Gilberto Bem Perto

Gilberto Gil · Capítulo 2 de 13

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Gilberto Bem Perto

Capitulo 1: A infância no sertão “onde o fim da tarde é lilás”

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“Eu sou músico desde os dois anos de idade, desde que eu pude dizer, desde que eu pude perceber que

eu era um indivíduo junto àquela comunidade, à família, à cidade, nas viagens, quando eu saí de Ituaçu

pela primeira vez para ir a Salvador. Quando eu pude dizer qual era o meu lugar naqueles mundos todos

que se apresentavam a mim em camadas cada vez mais numerosas, eu disse à minha mãe, no primeiro

momento que eu pude, e a história famosa que ela repete até hoje: ‘Eu quero ser ‘musgueiro’!’ Eu tinha

dois anos e pouco. ‘Eu quero ser ‘musgueiro’, mãe, ‘musgueiro’ e pai de filho’. Ela ouviu e registrou, nunca

se esqueceu, tanto que aos dez anos ela disse: ‘Você ainda quer ser ‘musgueiro’?’ E eu falei: ‘Quero, mãe!’

E ela disse: ‘Então você vai para a escola, você vai estudar. O que você quer? Você quer uma sanfona?

Você gosta de Luiz Gonzaga, quer um acordeão?’ Ela estava atenta, muito atenta!”

 

Foto de Samue l Marinho. A cidade de Ituaçu.

A INFÂNCIA NO SERTÃO

 

“Onde o fim da tarde é lilás”

“A paz”

 

Ituaçu tinha apenas duas ruas. Na de cima, de terra batida, se concentrava a maior parte da

população. Lá viviam os comerciários, empregados domésticos e outros trabalhadores menos

favorecidos. Na outra, a de baixo, moravam os comerciantes e notáveis cidadãos, como os

médicos, o padre, o juiz de direito, os farmacêuticos. Uma das mais respeitadas da cidade, a

família do doutor José Gil Moreira tinha casa na rua de baixo.

Nascido em Salvador, em 26 de junho de 1942, seu primogênito Gilberto Passos Gil

Moreira ainda nem completara um mês quando deixou a rua Ismael Ribeiro, no bairro de

Tororó, nos braços da mãe, Claudina, para viver os nove anos seguintes na bucólica Ituaçu, no

interior da Bahia. Não havia luz elétrica na cidade de oitocentos e tantos habitantes, e mais

algumas centenas nos arredores, segundo registra o censo de 1950. Isso não era dificuldade

para sua mãe, que vivera até os 12 anos em Salvador numa casa sem eletricidade, vendo a

noite ser iluminada por lampião regado a óleo de baleia. Candeeiros, velas e aladins

protegiam da escuridão.

Cidade de classe média e média baixa, Ituaçu não conhecia pobreza extrema, nem riqueza

desproporcional. Território habitado originalmente pelos índios maracaiares e tapajós, ao pé

da Chapada Diamantina, o lugar chamava-se originalmente Brejo Grande. “Nesse ambiente

começamos a crescer, eu e minha irmã. Tinha quintal com pé de fruta-pão, jaqueira,

mangueira, goiabeira, abacateiro”, lembra-se Gilberto Gil da primeira infância.

Em casa, Gilberto Gil era chamado de Beto. Seus pais, Claudina Passos e José Gil Moreira, Cola e Zeca, casaram-se em 1941, em Salvador, onde viviam com suas famílias

modestas, que se esforçaram para dar a educação que os tornasse alguém na vida. Claudina

conheceu José numa festa de são João, no bairro de Santo Antônio, em Salvador, durante o

período das festas tradicionais em que se cantavam as trezenas para santo Antônio. Claudina

nunca se esqueceu do dia em que conheceu seu marido. Pouco antes de morrer, em 2012,

contou a história com saudade:

“Conheci Zeca na casa de uma colega minha, Hilda. Quando terminava a trezena, tinha piano na casa e

quem sabia tocar tocava, quem queria dançar dançava. Aí começamos a cantar e Zeca de olho em mim.

Gostou, simpatizou. Mas não me disse nada, não sabia que ele tinha gostado de mim. Quando terminou

minha licença, voltei para Palmeiral e Zeca vivia perguntando por mim. ‘Ah é professora e ensina no interior.

Ela volta nas férias do fim do ano.’ Um dia, eu estava em casa, em Salvador, de férias, e Hilda chegou com

uma cartinha em que ele fazia a declaração. Disse que tinha me apreciado muito, meus modos, meus

procedimentos e queria que nos aproximássemos. Peguei a carta e mostrei à mamãe. Ela disse: ‘É, vamos

ver, tem que experimentar’. Perguntei se podia chamá-lo para ir lá em casa e ela deixou. Ele marcou o dia e

foi. Eu gostei dele, simpatizei também. Aí continuamos a conversar, a gente vai vendo as intenções de um,

a boa vontade do outro, e vai se animando. Ele ainda ia se formar. Na formatura pediu que eu entrasse

com ele na igreja e na faculdade. Ele disse: ‘Cola, vou te dar já o anel de noivado para você entrar como

minha noiva.’ Naquele tempo era assim. Eu só entrava como noiva ou esposa. Namorada, não. Fui com

ele. Era 1939. Um ano e meio de namoro e um ano e meio de noivado. Casamos em 1941. Beto nasceu em

1942 e Dina em 1943. E ponto final”.

 

A família que criaram era composta por José, Claudina, Gilberto e Gildina, que nascera

um ano depois do irmão. Gilberto tinha recebido o nome em homenagem a um amigo de

infância do pai. Mas havia ainda outra integrante fundamental. Presente em todas as horas e

responsável pela educação dos meninos, lá estava a avó Lídia, na verdade a tia que criou

José, depois que seus pais morreram muito cedo, num curto espaço de tempo. Lídia era irmã

do pai de José e criou o sobrinho como filho. Para os pequenos Beto e Dina, a tia-avó Lídia

era verdadeiramente a avó que nunca conheceram. A casa e a tutela das crianças, em Ituaçu,

ficavam a seus cuidados para que José e Claudina pudessem trabalhar. Sua presença criativa e

afetuosa deixou marcas profundas na infância do menino.

“Minha avó cuidava do dia a dia. Aprendi a escrever, a ler, a contar, as primeiras histórias, Monteiro Lobato,

os primeiros livros. Minha mãe era a disciplinadora, no sentido de exigir atenção aos valores morais, aos

horários. A avó era mais liberal, era o afeto, a coisa lúdica”, lembra Gil.

 

Na escola Marquês de Abrantes, em Salvador, Lídia havia sido professora primária de

muito prestígio. Gente que mais tarde ocupou cargos importantes dentro e fora da Bahia

passou pelo crivo de dona Lídia. Mas, uma vez aposentada e com o “filho” José já casado,

deixou o bairro de classe média baixa onde viviam e que concentrava a força católica da

cidade, o bairro de Santo Antônio Além do Carmo — que abrigava o convento do Carmo e a Igreja de Santo Antônio —, e seguiu para Ituaçu para cuidar dos seus “netos”. Lídia

permaneceu solteira e era muito costumeiro que as mulheres solteiras se dedicassem a educar

e a criar as crianças da família. Ela era a preceptora. Beto nunca frequentou o maternal ou a

escola primária. Tudo era em casa, o mundo infantil girava em torno da avó Lídia, que foi

tutora e cuidou da educação básica.

 

Paz em meio à guerra

 

A tranquilidade da pequena cidade só era alterada pelas escancaradas, mas controladas,

rusgas entre militantes da UDN (União Democrática Nacional) e do PSD (Partido Social-

Democrático), partidos que naquela época dividiam as paixões e preferências brasileiras

como fazem hoje os times de futebol. Zeca, ou doutor Gil Moreira, médico e pai do pequeno,

escolhera ser pessedista, assim como toda a sua clientela, composta por metade da cidade. O

outro doutor, Luiz Edson de Gouveia, evidentemente, era da UDN, para não deixar

desassistida a outra metade da população, que só admitia se tratar com um udenista. Reza a

lenda que, se o doutor Gil Moreira se ausentasse em viagem, não podendo atender alguém do

PSD, o doutor Gouveia não tocava naquele doente e vice-versa. O Juvenal Vanderlei, por

exemplo, dono de uma das farmácias e de um armazém, era da UDN. O Oswaldo Conceição,

comerciante, era do PSD. Havia os correligionários dos Gil Moreira e os adversários.

Politicamente, naquele tempo, a classe média se dividia entre esses partidos.

Ituaçu só conhecia de perto esse único conflito e, mesmo assim, era um confronto pacato,

que seguia o ritmo tranquilo dos cidadãos. De longe, porém, a cidade acompanhava aflita os

capítulos perturbadores das batalhas de verdade que se desenrolavam na distante Europa. O

menino Beto nascera em tempo de guerra. Dois dias depois de seu nascimento tinha início, em

28 de junho, a Batalha de Stalingrado, conduzida pelos alemães e seus aliados contra as forças

russas, na Segunda Guerra Mundial, considerada o maior e mais sangrento conflito de toda a

história. Pouco antes, em abril, os nazistas abriam o campo de exterminação nazista Treblinka

II, na Polônia ocupada pelos alemães, e, entre julho de 1942 e outubro de 1943, mais de 850

mil pessoas foram mortas em Treblinka, sendo que cerca de oitocentas mil eram judeus.

 

Uma tarde na casa de dona Cola

Seu apartamento modesto no bairro da Graça tinha só os móveis necessários, e abrigava também a

filha, Dina, que sofre de mal de Alzheimer. As fotos nas paredes lembravam uma vida inteira: Claudina e

o marido, no dia do casamento, Gil e Dina, bem jovens, ela e dona Canô, mãe de Caetano, tirada alguns

anos atrás. Por coincidência, além dos filhos músicos e famosos, dona Cola e dona Canô (Claudionor)

eram casadas com Josés, Zecas. Miúda, olhos vivos e voz firme, Claudina, ou dona Cola, estava com 99

anos e tinha uma memória prodigiosa. “Foi uma vida muito boa, não é, meu filho?”, disse a seu

primogênito, Gilberto Gil, em outubro de 2012, poucos meses antes de ela se despedir da vida.

 

Apesar de ser uma cidade do interior, afastada dos acontecimentos das capitais mais

importantes do Brasil, a guerra não passou em brancas nuvens em Ituaçu. Ali, todos

acompanhavam as notícias pelo rádio e não era diferente na família Gil Moreira. Mas para o

pequeno Beto a guerra tinha imagens e significados bem-definidos que ele apreendia das

fotografias nas revistas que seu pai assinava e que chegavam da capital. A que mais o marcou

foi a revista Em Guarda, que desenhou imagens fortes da guerra em sua memória. Tratava-se

de uma publicação norte-americana com reportagens e artigos sobre a movimentação militar

em todo o mundo, que mostrava fotografias de soldados, tanques e armas. Era editada nos

EUA, em Nova York, e estampava abaixo do nome o subtítulo Para a defesa das Américas.

Tinha sua versão em português, que alimentava a imaginação do garoto com fotos de soldados,

tanques e armas. Tudo muito clean e arrumadinho. Imagens que Gil guarda na memória até

hoje. Chegava na sua versão em português e tratava de ganhar a simpatia dos brasileiros para

a causa americana.

Longe dessa insensatez, Beto crescia ao lado da irmã, brincando no quintal, entre hortas de

verduras e legumes e os tais pés de fruta-pão, jaqueira, mangueira, goiabeira, abacateiro e a

palmeira grande, além de um pé de jenipapo e outras árvores de frutas. A cidade tinha ainda

muitas palmeiras e logo cedo o palmito se tornou presença constante na mesa de almoço, que

também servia as comidas prediletas de Beto, como a couve cortada fininha, carne de sol frita,

cortado de chuchu, maxixe, galinha ao molho pardo.

Feijão com arroz, bife, ovo frito. Gil gostava das coisas comuns. Galinha ao molho pardo,

ou galinha de cabidela, como chamam em Pernambuco, também gostava, mas era especial.

Adorava aipim, inhame e batata-doce para comer com a comida ou na primeira refeição do

dia.

“Eu tinha problema com manteiga porque eu tinha muita dificuldade com a digestão, então o aipim era, em

geral, meio purinho ou com um pouquinho de manteiga de garrafa. É a manteiga feita em casa, manteiga

doméstica. Ela é mais defumada, o que de certa forma inibe um pouco aquele forte sabor animal que o leite

e os derivados de leite em geral têm, aquele ranço, aquela inhaca, como a diz na Bahia.”

 

De leite nunca gostou e os derivados também não eram muito bem-recebidos. O café era

tomado puro. Se era um menino chato para comer? “Um pouquinho enjoado. Minha avó me

chamava de biqueiro, porque para tudo que não gostava fazia um bico. Eu tinha muita dificuldade com as gorduras em geral, mesmo com a banha de porco, que era a base principal

da cozinha.”

Gordura de coco não tinha em casa, apesar de ser muito usada quando ele era criança.

“Gozado que agora nós estamos voltando a usar óleo de coco em casa em lugar de óleo de soja, ou o de

canola, que é mais recomendado. São recomendações novas como sendo algo mais saudável. Então

estamos voltando a comer coisa que era costume lá atrás e depois não se comia mais.”

 

Gil apreciava muito o cominho, que preferia à pimenta-do-reino. “O açafrão era muito

usado, urucum também, assim como a cebola e o alho. Os cheiros na casa vinham o tempo

todo dessa cozinha, dessa culinária variadíssima, comandada por minha avó.”

Ao mesmo tempo que cuidava da alfabetização das crianças, a avó Lídia se dedicava à

costura e à confecção de flores de tecido, que povoavam a imaginação do menino de cetins,

tesouras compradas em Salvador, vestidos de festas de aniversário, buquês de casamento e

toda uma atmosfera criativa. A arrumação da casa era feita em meio à tabuada, e os livros

eram lidos em meio aos cheiros e fumaças da cozinha que Lídia comandava. Para ela, as

alegrias e os prazeres da culinária eram quase tão grandes quanto o prazer com que educava

os netos. Comandava o preparo de galinhas, perus e leitoas, e mandava comprar pernil dos

porcos da feira para fazer presunto. Embrenhava-se pela cozinha com as empregadas para

defumar o pernil, tratá-lo com ervas aromáticas, envolver em betume, enterrar no quintal para

depois tirá-lo dali defumado. Fazia também os doces, os beijus, a rapadura no fogão comum

ou a lenha, que ficava sempre aceso, alimentado por Biita, uma das empregadas chamada

assim por Beto, que queria dizer bonita. Biita esquentava a água, fazia o café, torrado por ela

de madrugada. Aquilo espalhava um perfume que despertava a casa toda. Depois ia para o

pilão triturar os grãos — milho, arroz, café — e a mandioca.

As lembranças da infância de Beto estão repletas de cheiros da cozinha, dos temperos, do

coentro, do chá de mastruz, a erva medicinal que sarava a verminose e as lombrigas. Embora

detestasse leite desde pequeno, Beto às vezes tinha que tomá-lo quente, para “limpar as

entranhas”. Mas adorava ver a avó salgar e esticar a carne ao sol no varal, como se fossem

roupas, as mantas de picanha, de filé, de contrafilé. O varal de roupa, no fundo do quintal,

competia com os de carne e os de casca de laranja, que eram penduradas para secar e ajudar a

acender e perfumar as fogueiras no são João. As cascas eram separadas no mês de junho, mais

fresco, época das laranjas, e guardadas para o são João. Para deleite do menino.

A primeira casa da família em Ituaçu era alugada. Tinha um só andar, com a porta de

entrada que abria para um corredor principal, dando acesso à sala de visitas, à direita, e,

através de outra porta à esquerda, a uma espécie de quarto de estar. Em seguida vinha a sala de jantar — numa parte ficava a mesa principal com as cristaleiras recheadas de louças e, na

outra, uma espécie de copa, onde havia uma mesa para as refeições diárias. Os móveis eram

simples, o chão de cimento encerado com cera Parquetina. Na parede da sala, retratos do pai,

da mãe e uma imagem esculpida de Nossa Senhora. O consultório do pai era do lado de fora,

num anexo à residência. No pequeno terreno onde ficava a horta da avó, que também plantava

inhame e maxixe, circulavam também as galinhas, indiferentes ao cercado dos porcos e

leitoas.

A segunda casa, não mais alugada, mas comprada por Zeca, tinha projeto semelhante, e o

consultório, onde o doutor cuidava de todas as doenças que apareciam, também ficava numa

sala anexa. Beto dormia no mesmo quarto da irmã. A avó, que na primeira casa dormia no

quarto das crianças, passou a ter seu próprio aposento. A sala de visitas era lugar de

cerimônia e quase sempre permanecia vazia, aguardando uso mais protocolar. Era, portanto,

na sala de jantar que abriam janelas para o quintal, e na copa onde se dava o convívio

familiar. A segunda casa também era simples, com um nicho que acolhia vários santos, como

santo Antônio, santo de devoção, são José, imagens de Cristo e Nossa Senhora.

Dentro de casa, o mundo de Beto era cercado de porcelanas e utensílios mais

qualificados, como as tesouras Lutz Ferrando da avó, fabricadas na Europa, usadas nos

trabalhos manuais e nas flores que ela fazia de tecido, além das ferramentas do consultório do

pai, para onde o menino sempre escapulia a fim de fitar os bisturis, os fórceps usados nos

partos, os aparelhos de odontologia para extração de dentes (sim, porque seu Cassinho, o

dentista praticante, não conseguia atender a população inteira). Sem hospital na cidade, Zeca

tinha que dar conta de tudo que aparecia. Para o filho, doutor Gil franqueava aqueles armários

e Beto passava ali tardes inteiras, escutando as explicações sobre cada instrumento, sobre as

operações, anestesias por inalação, curativos.

Era uma casa de artes e ofícios. Mas instrumento musical não havia e ninguém sabia tocar

coisa alguma. Claudina dava a Beto instrumentos de brinquedo nos aniversários ou nos Natais,

e foi numa dessas ocasiões que resolveu perguntar ao filho de dois ou três anos o que ele

gostaria de ser quando crescesse: “‘Musgueiro’ e pai de menino”, respondeu ele,

profetizando.

 

Infância longe da escola

 

Durante toda a sua infância, a cartilha escolar de Beto se misturava à gamela das carnes, na

copa, entre a cozinha e a sala de jantar. A experiência escolar do menino foi mais tarde, no

colégio Marista de Salvador. Até então, de manhã, dona Lídia preparava o almoço, vigiava a cozinheira e os ajudantes, enquanto tomava dos meninos a tabuada, ensinava gramática,

geografia, história e desenho. Uma introdução às disciplinas exigidas pelo mundo com o qual

ele só foi ter contato formal no antigo ginásio. As tardes eram dedicadas à leitura. Monteiro

Lobato, Tesouro da juventude , com as histórias das casas reais europeias, e muitos outros

autores. Primeiro a avó lia, depois, já mais independentes, as próprias crianças liam.

A avó cuidava do dia a dia. Hora do banho, hora de comer, hora de brincar. Beto,

portanto, pertence à categoria dos meninos criados com avó. “Minha avó nos sequestrou.

Disse: ‘Isso é comigo. Ensinei a tanta gente, não vai ser meus netos que não vou ensinar. Vá

lá’, disse ela à minha mãe, ‘ensinar na escola e deixe os meninos comigo.’” Mas ao mesmo

tempo que ele se ressentia um pouco da zombaria dos outros meninos, percebia as vantagens.

O desenvolvimento da sua personalidade artística e da sua sensibilidade tem raízes nesse chão

doméstico. Diferentemente da escola, que muitas vezes tolhe os talentos e endurece a alma,

viver os primeiros anos ouvindo os programas de rádio junto com a avó, as histórias todas, em

meio às costuras, aos bordados, aos buquês, era se nutrir de um universo muito rico. Com ela,

Gil aprendeu a tricotar.

“Minha avó ensinava a costurar, fazer crochê, bordado. Tinha os círculos de madeira que esticavam e

prendiam o tecido e ela bordava com as linhas de várias cores, verdes para as folhas, rosas para o corpo

das flores. Eu e minha irmã aprendendo. Eu gostava de tricô. Crochê era mais difícil, eu não gostava. Eu

gostava muito de tricotar.”

 

Na infância, a mãe Claudina, com seus vestidos de cambraia ou de fustão com estampas

florais, era a disciplinadora. Exigia atenção aos valores morais e aos horários, cuidava dos

modos à mesa na hora do jantar e quando vinha da escola para o almoço. Ela preferia que

fosse assim e se atinha a essas questões, zelando pelo caráter, a ética e a disciplina dos filhos.

O pai Zeca, sempre de terno branco de linho ou de brim — tinha também um terno de tropical

e outro de casimira para os dias mais frescos —, apesar de ser uma figura afastada disso tudo,

mais distante, era a fonte de afeto e a introdução às coisas do mundo. Gostava de demonstrar

abraçando o filho, pegando-o no colo, tomando a mão do menino para sair, companheiro,

amigo.

“Vamos lá na gruta da Mangabeira que eu vou atender um cliente.” E lá ia o filho para as

festas, os passeios aos sítios e às fazendas, lugares onde o pai era figura prestigiada e sempre

muito bem-recebida. Beto nunca levou um tapa do pai. A mãe, de vez em quando, dava umas

palmadas, talvez uma ou duas vezes o menino tenha levado uns trancos. Mas a irmã que era

desobediente e mais arteira, estava sempre tomando umas bordoadas. “Venha cá agora,

moleca atrevida”, gritava a mãe. A avó dava uns gritinhos, vez por outra, mas brigava com Claudina quando ela perdia a paciência. Lídia protegia, puxava os meninos, dava guarida. Já

Beto era obediente. “Eu sempre tranquilo, obedecia. Cordato, gostava muito de agradar.”

 

Arapuca, bola de gude e fruta no pé

 

A classe média era a classe dominante em Ituaçu, constituída quase toda pela pequena

burguesia, com seus líderes, os donos das casas comerciais, os médicos, o juiz de direito.

Apesar de ter apenas oitocentos habitantes, era uma comarca, o que significa que havia lá um

fórum, onde aconteciam os julgamentos. Se alguém cometia um crime era julgado por um juiz

togado e ia para a cadeia pública. Havia a paróquia, com a igreja do Coração de Jesus, com o

padre e a multidão de católicos, maioria na cidade. Lá viviam aqueles que trabalhavam nas

casas comerciais, a enfermeira do seu Zeca, a enfermeira do doutor Gouvêa, a ajudante de

manipulação do seu Celestino, dono de uma das duas farmácias da cidade. Mas todos tinham

trabalho. Se havia alguma miséria, era pouca, o menino mal se lembra dos poucos barracos

nos arredores da cidade. Até hoje Ituaçu funciona assim: carnes, comércio, agricultura,

derivados da cana-de-açúcar, da mandioca e do leite. Tudo o que se consumia na cidade era

produzido ali. De fora, vinham apenas os livros, as revistas, os instrumentos e as ferramentas.

Havia duas farmácias, uma era do seu Juvenal Vanderlei, da UDN. No caso de Juvenal, a

família Gil Moreira podia comprar na farmácia dele porque todos se davam. Seus filhos,

Sofia, Irene, Zé Maria, a mulher, dona Neném, eram todos amigos. Era uma das poucas

exceções em que as famílias de militâncias políticas diferentes se entendiam.

Seu Celestino era dono da outra farmácia, militante do PSD e padrinho de Beto. Ele

vendia as drogas levadas pelos representantes dos laboratórios que visitavam a cidade com

novidades. A chegada da penicilina, da aspirina e dos antibióticos no pós-guerra começou a

produzir curas milagrosas. Mas Celestino também manipulava os remédios e fazia drogas com

a mistura de ervas usadas comumente pela população e os ingredientes químicos que ficavam

armazenados nos frascos da farmácia. Fazia xarope para tosse, remédio para o estômago,

purgativos.

 

O escravo que comprou sua liberdade

José, o bisavô de Gil, era um escravo alforriado que comprou sua própria liberdade pouco antes da

abolição. O velho José Gil não tinha nada de bobo. Progrediu, abriu um armazém na Cidade Baixa e se

estabeleceu no Dique. Seu filho João entrou na Guarda Nacional e conseguiu um lugar na classe média

de Salvador, mesmo sendo filho de ex-escravo. Ele casou-se com Catarina e teve vários filhos, entre eles

José, o pai de Gil.“Era parte da comunidade dos negros e mestiços que subiram de posição na

sociedade baiana e é aí que começa a formação da classe média negra na Bahia pós-abolição”, diz Gil.

 

Por questão de hierarquia social, a família Gil Moreira era seletiva. Afinal, tratava-se de

uma importante família de médico. Por isso, Beto e a irmã brincavam com os meninos de

outras famílias da rua de baixo, filhos de correligionários do PSD, porque era mais difícil a

confraternização com o pessoal da UDN. Menino criado com cuidados, Beto brincava apenas

com os meninos que moravam por perto.

“Era permitido que eu fosse brincar na porta da rua ou na casa dos outros e que nós fizéssemos em

conjunto passeios ao rio, que era perto de casa, para buscar flecha para fazer as arraias, que meu

padrinho, doutor Celestino, farmacêutico, fazia para mim e para Aníbal, outro colega, filho do coletor e

também afilhado dele.”

 

No rio, não era permitido nadar, por causa da verminose.

Os passeios no mato eram sempre coletivos. Os meninos se juntavam, iam ver os pássaros,

alguns faziam arapucas para pegar passarinho e botar nas gaiolas em casa, pegavam frutas nos

pés de ingá, cortavam cana para chupar nos pequenos canaviais de uma lavoura ainda

incipiente que alimentava os alambiques da região e servia para fazer rapadura, melaço e

cachaça. A cidade vivia dessas pequenas coisas, que abasteciam a feira, que alimentava toda

a região.

Com os meninos na rua, Beto jogava bolinha de gude, prego, pião, triângulo, pulava

macaco (que em outras regiões do Brasil é chamado de amarelinha), jogava bola. Empinava

arraia, ou periquito, arraia em flechas, com papel de seda, colada com goma de farinha de

trigo. Para brincar, Beto usava alpercatas feitas pelos sapateiros da região ou compradas na

feira, camisas de mangas curtas, calças curtas de tropical. Para as atividades mais sérias, tinha

dois terninhos, umas três calças compridas e camisas de tropical ou de jersey, um par de

sapatos marrom e outro preto. O futebol naquela época ainda não era uma paixão nacional. Era

importante, mas no interior ainda um pouco remoto. Um dia fizeram um campo. No ano de

1945, para coroar a festa de comemoração do fim da guerra e da vitória dos Aliados,

organizaram em Ituaçu uma partida de futebol. Beto tinha apenas dois anos e meio e foi levado

pelo pai para assistir ao jogo, com a cidade toda em volta do campo. A irmã não foi, mas

ganhou uma boneca de pano que foi batizada de Vitória.

Os dois times se apresentaram com as camisas encomendadas em Salvador. Um tinha as

cores amarelo e preto — as mesmas do Ipiranga, time importante e muito vitorioso da capital

baiana —, o outro levava as cores vermelho, azul e branco do Bahia, time fundado em 1931 e

que acabou sendo escolhido por Beto como seu time de coração.

Os irmãos Beto e Dina se davam bem. Brincavam juntos horas a fio. Gostavam de

construir pequenas cidades e faziam tijolos amassando barro e usando caixa de fósforo como

forma. Faziam muitos. Construíam com eles as casinhas e depois cobriam com telhado de

palha. Dina aprendia a fazer os vestidos das bonecas com a avó. Como estudava em casa, Gil

era envolvido pelas atividades domésticas. Ajudava a avó e o pessoal da cozinha a fazer o

requeijão, a manteiga de garrafa, a carne de sol, cortando as verduras, salgando as carnes,

sentindo o cheiro saindo das panelas.

Com os amigos e professores do colégio Marista.

Com a avó, Lídia, a mãe, Claudina, e a tia Margarida com a irmã, Gildina, no colo.

A primeira comunhão com a irmã, Gildina.

Com o pai e autoridades, em Ituaçu.

Com o pai, o médico José Gil Moreira.

O pai, sanitarista, com dois médicos durante campanha do Ministério da Saúde.

Primeira foto de Gilberto Gil

Com tia Margarida.

Em Ituaçu, com a mãe, Claudina, o pai, José Gil, e a irmã, Gildina.

Na formatura, com tia Margarida, a futura sogra Odete, a irmã, Gildina, a namorada Belina, o pai e a mãe.

Casamento de Claudina e José Gil.

O mar e as estrelas

 

Em 1947 começaram os primeiros calçamentos com paralelepípedos e o meio-fio passou a

existir em Ituaçu. As duas casas na cidade em que Beto morou tinham tetos altos e algumas

telhas vãs, mas só na segunda havia forro de madeira. Como na primeira não havia, as telhas

de vidro deixavam transparecer o céu e de noite, as estrelas. Da cama, o menino viu certa vez

o eclipse da Lua. Observou através das radiografias que o pai tinha trazido dos estudos da

faculdade. Era uma novidade que Zeca gostava de mostrar.

Beto viveu na infância o melhor de dois mundos. Como o resto da família morava em

Salvador, ficou decidido desde cedo que todo ano, nas férias, eles iriam para a capital, tomar

uns ares cosmopolitas, banhos de mar e rever os parentes. Por isso, o menino passava sempre

o Carnaval em Salvador. E as festas juninas no interior. Cidade e interior. Litoral e sertão.

As festas de São João em Ituaçu eram inesquecíveis. Nada se comparava às fogueiras na

rua, às quadrilhas, às iguarias de milho e mandioca, aos bolos maravilhosos. As brincadeiras

antecipavam a festa. As meninas enfiavam a faca na bananeira para saber se o leite que

derramava revelaria as letras do começo do nome do futuro namorado. A clara do ovo jogada

dentro de um copo d’água ou de uma bacia com água dizia o futuro pela forma que desenhava:

se fosse igreja, a moça ia casar, se fosse barco, viajar. Na bacia de água jogavam-se vários

papeizinhos embrulhados com o nome dos pretendentes desejados e o nome que abrisse mais

seria o do futuro marido.

Em Ituaçu, além de todas as comidas e brincadeiras, na casa da família Gil Moreira havia

ainda a trezena de santo Antônio, santo casamenteiro e inspirador das festas juninas. Nas

outras casas, a trezena era rezada entre os dias 1º e 13 de junho, dia do santo, mas na casa de

Beto começava no dia 13 e terminava no 26, dois dias depois de são João, para que o término

coincidisse com o aniversário do menino. Nesse dia, a trezena era maior e depois acabava em

festa. Nas noites de trezena, a família se reunia na sala, com os vizinhos, convidados e

serviçais. Dona Claudina sempre foi muito católica e embora seu Zeca fosse agnóstico ele era

muito receptivo a toda a dimensão cultural das festas. Era costume, todo dia 5 de janeiro,

véspera do Dia de Reis, as famílias soltarem fogos de salão, dentro de casa. Só no são João é

que os fogos iam para o terreiro ou para a rua. “São lembranças muito fortes. Todos rezavam

ali, ao pé do nicho dos santos. O pai agnóstico, a mãe católica. Meu pai gostava dos rituais.

Uma vez até queimou a mão soltando fogos na festa de Reis.”

Luiz Gonzaga ganhou de todo mundo

 

Entre todas as influências musicais de Gil na infância, Luiz Gonzaga foi a maior de todas. “Esse ganhou

de todo mundo”, costuma dizer. “Ele era muito pop, com aquela roupa e aquela sanfona. Diferente de

tudo e ao mesmo tempo muito próximo.” Quando Luiz Gonzaga completou 73 anos, chamou os

amigos para comemorar o aniversário em seu sítio em Exu, entre eles, Gilberto Gil. Era 13 de dezembro

de 1985. Pois nesse mesmo dia, Gil fez os versos para a música “Treze de dezembro”.

 

As festas folclóricas do interior iam se misturando às novidades do pós-guerra. O

otimismo com o fim dos combates e a vitória aliada coincidiu com a chegada ao poder do

presidente Eurico Gaspar Dutra e com um novo surto de progresso. A cidade ganhou o prédio

dos Correios e Telégrafos, que antes funcionava na casa do seu Antonio Magalhães. Mascates

chegavam de Salvador trazendo tecidos, sapatos, sandálias, artigos para as modistas,

ferramentas. Melhor: de vez em quando, eles traziam a máquina de projeção e mostravam

algum pedaço de filme, geralmente um documentário sobre a guerra ou um filme com Vicente

Celestino, como O ébrio. As projeções eram feitas na casa de alguém ou em um dos dois

salões dos clubes literários da cidade. As pessoas levavam suas cadeiras. Para a projeção

estendiam-se dois lençóis amarrados pelas pontas, apagavam-se os candeeiros e ligava-se a

bateria. Era um deslumbramento. Talvez tão forte quanto os primeiros gibis com as historinhas

de Super-Homem, Batman e Flash Gordon que Beto adorava.

 

Rádios, vitrolas e alto-falantes

 

A música foi chegando aos poucos. Na cidade havia as duplas de trovadores, os violeiros, os

cantadores. Seu Sinésio, fogueteiro, era também sanfoneiro. Os cantadores nas feiras, que

começavam na sexta-feira ao meio-dia, vinham junto com os violeiros para a cantoria. Tinha o

rádio de caixa Philips com desenho art déco que a família usava mais para ouvir as notícias,

mas que abria também um espaço para a música. Havia a vitrola RCA Victor na casa do seu

Magalhães, o chefe dos correios e telégrafos, que Beto visitava quando recebia permissão do

seu pai. A vitrola tinha uma tampa bonita e era quase do seu tamanho. Ficava no alto, de modo

que o menino precisava ficar na ponta dos pés e se debruçar para ver o disco girar.

“Quando voltei a Ituaçu, já adulto, 46 anos depois, foi emocionante e muito comovente rever a cidade, mas

um choque encontrar a vitrola na casa do seu Magalhães. A cidade mudou muito pouco, ganhou alguns

habitantes a mais, passando de oitocentos a 3.500. Mas a vitrola tinha encolhido consideravelmente. Era

agora pequena, estava encostada num cantinho e nem tinha a imponência de antes.”

Não só a vitrola perdeu a exuberância na casa do seu Magalhães, mas também as

lembranças de fatos extraordinários. Como chefe dos correios e telégrafos, ele mantinha em

um dos quartos imensos frascos, troncos de cilindros enormes empilhados uns ao lado dos

outros, cheios de uma substância química azul e recheados de pilhas elétricas que geravam

energia para alimentar o telégrafo. Dali saíam fios que se dirigiam a uma espécie de

acumulador que fazia funcionar o telégrafo para enviar e receber as mensagens com código

Morse.

 

“Treze de dezembro”

É que hoje é treze de dezembro

E a treze de dezembro nasceu nosso rei

O nosso rei do baião

A maior voz do sertão

Filho do sonho de Dom Sebastião

Como fruto do matrimônio do cometa Januário

Com a estrela Sant’Ana

Ao romper da era do Aquário

No cenário rico das terras de Exu

O mensageiro nu dos orixás

É desse treze de dezembro que eu me lembrarei

E sei que não me esquecerei jamais

 

Mas não foi somente na casa do seu Magalhães que Beto começou a ter contato com a

música, na casa do vizinho Toninho Guimarães e do seu Osvaldo Conceição também havia

vitrola. E discos. Ele ouvia de tudo. Bob Nelson, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Vicente

Celestino e, mais tarde, depois que Luiz Gonzaga começou a gravar discos a partir de 1946,

ele passou a ouvir com devoção suas primeiras músicas.

“Meu pai só comprou uma eletrola muito mais tarde, daquelas automáticas de pés de palito, que eram

móveis funcionais. Os discos ficavam presos no alto e caíam sozinhos. Era diferente dos gramofones,

movidos a manivela, em que era preciso botar a agulha para correr a cada disco. Nem sei por que

demoramos tanto a ter uma vitrola.”

 

Ituaçu só foi ter eletricidade a partir dos anos 1950. Quando Beto saiu de lá a cidade

ainda era toda iluminada por lampiões e as casas por velas ou, no caso das mais abastadas,

candeeiros com querosene, lampiões com camisas ou os lampiões alemães Petromax, também

a querosene, que tinham camisas menores, mas eram muito mais incandescentes e iluminavam mais.

O rádio, quando não era de pilha, funcionava com bateria de carro, os chamados

“acumuladores”. Ouvia-se a Rádio Nacional, a Mayrink Veiga, a Tupi — todas do Rio de

Janeiro. Em Salvador, onde Beto passava as férias na infância, as rádios só vieram a ter

cinquenta quilowatts depois de 1951. Só as grandes rádios da capital tinham alcance nacional.

Era necessário ter as antenas próprias no telhado da casa, entre duas hastes grandes, e o fio

descia para o aparelho de rádio na sala de visita. Na casa de Beto tinha antena e ele se

recorda de ter ouvido todos os jogos de futebol da Copa de 1950. Havia algo de especial

naqueles jogos: eram transmitidos por Ary Barroso, locutor esportivo da Tupi, a rádio que

transmitia todos os jogos. Beto, com oito anos, acompanhou tudo em Ituaçu, inclusive a trágica

derrota para o Uruguai, no Maracanã.

Mas a Rádio Nacional trazia também para os ouvidos sensíveis do menino o universo

mágico da música, dos programas de auditório, das novelas, dos programas de César de

Alencar. Seus ouvidos estavam lá, grudados no rádio, quando despontaram Ângela Maria,

Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira e seus grandes momentos com o Trio de Ouro. Havia, claro,

os hinos na igreja, que dona Claudina acompanhava cantando com voz firme e afinada. Além

disso, na cidade havia duas bandas. Elas eram ligadas à escola e aos dois clubes literários.

Uma das bandas era a Lira, que tocava dobrados no coreto da pracinha construído em 1945,

logo depois do fim da guerra. A outra era a Jandira. As bandas tocavam nas novenas, na

igreja, nas procissões e nas alvoradas das festas cívicas como o Sete de Setembro e o

aniversário da cidade. Beto conhecia os dobrados, como o Cisne branco, e alguns

americanos. A música foi entrando na vida de Beto aos poucos. Primeiro nos rádios, nas

vitrolas e nas bandas de Ituaçu. No quarto da mãe, tinha uma guarda na cama de madeira com

sonoridade muito boa. Beto ia para lá toda tarde e ficava batucando. Fazia da cama um

tambor.

Dona Claudina, aos 99 anos, lembrava-se bem do gosto do menino pela música:

“Beto adorava ouvir a música do alto-falante e quando passavam os músicos da banda saía correndo para

a porta e ficava marchando. Ele batia o pezinho e fingia que ia atrás. Ficava na porta. Na cidade havia duas

bandas, a Lira e a Jandira. Beto acordava às seis da manhã, ia para a porta do meu quarto e perguntava:

‘Mãe posso ir na porta ver a banda?’ Era entusiasmado com a música”.

 

O rádio foi uma influência grande, mas o alto-falante da cidade teve seu papel na

formação musical do menino. Tocava músicas de Carlos Galhardo, Francisco Alves, Luiz

Gonzaga, nos horários estabelecidos e em pontos fixos da cidade. Foi no alto-falante que Beto

ouviu o Gonzagão pela primeira vez. Tudo na cidade era anunciado pelos alto-falantes, instalados em postes em vários pontos da cidade: anúncio de lojas, da padaria, do armazém,

da loja do Juvenal, do Osvaldo Conceição.

Depois, em Salvador. Beto voltava das férias sempre cheio de novidades. Na capital, a

família ficava na casa das tias Carmelita, irmã de Lídia, Margarida e Mariquinha, uma

agregada da família, parenta distante e amiga, hóspede da casa desde sempre, que recebiam

calorosamente a família de José quando esta chegava de férias do interior.

As temporadas de férias em Salvador abriam para Beto a perspectiva de uma vida

cosmopolita. As festas religiosas dos bairros, que incluíam a procissão do Senhor dos

Navegantes, na Ribeira, a festa do Espírito Santo, em junho, aconteciam na sua maioria ali,

naquele bairro com muitas igrejas, onde a procissão do Senhor Morto marcava a Semana

Santa, que terminava com as celebrações da Páscoa. Havia na festa do Senhor dos

Navegantes, com as regatas e os remadores, as festas com as baianas, os acarajés, o dendê, as

cores, o branco, os pastéis e os sorvetes.

“Meu pai, um dia, me levou à Ribeira para ver na enseada dos Tainheiros a chegada dos hidroaviões

Catalina, que pousavam na água, perto do porto. Era uma festa, a cidade inteira ia para lá ver os aviões.”

 

O espanto e o fascínio daquele dia nunca saíram da memória. O mar, o porto, os navios, os

marinheiros e turistas que chegavam aos borbotões nos barcos da Marinha e nos navios de

turismo e inundavam os bairros de presença estrangeira, sobretudo o de Santo Antônio. Beto

abria bem os olhos para ver os japoneses desembarcando no porto nos primeiros navios de

imigrantes do pós-guerra, que chegavam para plantar as hortaliças e criar o cinturão verde na

década de 1950, que abasteceria a cidade, até então servida pelas hortas domésticas.

No futebol foi iniciado pelo pai, que também o levava ao Estádio da Graça, no bairro da

Graça, para ver os jogos do Ipiranga, do Bahia ou do Vitória, time do seu Zeca. Beto escolheu

o Bahia como seu time por causa das cores nos seus jogos de botão. Achava que os tricolores

tinham mais cores que os outros. Mais tarde, quando o Fluminense foi campeão carioca em

1951, aproveitou mais uma vez o uso de três cores e escolheu o Fluminense como seu time do

Rio de Janeiro. Tricolor no coração.

Assim como voltava para Ituaçu cheio de razão, contando vantagens sobre a temporada na

capital, ao chegar em Salvador trazia com ele a vida lúdica de menino interiorano, da cana, do

milho e do são João. Era esse menino que descobria no lança-perfume, no confete e nas

serpentinas, nas fantasias de pirata e jardineira, toda a magia do Carnaval na cidade grande.

Da calçada da casa de Dolores e Toninho Machado, seus tios por afinidade, que tinham

um armarinho em frente ao Clube Comercial, assistia maravilhado ao corso. O armarinho

ficava na avenida Sete, no ponto mais privilegiado do desfile. Nos fundos do lugar ficava a residência dos tios. Dolores era modista, fazia vestidos para a sociedade baiana, era

chapeleira e fazia fantasias para o Carnaval, comandando uma equipe de costureiras. Na loja

era possível comprar fantasias de Carnaval e a família Gil Moreira tinha o privilégio de

acompanhar Dolores e Toninho no pequeno camarote armado com cadeiras na calçada em

frente ao clube. Justo naquele ponto havia uma parada importante dos cordões de fantasias,

batucadas a pé, blocos, associações do tipo das grandes sociedades do Rio de Janeiro. As

associações passavam com carros e fantasias que ilustravam os temas escolhidos a cada ano.

Foi lá que Beto viu pela primeira vez um trio elétrico, em 1950. Viu também muitos clubes

desfilarem, como Os Inocentes em Progresso, os Fantoches da Euterpe, o Cruz Vermelha.

Todos tinham suas sedes, onde se pulava Carnaval animadamente.

Tia Dolores tinha também uma casa de veraneio em Itapagipe, na Ribeira, que antes ainda

não era um bairro da cidade, mas um lugar com poucas casas. Era praticamente um sítio, lá no

fundo da Baía de Todos os Santos, na enseada. Era lá que a família Gil Moreira passava

pequenas temporadas dedicadas ao banho de mar, numa água parada, represada, com a

possibilidade de mergulhos extraordinários. O verão na cidade era passado na casa da tia por

parte de pai, Margarida, e nos finais de semana iam todos para a casa da tia Dolores. “Foi lá,

na baía e em meio a todos os santos, que tomei meu primeiro banho de mar.”

A infância em Ituaçu foi feliz. Os pais, a avó, a irmã, os vizinhos, os compadres do pai, os

tios e os amigos da família nas férias em Salvador, todos em volta construíram uma estrutura

sólida, um círculo protegido e com limites. O microcosmo do interior brasileiro, o esbarrão

no universo menos provinciano de Salvador nas férias, mas também o mundo da política, da

guerra e da música chegando pelo rádio e pelas revistas povoaram seus primeiros anos. Na

pequena cidade não havia divisão e Beto nunca sentiu discriminação alguma pelo fato de ser

negro. No interior era diferente, ele diz hoje, era outro ambiente, onde todos eram simples e

pobres. “Nós éramos de classe média, mas era tudo muito misturado e as famílias se

frequentavam. Meu pai tratava dos pobres, dos ricos, dos pretos ou dos brancos e se

relacionava com os artesãos, os pedreiros, os sapateiros, os fogueteiros.”

Gilberto Gil cresceu entre o sertão e o mar, o mundo rural e o urbano, conhecendo de

perto o que havia de mais interessante em cada universo. Mas mais que isso, Gil foi formado e

moldado afetivamente num lugar onde brincadeira, criação, ciência e aprendizado se

misturavam ao cotidiano. Tudo isso ele levou, mais tarde, para sua obra musical.