De menor a presidiário

Sônia Altoé · Capítulo 8 de 17

Páginas do PDF

De menor a presidiário

III. Escolaridade

 

A escolaridade dos entrevistados será analisada a partir da identificação do seu nível de instrução e das relações desse indicador com o tempo que permaneceram na escola e o motivo pelo qual pararam de estudar.

A população pesquisada divide-se em dois grupos quase equivalentes numericamente. De um lado, temos que 44,7% não

atingiram a 4ª série completa9, de outro, representando a maioria, 52,7% que atingiram a 4ª série completa ou mais. No entanto, apenas 8,8% têm o ensino fundamental completo, etapa da escolaridade considerada obrigatória pela Constituição de 1988, como um direito a ser alcançado por todo cidadão.

Com relação ao analfabetismo, verificamos um percentual de 15,8% entre os nossos entrevistados. Este dado se aproxima daquele encontrado para o conjunto de internos do sistema penal do Rio de Janeiro, que é de 12,8% de analfabetos (cf. Lemgruber, 1990). Esses percentuais mostram que o nível de escolaridade dos entrevistados é bastante deficiente, o que, certamente, dificulta sua inserção no mercado de trabalho. De fato o nível de escolaridade dos presidiários, egressos de internatos ou não, é bem mais baixo que aquele encontrado para o conjunto da população masculina na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 1989. Naquele ano, segundo dados de Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a proporção de homens analfabetos nessa região era de 7,4%, menos da metade daquela encontrada entre os entrevistados, e a proporção dos que tinham 8 anos ou mais de estudo era de 40,2%, enquanto entre os entrevistados era de 8,8%.

Ainda, segundo os dados do IBGE, 1989, no Brasil, de cada mil alunos novos que entraram na 1ª série, pouco mais de 25% conseguem concluir a 8ª série. Estes dados mostram como está seriamente comprometida a possibilidade de que a educação seja um instrumento para se atingir níveis mais elevados de desenvolvimento econômico e de bem estar social. Os dados da nossa pesquisa corroboram esta informação, mostrando que esses adultos que se encontram no presídio certamente fizeram parte da maioria da população brasileira jovem e pauperizada para a qual, por diversos motivos, é inviabilizada a aquisição da educação formal básica. Ou seja, quando crianças e adolescentes, não desfrutaram do direito de estudar e se prepararem para enfrentar a vida na maioridade com um instrumento que facilita e dá maiores condições de inserção na vida social e do trabalho.

De acordo com o Quadro 2, podemos observar que, 53,5% frequentaram a escola 4 anos ou mais, 22,g% frequentaram a escola de 1 a 3 anos e 10,5% nunca frequentaram ou frequentaram menos de 1 ano.

QUADRO 2 – NÚMERO DE ANOS QUE FREQUENTARAM A

ESCOLA

 

ANOS NÚMERO %

 

Nunca frequentou* 05 4,4

 

Menos de 1 ano 07 6,1

 

De 1 a 3 anos 26 22,8

 

De 4 a 7 anos 40 35,1

 

Acima de 8 anos 21 18,4

 

Sem informação 15 13,2

 

TOTAL 114 100,0

 

Considera-se que 4 anos de estudo é o tempo mínimo para que a alfabetização seja duradoura e permanente. Os dados do IBGE, 1989, revelam um quadro preocupante no qual somente 72,5% de jovens entre 12 e 15 anos, do sudeste urbano, tinham 4 anos ou mais de estudo. Para a clientela de adultos aqui estudada, os dados são ainda mais graves. Revelam que somente 52,7% têm 4 anos ou mais de estudo. Apesar da Constituição afirmar que o Estado tem a obrigação de garantir o ensino de 1º grau a todo cidadão, o que se constata é que um alto número daqueles que acabaram se encontrando no início da vida adulta no presídio não conseguiram desfrutar desse direito.

Consideramos que os dados coletados, comparados com o do IBGE, mostram um quadro de escolaridade mais grave, na medida em que aqueles dados dizem respeito ao estudo na adolescência e nos nossos dados referem-se a adultos que até os 18 anos não estudaram mais de 4 anos e que agora encontram-se cumprindo pena. Portanto, com muito menos chance de dar continuidade ao estudo e deste ser um instrumento que facilite a sua inserção social.

Ao relacionarmos os dados do Quadro 1 (última série concluída)

com os dados do Quadro 2 (anos que frequentou a escola), observamos que, por um lado, 69,3% dos entrevistados tinham entre a 1ª e a 7ª série concluída e, por outro lado, que 57,9% frequentaram a escola durante um período de 1 a 7 anos. Ou seja, se os entrevistados que tinham entre a 1ª e a 7ª série concluída tivessem gasto o tempo esperado para fazer cada uma dessas séries – um ano letivo esses percentuais seriam iguais. O fato de termos encontrado uma diferença de 11,4% revela que uma proporção equivalente de entrevistados necessitou mais do que um ano para completar as séries indicadas. Frente a esses dados podemos levantar a hipótese de que o aproveitamento escolar dessas pessoas foi insatisfatório, indicando reprovação e repetência.

QUADRO 1 – ÚLTIMA SÉRIE CONCLUÍDA

 

SÉRIE Número

 

Analfabeto 18

 

C.A. 04

 

1ª a 3ª série 29

 

4ª a 7ª série 50

 

8ª série ou mais 10

 

Sem informação 03

 

TOTAL 114

 

Um outro grave problema é a saída precoce da escola levando grande parte dos entrevistados a não concluir a 8ª série. Essa preocupação nos levou a investigar os motivos que fazem com que esta população não encontre possibilidades de continuar estudando.

Segundo dados do IBGE, 1989, a evasão escolar continua a ser um fenômeno constante na vida escolar dos alunos no ensino fundamental. Tais dados mostram que em todo o Brasil a evasão na 1 a série do ensino fundamental chega a 25,6%, sendo que no Sudeste cai para 10,2%. Entre os entrevistados, quase todos (92%) pararam de estudar.

Veremos a seguir alguns indicadores dos motivos que levaram nossos entrevistados a abandonarem a escola, ou seja, as justificativas alegadas por eles para ocorrer a evasão escolar. Como já vimos acima, o nível de escolaridade e a frequência à escola são bastante deficientes. Neste sentido, o motivo que os levou a deixar os estudos pode nos ajudar a entender melhor esta situação.

De acordo com o Quadro 3, podemos observar que 28,1% dos entrevistados responderam que pararam de estudar por “desinteresse”; este motivo foi o mais forte entre todos os motivos alegados pelos entrevistados. O termo “desinteresse” foi utilizado por nós para classificar os relatos que se referiam à falta de interesse pelo estudo e pela escola de um modo geral (“nunca me interessei pelo estudo”; “não gostava de estudar”). Este “desinteresse” também era demonstrado através de falas que enfatizavam a “farra”, a brincadeira e a rua, como, por exemplo: “era fase de farra”; “pensava só na brincadeira”; “queria ficar na rua”. Um outro tipo de “desinteresse” que observamos refere-se à falta de perspectiva com o estudo em relação ao futuro, assim como também aparece um “desinteresse” mais vinculado ao fato de ter parado de estudar por causa da “vida”, do “destino” (“porque a vida já tava desordenada”).

QUADRO 3 – MOTIVO PELO QUAL PAROU DE ESTUDAR

 

MOTIVO Nº %

 

Desinteresse 32 28,1

 

Trabalho 21 18,4

 

Devido a 'vida do crime' 17 14,9

 

Problemas escolares 15 13,2

 

Falta de condições financeiras 14 12,3

 

Internato 02 1,7

 

Outros 04 3,5

 

Não parou 03 2,6

 

Sem informação 06 5,3

 

TOTAL 114 100,0

 

Em seguida, aparece o motivo “trabalho” enquanto uma alternativa ao estudo e enquanto uma necessidade. Estas ideias aparecem mais claramente na fala de alguns entre os 18,4% dos entrevistados: “porque não dava para trabalhar e estudar, então larguei o estudo”, “porque precisava trabalhar”.

Os 14,9% dos entrevistados que agrupamos no motivo “vida do crime” explicitavam esta situação de forma clara, como nos exemplos, “devido à vida do crime”, “entrei na vida do crime”.

Definimos como “problemas escolares” (13,2%) as situações que dizem respeito a difícil relação entre os alunos, a relação conflituosa entre professor/aluno e a um sistema pedagógico que não está atento à realidade cultural destas crianças não conseguindo instigar o seu interesse. Ilustraremos estas situações através das seguintes falas: “muito problema na escola, brigas”; “porque a professora colocava de castigo”; “a professora era muito estúpida”; “quando a professora enchia o quadro de letras, eu não queria fazer”; “minha mente já não tava dando mais... matemática... não dava”.

Consideramos que a “falta de condições financeiras” é na verdade o grande motivo que está presente no motivo “trabalho” e na “vida do crime”, que são consequências do baixo rendimento familiar. Contudo, o motivo “falta de condições financeiras” refere-se aqui especificamente às situações em que a família não podia pagar o colégio dos filhos. Dos 12,3% entrevistados que apontaram ser este o motivo que os fez parar de estudar, vamos citar algumas falas: “saí do internato e minha avó não tinha mais condições de pagar os estudos”; “não tinha condições de pagar a escola”.

O motivo “internato” refere-se a situações de fuga do internato, ou seja, o mais importante era tentar fugir e com isto o estudo era colocado em segundo plano. Apenas 1,7% dos entrevistados responderam que este foi o motivo de terem parado de estudar. Como, por exemplo: “estava muito abalado da mente, só pensava em fugir”. O motivo “outros” diz respeito a casos esporádicos relativos à doença, porque foi para o quartel e não sabe o motivo porque parou de estudar.

Notamos que todos esses motivos, inclusive os que apresentam uma incidência maior, se mostram dispersos com relação às faixas de frequência à escola e à última série concluída. Tais motivos aparecem tanto na faixa de entrevistados que frequentaram poucos anos de escola quanto na faixa dos que frequentaram mais de 8 anos, assim como aparecem, tanto entre os entrevistados que cursaram poucas séries, quanto entre os que conseguiram atingir séries mais avançadas. Podemos concluir, então, que o motivo pelo qual estes entrevistados pararam de estudar não tem uma relação explícita com o tempo que passaram na escola e nem com a última série cursada. Porém, é um dado importante que aponta o quanto a escola é distante da realidade da vida dessas pessoas e não consegue ser estimulante, criativa e nem oferece perspectivas.

“A lembrança maior é ter aprendido uma profissão”.

Jorge 28 anos

“O internato é melhor do que aqui. Porque lá a gente aprende

uma profissão e aqui no presídio não.”

Severino, 25 anos

 

9 Lemgruber, 1990, obteve um dado próximo, de 38.8%.