Cavalo de Tróia 2: Massada
9 de abril, domingo ⠀愀渀漀 ㌀ )
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
nascente no deserto, e o esfriar-se-á depois abaixo da cor da púrpura real e o
introduzir-se-á no corpo de um escravo musculoso... a força do escravo se transfere
à lâmina e é a única que confere sua resistência ao metal”.
À margem desta última e fantástica “prescrição”, a verdade é que as indicações
das cores – “sol nascente” e “púrpura real” – eram bastante aproximadas. Em torno
dos mil graus Celsius para o “sol nascente” e uns 800 para a “púrpura real”. Por
último, as peças eram temperadas em salmoura quente, a uns 37 graus Celsius.
Devo confessá-lo. Meu primeiro pensamento foi adquirir aquele exemplar
“supersecreto” – desconhecido, também, para as legiões romanas – e levá-lo ao
módulo. Mas esta ação não teria sido aprovada pelo Cavalo de Tróia e, tal como
havia planejado, optei por obedecer a meu impulso inicial: dá-la de presente não a
Maria, a mãe do rapaz, mas sim a Elias, seu pai. No fundo, meu presente seria bem
acolhido por ambos.
Não tive nem problemas nem regateios com a compra. Os 50 denários exigidos
pelo ferreiro me pareceram justos. Em troca, consegui que o conserto do lampião
entrasse também naquele preço final. Ao receber as moedas de prata, o quenita,
enlevado pela inesperada e perfeita operação, levou aos lábios o amuleto que
trazia pendurado ao pescoço. Era um cravo de bronze de um supliciado na cruz!
Mais adiante, talvez, se apresente a ocasião de falar também das incríveis
superstições dos judeus e pagãos que povoavam a Palestina de Cristo. Mas, meu Deus, são tantas as coisas que devo contar!... Só peço forças para chegar ao fim do
relato da que foi nossa segunda... e terceira aventuras.
Consultei a posição do Sol. Faltavam mais ou menos duas horas para o ocaso.
Devia apressar-me se quisesse localizar os pastores de Emaús. Lucas, em seu
Evangelho, fala que “entardecia quando se acercavam do povoado” e que os
discípulos tentaram convencer o estranho a pernoitar com eles, já que o “dia
declinava”. Estas “pistas”, ainda que inseguras, eram as únicas de que eu dispunha.
Se a aldeia em questão se encontrasse a 60 estádios – dado também apontado por
Lucas (24, 13-14) –, era lógico supor que os irmãos, bons andarilhos, dada sua
condição de pastores, deveriam partir de Jerusalém por volta das 17 ou 17h30, ou
seja, uma hora ou uma hora e meia antes do ocaso, que ocorria nessa época do
ano às 18h22, tal como já tive oportunidade de aludir em outras ocasiões. Com um
pouco de sorte, talvez os viesse a encontrar, todavia, na mansão de José...
Ao nos pormos a caminho, detivemo-nos uns minutos na residência do jovem
João Marcos. O rapaz, feliz, correu ao encontro de sua mãe, relatando-lhe
atropeladamente tudo quanto fizéramos. Elias, o esposo, entretanto, não havia
regressado, e, impaciente por acorrer ao encontro do ancião de Arimatéia, coloquei
meu presente nas mãos de Maria, ao mesmo tempo que lhe agradeci por seus
obséquios. A mulher, atônita, não conseguiu pronunciar palavra. E sem dar-lhe
oportunidade de recusar o presente, despedi-me adiantando-lhe que, com quase
toda certeza, voltaríamos a ver-nos antes do anoitecer.
O silêncio reinante na casa – especialmente no pavimento superior – deu-me a
entender que tudo continuava sem mudanças entre os íntimos do Mestre. E, sem
esperar por João Marcos, saí o mais rápido possível por uma das rampas
parcialmente escalonadas que morriam no ângulo sul da cidade. Cruzei outro dos
pontilhões sobre o leito do Tiropeon e contornei a alta edificação que cercava a
piscina de Siloé. Os raios do Sol, já bem oblíquos, iluminavam as colunas que
rematavam as paredes do popular tanque. O tempo continuava correndo contra
mim. Dessa vez eu não podia falhar. Era vital que localizasse os pastores e que me
encontrasse – face a face – com o misterioso Ressuscitado.
A sólida casa de José, erigida ao pé da muralha leste e muito próxima à
sinagoga dos Libertos, foi sempre um dos lugares mais fáceis de localizar. O brasão
circular, com uma estrela de Davi e as cinco letras hebraicas entre as pontas,
formando a palavra “Jerusalém”, primorosamente lavrado no lintel de pedra, era a
última e definitiva confirmação de que eu necessitava.
Antes de entrar, estabeleci uma rotineira comunicação com o “berço”. Eliseu
parecia muito excitado e animado. Seus trabalhos sobre o lençol mortuário haviam
começado a dar frutos surpreendentes. Confirmei a hora – 16h55 – e, depois de
nos desejarmos mútua sorte, cruzei o umbral com determinação. Só que o meu
entusiasmo não tardaria a arrefecer-se...
Desde a porta já pude escutar uma mescla de gritos e cânticos que me alarmou. Atravessei o vestíbulo e, ao pisar o pátio central ladrilhado, o que vim a
presenciar acabou por desconcertar-me. Homens e mulheres, discípulos e
seguidores de Jesus, em sua maioria, corriam de um lado para outro, tropeçando
uns nos outros, como se fugissem de alguma coisa. Gritavam, riam ou choravam,
abraçando-se e elevando os braços para o céu. Em um dos ângulos, no claustro em
arcadas, que rodeava o local, outro grupo de mulheres batia palmas e dançava em
círculos. Não entendi nada. Ao ouvir os lamentos, pensei que uma súbita desgraça
se houvesse abatido sobre a casa do sinedrista. Mas, por outro lado, as danças e
mostras de alegria...
De súbito, por uma das portas que desembocavam no pátio, vi aparecer José
seguido de um dos serviçais. O escravo carregava um cântaro e um lenço que
pendia de seu braço direito. Ambos estavam apressados. Ao ver-me, Arimatéia,
sem deter-se, convidou-me com um aceno a segui-lo. E assim fiz, intrigado e
confuso.
Entramos em um cômodo, fracamente iluminado por quatro ou cinco
lamparinas de azeite. A princípio, só pude distinguir uns vultos encurvados que se
agitavam na penumbra. José e o servo abriram caminho por entre as sombras e foi
aí que verifiquei que se tratava de outro grupo de hebréias chorosas. Aproximei-me
das mulheres e então vi no chão, desmaiada, entre as esteiras, minha velha amiga:
a de Magdala. Estremeci. Que lhe teria acontecido desta vez? Ajoelhei-me ao lado
de José e, enquanto o criado molhava o lenço com a água da jarra, tomei-lhe o
pulso. Não me pareceu nada grave. O contato com o frescor da compressa fez
Madalena estremecer.
– Que aconteceu? – perguntei ao sinedrista sem fazer idéia do que ocorria.
José demorou a responder. Sua face apresentava uma palidez tão acentuada
quanto a da mulher. E, fazendo esforço, como se lhe faltassem as palavras,
sussurrou, ao mesmo tempo que desenhava um círculo no ar, apontando o grupo
de mulheres:
– Estas... que dizem tê-Lo visto.
Eu havia escutado perfeitamente bem. Mas durante alguns segundos fiquei
mudo. Perplexo.
– Outra vez? – consegui balbuciar.
Arimatéia pôs-se de pé e imitei-o. E ambos nos separamos do grupo que,
solícito, assistia Madalena. Ela começava a recobrar-se do desmaio. Uma vez
distanciados, pedi-lhe que se explicasse com mais detalhes.
– Não sei – hesitou o ancião –, eu não estava aqui...
Dizem que Ele tornou a apresentar-se.
– Mas quem?
Meu interlocutor olhou-me com uma certa reprovação. Com efeito, a pergunta
havia sido totalmente estúpida.
– Ah! compreendo – corrigi-me, olhando-o penetrantemente nos olhos.
José, porém, esquivou-se do meu olhar, e antes que eu conseguisse expressar-lhe meu profundo ceticismo, adiantou-se dizendo:
– Sei o que pensas. Mas dessa vez há algo mais... Algo que com certeza
desconheces.
Aguardei ansiosamente. Mas a chegada do servo frustrou o esclarecimento do
nervoso dono da casa. O escravo havia concluído sua tarefa e perguntou ao amo se
achava necessária a presença de um médico. Arimatéia fez-me a pergunta e eu,
convencido de que os sintomas refletiam tão-somente um mal-estar passageiro de
pouca importância, fiz-lhe um gesto negativo. O servo inoportuno retirou-se e José,
que parecia ter-se esquecido de suas palavras anteriores, deu meia-volta e
retomou ao grupo. Maria, quase refeita, achava-se recostada sobre almofadões.
Acabavam de dar-lhe uma taça de vinho e, sorvendo-o aos poucos, esforçava-se
por erguer-se.
José pediu silêncio e, dirigindo-se a Madalena, perguntou-lhe:
– Queres repetir o ocorrido?
A mulher levantou os olhos. Olhou-nos com um infinito cansaço e acedeu com
um quase imperceptível aceno de cabeça. Uma lágrima solitária havia começado a
rolar-lhe pela face. Senti-me condoído. Três aparições, e ela como testemunha de
todas; era demasiado... Aquela situação começava a preocupar-me seriamente.
Estaria Madalena em seu pleno juízo? Será que a morte de seu adorado Mestre a
havia perturbado? Naquele instante lamentei não haver indagado os antecedentes
de Maria. Que havia querido dizer o evangelista quando assegura que Madalena
fora curada por Jesus, “expulsando dela sete demônios”? Tratava-se de algum tipo
de doença mental? Talvez de uma ninfomania? Ou estaria referindo-se a uma
doença venérea? Não podia esquecer-me dos anos em que fora prostituta na vila
de Magdala... Claro que tal expressão – “sete espíritos malignos ou imundos” –
podia ser igualmente uma “chave” ou imagem esotérica ou cabalística, a que eram
tão apegados os orientais.
Prometi a mim mesmo que na primeira oportunidade falaria com ela e tentaria
reconstituir o seu “histórico clínico”. À primeira vista, Maria era uma mulher sadia.
Com demasiada experiência para sua idade – fruto de seu trabalho como cortesã –,
valente e sincera. Era contra a odiosa e injusta opressão de suas companheiras na
sociedade judaica. Sua audácia e lucidez mental sempre me haviam chamado
atenção. E pela enésima vez perguntei-me se estaria ela sendo vítima de algum
tipo de alucinação ou neurose. Dentro do complexo mundo da psicopatologia da
percepção, o estado afetivo do indivíduo pode condicionar gravemente a
objetividade daquele que observa ou daquele que crê observar. E o ânimo de
Maria, assim como o de muitos dos discípulos, achava-se quebrantado pelos
últimos e funestos acontecimentos.135
Repassei meus velhos conhecimentos de psiquiatria e psicopatologia, no
empenho de entender racionalmente aquele cada vez mais enredado fenômeno
das supostas aparições cristológicas. De acordo com a clássica definição de Ball
sobre a alucinação, ela resulta em uma “percepção sem objeto”, com o pleno convencimento, por parte do sujeito, de sua realidade.
Dessa forma, a alucinação verdadeira ou psico-sensorial é definida por Ey e
Claude em função de três parâmetros: projeção objetivante no espaço exterior ao
sujeito, cuja personalidade inteira fica envolvida nesse ato perceptivo anômalo;
ausência do objeto; e juízo de realidade positivo.
Para Madalena e o resto das testemunhas, o “objeto” – Jesus, nesse caso –
constituía algo real e exterior a elas. Com formas físicas claras e até mesmo com
voz. As coisas, portanto, se complicavam muitíssimo. Essa suposta “realidade”
externa descartava a primeira categoria dentro das alucinações. A que Ey chama
“pseudo-alucinação” ou alucinação psíquica e que constitui com freqüência uma
perturbação comum nas esquizofrenias e outros delírios crônicos. Um dos dados
que melhor a definem é seu aparecimento no interior do indivíduo. Que eu
soubesse, nenhuma daquelas hebréias sofria de esquizofrenia.
E, quanto ao segundo tipo de alucinação – a “alucinose” –, tampouco aparecia
com clareza. As alucinoses são definidas como percepções “sem objeto” e
corretamente criticadas pelo protagonista, que as vive como algo patológico.136
Que me recordasse, Madalena sempre afastou a possibilidade de que o que havia
visto e ouvido pudesse ser irreal. Ela até tentou abraçar os pés “transparentes” do
Mestre... De qualquer maneira, o assunto era confuso. Eu desconhecia se a mulher
havia padecido ou padecia nesse momento de alguma enfermidade somática.
Restava a terceira categoria – a “ilusão” –, que pressupõe uma deformação de
algo real e que costuma acontecer tanto com pessoas sãs como enfermas. Se são
numerosas e muito vívidas, denominam-se “pareidolias”. É bem conhecido o
exemplo de indivíduos que crêem ver nos ramos de uma árvore rostos ou figuras
dos mais diversos. Nessa nova suposição, tropeçava com um outro problema não
menos espinhoso: que poderia ter sido esse “algo” real que tanto Madalena quanto
as outras haviam forjado em suas mentes, convertendo-o em uma ilusão? Ou não
se tratava de uma ilusão?
Sem elementos de juízo, não quis sequer estabelecer a ou as possíveis causas
das alucinações em questão, supondo, repito, que assim fossem. (Certamente,
algumas das teorias patogênicas das alucinações não se encaixavam no caso de
Maria.) E dentro do capítulo psiquiátrico da classificação das perturbações
perceptivas, segundo o canal sensorial, as chamadas “alucinações visuais”
tampouco se encaixavam com o que fora descrito pelas hebréias. As características
nessas alucinações variam extraordinariamente: aparecem como elementares ou
complexas, móveis ou estáticas, em branco e preto ou coloridas, agradáveis ou
ameaçadoras (que são as mais comuns), de tamanho reduzido ou “liliputianas”, ou
gigantescas (“gulliverianas”).137
As descrições que ouvira – um Jesus estático, nada ameaçador, colorido e de
tamanho natural – constituíam uma arrevezada miscelânea que coincidia em partes
com os traços típicos das alucinações “visuais”. Em suma, estava armada uma
verdadeira confusão.
– Por favor... – animei Madalena. – O que aconteceu?
Suspirou, e entre lamúrias começou:
– Achava-me aqui, com elas, contando as duas aparições do rabi em Betânia
quando...
Não pude conter-me. Ao ouvir aquilo, reagi com brusquidão.
– Betânia? Duas o quê?..
O tom desagradou Madalena. E José, conciliador, pediu-me calma.
– ... E estava no meio da narração do acontecido na casa de Lázaro –
prosseguiu ela – quando, inexplicavelmente, sentimos frio. Foi uma sensação muito
clara. Como a de um vento gelado. Olhamo-nos em silêncio, com estranheza... Essa
porta estava aberta, sim, mas lá fora não havia vento nem fazia frio.
Apesar de seu evidente cansaço, Maria raciocinava com seu habitual domínio e
senso comum. E isso mergulhou-me em uma confusão maior.
– ... E, de repente, no centro do grupo, vimos a forma do Mestre.
Ao escutar o relato, algumas das mulheres puseram-se a chorar nervosamente.
Impacientei-me. Mas o ancião, com sua voz imperativa, ordenou silêncio.
– Era Ele! E saudou-nos, dizendo: “Que a paz seja convosco”.
Preferi não fazer perguntas. Deveria primeiro ouvir a versão de Madalena.
– ... Depois disse-nos: “Na comunhão do reino não haverá nem judeu nem
gentio. Nem rico nem pobre. Nem homem nem mulher. Nem escravo nem senhor...
Vós também estais conclamadas a proclamar a boa-nova da libertação da
Humanidade pelo Evangelho da união com Deus no reino dos céus. Ide pelo mundo
inteiro anunciando este Evangelho e confirmando aos que crêem nesta fé. Quando
fizerdes isso, não vos esqueçais dos enfermos e alentai aos tímidos e temerosos.
Estarei sempre convosco até os confins da Terra”. E, dito isso, desapareceu. Nós,
como sabeis, caímos de joelhos, mortas de medo. Suponho que perdi os sentidos.
O resto o sabeis.
Terminada a exposição, caiu em um profundo mutismo. Evidentemente, Maria
achava-se muito atingida. Eu diria que muito mais que nas ocasiões precedentes.
Sua atitude era até diferente. Havia passado da euforia, dos gritos e da luta contra
os céticos, a uma introversão e melancolia impróprias de seu temperamento.
Chorava sim, mas doce e sossegadamente. Também não mostrava desejo de falar
ou comunicar-se. Era muito estranho...
Mas eu precisava esclarecer aquele “manicômio”. Que havia querido dizer com
as aparições em Betânia? Será que continuavam repetindo-se as supostas visitas
do Ressuscitado? Aquilo não tinha nem pé nem cabeça... Os Evangelhos nada falam
sobre possíveis “materializações” de Jesus na casa de Marta e Maria e tampouco
daquela terceira e duvidosa “aparição” a Madalena e às hebréias que a
acompanhavam. Claro que, nesse ponto, ainda não confiava nos evangelistas...
Se Maria e as outras não estavam mentindo e não eram vítimas de alguma
alucinação, as palavras do Filho do Homem e o fato, em si, de haver aparecido a
mulheres sozinhas eram sumamente interessantes e significativos. Repito: se era um fato a aparição do rabi, a confirmação do papel das mulheres na pregação do
Evangelho do Reino havia sido escamoteada pelos homens. Clara e
categoricamente. E isso não era de estranhar, dado o secundário, quase infantil e
menosprezado lugar das mulheres na sociedade de então e dos séculos
posteriores. Eis aqui um testemunho que, se tivesse sido publicado, talvez
houvesse alterado os estreitos, mesquinhos e machistas esquemas das igrejas em
relação às mulheres.
Dessa vez respeitei o silêncio de Maria. E, tomando José pelo braço, saí com
ele. Eram muitas as perguntas que eu desejava fazer-lhe.
Minha pressa desapareceu. O inesperado rumo dos acontecimentos daquele
agitado domingo fez-me esquecer temporariamente os planos da missão. Se
aquelas novas e supostas aparições fossem reais, já não importava a localização e
acompanhamento dos pastores de Emaús. Jesus era capaz de apresentar-se nos
lugares mais insuspeitados... Só devia manter-me com os olhos bem abertos.
Deixar-me guiar pela intuição e, naturalmente, tratar de decifrar aquela charada.
Passeamos longo tempo sob o teto de cedro ricamente trabalhado dos
claustros. As mulheres, já agora mais tranqüilas, recomeçavam seus cânticos. Um
dos servos ofereceu-nos uma deliciosa e reconfortante taça de vinho negro e doce,
aromatizado com mel. A verdade é que o bom José não soube dar-me muitas
explicações sobre a ocorrência de Betânia. Encontrava-se ocupado em seus
trabalhos quando, pelas 4 ou 4 e um quarto dessa tarde, os criados lhe haviam
anunciado a visita de Maria Madalena. Vinha da residência de Marta e Maria, na
pequena aldeia do leste. Aparentemente, depois de sua segunda “visão” no horto e
de seu novo e estrepitoso fracasso com os apóstolos, tomara a decisão de ir à casa
de Lázaro para dar-lhes a conhecer os fatos que, em parte, havia protagonizado.
Duas horas antes, como eu já sabia, Davi Zebedeu havia passado pela mansão de
Arimatéia para buscar sua mãe, Salomé. Depois se despedira de todos e tomara o
mesmo destino de Madalena. Quando esta chegou a Betânia, os rumores sobre a
tumba vazia já circulavam pela povoação. Os numerosos peregrinos e viajantes se
haviam encarregado de difundi-los, de modo que já eram conhecidos pelas irmãs
de Lázaro e pelos membros da família de Jesus que ali estavam hospedados.
– Não sei muito bem – disse José –, mas imagino que os irmãos do Mestre
duvidaram também das palavras de Madalena. O caso é que, ali pela hora sexta
(pelas 12), quando Maria conversava com os de Betânia, aconteceu outra vez...
José de Arimatéia deteve-se diante da urna em que guardava suas valiosas
pedras ovóides e esféricas e o vaso de diatreta encontrado na Germânia e, durante
alguns segundos, encerrou-se em grave silêncio. Depois, como que tentando
convencer-se a si mesmo, murmurou:
– Mas nessa ocasião não foi visto por mulheres assustadiças...
O ancião, com grande surpresa de minha parte, concluiu seu conciso relato –
tomado por sua vez do de Madalena – dizendo-me que a testemunha dessa
aparição (a terceira, segundo meus cálculos) havia sido Tiago, um dos irmãos do Nazareno. Esse fato havia confundido muito mais José de Arimatéia. Tiago, com
efeito, era um homem muito sensato e positivo. Maria, apesar de sua natural
loquacidade, se havia mostrado algo imprecisa ao descrever a visão.
– Pelo visto – acrescentou José –, a entrevista com Jesus foi muito particular.
A segunda visão de Betânia, sempre segundo o ancião, teria ocorrido horas
mais tarde. Passada a hora nona (mais ou menos às 15 horas). E, como na anterior
narração, José falava por ouvir dizer. Ainda assim, esta quarta ocorrência,
considerada em uma estreita ordem cronológica, parecia havê-lo afetado tanto ou
mais que a de Tiago. A razão era muito simples: essa nova aparição do Filho do
Homem, registrada igualmente na casa de Lázaro, havia sido compartilhada por
Marta, Maria, a família do Galileu e por Davi Zebedeu e sua mãe, que, ao que
parece, acabavam de chegar na aldeia.
Eu conhecia um pouco a índole fria e sóbria do chefe dos “mensageiros” e
compreendi, do mesmo modo que meu amigo, que Davi não era pessoa fácil de
enganar ou sugestionar. O dado me deixou perplexo.
Quando me interessei por conhecer as circunstâncias dessa última aparição e a
possível mensagem de Jesus, o ancião deu de ombros. Madalena, que também
havia presenciado o incrível acontecimento, quase não havia falado a respeito.
Santo Deus! O labirinto começava a converter-se em pesadelo. Madalena,
segundo José, havia “visto” e “ouvido” o Ressuscitado... quatro vezes! Logo,
aqueles homens, Tiago e Davi, eram dignos de toda a confiança. E minhas
convicções sobre os fenômenos das aparições começaram a desmoronar. Eu já não
estava tão seguro de que tudo fora pura imaginação, fruto da neurose de umas
mulheres emocionalmente perturbadas ou meras alucinações individuais ou
coletivas. Confesso honestamente: minha mente, em branco, negava-se a
raciocinar. Talvez fosse o melhor... Só o que, suponho, me animou a continuar
naquele difícil e confuso momento foi o meu rígido senso de educação militar.
Agora, mais do que nunca, devia conservar a calma e a frieza.
Certamente, minha visita a Betânia era obrigatória. E ainda que figurasse no
programa do Cavalo de Tróia, decidi antecipá-la. As entrevistas com Davi e com o
irmão de Jesus eram fundamentais.
Estava decidido a colocar ordem na “teia de aranha” que me envolvia e, graças
aos céus, o conseguiria. Mas, antes, deveria passar por novos sustos...
Suponho que tenha sido uma falha de minha memória. Nunca me havia
ocorrido antes. E ainda que não queira justificar-me, aquele lapso e o que me
ocorreria pouco depois, quando estava prestes a entrar no cenáculo, foram de todo
alheios à minha vontade. Irei por partes.
Ali pelas 18 horas, em pleno caminho de regresso à casa dos Marcos, dei-me
conta de que não havia indagado sobre os irmãos de Emaús. E, como disse,
abstraí-me das emoções e do frenético desenrolar dos acontecimentos.
Perto da mansão detive-me, colocando-me o dilema: que faria? Sairia pela
estrada de Jaffa, à busca dos pastores, ou permanecia na residência de Elias, à espera da suposta aparição aos íntimos do Nazareno? Pesei minhas possibilidades.
A noite cairia às 18h22. Na realidade, como diziam os hebreus, “já quase não se
distinguia um fio branco de outro negro...”.
Se me lançasse atrás de Cleofás e Jacó necessitaria, com sorte, ao redor de
hora e meia para cobrir os 11 quilômetros que me separavam da povoação dos
vimeiros. Quer dizer, por muito que corresse, e a obscuridade não me facilitaria as
coisas, a noite me surpreenderia na metade do caminho. A “pele de serpente” e os
ultra-sons da vara eram uma boa proteção. Todavia, o Cavalo de Tróia
recomendava evitar riscos. Sobretudo os desnecessários. Não sei se já comentei o
problema dos caminhos de Israel naquela época. Os ladrões, bandoleiros,
mendigos famintos, escravos fugitivos e “sicários” ou revolucionários, que
realizavam incursões contra os romanos ou contra as hostes da numerosa família
herodiana, formavam legião nas calçadas e caminhos. Sobretudo na região do
leste. Isso obrigava a que não se viajasse nunca à noite e muito menos sozinho. De
outra parte, o fato de não conhecer fisicamente os pastores e a possibilidade de
que pudesse cruzar com eles em plena marcha acabaram por dissuadir-me. O mais
prudente e prático era aguardar os acontecimentos na companhia dos Marcos.
“Depois de tudo”, raciocinei enquanto batia na porta, “se conseguisse estar
presente na que se menciona como última aparição do Ressuscitado naquele
domingo, os objetivos da missão estariam satisfeitos em boa parte...”
Alguém, do outro lado da porta, fez com que me identificasse. Só então, e com
umas exageradas medidas de segurança, pude entrar na mansão. Aquela mudança
alarmou-me. Que estaria se passando? Logo o comprovaria por mim mesmo.
O caso é que entre os Marcos e seus criados reinava uma agitação especial,
mescla de nervosismo e de uma incontida alegria. A princípio não entendi muito
bem tão contraditória situação.
O dono, de regresso do campo, me recebeu no pátio com o tradicional beijo da
paz. Correspondi com outro beijo na face e, durante alguns minutos, tive de
suportar, sorridente, suas paternais recriminações. Meu presente era tão régio
quanto desnecessário.
Maria, a esposa, apressou-se a resgatar-me censurando o bom Elias por sua
tagarelice e falta de tato para com um amigo. Notei que estava feliz. Obrigou-me a
sentar em um dos tamboretes estrategicamente espalhados em torno da lareira,
sobre a qual estava suspenso um caldeirão de cobre de quase meio metro de
diâmetro. A enorme caçarola pendia de uma corrente que, por sua vez, estava
fixada a uma das vigas de madeira que cruzavam o pátio a céu aberto. O aroma
que escapava da panela lembrou-me que fazia muitas horas que não comia nada.
(Em realidade, 1.943 anos...)
Não vi João Marcos. Sua mãe continuou mexendo o guisado e, enquanto o
anfitrião me estendia um generoso copo de vinho do Hebron, perguntou-me se
estava a par das notícias que corriam por Jerusalém. Respondi-lhe que em parte, e
ela, desejosa de fazer-me partícipe do seu contentamento, foi-me contando alguns dos muitos rumores que eu já conhecia. Mas meus pensamentos estavam postos
no pavimento superior e, com o pretexto de dar uma olhada no guisado, aproximei-
me de Maria Marcos e perguntei-lhe pelo estado dos íntimos de Jesus. A senhora
recolheu seu permanente sorriso e resumiu a situação com uma palavra:
– Aterrados!...
E, elevando os olhos para o pavimento onde continuavam encerrados,
acrescentou que eu podia comprová-lo por mim mesmo.
O forte aroma das lentilhas borbulhantes, sabiamente condimentadas com
cebola, pimenta verde e louro, distraiu-me momentaneamente. A mulher notou-o
e, curiosa, perguntou-me se estava com fome. Disse-lhe que sim e muita, “apesar
de haver almoçado” – menti-lhe – “com tanto apetite e tão cedo que sessenta
corredores não teriam conseguido alcançar-me”. Maria sorriu, reconhecendo o
velho adágio hebreu, e, depois de provar as fumegantes lentilhas com sua colher
de pau, chamou um dos serviçais para que me acompanhasse ao pavimento
superior.
Carregando uma concha do mar onde flutuava uma lamparina de azeite, o fiel
criado guiou-me até o local onde se achavam os dez. Naquele momento, o longo e
triste som do sofar – o chifre do caprino macho – anunciou o final do dia. A lua de
Nisan não tardaria a luzir no sereno céu da Cidade Santa.
No instante, não me pareceu grave. Sei agora que devo contá-lo. Ocorreu
quando eu subia os dez ou quinze degraus de pedra que conduziam ao cenáculo.
Foi coisa de segundos...
Minha visão, de repente, anuviou-se. Acreditei ter perdido a noção de tempo e
de espaço. Tudo foi vertiginoso. Tive de apoiar-me na parede e, instintivamente,
fazer várias e profundas respirações. Sacudi a cabeça sem entender o que se
passava. Um suor frio empapou minhas fontes e, como veio, a obnubilação passou.
Que havia acontecido?
Refeito da estranha vertigem, tranqüilizei-me atribuindo-a às quase dezessete
horas de ininterrupto ir e vir e à falta de alimento. Dias depois, quando do terceiro
retorno ao módulo, entendi que aquela indisposição passageira obedecia a razões
mais sérias. Mas falarei disso a seu tempo.
O servo bateu três vezes à porta. Logo em seguida, do outro lado, escutou-se
uma voz:
– Quem é?
– Um fiel! – respondeu o criado.
Ainda não havia saído do meu assombro quando ouvi e identifiquei o ranger da
madeira. A porta de dupla folha foi entreaberta e, após verificar a identidade do
escravo, o discípulo – um dos gêmeos – franqueou-nos a entrada. Meu gentil
acompanhante retirou-se e, em seguida, como se disso dependesse sua vida, Judas
Alfeu precipitou-se sobre a tranca e entrincheirou a porta. Observei-o entre atônito
e divertido. Qualquer levita ou guarda do Templo poderia abri-la com um pontapé.
Mas o terror daqueles homens era tal que pareciam cegos. Será que a absurda, quase grotesca, contra-senha teria servido para alguma coisa se a casa fosse
abordada pelos inimigos?
Deus do céu! Que diferença abissal existia nas atmosferas de ambos os
pavimentos da casa! Embaixo, os seguidores de Cristo estavam praticamente
convencidos de sua ressurreição. A esperança e o júbilo eram um fato físico
palpável. E ali, a poucos metros, entre os “grandes” do reino, somente encontrei
desolação. Como foi mal registrada essa dramática situação pelos evangelistas!
A meia dezena de lamparinas de azeite que escassamente alumiava a sala
havia sido reduzida a duas. Uma, na parede da direita; outra, sobre a mesa em
forma de “U”. No primeiro instante tive dificuldade em divisá-los. O campo de visão
era muito restrito. O apóstolo que nos havia aberto a porta e João Zebedeu
acolheram-me de imediato, crivando-me de perguntas. Pareciam ser os únicos com
um mínimo de vitalidade naquele decepcionante quadro.
Enquanto me aproximava de um dos divãs vazios, fui-lhes respondendo por
monossílabos e sem a menor precisão. Pelo que pude captar, o jovem João Marcos
os fora informando sobre a marcha dos acontecimentos, ainda que ignorassem os
acontecimentos de Betânia e, por conseguinte, o recentíssimo da casa de José de
Arimatéia.
Prudentemente, não fiz a menor alusão a eles. Meu papel continuava sendo o
de um observador e, por nada do mundo, podia nem devia interferir. Suponho que
esta minha extrema parcimônia os tenha frustrado. E durante alguns minutos
deixaram-me em paz.
Meus olhos, acostumados de novo à penumbra, percorreram a sala, tentando
distinguir cada um dos enclausurados e adivinhar suas condições psicológicas. Tudo
continuava mais ou menos como eu havia deixado. Talvez até pior. Simão, o
Zelote, deitado em seu assento e de cara para a parede parecia adormecido. Simão
Pedro, sentado junto a seu irmão, com a cabeça entre suas enormes mãos,
cochilava. O resto deles, reclinado nos bancos avermelhados ou dormitando no
assoalho. Dois deles – o segundo gêmeo e Mateus Levi – roncavam beatífica e
ritmadamente. Essa me pareceu a atitude mais inteligente. Tiago, irmão de João,
foi talvez quem mais me preocupou naquela minha primeira observação. Sentara-
se no fundo do salão, recostando-se contra a parede. Em um inabordável silêncio,
matava o tempo de uma maneira que hoje poderia fazer estremecer os cristãos,
mas que então, dadas as circunstâncias e sua deplorável concepção dos
acontecimentos, nada tinha de estranho. Mecânica e pacientemente, fazia passar a
lâmina de sua espada sobre uma pedra negrusca que, provavelmente, continha
coríndon granulado, para afiá-la. Agora sei que aquele som sibilante – o único que
rompia o carregado ambiente junto dos roncos e cochilos de Pedro e André – era,
na verdade, o melhor resumo dos pensamentos dos presentes. Só importava a
sobrevivência.
Fazia um pouco mais de um quarto de hora que eu chegara quando, talvez
cansado de suportar as lamúrias de seu irmão, André, o que havia sido chefe dos apóstolos, veio sentar-se a meu lado. E mantivemos uma interessante e ilustrativa
conversa. Principalmente para mim.
O sofrimento daquele pescador, como o da maioria de seus companheiros, era
digno de pena. O galileu, solícito e agradecido diante da oportunidade de poder
descarregar sua angústia e seus temores, foi respondendo a minhas perguntas.
Haviam, certamente, discutido a idéia de fugir da cidade. Mas seu medo do
Sinédrio, e não me cansarei de insistir, era enorme. E por unanimidade decidiram
pela fuga durante a noite. Era inacreditável! Conheciam, por certo, os insistentes
rumores que circulavam por Jerusalém. Rumores contraditórios, é verdade, mas
que, em sua maioria, coincidiam no possível e milagroso fenômeno da volta à vida
de seu pranteado Mestre. Entretanto, nenhum deles havia tido a coragem de
lançar-se às ruas e interrogar as pessoas. Na realidade, a incursão de Pedro e João
até a tumba só servira para avivar as dúvidas, as mútuas agressões verbais e o
medo de uma possível prisão. “Se Caifás fora capaz de terminar com a vida de
Jesus” – pensavam com razão –, “que tipo de benevolência podemos esperar nós,
seus seguidores?”
André lamentou-se também pelo pouco valor que haviam dado até então ao
excelente serviço de Davi Zebedeu e seus “correios”. Agora, ainda que João Marcos
e algumas mulheres os mantivessem informados, compreendiam a importância
daquele trabalho. Devo ser sincero uma vez mais. A opressão e a tristeza daqueles
pobres e infortunados discípulos eram tais que pouco faltou-me para pô-los a par
do quanto eu sabia.
E quase sem perceber, e pouco a pouco, André e eu fomos repassando a
situação pessoal de cada um dos presentes.
O ex-chefe dos apóstolos – que se sentia grandemente aliviado pelo fato de
haver sido eximido de sua responsabilidade em momentos tão difíceis – elogiou
sem rodeios João Zebedeu. Fora o único a manter sua fé na ressurreição de Jesus.
Recordou-lhes em cinco ocasiões as promessas do rabi e – sempre segundo meu
informante – em outras três oportunidades aludiu às palavras do Mestre sobre a
data precisa de sua volta à vida: “ao terceiro dia”. Bartolomeu sentiu-se
especialmente reconfortado pela obstinada insistência de João. Mas, ao que
parece, a juventude do Zebedeu tirara seriedade e peso a suas esperançadas
palavras. E o grupo terminou por esquecê-lo ou fazê-lo calar-se.
Tiago, um dos mais racionais, absorto na tarefa de afiar seu gladius, havia
apoiado, a princípio, a sugestão de acudir em massa à tumba e verificar o que lhes
fora relatado pelas mulheres, Simão Pedro e seu próprio irmão. “É preciso chegar
ao fundo do mistério”, chegara a dizer de manhã. Diante, porém, das exigências de
Bartolomeu e de vários outros, de não se mostrarem em público, para assim não
expor suas vidas, tal como lhes havia pedido o Mestre, o Zebedeu acabou por
ceder, recolhendo-se naquele triste mutismo. Como a maioria, limitou-se a esperar
pelos acontecimentos, bastante frustrado, isso sim, diante do “inexplicável
comportamento de Jesus”.
– Inexplicável comportamento? – interroguei-o sem compreender.
Baixando o tom de voz, André fez-me ver que não eram tão estúpidos e que,
naturalmente, diante da torrente de notícias sobre as manifestações do rabi,
muitos pensavam que tais misteriosas “aparições” do Mestre poderiam ser reais.
Todavia, supondo que assim fosse, por que Jesus não se apresentara primeiro aos
“eleitos”? Que razão havia para que o fizesse a umas “tontas e inúteis mulheres,
cujo papel na evangelização do reino era publicamente reconhecido como nulo?”.
– Deves concordar conosco – sentenciou ele convencido – que se Jesus
houvesse ressuscitado de entre os mortos e decidido fazer-se visível, tê-lo-ia feito
primeiro e antes de mais nada a seus íntimos. A nós...
Olhei-o surpreso. André falava absolutamente a sério. Eis aí outro “detalhe”
habilmente “esquecido” pelos evangelistas, homens no fim das contas..
Depois de tudo que ouvi, a verdade é que recebi suas outras explicações com
um certo desgosto e mal-estar.
Bartolomeu, com sua típica indecisão, mais uma vez não chegara a definir-se.
Se em nenhum momento negou a possibilidade de que Jesus houvesse
ressuscitado, também não chegou a admiti-lo. Animou seus irmãos, é verdade, mas
em um nível puramente humano.
– E quanto a Simão, o Zelote – e André apontou para o divã onde ele
continuava deitado –, é como vês, até agora não abriu a boca. Continua em pânico.
Pelas declarações do pescador deduzi que o simpatizante dos zelotes se havia
negado a participar das discussões. Seu conceito do “reino” havia desmoronado.
Em um momento de lucidez chegara a intervir na polêmica, afirmando, com uma
perigosa dose de pessimismo, que, na realidade, “o fato da discutível ressurreição
do rabi não mudava as coisas”. Pelo menos ele não se sentia capaz de discernir em
que o pouco crível acontecimento da volta à vida do Crucificado podia modificar a
desonrosa situação geral. Exatamente como havia previsto o Galileu, necessitaria
de muito tempo para recobrar-se da decepção, do medo e da ruína moral.
O caso de Mateus Levi, docemente ausente graças ao sono, refletia também
sua especial idiossincrasia. Segundo André, “todo o seu problema eram as
finanças”. Como eu já disse, Davi Zebedeu lhe havia feito a entrega da bolsa com
os fundos da comunidade e, desde então, seu velho espírito de coletar impostos se
impusera sobre tudo o mais. Não deu opinião sobre a discutida ressurreição. Isso
não fazia parte de suas preocupações no momento. Sua obsessão era a falta de um
chefe hábil e capacitado para levar adiante o projeto do reino e, como eu já disse,
as contas... “Não tomarei decisões” – declarou Mateus antes de dormir – “até que
tenha visto Jesus frente a frente...”
Sem querer, Mateus havia revelado seu subconsciente, reconhecendo que
acreditava – ou desejava acreditar – na ressurreição do rabi.
Os gêmeos de Alfeu, como sempre, eram um caso à parte. Suas únicas
preocupações sérias haviam sido de ordem doméstica: comidas, entrincheiramento
da porta, contra-senha etc.
– Somente em uma oportunidade – manifestou André com um sorriso de
benevolência – atreveram-se a dar opinião, forçados, porém, diante de uma
diretíssima pergunta de Felipe: “Nós” – disseram – “não entendemos muito bem
toda essa história do sepulcro vazio e da ressurreição de Jesus, mas nossa mãe nos
disse que falou com o Mestre e cremos nela”.
Não fez mais comentários sobre os ingênuos, mas fiéis gêmeos.
Felipe, falastrão e gracejador, fazia jus à sua fama de brincalhão e tagarela
incorrigível. Foi ele o que mais fez intervenções nas discussões, andando de um
lado para outro e comportando-se grosseiramente.
André fez um gesto de desaprovação, ante o que classificou de “dúvidas
infantis” por parte de seu companheiro. Pelo visto, a máxima preocupação de
Felipe, o intendente, repetida à exaustão no transcurso daquela tarde, havia sido
se Jesus – uma vez ressuscitado – apresentaria ou não as marcas físicas de sua
crucificação. Como vemos, não era só Tomé, refugiado na aldeia de Betfagé, que
mostrava interesse em um fato tão banal...
Os outros nove, ainda que o escutassem com prazer e paciência, não
mostraram demasiada consideração às mordazes reflexões de Felipe. Simão Pedro,
especialmente, mostrou-se cortante para com o ingênuo apóstolo.
Deixar o irmão de André para o penúltimo lugar naquele apressado exame não
foi casual. Eu tinha um especial interesse em Pedro. Sua personalidade
contraditória e as emoções que havia vivido, desde a prisão de Jesus de Nazaré,
mereciam uma análise detalhada e a mais racional possível. Sua conduta naquele
domingo – creio-o sinceramente – não foi mostrada em sua verdadeira dimensão. E
faz-se necessário conhecê-la para compreendê-lo e entender sua gigantesca
tragédia interior...
O fogoso pescador da Galiléia, assim entendi, havia passado por variadas fases
– tristeza, desmoronamento e medo – durante as horas que se seguiram à captura
e crucificação de seu Amigo. Na madrugada do primeiro dia da semana, ao saber
da notícia da sepultura vazia e da suposta aparição de Jesus, sentira irritação e um
ceticismo brutal, tudo isso acrescido do pavor da guarda do Sinédrio. Depois, ao
comprovar por si mesmo a veracidade do sepulcro vazio, foi assaltado por outras
dúvidas, igualmente espantosas, mas que acabaram por se resumir à “teoria do
roubo do corpo”. Mas as notícias e rumores sobre as novas aparições continuaram a
multiplicar-se e Simão Pedro – que desejava como ninguém a “volta” de seu
Senhor – foi derivando até uma posição mais maleável e ao mesmo tempo
perigosa. Com o passar do dia, sem muito ânimo para negar com a força dos
primeiros instantes, o atormentado apóstolo chegou a dizer: “Mas, se ressuscitou e
falou com as mulheres, por que não se apresenta ante seus apóstolos?”.
E um lamentável pensamento começou a cristalizar-se desde então em seu
coração. André estava convencido – assim eu o ouvira dizer a seu irmão – de que
Simão Pedro sentia-se culpado...
– Por quê? – interrompi-o sem saber onde queria ele chegar.
André meneou a cabeça como se estivesse diante de um menino.
– E tu o perguntas, Jasão?
Lançou um olhar complacente sobre seu irmão e continuou:
– Fugiu como todos nós e, ademais, renegou-O. É natural que se sinta assim...
Eu começava a perceber a nova obsessão do rude pescador, o que me seria
confirmado por André. Simão Pedro – apesar do relativo e passageiro consolo que
significou para ele a menção de seu nome em uma das aparições – havia caído no
erro de crer que o Filho do Homem não se apresentara ante os “escolhidos” por
causa de sua quádrupla traição no pátio da casa de Anás. Por outro lado, para
acabar de enredar sua confusa mente, continuava resistindo a aceitar o
testemunho das mulheres. A possibilidade e o medo de cair prisioneiro o
mantinham encurralado. Um pouco antes, quando o vi cochichar com André, Pedro
estava com a decisão tomada: pronto a separar-se do grupo apostólico. Só assim –
pensava o aturdido discípulo –, supondo que Jesus houvesse ressuscitado
realmente, se produziria a ansiada aparição do Mestre aos seus. Fiquei perplexo.
– Ele tem a real intenção de partir?
O irmão assentiu com resignação.
– E nada nem ninguém o dissuadirá – enfatizou.
Disso, sim, estava seguro. Ele, que mais tarde seria uma das “cabeças” do
movimento cristão, era lento e tardo em suas decisões; porém, uma vez tomadas...
– E quando pensa partir?
André não o sabia com exatidão.
– Não o disse a mim, mas imagino que nesta mesma noite...
Para mim estava claro que Simão Pedro era vítima, naquelas horas, de uma
aguda crise neurótica. Bastava vê-lo e saber das suas freqüentes, complexas e
absurdas mudanças, para perceber que atravessava o que hoje poderíamos definir
como algumas das formas clínicas da neurose: de angústia, de histeria, fóbica ou
obsessiva. Talvez uma mescla da primeira e da última.
O estado de alma de meu acompanhante, André, era, talvez, um dos mais
estáveis: aliviado por sua liberação como chefe daqueles despojos humanos e
esperançado. Sua grande preocupação naquele instante era Pedro. Somente Pedro.
Do apóstolo ausente, Tomé, praticamente não falamos. Contagiado de certa
forma pela inquietude de André, fui até Pedro. Acomodei-me a seu lado e, durante
breves minutos, dediquei-me a observá-lo. Qualquer psiquiatra teria ficado feliz, e
eu também, se houvesse podido submeter o pescador a qualquer dos testes ou
questionários que servem para avaliar a neurose e ansiedade: Cattell, NAD,
Hamilton, SN59, Taylor etc. Mas isso, evidentemente, teria sido um tanto
comprometedor. De toda maneira, propus-me a tentá-lo... mais adiante. A
experiência poderia ser apaixonante...
De momento, contentei-me com uma ligeira exploração de alguma de suas
constantes vitais. Passei o braço pelos seus ombros e, procurando transmitir-lhe
todo o meu afeto e simpatia, tentei animá-lo. Quase não olhou para mim. E aí percebi algumas das características dos indivíduos atormentados pela neurose:
uma grande rigidez perceptivo-motora e escasso controle corporal. Faltava-me um
terceiro elemento e, em tom de cumplicidade, de forma que os demais não me
pudessem ouvir, perguntei-lhe se a luz o molestava. Negou com a cabeça e, de
pronto, reprovou seus irmãos por haverem apagado as luzes. Tal qual eu
suspeitava, sua adaptação sensorial à visão na obscuridade era medíocre. (Outro
sintoma indicativo do grave momento que atravessava.)
Notei que seu ritmo respiratório sofria altos e baixos e, recordando-lhe minha
condição de “curandeiro”, tomei-lhe o pulso. Assentiu aborrecido. Efetivamente, sua
excitação nervosa estava acelerando seus batimentos cardíacos, com uma possível
elevação da pressão arterial. A condutância cutânea parecia alta. Apalpei seus
antebraços e o fluxo sanguíneo revelou-se muito acelerado.138 Se eu tivesse tido
acesso a uma análise do sangue, talvez houvéssemos encontrado uma elevação de
colinesterasa.
– Sentes frio?
– Um pouco...
A verdade é que não havia motivo. A temperatura exterior era moderada,
talvez uns 12 ou 14 graus, e a ambiente, algo superior. Aquela especial
sensibilidade ao frio e a fácil fatigabilidade de Pedro eram novos sintomas que
vinham enriquecer meu diagnóstico provisório. E ainda que eu soubesse que esse
quadro biológico deveria ser utilizado com prudência para um diagnóstico, era
indicativo de uma insuficiência energética geral e de um estado de hiperatividade
ou elevado drive ou ansiedade, próprio do que hoje chamamos estresse.
– Que está acontecendo comigo, Jasão?
A voz enrouquecida do apóstolo soou-me com uma indescritível tristeza. Como
os de João e Simão, o Zelote, seus olhos estavam inchados, injetados pela vigília e
pelas lágrimas, e marcados por profundas olheiras.
Quanto desejei dizer-lhe a verdade! Anunciar-lhe o que lhe reservava o destino
e, assim, aliviar seu padecimento e o meu... Mas não era esse meu trabalho.
Então, dando-lhe umas palmadinhas nas costas, somente ocorreu-me uma vaga e
nada reconfortante resposta:
– Trata-se de um mal-estar passageiro...
O bom Pedro tentou retribuir com um sorriso. Mas não conseguiu. E,
escondendo o rosto naquelas peludas e calejadas mãos de pescador, pôs-se a
soluçar entre esporádicos tremores.
Tive de retirar-me, maldizendo o código moral a que estava sujeito.
Mas, de repente, alguns golpes na porta tiraram-me de meu aturdimento.
A reação do grupo foi fulminante e digna de haver sido narrada pelos
evangelistas. Tiago Zebedeu pôs-se em pé de um salto, brandindo a espada.
Pedro, com os olhos desfigurados pelo medo, foi entrincheirar-se atrás do divã, não
conseguindo sequer, em seu nervosismo, desembainhar o gladius. João e os
gêmeos, lívidos, não moveram um músculo. Bartolomeu, na pressa de correr para o fundo da sala escura, pisou em seu manto e caiu de bruços sobre o assoalho. Felipe
correu a despertar Mateus Levi, e André, pálido e vacilante, permaneceu sentado,
paralisado pelo terror. Eu, claro, também me assustei. E, reunindo toda a minha
serenidade, pus-me de lado, encostando-me à parede da direita. Estive a ponto de
tropeçar no divã de Simão, o Zelote. Seu estado de prostração era tal que nem
sequer ouviu as batidas.
Evidentemente, aquele que se encontrava do outro lado da porta não se
lembrava da contra-senha. E, entre o silêncio e o rumor de uma ou outra respiração
entrecortada, o “intruso” tornou a bater na porta, fazendo estremecer os desolados
discípulos. Tiago Zebedeu, mais frio e audacioso que seus amigos, deu alguns
passos, sem fazer ruído, e aproximou-se da porta. Postou-se de lado, levantou sua
arma afiada por cima da cabeça e, com a mão direita, ordenou a André que
destrancasse a porta. Em meio a uma grande tensão, o irmão de Pedro caminhou
devagar até a tranca, e já se dispunha a retirá-la de um golpe, quando uma voz
aguda e familiar nos encheu de perplexidade. Era João Marcos!
Um suspiro de alívio ressoou pelo cenáculo, ao mesmo tempo que alguns dos
íntimos de Jesus se precipitaram para a porta. Mas Tiago, o “filho do trovão”, com
a espada levantada, obrigou-os a se afastarem.
– Pode ser uma armadilha!
Então André, ajudado por Mateus Levi, passou a liberar o acesso. O rapaz
invadiu a sala. Suarento e arquejante, gesticulando e apontando para o interior, fez
muito esforço para articular as palavras. Mas sua excitação era tamanha que
precisou de alguns segundos para consegui-lo. Desconfiados, os gêmeos, seguindo
a direção indicada pelo benjamim, voltaram a cabeça para fora. E, dando de
ombros, tornaram aos seus companheiros, ansiosos. Ali, com efeito, não havia
ninguém.
Passado o falso alarme, os discípulos, sumamente irritados, admoestaram o
rapazinho. Mas João Marcos, sem se importar, foi sentar-se em um dos divãs e só
então lançou a revelação:
– Viram-nO!... Outra vez!
Supus que se tratasse da última e pretensa aparição de Cristo em casa de José
de Arimatéia. Tornei a equivocar-me. E, tão perplexo quanto os demais, escutei
dos lábios do menino outra não menos singular e incrível notícia. Este foi seu
atropelado relato:
– Por volta das quatro e meia... na casa de Flávio... E mais de quarenta gregos
O viram...
André ajoelhou-se diante do mancebo e pediu-lhe calma, João Marcos,
engolindo em seco, assentiu com a cabeça. Foi inútil. Seu coração estava a ponto
de saltar-lhe pela boca...
– Disseram-me – continuou com os olhos iluminados – que lhes falou...
Os apóstolos amontoaram-se em torno do aturdido “correio”, comiam-no com
os olhos, seguindo-lhe atentamente cada gesto e cada palavra. Se alguém os houvesse observado naquela hora jamais diria que se tratava de homens céticos e
tíbios. Eu mesmo cheguei a duvidar. Sobretudo Pedro, com a boca aberta e o olhar
perdido, esfregava nervosamente as mãos, assentindo ritmicamente com a cabeça
a cada uma das explicações do rapaz. E uma imensa, ainda que momentânea
alegria, fez-me tremer de emoção.
– Que disse Ele? – explodiu impaciente João Zebedeu.
– Não me lembro...
A decepção estampou-se nos rostos e algumas imprecações foram ouvidas. Mas
João Marcos era tão sincero quanto eficaz. E, vasculhando entre as pregas de sua
túnica, tirou um caco de argila – provavelmente restos de um cântaro ou de uma
gamela – no qual, com caracteres mal traçados, havia copiado as palavras, ou as
supostas palavras, do Galileu nessa nova aparição.
Orgulhoso, exibiu aquela espécie de ostraca e, adotando um tom solene, leu as
toscas letras, feitas com pedra ou objeto pontiagudo:
“– Que a paz seja convosco. Ainda que o Filho do Homem haja aparecido na
Terra entre os judeus, trazia o ministério para todos os homens...”
O rapaz parecia ter problemas com sua própria escrita apressada.
– Que mais?
Os “incrédulos” apóstolos movimentaram-se nervosamente.
– Ah! sim – disse João Marcos –, agora o entendo... “trazia seu ministério para
todos os homens. Dentro do reino de meu Pai não há nem haverá judeus nem
gentios. Todos sereis irmãos... Os Filhos de Deus”.
– Essa última parte não me parece certa – sentenciou Mateus.
João Marcos releu o caco de argila e, levantando os olhos para o impaciente
grupo, repetiu:
“– Todos sereis irmãos... Os Filhos de Deus”. Isso foi o que me afirmaram que
Ele disse.
Aquele possível erro de transcrição – tão próximo e “quente” – era simbólico.
Se o voluntarioso caçula dos Marcos não havia sido capaz de copiar com precisão
algumas das palavras do Mestre, que se podia esperar de uns textos elaborados
dezenas de anos mais tarde, e por pessoas que nem sequer haviam conhecido o
Mestre ou escutado seus ensinamentos?
– Está bem, está bem! Continua!
“– ... Ide, portanto, pelo mundo inteiro espalhando este evangelho da salvação,
como o recebestes dos mensageiros do reino e Eu os receberei na comunhão da
fraternidade dos filhos do Pai na fé e na verdade...”
O mensageiro silenciou.
– E que mais? – insistiram vários dos presentes.
– Mais nada – respondeu João Marcos. – Despediu-se e desapareceu de nossa
vista.
Os discípulos trocaram alguns olhares, interrogando-se em silêncio. Ninguém se
atreveu a pronunciar-se em primeiro lugar. Mas, enquanto voltavam a acomodar-se, a atmosfera eletrizante alcançou seu clímax, e foi suficiente um espontâneo e