Equidade e saúde: contribuições da epidemiologia
Parte IV - Transição demográfica e epidemiológica
Parte IV - Transição demográfica e
epidemiológica
10 - Transição demográfica e seus
efeitos sobre a saúde da população
Mário F. Giani Monteiro
O processo de transição demográfica no Brasil inicia-se com a queda da mortalidade na década de 1940, quando algumas causas de óbito mais facilmente evitáveis - em particular, as do grupo de doenças infecciosas e parasitárias - começam a diminuir de modo
acentuado. Vê-se, no Gráfico 1, que este grupo de causas de óbito era responsável, em 1940, por 43,5% da mortalidade nas capitais brasileiras, sendo que este percentual tinha caído, em 1980, para 11,4%.
Gráfico 1 - Estrutura da mortalidade segundo alguns grupos de
causas de óbitos. Capitais Brasileiras - 1930-1980
Fonte: Dados coletados pelo Dr. Mário Magalhães, publicados
em RADIS/DADOS. nº 7, ago. 1984.
O processo de transição demográfica no Brasil consolida-se, na década de 1960, com o início da queda de fecundidade: em 1960, a taxa de fecundidade total era de 6,3 filhos por mulher; em 1980, era de 4.0; e chega, em 1990, a menos de três filhos por mulher, como
mostra o Gráfico 2.
Gráfico 2 - Fecundidade total (filhos/mulher). Brasil -1940-1990
* estimativa
Fonte: IBGE. Anuários Estatísticos do Brasil - 1992-1993.
O Gráfico 3 mostra a aceleração da queda da mortalidade, a partir de 1940, e da natalidade, após 1960. O aumento da diferença entre natalidade e mortalidade, de 1940 a 1960, provocou rápido crescimento populacional.
Gráfico 3 — Taxas de natalidade e mortalidade (nascimentos e
óbitos/1.000 habitantes). Brasil -1900-1990
Fonte: IBGE. Séries Retrospectivas e Anuários Estatísticos do
Brasil
A partir de 1960, com a queda da natalidade, o ritmo de crescimento diminui e acelera o processo de envelhecimento da população, que é mostrado mais adiante. As pirâmides populacionais de 1940 e
1991 (Gráfico 4) mostram que houve estreitamento da base: a pirâmide de 1940 (linha fina) tinha uma base larga e o ápice era bem mais estreito que a pirâmide de 1991 (linha grossa com asteriscos).
Gráfico 4 - Pirâmide populacional. Brasil -1940-1941
Fonte: IBGE. Censos Demográficos de 1940 e 1991.
O aumento da população idosa e a diminuição relativa da população
jovem, após 1970, também pode ser vista no Gráfico 5. Em 1991, a população abaixo de vinte anos era menos de 50% e a população com mais de sessenta anos chegava aos 10,7 milhões (Monteiro & Alves, 1995). Este processo, no entanto, ocorre de maneiras diferentes nas Grandes Regiões do Brasil, devido às diferenças regionais das condições sócio-econômicas.
Gráfico 5 - População segundo quatro grupos de idade. Brasil -
Censos de 1940-1991
Fonte: IBGE. Anuário Estatístico do Brasil - 1993.
Esta queda tão rápida da fecundidade - que em trinta anos reduziu-se em mais de 50% - foi conseguida pelas mulheres através da utilização de métodos anticoncepcionais, mas também pela 'esterilização' de 17% das mulheres de 1 5 a 49 anos (IBGE, suplemento sobre anticoncepção da ΡNAD) 1986) - muitas vezes realizada de maneira involuntária, sem o conhecimento da mulher -tal como pela prática do 'abortamento', que, segundo estimativas do Instituto Alan Guttmacher, chega a cerca de 1,5 milhões por ano no Brasil (The Alan Guttmacher Institute. 1994).
A queda da mortalidade e da fecundidade está intimamente associada com a saúde da população brasileira, tanto por seu efeito sobre a estrutura etária da população, que 'envelhece', favorecendo a ocorrência de doenças crônicas e degenerativas, quanto pelas repercussões que os métodos utilizados para diminuir o número de filhos têm sobre a saúde da população feminina.
Observa-se também o excepcional aumento relativo de óbitos por doenças do aparelho circulatório e, além disso, a participação crescente dos óbitos por neoplasias e das causas violentas de mortalidade.
Afora a diminuição das doenças infecciosas e parasitárias que contribui, em conseqüência, para aumentar a participação das outras causas na mortalidade, o acréscimo da proporção de óbitos por doenças crônicas e degenerativas pode ser atribuído também ao envelhecimento da população.
Diferenças regionais na queda da fecundidade
total
A proporção da população com sessenta anos ou mais cresceu em ritmos diferentes nas grandes regiões do Brasil, aumentando as
diferenças regionais (Gráfico 6), formando nitidamente dois grupos após a década de 1980: as regiões Nordeste, Sudeste e Sul apresentam, por razões diferentes, as maiores proporções de população idosa. No Sudeste e Sul, a redução de fecundidade foi o principal fator, mas no Nordeste a emigração de população em idade reprodutiva também contribuiu significativamente para este
envelhecimento (Gráfico 7).
Gráfico 6 - Proporção da população com sessenta anos ou
mais. Grandes regiões -1960-1991
Fonte: IBGE. Censos Demográficos de 1960 a 1991.
Gráfico 7 - Taxa de imigração/taxa de emigração (percentagem
de imigrantes/percentagem de emigrantes). Grandes regiões -
1980
Fonte: IBGE. Anuário Estatístico do Brasil - 1987-1988.
Nas regiões Norte e Centro-Oeste, que durante as últimas décadas receberam significativo contingente de adultos jovens - o crescimento da população idosa não ocorreu com ritmo tão intenso, apresentando proporção menor de idosos em 1991.
Diferenças regionais na mortalidadeproporcional
por idade
Os Gráficos 8 e 9 apresentam a proporção de óbitos em dois grupos de idade; o resultado é coerente com o processo de envelhecimento da população: de 1980 a 1991 houve redução da percentagem de óbitos entre o grupo de zero a 19 anos e aumento da mortalidade proporcional do grupo com sessenta anos ou mais, mostrando que a estrutura de mortalidade também 'envelheceu'.
Gráfico 8 - Percentagem de óbitos de zero a 19 anos
Fonte: IBGE. Estatísticas do Registro Civil - 1980 e 1990.
Gráfico 9 - Percentagem de óbitos de sessenta anos ou mais
Fonte: IBGE. Estatísticas do Registro Civil - 1980 e 1990.
No Nordeste, Sudeste e Sul, onde havia maior proporção de idosos, a mortalidade proporcional do grupo de sessenta anos ou mais é maior que nas outras duas regiões. Na região Norte, com menor proporção de idosos, a percentagem de óbitos de menores de vinte anos, em 1991, continua maior que nas outras regiões.
É interessante observar que o padrão da estrutura de mortalidade por idade na região Nordeste - cuja população envelheceu por causa da redução de fecundidade e da emigração - demonstra também alta proporção de óbitos entre crianças e adolescentes (zero a 19 anos).
Diferenças regionais na mortalidade proporcional
por causa
O Gráfico 10 mostra que as doenças infecciosas e parasitárias, apesar de serem mais facilmente evitáveis, ainda são responsáveis por cerca de 15% da mortalidade nas regiões Norte e Nordeste, enquanto nas regiões Sul e Sudeste esta proporção é menor que 5%.
Gráfico 10 - Mortalidade proporcional para quatro grupos de
causas de óbito. Grandes regiões - 1990
Fonte: Ministério da Saúde-DATASUS. Sistema de Informações
de Mortalidade.
As neoplasias e as doenças circulatórias são as causas de aproximadamente a metade dos óbitos nas regiões Sul e Sudeste.
As causas externas - violências - correspondem a cerca de 2 0% da mortalidade nas regiões Norte e Centro-Oeste, áreas de imigração relativamente recente, e com sérios conflitos sobre a posse de terras. A proporção de óbitos por causas violentas é maior nestas duas regiões que na Sudeste, onde a violência urbana tem aumentado mais recentemente.
Diferenças regionais na queda da fecundidade
total
O Gráfico 11 mostra que a fecundidade reduziu-se em ritmos diferentes e em momentos distintos nas cinco regiões do Brasil, compondo três padrões.
Gráfico 11 - Fecundidade total (filhos/mulher). Grandes regiões
1940-1990
Fonte: IBGE. Anuário Estatístico do Brasil - 1984 a 1993.
Um padrão é definido pelo Sudeste e pelo Sul, onde a fecundidade já era mais baixa no período de 1940 a 1960, começando a declinar rapidamente após 1960, principalmente no Sudeste, que é a região mais industrializada. Em ambas as regiões, a fecundidade cai em 1990 para valores mais próximos de dois filhos por mulher.
Outro padrão é determinado pelas regiões Norte e Nordeste, nas quais a fecundidade é mais elevada, mas o declínio da fecundidade começa após 1970 e também é rápido, chegando a 1990 com uma taxa de fecundidade total de quatro filhos por mulher.
Na região Centro-Oeste, a curva de fecundidade se desenvolve com valores intermediários, e sua redução se acelera também apenas depois de 1970. Em 1990, a taxa de fecundidade está próxima a três filhos por mulher.
Diferenças regionais na estrutura da
fecundidade por idade
A taxa de fecundidade específica por idade mostra que esta é maior, em todos os grupos de idade, nas regiões Norte e Nordeste. Além disso, pode-se observar um pico entre os vinte e 24 anos, declinando após os 25 anos, principalmente na população feminina das regiões Norte e Centro-Oeste. Na região Sudeste, ao contrário, não há grande diferença de fecundidade entre os grupos de vinte a 24 e 25 a 29 anos, sugerindo que, na mesma, talvez por influência das atividades profissionais ou para completar seu ciclo educacional, um número maior de mulheres posterga o início da vida reprodutiva.
A gravidez na adolescência e entre mulheres jovens (grupos de zero a 15 e vinte a 24 anos) é mais elevada nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; no entanto esta última região mostra rápido declínio da fecundidade após os 24 anos, apresentando os mesmos níveis que as regiões Sul e Sudeste para as mulheres com mais de 25 anos.
Gráfico 12 - Taxas específicas de fecundidade por idade.
Grandes regiões 1990
Fonte: IBGE. Anuário Estatístico do Brasil - 1983.
Diferenças regionais no controle da
natalidade (1986)
Para controlar a natalidade, a população feminina recorreu a três procedimentos básicos: a utilização de métodos anticoncepcionais, a esterilização feminina - muitas vezes involuntária - e, como último recurso, o abortamento (estimado em cerca de 1,5 milhões em 1991, segundo o Instituto Alan Guttmacher), todos com repercussões importantes sobre a saúde da população feminina.
Quando comparamos a anticoncepção com a esterilização (Gráfico
13), observamos diferenças regionais importantes e novamente temos três padrões, formando os mesmos grupos: em 1986, a população feminina em idade reprodutiva das regiões Sul e Sudeste que utilizava métodos anticoncepcionais era maior do que aquela que sofreu esterilização, ao passo que, nas regiões Norte e Nordeste, a proporção para estes dois procedimentos era praticamente igual. Já entre as mulheres de 15 a 49 anos da região Centro-Oeste havia maior proporção de mulheres esterilizadas do que a de mulheres que utilizavam algum método anticoncepcional reversível.
Gráfico 13 - Anticoncepção e esterilização em mulheres de 15 a
49 anos. Grandes regiões -1986
Fonte: IBGE. PNAD -1986.
Diferenças na atenção pré-natal
Muitas complicações da gravidez, do parto e do puerpério da mãe, assim como doenças do período perinatal do concepto, podem ser evitadas se houver atenção pré-natal adequada. No entanto, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde, principalmente para a população de baixa renda - justamente aquela que, por suas condições de vida inadequadas, suporta os maiores riscos -, favorece a ocorrência de danos à saúde, os quais já estão reduzidos nos países desenvolvidos.
O Gráfico 14, obtido mediante resultados da Pesquisa sobre Saúde e Nutrição - realizada pelo IBGE em 1989 -, mostra a deficiência de atenção pré-natal para os grupos de baixa renda.
Gráfico 14 — Percentagem de mulheres que estavam grávidas e
não receberam atenção pré-natal, por renda mensal familiar
Fonte: IBGE/DPE/DEISO. Pesquisa Nacional sobre Saúde e
Nutrição - 1989.
Além da diferença por renda na atenção pré-natal, existem dessemelhanças regionais que, de certa maneira, reproduzem essa desigualdade de oportunidade de acesso aos serviços de saúde. Principalmente quando se observa, em todas as regiões, a população das áreas rurais do Brasil, as quais apresentam maiores percentagens de mulheres grávidas que não tinham recebido
atenção pré-natal. Pode-se ver no Gráfico 15 que, enquanto nas áreas urbanas das regiões Sul e Sudeste a proporção de mulheres grávidas sem atenção pré-natal era menor que 20%, nas áreas rurais destas regiões havia mais de 4 0% de grávidas nesta situação, sendo que no Nordeste rural esta proporção estava perto de 80%.
Gráfico 15 - Percentagem de mulheres grávidas sem pré-natal.
Grandes regiões - urbano/rural
Fonte: IBGE/DPE/DEISO. Pesquisa Nacional sobre Saúde e
Nutrição - 1989.
Conclusões
Através da construção e análise de indicadores demográficos e de saúde, procuramos mostrar a associação entre as transições epidemiológica e demográfica que acontecem no Brasil, descrevendo as transformações na estrutura de mortalidade e fecundidade que ocorrem desde a década de 1940.
Estas transições são, na realidade, muito mais complexas, envolvendo fenômenos sócio-econômicos que não foram abordados aqui. Certamente, não tínhamos a intenção de explicá-las exaustivamente. Ao contrário, procuramos utilizar apenas alguns indicadores, mostrar as associações que nos parecem mais óbvias e reproduzir parte de alguns trabalhos já realizados por nós, mas de maneira que apresentassem alguma lógica do ponto de vista associativo e alguma linearidade para facilitar sua apresentação.
Devemos considerar este estudo como um resumo que pretende destacar pontos relevantes e básicos da associação entre transição demográfica e epidemiológica.
Além dos fatores sócio-econômicos, que praticamente não foram abordados, a transição epidemiológica envolve uma análise do perfil de morbidade, que não foi tratado nesta pesquisa. Poderíamos apenas considerar que a estrutura de mortalidade, segundo a causa básica do óbito, serve como uma proxy da de morbidade.
Mais fácil parece ter sido a tarefa de mostrar as diferenças entre grandes regiões do Brasil, por sua consistente e marcante ocorrência. Poderíamos, então, sugerir que existem diferentes transições epidemiológicas e demográficas no Brasil, cada uma agindo sobre um segmento da população, seja esta dividida regionalmente ou em estratos sócio-econômicos.
Certamente, muitos dos conceitos emitidos e observações realizadas nesta análise podem ser detalhados, aprofundados e analisados com técnicas estatísticas, demográficas e epidemiológicas mais elaboradas. Contudo, se este trabalho servir como sugestão para discutirmos alguns pontos comuns entre a Epidemiologia e a Demografia, seu objetivo foi atingido.
Referências bibliográficas
BRASS, W. Policies for the reduction of mortality differentials. Population and Development in the Middle East. Beirut: United Nations, ECWA , 1982. p. 341-365.
CALDWELL, J. C. & MCDONALD. P. Influence of maternal education on infant and child mortality: levels and causes. In: PROCEEDINGS OF THE INTERNATIONAL POPULATION CONFERENCE, INTERNATIONAL UNION FOR THE SCIENTIFIC STUDY OF POPULATION, Manila, 2:79-96, 1981.
MONTEIRO, M. F. G. A Case-Control Study of Infant Mortality Determinants in The Metropolitan Region of Porto Alegre (Brazil). Londres, 1990a. Tese de doutorado LSHTM, University of London.
MONTEIRO , M . F. G. O efeito da educação materna sobre o risco de mortalidade infantil. Revista Brasileira de Estudos de População, 7( 1), jan./jun., 1990b.
MONTEIRO, Μ . F. G. A mortalidade no contexto da transição epidemiológica. In: IBGE -Indicadores Sociais: uma análise da década de 1980. Rio de Janeiro: IBGE, 1995. (No prelo)
MONTEIRO, M. F. G. Saúde reprodutiva. In: IBGE/Unicef. Família Brasileira, a Base de Tudo. São Paulo: Cortez, 1994.
MONTEIRO, M. F. G. Interrupções da gravidez no Brasil. In: ENCUENTRO DE INVESTIGADORES SOBRE ABORTO INDUCIDO EN AMÉRICA LATINA Υ EL CARIBE, COLÔMBIA, 15 A 18 DE NOVEMBRO DE 1994. Organización Mundial de la Salud (Programa especial de investigación sobre reproducción humana). 1994.
MONTEIRO, M. F. G. & ALVES, Μ . I. C. Aspectos demográficos da população idosa no Brasil. In: VERAS, R. (Org.) Terceira Idade -Envelhecimento Digno para o Cidadão do Futuro. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, UnATI/Uerj, 1995.
MOSLEY, W. H. & CHEN, L. C. An Analytical Framework for the Study of Child Survival in Developing Countries. In: MOSLEY, H. W. & CHEN. L. C. (Ed.) Child Survival in Developing Countries. In: MOSLEY, H. W. & CHEN. L. C. (Ed.) Child Survival, Strategies for Research. Population and Development Review, 10:25-45, 1984. (Suppl.).
PEBLEY, A . R. & MILLMAN, S. Birthspacing and child survival. International Family Planning Perspectives, 12(3):71-79, 1986.
THE ALLAN GUTTMACHER INSTITUTE. Aborto Clandestino: uma realidade latinoamericana. Nova Iorque: The Allan Guttmacher Institute, 1994.
SINGH, S. & MONTEIRO, M. F. G. Childbearing, contraception and abortion in Brazil: differentials by women's poverty status Oaxaca. In: SEMINAR ON WOMEN, POVERTY AND DEMOGRAPHIC CHANGE, Oaxaca, Mexico, 25-28, October 1994. Mexico: International Union for the Scientific Study of Population (Iussp), 1994.
TAVARES, R. A . W . & MONTEIRO, Μ . F. G. População e condições de vida. In: GUIMARÃES, R. & TAVARES, R. A. W. (Org.) Saúde e Sociedade no Brasil: anos 80. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
WORD HEALTH ORGANIZATION. Measurement of Levels of Health. Technical Report Series 137, 1957.