Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
Desenvolvimentismo a construção do conceito
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
excluía de vez o estado nem as burguesias locais, mas estabelecia
entre eles outro tipo de associação, em uma relação de
subordinação ou dependência ao capital estrangeiro. A rigor, as duas estratégias ou estilos de desenvolvimento decorriam da
incapacidade ou da fragilidade dos grupos empresariais privados
latino-americanos para liderar o crescimento industrial, seja pela
inexistência de conhecimento tecnológico ou por baixa
capitalização. No primeiro modelo, o ator principal seria o Estado,
capaz de captar “poupança forçada” para bancar as necessidades
de investimento ou financiamento; no segundo, o capital estrangeiro,
através de investimentos diretos ou de financiamento – a “poupança externa”.
Convém notar que “nacional-desenvolvimentismo” e
“desenvolvimentismo dependente-associado” não são conceitos
radiais, como já se alertara anteriormente, pois estes aparecem na
estratégia do conceito por adição quando, diante de novos casos, o
cientista adiciona atributos ao conceito principal e cria nova
categoria. Assim, o conceito radial não necessariamente incorpora
todos os atributos integrantes do núcleo do conceito. Por exemplo, quando se fala em “democracia tutelada”, isto significa que a democracia “não está completa”, que faltam atributos para o case
em tela ser uma democracia plena ou cheia (full) (Collier; Levitsky,
1996). Esse critério não se aplica aos casos de “nacional-
desenvolvimentismo” e “desenvolvimentismo dependente-associado” frente à conceituação aqui formulada para
desenvolvimentismo, pois ambos incorporam todos os atributos
principais deste conceito, ou seja, todos os atributos estão
contidos em seu domínio; e, além desses, acrescentam-se outros
que o caracterizam não como conceito radial, mas como subtipo de
um conceito clássico. Veja-se: a opção por bens de massa ou
bens duráveis de consumo tem em comum ambos serem
igualmente setores industriais, atributo incluso no core. Quanto à diferença entre o papel do Estado e do capital estrangeiro, é mais
uma questão de grau ou de relevância do que de exclusão ou
inclusão, pois nem o “nacional-desenvolvimentismo” exclui o capital
estrangeiro nem o “desenvolvimentismo dependente-associado”
prescinde do Estado como agente estratégico da política econômica
(a lembrar, no caso brasileiro, que a Companhia Siderúrgica
Nacional, símbolo do nacional-desenvolvimentismo do Estado Novo
de Vargas (1937-1945), contou com tecnologia e financiamento norte-americanos, enquanto o BNDES foi grande articulador e
financiador do Plano de Metas de Kubitscheck, assentado na
atração ao capital estrangeiro). Por isso, a pergunta introduzida para
testar o atributo sobre capital estrangeiro para elaborar o Quadro 1
do Anexo indaga sobre a prioridade do mesmo para os projetos do
governo da amostra: fosse a pergunta formulada para forçar a
opção entre aceitação ou rejeição, ela não discriminaria os governos
(nenhum deles rejeitaria a priori o capital estrangeiro, fato referendado pela pergunta do quarto atributo, e tampouco auxiliaria
para diferenciar nacional-desenvolvimentismo e desenvolvimento
dependente-associado). Deve-se atentar ao fato de os dois subtipos
integrarem o núcleo comum dever-se em parte à própria definição
de projeto nacional aqui adotada, associada à estratégia para a
Nação, sem qualquer conotação de xenofobia ou aversão a priori ao
capital estrangeiro. Lembra-se que, pela metodologia aqui
empregada, a inclusão deste atributo não foi fortuita, posto que resultou do uso na literatura e da experiência histórica latino-americana: se a “projeto nacional” se associasse repulsa ao capital
estrangeiro, simplesmente nenhum caso latino-americano
selecionado poderia ser considerado como “desenvolvimentismo”.
A Figura 4 ilustra, com alguns exemplos, governos latino-
americanos. O círculo A representa o domínio que concentra os
atributos principais. Ele engloba, sob outra forma, o núcleo
hachurado da Figura 3. Para fins de ilustração, foram inseridos dois
atributos que não constam no núcleo principal, pois só apareceram
em alguns autores e em alguns governos: reforma agrária (B) e
redistribuição de renda (C). Fica claro que tanto governos
considerados “nacionais-desenvolvimentistas” (López Pumarejo,
Vargas e Goulart) como os mais próximos do “dependente-associado” (Frondizi e Kubitscheck) localizam-se dentro do mesmo
círculo A, pois preenchem todos os atributos do núcleo. Logo: essa
tipologia compreende subtipos de conceito clássico e não conceitos
radiais, pois não alargam o conceito principal com novos atributos:
são conceitos “plenos” ou “cheios” de desenvolvimentismo. Perón
aparece duas vezes justamente como ilustração: caso admita-se
que o mesmo assumiu um projeto de industrialização, sua
localização seria dentro do círculo A (Perón*); caso contrário, como advoga outra parte da literatura, ficaria fora do círculo hachurado
(Perón**): não seria um caso de desenvolvimentismo, embora tenha
proposto uma política de redistribuição de renda.
Figura 4. Desenvolvimentismo: extensão e intensão do conceito
Uma forma de ilustrar a diferença entre conceitos radiais e
subtipos aqui adotada, além de reforçar a discussão sobre a
extensão e a intensão do conceito aqui formulado, é o exercício de
tentar alargar o conceito com atributos que não estão no core. Por
exemplo, redistribuição de renda ou reforma agrária, atributos que
apareceram em vários governos desenvolvimentistas, às vezes até como prioridade, mas em outros nem foram mencionados (ou
simplesmente concebidos retoricamente, como consequência de
longo prazo ou do próprio desenvolvimento, como no caso de
distribuição de renda mais equânime). Na estratégia de conceito
clássico ou por redefinição, não se alarga o domínio: como mostra a
Figura 4, este permanece circunscrito ao círculo A, enquanto os
novos atributos são representados por novos círculos: B (reforma agrária) e C (redistribuição de renda). Cárdenas e Goulart estão
contidos em B e em C, na intersecção dos três círculos (A Λ B Λ C),
pois são exemplos de governos desenvolvimentistas que também
propuseram reforma agrária e distribuição de renda mais equitativa. O caso como o de Fidel, em Cuba (e que em parte talvez seja
análogo a Allende, no Chile) estaria em B e C, mas não em A:
apesar de propor reforma agrária e redistribuição de renda, não
preenche os atributos da esfera A e, portanto, não pode ser
entendido como desenvolvimentismo (faltariam, por exemplo,
industrialização, propriedade privada e mercado). Só um conceito
radial de “desenvolvimentismo socialista”, como propusera
Jaguaribe, permitiria alargar a extensão do conceito, o qual, todavia, perderia muito em intensão, deslocando-se para um ponto próximo
ao ponto “Y” na Figura 1.
O mesmo ocorre caso se queira atualizar o conceito. De um lado,
deve-se ponderar que os atributos do núcleo podem ser, pelo menos
em parte, atualizados sem alterá-lo. Por exemplo: embora os
instrumentos e a extensão do intervencionismo sejam diferentes nos
dias atuais do que eram nas décadas de 1930 a 1980, o atributo
“intervencionismo” continua presente, mesmo modificado. Pode também ser o caso do atributo “industrialização”, que possuía
características muito próprias no período da substituição de
importações, e que por certo deve ser atualizado frente às
mudanças na economia internacional e no paradigma tecnológico
das últimas décadas.
Por outro lado, há atualizações que podem aparecer como
necessárias diante de fatos novos sem, todavia, exigir alteração do
núcleo. Pelo menos dois atributos apareceram fortemente nas décadas posteriores aos governos pesquisados: defesa do meio
ambiente e da democracia (Herrlein Jr., 2011; Cepêda, 2012).
Historicamente muitos governos desenvolvimentistas depredaram o
meio ambiente e também se casaram muito bem com ditaduras,
mas hoje impera a convicção de valores como defesa da natureza e
da cidadania. Eles não fazem parte do núcleo comum, mas podem
ser incorporados como atributos tais como B e C da Figura 4. Deve-
se atentar que esses círculos fora do núcleo comum podem servir não só para atualizar o conceito frente à emergência de novos casos, mas também para incorporar atributos que os teóricos
consideram “desejáveis” nele incluir, caracterizando subtipos. Em
outras palavras, o círculo A delimita os casos que podem ser
considerados desenvolvimentismo, enquanto os outros círculos podem dizer respeito a atributos adicionais referentes ao subtipo de
desenvolvimentismo que se quer ou se considera preferível ou
desejável. Conclui-se, portanto, que pelo menos para conceitos
como desenvolvimentismo, que denotam um guia de ação ou
de intervenção, a inclusão ou exclusão de atributos é feita
pelos cientistas e intelectuais orgânicos não apenas para
“atualizar” o conceito diante de fatos novos, mas também para
nele incluir ou excluir atributos que consideram por algum critério desejável, ou seja, capazes de expressar suas
preferências ou valores.
Finalmente, cabe uma menção, mesmo que breve, ao debate
brasileiro recente, e que serve para ilustrar como os conceitos
retornam e ganham vida, mesmo em situações diferentes das quais
foram originados. A proposta de “novo-desenvolvimentismo”, por
Bresser-Pereira (2006, 2010) e outros economistas (Sicsú et al,
2005), por exemplo, não difere da estratégia tradicionalmente adotada na história do pensamento econômico, qual seja, adicionar
ao conceito principal o prefixo grego neo (“neoclássico”), ou o
adaptado latino post (“pós-keynesiano”) ou, ainda, o vocábulo novo
(“novo-clássico”). Assim, chama a si uma tradição a preservar, não
obstante de forma renovada ou adaptada a novas circunstâncias, o
que, num exercício de conceituação, significa a exigência de adição
de novos atributos. Isso pode ser feito de duas formas: (a) com a
manutenção do núcleo comum do conceito principal e mediante a criação de um subtipo; ou (b) com o abandono do núcleo comum,
caso o novo atributo seja incompatível com algum outro já contido
no core, o que pode ser feito com a criação de um conceito radial.
No caso do “novo-desenvolvimentismo”, tal qual foi formulado por
seus autores, a análise evidencia que o mesmo preserva todos os
atributos contidos no conceito de desenvolvimentismo aqui
formulado. Destarte, não haveria necessidade de criar um conceito
radial, pois, na linguagem de Collier e Levitsky (1996), o “novo-desenvolvimentismo” é “pleno” ou “cheio” de desenvolvimentismo. Para simplificar, supõe-se que o principal atributo reivindicado para
justificar a adição do adjetivo “novo” no termo seja o fato de
incorporar “disciplina fiscal” (Bresser-Pereira, 2006, p. 16). Este
atributo não faz parte do core nem se opõe a qualquer atributo contido em seu domínio; logo, pode ser acrescentado como uma
esfera no conceito de tipo clássico aqui proposto, não necessitando
de um conceito radial, caso que implicaria perda de intensão. Se,
todavia, entender-se que “indisciplina fiscal” é atributo inerente ao
desenvolvimentismo a ponto de alguém incluí-lo no núcleo principal
do conceito, a solução só poderia vir através de um conceito radial,
pois o referido núcleo precisaria ser alterado20.
Da mesma forma, as propostas do “social-desenvolvimentismo”,
tais como apresentadas por Carneiro (2012), Bielschowsky (2012) e
Bastos (2012), preenchem todos os atributos do core do conceito
aqui formulado. Ao frisarem a importância de um desenvolvimentismo com redistribuição de renda e esta, para fins de
argumentação, como o atributo mais reivindicado como marca das
propostas desses autores, constata-se que a mesma não precisaria
de um conceito radial, pois basta a inclusão do novo atributo. Na
Figura 4, o subtipo ocuparia posição semelhante ao Governo
Goulart, recuperando a tradição histórica estruturalista de
desenvolvimento com redistribuição de renda, como aparece no
Plano Trienal e nas reformas de base sugeridas por Celso Furtado como seu ministro.
8. Conclusão
O propósito deste capítulo de formular um conceito para
desenvolvimentismo pode parecer pretensiosa por sua envergadura,
frente à polêmica envolvida pelo termo e seus múltiplos usos.
Todavia, a diatribe pode em parte ser contestada ao lembrar-se o
pressuposto epistemológico segundo o qual nenhum conceito é
definitivo e, como objeto social, está sempre em movimento, assim como o objeto a ser conceituado. Entretanto, se nenhum conceito é
definitivo, tampouco deles se pode prescindir: sem categorias
teóricas não é possível o trabalho científico. Se um conceito consensual lembra quimera, a necessidade de estabelecer
parâmetros mínimos contribui para evitar polêmicas desnecessárias,
além de auxiliar no estudo do próprio objeto, pois a construção do
conceito exige lastro empírico antes do salto para a abstração, quando “separa o joio do trigo” para definir o que deve ou não
constar de seu núcleo. Com desenvolvimentismo não é diferente:
foram mostrados sua origem e formação, seus usos na literatura e
experiências históricas que se pretendeu abarcar até chegar-se à
conceituação.
Como ferramenta, o conceito de desenvolvimentismo pode servir
não só para estudos históricos, mas também para auxiliar a dirimir
dúvidas sobre casos limítrofes, vindo ao encontro do tema que está na ordem do dia sobre seu possível retorno em vários países da
América Latina. Há certa convergência no entendimento segundo o
qual, após ter entrado em refluxo nas duas últimas décadas do
século XX, sob o impulso da globalização e do neoliberalismo,
governos mais críticos ou não totalmente alinhados a estes foram
eleitos em vários países latino-americanos. A pergunta sobre o
retorno do desenvolvimentismo, assim como propostas para um
“novo desenvolvimentismo”, sugere que o mesmo é fenômeno enraizado (embedded) nas sociedades latino-americanas, arraigado
como crença ou conjunto de valores (ou instituição, no sentido
vebleniano), capaz de sobreviver mesmo diante de conjunturas
francamente adversas e adaptar-se a novas circunstâncias – de
forma que seu conceito permanece necessário e útil como
ferramenta de análise e para designar algo que os usuários por
certo entendem não poder nomear tão bem de outra maneira.
A título de ilustração: quando se pergunta se governos como
Kirchner, Chávez ou Lula podem ser tipificados como
desenvolvimentistas, não se está apenas atrás de um rótulo, mas
tentando-se entender o que os mesmos representam e significam. A
busca de respostas sugere como apropriada a análise comparativa,
por isso a pergunta se os três governos podem ser vistos como
manifestação de um mesmo fenômeno (sem perder suas
peculiaridades nacionais) ou três coisas completamente distintas.
Destarte, se esses ou outros governos trazem de volta protecionismo e controles de comércio exterior, deve-se atentar que, embora aparentemente lembrem desenvolvimentismo, diante do
conceito aqui formulado certamente isso não bastaria, pois essas
políticas podem ser mera reação à crise do balanço de pagamentos:
ficou estabelecido que sem intencionalidade ou estratégia de desenvolvimento não pode haver desenvolvimentismo, pois estes
são atributos indispensáveis do core. A mesma precaução exige-se
ao se analisar as políticas econômicas implantadas por vários
governos após a crise internacional de 2008, pois a simples
manipulação da demanda agregada diante de adversidades do ciclo
econômico é usual por policymakers mesmo afinados com o
mainstream; o intervencionismo sem estratégia de longo prazo não
é suficiente para configurar desenvolvimentismo.
Da mesma forma, a melhoria na distribuição de renda e em outros
indicadores sociais em vários países do subcontinente (CEPAL,
2010) per si não basta para associá-la a desenvolvimentismo:
redistribuição de renda nem faz parte do core, além de ser atributo
comum de governos tipificados pela literatura através de outros
conceitos (“socialistas”, “sociais-democratas”, “trabalhistas”).
Poderia caracterizar um subtipo mediante a “técnica do
alongamento”, mas a extensão do conceito exige o
compartilhamento do núcleo comum, como mostra a Figura 4.
Assim, se a redistribuição de renda não estiver associada a um
projeto de industrialização e a um conjunto de medidas que
configure uma estratégia para reverter a estrutura produtiva no
longo prazo, pode ser louvável e meritória, mas dificilmente se
enquadra no conceito de “desenvolvimentismo”.
No caso brasileiro, o gargalo mais visível é a queda absoluta e/ou
relativa do valor agregado da indústria no PIB, na geração de emprego e nas exportações, fato que vem sendo nomeado pelos
neologismos “desindustrialização” e “reprimarização”. O problema
torna-se mais complexo porque se, por um lado, industrialização faz
parte do core, por outro lado, vários autores têm advogado com
veemência que tal reversão é tendência internacional, decorrente do
atual padrão tecnológico, e a exigência de constar do núcleo
prendia-se à lógica da substituição de importações, estando,
portanto, historicamente superada. A solução para isso seria partir para um conceito radial, mas isso exigiria tirar a industrialização do core. Entretanto, outros autores com o mesmo ardor têm resistido a
isso21. A desindustrialização representa para estes uma ameaça de
reversão imposta pelo mercado, uma “especialização regressiva”, o
oposto de um projeto ou estratégia para o país: em decorrência, a
extração da industrialização do core arrastaria consigo outros
atributos “inegociáveis” do conceito, como o projeto nacional e a
estratégia (intencionalidade e práxis). Cabe, ademais, ressaltar que desindustrialização e reprimarização não podem ser reduzidas a
faces de uma mesma moeda: o crescimento da exportação de
minérios e de produtos agrícolas em atendimento à demanda
chinesa em nada fere o core do conceito, e poderia inclusive ser
vista como oportunidade e não como ameaça caso fosse inserida
em um projeto ou estratégia de desenvolvimento. A reprimarização
da pauta de exportações, assim, não necessariamente significa
desindustrialização, mesmo porque o Brasil possui mercado interno robusto, e o superávit externo gerado pela exportação de
commodities poderia, em eventual projeto, tornar-se variável
relevante para alavancar o crescimento de setores de alta
tecnologia ou com distribuição de renda mais equânime. Deve-se,
finalmente, lembrar que essa polêmica em torno da
desindustrialização não é específica do caso brasileiro, pois se
insere em uma controvérsia mais ampla sobre o papel da indústria e
de sua importância nos dias atuais em comparação com a que teve no século XX, principalmente até meados da década de 1970. Se há
certa concordância sobre a existência de mudanças e de sua
relevância, o mesmo não ocorre quando se debate se o alcance e a
envergadura das mesmas são suficientes para permitir a exclusão
da indústria do núcleo do conceito. Um desenvolvimentismo sem
incluir o Setor Industrial no projeto sugere para muitos autores uma
contradição (no sentido da lógica formal, e não dialética) ou um
fenômeno novo, acerca do qual não haveria razões suficientes para ser abarcado pelo conceito de “desenvolvimentismo”, sob pena de
submeter esse último a uma profunda descaracterização, com um
ganho de extensão que comprometeria cabalmente a intensão do
conceito.
Para finalizar, deve-se enfrentar a pergunta frequente: cabe falar
em desenvolvimentismo hoje, ou a preocupação em conceituá-lo seria só por razões de pesquisa histórica, uma vez que o mesmo
está superado diante das mudanças substantivas ocorridas na
economia internacional nas últimas décadas, com evidente impacto
nas economias latino-americanas? Da forma como arquitetada, a pergunta espera a resposta negativa, pois parece um truísmo
referendado pelo bom-senso o chavão que a história não volta atrás
nem se repete – e é isso o que seu formulador quer ouvir. Todavia, a
pergunta soa como descabida e anacrônica diante da opção
epistemológica e da metodologia aqui empregada. O uso do termo
teórico não constitui opção: encontra-se no debate cotidiano dos
economistas e dos policymakers, na academia, no setor público, nas
agências de fomento e na mídia, inclusive com larga frequência entre aqueles criticam “a volta do desenvolvimentismo”. Se isso
ocorre, é porque o termo se faz necessário, portanto “historicamente
é”. A síntese de Hegel de que “o real é o que se impõe como tal”,
independentemente de desejos, caprichos ou vontades individuais,
impõe-se aqui com toda a sua força retórica. Condenar seu uso “em
nova realidade histórica” reflete o mal metafísico de entender os
conceitos como fixados para sempre, em consonância com a
essência imutável aristotélico-tomista, em esquecer seu movimento, sua vida e sua capacidade de adaptação para abarcar fatos novos,
ou seja, sua historicidade e a criatividade dos usuários em inovar
com subtipos e conceitos radiais. Isso ocorre com vários conceitos
usados pelos economistas e cientistas sociais e não seria diferente
com desenvolvimentismo. Termos teóricos como “capitalismo” e
“liberalismo”, por exemplo, permanecem em uso há séculos, por
mais que o capitalismo ou o liberalismo de hoje sejam diferentes da
época em que os conceitos começaram a ser usados, mesmo que subtipos e conceitos radiais tenham proliferado (”capitalismo
monopolista”, “de Estado”, “regulado”; “neoliberalismo”, “social-
liberalismo”, etc.).
A pergunta a ser feita, portanto, é outra: por que determinados
termos teóricos persistem, mesmo quando certas condições
históricas nas quais apareceram tenham se alterado? No caso de
“desenvolvimentismo”, a resposta parece simples: as condições
históricas que deram ensejo a seu aparecimento – manifestas sob diferentes formas e com termos diferentes, como antes se mostrou, como consciência do “atraso”, do “subdesenvolvimento”, dos
“problemas estruturais” ou da “dependência” – não foram
superadas. Enquanto persistirem essas condições parece
improvável que o termo caia em desuso e não granjeie adeptos, embora seu programa como projeto de superação do status quo
exija permanente reatualização.
Anexo
Quadro 1. Governos desenvolvimentistas: atributos selecionados
Presidentes País, 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Período
Juan AR, S S S/N N N N S S N S
Domingo 1946-55
Perón
Arturo AR, S S S N S N N N S N
Frondizi 1958-62
Juan Carlos AR, S S S N S S N N N N Ongania 1966-70
Carballo
Roberto AR, S S S N N S N N S S
Marcelo 1970-71
Levingston
Getulio BR, S S S N N S N N N N
Vargas (1º 1930-45
gov.)
Getulio BR, S S S N N S N S N S
Vargas (2º 1951-54
gov.)
Juscelino BR, S S S N S S N N S S
Kubitschek 1956-61
João Goulart BR, S S S N N S S S S S
1961-64
Emilio BR, S S S N S S N N S S
Garrastazu 1969-74
Médici
Ernesto BR, S S S N S S N N S S
Geisel 1974-79
Pedro CH, S S S N N S S N S S
Aguirre 1939-41
Cerda
Juan CH, S S S N N S S N S S
Antonio Rios 1942-46
Gabriel CH, S S S N S S N S S S
González 1947-52
Videla
Carlos CH, S S S N S S N N N S
Ibáñes del 1953-58
Campo (2º
gov.)
Eduardo Frei CH, S S S N S S S S S N
Montalva 1965-70
Alfonso CO, S S S N N N S S N N
López 1934-38
Pumarejo
(1º gov.)
Alfonso CO, S S S N N S N S N S
López 1942-45
Pumarejo
(2º gov.)
Alberto CO, S S S N N S N N S S
Lleras 1958-62
Camargo
Gustavo CO, S S S N N S N N S SS
Rojas Pinilla 1953-57
Carlos CO, S S S N N S S S S S Lleras 1966-70
Restrepo
Lázaro ME, S S S N S S S S S S
Cárdenas 1934-40
del Rio
Manuel Ávila ME, S S S N S S S N S S
Camacho 1940-46
Miguel ME, S S S N S S S N S S
Alemán 1946-52
Valdés
Adolfo Ruiz ME, S S S N S S S N S S
Cortines 1952-58
Adolfo ME, S S S N S S N N S S
López 1958-64
Mateos
Óscar PE, S S S N S N N N N N
Benavides 1933-39
Fernando PE, S S S N S S S S S N Belaúnde 1963-68
Terry
Manuel PE, S S S N S N N N N S
Odría 1948-56
Juan PE, S S S N N S S S N S
Velasco 1968-75
Alvarado
Luis Batlle UR, S S S N S S N S S N
Berres 1947-51
Conselho UR, S S S N S S N N S S
Nacional de 1959-63
Governo (1)
Conselho UR, S S S N S S N N S S
Nacional de 1963-67
Governo (2)
Rómulo VE, S S S N S N S S N N
Betancourt 1959-64
Raúl Leoni VE, S S S N S N S S N N
1964-69
Total de 100 100 100 0 62 79 44 41 65 71
“SIM” (%)
Legenda: S= sim, N = não; 1 = projeto nacional; 2 = intervenção
estatal; 3 = industrialização; 4 = socialismo; 5 = capital estrangeiro;
6 = burocracia; 7 = reforma agrária; 8 = redistribuição de renda; 9 =
planejamento; 10 = banco de desenvolvimento.
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