Equidade e saúde: contribuições da epidemiologia

Rita Barradas Barata · Capítulo 14 de 16

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Equidade e saúde: contribuições da epidemiologia

Parte V - Heterogeneidade de raça e gênero em epidemiologia

Parte V - Heterogeneidade de raça e

gênero em epidemiologia

 

12 - Raça: aspecto esquecido da

iniqüidade em saúde no Brasil?

 

Estela M. G. de Pinto da Cunha

 

Introdução

Se, por definição, entendemos que eqüidade significa: disposição de reconhecer igualmente o direito de cada um; ou, igualdade, retidão, equanimidade, pode-se afirmar que o padrão de desenvolvimento dos países chamados do terceiro mundo ou em desenvolvimento não pode ser caracterizado como modelo que se adapte a uma das definições aqui mencionadas.

Evidencia-se o não reconhecimento dos direitos básicos dos cidadãos, fato que se expressa em desigualdade extrema entre países, regiões e, marcadamente, entre grupos sociais, no que se refere à qualidade de vida. Para demonstrar tal quadro, basta analisar alguns dos indicadores utilizados usualmente, o que nos permitiria configurar um panorama geral das desigualdades nos padrões de renda, no acesso e qualidade dos sistemas educativo formal, serviços básicos - como água potável e esgoto -, habitação, saúde etc.

A título de exemplo, podemos comentar alguns dados da PNAD 1990, que permitem constatar as desigualdades mencionadas anteriormente, consoante a situação de domicílio declarada pela população. Assim, 73% dos domicílios particulares permanentes no Brasil contam com sistema de abastecimento de água pela rede pública, percentagem que desce a 16% quando esses domicílios situam-se na área rural.

Quando analisamos os dados do sistema de iluminação, vemos que 88% do total dos domicílios contam com o referido sistema, caindo esse índice para 55% na área rural.

Outra desigualdade se apresenta quando são analisadas as possibilidades de incorporação no sistema formal educativo, já que do total da população de dez anos ou mais residentes no país, a taxa de analfabetismo era de 18,2%, correspondendo a 12,7% para residentes urbanos e 35,3% para os rurais.

Basta salientar alguns poucos indicadores para que se evidenciem também as diferenças nas condições de vida da população segundo a região em que residam. Para marcar as situações extremas pode-se salientar que 99% do total de municípios da região Sudeste têm serviços de distribuição de água por rede, e 91 % deles contam com rede coletora de esgoto. Já na região Norte, essas percentages passam a 87% e apenas 8,4%, respectivamente.

Pelo exposto até o momento, constata-se que existem bibliografia e dados de fontes primárias e secundárias suficientes para traçar um panorama das marcadas diferenças nas condições materiais de vida, que se refletem nas condições gerais de existência da população brasileira, conforme o lugar de residência e a posição sócio-econômica a que pertencem.

Entretanto, a falta de eqüidade determinada pela raça é tema pouco explorado na literatura da área da Saúde até o momento. Diante de tal realidade, este trabalho tem como finalidade pesquisar a existência de desigualdades no que se refere às condições de viver e de morrer das pessoas de acordo com a raça.

Com a aplicação de técnicas indiretas nos dados dos censos demográficos de 1960 e 1980 - única fonte disponível que permite a estimativa dos níveis e tendências da mortalidade infantil e mortalidade adulta feminina consoante a cor declarada - serão mapeados os diferenciais encontrados para o Brasil e grandes regiões no comportamento destas duas variáveis.

 

Características da população segundo a cor

declarada

Neste trabalho considerar-se-ão as subpopulações autoclassificadas como brancas, pardas e pretas separadamente, sendo que o somatório das pardas e das pretas foi chamado de 'negra'. Esta decisão operacional foi tomada para que, juntas, pudessem representar a população afro-brasileira. Segundo os dados oficiais mais atualizados da população classificada de acordo com a cor, a autodeclarada branca representa 56% da população total do País, enquanto a população parda, 39% e a preta 5%.

Os dados apresentados na Tabela 1 permitem constatar certa heterogeneidade na distribuição da população conforme cor e local de residência, agrupados em grandes regiões. Assim, observa-se que, do total da população residente na região Norte, 73% se autodeclaram negra e 27%, branca, fato que a caracteriza como a região com maior concentração de negros do País. O caso extremo está representado pela região Sul, onde as percentagens encontradas são de 17% e 83%, respectivamente. A situação fica mais equilibrada na distribuição de residentes consoante a raça na região Centro-Oeste.

Tabela 1 - Distribuição percentual da população residente, por

grandes regiões, segundo a cor. Brasil - 1989

 

Fonte: IBGE. Anuário Estatístico do Brasil. AΕΒ91.

* Foi considerada população negra, para eleitos deste trabalho,

aquela autodeclarada preta mais a parda.

Ao fazer as análises dentro de cada subgrupo de cor, vemos na

Tabela 2 que a população branca concentra-se na região Sudeste com 54%, apresentando o menor valor (2%) na região Norte. Já a população autodeclarada negra reside, com maior peso relativo, na região Nordeste, concentrando 48% do total.

Tabela 2 - Distribuição percentual da população residente, por

grandes regiões, segundo a cor. Brasil -1989

 

Fonte: IBGE. Anuário Estatístico do Brasil. AEB91.

Existem inúmeros trabalhos que estudam as diferenças sócio-econômicas em conformidade com a raça. Serão dados aqui somente alguns exemplos que ilustram as condições desvantajosas em que vive a população negra.

Quando se faz comparação da inserção no mercado de trabalho segundo a cor das pessoas e, por conseguinte, o nível de renda, constata-se - na avaliação de Singer (1995) - que os homens brancos ganham em média quatro vezes mais do que as mulheres negras. Segundo Singer, o analfabetismo, a ausência de escolaridade e o trabalho infantil, definidores de pobreza, "são condicionados por atributos pessoais como gênero, cor e região de residência'".

O fato de crescer sem escola condiciona a futura inserção no mercado formal de trabalho, além de ser indicador relevante para condicionar a expectativa e qualidade de vida tanto das crianças como dos adultos. Demostrou-se empiricamente em vários trabalhos que os negros no Brasil, em comparação com os brancos, mostram desvantagens sistemáticas na mobilidade social intergeneracional e no mercado de trabalho.

Apesar de os indicadores sócio-econômicos mostrarem o desenvolvimento do País, parece que as diferenças entre raças permaneceram ou se acentuaram. Diante desta constatação, basta mencionar que, de acordo com dados da PNAD 89, do total de domicílios particulares com rede geral de abastecimento de água, 63% eram de moradores brancos e 37% de negros. Do total com poço ou nascente sem canalização interna, 69% eram de moradores negros e 31 % de brancos. Outro indicador importante diz respeito à condição de ocupação dos domicílios: 58% eram próprios para os brancos, caindo para 40%, tratando-se de donos negros.

As estatísticas sobre educação, provenientes da mesma fonte de dados, indicam que, do total de pessoas com dez anos ou mais, 38% sem instrução se autodeclaram brancos, percentagem que sobe para 62% no caso dos negros. Quando se analisa a categoria de oito anos ou mais de estudo, as diferenças acentuam-se: 75% são brancos e só 25% da população negra alcançam esse nível de instrução.

 

Mortalidade e raça

MORTALIDADE INFANTIL

Visando tornar possível a análise da mortalidade infantil referente a determinadas características da população em estudo - todas disponíveis na mesma fonte de dados, os censos demográficos -, a estimativa desta variável demográfica efetuou-se através da técnica indireta proposta por Brass (1975), variante Trussell. Para todas as análises foram utilizadas tabulações especiais, já que as publicações não ofereciam o nível de desagregação necessário.

É preciso esclarecer que, ao considerar os dados do Censo de 1960, por estes não cobrirem a totalidade dos estados como conseqüência de problemas na apuração dos mesmos, trabalhou-se com a soma dos registros disponíveis na FIBGE, ficando excluídos das análises os estados da região Norte, Maranhão, Espírito Santo, Piauí, Guanabara e Santa Catarina, fato que representa a perda de 20,4% do total de mulheres de 15 anos e mais. Para tornar comparáveis as estimativas derivadas do Censo de 1960, foram feitas duas apurações para 1980. A primeira, retirando as unidades não disponíveis em 1960 e a segunda, com a totalidade dos registros do País, quando se apresentam somente dados referentes a 1980.

Com relação ao problema da validade dos dados censitários sobre a composição racial, pode-se dizer, mesmo reconhecendo a simplificação da classificação de pessoas em quatro categorias, que o método de escolha fechada é suficientemente confiável para ser utilizado na coleta de dados (Oliveira, Porcaro & Costa, 1981).

Como se observa na Tabela 3, a mortalidade dos menores de um ano decresceu 27% nos vinte anos considerados, independentemente da cor declarada pelas mães. Segundo os dados de 1960, já existiam marcadas diferenças nos níveis dependendo da cor. Os filhos de mães brancas estavam sujeitos a uma mortalidade 41 % menor com relação à correspondente aos filhos de mulheres negras. Apesar de, entre 1960 e 1980, a categoria parda apresentar a maior redução no nível de mortalidade infantil (31%), somente em 1980 esta assume o patamar que os brancos possuíam vinte anos antes.

Tabela 3 - Mortalidade infantil (por mil), segundo a cor da mãe.

Brasil -1960-1980

 

Fonte: Tabulações especiais. Censos Demográficos de 1960 e

1980.

* Corresponde ao tolal das Unidades da Federação.

Outro fato que deve ser salientado refere-se às diferenças nos valores achados para os subgrupos preto e pardo com os dados totais de 1980, e 1980 comparável com 1960. Só neste último caso, quando não foi possível considerar dez unidades da Federação, observa-se sobremortalidade dos menores de um ano pardos, quando comparados com os pretos.

As estimativas da Tabela 3 indicam as desigualdades nas taxas de mortalidade infantil segundo a cor declarada pela mãe, assim como a persistência das desigualdades raciais nos vinte anos considerados.

Uma vez encontradas estas diferenças nos níveis de mortalidade de acordo com a raça, surge outra indagação que se planteia como hipótese. Pode-se supor que a raça negra apresenta sistematicamente os níveis mais altos de mortalidade por ser a raça que se encontra, historicamente, em situação de desvantagem nas posições sócio-econômicas. Mas, essas diferenças persistem ou desaparecem quando controlamos os condicionantes sociais e econômicos?

Foi a partir desta pergunta que foram trabalhados os dados originais, montando tabulações especiais em conformidade com características reconhecidas como condicionantes da mortalidade: nível de instrução da mãe, categoria sócioocupacional e renda média mensal do chefe da família.

Tabela 4 — Percentagem de mulheres de 15 a 49 anos, segundo

a cor e nível de instrução. Brasil - 1980

 

Fonte: Tabulações especiais. Censo Demográfico de 19°).

Utilizando a variável nível de instrução das mulheres em idade fértil, ficou evidente a desigualdade dos grupos pardo e preto quando comparados ao grupo branco, com relação às possibilidades de incorporação no sistema educativo formal. Enquanto as mulheres brancas aumentam sua participação relativa à medida que se eleva o nível de instrução, as pretas e pardas apresentam maior proporção (mais de 58%) nas categorias que não têm instrução ou que não completaram o ciclo primário. Este panorama educacional reflete-se na mortalidade dos filhos menores de um ano destas mulheres.

Com base na observação dos dados contidos na Tabela 5, destaca-se o decréscimo do nível da mortalidade infantil à medida que a mãe atinge patamares superiores de instrução, mostrando mais uma vez que esta variável é um dos condicionantes da mortalidade de seus filhos.

Tabela 5 - Mortalidade infantil (por mil), segundo declaração de

cor e instrução da mãe. Brasil -1980

 

Fonte: Tabulações especiais. Censo Demográfico de 1980.

É necessário ressaltar o comportamento da mortalidade dos filhos menores de um ano das mulheres pardas, quando comparado com o da mortalidade dos filhos de mulheres brancas. Os primeiros alcançam níveis similares aos segundos, com defasagem sistemática de uma categoria superior de instrução. Por exemplo: os pardos com 'primário incompleto' apresentam níveis próximos aos brancos 'sem instrução'; os pardos com 'primário completo' com valores parecidos aos dos brancos com 'primário incompleto' e assim sucessivamente.

O comportamento dos filhos de mulheres pretas apresentam níveis próximos, mas sempre superiores aos dos pardos, alcançando sua maior redução na passagem 'sem instrução' para 'primário completo'.

Com relação à distribuição das três subpopulações nas diferentes posições sócio-econômicas, vários estudos sobre o tema informam que, como conseqüência do processo histórico nacional desde a escravatura até o presente, a questão da mão-de-obra negra vincula-se à problemática do trabalho marginal, precário e temporário. Também se sabe das dificuldades que os negros encontram nas tentativas de superar o nível de pobreza por meio do trabalho, embora entrem no mercado muito mais precocemente que os brancos. São eles os que ocupam as posições menos qualificadas e apresentam a pior posição relativa com relação ao desemprego aberto e encoberto.

Por não poder operacionalizar o conceito de 'classe social' devido à natureza do instrumento de coleta de dados - censos demográficos-, que é somente quantitativo e não aborda aspectos qualitativos, far-se-á referência a partir de agora à posição sócio-econômica, o que permitirá distribuir a população com base na sua inserção no mercado de trabalho.

Foi operacionalizado em primeiro lugar o índice 'categoria sócio-ocupacional' considerando-se um nível de agregação maior que o proposto por Jorge Angela et al. (1984) e que utiliza três indicadores: 'posição na ocupação', Ocupação principal' e 'setor de atividade'.

As categorias são: empregador; trabalhadores em ocupações não manuais; trabalhadores em ocupações manuais urbanas; trabalhadores em ocupações manuais rurais; não economicamente ativos.

Considerou-se a família como unidade, como sede onde se efetua a distribuição da renda com a finalidade de consumir bens e serviços, seja pelos membros da família ativos, seja pelos inativos, em geral sobre a autoridade da pessoa reconhecida como chefe, independentemente do sexo.

A partir dos critérios adotados foi possível calcular a mortalidade infantil dos filhos das mães classificadas segundo a cor e a categoria sócio-ocupacional do chefe da família a que esta pertence, excluindo as que realizam tarefas domésticas e moram no mesmo domicílio que o empregador.

O comportamento dos valores contidos na Tabela 6 é o esperado de acordo com as hipóteses levantadas, dependendo do estrato sócio-econômico do chefe da família; quanto melhores forem as condições de trabalho, menor será a mortalidade dos filhos integrantes dessas famílias.

Tabela 6 — Mortalidade infantil (por mil), segundo declaração

de cor da mãe e categoria sócio-ocupacional do chefe de

família. Brasil -1980

 

Fonte: Tabulações especiais. Censo Demográfico de 1980.

As categorias com melhores condições de vida, relativas a 'empregadores' e 'trabalhadores não-manuais', experimentam os menores níveis, independentemente da cor declarada pelas mães. Em contraposição, os chefes de família catalogados como trabalhadores em ocupações manuais rurais estão sujeitos a um nível de mortalidade dos filhos 40% superior aos daqueles classificados como empregadores.

Quando se compara as subpopulações por cor, observa-se a mesma tendência mas com variações nos níveis, sendo os mais altos no caso dos negros e os menores para os filhos de mulheres brancas.

Trabalhando com o pressuposto de que a renda é o que permite a aquisição de bens e serviços básicos que condicionam a qualidade de vida da força de trabalho, analisaram-se os fatores raciais diferenciais nas condições de trabalho e seu reflexo nos níveis de renda da população economicamente ativa negra e branca.

Tabela 7 - Percentagem de mulheres de 15 a 49 anos, segundo

declaração de cor e renda média mensal do chefe de família.

Brasil -1980

 

Fonte: Tabulações especiais. Censo Demográfico de 1980.

Mais de 80% dos chefes economicamente ativos declararam receber mensalmente até cinco salários mínimos, percentagem que se eleva a mais de 90% para os pretos e pardos. Outro fato a destacar é que, do total de mulheres em idade fértil, pretas e pardas, quase 50% pertencem a famílias com chefes que ou não recebem renda ou recebem até um salário mínimo, fato que as faria viver em estado de 'absoluta pobreza'. Esta percentagem diminui para a metade quando se trata de mulheres brancas.

O caso oposto reafirma esta desigualdade: 23% das mulheres brancas pertencem a famílias com chefes que recebem mais de cinco salários mínimos, o que representa por sua vez o melhor padrão, sendo que esta percentagem é de apenas 4% entre os pretos.

A situação precária de vida da população que se insere na atividade econômica, percebendo os menores níveis de salários implicaria,

segundo a Tabela 8, uma sobremortalidade dos menores de um ano integrantes dessas famílias.

Tabela 8 - Mortalidade infantil (por mil), segundo declaração de cor das mães e renda média mensal do chefe de família. Brasil

-1980

 

Fonte: Tabulações especiais. Censo Demográfico de 1980.

* Número insuficiente de casos.

Verifica-se um diferencial na mortalidade infantil com relação ao nível de renda do chefe da família com patamares distintos, dependendo também do grupo de cor. Entre a melhor e pior condição de salário, os filhos de mulheres brancas apresentam diferença de 41 óbitos por mil, enquanto, para os negros, essa diferença é de 16 mortes de menores de um ano para cada mil nascidos vivos.

MORTALIDADE ADULTA FEMININA

Para cumprir com o objetivo de mapear os níveis da mortalidade adulta feminina, o universo considerado foi o Brasil e as grandes regiões. As tabulações especiais foram elaboradas a partir da leitura da fita de 25% do Censo Demográfico de 1980, que continha as informações de um total de pessoas de 15 a 54 anos com e sem declaração de orfandade materna por grupo qüinqüenal de idade; total de nascimentos ocorridos no ano anterior ao censo por idade da mãe,

subdividindo, por sua vez, a população segundo a declaração de cor e lugar de residência. O método aplicado foi o desenvolvido por Brass & Hill (1973).

A análise da Tabela 9 é ilustrativa dos diferenciais nos níveis da mortalidade adulta por cor nas sete probabilidades calculadas. Assim, em todos os casos, a população feminina preta apresenta sistematicamente menores probabilidades de sobrevivência do que as mulheres classificadas como brancas - que representam posição relativa mais vantajosa - e do que as pardas.

Tabela 9 - Probabilidade de as mulheres que atingem 25 anos

sobreviverem até a idade (x), segundo a cor. Brasil - 1980

 

Ponte: Tabulações especiais. Censo Demográfico de 1980.

É interessante observar que este padrão diferencial da mortalidade adulta por cor reproduz a mesma situação registrada para a mortalidade infantil: são os filhos de mães pretas os que sofrem a maior mortalidade em oposição aos de mães brancas.

Outro fato que é necessário ressaltar diz respeito aos diferenciais por cor que vão aumentando na medida cm que aumenta o tempo de exposição ao risco de morte. Na probabilidade de sobreviver entre 25 e 45 anos, a diferença entre as mulheres catalogadas como brancas e pretas - casos extremos - é de 5% passando a 7% e 11% no caso dos grupos de 25 a 50 e de 25 a 55 anos, respectivamente. A partir dessa idade continuam acentuando-se os diferenciais de maneira significativa até alcançar 25% no último grupo trabalhado, que representa a probabilidade de sobreviver entre 25 e 75 anos para a população feminina. O mesmo fenômeno observa-se, com valores percentuais menores, entre as brancas e pardas. Assim a diferença entre as probabilidades dessas duas subpopulações varia de 2% no primeiro grupo etário e 11% no último grupo considerado.

Ao se trabalhar no nível regional, poder-se-ia supor que as diferentes estruturas por raça e condições de vida da população, em cada uma das cinco regiões, deveriam implicar diferentes patamares de mortalidade adulta feminina, mantendo-se, no entanto, o quadro desvantajoso para as mulheres classificadas como negras.

Para verificar a existência de diferenças que refletissem mecanismos de discriminação sobre a qualidade de vida e, por conseguinte, acerca das condições gerais de saúde, foram

examinados os dados da Tabela 10, que expressam as probabilidades condicionais de sobrevivência.

Tabela 10 - Probabilidade de as mulheres que atingem 25 anos

sobreviverem até 65 anos, segundo a cor. Brasil e grandes

regiões -1980

 

Fonte: Tabulações especiais. Censo Demográfico de 1980.

Como foi comentado anteriormente, para o Brasil este indicador reflete um quadro discriminatório em relação à saúde feminina, já que as declaradas como brancas registram maior probabilidade de sobrevivência, 75% contra 68% das negras. No nível regional, seria de se esperar que esses valores diminuíssem nas áreas de residência que apresentassem menor grau de desenvolvimento. No Norte e Centro-Oeste esta hipótese é perfeitamente comprovada; contudo, chama a atenção o fato de que, no Nordeste, essas probabilidades alcancem valores muito próximos aos das regiões Sudeste e Sul, o que não corresponde às expectativas.

Antes de tentar entender esta aparente incoerência, dever-se-ia frisar que, como se sabe, a maior parte dos diferenciais regionais de mortalidade seriam explicados pelo comportamento desta variável nas idades extremas - velhos e, principalmente, crianças - e não nas idades centrais, ou seja, que de fato a mortalidade adulta não deveria apresentar grandes variações.

Contudo, algumas considerações poderiam ser feitas no sentido de tentar entender a quase inexistência de diferenças entre o Nordeste e as áreas mais industrializadas do País:

Como os indicadores de mortalidade foram estimados a partir

dos dados censitários, poderia existir um diferencial regional

com relação à qualidade da informação básica, o que implicaria

problemas nas estimativas, principalmente no Nordeste,

provocando, portanto, as semelhanças observadas.

Deve-se considerar que o indicador utilizado, sendo uma

probabilidade condicional de sobrevivência das mulheres a

partir de 25 anos. desconsidera a mortalidade das mulheres nas

idades mais jovens, nas quais os riscos de mortalidade materna

podem incrementar-se. Além disso, não se pode esquecer que

é na faixa de 20 a 24 anos onde, em geral, registra-se a mais

alta taxa de fecundidade, o que equivale a dizer que é neste

grupo etário em que se concentra boa parte dos nascimentos

durante o período fértil da mulher e, portanto, onde os casos de

mortalidade materna poderiam ocorrer com mais freqüência.1

Não obstante as aparentes inconsistências nos diferenciais

regionais, o mais importante é destacar os diferenciais

registrados por cor. Numa análise intra-regional, constata-se

que. sistematicamente, as mulheres classificadas como pretas

registram as menores probabilidades, e as brancas, com

valores que variam de 71 a 77%. experimentam a situação mais favorável.

No que tange ao comportamento dentro das regiões, mantém-se o mesmo quadro discriminatório com relação às mulheres negras, mas com algumas variações significativas em cada uma delas. Assim, na região Nordeste, a diferença entre as mulheres negras e brancas alcança 8%, representando o quadro de maior discriminação. Entretanto, na região Sul, essa mesma diferença entre as probabilidades atinge 3%, caracterizando a região como a de menor desigualdade das condições gerais de saúde entre as brancas e as afro-brasileiras.

 

Comentários finais

A evolução histórica dos níveis da mortalidade geral, infantil e adulta feminina, apresenta marcados progressos à medida que o Brasil alcança níveis mais altos de industrialização, urbanização, saneamento básico etc, com declínio acentuado desde 1960 até nossos dias.

Entretanto, este declínio não se percebe de forma homogênea nos grupos sociais, no tempo e no espaço, podendo identificar-se desigualdades significativas em distintos períodos e áreas geográficas. Vários trabalhos dão conta do comportamento diferencial na tendência de decréscimo, identificando períodos de altos e baixos nas distintas regiões do país.

Este trabalho traz o aporte das técnicas demográficas para acrescentar a discriminação racial neste contexto geral com relação aos diferenciais de mortalidade infantil e das mulheres segundo a declaração de cor. Apesar das dificuldades encontradas, na utilização dos procedimentos indiretos referentes aos supostos e à qualidade dos dados básicos, as técnicas de sobrevivência de filhos e de orfandade materna fornecem indicação satisfatória dos níveis de mortalidade infantil e adulta feminina.

Esta constatação, somada ao fato de que os atestados de óbitos no Brasil não registram a variável cor, justifica por si a utilização tanto da técnica como da fonte de dados como única alternativa válida para os estudos da mortalidade e da discriminação racial. Assim, obtiveram-se estimativas que constatam a sobremortalidade de filhos menores de um ano de mães negras, e de mulheres adultas negras com relação às brancas.

Observou-se, para o Brasil em seu conjunto, a posição de desvantagem relativa da população declarada como preta com relação à parda e branca quanto à incorporação no sistema educativo formal e na estrutura produtiva, dada a grande concentração desse grupo nos níveis sem instrução, em ocupações consideradas como de menor classificação da mão-de-obra -trabalhadores manuais - e, conseqüentemente, com menores rendimentos.

Para o País, observou-se redução de 27% nos níveis de mortalidade dos menores de um ano desde 1960 até 1980, mostrando diferenças importantes entre as subpopulações classificadas em conform idade com a cor declarada. Essas diferenças apresentam-se mais acentuadas em 1960, quando os filhos de mães brancas estavam sujeitos a uma mortalidade 41 % menor com relação aos filhos de mães negras.

No caso da mortalidade adulta feminina constatou-se, que as probabilidades de sobreviver das mulheres entre 25 e 75 anos, classificadas como brancas, são sistematicamente maiores do que das mulheres negras. É interessante assinalar também que esta sobremortalidade aumenta à medida que se analisam os dados através do tempo. Em menores níveis de mortalidade adulta feminina, maiores perdas são constatadas entre as mulheres negras.

As conclusões apresentadas neste primeiro mapeamento colocam vários desafios para futuras pesquisas sobre o tema. Considera-se fundamental acrescentar outros indicadores sócio-econômicos e a utilização de técnicas multivariadas de maneira a integrar os efeitos das distintas variáveis reconhecidas como condicionantes da mortalidade.

Em segundo lugar, por existir um grande vazio na literatura, é preciso estudar os perfis de mortalidade infantil e adulta feminina por causas, assim como a morbidade conforme a cor da população, com base em dados de fontes secundárias. Neste sentido, é inegável a necessidade de se estudarem mais e melhor determinadas patologias e/ou condições biológicas que estão presentes em uma raça e não em outras. Como exemplo, podem-se citar as diferentes prevalências de algumas doenças genéticas como: hipertensão arterial, diabete melito, anemia falciforme, albinismo (forma tirosinase-positiva), deficiência de lactase e malformações congênitas etc.

 

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1 Note-se que aqui não se está referindo a intensidade de mortes maternas, que tende a ser maior nas mulheres bem mais jovens e muito mais velhas, em idade fértil. Contudo, ao não considerar este grupo etário (20 a 24 anos), no qual a fecundidade se concentra com maior intensidade, pode-se deixar de captar os diferenciais de mortalidade materna (e. portanto, adulta) entre regiões, simplesmente porque grande parte das mulheres que estariam tendo filhos - logo. correndo riscos - foram ignoradas.