Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
Desenvolvimentismo a construção do conceito
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
1930 de “fase espontânea” da substituição de importações, como se
a mesma fosse mera decorrência do “choque adverso” da Grande
Depressão (Rodríguez, 2009, p. 82; Lessa, 1982). Trata-se de evidente equívoco. Mesmo na ausência de planejamento, o Estado
fez-se presente em vários países latino-americanos, em menor ou
maior grau, com o afã de imprimir novos rumos à economia, o que
fica visível com a criação de instituições, a centralização político-
administrativa e a ampliação do intervencionismo em vários países
latino-americanos. Deve-se ter presente que, se as políticas-meio às
vezes não permitem que se detecte intencionalidade (a
desvalorização cambial nas crises poderia visar tão somente ao enfrentamento do desequilíbrio emergencial do balanço de
pagamentos, por exemplo), o mesmo não ocorre com as políticas-
fins e institucionais. Instituições não brotam espontaneamente e,
muitas vezes, exigem forte determinação política para serem
implantadas. Como explicar, por exemplo, a criação de órgãos,
empresas ou leis voltadas ao financiamento industrial como atos
desprovidos de intenção? São os casos da Nacional Financiera
(Nafinsa), no México, em 1934; da Corporação de Fomento à Produção (Corfo) no Chile, em 1939; da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial no Banco do Brasil, em 1937, bem como a estatal
Companhia Siderúrgica Nacional, nesse país, em 1941; e do
Instituto de Financiamento Industrial (IFI), na Colômbia, em 1940,
além da legislação trabalhista nos maiores países latino-americanos nesse mesmo período.
Autores mesmo da tradição cepalina utilizaram a expressão
“industrialização espontânea” para se referir ao aparecimento de
indústrias nas primeiras décadas do século XX. Para o período
anterior à Grande Depressão, o adjetivo “espontâneo” parece mais
adequado para a maior parte dos países latino-americanos, quando
ainda não se podia associar o crescimento da indústria a um projeto
deliberado, ou seja, a desenvolvimentismo. Ademais, a utilização do termo industrialização para se referir ao crescimento industrial desse
período não é consensual (Mello, 1982; Tavares, 1986,). Autores
como Prebisch e Furtado, por outro lado, em alguns trabalhos
associaram desenvolvimentismo à consciência e à intencionalidade.
Para Prebisch, por exemplo, política de desenvolvimento significa
[...] um esforço deliberado de atuar sobre as forças da economia a fim de
acelerar seu crescimento, não pelo crescimento mesmo, mas como meio de
conseguir um melhoramento persistente da renda nos grupos sociais de
rendas inferiores e médias e sua participação progressiva na distribuição da
renda global. (Prebisch, 1961, p. 35, grifos meus).
Prebisch (1961, p. 7) assevera que o desenvolvimento dos países
periféricos “está intimamente ligado ao curso das exportações”, cujo
ritmo “impõe limites ao desenvolvimento espontâneo da economia”,
uma vez que freia as importações necessárias ao crescimento. Da
mesma forma, Furtado recupera a ideia de progresso como
precursora de desenvolvimento e a relaciona à consciência e à ação
política:
Da mesma maneira que a ideia de progresso transformou-se em alavanca
ideológica para fomentar a consciência da interdependência em grupos e
classes com interesses antagônicos, nas sociedades em que a revolução
burguesa destruíra as bases tradicionais de legitimação de poder, a ideia de
desenvolvimento serviu para afiançar a consciência de solidariedade
internacional do processo de difusão da civilização industrial no quadro da
dependência. (Furtado, 1978, p. 67).
Por conseguinte, ou não se pode associar a industrialização dos
países latino-americanos dessas primeiras décadas após a Grande
Depressão a desenvolvimentismo – e assume-se que a mesma foi
decorrência “natural” da conjuntura internacional e do mercado –, ou se admite a relevância da política econômica (no sentido lato aqui
empregado) para alavancar a substituição de importações.
“Desenvolvimentismo espontâneo” é uma contradição em termos,
como permite antever a própria categoria “Estado
desenvolvimentista” adotada pelos autores antes mencionados.
Destarte, positivismo e desenvolvimentismo são frutos
(juntamente com o marxismo) da grande mudança histórica
identificada por Hegel como o espírito da “Modernidade”, o qual se inaugura simbolicamente na Revolução Francesa com a
dessacralização do direito divino e a condenação dos reis à
guilhotina, ato que traz em si a pretensão de assunção dos cidadãos
franceses a sujeitos da história (Furtado, 2000, p. 9). Amplia-se a
abrangência da ação política: a convicção de que se pode “mudar o
mundo” e que tal possibilidade “está em nossas mãos” pressupõe
dialeticamente a negação da Weltanschauung de conservação ou
de passividade, pois traz em seu gérmen o inconformismo e a potência para a mudança, seja gradual e dirigida por uma elite
esclarecida ou, de forma mais radical, por via revolucionária. Na
tradição hegeliano-marxista, o agir consciente orientado com vistas
a um fim (teleologia) aparece como negação da alienação, e remete
à noção de práxis. Já outra vertente do pensamento alemão, a de
Max Weber, também ilumina para que se chegue à conclusão
semelhante, pois desenvolvimentismo remete tipicamente ao que
este denomina ação social racional, a qual pode ser (a) referente a fins, “ponderados e perseguidos racionalmente” (Zweckrational); (b)
referente a valores (Wertrational). Em ambos os casos, a ação
social é dita racional porque consciente e orientada por objetivos.
No primeiro, estes são mais instrumentais; no segundo, são guiados
por convicções de consciência, de dever ou uma “causa” de
qualquer natureza. O próprio Weber assegura que a coexistência de
ambas, embora geralmente conflituosa, é possível, posto que
devem ser entendidas como tipos ideais, pois “muito raramente a ação, e particularmente a ação social, orienta-se exclusivamente de
uma ou de outra maneiras” (Weber, 1999, p. 15-16).
É o que ocorre com o termo “desenvolvimentismo”. De um lado, o
termo remete a uma racionalidade imediata quanto a fins: crescimento da produção e da produtividade. Tal faceta descortina
seu caráter “técnico”, objeto de planejamento, quantificável em
metas e taxas desejáveis a serem buscadas conscientemente,
através de meios tidos como mais adequados – os instrumentos de
política econômica. Por outro lado, os valores se manifestam
quando o desenvolvimentismo toma a forma de ideologia de
construir um novo mundo “melhor” ou “mais harmônico” – como
aparece nas citações anteriores de Prebisch e nos “fins sempre desejáveis” de Chang, mas principalmente no discurso político. A
ele associam-se valores cuja ênfase variou de país para país da
América Latina, e às vezes entre governos de um mesmo país, mas
fundamentalmente a busca de uma sociedade mais “equilibrada”,
com “harmonia”, “justiça social”, “soberania nacional” e “equidade”.
Nota-se então um salto: o desenvolvimentismo passa a ser um guia
de ação cuja ideologia concebe o desenvolvimento não mais apenas
como meio para atingir um fim, mas como fim em si mesmo, pois incorpora em seu conceito os próprios valores perseguidos. Na
prática, o Estado desenvolvimentista típico tenderá a subordinar
toda ação estatal a esse propósito, não se restringindo à área
econômica (políticas meio, fins e institucionais), mas estendendo-a à
educação, à cultura, à saúde pública, às leis sociais, ao meio
ambiente, etc. Daí o sufixo “ismo” associado à figura hiperbólica, a
qual, adotada por seus críticos, assumiu conotação irônica: o
desenvolvimentismo remete ao exagero ou, no limite, à irracionalidade, ao sobrepor o objetivo do desenvolvimento a outros
também considerados legítimos ou até superiores em uma escala
de valores. São os casos, por exemplo, da estabilidade
macroeconômica, para a ortodoxia neoclássica, e da defesa do meio
ambiente, para os ecologistas.
Inspirado em Weber, Furtado alerta para o conflito entre a
racionalidade instrumental e os valores, passível de ocasionar uma
“gama de ambiguidades”, pois embora haja valores maiores que abrem a porta para um “vago utopismo”, como o crescimento econômico se apoia na acumulação corre-se o risco de esta
transformar-se em um fim em si mesmo e o “processo de criação de
novas relações sociais transforma-se em simples meio para
alcançá-la” (Furtado, 1978, p. 39-49). Desprovido de sua utopia, desenvolvimentismo significaria tão somente incentivo à
acumulação acelerada de capital. Esse entendimento pode ser
percebido na frequente distinção entre “crescimento” e
“desenvolvimento”: o primeiro restringir-se-ia ao crescimento da
produção e da produtividade, enquanto o segundo incorporaria suas
repercussões, como a melhoria dos indicadores sociais13. A
distinção claramente incorpora no segundo termo os valores, pois
desenvolvimento não seria um crescimento qualquer: embora o
suponha, acrescenta a ele atributos desejáveis. Em decorrência,
o crescimento da produção e da produtividade é condição
necessária, mas não suficiente para alcançar o desenvolvimento. De outra forma, também aparece, em parte da literatura marxista, crítica
ao desenvolvimentismo, que o considera como ideologia
justificadora da acumulação de capital, cuja retórica acena com
projeto de universalidade para legitimar-se com a promessa da
inclusão dos trabalhadores em seus frutos, ocultando o fato de, ao
tratar-se de um desenvolvimento capitalista, fundar-se na
exploração do trabalho, portanto incompatível com os valores
desejáveis expressos na ideologia. Nesse entendimento, haveria uma contradição irreconciliável entre a racionalidade instrumental e
a referente a valores 14.
Se não há dúvida de que a “consciência do atraso” é fenômeno
histórico bastante peculiar e sintomático das transformações pelas
quais passavam os países latino-americanos, e de que é inegável a
contribuição do positivismo para a difusão de um ideário legitimador
da intervenção estatal ao associá-la a um fim desejável – o
progresso –, daí não se pode inferir que o mesmo se reduza a
simples adoção ou adaptação de suas teses à realidade desses
países. A influência do positivismo sempre contou com versões
criativas e instigou o debate intelectual e político em vários países 15.
No México, encontra-se possivelmente o primeiro divulgador mais
influente na América Latina, Gabino Barreda, cuja “Oración Cívica”,
discurso proferido em 16 de setembro de 1857, causou impacto e contribuiu para ser chamado a colaborar no governo do presidente
Benito Juárez Garcia (1867-1872), de caráter republicano e
modernizador. A influência do positivismo alastrou-se entre os
republicanos e contribuiu para a separação da Igreja do Estado (1867) e para a reforma do sistema educacional (Matute, 1984).
Segundo Zea (1993), o positivismo como doutrina chegou ao
apogeu no México com Porfírio Parra (autor de “La reforma en
México”, 1906) e seus adeptos auxiliaram na sustentação da
ditadura de Porfírio Díaz (1884-1911). Dentre eles, podem-se
mencionar Justo Sierra, Rosendo Pineda, Jorge Hammeker Mexia,
Pablo Macedo e Francisco Bulnes.
Na Argentina, o positivismo também conquistou adeptos
importantes no final do século XIX, destacadamente José María
Ramos Mejía, autor de “Las multitudes argentinas” (1899), e José
Ingenieros, autor de “¿Qué es el socialismo?” (1895) e “Sociologia
Argentina” (1918). Ao contrário de outros países latino-americanos
mais pobres, a Argentina vivia sua Belle Époque, e esses autores
conviveram com o prolífico momento intelectual da “geração dos
80”, da qual participaram Miguel Cané, Lucio V. Mansilla e Eduardo
Wilde. Numa sociedade com forte participação do imigrante, a reflexão sobre o significado de “ser argentino” e a identidade
nacional trouxe a lume a Nação como objeto. No contexto, o
positivismo assumiu uma conotação mais cientificista e voltada ao
tema do progresso e da modernização, embora não dispensasse o
tom crítico ao liberalismo e tampouco a discussão acerca da
consciência sobre as razões do atraso, principalmente em relação
os Estados Unidos, país emergente no cenário internacional e que
muitas vezes servia como comparação: ambos ex-colônias, com clima temperado, pouco povoados, oferta elástica de terra e bom
nível educacional: “Entre la admiración y el temor, en toda
Hispanoamérica las clases dirigentes y letradas se preguntan cuál
es la causa del retraso de esta parte del continente” (Terán, 2012, p.
151).
No Brasil, o positivismo teve larga influência entre civis e militares,
nos movimentos pela abolição dos escravos (1888) e proclamação
da república (1889), a ponto de seus adeptos lograrem força política suficiente para inscrever o lema “Ordem e Progresso” na bandeira nacional, sob protesto de monarquistas, de liberais e da Igreja. No
exército, conseguiu vários adeptos: além de Benjamin Constant, o
intelectual mais influente, o próprio Marechal Floriano Peixoto,
segundo presidente (1891-1894), que embora não perfilhado identificava-se com aspectos da ideologia, como o antiliberalismo
econômico e político. O positivismo, no Brasil, difundiu-se em vários
estados, alguns com influência significativa na política, como Rio de
Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Pará e Rio Grande do Sul.
Neste, ocorreu o caso mais radical, pois foi consagrado como
ideologia norteadora da Constituição Estadual de 1891, elaborada
por Júlio de Castilhos, e do Partido Republicano Rio-grandense,
agremiação na qual o futuro presidente Getúlio Vargas fez sua carreira política antes de assumir a Presidência da República, em
1930.
A envergadura da “consciência do atraso” como fenômeno
histórico, a qual inclusive transcende ao positivismo que ajudou a
respaldá-la, fica evidenciada precocemente na Argentina com a
“geração de 1837”, cujo propósito era discutir a realidade do país e
encontrar sua “identidade nacional”, embora com influência do
liberalismo (Terán, 2008, p. 61). Sob a liderança de Esteban Echeverría e no Salón Literario criado em 1837, o grupo contava,
dentre outros, com Domingo Sarmiento, Juan Bautista Alberdi, Juan
María Gutiérrez, Vicente Fidel López, José Mármol e Félix Frías. Já
no Brasil, o fenômeno foi mais intenso nas primeiras décadas da
República, quando vários intelectuais começaram a incorporar a
Nação como temática central de suas reflexões. Diante de um país
de imenso território e com risco de fragmentação, como mostram os
inúmeros movimentos separatistas da primeira metade do século XIX, o Império havia respondido com a centralização dos poderes
na Coroa. Já a República trouxera consigo o federalismo – mas
havia uma unidade nacional? A “nação brasileira” parecia inexistir
diante da fragmentação econômica e política, marcada pelo poder
local das oligarquias regionais. Os chamados “intérpretes do Brasil”
procuraram responder a questões como essa, as quais trazem à
tona visões e percepções sobre os problemas do país e de seu
atraso. Aparecem, então, temas desagradáveis como pobreza, desigualdades regionais, produção primária e de baixa produtividade, sofríveis índices de educação, doenças endêmicas e
subnutrição. Cabe ressair que tais interpretações não se restringiam
abstratamente a elaborar uma “visão” no sentido contemplativo, pois
das construções intelectuais decorriam propostas e alternativas, as quais, repercutindo nas arenas políticas, colaboravam para a
formulação de programas de ação.
Assim como os argentinos Ramos Mejía e José Inginieros, no
Brasil os intelectuais foram influenciados pelas teses eugênicas e
cientificistas em voga. Homens como Joaquim Nabuco, Euclides da
Cunha, Capistrano de Abreu, Oliveira Vianna, Manuel Bonfim, Pedro
Calmon, Afonso Arinos incorporaram a variável “raça” em suas
reflexões, muitas vezes associando-a aos problemas da Nação, em tom marcadamente pessimista (o negro “involuído”, o índio
“indolente”, o português já “impuro” e fruto de miscigenação). Coube
a Gilberto Freyre, em “Casa Grande e Senzala” (1933), conquanto
ainda com corte racial, sugerir uma interpretação fundada na cultura
e, de forma mais sofisticada, substituir o fardo que representaria a
colonização portuguesa por uma visão otimista, enaltecedora do
pluralismo racial e cultural responsável por criar nos trópicos uma
nação com personalidade própria. Todavia, ao lado dessas interpretações inspiradas em um determinismo biológico, geográfico
ou mesmo cultural, houve autores que começaram a buscar as
raízes dos problemas na formação histórica. Oliveira Vianna, em
“Evolução do Povo Brasileiro” (1923) e “Populações Meridionais do
Brasil” (1920), com uma visão conservadora, inaugurou este novo
estilo de interpretação, o qual desaguará de forma radical em
“Evolução Política do Brasil” (1933), com o propósito de Caio Prado
Jr. de por primeira vez interpretar a história brasileira à luz “de um método relativamente novo”: o materialismo histórico (Prado Jr.,
1969, p. 9). Mais tarde, já na década de 1950, sob o impulso de
experiências históricas desenvolvimentistas em vários países da
América Latina, com o pensamento cepalino e as contribuições
teóricas de Prebisch, Furtado e Ignacio Rangel, o “atraso” – termo
de uso coloquial – daria um salto para a categoria teórica
“subdesenvolvimento”. Este não seria mais uma etapa nem
fatalidade biológica ou geográfica, mas fenômeno histórico e social, que poderia e deveria ser superado. O caminho a percorrer seria o
da industrialização 16.
5. Experiências históricas de
desenvolvimentismo
Identificado o núcleo comum, cabe agora passar ao segundo
passo metodológico da construção do conceito: debruçar-se sobre a
história ou os cases cujos atributos o conceito se propõe
contemplar. Se na primeira etapa buscava-se detectar o que era geral ou comum, nesta segunda emerge uma vasta gama de
experiências históricas cuja diversidade o conceito deve ao mesmo
tempo abarcar e delimitar, o que remete à abordagem de sua
extensão e intensão. Para tanto, selecionaram-se, dentre as
experiências históricas latino-americanas normalmente tipificadas na
literatura como exemplos de desenvolvimentismo, 34 governos de 8
países entre 1930 e 1979 – portanto, do período usualmente
associado ao desenvolvimentismo e à substituição de importações. Adotou-se como critério arrolar no máximo 5 governantes de cada
país, de modo que a lista não pretende ser exaustiva, nem esse
requerimento metodológico é exigido: deve ser lida apenas como
exemplos históricos de uma amostra para teste.
Quanto às variáveis escolhidas, as quatro primeiras dizem
respeito ao núcleo comum já explicitado. A cada uma delas
formulou-se uma pergunta, de modo a se focar com acuidade o que
se está a investigar em cada atributo. As perguntas foram formuladas sempre no sentido de verificar não só o realizado,
mas também a intenção, pois se pretende detectar projeto ou
estratégia e estes nem sempre lograram êxito em sua
execução. Assim, as variáveis ex-post (como crescimento do PIB
ou da indústria) podem auxiliar na pesquisa, mas são inapropriadas
para responder se houve ou não projeto identificado com
desenvolvimentismo, podendo levar a um falso positivo (o
crescimento ser resultante de uma variável exógena, como a conjuntura internacional, ou mera decorrência dos ciclos econômicos) ou a um falso negativo (o governo, embora identificado
com desenvolvimentismo, não tenha conseguido implantar seu
projeto devido à conjuntura econômica ou política). São os casos de
governos como Alfonso López Pumarejo (Colômbia) e João Goulart (Brasil), que propuseram medidas de envergadura francamente
associadas ao desenvolvimentismo, mas defrontaram-se com
enormes dificuldades políticas para implantá-las. Tem-se presente,
todavia, que vagas declarações de autoridades sobre temas
polêmicos não são consideradas suficientes sem que haja outras
evidências ou elementos para robustecer a intenção. Propostas
como reforma agrária e distribuição de renda mais equânime, por
exemplo, exigem medidas efetivas além de meras declarações. Só foram aceitas como parte do projeto quando houve elementos
suficientes acerca do empenho em realizá-las, de modo a se
concluir que sua eventual inviabilidade dependeu de motivos fora do
alcance do governo (forte resistência política, por exemplo).
Ressalta-se, portanto, que embora intenção seja variável
absolutamente necessária para captar a existência de projeto ou
estratégia, sua comprovação exige extrema cautela, pois é preciso
respaldá-la com atos capazes de evidenciar que não se limita a simples retórica. Vale, nesse caso, a observação de Conceição
(2012):
Crescimento econômico é complexo demais para originar-se de maneira
apenas intencional. As mudanças institucionais, tecnológicas e sociais devem
caminhar simultânea e articuladamente na direção desse objetivo, o que não
é algo historicamente fácil de obter. (Conceição, 2012, p. 119).
Já as demais variáveis se referem a atributos mencionados por
parte dos autores, embora com menor frequência. A pesquisa nas
experiências históricas auxilia na decisão sobre se as mesmas
devem ou não ser incluídas no conceito, se fazem ou não parte do
núcleo comum. Além disso, algumas se referem aos atores e
segmentos sociais requeridos para dar sustentação ou para a execução do projeto. Esse atributo, embora indispensável para
viabilizar qualquer projeto de mudança, como é o caso do proposto
pelo desenvolvimentismo, é de difícil comprovação empírica se
enunciado em tal grau de abstração, de forma que o tratamento
dado foi de desdobrá-lo em mais variáveis, pois os referidos atores e segmentos variam de um país para outro, e às vezes em
diferentes governos de um mesmo país. Assim, as perguntas
sobre capital externo, reforma agrária e redistribuição de renda,
por exemplo, foram formuladas de forma a captar a relação do projeto do governo respectivamente com empresários
estrangeiros, proprietários de terra e trabalhadores urbanos,
sem contar a burocracia, cujo atributo pode ser revelado em
pergunta direta.
O estudo comparativo clássico sobre diferentes arranjos políticos
nos países latino-americanos e sua inter-relação com as trajetórias
econômicas de longo prazo é o de Cardoso e Faletto (1970). Ao se
construir o conceito de desenvolvimentismo, não se pode perder de vista que o crescimento industrial e a mudança de modelo, por sua
envergadura, exigiram alterações institucionais de vulto, maior
complexificação do aparelho do Estado e a criação de novas leis,
códigos e marcos regulatórios. Em cada país foi diferente a reação
dos setores agrários, até então hegemônicos, aos governos tidos
como desenvolvimentistas, e o arranjo político possível em cada em
deles por certo condicionou trajetórias de longo prazo, as quais
implicaram o êxito maior ou menor da industrialização. Como hipótese a ser testada, parece razoável propor que México e Brasil
foram casos bem sucedidos, ao contrário de Argentina e Colômbia.
O primeiro, devido à revolução de 1910, singular na América Latina,
capaz de limitar a influência agrarista e estabelecer novos marcos
institucionais e regulatórios que subordinavam as elites agrárias ao
projeto desenvolvimentista, mesmo com concessões. No Brasil,
houve uma aliança entre setores agrários voltados ao mercado
interno e os novos setores emergentes (empresariado industrial, segmentos médios e trabalhadores urbanos) em oposição aos
setores agroexportadores, os quais foram derrotados em 1930 e,
mais definitivamente, em 1932. Sem uma revolução do alcance da
mexicana, consolidou-se um pacto que sustentava a industrialização
sem, todavia, deslocar totalmente os segmentos agrários do poder,
com a peculiaridade político-institucional de excluir os trabalhadores
rurais da legislação trabalhista e de não se propor reforma agrária,
com exceção do governo Goulart (embora mais tarde, na década de 1960). Na Argentina, a força econômica e política do setor agroexportador dificultou a implantação de novo modelo; a
contradição entre “mercado interno” versus “exportação de produtos
agrários” permaneceu sem uma solução hegemônica praticamente
ao longo de todo o processo de substituição de importações, implicando maior instabilidade política e radicalização. Já na
Colômbia as tentativas foram frustradas, pois os setores agrários,
mesmo divididos entre os partidos Conservador e Liberal,
conseguiram, em aliança com a Igreja, impedir a aprovação de
propostas reformistas e industrializantes de maior envergadura.
As variáveis a serem testadas e as respectivas perguntas a elas
associadas são as seguintes:
1. Projeto Nacional: o governo explicitou a pretensão de um
projeto de “superação do atraso” para a nação, ou assumiu-se
como ator ou agente relevante para a construção de um futuro
desejável para o país?
2. Intervenção estatal: o governo manifestou que o crescimento/
desenvolvimento econômico era prioridade para viabilizar seu
projeto e utilizou, ou há evidências de pretender utilizar,
instrumentos de política econômica e/ou medidas institucionais
e administrativas com vistas a implementar seu projeto, como
para acelerar o crescimento econômico, mesmo que não tenha
logrado êxito?
3. Industrialização: o governo manifestou que a industrialização
era prioridade para viabilizar seu projeto e utilizou, ou há
evidências de ter pretendido utilizar, instrumentos de política
econômica e/ou medidas institucionais e administrativas com
vistas a acelerar seu crescimento, mesmo que não tenha
logrado êxito?
4. Socialismo: o governo manifestou sua opção pelo socialismo e
propôs e/ou executou medidas visando extinguir a propriedade
privada ou substituir o mecanismo de mercado de formação de
preços por planejamento centralizado?
5. Capital estrangeiro: o governo manifestou que a entrada de
capital estrangeiro era prioridade para viabilizar seu projeto e
utilizou, ou há evidências de ter pretendido utilizar, instrumentos
de política econômica e/ou medidas institucionais e
administrativas com vistas a atrair capital estrangeiro como
estratégia?
6. Burocracia: o governo valeu-se de burocracia estatal como
agente relevante para formular e/ou executar seu projeto?
7. Reforma agrária: o governo manifestou que a reforma agrária
era prioridade para viabilizar seu projeto e realizou, ou há
evidências de ter pretendido realizar, medidas voltadas para
esse propósito, mesmo que não tenha logrado êxito?
8. Redistribuição de renda: o governo manifestou que a
redistribuição de renda era prioridade para viabilizar seu projeto
e utilizou, ou há evidências de ter pretendido utilizar,
instrumentos de política econômica voltados a concretizá-la,
como aumento de salários, ou política fiscal, como através de
impostos fortemente progressivos, de forma a evidenciar que a
redistribuição de renda, mais que proposta para o futuro, foi
vista como prioridade imediata para viabilizar seu projeto,
mesmo que não tenha logrado êxito?
9. Planejamento: o governo elaborou um documento de caráter
técnico para expressar seu plano de governo, com setores e
metas prioritários, bem como para permitir acompanhamento ao
longo de sua execução?
10. Banco de desenvolvimento: o governo utilizou-se de banco de
desenvolvimento, ou instituição financeira especializada em
fomento à produção, para executar seu projeto?
O Quadro 1 do Anexo apresenta os resultados da pesquisa, com
o esforço de opção dicotômica (S= sim e N = não). Mesmo em se
reconhecendo a complexidade da resposta para alguns casos,
sempre se procurou amparo no que a literatura geralmente ou “em
média” registra, de modo a se captar o atual “estado das artes” sem,
todavia, permitir a inferência de uma tomada de posição em
controvérsias ainda em andamento. A pesquisa referenda o núcleo
comum dos atributos detectados na conceituação dos autores, pois
as repostas para as quatro primeiras perguntas foram unânimes 17.
Assim, conclui-se que há razões suficientes para incluírem-se como
atributos do referido núcleo (a) projeto nacional deliberado, ou estratégia para a nação; (b) intervenção estatal consciente para viabilizar o projeto de desenvolvimento; (c) industrialização; e (d)
capitalismo como sistema econômico. Este último pode ser
concebido como um atributo à parte ou, para evitar redundância,
como subentendido nos três anteriores, posto que ao se mencionar “intervenção estatal” e “projeto” está suposto que os mesmos
referem-se aos marcos de uma economia capitalista. É o único para
o qual a pergunta foi formulada de forma a esperar resposta
negativa para afirmar o atributo: uma vez que os termos socialismo
e capitalismo são polissêmicos, entendeu-se que a negatividade é
mais reveladora do que a afirmação “a favor” de um ou outro
sistema econômico. Similarmente, a intencionalidade poderia ser
incluída como um atributo à parte; todavia, da forma como as perguntas foram formuladas, ela estava embutida nas três primeiras,
cujas respostas positivas a fortalecem como integrante no núcleo.
Já com relação aos demais atributos, o resultado referenda a
análise das conceituações dos autores, pois os mesmos aparecem
em alguns governos, todavia não são encontrados em outros, o que
robustece a decisão de excluí-los do núcleo comum, embora
possam ter sido importantes em algumas experiências históricas
específicas. Dentre eles, o atributo com maior frequência foi burocracia como agente relevante para formular e/ou executar seu
projeto, com 79%. Embora não se trate de amostra aleatória que
permita inferir conclusões mais robustas, não deixa de ser
interessante notar que os atributos com menor porcentagem e
somente observados em menos da metade dos governos
pesquisados foram os referentes a “aspectos sociais”: reforma
agrária (44%) e redistribuição de renda (41%).
6. O conceito
Como já foi mencionado, o termo teórico “desenvolvimentismo” é
comumente usado para nomear tanto um fenômeno da esfera do
pensamento como um conjunto de políticas econômicas
concatenadas entre si e, segundo a metodologia aqui utilizada, a
construção de seu conceito levou à investigação acerca da
existência de um núcleo com seus atributos comuns principais. Isso foi feito partindo-se dos usos do termo extraídos de trabalhos da
própria comunidade científica, que por suposto necessita dele para
expressar determinado fenômeno, e, posteriormente, submeteram-
se seus atributos a teste em experiências históricas designadas como tal. Embora as duas acepções se interliguem e não haja
qualquer problema em a comunidade acadêmica lançar mão do
duplo uso, o mesmo não ocorre quando se trata de conceituação.
Para o economista e demais cientistas sociais, os conceitos são
também instrumentos, ou seja, ferramentas necessárias e úteis para
formular e testar hipóteses. Assim, se, de um lado, não há como o
conceito ignorar essa dupla acepção (o contrário seria adotar a
metodologia inversa: conceituar o “ideal”, e não o “real” ou o “materialmente existente”), por outro lado, sua construção impõe
uma escolha. Isso porque o primeiro vocábulo do definiens, o qual
sucede o verbo de ligação posterior ao termo a ser conceituado (o
definiendum), remete ao conjunto em que a busca do mesmo será
feita, ou seja, quando se escreve “desenvolvimentismo é ...”, a
palavra seguinte será ideologia ou política econômica?
A escolha imposta por certo remete à antiga controvérsia
epistemológica entre idealismo e materialismo. Se a opção for por ideologia, está-se implicitamente admitindo que o termo deve ser
buscado no mundo do pensamento, das ideias ou das teorias, as
quais, em certas condições históricas (por exemplo, a Grande
Depressão) concretizam-se como política econômica, dando veia
aos “estados desenvolvimentistas”. A direção é do pensamento para
a matéria. Já se a conceituação parte da política econômica, o
caminho é inverso: o desenvolvimentismo é entendido
primordialmente no campo material da história: trata-se de uma política econômica efetivamente praticada por governos em
determinado tempo e lugar. Por certo, o desenvolvimentismo desde
cedo apareceu também como pensamento ou ideologia para sugerir
ou justificar um projeto de mudança, como antes se mencionou.
Todavia, essa última opção, embora contemple, no conceito de
“desenvolvimentismo”, as ideologias e as teorias, supõe que essas
necessariamente estão inseridas em determinada experiência
histórica, e é esta que lhes dá razão de existência e sentido.
A escolha aqui dessa última, conquanto em parte resulte de
opção epistemológica, respalda-se também no fato de que o
aparecimento desses governos, com pouca defasagem de tempo,
em vários países latino-americanos, nacionais ou subnacionais (em estados, províncias ou departamentos), sugere que o mesmo não foi
um fenômeno aleatório, randômico, ou “importado”18. O
desenvolvimentismo por certo, em suas origens, abeberou-se de influências teóricas europeias – já se ressaiu aqui o positivismo,
mas se poderia acrescentar outros autores, como List e Mihail
Manoilescu (Love, 1990). Todavia, de forma alguma pode ser
entendido como uma ideia de fora que foi transplantada para a
América Latina, mesmo com a ressalva de ter sido adaptada a sua
realidade cultural, econômica ou social: não há caso de
desenvolvimentismo, teórico ou histórico, que tenha servido de
modelo para tal cópia ou adaptação.
Diferente do liberalismo, que já existia na Europa seja como
práticas de governos, seja no pensamento de intelectuais, e que, ao
ser “transplantado”, para usar a expressão consagrada de Schwarz
(1973), poderia sugerir tratar-se de ideia “fora do lugar”, o
desenvolvimentismo brotou como consciência do atraso e como
busca de uma estratégia nacional para superá-lo: fenômeno,
portanto, peculiar da própria América Latina e de outros países “do
resto” com problemática semelhante, para usar a expressão de Amsden (2001), principalmente da Ásia e África, embora em período
posterior, com a possível exceção do Japão. Não se trata, a rigor,
nem mesmo de antropofagia no sentido empregado por Mário de
Andrade, pois esta supõe uma cultura alienígena, da qual elementos
são absorvidos e outros, expelidos. Assim, na ausência de
“desenvolvimentismo francês” ou “inglês” – países tradicionalmente
de maior influência na formação intelectual e no imaginário das
elites latino-americanas –, não havia o que canibalizar. Trata-se aqui, portanto, de uma sorte de “materialismo idealista”, de corte
hegeliano, de acordo com o qual o conceito só é ele mesmo se a
existência for parte de sua determinação, se ele for também e
primordialmente realidade efetiva (a Wirklichgkeit de Hegel). Se
começamos por procurar a definição de desenvolvimentismo de
modo endógeno, ou seja, a partir dos trabalhos dos próprios intelectuais que construíram a história desse conceito (já em si uma
escolha metodológica de matriz hegeliana, mesmo com ponto de
partida na proposta metodológica de Sartori), faz-se forçoso, ao
mesmo tempo, reconhecer que ele já estava inscrito na realidade efetiva dos países latino-americanos, antes que determinadas
atitudes e iniciativas de governo passassem a ser adotadas “em seu
nome”.
Isso posto, têm-se elementos suficientes para a seguinte
formulação: entende-se por “desenvolvimentismo” a política
econômica formulada e/ou executada, de forma deliberada, por
governos (nacionais ou subnacionais) para, através do crescimento
da produção e da produtividade, sob a liderança do setor industrial, transformar a sociedade com vistas a alcançar fins desejáveis,
destacadamente a superação de seus problemas econômicos e
sociais, dentro dos marcos institucionais do sistema capitalista.
Atentando para os termos utilizados, que de certa forma
representam um esforço de síntese de toda a argumentação
realizada até aqui:
a. Política econômica: remete diretamente à experiência histórica
concreta ou material como o conjunto em que se foi buscar a
categoria conceituada; ademais, lembra o intervencionismo
como integrante do core do conceito, pois remete à Nação e a
Estado, já que este, por suposto, é a instituição incumbida de
formular e executar a política econômica, esta entendida, como
antes foi mencionado, como políticas meio, fins e institucionais;
b. Formulada e/ou executada: remete à estratégia ou projeto, pois
a política econômica às vezes pode não ter tido sucesso em
sua execução; reforça, ainda, o caráter “material” da
conceituação, posto que os atributos foram testados em
experiências históricas;
c. Deliberada: remete à necessidade da consciência ou
intencionalidade, posto que resulta de um projeto ou estratégia
que se materializa em um guia de ação para reverter um status
quo não desejável; a economia subordina-se à política, pois é
nesse âmbito, e não no mercado, onde a estratégia ou projeto
são formulados; remete, ainda, à práxis, ou, no approach
weberiano, à ação social racional;
d. Governos: remete ao agente formulador e/ou executor do
projeto nacional ou estratégia para a Nação como atributo do
core do conceito, já que circunscreve a Nação como unidade ou
locus de abrangência do projeto, embora possam existir
experiências subnacionais, como é lembrado a seguir entre
parênteses; subentende-se, ainda, que o grupo dirigente
depende de uma correlação de forças políticas, sem a qual não
se sustentaria como governo;
e. Crescimento da produção e da produtividade: remete ao
crescimento dessas variáveis como condição ou instrumento
necessário da estratégia ou projeto de reversão do status quo
(ação social racional referente a fins);
f. Liderança do Setor Industrial: remete à industrialização como
variável-chave do núcleo comum do desenvolvimentismo,
enfatizada por todos os autores analisados e presente também
nas experiências históricas utilizadas como “teste”; tal liderança
não significa que o desenvolvimento do Setor Primário esteja
ausente do projeto, mas que a industrialização é necessária
tanto para superar o antigo modelo agroexportador e os
enclaves, mineiros ou de plantations, quanto para acelerar a
produtividade e a difusão do progresso técnico, com
repercussões nos demais setores da economia;
g. Transformar a sociedade: remete mais uma vez ao projeto de
alterar o status quo e à práxis, ou seja, ação consciente de
indivíduos, grupos e segmentos sociais visando a determinado
fim;
h. Fins desejáveis: remete ao desenvolvimentismo como
ideologia, pois incorpora no conceito os valores maiores que
justificam a estratégia e o projeto para o futuro, a sua utopia em
busca de outra sociedade melhor; embora essa expressão
possa parecer um tanto ampla, faz-se necessária, uma vez que
os fins variam de um governo para outro, embora melhor
padrão de vida futuro para a população pudesse ser o objetivo
desejável comum de todos eles; tais fins, ainda, podem
atualizar-se, como incorporar cidadania, democracia e meio
ambiente, atributos que não aparecem ou pouco destaque
mereciam no período da amostra pesquisada; incorpora-se,
portanto, no conceito, variável axiológica, a qual se expressa
como ideologia ou ideias que explicitam e justificam
determinados fins ou valores (ação social racional referente a
valores);
i. Problemas econômicos e sociais: remete ao status quo a ser
superado; o caráter genérico da expressão deve-se ao fato de
que os “problemas” reconhecidos como tal variam conforme o
país e, às vezes, entre governos e períodos históricos de um
mesmo país. Dentre eles, podem-se arrolar: baixa
produtividade, concentração de renda, desigualdades regionais
e baixos indicadores de saúde, educação e poluição ambiental,
dentre outros;
j. Sistema capitalista: remete à manutenção da propriedade e da
iniciativa privada como instituições, e do mecanismo de
formação de preços e de alocação pelo mercado, mesmo que o
Estado participe de forma reguladora ou supletiva.
7. Uma digressão sobre extensão e
intensão
Formulado o conceito, pode-se agora retomar o dilema “extensão
versus intensão”, ou seja, sua capacidade de tornar preciso ou
delimitar o objeto conceituado e, ao mesmo tempo, mostrar certa
maleabilidade para incorporar a diversidade histórica e os casos
novos, inclusive para auxiliar na decisão de casos limítrofes. O
“bom” conceito não conceitua em abstrato, metafisicamente
pretendendo apenas expressar o que o definiendum “é”, mas
também deve servir como categoria teórica, ou seja, instrumento
válido e útil para respaldar a decisão do cientista social para nele enquadrar ou não determinado fato ou objeto de investigação.
Dois subtipos de desenvolvimentismo consagrados na literatura
são “nacional-desenvolvimentismo” e “desenvolvimentismo
dependente-associado” 19. Em uma antinomia, ambos apontam para dois estilos de desenvolvimento. Mesmo com o risco da
simplificação demasiada diante da tentativa de sumariar um
complexo de ideias em poucas palavras, pode-se sintetizar que o
nacional-desenvolvimentismo, de ideologia mais nacionalista, propunha maior papel ao Estado para alavancar recursos e realizar
investimentos tidos como prioritários. A produção centrava-se nos
bens de consumo populares, liderados pelo setor privado nacional, e
como projeto propunha avançar a industrialização para os bens de
capital e intermediários; politicamente se expressava como uma
aliança entre este empresariado, segmentos das “classes médias”
(nestes incluídos a burocracia) e trabalhadores urbanos, propondo a
“incorporação das massas”, cuja expressão política seria o “populismo”. Já o segundo assentar-se-ia nos investimentos
externos, principalmente de grandes empresas oligopolistas, para
alavancar um padrão de “industrialização restritiva”, pois assentado
na produção de bens duráveis de consumo e na indústria pesada,
cuja demanda voltava-se às camadas de rendas mais altas; não