Equidade e saúde: contribuições da epidemiologia
5 - Relação internacional entre eqüidade de renda e expectativa de vida
5 - Relação internacional entre
eqüidade de renda e expectativa de
vida*
Richard Wilkinson
Diversos estudos têm demonstrado que, tanto nos países desenvolvidos quanto nos menos desenvolvidos, as populações que apresentam menores diferenças de renda entre seus diversos segmentos tendem a usufrruir melhor saúde. Rogers (1979), utilizando dados da década de 60, referentes a um grupo de 56 países, descobriu que renda média e distribuição de renda constituíam indicadores independentes da mortalidade. Mais recentemente, em pesquisa envolvendo setenta países em diversos estágios de desenvolvimento, Waldmann (1992) encontrou que, controlada a renda real dos 20% mais pobres da população, os aumentos da renda dos 5% mais ricos estavam associados ao aumento - e não à queda - da taxa nacional de mortalidade infantil. Wennemo (1993) e Flegg (1982) mostraram também a relação entre distribuição de renda e taxas de mortalidade infantil. Usando dados obtidos a partir de estudos transversais, bem como dados acerca de tendências temporais, Wilkinson (1992, 1994a, 1994b) observou associação entre distribuição de renda e expectativa de vida nos países desenvolvidos. Para além da mortalidade, Steckel (1983) descreveu a correspondência entre estatura média e distribuição de renda. Estas associações mostraram-se independentes dos efeitos da renda média e da provisão de serviços médicos, educação e escolaridade materna (Waldmann, 1992; Steckel, 1983; Wilkinson, 1992).
O presente trabalho trata da relação entre renda e mortalidade quase exclusivamente sob a perspectiva da análise dos países desenvolvidos. Inicia-se apontando evidências sugestivas de que, nestes países, a influência da pobreza na saúde é, fundamentalmente, a influência da renda relativa, da privação relativa, e não de padrões estritamente materiais. Esta estratégia de estudo fez com que fossem discutidas algumas indicações de que as trajetórias psicossociais são provavelmente importantes na relação entre renda relativa e mortalidade dentro desses países. Finalmente, no caso de as trajetórias psicossociais estarem de fato envolvidas em vínculos dessa natureza, pode-se concluir que é porque a saúde provavelmente configura um dos inúmeros parâmetros sociais afetados pela renda relativa.
A Figura 1 expõe a conhecida associação entre privação, ou diferentes níveis de status sócio-econômico, e mortalidade. Estes dados provêm do estudo Whitehall, que acompanhou 17 mil funcionários civis ingleses, todos empregados de escritórios, classificados de acordo com o tempo de serviço, do mais antigo ao mais novo. O gráfico demontra que as taxas de mortalidade por doenças coronarianas eram quatro vezes maiores entre os empregados mais antigos do que entre os mais jovens. Do conjunto de causas de morte que não consta do gráfico exibido - há dessemelhança da ordem de três vezes. O gráfico também permite que se note quão pouca diferença nos riscos de doenças cardíacas pode ser explicada pelos fatores de risco mais relevantes. Praticamente, qualquer medida de status econômico e social e qualquer medida de saúde mantêm forte relação entre si.
FIGURA 1 - Risco relativo de morte por doença coronariana de
acordo com a categoria profissional e proporções de diferença que possam ser explicadas estatisticamente por vários fatores
de risco
"Outros" inclui estatura, massa corporal, tempo de atividades
de lazer, exercício, tolerância à glicose. Fonte: Rose et al.
(1978).
Exemplificando, a Figura 2 apresenta as taxas de mortalidade de acordo com as faixas de renda nos Estados Unidos. Os dados provêm de trezentos mil homens brancos engajados no estudo MRFIT. Ambos os gráficos revelam diferenças na saúde distribuídas segundo um gradiente que atravessa todas as classes sócioeconômicas. Este gradiente expressa que estamos lidando não com algo limitado aos pontos extremos da distribuição, um problema restrito aos mais pobres ou a qualquer outro grupo, mas algo que atravessa toda a sociedade. Isso traz implicações para a natureza das explicações mais plausíveis.
FIGURA 2 - Faixa de renda e mortalidade entre homens brancos
nos Estados Unidos
Fonte: Dados MRFIT de Davey Smith et al. (1992).
Apesar da íntima associação que constatamos entre fatores sócio-econômicos e a mortalidade no âmbito dos diversos países, observa-se relação muito frouxa dos diversos países entre si. Por exemplo, a Figura 3 exibe flutuações no PIB per capita no que diz respeito a mudanças na expectativa de vida ao longo de vinte anos (1970 -1990). O PIB per capita foi convertido em "unidades de poder de compra paritária", de modo que os dados refletissem adequadamente o real padrão de vida, o controle efetivo das pessoas sobre os recursos, o que não poderia ser avaliado de outro modo. Em lugar do claro gradiente de mortalidade que vimos no âmbito dos diversos países, temos aqui um padrão de dispersão aleatório. A relação transversal entre os grupos não é mais conclusiva. Isso não decorre de erro amostrai, pois tais casos correspondem a uma nação inteira. Na verdade, indica de forma consistente que diferenças dos padrões de vida entre países desenvolvidos têm pouca relevância para a saúde e, ainda, que as diferenças intrínsecas a cada país desenvolvido revelam-se extremamente importantes.
Antes de levarmos a análise adiante, cabe uma breve explicação. As populações nos países menos desenvolvidos obviamente apresentam muito menor expectativa de vida. Esta cresce rapidamente com o incremento do PIB per capita, até ao ponto em que começa a 'achatar-se' em determinado limiar - situado em torno de US$ 5,000.00 em 1990. Os países desenvolvidos estão todos situados no segmento 'achatado' da curva. As diferenças na expectativa de vida entre eles não podem ser claramente distinguidas pelos níveis do PIB per capita. Com o passar do tempo, em lugar de os países se moverem ao longo de uma dada curva que relaciona a expectativa de vida ao PIB per capita, observa-se deslocamento da curva, como um todo, para cima. Portanto, é somente entre países desenvolvidos que deixa de existir a relação concernente a PIB per capita e expectativa de vida; mesmo assim, a associação desta com a renda se mantém extremamente forte no interior destes países.
FIGURA 3 - Acréscimo da expectativa de vida e no PIB per
capita nos países da OECD. 1970-1990 Acréscimo em anos da
expectativa de vida ao nascer (M&F), 1970-1990
Fonte: OECD (1992) e Banco Mundial (1992).
Este paradoxo talvez possa ser explicado pelo fato de estarmos lidando com efeitos da renda relativa ou posição sócio-econômica relativa interna aos países, e não com padrões materiais absolutos. Essa conclusão encontra respaldo nos dados referentes à distribuição da renda no interior dos países.
Dados internacionalmente comparáveis da distribuição de renda nos países só recentemente se tornaram disponíveis. A Figura 4 utiliza os primeiros dados comparativos que pudemos encontrar. Em um corte seccional, apresenta a relação entre o coeficiente Gini referente à desigualdade de renda e à expectativa de vida em alguns países da Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD). Quando constatamos pela primeira vez esta clara relação - estatisticamente significativa apesar do pequeno número de países - ela era muito menor do que o esperado. Pensamos que existiria, no máximo, uma fraquíssima associação e, assim, deduzimos que era uma relação provavelmente espúria, deixando-a de lado por vários anos. A ela retornamos somente depois de ler um trabalho no qual se dava a conhecer que o Japão, em 1988, possuía a melhor expectativa de vida e a mais 'apertada' distribuição de renda do mundo (Marmot & Davey Smith, 1989).
Como a Figura 4 evidencia, o Japão em 1970 estava situado em posição intermediária tanto no que diz respeito à distribuição de renda quanto à expectativa de vida. A mudança simultânea e paralela em ambos os parâmetros pareceunos mais do que coincidência e passamos então a procurar dados comparativos internacionais de distribuição de renda que nos permitissem analisar mudanças ao longo do tempo.
FIGURA 4 - Expectativa de vida (M&F) e coeficiente GINI de
desigualdade na distribuição de renda - após imposto de renda
- (ajustado pelo tamanho de domicílio)
* O coeficiente GINI mede o grau de desigualdade de renda -
não apenas entre ricos e pobres, mas no conjunto da
população. Quanto maior o coeficiente, maior a desigualdade.
Se todos tivessem a mesma renda, o coeficiente seria 0%. Se
toda renda fosse para um indivíduo e os demais não tivessem
nada, o coeficiente seria 100%.
Fonte: Wilkinson (1986).
Uma das primeiras fontes que encontramos foi proveniente de um
estudo relativo à Comunidade Européia (CE). A Figura 5 mostra as alterações na proporção de habitantes vivendo em relativa pobreza nos então doze Estados-membros da CE, durante o período de 1975 a 1985, e sua ligação com o incremento médio anual da expectativa de vida. Embora se tratasse somente de doze países, esta relação mostrou-se estatisticamente significativa.
FIGURA 5 - Taxa anual de mudança da expectativa de vida em
doze países da Comunidade Européia e taxa de mudança na
percentagem da população em relativa pobreza -1975-1985
Fonte: O'Higgins & Jenkins (1990).
A Figura 6 revela outro aspecto das mudanças ao longo do tempo mediante a utilização de dados de estudo sobre renda de Luxemburgo. Os dados revelam mudanças na divisão de renda, a qual se desloca para a metade menos próspera da população, e as taxas relativas às alterações na expectativa de vida. Os períodos assimétricos, em que se podem observar as mudanças aqui registradas, foram definidos a partir dos dados disponíveis. Novamente, a relação é estatisticamente significativa.
FIGURA 6 - Mudanças na distribuição de renda e expectativa de
vida em diferentes países no período de cinco a dez anos
Fonte: Dados do Estudo sobre Renda de Luxemburgo.
Nosso propósito, ao expor aqui os dados gerais nacionais e internacionais, é o de distinguir os efeitos da renda relativa e absoluta, em uma análise que não é factível quanto aos dados da renda individual. Afinal, não são os indivíduos e sim as sociedades que apresentam distribuição de renda. A questão de estabelecer se a mortalidade está associada de forma causal à renda de qualquer natureza tem sido analisada em separado (Wilkinson, 1990).
Essas relações não desaparecem quando controladas para os gastos do governo com os serviços de saúde ou outras áreas dos gastos públicos. Igualmente, não é plausível que efeitos dessa ordem sobre a mortalidade sejam secundários a segmentos dos gastos públicos. A visão generalizada entre os epidemiologistas é a de que o impacto global da assistência médica não é um dos principais parâmetros definidores dos índices globais de saúde e de expectativa de vida da população dos países desenvolvidos (Mackenbach et al., 1990). Isto não significa que a assistência médica seja ineficiente: na verdade, ela se vê amesquinhada pela força dos fatores sociais e econômicos. Qualquer um pode estabelecer analogia com o corpo médico militar que, embora efetivo, nunca é o principal determinante do número de mortes que ocorrem em uma batalha. O que importa é a incidência do câncer e de doenças cardíacas, resultantes do ambiente social e material em que vivemos e trabalhamos, não as pequenas diferenças relativas às taxas de letalidade relativas a cada caso, índices que sofrem influência da atuação da medicina.
A magnitude das diferenças concernentes à expectativa de vida, que estão associadas às mudanças na distribuição de renda, é relevante. Considerando o que pode ser extraído dos dados disponíveis, a correlação entre expectativa de vida em diferentes países e distribuição de renda é muito mais forte quando se leva em conta não a proporção da renda que cabe aos 10, 20 ou mesmo aos 30% mais pobres da população, mas quando se considera a proporção da renda auferida pela metade menos aquinhoada da sociedade.
Também sugerem efeitos generalizados as comparações dos gradientes de mortalidade por classe social na Inglaterra, País de Gales e Suécia, onde a distribuição de renda é mais homogênea.
Os gradientes registrados na Suécia, seja em relação à mortalidade infantil seja à mortalidade entre adultos, não se apresentam tão marcados como na Inglaterra e País de Gales (Wilkinson, 1994a). Constata-se que, ao longo do tempo, ocorreram mudanças súbitas
na distribuição de renda. A Figura 7 mostra as tendências na distribuição de renda no período de 1977-91. Observa-se que o leque da distribuição de renda amplia-se gradualmente até meados dos anos 80, período em que de fato começa a dilatar-se em ritmo muito acelerado.
FIGURA 7 - Ampliando as diferenças de renda
Fonte: CSO (1993), com agradecimentos a Atkinson.
Se as relações internacionais entre distribuição de renda e mortalidade, que vimos anteriormente, refletem os efeitos da renda relativa sobre a mortalidade, bem como se o aumento das desvantagens registradas entre as pessoas pertencentes aos estratos sociais inferiores não for compensada pelo incremento das vantagens relativas à mortalidade nos estratos superiores, podemos supor que serão observados impactos nas taxas de mortalidade britânicas em função da ampliação do leque de distribuição de renda nos anos 80.
A Figura 8 aponta as tendências nas taxas nacionais de mortalidade de três grupos etários, entre 1975 e 1992. Os três segmentos do gráfico de barras sombreadas apresentam: a mortalidade infantil precoce no segmento inferior de cada barra; das crianças de um a 19 anos no segmento intermediário; e dos adultos de vinte a 44 anos no segmento situado na parte superior da barra. Os dados de crianças e adultos são padronizados, por idade, para cada grupo de cinco anos de intervalo. Cada segmento é definido como cem para o ano de 1985 e, com isso, as colunas totalizam trezentas naquele ano. As três linhas com inclinação diagonal descendente, por detrás das projeções simplificadas de tendências, indicam os índices de descenso das taxas de mortalidade observados entre 1975 e 1984. O fato de que, ao final dos anos 80, a mortalidade relativa dos três grupos de idade, representados nas colunas, não tenha experimentado um descenso tão rápido quanto as linhas diagonais permite mensurar a redução do declínio da mortalidade que teve lugar em cada um dos grupos etários nos anos 80.
Í
FIGURA 8 - Índices relativos a mudanças nas taxas de
mortalidade entre jovens adultos, crianças e bebês (1985 = 100
em cada grupo de idade)
Fonte: Wilkinson (1994).
A possibilidade de que essa diminuição no declínio da mortalidade possa ser atribuída à ampliação dos diferenciais de renda não deve ser inferida somente a partir dos dados internacionais que relacionam distribuição de renda e expectativa de vida. Há outra evidência que manifesta a derivação de tais tendências do que vem ocorrendo com a mortalidade nas áreas mais pobres da Grã-Bretanha.
Existem hoje três pequenos estudos regionais reveladores de que os diferenciais de mortalidade também se alargaram quando os diferenciais sócio-econômicos se ampliaram entre as diferentes áreas, no período compreendido entre os censos de 1981 e de 1991, na Grã-Bretanha (Phillimore et al., 1994; McLoone & Boddy, 1994). Nas áreas mais pobres, as taxas de mortalidade realmente aumentaram em alguns grupos etários. Comparada ao restante da Escócia, a mortalidade em Glasgow, que é a parte mais carente desse país, acresceu; e precisamente de 1985 em diante (Greater Glasgow Health Board, 1993).
Ao que tudo indica, o fato de estarmos lidando, antes com o efeito da renda relativa do que com o da renda absoluta, sugere o envolvimento de processos comparativos e, portanto, cognitivos. O não-pareamento dos dados intrínsecos aos países e dos dados entre diferentes países sugere que não estamos trabalhando com efeitos sobre a saúde dos padrões de vida exclusivamente biológicos nos diversos países. Ao invés de a saúde ser influenciada primeiramente pelo que acontece a cada um e ao seu padrão de vida singular, sem levar em conta os outros, o que importa é onde cada um se situa em relação ao restante da sociedade. Embora a nutrição exerça efeito direto na saúde, e habitações úmidas tenham efeito sobre as doenças respiratórias, estes não são amplos o suficiente para explicar os dados que estamos discutindo.
Pesquisas epidemiológicas fornecem numerosos exemplos de influências dos fatores psicossociais na saúde e na mortalidade. Estudos referentes ao desemprego e saúde, em particular aqueles sobre o fechamento de fábricas, mostram que a saúde se deteriora não só quando o indivíduo fica desempregado, mas também quando os postos de trabalho supérfluos são previamente anunciados e as pessoas passam a preocupar-se com a segurança no emprego (Beale & Nethercott, 1988; Cobb & Kasl, 1977; Iversen & Klausen, 1981). Em larga medida, é a antecipação do desemprego o que importa e implica vínculo psicossocial. O aumento da mão-de-obra marginal em países desenvolvidos certamente vem afetando a saúde. A evidência da força dos fatores psicossociais também provém de estudos observacionais relativos às taxas de mortalidade entre pessoas e comunidades depois de perdas ou após reveses importantes.
Há também grande número de evidências experimentais que demonstram a influência de fatores psicossociais sobre a saúde. Estabelecida a comparação com um grupo-controle, em que foram instiladas gotas nasais de água pura destilada, o risco para indivíduos, que receberam gotas contendo vírus causadores do resfriado, de desenvolverem os sintomas manifestou-se estreitamente relacionado a seus níveis de estresse, mensurados antecipadamente (Cohen, Tyrrell & Smith, 1991). Existem inúmeros experimentos desse tipo, além de uma indústria florescente da psiconeuroimunologia e da psiconeuroendocrinologia voltada à análise de tais associações.
Se, de fato, a distribuição de renda tem impacto poderoso nas taxas de mortalidade através de 'canais' psicossociais, da mesma forma seus efeitos certamente devem ser visíveis dentre os demais indicadores sociais. Pondo de lado a mortalidade, há poucas formas de mensurar o bem-estar ou indicadores psicossociais que possam conduzir a comparações internacionais. As taxas de crimes registrados são afetadas pelas diferenças de um país para outro quanto ao registro da informação, leis, práticas legais e diversas circunstâncias. Por exemplo, crimes ligados a automóveis são, em parte, função da disponibilidade deste tipo de veículo. O próprio rastreamento de indicadores de bem-estar psicossocial nos países é bastante difícil. Não somente as medidas são extremamente imprecisas, mas também fortemente influenciadas pelas variações relativas ao registro de informações. Todavia, esses problemas são menos graves quando se estabelecem comparações dentro de um mesmo país ao longo do tempo.
Uma área onde existem medidas razoavelmente válidas, que refletiriam mudanças no bem-estar psicossocial das crianças, é a dos padrões de leitura nas escolas primárias. Dispõe-se aqui de algumas medidas padronizadas, utilizadas em grande número de crianças. Sugerimos recentemente (Wilkinson, 1994a) que as mesmas pressões psicossociais decorrentes da ampliação do leque da distribuição de renda e do incremento da 'privação' relativa na Grã-Bretanha, ao longo dos anos 80, afetou o bem-estar das crianças através dos conflitos familiares, estresse financeiro experimentado pelo pais, insegurança no trabalho, 'privação' relativa, depressão e outros fatores correlatos.
Ao final dos anos 80, surgiu controvérsia importante na Grã-Bretanha acerca do declínio dos padrões escolares referentes à capacidade de leitura. Três pesquisas foram desenvolvidas de modo a verificar a veracidade dessas tendências (Gorman & Fernandes, 1992; Lake, 1991; London Borough of Croydon, 1992). Todas sugeriram que houve declínio, e identificaram 1985 como o ano 'divisor de águas'.
A Figura 9 exibe dados relativos ao Condado de Buckinghamshire, onde os mesmos testes de leitura foram utilizados em todas as crianças em anos subseqüentes. Ela mostra declínio estatisticamente significativo nos padrões de leitura a partir de 1985. Além disso, os três estudos concluíram que os métodos didáticos não explicavam tal declínio - apesar das sugestões governamentais no sentido oposto. O estudo nacional revelou que a deterioração teve lugar nas áreas centrais e empobrecidas da cidade; os estudos locais evidenciaram que isso aconteceu em escolas cujas áreas de abrangência eram mais pobres. Não resta dúvida de que o desempenho educacional é afetado pelas circunstâncias sócioeconômicas. Enquanto a média nacional é de que 1/4 ou 1/3 de todas as crianças em qualquer classe escolar são provenientes de lares relativamente pobres, em áreas mais pobres esta proporção pode subir para 2/3 ou 3/4 do total - nestes casos, supõe-se que o ensino e o aprendizado se tornam mais difíceis.
FIGURA 9 - Declínio dos padrões de leitura
Escores para o teste de leitura Chiltem para todos os escolares
entre 7 e 8 anos de Buckinghamshire
Fonte: Lake (1991).
Os dados exibidos na Figura 10 provêm da coorte de nascimentos de 1970, na Grã-Bretanha (Woodroffe et al., 1993). Entre as crianças de dez anos, ela revela diferenças quanto à hiperatividade, distúrbios de conduta e ansiedade segundo classe social. Embora as classes sociais não sejam idênticas às faixas de renda, os resultados talvez sejam sugestivos dos processos que correlacionam a pobreza relativa entre as famílias aos escores obtidos nos testes de leitura das crianças a elas pertencentes. Associado a isso, no estudo referente à coorte de nascimento do ano de 1958, encontrou-se que a avaliação, por parte dos professores, do comportamento na idade de 16 anos foi considerado o melhor prognóstico de saúde na idade de 23 anos; com isso, temos um princípio de explicação de como os efeitos psicossociais secundários à ampliação do leque de distribuição de renda pode afetar a saúde e a vida social (Power, Manor & Fox, 1991).
FIGURA 10 - Problemas comportamentais na idade de 10 anos:
classe social. Grã-Bretanha -1980
Fonte: Dados da coorte de nascimentos na Grã-Bretanha em
1970 em A. Osborn, apud Woodroffe et al. (1993).
A sugestão de que fatores psicossociais representam o elo entre distribuição de renda e mortalidade encontra apoio nas causas de morte mais diretamente envolvidas. Uma vez desagregada a relação entre distribuição de renda e expectativa de vida nos países desenvolvidos quanto às causas distintas de morte, encontramos que, embora as infecções e as mortes secundárias a doenças cardiovasculares também estejam implicadas, as correlações mais fortes são as concernentes às doenças crônicas do fígado e à cirrose, bem como aos acidentes e lesões externas. Mortes secundárias a essas causas podem, de forma plausível, ser vinculadas ao estresse psicossocial e aos padrões de comportamento social.
A idéia de que as diferenças de renda devam ser reduzidas é muitas vezes contestada, alegando-se que isto reduziria as taxas de crescimento econômico. Mas a visão que temos de uma escolha entre crescimento e eqüidade encontra pouco apoio nas evidências estatísticas recentes. Tanto os dados de estudos seccionais como de estudos que envolvem séries temporais indicam que a maior eqüidade na distribuição de renda está associada a crescimento econômico mais rápido e não mais lento (Persson et al., 1994). Os oito países asiáticos de crescimento econômico mais acelerado reduziram suas diferenças de renda entre 1960 e 1980 (Birdsall et al., 1994). O crescimento do investimento e da produtividade tende a ser mais alto em países onde as diferenças de renda são menores (Alesina & Perotti, 1993; Glyn & Miliband, 1994).
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* Tradução: Francisco Inácio Bastos & Cecília A. Coutinho