que só falaria disso em presença de Civílis ou do
procurador.
– Sabes que eu poderia apalear-te por isso? Quem és tu, miserável andrajoso,
para pretenderes molestar o governador de toda a Judéia?
Apanhou uma segunda tâmara e, antes que eu tivesse tempo para responder-
lhe, formulou uma terceira pergunta:
– Não terás sido um dos ladrões?...
Sem querer acabava de confirmar minha suposição: os dez legionários que
integravam a escolta de vigilância no sepulcro deviam ter voltado. Sem dúvida,
uma vez recuperados de sua passageira inconsciência, e comprovado que a tumba
se achava vazia, haviam optado por regressar à fortaleza para dar parte do
ocorrido. Mas por que havia mencionado o termo “ladrões”?
Decidido a encerrar o estéril diálogo, disse-lhe com severidade:
– Cuidado com tuas maneiras! Pôncio está a par de minha recente estada na
Ilha de Capri, junto ao divino Tibério... E duvido que eles aprovem que se apaleie
um astrólogo a serviço do “velhinho”.
O nome de César foi decisivo. O optio, atônito, engoliu a tâmara e, entre os
sarcásticos cochichos da tropa, deu ordens para que Civílis fosse informado de
minha presença no lugar.
Em dez minutos, ante o assombro de todos os presentes, o próprio
comandante-em-chefe aparecia no alto do terraço e descia apressadamente as
escadarias. Atrás, com evidente dificuldade para o seguir, distingui outro centurião
e o infante que levava a mensagem.
Adiantei-me e, cruzando o pátio, fui ao encontro do salvador primipilus.
Civílis, ao ver-me, sorriu-me. Ostentava sua habitual cota de malha e um
fulgurante capacete prateado, rematado por uma crista ou cimeira transversal
sobre a qual se destacava um penacho semicircular de plumas vermelhas. Suas
longas passadas faziam flutuar a capa granadina, que ele mantinha segura
elegantemente com a mão esquerda. Com a direita sustentava o emblema do
centurionato e símbolo, por outro lado, da disciplina do Exército romano: a uitis ou ramo de videira, tão temida entre os soldados.
Ao chegar diante de mim, sem deixar o seu sorriso, ergueu o braço, saudando-
me:
– Salve, Jasão!... Mas que te sucedeu?
Satisfeito pelo encontro com o leal e eficiente chefe dos centuriões,
correspondi-lhe com idênticas demonstrações de afeto. E, enquanto iniciávamos um
curto passeio, ante o desconcertado olhar do suboficial e de seus infantes, fui
improvisando.
Eu não via Civílis desde a manhã de sexta-feira e, como pude, resumi para ele
minhas andanças durante aquelas 72 horas.
Em parte fui sincero. Contei-lhe como, depois de ouvir repetidas vezes a
estranha história que circulava por Jerusalém sobre a possível ressurreição do rabi
da Galiléia, minha curiosidade de “áugure” me havia impelido a esconder-me nas
proximidades da tumba; e como, ali pelas 3 da madrugada, havia sido testemunha
de um inédito e impressionante fenômeno luminoso que, brotando da entrada da
cova sepulcral, se propagara até as árvores próximas, atirando por terra os bravos
legionários que montavam a guarda. Os oficiais ouviam-me com a maior atenção.
– Depois – prossegui, aparentando grande desalento –, do mesmo modo que
teus homens, também me vi surpreendido por uma força maléfica e caí sem
sentidos. Quando os deuses permitiram que eu voltasse a mim, o túmulo estava
vazio... E o medo fez-me correr e vagar sem rumo. Sei que algo sobrenatural, obra
dos deuses, aconteceu nesse horto... E, ao alvorecer, com o espírito mais sereno,
tomei a decisão de correr à fortaleza e relatar-te tudo que vi e ouvi.
O comandante deteve-se. Levou a mão esquerda ao punho da espada e, com
um gesto grave, perguntou-me:
– E por que a mim? Sabes que não creio nessas mentiras...
Senti-me atrapalhado. Mas Eliseu, atento, sempre na minha escuta no módulo,
ofereceu-me um argumento que não podia ser melhor. E o expus a Civílis.
– É muito simples. Em minhas caminhadas pelas ruas da cidade – menti-lhe –,
tenho tido ocasião de ouvir uma versão que, alimentada por essas ratazanas do
Sinédrio, começou a circular por Jerusalém. Caifás e seus sequazes lançaram o
rumor de que seus levitas e teus legionários dormiram e que, aproveitando essa
circunstância, os discípulos do Galileu roubaram o corpo...
O comandante assentiu com a cabeça.
– ... Eu, como te disse, fui testemunha privilegiada do ocorrido e vi que os
guardas do Templo, de fato, fugiram como covardes. Mas não a patrulha romana.
Foram os deuses que renderam teus bravos soldados.
Dessa vez Civílis não replicou à minha calorosa exposição. Aquele mutismo
levou-me a supor que de fato o centurião estava a par dos acontecimentos. Então,
após uns segundos de reflexão, interrogou-me de novo:
– Estarias disposto a repetir tudo isso diante do procurador?
Aquela inesperada oportunidade de voltar a entrevistar-me com Pôncio deixou-me perplexo. Não fazia parte dos nossos planos. Entretanto, entendendo que
poderia ser altamente benéfica, apressei-me a aceitar e agucei a curiosidade de
Civílis com uma sentença que – estava seguro – avivaria a superstição do
governador.
– Pôncio precisa saber, além disso, que o milagre do sepulcro é apenas o
princípio...
Fiz uma estudada pausa.
– ... de outros não menos prodigiosos fenômenos.
– A que te referes?
Enquanto improvisava, uma idéia havia germinado em meu cérebro. E propus-
me a utilizá-la.
Sorri e, colocando a mão esquerda no ombro do meu amigo, roguei-lhe que não
me perguntasse.
– Agora devo fazer decente meu aspecto e meditar... Amanhã, se o procurador
achar oportuno, terei o maior prazer em fazer-vos partícipes do que li nos astros.
Civílis golpeou sua perna com a vara de videira e, encerrando o assunto,
propôs-me a hora terça (9 da manhã) do dia seguinte para a reunião.
Quando, por fim, deixei para trás o fosso e o parapeito da Antônia, meu irmão
reativou a conexão auditiva e quis saber detalhes da minha captura e, sobretudo,
da maquinação concebida no pátio da fortaleza. Meu “plano”, como supunha, só
contribuíra para duplicar sua inquietação...
Senti-me abatido. Os cronômetros do módulo, devorando dígitos,
aproximavam-se das 6h30 da manhã. Eram decorridas 5 horas, 16 minutos e 49
segundos desde a tomada de contato no monte das Oliveiras... e estávamos no
marco zero! Levávamos, ou, para ser mais preciso, eu levava mais de 180 minutos
de atraso sobre o plano do Cavalo de Tróia. A uma centena de passos da
bifurcação para Cesaréia e Samaria – com a muralha gris azulada da Antônia à
minha esquerda – hesitei:
“Que adiantaria dirigir-me ao horto de José? O mais provável era que se
achasse deserto. Não seria mais prudente seguir o planejado e entrar na Cidade
Santa, à procura dos apóstolos e das mulheres? Estas, sim, estariam em condições
de relatar-me o acontecimento”.
Estive a ponto de confiar tais indecisões a Eliseu. Mas, não querendo perturbar
mais sua solidão, guardei silêncio. Se minhas suposições estivessem corretas, fazia
uma hora – quem sabe mais – que os legionários haviam abandonado o horto. Pela
lógica, as mulheres deveriam ter chegado ao sepulcro depois disso. Em suma, ao
mesmo tempo que a guarda – constatado o desaparecimento do corpo que deviam
guardar – tomava a decisão de retomar ao quartel-general. Com os dez romanos
no jardim, as amigas do Mestre não se teriam atrevido a traspassar a cerca da
propriedade.
“Que fazer?”
E voltei a experimentar um curioso fenômeno. Enquanto minha lógica e meu senso comum ditavam-me o caminho de Jerusalém, outra força que não sei
explicar e que a cada dia se faz menos sutil, arrastava-me para o sepulcro.
“Que podia eu encontrar ali?”
Como um autômato, deixei o caminho às minhas costas e penetrei em uma
pradaria que subia para o norte e ia morrer nos cimos dos promontórios que, em
cadeia, circundavam Jerusalém do Gareb ao Cedron. E propus-me averiguar por
que aquela tumba exercia semelhante atração sobre meu atormentado espírito.
Diante de mim, desde os 800 metros de altitude do Gareb a oeste – até os 735
metros de Beza’tha – à minha direita aquela suave sucessão de colinas achava-se
ocupada por pequenos e médios hortos, repletos de figueiras, ciprestes de
perfumada madeira, zimbros de até 20 metros de altura, terebintos compactos e
exuberantes, de folhas muito parecidas às de nogueira e de penetrante fragrância
e, enfim, de abundantes e seletos pomares. Ante semelhante pomar, compreendi
as sérias dificuldades de Tito quando, 36 anos mais tarde, ao sitiar Jerusalém,
avançou com seu Exército desde o monte Scopus, um pouco mais ao norte de onde
me encontrava.
Se eu continuasse pelo caminho inicial, tomando, diante da Porta dos Peixes, o
desvio que levava a Samaria, talvez meus problemas se houvessem multiplicado.
Meu aspecto era penoso e chamativo, e muito provavelmente haveria despertado a
curiosidade dos comerciantes, camponeses e pastores que, muito antes daquela
“aurora de dedos rosados” – como havia cantado Homero –, tangiam seus
jumentos e rebanhos em direção ao grande mercado do bairro alto da cidade: o
sûq ha-‘elyon. (Muitas das hortaliças, grãos e outros produtos do campo procediam
naqueles tempos de Samaria e da planície que fazia fronteira com a Iduméia.)
Contemplada da muralha norte de Jerusalém, seja da Porta dos Peixes, seja
dos muros da Antônia, a propriedade de José situava-se à direita da rota norte – a
de Samaria –, derramando-se para o leste e terminando em uma ribanceira,
fronteiriça às colinas de Beza’tha. Era um autêntico prodígio que os israelitas
houvessem conquistado aqueles solos calcários e pedregosos e transformado cada
palmo de terra útil em uma bênção. Apesar disso, as brancas calvas pétreas
despontavam aqui e ali, entre os maciços de árvores e sementeiras. Meu objetivo
era precisamente uma daquelas formações rochosas. Atraído por aquela força
irresistível de que falei, aventurei-me pela verdejante pradaria. A tépida primavera
e as chuvas de março haviam feito crescer a erva, salpicando-a de gladíolos
silvestres e das pequenas flores “do vento” – as anêmonas – com suas campainhas
de cor violeta púrpura.
O orvalho do alvorecer não tardou a umedecer minhas sandálias, e dezenas de
gotículas de água foram ficando presas entre os pêlos e a “pele de serpente” de
minhas pernas.
Ainda que houvesse tomado alguns referenciais em minha primeira visita ao
horto de José de Arimatéia – durante o triste traslado do corpo sem vida do rabi –,
assim que transpus o curto prado deu-se o que eu temia: um labirinto de cercas, serpenteantes veredas e altas sebes de artemísias amargas retardaram minha
marcha. Guiando-me pelas quatro torres da Antônia (sempre às minhas costas), o
brilho avermelhado do novo Sol (pela minha direita) e os esporádicos balidos do
gado que descia pelo caminho de Samaria (à minha esquerda), fui penetrando
entre os hortos com a esperança de topar, de um momento para outro, com a
cerca de estacas brancas que fechava a propriedade de José. E, de súbito, à minha
esquerda, ouvi um típico saudar judeu:
– Schalom alekh hem!...
Aquele “a paz esteja contigo” procedia de um madrugador camponês que, ao
ver-me passar diante de seu campo, destacou-se por trás de um magnífico
sicômoro. Levava o chaluk ou túnica enrolada na cintura, mostrando umas pernas
peludas e famélicas. Carregava ao ombro direito uma pele de cabra inflada.
– Saúde! – apressei-me a responder, adotando um tom cordial. – Busco o horto
de José, o de Arimatéia...
Ao perceber meu acento estrangeiro, o judeu franziu o rosto, manifestando
contrariedade. E, resmungando algumas pragas – entre as quais cheguei a
distinguir um “maldita seja tua mãe!” –, deu-me as costas e continuou na sua
singular irrigação da terra. Vi então que do rústico odre de pele de cabra um jorro
avermelhado precipitava-se sobre os sulcos. Era sangue. Não se tratava, portanto,
de uma rega propriamente dita, mas de um fertilizante. Boa parte do sangue que
corria nos pátios do Templo durante os sacrifícios rituais de animais era
aproveitada pela casta sacerdotal e vendida aos agricultores. A esplanada do
Santuário, perfeitamente pavimentada e em declive, havia sido provida de uma
rede de canaletas por onde se recolhiam os milhares de litros de sangue de bois,
cordeiros etc. O sangue era depois armazenado em cisternas subterrâneas,
enquanto as sobras perdiam-se na corrente do Cedron, conduzidas por um canal de
desaguamento. Esta era a explicação para a misteriosa “água vermelha” que
havíamos detectado do módulo em nossa primeira exploração na Cidade Santa.
Não muito contrariado pelo desplante do horticultor – afinal de contas, aquelas
saudações jamais eram dirigidas aos estrangeiros –, prossegui no meu lento
avanço. Ao referir-lhe o incidente e o curioso sistema de adubação, Eliseu, após
consultar o Papai Noel, deu-me amplos detalhes sobre esse particular.116
Em poucos minutos, entre a ramagem das amendoeiras ou “espreitadores”
(saqed) – como os judeus chamavam estes precoces anunciadores da primavera –,
pensei ter distinguido, semi-ocultas pelas alvas flores, as estacas pontiagudas, de 1
metro de altura, do ansiado horto. Corri para elas. Meu coração bateu fortemente
ao descobrir, de fato, ao longe, como uma branca confirmação entre o escuro
verdor de ameixeiras, macieiras e romãzeiras, a casinha na qual, sem dúvida,
morava o corpulento jardineiro que havia ajudado José ao entardecer da sexta-
feira.
E, tomando por referência o Sol, caminhei para a minha direita sem afastar-me
da cerca. Não tardei a encontrar a cancela de entrada. A porta de tábuas achava-se aberta. Misteriosamente aberta...
Dessa vez comuniquei ao “berço” minhas intenções. Dispunha-me a aventurar-
me pelo interior do silencioso horto. Talvez este seja outro conceito não muito bem
interpretado pelos cristãos. Ao ler-se os textos evangélicos tem-se a impressão de
que o lugar onde foi sepultado o Mestre era um simples horto, com um sepulcro
novo, como reza João. Na realidade, mais do que horto, a propriedade de José
poderia ser qualificada como de plantio. E nada modesta, por certo. Todo um sítio
de recreação, com dezenas de árvores frutíferas e hortaliças, uma casa rústica, um
pombal e, certamente, como correspondia à sua elevada posição, um panteão
familiar. Mas sigamos com o que importa.
Como disse, não era normal que a cerca se achasse aberta de par em par.
Aquilo fez-me suspeitar de que algo inusitado havia ocorrido – ou estava ocorrendo
– na propriedade. Lentamente, com os cinco sentidos alertados ao máximo, fui
entrando pelo estreito caminho que, nascendo na cerca, se perdia para o norte,
ladeado por árvores frutíferas.
O silêncio era absoluto. Muito significativo...
Detive-me uma ou duas vezes, esperando ouvir algum som. Talvez os latidos
ou as brincadeiras dos cachorros que guardavam a propriedade. Nada.
A meia centena de metros da entrada, a vereda dividia-se em duas. O ramal da
esquerda, como tivera oportunidade de comprovar em minha anterior visita, corria
junto à casa do horticultor, perdendo-se depois entre carregados pés de camoesas,
uma variedade de maçã, e açofeifas. Dessa vez a chaminé parecia apagada.
O da direita levava à cripta. A coisa de uns vinte passos, delicadamente
ensombrada pelas árvores que a circundavam, distingui a clareira rochosa que se
erguia pouco mais de metro e meio acima do nível do terreno. Estremeci.
“E se tudo houvesse sido um sonho? E se o Mestre não houvesse ressuscitado?”
Tão absurdos pensamentos ficaram praticamente desmontados quando, meio
oculto entre os miúdos troncos das árvores frutíferas, compreendi que, de fato, as
patrulhas judia e romana haviam desaparecido. O lógico era que, se não houvesse
acontecido nada de anormal, continuassem ali, defronte das escadas e da rústica e
estreita passagem que conduziam ao sepulcro.
Prudentemente, dediquei vários minutos a uma conscienciosa exploração dos
arredores. Só o que descobri foram restos de comida, armas e alguns mantos,
esparramados pelo terreno argiloso que rodeava a formação calcária. Não havia
dúvida: levitas e legionários haviam abandonado o lugar. E os primeiros, a julgar
pelo que fui encontrando, após uma vergonhosa fuga, ainda não haviam
regressado.
Mais confiante, separei-me do pequeno bosque e aproximei-me cautelosamente
dos restos da fogueira que havia iluminado e aquecido a guarda romana. As cinzas
achavam-se tépidas. Soprei-as e alguns tições se reavivaram fugazmente. Era
provável que a lenha se houvesse consumido havia pouco mais de meia hora...
De cócoras, dei uma esquiva olhada à passagem que levava ao sepulcro. E meu coração respondeu com força. Fiz um esforço e me contive. Primeiro devia
examinar aqueles restos.
No trecho de terra que haviam ocupado os levitas ou guardas do Templo, a
desordem era total. Roupões amarelos pisoteados na precipitação; bastões e
clavas – típicas dos servidores dos sumos sacerdotes betusianos e temidas por seus
revestimentos de cravos – semi-enterrados na vermelha e esponjosa argila; um
carcás de couro, cilíndrico, repleto de flechas de 50 centímetros de comprimento, e
um duplo machado de combate, igualmente esquecida na fuga, constituíam o
desolador cenário. Por último, tombada em conseqüência de algum golpe dos
aterrorizados guardiões do Santuário, uma bojuda vasilha de barro conservava em
seu interior parte da ceia: um espesso guisado à base de sêmola de trigo cozida,
com abundantes pedaços de carneiro. E um pouco mais além, cuidadosamente
envoltas em um pano de lã, várias rodelas de pão de trigo e outra “coroa” ou
fogaça de forma circular, meio começada. Ao pé de uma das árvores descobri
também um odre de pele de cabra cuidadosamente curtida, fechado com uma
cavilha de madeira. Pesava uns 10 log (pouco mais de 4 litros e meio) e, ao agitá-
lo, deduzi que servia para armazenar água, talvez vinho. Verti parte do conteúdo,
senti-lhe o cheiro e comprovei que se tratava da schechar, uma espécie de cerveja
fraca elaborada à base de milho e cevada e com uma remota semelhança com a
cervisia latina.
No setor ocupado pelos legionários, ao contrário, e com exceção das cinzas da
fogueira, não encontrei um só sinal que indicasse um desonroso abandono do local.
Os romanos, como já comentei em seu momento, conheciam muito bem que classe
de penalidade os aguardava em caso de fuga ou deserção.117 Os levitas já não se
achavam sujeitos a uma disciplina tão férrea. A esta nada desprezível circunstância
temos de acrescentar que, sem nenhuma dúvida, os infantes do Exército romano
eram homens física e psicologicamente melhor preparados para enfrentar o medo e
os perigos do combate ou simplesmente de uma guarda noturna. Não têm sentido,
pois, as afirmações do evangelista Mateus quando, em seu capítulo 28 (11-16) diz,
textualmente: “Enquanto elas iam (refere-se às mulheres), alguns da guarda foram
à cidade contar aos sumos sacerdotes tudo que se havia passado. Estes, reunidos
com os anciãos, celebraram conselho e deram uma boa soma de dinheiro aos
soldados, advertindo-os: ‘Dizei: seus discípulos vieram de noite e o roubaram
enquanto nós dormíamos. E se a coisa chega ao ouvido do procurador nós o
convenceremos e vos evitaremos complicações’. Eles tomaram o dinheiro e
procederam de acordo com as instruções recebidas. E correu essa versão entre os
judeus até o dia de hoje.”
Se Mateus se refere aos legionários romanos – coisa nada clara – comete ao
menos dois erros. Primeiro: estes soldados estavam sujeitos às ordens e à
disciplina do Exército romano e não à autoridade dos sumos sacerdotes judeus. Por
que então recorrer a Caifás e a seus sequazes no Sinédrio? Se falassem, o teriam
feito a seus comandantes naturais: o optio ou o centurião correspondente. Segundo: esses infantes – veteranos em sua maioria – conheciam o preço a pagar
por seu abandono do serviço ou, o que vinha a ser o mesmo, por dormirem em
plena uigiliae e, cúmulo dos cúmulos, ser roubados e burlados... As palavras do
evangelista nesse sentido não são muito sensatas. É preciso ser ingênuo para crer
que os romanos – que odiavam os israelitas – podiam aceitar semelhante trato.
Não esqueçamos que uma notícia daquela índole – a suposta ressurreição do
crucificado – era impossível de ocultar. E muito menos ao procurador. Desde o
sábado, 8 de abril, Jerusalém só falava na profecia do rabi da Galiléia, sua
ressurreição. Milhares de peregrinos e vizinhos da Cidade Santa só pensavam nesse
“terceiro dia”, quer dizer, domingo. Se os soldados da Antônia houvessem aceitado
o suborno, quanto haveria durado a satisfação pelo dinheiro recebido? E mais: de
que lhes houvera servido se o castigo imediato e inapelável era a morte? Os
legionários podiam ser ambiciosos ou corruptos, mas não tão estúpidos...
Pessoalmente, creio que o evangelista referia-se à guarda do Templo: aos
levitas, não aos infantes romanos. Aqueles, sim, deviam obediência aos sumos
sacerdotes, seus chefes. E tanto uns quanto outros eram muito capazes de propor e
aceitar esse tipo de suborno.
Que terá ocorrido, então, com o texto de Mateus? Equivocou-se o escritor
sagrado? Foi deformada ou mal interpretada a versão aramaica? Por que o resto
dos evangelistas tampouco faz menção a esse espinhoso assunto?
Mas voltemos àquela manhã de domingo, 9 de abril do ano 30...
Conforme fui-me aproximando da escada que conduzia à estreita passagem,
“ante-sala” da tumba, fui ficando tenso. Minha respiração agitou-se e os velhos
calafrios apareceram, incontidos. Durante alguns minutos – quem sabe quantos? –
permaneci imóvel e hipnotizado ante aquela abertura quadrangular, parcialmente
tampada pela tosca e pesada roda de moinho que servia de fechadura. Nesse
momento, presa de uma angústia e umas dúvidas inenarráveis, não me dei conta
de um muito interessante “detalhe” relacionado com a lápide circular. Meu espírito
racional e científico continuava dominando. Apesar de haver vivido com o Mestre,
apesar do inegável poder daquele Homem, apesar de sua misteriosa e atraente
natureza, apesar de tudo... eu continuava a duvidar.
“Não é possível” – repetia-me uma e outra vez. – “Não é possível que um
cadáver, após 36 horas...”
Uns familiares saquinhos de serrapilheira, cuidadosamente depositados sobre o
último dos degraus, vieram resgatar-me de tanta e tão profunda incerteza. Eram os
utilizados por José e Nicodemos durante os agitados minutos que precederam o
fechamento do sepulcro. E recordei como as mulheres, já de regresso a Jerusalém,
se haviam encarregado das 100 libras de aloés e mirra com que se propunham
rematar, ao fim do sábado, a precipitada lavagem e o embalsamamento de Jesus.
Desci a escada e, inclinando-me sobre o saco maior, examinei-o. Estava
fechado. Pareceu-me reconhecê-lo. Tratava-se dos 15 ou 20 quilos de pó
granulado, de cor amarelo-ouro e sumamente aromático. Devia ser o aloé. A seu lado, um pano escondia o mesmo e campanudo jarro de cobre que eu havia visto
os amigos do rabi manipular no sepulcro. Achava-se meticulosamente lacrado com
um tampão de tela. Deduzi que estava diante daquela substância pastosa, uma
resina gomosa, que identifiquei como mirra.
Em um terceiro envoltório, firmemente atado, descobri ao tato um segundo
recipiente de metal. Agitei-o e ouvi ruído de líquido. Talvez uma vasilha destinada
ao asseio do corpo.
Por último, em um cesto de vime de regular tamanho, apareceram vários rolos
de tela, uma rígida e enegrecida esponja, um frasquinho de vidro com um líquido
cor de conhaque, possivelmente nardo, e uma bolsa de couro de uns 20
centímetros, delicadamente fechada com um passador ou fivela de bronze em
forma de arco. A curiosidade venceu-me. Apalpei seu interior e percebi alguma
coisa dura e alongada. Desenganchei o alfinete de segurança e, excitado, extraí
seu conteúdo. Era uma chave! Uma daquelas curiosas chaves utilizadas pelos
judeus para as portas e arcas. Dispunha de um cabo de madeira e um corpo em
bronze, dobrado em forma de “L”, com cinco dentes, longos e paralelos, na
extremidade.
Não pude deixar de sorrir. Aquele símbolo, depositado sobre um defunto,
representava seu celibato. Às vezes, em lugar de uma chave, deixavam uma pena.
E se se tratasse de uma noiva tinha ela direito, assim dizia a lei, a um pálio.
A delicadeza das mulheres para com seu querido rabi comoveu-me.
Já não havia dúvida. As fiéis seguidoras do Mestre haviam estado ali. Transmiti
ao módulo minhas descobertas, acrescentando que os sacos pareciam
abandonados. Obviamente não haviam sido utilizados. Mas, por quê? Que estranho
acontecimento havia impelido as israelitas a suspender a lavagem e o
embalsamamento do Crucificado?
A resposta, eu o sabia, só podia estar ali: no fundo da cova sepulcral.
Pus-me em pé e, sentindo que minhas pernas fraquejavam, dirigi o olhar para a
“boca” da cripta...
Por que duvidava? Não podia compreendê-lo. Eu havia visto o sepulcro vazio...
Entretanto, ainda meu espírito racional e científico resistia a admitir sua volta à
vida. Apesar de o haver conhecido, de sua irresistível personalidade, de seu poder
e de suas próprias palavras, anunciando sua ressurreição, apesar de tudo isso
continuava duvidando...
“Não é possível” – repetia-me obstinadamente. – “Não é possível.”
Mas, passo a passo, fui vencendo os 2,20 metros que separavam aquele último
degrau da fachada do panteão.
A claridade da manhã morria obliquamente no interior, a dois palmos do umbral
daquela boca quadrangular de 90 centímetros de largura. Senti a falta de uma
tocha. E o medo voltou a assaltar-me. Entrava? Não entrava?
“É preciso” – dizia-me a mim mesmo. – “Tenho de estar seguro. Preciso
comprovar uma vez mais...”
Obcecado por esta idéia, dei-me conta, só então, da falta dos selos do
procurador. Depois que fui surpreendido com o deslocamento das pedras que
fechavam a tumba, haviam ficado esparsos pelo chão, na estreita passagem.
Apoiei a “vara de Moisés” contra a rocha, enchi os pulmões, pus-me de cócoras
e lancei uma temerosa olhada para o fundo da cripta. As trevas, porém,
impossibilitaram qualquer observação. Não havia alternativa. Tinha de entrar.
Fechei os olhos e, obrigando meus músculos a obedecer, introduzi-me
bruscamente.
O pavor – mais do que medo – secou-me a garganta. Abri os olhos e, durante
alguns segundos, permaneci na mesma posição: de joelhos sobre o áspero e
rochoso piso, esforçando-me por dominar os nervos e por distinguir algo naquela
câmara de 3 metros de largura por 1,70 de altura. Precisei de vários minutos,
intermináveis como séculos, para adivinhar as formas das coisas no meio de tanto
entulho e de uma escuridão absoluta.
Fazia frio ou o terror gelara meu sangue nas veias?
Lentamente, com a remota esperança de que meus dedos tropeçassem no
corpo do Mestre, estendi os braços. Se não me falhava a memória, o banco
escavado na pedra achava-se a pouco mais de meio metro do chão.
Entre tremores meus dedos chocaram-se com a parede e uma convulsão
dolorosa tomou-me as entranhas.
Tateei o muro. Fui erguendo as mãos e logo percebi a borda. Detive-me.
“Um pouco mais!...”
E num ímpeto comecei a tatear na escuridão.
“Deus meu!”
Só encontrei o vazio. Um espesso e revelador vazio. Vasculhei o espaço com as
mãos, à direita e à esquerda, no vão intento de apalpar o corpo. Nada. E, ao
colocar as mãos sobre a plataforma rochosa, uma nova e intensa cãibra sacudiu-me
até a medula. Identifiquei o lençol de linho. Parecia conservar a mesma posição de
poucas horas antes.
Levantei-me, inclinei-me sobre a mortalha e passei a explorá-la. Na cabeceira,
sob o lenço, percebi uma forma dura, rígida e ovalada.
“Não pode ser!”
Com toda a delicadeza de que fui capaz ergui a parte superior do lençol, para
confirmar minha suposição. Mas o negror era tal que a tentativa foi inútil. Decidido,
entretanto, a sair das dúvidas, deslizei a mão direita entre as duas metades do
lenço até tocar o objeto.
“Incrível!”
Com efeito, tratava-se do xale que Nicodemos havia torcido e atado em torno
da cabeça de Jesus, para levantar o maxilar inferior e evitar a queda da boca.
– Deus do céu! – exclamei sem poder conter minha admiração –, como é
possível?
A desconcertante desaparição do corpo não havia alterado a primitiva posição do xale, que continuava no mesmo lugar e “envolvendo” uma cabeça inexistente...
A razão e o senso comum chocavam-se com os fatos. E durante mais de um
minuto continuei ali, cheio de dúvidas.
“Se o corpo havia sido roubado” – lutava por racionalizar a questão – “por que
os panos estavam como se ninguém houvesse tocado o rabi?”
O normal haveria sido que, ao ser o corpo manipulado, o lençol que o envolvia
caísse ao solo. Ou então levado junto com ele. O transporte teria sido até mais
cômodo, com a utilização do longo sudário.
Tive de render-me à evidência. Conquanto saiba que não há nisso a menor
consistência científica, aquele corpo parecia haver-se “esfumado” ou “evaporado”.
Só assim podia entender-se que o linho que repousava sobre sua parte frontal se
houvesse “desinflado” e caído suavemente sobre a parte dorsal.
Emocionado, deixei-me levar por outro e irresistível impulso antes de
abandonar o lugar. Aproximei meus lábios do sudário e depositei nele um cálido
beijo. E nesse instante captei algo novo: um penetrante e, de certo modo, familiar
odor. Mas não soube identificá-lo.
Lancei um último olhar à cripta e rapidamente retomei à radiante claridade
exterior.
Minha habitual lentidão e a estreiteza da abertura do sepulcro valeram-me, ao
sair, um forte baque no ombro direito. Minha intenção era regressar a Jerusalém e
localizar as mulheres. Teria de restabelecer o acontecido na propriedade de José
durante os minutos que precederam o amanhecer. Mas aquela topada com a mó foi
providencial. Recuperei a “vara” e, enquanto apalpava o dolorido ombro, reparei
em outro singular detalhe. Ao contrário da segunda pedra – a que servia
habitualmente para tapar o poço e que fora colocada pelos guardas junto à lápide
circular para reforçar o fechamento do túmulo – a mó de moinho não se achava
caída no caminho. Havia rolado para a esquerda, seguindo o álveo da canaleta de
20 centímetros de profundidade e 30 de largura que corria ao pé e por toda a
extensão da fechada.
“Como pode ser?”
Nem os soldados nem eu mesmo havíamos visto sair ninguém da tumba.
Imaginar que alguém, do interior, tivesse podido remover aqueles 700 quilos ou
mais certamente era pouco verossímil. O fato é que a mole circular de 1 metro de
diâmetro havia sido deslocada, deixando a abertura praticamente livre. Só uma
parte dela, uns 30 centímetros, continuava obstruída pela borda direita da mó.
Naturalmente, aquele vão era suficiente para permitir a passagem de uma
pessoa...
Mas, contrariamente ao que a equipe do Cavalo de Tróia havia suposto, o
movimento das pedras, a julgar pelo que eu tinha diante dos olhos, não podia
dever-se a uma “explosão” no interior da cova. Era certo que eu havia visto brotar
uma labareda de “luz” que se propagara até as árvores mais próximas. Aquela
língua de um branco azulado não fora, todavia, acompanhada de detonação alguma. Além disso, tinha sido posterior à abertura da tumba. Se se houvesse
registrado uma onda expansiva, a lápide principal ter-se-ia deslocado e quebrado
pela base.
Examinei a pedra e não encontrei vestígio algum da hipotética explosão. Estava
claro que “algo” ou “alguém”, de uma força mais do que respeitável, a havia feito
rolar. O mistério, longe de aclarar-se, enredava-se de minuto a minuto.
Subi a escada e quando me encontrava no alto voltei-me para o sepulcro. Era
estranho, muito estranho, que aquela “labareda luminosa” não houvesse
chamuscado os degraus ou as paredes do fosso. Medi visualmente a distância, em
linha reta, desde a boca da cova até o ponto em que me encontrava. Não chegava
a 3 metros. Em seguida, guiado pela intuição, dei uma volta e coloquei-me de
frente para as árvores frutíferas que estavam a pouco mais de 4 metros. A “língua”
se havia prolongado – seguindo uma natural via de escape – em sentido oblíquo e
até as ramagens das árvores. No total, uns 7 metros.
Caminhei até a base de um corpulento sicômoro que, de acordo com a
trajetória da radiação, deveria ter sido o mais afetado. Eu estava certo. Parte da
ramagem e um bom número de bagos apresentavam um aspecto diferente. A
ramaria estava ressecada e acinzentada, como se uma súbita onda de calor a
houvesse calcinado. Quebrei uma pequena amostra e apanhei alguns figos. Ao
cheirá-los tive a mesma sensação que tive ao beijar o sudário. As bagas,
sobretudo, me surpreenderam. Estavam consumidas e duras como fósseis. Rodeei
o belo exemplar, mas não pude descobrir nenhum outro sinal de ressecamento. O
sicômoro apresentava um florescimento normal. Talvez um meticuloso exame no
“berço” pudesse trazer luz sobre o enigma. Depois de guardar na bolsa um par de
bagos, várias folhas e duas ou três pequenas porções de um dos ramos, dirigi-me
para a saída, disposto a procurar as mulheres. Estava certo de que elas podiam
ajudar-me.
Eram 7h30.
Vista dos suaves promontórios do norte, Jerusalém apresentava-se ao
caminhante como “um cervo deitado nas colinas”. A luz da manhã branqueava suas
muralhas, tingindo de vermelho e amarelo o calcário de suas bizarras vivendas que
galgavam por ambas as encostas do vale do Tiropeon. Nos grandes bairros, o do
noroeste e o de Akra ou sûq ha-tajtôn, elevavam-se, já, preguiçosas, finas colunas
de fumaça cinzenta. A vida despertava pujante e livre. Entre o quadrado ocre
daqueles milhares de casinholos, e envoltos em outras tantas e móveis sombras, os
palácios dos Asmoneus, de Herodes e dos sumos sacerdotes, com suas torres de
agulhas douradas e seus brancos terraços. Mais além, no oeste, o peregrino podia
distinguir o perfil quebrado da muralha abraçando a cidade e correndo, desafiador,
até o topo do cerro do Gareb.
Uma onda de formigamento foi-me invadindo à medida que eu me aproximava
da movimentada Porta dos Peixes, no muro norte. Desde as primeiras horas, o
trânsito de homens, bestas e carros era incessante.
Lancei um olhar à minha comprometedora aparência e, com uma ponta de
receio, aferrando-me com força à “vara”, caí naquela maré de comerciantes,
horticultores, pastores, peregrinos de mil terras e rebanhos de monótonos balidos.
Trabalhadores tão andrajosos como eu, trazendo toda sorte de ferramentas
agrícolas, saíam, em bando ou solitários, rumo aos hortos e pastagens.
Às portas da cidade, aleijados, mendigos e malandros alongavam seus
famélicos braços à passagem dos viandantes, fazendo soar um ou outro lepton no
fundo de suas escudelas e apregoando suas misérias entre gemidos ou rogando a
benevolência e a caridade.
Vários comerciantes de Alexandria, ostentando luxuosas vestes de linho,
contemplavam, extasiados, a resplandecente e altiva cúpula do Templo,
provocando comentários de admiração entre os judeus menos favorecidos pela
fortuna. E, entre semelhante barafunda, centenas de peregrinos, entrando e saindo
do recinto amuralhado, esquivando-se mutuamente ou desculpando-se com
exagerados e intermináveis gestos quando tropeçavam entre si. Havia os de todas
as latitudes: hebreus da Babilônia de mantos negros até as sandálias; persas de
reluzentes sedas recamadas de ouro e prata; judeus das mesetas da Anatólia com
suas típicas e grandes saias ou túnicas de pêlo de cabra; e fenícios de calções
multicoloridos...
Ao cruzar o arco da Porta dos Peixes, um penetrante odor de pescado recordou-
me que aquele era o ponto habitual dos tírios. À sombra da muralha, uma dezena
de fenícios, todos pagãos, convidava a clientela a provar as excelências das
“recentes pescas do lago de Genesaré e da vizinha costa de Tiro”. Ao dar uma
olhada nas carroças pude distinguir alguns belos exemplares de percas, salmões,
timalos e lúcios, protegidos entre folhas de samambaias e grosso sal diamantino.
Astutamente, punham à vista os exemplares considerados “puros”. Os que a Lei de
Moisés considerava “impuros” – todos os que não tinham escamas ou barbatanas
eram escondidos sob as carroças. Após doze ou quinze horas desde sua possível
saída do litoral mediterrâneo, até que a mercadoria não parecia excessivamente
deteriorada. A neve, ainda que conhecida e utilizada, já, como meio de
conservação dos alimentos, era ainda artigo de luxo, acessível tão somente às
mesas de imperadores ou grandes magnatas.
Quando recusei a oferta de um dos vendedores, um tírio, dando-me uma
piscadela ao captar meu acento estrangeiro, apanhou um cesto oculto sob o
improvisado posto e, em tom de cumplicidade, disse-me que suas “arraias,
lampréias, lagostas, enguias e siluros não tinham por que invejar os peixes ‘puros’”.
Correspondi-lhe com um sorriso e, desejando-lhe “saúde”, afastei-me daquele
empestado e enlouquecedor ambiente. Curiosamente, a maior parte dos “clientes”
era composta de homens, judeus de abundantes barbas e bigodes raspados,
ataviados com seus clássicos roupões de listras verticais vermelhas e azuis e
trazendo na mão esquerda diferentes cabazes de palha, nos quais iam depositando
as iguarias.
Aos tropeções fui abrindo passagem para o sul, em busca da muralha que
separava aquele setor noroeste do não menos concorrido bairro ou cidade baixa.
(Como narra Josefo em A Guerra dos Judeus, V, 42, 143, esta muralha, conhecida
como “a primeira”, “partia do flanco norte, onde está a torre Hípico, estendia-se
até o Xisto, continuando logo até a Cúria e terminando no pórtico ocidental do
Templo.”)
As vielas de Jerusalém, com sua infernal desordem, foram sempre um
tormento. E as que confluíam no grande mercado do bairro alto – o sûq ha-‘elyon –
não o eram menos. As casas e oficinas de adobe, encostadas umas às outras e
estas sobre aquelas, fundidas em um labirinto de sombras, passagens sem saída e
centenas de degraus umedecidos e empestados pelas urinas da criançada e das
bestas de carga, representavam um sério problema para quem precisasse orientar-
se. Embora pareça exagero, foram os ruídos e odores, característicos de cada a
zona da cidade, que me ajudaram a saber onde demônios me encontrava.
Naquele momento, por exemplo, o ruído chocho e monótono dos pisoeiros
lavando, impermeabilizando e convertendo em feltro a pelúcia da lã e os tecidos
procedentes dos teares, recordou-me que me achava no bairro alto, o setor pagão
por excelência, onde, segundo os doutores da Lei, o “cuspe daqueles pisoeiros era
tido por impuro”.
À medida que fui descendo, com cautela para não escorregar nos desgastados
paralelepípedos – em Jerusalém era impossível caminhar mais de quinze minutos
seguidos sem descer ou subir escadas –, o inconfundível e ritmado golpear dos
caldeireiros foi eclipsando a atividade dos pisoeiros.
De quando em quando via-me forçado a andar junto às paredes para dar
passagem a algum dos numerosos e dóceis asnos “mascate”, de longas orelhas e
grande estatura, de um pêlo quase branco e tangidos sem piedade por crianças,
adultos e velhos. Aqueles sofridos animais, carregados com ensebadas e gotejantes
canastras em que se balançavam bojudas ânforas de azeite ou vinho, eram tão
abundantes na Cidade Santa e em toda a Palestina que seus excrementos,
pisoteados pelo constante ir e vir das pessoas, formavam um todo com a
pavimentação das ruas. Na realidade, só algumas praças e as poucas artérias
principais, como as duas ruas de colunatas de ambos os mercados, por exemplo,
eram varridas diariamente pelos coletores de lixo e vassoureiros “oficiais”. (R.
Shemaya bar Zeera escreve que as ruas de Jerusalém eram varridas todos os dias.
E era certo. Mas a limpeza limitava-se a uma mínima parte do solo urbano.)
Às portas das tenebrosas casas, mulheres de enormes mantos verdes, marrons
e de outras cores, indefinidas de tanta sujeira, lidavam com suas panelas de barro
cozido, enchendo o ar com o odor azedo da gordura quente e das especiarias e
cobrindo o rosto à passagem dos homens. E entre as escadas e patamares daquela
rede de ruelas pestilentas, dezenas de meninos de cabeças raspadas, olhos negros
e profundos e pele fustigada por nuvens de moscas e crostas purulentas, tudo
conseqüência da péssima higiene. A criançada, alheia a tanta miséria, enchia a manhã do primeiro dia da semana com seus gritos, saltos e jogos, sonhando
aventuras com “leviatãs” ou pequenos crocodilos de madeira, passarinhos de tosca
argila avermelhada, trepidantes matracas e umas pedras caneladas multicoloridas.
Ainda que a escola estivesse instituída desde anos antes, muitos daqueles meninos
e adolescentes eram instruídos por seus pais, quase basicamente na Torá,
passando desde os cinco anos ao aprendizado do ofício do progenitor. Na maioria
dos casos, suas vidas eram marcadas pela profissão do pai. Espero poder falar mais
adiante deste curioso capítulo da educação, exclusivamente dedicada aos filhos
homens...
Por fim avistei a larga rua principal, com seu pórtico. Era a sede do mercado do
bairro alto e ali o tumulto ultrapassava tudo que se pudesse imaginar.
Sob as colunas e sobre o lajeado central, toda sorte de vendeiros
empenhavam-se em suas tarefas, chamando a atenção dos possíveis compradores
com seus guinchos, cânticos e estentóreos pregões. Os bufarinheiros ambulantes
propunham trocas: túnicas purpúreas de Sidon, anéis e meias-luas de ouro, tapetes
ou tecidos finos de bysus em troca de plantas medicinais, madeiras, frutas, mel ou,
certamente, denários de prata...
Muitos daqueles artesãos – a Bíblia cita 25 ofícios – eram facilmente
reconhecíveis por seus emblemas e distintivos. Os carpinteiros, por uma apara na
orelha; os alfaiates, por uma grossa agulha de osso espetada na roupa; um trapo
de cor distinguia os tintureiros.
Enquanto cruzava aquele “mercado”, esquivando-me de toda sorte de trastes
velhos e as mais variadas “exposições” de sandálias de couro de vaca ou pele de
camelo, objetos de bronze, mantos da Judéia, xales e túnicas dos hábeis tecelões
galileus, artigos de olaria do Hebron, Maresa, Cef e Socob, redomas de vidro,
marfim, refinado alabastro ou pedra calcária que continham ungüentos e perfumes,
chamou-me a atenção o círculo ocupado pelos médicos. Naqueles tempos o
conceito de médico era muito mais impreciso do que em nossos dias. Eram
considerados artesãos, ’ûmanut, e, como anuncia uma sentença do tratado rabínico
Qiddushin (LXXXII, a), tão pessimamente valorizados como em todos os tempos.
“O melhor dos médicos” – lamentava-se um dos rabis no citado Qiddushin – “está
destinado à Geena!” Seus honorários, como sempre, oscilavam de acordo com a
categoria. Havia os tão “notáveis” que jamais se ocupavam do povo, preferindo os
presentes e boas pagas dos poderosos. Os “médicos das tripas”, por exemplo, eram
os responsáveis pelo cuidado dos sacerdotes do Templo, quase sempre afetados
por problemas intestinais por causa das excessivas dietas de carne. Outros, cujos
preços eram muito baixos ou irrisórios, eram tidos por “inúteis”...
Ao perceber minha curiosidade, um dos “galenos” pôs-se em pé e, indicando
minha desleixada barba, ofereceu-se para raspá-la por um asse. Como recusei,
começou a apregoar o resto de suas habilidades: extração de algum dente?
Circuncisão? Uma sangria? Uma beberagem?
Empenhado em servir-me em qualquer coisa, o homem convidou-me a visitar sua “botica”. A verdade é que suas explicações mostravam um profundo
conhecimento das virtudes curativas das plantas. O hebreu invocou o Livro de
Salomão, fazendo-me ver que estava a par da detalhada lista de remédios ali
consignada:
– Azeite, unções suavizantes. Mel para feridas abertas ou como remédio para
angina...
– Sofres de antraz? Aqui tenho um prodigioso emplastro de figos... Ou preferes
o vinho mesclado com aloé púrpura?
Mudo e sorridente, deixei-o continuar falando.
– Se tens filhos, dá-lhes esta avenca: acaba com as lombrigas num abrir e
fechar de olhos...
O médico indicou então uma bateria de cestinhos de palha descolorida repletos
das mais diversas ervas: alecrim, hissopo, centinódia, arruda, charamela de pastor
ou bignônia...
– São excelentes contra as enfermidades do ventre... Também tenho “água de
Dekarim”.
Ao perguntar-lhe sobre esse remédio, o judeu me disse que era extraído da raiz
de certas palmeiras. Mas, zeloso de seus conhecimentos, rogou-me que relevasse
sua parca explicação.
– Padeces de palpitações? Tenho o melhor!
E, pegando um cântaro de bico, animou-me a examiná-lo. Um odor horrível de
leite coalhado fez-me franzir a face. O médico sorriu.
– É uma mistura de cevada molhada e leite de camela coalhado... Prova-o.
Neguei-me firmemente.
E o artesão-médico-curandeiro, insensível ao desânimo, prosseguiu na
enumeração do gênero que tinha à vista:
– Cataplasmas de salmoura de peixe para o reumatismo? Alho ou raiz de
parietária para dor de dentes? Sal ou levedura para as gengivas? Ou um tiquinho
de mandrágora?
Piscou-me um olho, acrescentando que aquela solanácea, tão parecida com a
beladona, podia estimular minha virilidade.
– Tens pai?
Nem me deixou responder.
– Este extrato de fígado é o indicado para curar a catarata... Também disponho
de ventosas, colírios contra o rigor do Sol...
Esgotado seu repertório, concluiu mostrando-me uma afiada adaga.
– Se ainda não completaste os 40 anos, posso praticar-te uma benéfica sangria
a cada trinta dias. Que dizes?
Por meu aspecto, saltava à vista que eu já havia passado, e muito, daquela
idade. E para não frustrá-lo pedi meio log daquela malcheirosa coalhada, de