Gilberto Bem Perto
Capitulo 5: O exílio e a volta “Todo o povo brasileiro — aquele abraço!”
">
“É evidente que se a gente resolver analisar os fenômenos com um certo cuidado, um aprofundamento
maior, principalmente no mundo da música, pode encontrar uma, duas, três, quatro, cinco razões mais ou
menos claras para justificar o sucesso de ‘Aquele abraço’. Mas a gente não pode determinar a verdade. É a
imprevisibilidade total. Quer dizer: eu tenho quatro anos de carreira profissional no Brasil, trabalhando,
participando efetivamente do jogo do mercado, vendendo minha mercadoria com toda promoção direta: eu
cantava na TV, fazia shows, aparecia na imprensa e nunca, na verdade, uma música minha havia chegado
a o hit parade. E agora eu, fora do Brasil, fiz uma gravação que deixei lá, uma gravação que eu nem
conheço... Eu nunca ouvi o disco de ‘Aquele abraço’ pronto.”
Trecho de entrevista com Gil no exílio,
intitulada “Aquele abraço do Gil”,
publicada em 9 de outubro de 1969,
no jornal O Pasquim
Volta do exílio, com Pedro no colo.
O EXÍLIO E A VOLTA
“Todo o povo brasileiro — aquele abraço!”
“Aquele abraço”
“Vão, fiquem por lá e aguardem.” A ordem dada por um dos oficiais do 2º Exército era a
sentença que Gil e Caetano temiam. O governo militar ia realmente mandá-los para o exílio.
Terminada a apoteose dos shows Barra 69, eles se despediram de suas famílias e amigos em
Salvador e seguiram para o Rio de Janeiro e logo depois para a Europa, onde a incerteza os
aguardava. O primeiro destino seria Portugal. O produtor Guilherme Araújo os esperava no
aeroporto. Desembarcaram Caetano, sua mulher, Dedé, Gil e Sandra. O sentimento era de
tristeza, mas também de grande alívio e ansiedade. Pela frente havia apenas insegurança em
relação a trabalho e dinheiro.
Mas o destino ainda não era este. Ficaram pouco menos de dez dias em Lisboa e de lá
foram para Paris, onde pensavam se estabelecer. Na França, sentiram muita dificuldade de
lidar com o mau humor parisiense.
“Eles nos tratavam mal e eu e Caetano sofríamos muito com aquilo. Hoje é diferente, mas naquela época
era terrível e faziam questão de mostrar que não gostavam de estrangeiros. A gente sofria, precisando de
um mínimo de acolhimento, de algo minimamente cortês.”
Ficaram em um hotelzinho no Quartier Latin, mas o constrangimento que sofriam por serem
estrangeiros foi decisivo para desistirem de ficar em Paris. Menos de um mês depois seguiram
para Londres, em parte por influência de Guilherme Araújo, que tinha preferência por essa
cidade, o principal polo da música contemporânea na Europa. Londres era a cidade da vez.
O começo foi duro. E continuou sendo durante todo o período em Londres. O dinheiro dos direitos autorais no Brasil eram recolhidos por Lea Millon, a tia Lea, que trocava por dólar e
mandava a quantia permitida por lei para Gil, Caetano, Dedé e Sandra. Tia Lea começou a
trabalhar como empresária artística no final dos anos 1960, na época do exílio em Londres,
para ajudar as suas sobrinhas, Dedé e Sandra Gadelha, e seus então respectivos maridos.
Juntavam o dinheirinho e com ele pagavam o aluguel e se mantinham por lá. Cerca de um ano
depois, Gil começou a fazer shows na Alemanha, na Suíça e na França e isso complementava
a renda. Ele e Caetano também fizeram shows na Inglaterra e gravaram discos. Mas o dinheiro
que segurava a barra era o que vinha do Brasil. “Era pouco, mas era suficiente.”
Gil desembarcou em Londres no dia em que os Rolling Stones fizeram o concerto no Hyde
Park. Os quatro chegaram atrasados, depois de o show ter acabado.
“Quando chegamos uma hora depois, o concerto já havia terminado, mas ainda vimos todo mundo
saindo, o parque cheio de latas de cerveja e detritos de coisas que as pessoas tinham consumido. Tinha
sido um show grande, uma homenagem ao Brian Jones, que tinha morrido. Foi o primeiro show dos
Stones sem ele.”
As influências mais nítidas do impacto daquele show — os Stones estavam lançando o
disco Let it Bleed — apareceram na obra de seu companheiro de plateia, Caetano Veloso, que
não apenas gravou uma versão da música-título do disco da banda inglesa como compôs sua
própria “Deixa sangrar”. Mas foi Gil quem, quatro anos depois, nos EUA, subiu ao palco com
o grupo que já foi considerado a maior banda de rock de todos os tempos. No livro Os Rolling
Stones no Brasil: do descobrimento à conquista (Ampersand Editora, 2000), o autor Nélio
Rodrigues conta a história:
“Em julho de 1975, quando se preparavam para fazer cinco apresentações em Los Angeles, os Rolling
Stones decidiram convocar músicos brasileiros para se juntar a eles no palco durante a execução de
‘Sympathy for the Devil’, o bis da banda nessa turnê. Gilberto Gil, que estava em Los Angeles para comprar
instrumentos, aderiu com muito entusiasmo à convocação feita por telefone pelo maestro Moacir Santos e
pela cantora Regina Werneck. ‘Participamos de todas as apresentações dos Stones’, diz Gil. ‘Chegávamos
várias horas antes por causa do trânsito e ficávamos numa sala separada, sem contato com eles. Só os
víamos no palco. Um dia, Mick e Keith foram lá na sala nos ver. George Harrison também esteve lá
conosco. Guardo até hoje uma jaqueta daquela excursão autografada por Mick e que eu terminei
bordando por cima’”.
Mas naquele primeiro momento em Londres, anos antes, o mais importante era achar um
lugar para morar. Guilherme Araújo reservou um hotelzinho em South Kensington e, depois
disso, começou a sair para tentar encontrar uma casa. Conseguiram uma em Chelsea, ali perto,
e mudaram-se todos para lá. Era uma casa de três andares — Caetano e Dedé ocupavam o
primeiro piso, Gil e Sandra ficavam no segundo e Guilherme ocupava o sótão. Ficaram ali no
primeiro ano, todos juntos.
Saudades do Brasil
Caetano entrou em depressão. Ressentia-se da distância, da perda, do trauma da prisão, mas
especialmente da separação da família, do Brasil, da sua língua. Mas reagiu na medida do
possível. Frequentou o curso de inglês com Gil para aprender o idioma e se mostrou muito
interessado, como sempre, na vida artística e cultural. A ideia era aproveitar ao máximo a
temporada. Todos saíam e faziam muitas coisas juntos, galerias de arte, cinema, shows, além
de receber em casa os brasileiros que iam chegando.
Em geral era gente que saía espontaneamente do Brasil porque já não aguentava a situação
ou sentia que não havia ambiente no país. Cineastas como Júlio Bressane e Rogério Sganzerla,
e nomes como Arthur de Mello Guimarães, dono da casa em Londres onde foi filmado O
demiurgo. O pintor, videomaker, performer, escultor, escritor e músico José Roberto Aguilar,
o compositor e cineasta Péricles da Rocha Cavalcanti, que em Londres realizou a primeira
gravação como músico profissional, na trilha para o filme Copacabana mon amour,
acompanhado por Gil. Todas essas pessoas foram para a Inglaterra na época. Foi se formando
uma espécie de comunidade que tinha como ponto de encontro básico a casa de Gil e Caetano.
Foi também em Londres que Gil conheceu o escritor, compositor e cantor Jorge Mautner.
Em 1966, ele estava enquadrado na Lei de Segurança Nacional no Brasil por causa de seu
livro O vigarista Jorge e de um compacto com músicas de protesto. Mautner havia viajado
para os EUA e só voltara dois anos depois, em 1968, para partir novamente em 1970, desta
vez para Londres.
Apesar de não ter participado dos primórdios do Tropicalismo, Mautner sempre teve alma
tropicalista. Mas ao conhecer Gilberto Gil e Caetano Veloso, em Londres, encantou-se com “o
mel, a bondade, a ternura, o cristianismo, a generosidade, o amor de um Brasil que só agora
descobri através deles”. Ao chegar na capital inglesa conheceu os baianos e reencontrou-se
com outros companheiros que estavam por lá. O encantamento com os novos amigos ele
descreveu em um artigo para o jornal O Pasquim, em 1971, que mandou de Londres:
“Caetano Veloso é preocupadíssimo com assuntos dos mais variados, de filosofia à história, e sua casa é
um centro de discussões de onde emana uma luz de aurora renascentista. Caê acha graça no meu modo
de escrever como uma fábrica. Nossos diálogos são muito estranhos porque ele é um poeta, um dos
maiores poetas brasileiros, com agudíssima informação, um prestidigitador, um demiurgo cujas referências
estarão sempre localizadas no Brasil, na Bahia. Na querida Bahia. Eu sou um desintegrado, um indivíduo
dissolvendo-se em cacos internacionais. Um escritor pop. Vejo Caê como um rei oriental, com abanos,
corte, dengosidade baiana, registrando o mundo e as incríveis contradições da nossa época através desta
peculiar posição. Caetano não tem crise de identificação, suas referências são nítidas e seguras, a Bahia
mítica, tribal e mágica. Gilberto Gil disse que é pela primeira vez que sente a música como um trabalho. Um
trabalho cotidiano, um serviço de operário. Gil possui uma serenidade, uma tranquilidade de quem
realmente está em relação desalienada com o seu trabalho. Caminha para um ascetismo de dedicação
integral para com a música, eu diria que o seu ser poético, todo seu sistema nervoso, tudo nele, se
encaminha para um contínuo processo de crescimento e desalienação na simplicidade reencontrada”.
No mesmo artigo, Mautner analisava e contava detalhes do filme O demiurgo, do qual Gil
e Caetano participaram a pedido do diretor:
“Para além da incrível criatividade do nosso trabalho em conjunto, foi através destes dois iluminados
baianos que eu conheci pela primeira vez um Brasil desconhecido para mim, um Brasil misterioso, doce,
dengoso, cheio de riquezas míticas e humanas sem fim. Estranha aliança, deveras estranha, destes dois
sóis da Bahia com um desintegrado produto industrial, eu, Jorge Mautner, pura negação permanente.
Quanto ao filme, foi uma viagem de prazer e agonia. Numa das cenas em que eu, Caê e um jovem
chamado Upsi Luli sacrificamos a Dionisius oferecendo a ele nosso sangue, o sangue saiu muito aguado, e
eu, para salvar a situação, tentei consertar e disse: ‘Eis, eis o nosso sangue como água’. Mas não deu certo
porque Caetano caiu na gargalhada com todo mundo. Aliás, Caetano tem um nome artístico no filme:
chama-se Caetano Veloso. Acumular as funções de diretor e ator foi uma experiência incrível e eu me senti
um pouco Charlie Chaplin. Macalé no filme canta uma estranha cantiga com letra minha que dura oito
minutos. É quase uma ária de ópera-candomblé. Nunca vi filme mais irônico do que este, e ao mesmo
tempo com um élan de tragédia musical. Como os meus livros, o filme nada tem a ver com situações
dramáticas, relacionamentos psicológicos dos personagens. O filme é uma farsa, uma fábula. Oh! La
Fontaine, se as pessoas soubessem como você é atual! Leilah Assumpção está magnífica em seu papel de
Cassandra, e Dedé tem uma longa cena de namoro com Caetano Veloso ao som de ‘Coração
vagabundo’. O filme é a fusão de quatro influências: expressionismo alemão, Godard, Glauber, pop
americana. E um quinto elemento tropicalmente brasileiro de chanchada.”
Na época, Glauber Rocha considerou O demiurgo o melhor filme “do” e “sobre” o exílio.
No Brasil, o filme foi censurado e quando voltou para o país, já em definitivo, Mautner o
exibia para o público após os seus shows.
Gil acompanhava de Londres as notícias do Brasil, que chegavam pelos jornais, sobretudo
O Pasquim, um jornal semanal de humor e matérias comportamentais publicado no Rio de
Janeiro, que circulou entre junho de 1969 e novembro de 1991, e acabou se tornando uma
trincheira de oposição à ditadura, principalmente depois do AI-5.O Pasquim passou, então, a
ser porta-voz da indignação social brasileira. O semanário em formato tabloide chegou a ter
uma circulação de duzentos mil exemplares em seu auge, um verdadeiro fenômeno editorial.
Os baianos mantinham contato permanente com o Brasil, escreviam muito para a família.
Iam também muito a Paris, porque lá havia uma comunidade brasileira maior. Nessa época,
ficaram amigos da família de Violeta Arraes, que teve papel importante no acolhimento e
ajuda à comunidade brasileira. Ela era casada com um francês, Pierre, e recepcionava os
compatriotas que chegavam para viver no exílio, dando apoio e orientação a cada um. Sempre que Gil e Caetano iam a Paris, eram recebidos por ela.
As idas à França foram se tornando mais comuns por causa dos shows, especialmente para
Gil. Logo depois os destinos passaram a ser países como Alemanha, Suíça e Itália. Os baianos
recebiam muitas visitas de gente que passou a viajar do Brasil para a Europa para vê-los,
como Gal Costa, Roberto Carlos e muitos outros. Os amigos iam prestar solidariedade.
Gil aproveitou ao máximo a vivência na Swinging London, a Londres dos anos 1960 e
1970, culturalmente efervescente e inovadora em costumes. Ele e Caetano juntavam gente em
casa para tocar, conversar e foram fazendo amizades, como os integrantes do Incredible String
Band, uma banda alternativa de Londres. Assim, foram ampliando horizontes e conhecendo
mais gente, como Jim Capaldi, do grupo Traffic, David Gilmour, do Pink Floyd, os músicos
do Moody Blues. Gil enturmou-se com esse pessoal e começou a participar de jam sessions à
noite. Aqueles encontros influenciaram profundamente seu trabalho em Londres e
posteriormente no Brasil.
“Eu tocava. Às vezes levava meu violão, às vezes um bongô que eu tinha, brincava. Ia para o Speakeasy,
para o Revolution, para o Marquee, que eram lugares interessantes. Ronnie Scott, um saxofonista inglês de
jazz muito bem-relacionado com os grandes músicos americanos, tinha uma casa noturna que levava seu
nome e apresentava shows regulares de Miles Davis. Eu ia ver. A minha vida era essa, tocar, estudar inglês
para me familiarizar um pouco mais com a língua, e compor. Nossos primeiros discos eram todos com
músicas feitas lá, com várias canções que eu compus em inglês. Caetano também. Gravamos, ouvíamos
muita música, muitos discos ingleses, americanos. Era uma vivência intensa.”
Disco e filho no exílio
A Phillips (mais tarde mudou de nome para Polygram e atualmente é a Universal), uma das
maiores gravadoras da indústria fonográfica do mundo, já havia informado à filial inglesa que
os artistas brasileiros estavam numa situação de penúria e que era importante se aproximar
deles para ver o que era possível fazer. A Phillips de lá não se interessou muito, mas
apresentou Gil e Caetano ao músico inglês Ralph Mace, que estava começando como
produtor, depois de morar na Austrália muitos anos. Os dois começaram então a se preparar.
Convidaram alguns músicos. Macalé foi a Londres tocar com Caetano, Gil chamou Tutty
Moreno, Moacir Albuquerque, o Momo, além de três ou quatro músicos que foram para
Londres e se dividiram entre Gil e Caetano. Formaram dois grupos e começaram a preparar os
discos. Em Londres, Gil gravou um disco, e chegou a começar o segundo, mas acabou não
lançando porque coincidiu com a volta ao Brasil. Caetano gravou dois discos.
No Brasil, Gil havia gravado quatro LPs, depois daquele primeiro disco gravado em
Salvador quando fazia jingles. Sua produção musical profissional começara com Louvação, de 1967. Depois veio Gilberto Gil, de 1968 — que inclui “Domingo no parque” e
“Procissão” — e Tropicália ou Panis et Circencis , também de 1968, com vários outros
artistas. Finalmente, Gilberto Gil, 1969 — com “Cérebro eletrônico”, “Aquele abraço” e
“Volks-Volkswagen Blues”, entre outras. Os quatro discos foram lançados pela Universal. Em
Londres, pela mesma gravadora, Gil lançou Gilberto Gil, 1971.
O disco inglês foi gravado no Chappel’s Studios, em Londres, produzido por Ralph Mace,
com vocais de Steve Winwood e o baixo de Chris Bonett. Voz e guitarra são de Gil, assim
como todas as músicas, com exceção de “Can’t Find My Way Home”, de Steve Winwood. São
todas cantadas em inglês. As composições de Gil são “Nêga”, “Mamma”, “Volks-Volkswagen
Blues” e “One O’Clock Last Morning 20th April, 1970”, escritas em inglês. As outras foram
compostas com Jorge Mautner (“Crazy Pop Rock”, “Babylon” e “The Three Mushrooms”). A
fantástica versão cantada por Gil de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, de Lennon e
McCartney, que aparece numa segunda edição do disco, não foi gravada em Londres, e não
aparece no disco original. Assim como a instrumental “Up from the Skies”, de Jimi Hendrix,
que também só faz parte da segunda versão do disco lançada no Brasil somente em CD.
No segundo ano do exílio nasceu Pedro, o primeiro filho com Sandra e o terceiro de Gil,
que viria a morrer num acidente de carro, em 1990. O crescimento da família forçou a
primeira mudança de casa. Gil, Sandra e Pedro foram para um apartamento na famosa
Portobello Road, em Notting Hill, na época um bairro mais alternativo. Caetano e Dedé se
mudaram para perto, cerca de duas quadras dali, e Guilherme foi para outra casa.
Mais brasileiros iam chegando e se acomodando pelas redondezas, formando uma ampla
comunidade brasileira. Em Elgin Crescent, também na área de Notting Hill, havia também a
grande comunidade West Indian, de jamaicanos, e Gil começou a entrar em contato com a
cultura emergente do país em que o reggae, que tanto o influenciou, era o elemento central.
Havia o Mangrove, um restaurante jamaicano muito frequentado por Gil, que ficava perto de
sua casa. Ele ia sempre a pé saborear a comida típica, que tinha feijão, banana frita, aquela
soul food apreciada por Gil e tão parecida com as comidas brasileiras.
Nessa época, Gil já era adepto da alimentação macrobiótica. Quando voltou ao Brasil, em
1973, deu uma entrevista à revista Superpop, em que dizia que os animais haviam sido feitos
para comer vegetal. “As feras é que são diferentes. Este instinto de matar para comer é
somente para feras. Fora isso, há bases científicas suficientes para não se comer carne.”
No final da Portobello Road havia algumas lojas de disco, com muita música de grupos da
Jamaica que começavam a surgir, em especial uma chamada Forbidden Fruit, uma espécie de
bric-a-brac, que também vendia outros objetos. Gil passou a ouvir tudo aquilo com muito interesse. Ele e Sandra saíam aos sábados pelas feiras com Pedro, que já começava a andar. E
chegou a tocar nas ruas para ajudar a um amigo.
“Lembro bem de um suíço que foi parar lá em casa, chamado Bruno, que tocava violão. Ele tinha saído da
casa dos pais em Zurique e foi para a Inglaterra. Ficava cada dia num lugar, às vezes dormia lá em casa,
outras na casa de algum outro brasileiro e, aos sábados, como precisava de dinheiro, ia para Portobelo
tocar e rodar o chapéu. Eu ia com ele, e quase todos os brasileiros que eram músicos, em geral, iam
também. Ficávamos tocando ali na rua, ele recolhia o dinheiro e arrumava sempre vinte, trinta libras que
davam para ele segurar até quatro dias. Era uma figura muito interessante.”
Além dos músicos, havia o pessoal de cinema, gente como a atriz Maria Gladys, que
também tinha viajado para Londres.
“A fauna era muito variada. Vieram os filmes dos meninos, do Julinho Bressane ( Memórias de um
estrangulador de louras e Amor louco, ambos de 1971), e do Sganzerla também (as filmagens de Rogério
Sganzerla nunca viraram filme, mas foram aproveitadas depois em dois documentários recentes que falam
dele — o do Joel Pizzini, Mr. Sganzerla , e o de Bruno Safadi, Belair). Era uma comunidade brasileira que
estava vivendo aquilo e convivendo.” Bressane e Sganzerla tinham criado no Brasil a Belair Filmes.
Drogas e rock ’n’ roll
Ao todo, Gil passou um ano em Chelsea e depois mais um ano em Portobelo. Mas a vida
começou a ficar muito agitada. Era muita loucura. Gil queria ficar mais afastado, sair daquele
frisson da comunidade brasileira que precisava se encontrar o tempo todo. Era a fase dos
ácidos lisérgicos (LSD) e do movimento psicodélico. “Nós tínhamos as famílias para cuidar e
nos afastamos no último ano, já caminhando para a volta.” Caetano e Dedé mudaram-se para
Golders Green, um bairro mais afastado, e Gil foi para Hampton Court, à margem do Tâmisa,
também mais distante, onde fica o castelo de Henrique VIII. Foram para sua casa Sandra,
Pedro e os baianos Tutty Moreno e Ina, sua mulher na época. Gil conhecia Tutty de Salvador,
no bairro da Graça, ainda adolescente. O irmão dele, Tatti Moreno, artista plástico muito
conhecido na Bahia, fez as esculturas dos orixás que estão no Dique, em Salvador. Só mais
tarde, de volta ao Brasil, é que Tutty conheceu a cantora e compositora Joyce, no Rio de
Janeiro, e casou-se com ela.
Gil em Paris
Com Georges Moustaki, em Paris.
Morador de Londres
Em Londres, com a mulher, Sandra, a sogra Wangry e o filho Pedro, Caetano e Dedé
Em Londres, com Caetano.
Em Paris, com Gal.
Uma das atividades frequentes eram os festivais de música, sobretudo na primavera e no
verão, que aconteciam em várias partes da Inglaterra. Havia o festival de Bath, o de
Glastonbury, e o famoso festival da ilha de Wight, que teve sua primeira edição em 1968. Para
a edição de 1969 do festival, Bob Dylan voltou à Inglaterra, depois de ter sido vaiado na
primeira vez que se apresentou no país, em 1966, com as guitarras elétricas da banda que
depois ganhou o nome de The Band.
Gil e Caetano foram para o festival da ilha de Wight especialmente para vê-lo. “Lembro
da gente em pé no meio daquela multidão enorme vendo o Bob Dylan tocando com The Band”,
conta Gil. Um ano depois, em agosto de 1970, aconteceu a terceira edição da ilha de Wight e
os baianos foram novamente. Era uma versão do tipo Woodstock, com duzentas ou trezentas
mil pessoas na ilha inglesa, à beira-mar, todos acampados em barracas e um palco enorme
com uma programação de cinco dias, com vários grupos se apresentando o dia inteiro,
começando ao meio-dia até meia-noite.
Nessa edição do festival, Gil e Caetano não só assistiram, mas se apresentaram com Gal
Costa, que também estava por lá, e os integrantes da banda de rock brasileira A Bolha. Um
repórter da versão americana da revista Rolling Stone assistiu à apresentação dos baianos e
ficou encantado: “Se não fosse aquele grupo de brasileiros que apareceu surpreendentemente,
o primeiro dia do festival não teria tido graça nenhuma. Comparado à espontaneidade e
criatividade deles tudo o mais parecia apenas psychedelic music”. Recentemente Gil ficou
sabendo que um inglês filmara a apresentação, que aparece no filme Tropicália, de Marcelo
Machado, lançado em 2012.
No último dia da programação, iam se apresentar ninguém menos que Joni Mitchell, às
quatro da tarde, e Miles Davis, às cinco e meia, acompanhado de Airto Moreira, o
percussionista brasileiro que tocava com o músico americano. Era a época do memorável
disco Bitches Brew, no qual Miles estava começando um trabalho mais experimental, que
introduzia um jazz aberto, cultivado por ele pelo resto da vida. Na plateia estavam Gil,
Sandra, Caetano, Dedé, “os meninos todos”.
Aconteceu, então, um encontro que transformou aquela noite em uma data memorável. Gil
conta:
“O Airto Moreira nos viu, estávamos bem próximos ao palco, falamos com ele de longe, e ele fez sinal para
que fôssemos ao backstage depois do show. Nós já tínhamos tocado um dia antes, tínhamos um salvo-
conduto, uma espécie de crachá do festival. Então fomos eu, Caetano e as meninas ao backstage depois
do show do Miles Davis e o Airto nos apresentou a ele. Jimi Hendrix se preparava para entrar no palco. O
Airto também nos apresentou e nós conversamos com ele durante uns cinco minutos”.
Naquele dia memorável, eles se encontraram com dois ícones da música americana, tanto
do rock, quanto do jazz. Gil achou Hendrix “um jovem normal”, sem sombra do mito. “Depois
que conversamos com ele, lembro do Caetano dizendo: ‘Ele parece um daqueles mulatinhos
de Santo (Amaro)’.”
Airto explicou quem eram os baianos e que estavam exilados por causa da ditadura. Em
seguida Hendrix entrou no palco, começou o show e Gil voltou, com Caetano, Dedé e Sandra,
para a plateia para vê-lo tocar. Naquele dia ele tinha voltado a tocar com a banda anglo-
americana de rock psicodélico formada em Londres em outubro de 1966 e com a qual gravou
a maior parte de suas músicas. Voltou a tocar com o baixista Billy Cox, o baterista Mitch
Mitchell, e relançou a Experience, a banda que havia sido desfeita em junho de 1969.
Hendrix se apresentou na ilha de Wight, viajou no dia seguinte para Hamburgo (uma
espécie de conexão europeia, tinha sido para os Beatles também, porque era muito receptiva
ao rock inglês), fez lá uma apresentação, deu uma canja num nightclub e voltou a Londres,
onde se hospedou no hotel Samarkand, número 22 da Lansdowne Crescent, em Notting Hill.
Lá Hendrix foi encontrado morto, em 18 de setembro de 1970, em circunstâncias até hoje não
esclarecidas, com os pulmões cheios de vinho. Muitos músicos daquela época exageravam na
bebida ou drogas. Muitos morreram de overdose, como Janis Joplin.
As drogas eram também uma forma de contestação. “Sexo, drogas e rock ’n’ roll” era o
jargão mais conhecido do movimento da contracultura que marcou as décadas de 1960 e 1970.
Os ácidos, principalmente o LSD, eram muito usados pelos jovens para aumentar a percepção
sensorial e alcançar um estado de euforia e liberdade que buscavam para viver sua filosofia
de “paz e amor”. Era uma maneira de confrontar os valores da sociedade. A maconha era a
mais popular, mas drogas mais pesadas como cocaína e heroína eram também muito
difundidas, principalmente entre artistas.
Em Londres, Gil experimentou ácido, mescalina, cogumelo e fazia “muitas viagens
lisérgicas”.
“Tudo aquilo. Eu me lembro na nossa casa ainda em Chelsea no primeiro ano, quando uns americanos
apareceram e nós tomamos uns ácidos. Fomos parar todos na cozinha de madrugada, e os americanos
começaram a ler o papel de parede como se fossem hieróglifos. Eles liam e aquilo fazia sentido para eles.”
Foram muitas “viagens”. Gil chegou a declarar que nessa fase tomou mais de cem ácidos.
“Era uma loucura! Uma noite havia uma turma enorme, dez ou 15 brasileiros, viajando de ácido. De repente
vimos materializar-se no meio da sala uma das pessoas que estavam no outro quarto. Nós nos assustamos
e aquela figura que se materializou como se fosse uma holografia no meio da sala se desvaneceu. Todos
corremos para o quarto, a figura estava lá. Foi um grande frisson, um ti-ti-ti...”
Manter o equilíbrio e a serenidade era um desafio diante da possibilidade de tantas
experiências.
“Era uma época incrível. Os festivais, as raves, festas que duravam noites inteiras, dias inteiros, tudo aquilo
era muito intenso, era uma vivência, um aprendizado muito grande, muito forte. E ao mesmo tempo
tínhamos de manter família, manter trabalho e a cabeça no lugar. Era tudo muito desafiador, mas muito
rico. Para mim foi uma experiência incrível que ajudou muito na questão da expansão do horizonte musical,
a coisa toda de querer um processo mais aventureiro com a música, mais experimental, de romper
barreiras, que deu em discos como Expresso 2222 quando eu voltei ao Brasil. Acho que foram elementos
que deram base de sustentação estética, de visão musical para os meus dez anos seguintes. É dali que
saíram as bases para Refazenda, Refavela, Realce, que marcaram a minha presença na música popular,
com aquele território demarcado de liberdade, de experimentação. Isso tudo vem, claro, do Tropicalismo,
mas a sequência em Londres foi fundamental.”
Nesse período em que esteve em Londres Gil foi também aos EUA pela primeira vez. Ele
foi convidado por um grupo de intelectuais brasileiros e americanos, ligados a Augusto Boal,
que organizou um evento para chamar a atenção da opinião pública americana para a violência
do regime militar brasileiro.
Nessa viagem finalmente conheceu João Gilberto em pessoa. João vivia naquela época,
em Nova York, com sua mulher, a cantora Miúcha. Ao chegar à cidade, Gil foi levado por
conhecidos como o artista plástico Hélio Oiticica e Jorge Salomão, que também estavam lá,
ao apartamento de João, no Greenwich Village. “Ele me acolheu com aquele jeitinho dele.
‘Sente aí.’” A conversa girou em torno da questão da macrobiótica, alimentação adotada por
Gil na época. “Ele queria saber como era aquilo. E me chamou para ir a um restaurante
macrobiótico que tinha ali perto para que eu explicasse tudo e mostrasse como funcionava
etc.” Foram várias vezes ao restaurante e experimentaram muitos pratos. “Já vi, eu sei o que é
macrobiótica”, disse João a Gil. Até que um dia, quando saíram de mais um almoço no
restaurante macrobiótico, passaram em frente a uma dessas lanchonetes tipicamente
americanas e João determinou: “Vamos comer um cachorro-quente”. Entraram, pediram dois
cachorros-quentes e comeram aquelas salsichas, sem culpa alguma.
O combinado era Gil fazer um show num teatro off Broadway, em Nova York, decorado
com uma instalação de Hélio Oiticica, que fez um tratamento cênico com água, pedras e outros
materiais. O baiano apresentou-se só, com o violão, por pelo menos duas semanas. Foi muito
bem-recebido pelos americanos e apresentado à cena musical novaiorquina. Na Big Apple
ficou cerca de três semanas, intensas e movimentadas. Era levado para festas onde estava
Andy Warhol ou de onde John Lennon havia saído minutos antes. Cada noite era um lugar
diferente com muitos artistas.
“Fui conhecendo gente, ia para os shows. Terminava minhas apresentações lá pelas onze da noite e
quando dava meia-noite a gente ia para as festas e os shows dos nightclubs, onde vários músicos se
apresentavam mais tarde. Conheci o Chick Corea nessa ocasião tocando num desses lugares. Foi um
período incrível. Foi quando me estabeleci definitivamente como músico no circuito mundial. Foi
fundamental, cheio de cores, amenas ou mais densas. Um período muito rico.”
De volta à terra natal
No terceiro ano em Londres, ainda em 1971, entra em perspectiva a questão da volta. A
vontade é grande, mas muitas são as dúvidas. Vai dar para voltar? Não vai dar para voltar?
Gil acompanhava as notícias, as intervenções feitas pelas famílias e pelos amigos junto aos
militares. Ele cada vez mais fazia shows em outros países como França, Alemanha, Suíça,
Portugal e Suécia. Algumas vezes acompanhado de sua banda — Chris Bonett (baixista,
inglês), Tutty (baterista, baiano) — e às vezes só com o violão.
Embora a vida e a sobrevivência estivessem razoavelmente garantidas, a ideia da volta
era primordial. Especialmente para Caetano. Sua família na Bahia se esforçava para conseguir
uma brecha para que ele pudesse voltar. Com o intuito de reconhecer o terreno, Caetano
decidiu ir ao Brasil para a comemoração dos quarenta anos de casamento de seus pais.
Conseguiu visto de um mês. Foi com Dedé e Sandra, em agosto de 1971, e Gil ficou em
Londres. Assim que chegou ao Rio de Janeiro, foi preso no aeroporto e levado para
interrogatório. Dedé foi do aeroporto direto para a casa de Maria Bethânia e, junto a outros
amigos, ficou aguardando sua chegada. O interrogatório durou seis horas. Os militares
queriam que Caetano fizesse uma música em louvor à construção da rodovia Transamazônica
e ele se recusou. Também exigiram que, neste mês de permanência no Brasil, ele não cortasse
o cabelo ou tirasse a barba, para aparentar “normalidade” e desfazer qualquer ideia de que os
militares estariam fazendo algum tipo de pressão.
Depois de fazer sondagens, gravar show com Gal Costa e João Gilberto, passar um tempo
na Bahia, Caetano voltou a Londres apenas para buscar suas coisas e retornar em seguida para
casa, o que fez no final de 1971. Gil voltou apenas no dia 14 de janeiro de 1972, com Sandra
e Pedro. A viagem de volta, é claro, foi tensa. Ao chegarem, foram recebidos pela família e os
amigos, como Capinan, Caetano e Gal, e foram para a casa de Bethânia, no Leblon, uma
cobertura que tinha uma pequena piscina. Eles e os amigos se meteram dentro da água e
ficaram ali o dia inteiro, conversando e relaxando.
Gil chegou em plena efervescência hippie, desembarcou no chamado Verão do Desbunde.
Maconha, calça saint-tropez, bustiê, saia comprida e rodada, sandálias, cabelos compridos,
túnicas indianas, a moda hippie se espalhava das dunas da Gal, na praia de Ipanema, às ladeiras de Santa Teresa. Naquele verão, Maria Bethânia permanecia em cartaz com o
espetáculo Rosa dos ventos, que havia estreado em 1971 e considerado um dos mais
carismáticos da sua carreira. Gal, eleita musa do Verão do Desbunde, estreara o show Gal a
todo vapor, também em 1971, que continuava em cartaz, transformando-se em programa
obrigatório da juventude “desbundada”. No final daquele ano, Gal e Gil montaram um show
despretensioso no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, chamado Até 73. Logo depois, os
dois passaram ainda uma temporada na Inglaterra e se apresentaram juntos pela Europa.
Nos primeiros dias da volta ao Brasil, Gil ficou no apartamento da avó de Sandra, no
Flamengo. Depois, Gil, Sandra e Pedro viajaram para Salvador, onde se instalaram numa casa
no Rio Vermelho. Somente meses depois, já em 1973, é que voltaram ao Rio de Janeiro e
alugaram uma casa no Leblon. Nesse mesmo ano, ocorreu uma das mais célebres cenas de
desafio à censura que imperava ainda no Brasil. A gravadora Polygram queria fazer um grande
evento com todos os seus artistas, uma espécie de encontro, na tentativa de se desvencilhar da
pecha de reduto de esquerdistas. Coube a Gil juntar-se a Chico Buarque com a missão de
compor e cantar uma música em dupla no show, que seria realizado no Centro de Convenções
do Anhembi, em São Paulo, entre 11 e 13 de maio de 1973. O evento se chamou Phono 73 e
contou com quase todo o elenco da gravadora, como Raul Seixas, Elis Regina, Gal Costa,
MPB-4, Caetano Veloso, Wilson Simonal e Jorge Ben. Gil e Chico fizeram a canção “Cálice”,
mostrada à censura (todas as canções eram apresentadas aos censores antes dos shows
naquela época) e considerada altamente subversiva. A sonoridade da palavra cálice remetia,
obviamente, a “cale-se”.
Sem crédito no Brasil
Quando Gil estava em Londres saía publicado no Brasil todo tipo de reportagem sobre os tropicalistas. A
revista Veja, na época ainda chamada de Veja e Leia, publicou matéria não assinada, em março de 1970,
em que criticava o inglês de Caetano e as roupas que eles usaram em um show no Royal Festival Hall, e
questionava o exílio dos dois: “Numa manobra promocional, anunciava-se no programa do show que
eles tinham sido presos no Brasil (o que é verdade) e que eram exilados políticos (o que não é verdade,
pois oficialmente não há inquéritos contra eles). As intenções da manobra eram claras: comover o
público”.
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
(“Cálice”)
A recomendação chegou antes do show para que não cantassem a música. Durante a
apresentação os microfones foram desligados assim que desobedeceram e começaram a
cantar. Gil e Chico passaram a fazer sinais de que os microfones estavam mudos e
continuaram assim mesmo, lançando a voz o mais que podiam. “Nós fizemos uma
desobediência civil.” Vez por outra, os microfones voltavam a funcionar e se podiam ouvir
trechos da canção cantados por Chico ou por Gil, conforme o microfone que estivesse aberto.
A cena está documentada em DVD, e o encontro registrado em disco.
Como o som da mesa de áudio permaneceu ligado, ficou gravado o que Chico disse:
“Estão me aporrinhando muito. Esse negócio de desligar o som não estava no programa.
Claro, estava no programa que eu não posso cantar a música (‘Cálice’) nem ‘Ana de
Amsterdam’. Não vou cantar nenhuma das duas. Mas desligar o som não precisava não”.
Depois cantou outras músicas e ao final de “Baioque”, quando saía do palco, gritou fora do
microfone, mas claramente: “Censura filha da puta!”
Em junho daquele mesmo ano, em entrevista à revista Super Pop, Gil comentou:
“A minha atitude no palco, ficando, ao invés de ir embora, foi uma atitude de espera, de não ação. Foi
minha, eu decidi. E não podia desgostar dela. Quando se toma alguma atitude, existe o medo de estar
errado. Errado perante a consciência do certo, do melhor. A verdade era o que eu tinha pra dizer, mas eu
não podia cantar. É aquela história: dai a César o que é de César. E eu dei a César, porque César exigia e
tinha que ser. As pessoas continuam a exigir o heroísmo. Mas tem muito heroísmo pra nada. Tem muita
gente tentando entrar na boca da fera, achando que tem forças pra quebrar os dentes dela, quando na
verdade não tem. Eu, quando não tenho forças para quebrar os dentes dela, peço à besta que não venha,
não avance”.
Jorge Mautner descreveu o episódio em seu texto da exposição Gil70:
“A cena mostra Gil sentado em uma cadeira bem defronte de Chico Buarque de Hollanda, que murmurava
e entoava a melodia da canção ‘Cálice’ sem poder cantar a letra enquanto Gil, bem à sua frente, gritava e
repetia, para não deixar dúvidas, a palavra ‘Cale-se, Cale-se’, no sentido de cale a sua boca, com a
sonoridade de ‘Cálice’. Bem, clareza maior não era nem seria necessária para se entender aquele recado
contra a censura”.
Era, então, o governo do general Garrastazu Médici, o mais repressivo da ditadura.
No rastro de sua irritação com a censura e a ditadura, em 1973 Gil fez um show na USP,
em São Paulo, protestando contra a morte de um estudante pela repressão. A fita com a
gravação desse show foi encontrada anos depois, em junho de 2003, e tornada pública. Em
1974, Gil e Sandra se mudaram para o Bairro Peixoto, em Copacabana, ao lado da rua onde
morava Milton Nascimento. Lá nasceu Preta Maria, segundo filho do casal. A vida se
restabelecia, Gil retomara o trabalho e a carreira.
O final do exílio em Londres trouxe de volta para o Brasil um Gil musicalmente mais rico,
com fortes influências do rock ’n’ roll inglês e americano, do reggae jamaicano, ainda inflado
pelos ventos tropicalistas, mas com muitas saudades das raízes brasileiras. Essa mistura
cimentou as bases para a vigorosa produção musical que se seguiu logo após a sua chegada.
Na volta de Londres, ele gravou, entre 1972 e 1975, os discos Expresso 2222 (1972),
Cidade do Salvador (1973) e Temporada de verão, gravado ao vivo, na Bahia, no Teatro Vila
Velha, entre 10 de janeiro e 22 de fevereiro de 1974, com Caetano e Gal. Logo depois, lançou
Gilberto Gil ao vivo (1974), Gil Jorge Ogum Xangô (1975), com Jorge Ben, e passou a se
dedicar a Refazenda, lançado também em 1975, e que Gil considera uma revisão de tudo até
então. Era a retomada pós-tropicalista.
O produtor e jornalista Marcelo Fróes, que dirigiu a produção da caixa de CDs de Gil
intitulada Palco, lançada em 2002, escreveu na apresentação da coleção:
“(...) o desejo de retornar aflorou e Gil redescobriu o baião, gravando ‘Eu só quero um xodó’ no início de
1973. Acompanhado do coautor da música, o sanfoneiro Dominguinhos, Gil lançou o compacto enquanto
preparava um novo álbum no novo estúdio de oito canais da Phonogram. Mas o disco acabou sendo
abandonado, ainda que tenha sido redescoberto e finalmente mixado para lançamento pela Universal
Music em 1999. ‘Ficou incompleto, com faixas muito longas. Não se completou... mas quando fui gravar
um novo disco de estúdio aproveitei ‘Essa é pra tocar no rádio’, gravada logo depois de ‘Eu só quero um
xodó’’, comenta Gil a respeito do álbum Cidade do Salvador — que indiretamente gerou Refazenda. Antes,
porém, após o abandono daquele primeiro disco Gil ainda lançou o compacto Maracatu atômico e o álbum
Gilberto Gil ao vivo, em 1974. No início de 1975, Gil e Jorge Ben encontraram-se no projeto Ogum Xangô.
Quando finalmente entrou em estúdio com sua banda em meados de 1975, Gil já sabia o que desejava.
Refazenda pintou como uma ideia de rever tudo, de voltar às raízes e de relembrar o sertão — com a
música que vinha a partir de Luiz Gonzaga, ligada mais ao pop nordestino do que às manifestações da
música folclórica. ‘No álbum Refazenda eu já trago a experiência com o violão ovation, com as novas
tecnologias e com os novos pedais, para tocar coisas mais ligadas ao original nordestino’, lembra Gil. ‘E o
acordeão de Dominguinhos serve para manter presente o espírito do baião’, complementa. ‘Eu vinha de
uma aproximação muito grande com o rock, mas dei marcha a ré e me afastei dessa ponta da seta,
voltando lá pro fundo da história. Não estava necessariamente solitário nisso, pois todo o pessoal que
estava começando — como Alceu Valença e Geraldinho Azevedo — estava de uma certa forma com um
compromisso com a música regional’, analisa Gil”.
Na temporada de shows do Refazenda, quando Gil se apresentava em Salvador, nasceu Maria, sua quinta filha, em 1976. Sandra foi para o hospital enquanto Gil ainda estava no
show. Gil acabou comprando uma casa em Salvador, onde passava os verões com a família
para depois voltar ao Rio de Janeiro. Caetano também fazia o mesmo. Gil viajou bastante pelo
Brasil, voltou à Europa em 1978, para se apresentar em Montreux, e começou a fazer
temporadas regulares lá todos os anos. A apresentação em Montreux, que inaugurou as noites
brasileiras no célebre festival, rendeu outro disco — Gilberto Gil ao vivo em Montreux —
com músicas como “Chuck Berry Fields Forever”, “Chororó”, “Batmakumba”. No encarte da
caixa Palco, o crítico Tárik de Souza afirmou:
“Além de ter os sons à flor da pele, o músico precisa dos poros abertos aos fluidos da plateia. Gilberto Gil
sempre exercitou com precisão essas suas aptidões básicas. E no 12º Festival Internacional de Jazz de
Montreux fez de quase quatro mil suíços outros tantos foliões baianos, aos pulos, atrás de seu trio elétrico
eclético”.
Novos baianos
Logo depois de lançar seu disco Refazenda e ainda em meio à temporada de shows, Gil se
lançaria em mais uma empreitada musical ousada com o grupo de amigos baianos com quem
começara. Em 1976, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Gal Costa e Caetano Veloso completariam
dez anos de suas carreiras individuais, iniciadas na mesma época em Salvador. Para
comemorar, decidiram acatar a ideia de Caetano de formar um conjunto que se chamaria
Doces Bárbaros e se apresentaria em junho daquele ano nas principais capitais brasileiras,
com repertório novo e especial para a ocasião. O nome do grupo surgiu de uma conversa entre
Caetano e Mautner na praia, quando Mautner disse: “Temos que invadir Nova York e seremos
os mais doces dos bárbaros”. Antes disso, O Pasquim já tinha se referido ao grupo como “os
Baihunos”, referindo-se aos “hunos” que “invadiram” sua praia de Ipanema. Aí, foi juntar uma
coisa com a outra.
Mesmo depois que todos saíram de Salvador, Gil, Caetano, Gal e Bethânia continuaram
sempre muito ligados. Acabaram indo morar no Rio de Janeiro e, apesar dos compromissos,
mantinham uma relação de amizade. Bethânia e Gal gravavam um disco todo ano, e pediam
música nova. Gil e Caetano sempre mostravam as novidades para as duas. Havia uma troca
permanente fundamentada no interesse comum, a canção, o disco, a música.
Gal salientou a sincronia dos quatro em uma entrevista à revista Florense, em outubro de
2005:
“Gil disse uma vez que nós quatro, Gil, Bethânia, Caetano e eu, somos um. Os Doces Bárbaros. As quatro
entidades são independentes, mas juntas formamos uma entidade única. Somos os quatro fortemente
espiritualizados. Temos uma estranha comunhão de espírito. Juntos, formamos uma quarta energia”.
Gil destaca a postura de Caetano, sempre puxando os outros:
“É sempre ele quem puxa o farrancho, como se diz na Bahia, ele é o porta-bandeira, está sempre
propondo as coisas porque tem esse senso, ele é o herói na noção mais profunda do significado de herói.
Ele disse: ‘Vamos falar com Gal e com Bethânia’. Então, pensamos em criar um repertório. Eu estava
fazendo o show Refazenda, no Senac, em Salvador. Todo dia eu voltava do show e fazia uma música.
Foram saindo várias, ‘Esotérico’ foi assim. Durante sete dias seguidos fazia o show e depois uma canção
inteira. Caetano também foi fazendo, trocando ideias e saiu o repertório”.
Para Gil, o fato de estarem completando dez anos de carreira era um gancho importante.
“Caetano estava sempre procurando um pretexto para manifestar mais uma vez nossa
diferença, nossa especialidade, o fato de sermos baianos, o que isso significa, e o fato de
pertencermos àquela geração dos filhos da bossa nova.” Das vinte músicas do repertório,
apenas três não eram inéditas: “Fé cega, faca amolada”, de Milton Nascimento e Ronaldo
Bastos, “Atiraste uma pedra”, de Herivelto Martins, e “Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi.
Em maio, antes da estreia, o grupo começou a gravar um disco, mas acabou lançando um
compacto duplo, com quatro faixas, cada uma cantada por um deles. Em 24 de junho de 1976,
o show Os doces bárbaros estreou com sucesso em São Paulo, no Palácio de Convenções do
Anhembi, com Gil como diretor musical do grupo. A excursão Os doces bárbaros iria
percorrer mais de dez cidades e tudo seria registrado em um álbum duplo, que saiu no final
daquele ano.
Mas em julho, durante a temporada do show em Florianópolis, e após as apresentações em
Campinas e Curitiba, o grupo se envolveu num incidente policial, com a Delegacia de Tóxicos
de Florianópolis. Gil e o baterista Chiquinho Azevedo foram presos no dia 7 por porte de
maconha e recolhidos à cadeia pública. Todo esforço foi feito para que os dois fossem
libertados e o show pudesse continuar, mas sem sucesso.
Gil achou que podia ser uma ação do governo, um pretexto para nova repressão. Mas
todos perceberam logo que era um incidente puramente local e provinciano. O delegado que o
prendeu, Elói Gonçalves de Azevedo, era conhecido por perseguir surfistas e maconheiros.
“Fui preso de novo. Mas dessa vez eu queria transgredir as regras. Cometer o pequeno crime de utilizar
uma substância proibida, aquilo se sustentava num lastro de desobediência civil. Fazia aquilo em nome de
uma inovação, uma renovação de hábitos. Fumar maconha podia ser contravenção, mas era também uma
manifestação de amor à liberdade, ao arrojo, à aventura, à inovação. Eu me sustentava nisso. No interesse
social, cultural, na experiência de transformação de status mental. Foi chato, mas eu estava bem, sabia que
estava certo. As manifestações eram todas de apoio. Pai, mãe, amigos. Recebi uma carta de uma freira do
Amazonas, dizendo ‘é isso mesmo, meu filho, você está certo, não tem nada de absurdo nisso, não se
avexe, não se abata. Estou rezando por você, Deus está com você’. Todos compreendiam aquilo como ato
excessivo da polícia. Acho que era uma coisa mesmo daquele delegado, resíduos da ditadura. Era a coisa
dele.”
Dias depois da prisão, foi determinada a internação dos dois músicos no Instituto
Psiquiátrico São José, próximo a Florianópolis, onde ficaram uns dez dias. De lá, saíram para
o Rio de Janeiro, no dia 20 de julho, para se submeterem a tratamento no Sanatório Botafogo.
“No Rio fiquei internado um mês. (Carlos Heitor) Cony foi me visitar, fez uma crônica. Eu
tinha que ficar lá, internado para tratamento: detox, rehab, no, no, no”, diz Gil, rindo muito.
“Mas aquilo acabou com o projeto dos Doces Bárbaros. Tivemos que esperar aquele mês
passar e aí fizemos a temporada no Canecão.” A turnê terminou, de fato, em Florianópolis.
Chico Buarque costuma dizer que Gil não tem medo de nada, que ele é muito engraçado,
mas leva tudo muito a sério. Caetano atesta que ele sempre foi firme em todos os momentos
difíceis. Mas, depois de aguentar a prisão, o interrogatório surrealista na delegacia de
Florianópolis e a internação no Rio Janeiro, Gil teve um acesso de choro quando, finalmente,
chegou em casa.
Os shows dos Doces Bárbaros reiniciaram alguns meses depois, no Rio de Janeiro. O
álbum da Philips lançado no final da temporada foi gravado ao vivo durante a primeira
semana de shows no Canecão, que durante dois meses teve sua lotação esgotada todas as
noites.
Para o crítico e compositor José Miguel Wisnik, os Doces Bárbaros foi uma epifania. Em
crítica publicada em julho de 1976 no jornal Movimento, Wisnik escreveu:
“Predomina o canto em uníssono forte, às vezes com a redescoberta do sabor das vocalizações tradicionais
em terças, como acontece em ‘O seu amor’ (...) Solos, duetos, quartetos exibem o conjunto e cada um
com sua fisionomia própria: Gil, sátiro, gnomo, pirata nagô, cobra; Gal, ágil como peixe; Bethânia, fortaleza
com a finura vertical do estilo gótico; Caetano, modesto, digno e tudo mais”.
As cenas da prisão, o interrogatório na delegacia, a reação de Gil e ainda todo o show do
Canecão foram filmados pelo diretor Jom Tob Azulay e estão registradas no filme Os doces
bárbaros, que ele relançou em 2004 sem os cortes exigidos na época pela censura.
Na época, a imprensa foi dura com a proposta dos Doces Bárbaros. Entre outras críticas,
“acusavam” os baianos de terem se lançado num projeto puramente comercial. Jom Tob reage:
“Como explicar que um projeto cultural de tão amplas implicações e sentidos culturais,
comportamentais e estéticos pudesse ter sido gerado a partir de uma iniciativa meramente
comercial e empresarial?”
Numa entrevista que deu à revista Manchete, em junho de 1977, e que levava o título “Pra
cá de Marrakesh”, Caetano respondeu sem vacilar, quando perguntaram qual teria sido sua maior experiência artística naqueles 14 anos de estrada:
“Sem dúvida, os Doces Bárbaros. Certos críticos não esperavam aquilo, mas aquela era nossa proposição.
A ideia era minha. Juntar Gal, Gil e eu. Fiquei assustado quando Bethânia resolveu entrar. E principalmente
voltar a trabalhar com Gil. Repare que da nossa constância de coleguismo não resultaram muitos frutos. Eu
tenho poucos trabalhos ao lado de Gil. Nos Bárbaros, trabalhamos mais juntos. Mas o que mais importa
desse encontro é a massa de realização e a criação. Dita e cantada por nós quatro. A transa da relação,
sem parar para pensar muito. Nós ali, agora. Esse era o espírito. E esse espírito passou. O disco poderia ter
ficado melhor. Eu e Gil éramos contra o tal calor da gravação ao vivo. Transas musicais poderiam estar
melhor registradas se contássemos com a ajuda do estúdio. Mas Gal e Bethânia foram contra” — e
Caetano sorri malandramente — “aí você sabe... ladies first. De qualquer forma, esse disco é um momento,
um documento sério”.
Passada a tormenta e a alegria da volta ao palco com os Doces Bárbaros, Gil voltou a
fazer o show Refazenda, que o levou a 58 cidades brasileiras.