De menor a presidiário

Sônia Altoé · Capítulo 9 de 17

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De menor a presidiário

IV. Formação profissional

 

Uma das nossas preocupações foi investigar a oportunidade dos entrevistados iniciarem um curso técnico, que lhes desse a possibilidade de uma profissionalização ainda antes dos 18 anos. É certo que em nossa sociedade ter qualificação profissional permite ao trabalhador, mesmo na menoridade, obter uma remuneração mais digna, como também ter a oportunidade de realizar uma escolha profissional com possibilidades de planos e projetos de carreira no futuro.

QUADRO 1 FREQUÊNCIA AO CURSO PROFISSIONALIZANTE E

IDADE DA 1ª PRISÃO

 

Idade da Total Frequentaram Frequentaram Não

primeira com diploma sem diploma frequentaram

prisão

 

17 anos 03 03 - 03

 

18 a 21 38 18 20 48

anos

 

22 a 29 11 08 03 10

anos

 

Sem - - - 01

informação

 

Total 52 29 23 62

 

Como podemos observar, 45,6% dos entrevistados declararam que tiveram a oportunidade de iniciar um curso profissionalizante, enquanto 54,4% não tiveram. Entre aqueles que iniciaram o profissionalizante somente 55,8% concluíram o curso e obtiveram diploma, o que corresponde a 25,4% do total dos entrevistados.

Como podemos ver no Quadro 2, 63,5% dos entrevistados que cursaram o profissionalizante o fizeram no internato, e desses, 48,5% concluíram com diploma. De 7,7% que iniciaram em firma, 50% concluíram com diploma. E dos 23,1% que frequentaram escola profissionalizante (por exemplo: SENAI, SENAC), 83,4% concluíram com diploma. Logo, o dado mais significativo que encontramos é que o rendimento das escolas profissionalizantes é muito maior do que os cursos oferecidos nos internatos ou firmas. A hipótese que gostaria de levantar para que este resultado ocorra é que a qualidade do ensino é superior e há liberdade de escolha do curso e mesmo de frequentá-lo.

QUADRO 2 – OBTENÇÃO DE DIPLOMA E LOCAL EM QUE FOI

REALIZADO O CURSO PROFISSIONALIZANTE

 

LOCAL DO CURSO Total Com Sem

diploma diploma

 

Internato 33 16 17

 

Escola 12 10 02

profissionalizante

 

Firma 04 02 02

 

Local desconhecido 03 01 02

 

TOTAL 52 29 23

 

Entre os entrevistados que obtiveram diploma de algum curso profissionalizante, 72,4% entraram para o presídio com idade entre 17 e 21 anos. Este dado confirma-se e toma-se ainda mais grave ao considerarmos que 78,8% dos entrevistados que iniciaram o curso profissionalizante, obtendo diploma ou não, entraram precocemente na prisão (até 21 anos). Por outro lado, temos que 54,4% não frequentaram curso profissionalizante, e desses, 82,3% entraram para a prisão antes dos 21 anos. Constatamos, portanto, que a diferença quanto a entrada precoce na prisão é pequena entre os que frequentaram ou não curso profissionalizante, o que nos leva a crer que o fato de fazer curso não retardou a entrada na prisão.

Enfim, pode-se afirmar que a oportunidade de um aprendizado profissional não impediu a entrada precoce dessas pessoas no sistema penitenciário. Os dados parecem indicar que, ou os cursos profissionalizantes não preparam para competir no mercado de trabalho, ou que, ter um diploma de curso profissionalizante, não é um requisito suficiente para a entrada e permanência neste mercado.

Para analisarmos se o curso profissionalizante ofereceu a oportunidade de profissionalizar estas pessoas, de forma que elas tivessem uma profissão na qual se mantivessem trabalhando, fizemos a relação entre o curso profissionalizante frequentado e a

atividade profissional. Ver Quadro 3.

QUADRO 3 – RELAÇÃO ENTRE CURSO PROFISSIONALIZANTE

E ATIVIDADE PROFISSIONAL

 

CURSO PROFISSIONALIZANTE Números %

COM DIPLOMA*

 

Trabalhou em profissão igual 18 62,1

 

Trabalhou em profissão diferente 07 24,1

 

Não tem profissão 04 13,8

 

Total 29 100,0 Podemos observar que, embora fosse pequeno o número daqueles que tiveram a oportunidade de terminar o curso profissionalizante (25,4%), é significativa (62,1%) a proporção dos que afirmaram ter trabalhado na profissão em que se especializaram.

“Os amigos, né? Na época eles reclamavam que era ruim, só

vivia preso, só ia em casa uma vez por mês. Mas hoje em dia

penso que era melhor ter ficado lá, ter arrumado um emprego

por lá mesmo.”

Roberto, 30 anos

“Lá no internato eu podia trabalhar. Lá dentro adquiri a

profissão que queria ter lá fora e não podia”.

Ronaldo, 26 anos