Gilberto Bem Perto
Capitulo 8: No ministério da cultura “O povo sabe o que quer Mas o povo também quer o que não sabe”
“É muito difícil você se ver a partir do lado de fora, porque cada um é inteiramente embutido em si mesmo.
Difícil uma autodefinição. Quando eu digo em ‘Aquele abraço’ que quem sabe de mim sou eu, isso é uma
ilusão, porque quem sabe de mim, no fundo não sou eu. Eu posso ter uma certa noção de mim mesmo a
partir da dimensão meditativa do sentimento, das autorreferências, da noção possível de individualidade.
Agora, do ponto de vista da ação no mundo quem julga, quem avalia, quem mede é o próprio mundo que
diz: ‘Você fez isso’. Às vezes me vejo como uma pessoa relativamente ingênua, relativamente desprovida de
instrumentos para a coisa da autovaloração, do estabelecimento de saber que valor eu tenho. O mundo me
dá um feedback relativo. No meu caso as pessoas me estabelecem um certo lugar que eu ocupo. Me
atribuem um valor relativo, uma relação entre eu e os outros, dizem que eu tenho tal peso, tal dimensão, tal
importância. É o indivíduo histórico. Eu, Gilberto Gil, na história do Brasil, na história do mundo que está ao
nosso alcance, que hoje em dia é o mundo inteiro. As pessoas que produzem alguma coisa dita relevante,
produzem tudo isso no campo universal. Desse modo, todo mundo que faz alguma coisa que tem algum
peso deixou de ser local. No meu caso, por exemplo, a vida cultural, a atividade política, tudo isso tem
dimensão mundial, internacional, tem um valor na Europa, nos EUA, na África, na América do Sul, o que
aumenta ainda mais a dificuldade de autoavaliação. Eu sou tão do mundo que não sei mesmo o que sou
de mim.”
Foto de Ricardo Stuckert. Presidente Lula, dona Marisa e Gilberto Gil durante visita à mostra Tropicália, em
Londres. Março de 2006.
NO MINISTÉRIO DA CULTURA
“O povo sabe o que quer
Mas o povo também quer o que não sabe”
“Rep”
A carreira ia de vento em popa quando Gil recebeu um telefonema do recém-eleito presidente
Lula, em dezembro de 2002, que daria uma guinada radical em sua vida. Havia sido um mês
de muito palco. Gil voltara ao Teatro João Caetano para lançar Kaya N’Gan Daya ao vivo, o
LP em que canta as canções de Bob Marley, com o mesmo repertório do disco gravado em
Kingston, na Jamaica, em novembro de 2001. Os Doces Bárbaros voltaram a se reunir também
em dezembro e Gil acabara de fazer duas apresentações com o grupo — uma no Ibirapuera e
outra, no dia seguinte, na praia de Copacabana — para celebrar o reencontro.
Enquanto isso, o presidente Lula formava seu ministério. Os amigos de Gil em Salvador
— João Santana, Roberto Pinho — sugeriram ao futuro ministro Antonio Palocci o nome de
Gil para o Ministério da Cultura. E Lula gostou da sugestão. Gil não sabia o que fazer. A ideia
não era de todo ruim, mas teria que enfrentar muitos desafios e fazer sacrifícios. O salário de
ministro era muito menor do que aquilo que ganhava fazendo shows. E teria que interromper
ou, pelo menos, reduzir, suas apresentações. Viajou para Brasília no dia seguinte sem saber ao
certo o que diria ao presidente, que o esperava no hotel Blue Tree, na beira do lago Paranoá,
onde o governo eleito se reunia antes da posse. Gil desembarcou com a indumentária de
artista: calça, camiseta regata e camisa de linho por cima da camiseta, tudo branco.
O amigo João Santana, de Salvador, mandou um recado: “Diga ao Gil que nada de
‘sincerismos’, nada de dizer que o salário não dá etc.” Com Lula, o artista falou sobre patrimônio material e imaterial, sobre a preservação de Ouro Preto, sobre o fortalecimento do
Iphan... Saiu da reunião já como ministro nomeado. Gil recebeu uma única orientação do
presidente: democratizar a cultura. E um conselho: “Faça no ministério como você faz quando
está no palco”. No dia seguinte, na foto oficial dos ministros, todos estavam de terno escuro.
Gil, todo de branco.
O novo ministro da cultura tomou posse com um discurso incisivo, em que desenvolveu o
conceito de cultura para além do “âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas, ou
dos ritos e da liturgia de uma suposta ‘classe artística e intelectual’”. Anunciou que as ações
do seu ministério deveriam ser entendidas como “exercícios de antropologia aplicada, um do-
in antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou
adormecidos, do corpo cultural do país”. Porque, disse ele, “a cultura brasileira não pode ser
pensada fora desse jogo, dessa dialética permanente entre a tradição e a invenção, numa
encruzilhada de matrizes milenares e informações e tecnologias de ponta”.
No fim, definiu sua concepção de cultura:
“Tudo aquilo que, no uso de qualquer coisa, se manifesta para além do mero valor de uso. Cultura como
aquilo que, em cada objeto que produzimos, transcende o meramente técnico. Cultura como usina de
símbolos de um povo. Cultura como conjunto de signos de cada comunidade e de toda a nação. Cultura
como o sentido de nossos atos, a soma de nossos gestos, o senso de nossos jeitos”.
Tomada a decisão de participar do governo, Gil tratou de fazer algumas modificações no
seu estilo de vida. A primeira mudança aconteceu no guarda-roupa. Passou a se vestir
impecavelmente, com ternos bem-cortados, de grifes badaladas como a Armani. Sapato
italiano, bico fino. Gravatas com estilo no corte, no tecido e no design, algumas estampas
feitas especialmente para ele, como as da artista plástica Maria Bonomi, que as enviava de
São Paulo. Apesar da elegância na vestimenta, Gil não dispensou a bolsinha a tiracolo no
melhor estilo hippie dos anos 1970. Dentro dela carregava sempre seus víveres: um saco de
castanhas, uvas-passas e ameixas para enganar a fome quando ela surgisse e não se desviar
tanto da sua alimentação frugal.
Outra transformação em seu estilo de vida foi a mudança radical nos horários: de artista
que virava a noite compondo ou tocando e acordava quando o Sol já ia alto para uma rotina de
executivo. Pulava da cama às sete da manhã, fazia seus exercícios de alongamento e a sua
ioga, tomava um bom café da manhã e, às oito, já estava pronto para o batente. Essa rotina se
repetia onde quer que estivesse: Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e mesmo nos hotéis de
todos os lugares por onde andou. Gil viajou muito pelo Brasil quando era ministro. Passava
sempre quatro ou cinco dias por semana visitando cidades e lugarejos. Da festa de Parintins, na Amazônia, ou da casa na árvore de Frans Krajcberg, no Sul da Bahia, ao rodeio de
Barretos, em São Paulo, o ministro Gil fez muitas viagens fora do padrão do cargo que
ocupava.
Passou também a dormir cedo e nunca se queixou da mudança de hábitos. Gostava de
chegar pontualmente nos compromissos, antes de qualquer outra autoridade. E deixava
assessores e funcionários para trás se não estivessem no local no horário marcado. Certa vez,
numa visita ao Caminho Niemeyer, em Niterói, como o prefeito estava atrasado, saiu visitando
o espaço por conta própria.
O jornalista Luis Turiba, assessor de comunicação de Gil entre 2003 e 2005, acredita que
a singularidade de Gil estava na maneira como utilizava a música como linguagem política.
“Ele nunca abandonava seu violão, embora tivesse interrompido sua carreira de músico naquele momento.
O violão estava sempre presente e, geralmente, era eu quem carregava. Uma vez, no aeroporto, em uma de
suas viagens, alguém passou e, apontando para o violão, disse: ‘Aí, ministro, carregando sua caneta,
hein?’”
Gil transmitia muitas vezes suas mensagens através da música. Cantou na posse do seu
secretariado, cantou no Palácio do Planalto, nas visitas ao Chile, à Argentina, cantou na ONU,
com Kofi Annan tocando tambor, cantou “Super-Homem – a canção” em um encontro com
mulheres.
“Acostumado a lidar com seus fãs, Gil tratava cada brasileiro que o procurasse como se fosse único e
merecesse dele toda a atenção. Era comum chegar a um evento e ele dar mais de dez autógrafos ou posar
para mais de vinte fotos. Uma vez, no aeroporto de Porto Alegre, contei mais de vinte apertos de mão”,
conta Turiba. “Para fazer o chamado do-in antropológico, Gil botou o pé na estrada, massageando os
pontos adormecidos da cultura brasileira. No dia seguinte à posse, já estava no morro da Mangueira,
visitando o Centro Cultural Cartola e depois no Império Serrano. E recebia presentes onde quer que fosse.
Quando visitava o interior, pequenas cidades, ganhava de presente até galinha.”
Apostava sempre na diplomacia e conversava fluentemente em inglês, francês e espanhol.
Deu muita importância aos fóruns internacionais, sobretudo os latino-americanos e os
africanos. Transformou-se em conselheiro informal da ONU. No ministério, organizou um
sistema nacional para a comunicação entre federação, estados e municípios no campo cultural
e criou um plano de desenvolvimento de dez anos para a cultura. Criou também os Pontos de
Cultura, um dos grandes marcos da sua gestão. O ministro Gil devolveu a autonomia a
instituições como Iphan, Funarte, Biblioteca Nacional e Fundação Palmares, e garantiu a
possibilidade de elas desenvolverem suas próprias ações. Ao mesmo tempo que lançava uma
política nacional para integrar os museus públicos e privados do país, empenhava-se junto ao
Congresso para ampliar os recursos da cultura.
Uma das grandes questões de seu período como ministro foi a rediscussão da legislação
que controla o investimento privado na cultura por meio da renúncia fiscal. Discussão que não
conseguiu terminar, mas que, para Gil, tem solução simples. Na entrevista que deu ao
jornalista Fábio Rodrigues para a revista Expressions, em 2009, afirmou:
“Cabe ao Estado enquadrar, digamos assim, às políticas públicas os projetos que sejam financiados com
recursos do Estado. Se a empresa quer investir por conta dela, ela faz o que quiser. Se ela vai investir
através da renúncia fiscal, ela deverá, a princípio, se enquadrar às políticas públicas. Deve haver uma
sincronia entre o recurso privado e a política pública porque, neste caso, o recurso privado já é público, é
recurso de imposto, ele já deveria estar no cofre público e está retornando ao empreendedor através da
renúncia fiscal. Isso para mim é claro. Qual é a grande grita? A grita é que, adotada essa direção, a
empresa vai perder o direito de fazer com recurso público a política privada. Ela não quer estar obrigada a
fazer a política pública, mas o Estado que renuncia àqueles recursos tem o direito de cobrar que se faça a
política pública, porque é a sua tarefa. O Estado trabalha através de políticas públicas, senão não é o
Estado”.
Gil abriu o diálogo do Brasil às agendas contemporâneas internacionais de cultura, como
a discussão da questão digital, da propriedade intelectual, da economia da cultura e economia
criativa e da diversidade cultural, e durante sua gestão se inseriu nos debates de forma a
exercer liderança sobre esses assuntos. Nos fóruns internacionais na América Latina, na
África, na Europa e nos EUA era comum que os outros países participantes quisessem ouvir o
que o MinC tinha a dizer.
Um dos exemplos da força do MinC na era Gil foi a participação do Brasil na Convenção
da Diversidade Cultural da UNESCO, em 2007, em que o governo brasileiro lutou e conseguiu
a aprovação do acordo para a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais.
O ministro-cantor foi grande articulador na convenção e teve papel decisivo na sua
aprovação. Ele conseguiu que a posição brasileira cativasse países que estavam reticentes.
Antes do encontro, fez uma série de visitas a países da Ásia, África e América Latina para
engajar os ministros de Cultura nesse processo. O Itamaraty formulou a política e Gil negociou
no plenário. Ele usou todo seu capital simbólico. Só dois países votaram contra a resolução
— Israel e EUA — e houve apenas quatro abstenções. Entre os benefícios que a aprovação da
convenção traz aos países signatários está a garantia do poder soberano do Estado na adoção
de políticas culturais e a proteção às expressões culturais vulneráveis e ameaçadas.
“Nunca um ministério experimentou um crescimento tão expressivo, ainda que insuficiente,
dos seus recursos. Nunca houve um ministro da Cultura com um capital simbólico dessa
amplitude”, afirmou o professor da UFBA Paulo Miguez, assessor especial do ministro Gil e
secretário de políticas culturais do MinC de 2003 a 2005. Miguez acha que uma das coisas
mais importantes no seu ministério foi Gil ter percebido a necessidade de criar políticas culturais estruturantes. Uma delas foi a realização de um estudo sobre os indicadores do
campo da cultura. O ministro Gil se empenhou em levantar dados sobre a produção cultural
brasileira e informações sobre a cultura dos municípios brasileiros. “Hoje o ministério tem
dados técnicos graças a Gilberto Gil. O acordo assinado com o IBGE foi fundamental para a
vida cultural do país”, afirma Miguez.
Pontos de Cultura
Os Pontos de Cultura eram o carro-chefe da gestão de Gil. A ideia do projeto era aproveitar, e não
construir, espaços que já funcionavam com atividades culturais — fosse um barco no Amazonas, um
terreiro de candomblé na Bahia, uma seção comunitária paulista, um centro cultural ou a garagem de
alguma casa — e ampliar seu potencial de incentivar a produção cultural local. Quando o convênio foi
firmado, cada Ponto de Cultura recebia um valor em torno de R$ 180 mil reais em cinco parcelas. O
incentivo recebido na primeira parcela deveria ser destinado à compra de equipamento multimídia
(usando software livre oferecido pela coordenação), composto por microcomputador, miniestúdio de
gravação de CDs, câmera digital e ilha de edição.
Para o professor da UFBA,
“o genial em Gil é que, ao invés de pensar em democratizar a cultura e que é preciso dar acesso às pessoas
a essa cultura — o que é uma compreensão autoritária, típica nossa, de intelectuais de classe média — ele
pensou no conceito de democracia da cultura. Ou seja, na democracia da cultura, todos têm direito de
produzir, criar, usufruir e fruir”.
Na opinião de Miguez, Gil no ministério foi um momento de reinvenção das políticas
culturais no Brasil, criadas em 1935 por Mário de Andrade, fundador do Departamento
Municipal de Cultura de São Paulo, “que conseguiu pensar uma trama de política cultural do
ponto de vista nacional, com suas viagens etnográficas e suas ideias de patrimônio imaterial”.
Os dois primeiros anos, afirma ele, foram densos em novidade.
“Gil recuperou algo que estava presente em Mário de Andrade e, nos anos 1980, em Aloísio Magalhães. Ele
recuperou o conceito ampliado de cultura. No seu discurso de posse há uma frase definitiva: ‘Todo gesto
de um brasileiro é um gesto de cultura, portanto interessa ao ministério’. Ou seja, ele compreendeu que a
cultura está para além dos ritos da academia, da oficina, do ateliê, dos ritos artísticos e intelectuais. Os
gestos humanos são fundamentalmente gestos de cultura. O ministro partiu disso para articular a ideia de
cultura, a questão da cidadania e conseguiu compreender, contemporaneamente, que a cultura produziu
uma dinâmica econômica importante e que o ministério tinha que dar conta disso. Reinventou porque
atualizou a questão das políticas culturais em relação aos grandes desafios, como a tecnologia. Portanto,
essa investida forte na questão dos marcos regulatórios da propriedade intelectual e sua compreensão do
deixe fazer cultural amplo que está na criação dos Pontos de Cultura, um projeto engendrado logo no
primeiro momento, foram fundamentais.”
A ideia dos Pontos de Cultura era selecionar iniciativas ou projetos já existentes que
funcionassem em áreas de vulnerabilidade social há pelo menos dois anos. Os selecionados
ganhavam um valor pequeno durante três anos e, com a primeira parcela, tinham que comprar
equipamentos digitais. Para Eliane Costa, autora do livro Jangada digital (sobre o período de
Gil no ministério) e que na época era gerente de patrocínio cultural da Petrobras, empresa que
apoiou o projeto, tratava-se de “uma ideia singela”.
“É um projeto sociocultural realizado em lugares onde as pessoas não têm voz cultural — favelas,
quilombos, comunidades indígenas, periferia de pequenos e grandes municípios — e em que todos tinham
que ter estúdio com microcomputadores e equipamento de edição de áudio e vídeo. Gil sempre disse que
o público do Ministério da Cultura é o povo brasileiro e defendia que os direitos culturais incluem não
apenas o direito de ter acesso à cultura, mas também de produzir cultura e participar da vida cultural do
país, sem discriminação.”
Como ministro, na aldeia Bororo, no Sudoeste do Mato Grosso, em 2003.
Com Fernando Collor de Mello.
Com a presidente Dilma Rousseff.
Com Eduardo Suplicy e Francisco Weffort.
Com Lula e José Sarney.
Com Torquato Neto e Nana Caymmi, na Passeata dos Cem Mil.
Passeata dos Cem Mil.
Liderando o movimento ecológico OndAzul.
Posse como vereador em Salvador, em 1989.
Com Oscar Niemeyer e Lula.
Com Nathalia Timberg, Carlos Nuzman, Orlando Silva, Lula, Amir Haddad e Ney Latorraca.
Tocando com Kofi Annan, na ONU, em 2003.
Com Muhammad Ali, Kofi Annan e Michael Douglas, entre outros, na ONU.
Posse do primeiro ministério de Lula, em 2003.
Com o poeta Manoel de Barros.
Com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
Com Bill Clinton e George Bush.
Sua atuação no governo também criou polêmicas. A questão dos direitos autorais, por
exemplo, foi um embate. Gil defendia que a rigidez dos sistemas legais antigos não servia
mais, que se exigiam novas formas de relação, novas formas de direito. Defendia que outro
tipo de licenciamento fosse pelo menos considerado. Ele disse ao jornalista Fábio Rodrigues,
um ano depois de deixar o ministério:
“É preciso considerar todas as posições antes de sair por aí dizendo: ‘Não, isso aqui é ilegal, é pirata,
vamos interditar esse acesso, essa possibilidade de inovação no campo dos usos’. Daí essa questão toda:
como remunerar os autores, mas, ao mesmo tempo, garantir o acesso público às obras? A Creative
Commons, que é exatamente uma licenciadora, veio nesse sentido, que é dar ao autor a liberdade de
escolher que tipo de uso ele quer estabelecer, admitir, para sua obra. E vai de todos os direitos reservados
a todos os direitos liberados. E é o autor quem decide isso”.
O apoio de Gil à Creative Commons, uma licenciadora alternativa que funciona na
internet, provocou críticas duras de outros autores. O compositor mineiro Fernando Brant,
parceiro de Milton Nascimento em “Travessia” e coautor de inúmeras outras canções chegou
a escrever que a
“cultura se faz com criadores, sejam indivíduos ou uma coletividade. E o direito autoral é uma conquista da
civilização. Vem dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. O que se opõe ao Iluminismo, que nos
deu o direito autoral, é a barbárie. E essa parece ser a meta dos que defendem a Creative Commons”.
Gil se defendia com argumentos como o que deu a Rodrigues:
“Claro que eu era ministro da Cultura do Brasil, tinha de cuidar das coisas brasileiras, mas cuidar das coisas
brasileiras quer dizer, em várias circunstâncias, pensar no universal. Claramente me dei a tarefa de ir
encontrar onde é que o Brasil se insere no mundo e onde é que o mundo se insere no Brasil. Como é que
essa relação se estabelece, esse dinamismo entre Brasil no mundo e mundo no Brasil. Fui atrás das
grandes instituições internacionais que cuidam de cultura, que discutem cultura, que discutem a regulação,
que discutem o avanço da legislação que desemboca nas questões culturais, todas essas grandes
questões para além do dia a dia, do feijão com arroz de gerir as artes, de cuidar do patrimônio brasileiro. Aí,
também se manifestou essa preferência pelo universal em relação ao particular”.
O dia em que Gil fez a ONU dançar
Um dos acontecimentos mais extraordinários da passagem de Gilberto Gil pelo Ministério da Cultura
ocorreu durante o show que fez, a convite do secretário-geral da época, Kofi Annan, no solene hall da
Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, em 2003, quando botou o secretário-geral para
tocar tambor. O evento era uma homenagem aos mortos no atentado à sede da ONU no Iraque, entre
eles o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello. No final do show, quebrando o protocolo, Gil chamou
Annan ao palco, se emocionou ao abraçá-lo e pediu que ele se dirigisse às congas, instrumentos que o
esperavam no palco. Annan começou a batucá-las e Gil atacou de “Toda menina baiana”. Nesse
momento, todos começaram a dançar.
Show de ministro
A carreira musical, embora adormecida a maior parte do tempo em que esteve no ministério,
não foi de todo abandonada. Em julho de 2003, Gil pediu licença de um mês e fez uma turnê
pela Europa, dividindo o palco com Maria Bethânia. Em julho do ano seguinte também viajou
com shows pela Europa. Em 2004, depois do intervalo de quase três anos sem gravar, desde
que assumira o cargo no ministério, lançou o CD e DVD Eletracústico, resultado do concerto
que realizou na sede da ONU, em memória das vítimas do atentado ao escritório da ONU em
Bagdá. Com um repertório de sucessos nos anos 1960, o DVD veio para matar as saudades do
público e, como ele mesmo disse na época, é um “trabalho fortemente marcado pelo diálogo
entre percussão acústica (surdo, pandeiro, timbau, berimbau) e percussão eletrônica (máquina
de ritmo, samplers, osciladores)”.
Nesse mesmo ano da gravação do DVD, Gil teve mais uma alegria com a chegada do neto
Bento, nascido no Rio de Janeiro, filho de Bem. Quatro anos mais tarde, foi a vez da filha
Isabela lhe dar uma neta. Flor nasceu em Nova York, onde Isabela vivia.
Em 2006, Gil lançou o disco Gil Luminoso — voz e violão, considerado por Caetano um
dos seus melhores. O disco havia sido gravado em 1999 para ser encartado no livro
GiLuminoso — A Po.Ética do Ser, de Bené Fonteles, mas foi lançado pela gravadora Biscoito
Fino. Nele se destaca uma etapa importante na trajetória do artista. A turnê do disco, que
passou pela Europa e pelos EUA, é considerada uma das mais belas de sua carreira.
Dois anos antes do lançamento do disco, Gil participou do debate sobre a Creative
Commons, no Fórum Internacional de Software Livre, em Porto Alegre, apresentando o show
Liberdade digital, como parte da sua campanha em prol do software livre. Com a mesma
finalidade, subiu ao palco em Nova York, em setembro, com David Byrne, para o show
Creative Commons. A militância de Gil na esfera do universo digital só crescia. No Fórum
Social Mundial de Porto Alegre, em 2005, participou ao lado do sociólogo catalão Manuel
Castells do debate Revolução digital: software livre, liberdade do conhecimento e liberdade
de expressão na sociedade da informação. Quando foi chamado de ministro hacker, Gil
declarou: “Sou hacker. Sou um ministro hacker. Sou um cantor hacker”. Na sua música “Banda
larga cordel” ele deixou claro: “Quem não vem no cordel da banda larga/ Vai viver sem saber
que mundo é o seu”. E arrematava: “Banda larga mais democratizada ou então não adianta nada. Os problemas não terão solução”.
Os prêmios pelo trabalho musical também não deixaram de chegar, e foram muitos. Em
1999, Quanta ganhou o Grammy de melhor disco de world music. Em 2004, Gil recebeu o
prêmio de personalidade do ano no Grammy Latino, em Miami. O sucesso internacional
também deu a Eletracústico o Grammy de melhor world music contemporânea, em 2005. Já
Fé na festa, em 2010, ganhou o Grammy Latino de melhor álbum de música de raízes
brasileiras.
Gil tinha se comprometido com ele mesmo a ficar no governo durante apenas um mandato
do presidente Lula, mas o presidente pediu que continuasse mais um pouco, apesar de entender
que o artista queria voltar plenamente à sua atividade principal. Gil ficou mais dois anos.
Flora explica o que se passa no interior de Gil que o deixa tão inquieto:
“Ele é canceriano. Seu estado de espírito é da Lua. Às vezes está mais eufórico, às vezes mais quieto,
outras mais criativo, querendo fazer coisas, outras fala: ‘Ai não, vou ficar vendo televisão e cochilando’.
Depende muito da fase. Ele não é um eletrocardiograma uniforme. Gosta de ficar sozinho mas também
com muita gente. No Carnaval da Bahia adora conversar com todo mundo. Em Brasília ele ficava feliz
falando com todos. Com o tempo, aquilo passa e volta a ser ostra, quieto, que, acho, é o que mais gosta”.
Flora conta que em Brasília Gil parecia “pinto no lixo”.
“Saía às sete da manhã, terno, gravata, pegava o avião, ia trabalhar. De noite ia dormir para acordar cedo
porque ia pra não sei onde, inaugurar alguma coisa em algum canto do Brasil, com aquela pasta, aqueles
papéis. Adorava. Depois foi cansando e um belo dia disse: ‘Não quero mais’. Foi achando aquilo meio
pesado. Ele gosta muito do Lula e um dos motivos dele ter ficado mais meio-mandato foi por causa do
pedido do presidente.”
Dois meses depois de lançar pela internet seu disco Banda larga cordel (em que ele
procura uma aproximação diferente, sem se preocupar com a ordem das músicas ou um
excesso de produção), Gil pediu demissão do ministério. Era julho de 2008.
Em artigo intitulado “Eu tenho um sonho”, escrito para o jornal alemão Die Zeit,
publicado em 28 de julho de 2005, Gil fez a síntese do artista e do político que já vivia no seu
dia a dia:
“No campo de batalha da política, o poeta não se encontra em melhor ou pior situação do que os outros. A
poesia tem seu próprio domínio. Mas eu gosto quando as duas esferas se misturam. É como o pêndulo
entre dois polos. Assegura um movimento contínuo. Fazer política poeticamente e poetar politicamente —
os pensamentos e sentimentos de ambos os lados ganham com isso. Não se deve negar aos políticos o
seu lado poético. Políticos podem ser poetas e vice-versa”.
DISCURSO DE POSSE DE GIL
NO MINISTÉRIO DA CULTURA,
EM 2003
“A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva foi a mais eloquente manifestação da nação brasileira pela necessidade e
pela urgência da mudança. Não por uma mudança superficial ou meramente tática no xadrez de nossas possibilidades
nacionais. Mas por uma mudança estratégica e essencial, que mergulhe fundo no corpo e no espírito do país. O
ministro da Cultura entende assim o recado enviado pelos brasileiros, através da consagração popular do nome de um
trabalhador, do nome de um brasileiro profundo, simples e direto, de um brasileiro identificado por cada um de nós
como um seu igual, como um companheiro.
É também nesse horizonte que entendo o desejo do presidente Lula de que eu assuma o Ministério da Cultura.
Escolha prática, mas também simbólica, de um homem do povo como ele. De um homem que se engajou num sonho
geracional de transformação do país, de um negro mestiço empenhado nas movimentações de sua gente, de um artista
que nasceu dos solos mais generosos de nossa cultura popular e que, como o seu povo, jamais abriu mão da aventura,
do fascínio e do desafio do novo. E é por isso mesmo que assumo, como uma das minhas tarefas centrais, aqui, tirar o
Ministério da Cultura da distância em que ele se encontra, hoje, do dia a dia dos brasileiros.
Que quero o ministério presente em todos os cantos e recantos de nosso país. Que quero que esta aqui seja a casa
de todos os que pensam e fazem o Brasil. Que seja, realmente, a casa da cultura brasileira.
E o que entendo por cultura vai muito além do âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas, ou dos ritos
e da liturgia de uma suposta ‘classe artística e intelectual’. Cultura, como alguém já disse, não é apenas ‘uma espécie
de ignorância que distingue os estudiosos’. Nem somente o que se produz no âmbito das formas canonizadas pelos
códigos ocidentais, com as suas hierarquias suspeitas. Do mesmo modo, ninguém aqui vai me ouvir pronunciar a
palavra ‘folclore’. Os vínculos entre o conceito erudito de ‘folclore’ e a discriminação cultural são mais do que
estreitos. São íntimos. ‘Folclore’ é tudo aquilo que não se enquadrando, por sua antiguidade, no panorama da cultura
de massa é produzido por gente inculta, por ‘primitivos contemporâneos’, como uma espécie de enclave simbólico,
historicamente atrasado, no mundo atual. Os ensinamentos de Lina Bo Bardi me preveniram definitivamente contra
essa armadilha. Não existe ‘folclore’, o que existe é cultura.
Cultura como tudo aquilo que, no uso de qualquer coisa, se manifesta para além do mero valor de uso. Cultura
como aquilo que, em cada objeto que produzimos, transcende o meramente técnico. Cultura como usina de símbolos de
um povo. Cultura como conjunto de signos de cada comunidade e de toda a nação. Cultura como o sentido de nossos
atos, a soma de nossos gestos, o senso de nossos jeitos.
Desta perspectiva, as ações do Ministério da Cultura deverão ser entendidas como exercícios de antropologia
aplicada. O ministério deve ser como uma luz que revela, no passado e no presente, as coisas e os signos que fizeram
e fazem do Brasil o Brasil. Assim, o selo da cultura, o foco da cultura, será colocado em todos os aspectos que a
revelem e expressem, para que possamos tecer o fio que os unem.
Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, criar condições de acesso universal aos bens simbólicos. Não cabe
ao Estado fazer cultura, mas, sim, proporcionar condições necessárias para a criação e a produção de bens culturais,
sejam eles artefatos ou mentefatos. Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, promover o desenvolvimento cultural
geral da sociedade. Porque o acesso à cultura é um direito básico de cidadania, assim como o direito à educação, à
saúde, à vida num meio ambiente saudável. Porque, ao investir nas condições de criação e produção, estaremos
tomando uma iniciativa de consequências imprevisíveis, mas certamente brilhantes e profundas já que a criatividade
popular brasileira, dos primeiros tempos coloniais aos dias de hoje, foi sempre muito além do que permitiam as
condições educacionais, sociais e econômicas de nossa existência. Na verdade, o Estado nunca esteve à altura do
fazer de nosso povo, nos mais variados ramos da grande árvore da criação simbólica brasileira.
É preciso ter humildade, portanto. Mas, ao mesmo tempo, o Estado não deve deixar de agir. Não deve optar pela
omissão. Não deve atirar fora de seus ombros a responsabilidade pela formulação e execução de políticas públicas,
apostando todas as suas fichas em mecanismos fiscais e assim entregando a política cultural aos ventos, aos sabores e
aos caprichos do deus-mercado. É claro que as leis e os mecanismos de incentivos fiscais são da maior importância.
Mas o mercado não é tudo. Não será nunca. Sabemos muito bem que em matéria de cultura, assim como em saúde e
educação, é preciso examinar e corrigir distorções inerentes à lógica do mercado que é sempre regida, em última
análise, pela lei do mais forte. Sabemos que é preciso, em muitos casos, ir além do imediatismo, da visão de curto
alcance, da estreiteza, das insuficiências e mesmo da ignorância dos agentes mercadológicos. Sabemos que é preciso
suprir as nossas grandes e fundamentais carências.
O ministério não pode, portanto, ser apenas uma caixa de repasse de verbas para uma clientela preferencial.
Tenho, então, de fazer a ressalva: não cabe ao Estado fazer cultura, a não ser num sentido muito específico e
inevitável. No sentido de que formular políticas públicas para a cultura é, também, produzir cultura. No sentido de que
toda política cultural faz parte da cultura política de uma sociedade e de um povo, num determinado momento de sua
existência. No sentido de que toda política cultural não pode deixar nunca de expressar aspectos essenciais da cultura
desse mesmo povo. Mas, também, no sentido de que é preciso intervir. Não segundo a cartilha do velho modelo
estatizante, mas para clarear caminhos, abrir clareiras, estimular, abrigar. Para fazer uma espécie de do-in
antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do
país. Enfim, para avivar o velho e atiçar o novo. Porque a cultura brasileira não pode ser pensada fora desse jogo,
dessa dialética permanente entre a tradição e a invenção, numa encruzilhada de matrizes milenares e informações e
tecnologias de ponta.
Logo, não se trata somente de expressar, refletir, espelhar. As políticas públicas para a cultura devem ser
encaradas, também, como intervenções, como estradas reais e vicinais, como caminhos necessários, como atalhos
urgentes. Em suma, como intervenções criativas no campo do real histórico e social. Daí que a política cultural deste
ministério, a política cultural do Governo Lula, a partir deste momento, deste instante, passa a ser vista como parte do
projeto geral de construção de uma nova hegemonia em nosso país. Como parte do projeto geral de construção de
uma nação realmente democrática, plural e tolerante. Como parte e essência de um projeto consistente e criativo de
radicalidade social. Como parte e essência da construção de um Brasil de todos.
Penso, aliás, que o presidente Lula está certo quando diz que a onda atual de violência, que ameaça destruir
valores essenciais da formação de nosso povo, não deve ser creditada automaticamente na conta da pobreza. Sempre
tivemos pobreza no Brasil, mas nunca a violência foi tanta como hoje. E esta violência vem das desigualdades sociais.
Mesmo porque sabemos que o que aumentou no Brasil, nessas últimas décadas, não foi exatamente a pobreza ou a
miséria. A pobreza até que diminuiu um pouco, como as estatísticas mostram. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil se
tornou um dos países mais desiguais do mundo. Um país que possui talvez a pior distribuição de renda de todo o
planeta. E é esse escândalo social que explica, basicamente, o caráter que a violência urbana assumiu recentemente
entre nós, subvertendo, inclusive, os antigos valores da bandidagem brasileira.
Ou o Brasil acaba com a violência, ou a violência acaba com o Brasil. O Brasil não pode continuar sendo sinônimo
de uma aventura generosa, mas sempre interrompida. Ou de uma aventura só nominalmente solidária. Não pode
continuar sendo, como dizia Oswald de Andrade, um país de escravos que teimam em ser homens livres. Temos de
completar a construção da nação. De incorporar os segmentos excluídos. De reduzir as desigualdades que nos
atormentam. Ou não teremos como recuperar a nossa dignidade interna, nem como nos afirmar plenamente no mundo.
Como sustentar a mensagem que temos a dar ao planeta, enquanto nação que se prometeu o ideal mais alto que uma
coletividade pode propor a si mesma: o ideal da convivência e da tolerância, da coexistência de seres e linguagens
múltiplos e diversos, do convívio com a diferença e mesmo com o contraditório. E o papel da cultura, nesse processo,
não é apenas tático ou estratégico, é central: o papel de contribuir objetivamente para a superação dos desníveis
sociais, mas apostando sempre na realização plena do humano.
A multiplicidade cultural brasileira é um fato. Paradoxalmente, a nossa unidade de cultura, unidade básica,
abrangente e profunda também. Em verdade, podemos mesmo dizer que a diversidade interna é, hoje, um dos nossos
traços identitários mais nítidos. É o que faz com que um habitante da favela carioca, vinculado ao samba e à
macumba, e um caboclo amazônico, cultivando carimbós e encantados, sintam-se e, de fato, sejam igualmente
brasileiros. Como bem disse Agostinho da Silva, o Brasil não é o país do isto ou aquilo, mas o país do isto e aquilo.
Somos um povo mestiço que vem criando, ao longo dos séculos, uma cultura essencialmente sincrética. Uma cultura
diversificada, plural, mas que é como um verbo conjugado por pessoas diversas, em tempos e modos distintos. Porque,
ao mesmo tempo, essa cultura é una: cultura tropical sincrética tecida ao abrigo e à luz da língua portuguesa.
E não por acaso me referi, antes, ao plano internacional. Tenho para mim que a política cultural deve permear
todo o governo, como uma espécie de argamassa de nosso novo projeto nacional. Desse modo, teremos de atuar
transversalmente, em sintonia e em sincronia com os demais ministérios. Algumas dessas parcerias se desenham de
forma quase automática, imediata, em casos como os dos ministérios da Educação, do Turismo, do Meio Ambiente, do
Trabalho, dos Esportes, da Integração Nacional. Mas nem todos se lembram logo de uma parceria lógica e natural, no
contexto que estamos vivendo e em função do projeto que temos em mãos: a parceria com o Ministério das Relações
Exteriores. Se há duas coisas que hoje atraem irresistivelmente a atenção, a inteligência e a sensibilidade
internacionais para o Brasil, uma é a Amazônia, com a sua biodiversidade e a outra é a cultura brasileira, com a sua
semiodiversidade. O Brasil aparece aqui, com as suas diásporas e as suas misturas, como um emissor de mensagens
novas, no contexto da globalização.
Juntamente com o Ministério das Relações Exteriores, temos de pensar, modelar e inserir a imagem do Brasil no
mundo. Temos de nos posicionar estrategicamente no campo magnético do Governo Lula, com a sua ênfase na
afirmação soberana do Brasil no cenário internacional. E sobretudo temos de saber que recado o Brasil enquanto
exemplo de convivência de opostos e de paciência com o diferente deve dar ao mundo, num momento em que
discursos ferozes e estandartes bélicos se ouriçam planetariamente. Sabemos que as guerras são movidas, quase
sempre, por interesses econômicos. Mas não só. Elas se desenham, também, nas esferas da intolerância e do
fanatismo. E, aqui, o Brasil tem lições a dar apesar do que querem dizer certos representantes de instituições
internacionais e seus porta-vozes internos que, a fim de tentar expiar suas culpas raciais, esforçam-se para nos
enquadrar numa moldura de hipocrisia e discórdia, compondo de nossa gente um retrato interessado e interesseiro,
capaz de convencer apenas a eles mesmos. Sim: o Brasil tem lições a dar, no campo da paz e em outros, com as suas
disposições permanentemente sincréticas e transculturativas. E não vamos abrir mão disso.
Em resumo, é com esta compreensão de nossas necessidades internas e da procura de uma nova inserção do
Brasil no mundo que o Ministério da Cultura vai atuar, dentro dos princípios, dos roteiros e das balizas do projeto de
mudança de que o presidente Lula é, hoje, a encarnação mais verdadeira e mais profunda. Aqui será o espaço da
experimentação de rumos novos. O espaço da abertura para a criatividade popular e para as novas linguagens. O
espaço da disponibilidade para a aventura e a ousadia. O espaço da memória e da invenção.
Muito obrigado.”