Gilberto Bem Perto

Gilberto Gil · Capítulo 3 de 13

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Gilberto Bem Perto

Capitulo 2: Juventude em Salvador e o encontro com Caetano, Bethânia e Gal “A Bahia já me deu régua e compasso”

Capitulo 2">

“Quando eu tinha cerca de dez anos, uma reflexão que hoje considero de ordem filosofal me habitou por

muito tempo. Eu morava em Salvador, numa casa cuja porta da frente dava para uma rua onde passava o

bonde e os fundos para um vale, por onde o bonde seguia, vários quilômetros depois. O bonde passava na

frente de casa, ia para o largo dos Quinze Mistérios, descia a ladeira e passava por aquele vale. Durante

muitos anos eu me dava a esse exercício quase diariamente. Ia para a porta da rua olhar o bonde passar.

Saía dali e ia para os fundos, ficava esperando lá, para ver se ele viria ou não, se o tempo congelava ou não,

se a realidade se mantinha tal qual ela tinha se manifestado nas vezes anteriores até então. Diante daquilo

tudo, queria saber se eu era a mesma pessoa, se alguma coisa em mim teria se transformado a ponto de

poder mudar aquele fenômeno permanente. Eram questões ligadas ao ser e ao nada, ao ser e ao tempo. As

crianças têm essa reflexão naturalmente, mas isso que vai se perdendo porque o mundo exige que o

pensamento se torne lógico, racional e cartesiano. Eu sou metafísico. Isso vem, mais adiante, se tornar um

dos temas fundamentais da minha música.”

 

Gil, a irmã, Gildina, e o pai, José Gil.

JUVENTUDE EM SALVADOR E O

 

ENCONTRO COM CAETANO, BETHÂNIA

 

E GAL

 

“A Bahia já me deu régua e compasso”

“Aquele abraço”

 

Até se mudar para Salvador, aos nove anos, Gil não tinha conhecido o peso da discriminação

por ser negro. Em Ituaçu, cidade basicamente constituída por uma classe média miscigenada,

ele cresceu protegido, sem perceber que no mundo “lá fora” muitas vezes as pessoas poderiam

ser julgadas ou maltratadas por causa da cor da pele. Mas, com o primário concluído em casa,

era tempo de ir para a escola. Os pais decidiram que Gil iria para Salvador para cursar o

ginásio no colégio Marista Nossa Senhora da Vitória, onde estudou do admissão até o final do

colegial (hoje Ensino Médio), entre 1952 e 1959. Foi ali que Gil tomou consciência, pela

primeira vez, da cor da sua pele e de como esse detalhe até então sem importância poderia

provocar reações agressivas e até cruéis. O primeiro choque veio em sala de aula, quando

começou a fazer uma pergunta a um professor e este, de forma bruta, o interrompeu: “Cala a

boca, seu negro boçal”. No entanto, a discriminação foi um fato raro e não uma regra.

Anos mais tarde, em outubro de 1969, numa entrevista ao jornal carioca O Pasquim, ele

diria:

“Não sou um cara incluído no que se chama de ‘consciência da nacionalidade negra’. Na verdade, nunca

senti o problema da marginalização do negro. Nunca fui obrigado a uma tomada de consciência das

diferenças entre o negro e o branco. Digo tomada de consciência visceral. Não me sensibilizo muito com

isso porque sempre fui, no Brasil, uma pessoa pertencente à classe média alta e sempre tive acesso a

coisas que brancos, amarelos, pardos, azuis têm”.

 

Claudina chorou ao mandar os filhos para Salvador, mas não havia curso ginasial em

Ituaçu e era preciso que eles frequentassem um colégio. Então, acompanhado da avó e da irmã

(Gildina foi para um colégio de freiras), Gil se mudou para a capital baiana. O endereço era a

casa da tia Margarida, na rua dos Marchantes, nº 11, no bairro colonial de Santo Antônio —

onde ficavam as igrejas mais antigas, o Convento do Carmo, onde estavam as fundações da

cidade. Voltava para a casa dos pais apenas nas férias.

A viagem de Ituaçu para Salvador não era nada simples. Mas a família estava acostumada

a se deslocar todos os anos para a capital. Nas primeiras viagens, saíam de casa às três da

manhã, andavam pouco mais de vinte quilômetros em carro de boi até Tanhaçu — onde ficava

a estação ferroviária —, distrito de Ituaçu que ficava ao sul, também na Chapada da

Diamantina, dentro do polígono das secas. Esperavam na estação e pegavam o trem que vinha

de Montes Claros, Minas Gerais, e ia parando em cidades como Cacolé, Caitité e Brumado. Já

no estado da Bahia, o trem passava por Tanhaçu e dali seguia para Contendas, Machado

Portela, até chegar a São Félix-Cachoeira. Dali embarcavam no Vapor de Cachoeira ,

embarcação que navegava pelo rio Paraguaçu até entrar na Baía de Todos os Santos, onde

desemboca o rio. Seguiam de navio até o porto de Salvador. Depois, quando o menino já tinha

uns dois anos, começaram a surgir as camionetes e os carros, que passaram a substituir o carro

de boi no trajeto de Ituaçu a Tanhaçu. Assim como surgiram os carros em Ituaçu, surgiu

também uma ligação de trem por uma pequena ponte, a ponte de Mapele, que ligava Salvador

ao Recôncavo, e permitiu, então, que o trem chegasse até a capital.

Em Salvador começou uma nova e crucial etapa da vida de Gil. “Quem eu sou define-se

aí”, costuma dizer. Os primeiros contatos com o mundo fora do universo doméstico foram de

terror e alegria. O pré-adolescente, que nunca tinha estudado numa escola, sentiu o impacto de

ter de encarar o ensino formal. Os primeiros meses no colégio, os novos amigos, os medos, os

enfrentamentos marcaram esta fase.

“É na adolescência em Salvador que aparece a pessoa, propriamente dita, diante das outras pessoas. A

cidade exige isso, essa caracterização da individualidade, que você comece a ter noção do que quer ser na

vida. Tudo se configura ali em Salvador.”

 

Os sentimentos se misturavam. A convivência com os meninos da cidade, mais espertos e

vividos, trazia um misto de felicidade, ansiedade e receio. A algazarra daquela multidão de

garotos quase fez Gil desmaiar no primeiro dia de aula.

“Era a primeira vez na vida que eu ia para uma escola. O primeiro dia foi aterrador, uma aflição imensa, uma

agonia, porque os colegas, os meninos da cidade — muitos do interior também, mas a maioria deles de

Salvador — eram espertos, danados, e eu apavorado com aquilo tudo.”

 

O colégio dos irmãos Maristas era enorme, com pelo menos quinhentos alunos, e ficava no

bairro do Canela, próximo ao centro. Era preciso tomar dois bondes, um do Santo Antônio até

a Praça Municipal, no centro, e outro até o Canela. No início, tia Margarida levava o menino

Gilberto de manhã cedo e buscava ao meio-dia. Só depois na 3ª série é que Gil passou a ir

sozinho para a escola. “Ela tinha responsabilidade diante da minha avó, diante de minha mãe e

do meu pai.” Margarida era irmã de Zeca e também foi criada por Lídia quando os pais

morreram. Era como se fossem mãe e filha. Nenhuma das duas se casou: Lídia e Margarida

viveram para cuidar da família. Já Gildina foi para o colégio das freiras Sacramentinas, só

para meninas. Nunca estudou no Marista, que era um colégio exclusivamente masculino na

época. Depois que se tornou misto, Nara, filha mais velha de Gil, chegou a estudar lá.

Aos poucos, ele foi se adaptando àquela imensa comunidade de meninos, uma grande

novidade para o garoto criado em Ituaçu. Difícil mesmo foi ter que mudar de um modelo de

aprendizado lúdico com a avó para um método mais formal e disciplinador. Teve que

aprender em poucas semanas a se comportar como os outros, que desde muito pequenos

estavam na escola. Deu duro para criar uma rotina de estudos, estabelecer os horários para

estudar história, geografia, matemática, português, espanhol, francês, inglês e latim. Nas aulas,

tinha interesse por geografia e, sobretudo, história, algo que já vinha da infância, quando lia o

Tesouro da juventude.

Gil se lembra com carinho de alguns professores, como o irmão Aventino, diretor dos

internos, irmão Gilberto e irmão Bernardo, que eram também irmãos de sangue, e irmão

Cirilo, o diretor do colégio. Eles eram mais populares, porque se dedicavam a cultivar a

prática esportiva nos alunos. Os maristas contavam com cinco campos de futebol: o dos

meninos, o dos intermediários, o campo de futebol dos maiores e o campo oficial da escola,

onde a seleção do colégio recebia a seleção das outras escolas e se disputavam os torneios.

Lá praticavam-se futebol, vôlei, basquete, atletismo, salto em altura e salto em distância.

Entre uma aula e outra, Gil fez muitos amigos. Nos primeiros anos, seu companheiro de

todas as horas era Guilherme Furtado. Mais tarde, vieram os outros: Luiz Ariel e uma coleção

de Sérgios — Sérgio Barbosa, Sérgio Lacerda, Sérgio Gaudenzi. Todos iam à casa da tia

Margarida para estudar em grupo e “fazer as bolsas”, como eram chamadas as lições de casa.

Gil frequentava bastante a casa do Barbosa, em Matatua, do Gaudenzi, no Canela, próximo ao

colégio, e do Luiz Ariel, no Acupe de Brotas. Cada um se sobressaía em um esporte. “Eu era

bom em basquete e salto em distância, mas péssimo no vôlei, no futebol e no salto em altura.”

Caetano e Gil, uma espécie de entidade

 

“Caetano é o irmão que não tive”, define Gil. O músico suíço Walter Smetak, que era amigo dos dois,

dizia que Gil e Caetano eram gêmeos espirituais, como se tivessem nascido do mesmo útero. “É um

pouco assim até hoje, a gente não consegue se separar. Sou muito afinado com o pensamento dele e

ele é muito afinado com o meu sentimento. Então ele toma conta da racionalidade e eu tomo conta da

emoção”, diz Gil. Em seu livro Verdade tropical, Caetano assegura que ele e Gil juntos constituem “uma

espécie de entidade”. Mas os dois fizeram poucos trabalhos juntos: Tropicália ou Panis et Circencis

(1968), Barra 69 (1972), Temporada de verão (1974), Doces bárbaros (1976) e Tropicália 2 (1993).

 

A vez da música

 

Os estudos e o esporte, porém, não ocupavam todo o seu tempo. Assim que chegou a Salvador,

dona Claudina fez questão que o filho, então com dez anos, fosse estudar acordeão. Com a

autorização do marido, deu a ele o instrumento e antes de voltar o matriculou na academia de

música. Claudina já tinha percebido a admiração do filho por Luiz Gonzaga. Além disso, as

escolas de acordeão eram as únicas na época que contemplavam a música popular. Gil

estudou por quatro anos e formou-se acordeonista com um professor espanhol, chamado José

Benito Colmenero. Foi apresentado por ele à teoria musical e começou a tocar. Por volta dos

13 anos, Gil já interpretava vários autores populares, além do mundo “semiclássico” do

acordeão.

A moda do acordeão naquele tempo tomou conta do Brasil. Um dos grandes responsáveis

por isso foi Luiz Gonzaga, mas também contribuiu a presença forte da música caipira, das

duplas, em que o acordeão tinha um papel importante, não só no Nordeste, mas no Paraná, no

Rio Grande do Sul e em Goiás, entre outras regiões.

Grandes intérpretes do folk brasileiro – como Adelaide Chiozzo ou Inezita Barroso em

São Paulo – estavam associados ao acordeão, que se espalhou pelo país também por força de

uma associação com as músicas alemã, húngara e polonesa, trazidas pelos imigrantes. “Mas a

grande força inovadora veio com Luiz Gonzaga, que inventou um acordeão para o Brasil, para

uma música propriamente brasileira, para o baião, para o xaxado, para o xote”, comenta Gil.

Gonzaga era seu ícone, o grande ídolo. No começo era uma paixão platônica, porque os

ídolos não tinham rosto, eles eram todos “transportados” pelo rádio. Gil só conhecia o áudio

do Rei do Baião, mas procurava as letras das canções que ouvia para decorar e poder cantar.

“Aos poucos, porém, foram chegando as imagens, os retratos nas revistas e nos jornais, e ídolos como ele passam a ser mais reais.”

O colégio também fez parte do aprendizado musical de Gil. Havia aula de música e canto

orfeônico, com corais de cada sala de aula e o coral principal, que se apresentava em

competições com outras escolas. Aos 15 anos, começou a tocar acordeão e cantar no Bando

Alegre, o grupo musical dos maristas.

 

Salvador era uma festa

 

No mais, o tempo corria entre as aulas e a vida de bairro, a amizade com os colegas, os

vizinhos e o fascínio pelos malandros das redondezas, que Gil admirava a distância. “Tia

Margarida não permitia que eu me aproximasse daqueles sujeitos considerados marginais, que

causavam sensação entre os garotos do bairro e despertavam inveja pela liberdade que tinham

de ir e vir.” Os marinheiros também eram alvos da curiosidade do menino, encantado com as

histórias contadas por eles em meio às talagadas de cerveja nos bares de Santo Antônio,

sobretudo no bar do Manolo, onde Gil e seus amigos espiavam o movimento e ouviam os

relatos.

Houve uma ou outra escapada mais ousada, mas os programas eram quase todos feitos

dentro do bairro, a não ser quando os garotos saíam para dançar a quadrilha nas festas juninas

na Ribeira ou no Barbalho. De resto, havia as festas com a música de Bienvenido Granda —

cantor cubano de boleros e tangos que tinha o apelido de el bigode que canta — ou do famoso

conjunto também cubano La Sonora Matancera, que surgiu na década de 1920 na cidade de

Matanzas. Naquela época, a salsa e toda música cubana estavam na moda e os bailes também

incluíam os sambas, os boleros, os discos do pianista e compositor Waldir Calmon, grande

sucesso nos anos 1950. Tocavam também o Trio Surdina, formado por Garoto, Chiquinho do

Acordeom e Fafá Lemos, que apresentava na Rádio Nacional clássicos americanos como

“Moonlight Serenade”, boleros como “Solamente una vez”, as músicas de Ary Barroso ou

canções como “Duas contas”, do próprio Garoto, e toda a música pop brasileira que surgia

com a Rádio Nacional.

Até então as festas de classe média que Gil frequentava eram animadas pela vitrola e os

meninos que tinham bandas tocavam em outras paragens. Embora o rock ’n’ roll fosse mais

acessível ao pessoal da classe alta, que morava na Barra, na Graça, nos bairros onde as

pessoas podiam importar os discos, Gil foi “apresentado” aos americanos Elvis Presley, Pat

Boone, Teddy Randazzo e Doris Day. Mas o que chegava mesmo aos seus ouvidos nessa

época era o mundo dos conjuntos vocais, como o Quatro Ases e um Coringa, o Trio Nagô, o

Trio Irakitan, aqueles grupos brasileiros quase todos formados por nordestinos que viviam no Rio de Janeiro e em São Paulo.

O bairro de Santo Antônio era festeiro, como toda a Salvador, e não precisava ser

aniversário de ninguém para ter festa nas casas, com os discos na vitrola convidando a

vizinhança a dançar. Na memória de Gil, Salvador era sempre uma alegria. As festas mais

expressivas do sincretismo brasileiro e os famosos carurus, organizados pelas famílias para

homenagear os santos e orixás, aconteciam quase o ano inteiro. Era tudo misturado. Uma parte

importante da população do bairro de Santo Antônio, por exemplo, era de árabes.

Comerciantes, donos dos armazéns, das lojas de tecidos e de secos e molhados, eles davam

grandes festas, os maiores carurus, como na casa dos Fael ou dos Issa. “Era o candomblé na

rua, nas casas, os orixás, as devoções, como a de Cosme e Damião, tudo sincretizado. As

festas católicas acabavam no candomblé por causa do sincretismo. Aquela mistura, Senhor do

Bonfim e Oxalá.”

As poucas casas com bandeiras brancas sinalizavam discretamente que ali se praticava o

candomblé, porque embora Cosme e Damião, Senhor do Bonfim ou Oxalá se misturassem às

festas católicas, a devoção aos orixás ainda era uma atividade proibida e bastante

marginalizada. Era preciso ter autorização da polícia para praticar o candomblé, o que só

acabou em dezembro de 1975, com a lei federal nº 6.292, que passou a proteger os terreiros

em todo o país contra qualquer tipo de alteração de sua formação material ou imaterial.

Naquele tempo, Gil ia à missa na igreja católica e fazia as orações diárias no colégio, no

início e no final de cada aula. Ele levava sua fé a sério, apesar de nunca ter sido carola,

porque interessavam a ele as coisas do mundo, a música, a diversão, a festa, a salsa, a rumba.

No domingo era natural ir à missa, até pela proximidade das igrejas do centro histórico de

Salvador. Gil acompanhava todas as procissões, principalmente a da Sexta-feira da Paixão. Ia

à igreja na festa da Páscoa e no Domingo de Ramos.

“Aquilo era uma festa enorme. E ouso dizer que Santo Antônio era o bairro central da cidade, a

centralidade cultural de Salvador, com a praça da Sé, o largo do Terreiro, o Pelourinho, o largo de Santo

Antônio. Tudo isso dava continuidade ao largo onde ficava a Praça Municipal, o centro cívico e político da

cidade, passando pelo largo do Terreiro, Ladeira do Carmo, Convento do Carmo, rua Direita do Santo

Antônio. A vida pulsava ali. Era ali o Natal, a Semana Santa, o são João, o Carnaval. Foi lá que nasceram o

bloco Filhos de Gandhy e os grandes blocos carnavalescos. É a origem dos blocos de abadá, dos trios

elétricos. Era a centralidade absoluta”, lembra.

 

A relação de Gil com o candomblé nessa fase da vida era quase nenhuma. Ele tinha

chegado de Ituaçu, onde nunca tinha ouvido falar de candomblé, e foi direto para o colégio

Marista, vivendo num círculo de relações ligadas a religiões confessionais. Observava apenas

de longe as famílias negras e pobres, algumas de classe média, que seguiam a religião. O candomblé estava à margem e a maioria de seus seguidores morava na periferia. Ele não fazia

ainda a associação entre o candomblé e o Carnaval, não sabia ainda que o Filhos de Gandhy

tinha sido formado por gente como estivadores das docas de Salvador, todos egressos das

comunidades afro-brasileiras ligadas ao candomblé nas periferias da cidade. “Tudo isso só

fui saber depois do exílio. A primeira vez que entrei num terreiro de candomblé foi quando

voltei de Londres.”

Apesar de também pertencerem à classe média católica, cujo mundo ritualístico estava

associado às igrejas, às festas religiosas e à Nossa Senhora, Caetano Veloso e Maria Bethânia

tiveram uma aproximação maior com o candomblé por serem de Santo Amaro da Purificação,

uma cidade de negros e ex-escravos, no centro da cultura da cana-de-açúcar.

“Era um interior diferente do meu, o meu interior era o interior da caatinga, da cultura do couro, do gado,

do boiadeiro, e o deles era o da cultura do Recôncavo Baiano, a cultura do dendê, a que eu só vou ter

acesso depois, a partir dos primeiros anos em Salvador, através da culinária, das festas.”

 

Mesmo assim, o culto aos orixás não estava nas origens familiares nem de Gil, nem de

Caetano, Bethânia ou Gal.

“Bethânia só entrou no candomblé pelas mãos de Mãe Menininha, e Gal a mesma coisa, eu também. Fui

muito levado pelo interesse em me aproximar do mundo descrito nos livros de Jorge Amado, que veio com

a vida universitária, com a sociologia e a antropologia.”

 

Nas ondas do rádio

 

Em meio às aulas, a música foi se apossando da alma do adolescente aos poucos. Em seu

bairro, todos sabiam que Gil tocava acordeão amadoristicamente, em casa e na casa de

amigos. Até que um dia a música ganhou um significado diferente. “É que Hamilton, filho do

professor Álvaro e irmão de Haroldo, tinha um conjunto vocal em Salvador, lá do bairro de

Santo Antônio, chamado Quarteto Uirapuru, que depois se tornou Os Irapuãs”, relembra Gil. O

grupo tornou-se conhecido na cidade porque participava de programas da Rádio Sociedade e

conseguiu gravar um disco ou dois. Como seus integrantes eram do bairro, sabiam que Gil

tocava acordeão porque passavam pela porta da sua casa quando ele estava ensaiando à noite

ou quando se apresentava em alguma festa de aniversário. “Eu tocava de tudo, a começar

pelos baiões de Luiz Gonzaga, e depois Dorival Caymmi e os sambas-canções clássicos.”

O quarteto já fazia anúncios profissionalmente e Hamilton convidou Gil para gravar um

jingle na rádio, tocando acordeão. Tinha, então, 15 anos e o violão ainda não havia entrado em

sua vida. Foi assim que encontrou Jorge Santos, que tinha uma pequena agência de

publicidade, na qual criava os “reclames” com as marcas comerciais de alimentos, biscoitos Águia Central, café. “O encontro com Jorge Santos foi importante para mim.” Antes de abrir

sua agência de publicidade e, em seguida, sua produtora, em 1959, Jorge Santos trabalhara

como pianista na Rádio Excelsior de Salvador. Ele apresentava o programa Caderno de

música, com artistas revelados pela Escola de Música da Bahia e pela Escola Nacional de

Música. Acabou ganhando um trabalho como locutor da rádio, com liberdade para

comercializar seus programas. Pouco depois, abriu um estúdio para gravar spots e jingles. Os

spots eram anúncios veiculados no rádio, com uma locução simples ou com duas ou mais

vozes, que podiam ter ou não efeitos sonoros e música de fundo. Os jingles eram mensagens

publicitárias musicais curtas com refrão simples lançadas no rádio e, mais tarde, na televisão.

A partir do convite, Gil começou a se relacionar com o mundo da música profissional.

Pela primeira vez, entrou num estúdio e gravou direto no acetato, com os microfones abertos.

Naquele tempo, o disco era gravado com uma máquina que utilizava como mídia um fio de

arame e que só registrava as altas frequências. Metade do som se perdia, portanto, a melhor

solução era gravar diretamente no acetato, que era frágil e por isso corria-se o risco de perder

a gravação. Os primeiros jingles da JS Discos foram gravados dessa maneira.

Gil se ocupava de fazer jingles esporádicos quando um fato virou o leme para outro lado,

brusca e profundamente. Da mesma maneira que outros grandes artistas de sua geração como

Caetano Veloso, Edu Lobo e Chico Buarque, Gil ouviu pelo rádio a voz que marcaria sua

trajetória para sempre. Era João Gilberto cantando “Chega de saudade”.

Alguns anos antes de o violão entrar na vida de Gil, em 1949, o baiano João Gilberto

havia se mudado para o Rio de Janeiro e lá foi chamado para substituir um dos rapazes do

Garotos da Lua, conjunto inspirado nos grupos vocais americanos que estreou em disco em

1946 e fazia apresentações na rádio Tupi. Alguém do conjunto o ouvira cantando na rádio em

Salvador e disse: “Esse rapaz pode entrar no grupo porque ele gosta de harmonia, gosta de

fazer vocais, canta diferente!” João entrou para o grupo em 1951, quando já estava no Rio de

Janeiro, mas sua permanência durou menos de um ano, devido a seus hábitos estranhos,

atrasos e faltas constantes.

Margarida. Um dia, por volta dos 16 anos, Gil chegou da escola e sentou-se à mesa para

almoçar com a irmã Gildina, a avó Lídia e a tia Margarida. Subitamente percebeu uma

“música estranha” tocando no rádio.

“Aquilo me chamou a atenção imediatamente. A tal ponto que quando terminou de tocar eu acabei de

almoçar eu fui correndo ao bar de Manolo, que era onde havia telefone. Na nossa casa ainda não tinha e

nem nas dos vizinhos próximos, então a gente ia telefonar do bar. Fui lá e procurei o telefone da Rádio

Bahia. Era a primeira rádio FM que chegava a Salvador. Tinha programações diferentes das clássicas

programações de rádio AM. Tocava três, quatro músicas seguidas e apresentava poucos comerciais —

aquele modelo FM. Liguei para lá e falei com a moça ‘tocou uma música no rádio aqui agora, o nome é

‘Chega de saudade’, João Gilberto é o cantor que o apresentador do programa anunciou. Quem é ele, de

onde é, onde eu posso achar seu disco?’ A moça que atendeu passou a alguém da rádio que tinha as

informações e eu recebi a notícia: ‘É um lançamento novo, um cantor novo, ele é baiano, uma gravação da

Odeon que veio do Rio de Janeiro e acho que você pode encontrar nas lojas de música da cidade’.”

 

Carnaval, medos e paixões

A relação de Gil com o Carnaval sempre andou na corda bamba entre o prazer e o terror. Em criança

gostava de se fantasiar, mas tinha pavor dos mascarados e de lança-perfume nos olhos. Na juventude

sofria com os finais sempre dramáticos das paixões fugazes do Carnaval. Só se reconciliou com a festa

ao entrar para o afoxé Filhos de Gandhy, que estava reduzido a poucas pessoas na praça da Sé em

1972, quando voltou de Londres. “Foi como uma promessa. E saí fazendo todo o percurso das 12

horas, cantando e tocando, parando nos pontos de devoção, obedecendo à disciplina, que é muito

rigorosa. O afoxé funciona para mim como a ordem no caos.”

 

A voz e o violão eram de João, a música de Tom Jobim e a letra de Vinicius de Moraes.

Gil pediu dinheiro à tia e foi correndo à loja. Encontrou o disco do João. Era um 78 rotações,

compacto simples, com “Bim Bom”, do próprio João Gilberto, no lado B. A voz doce, aliada

a uma original batida rítmica, deixou Gil encantado.

Havia um piano em casa e, nessa altura, sua irmã, quem tocava o instrumento, já tinha

também um violão. “Era o piano dela, o violão dela. Mas Gildina não era dedicada, não tinha

empenho, nem tinha interesse.” Ela gostava era de cantar com o irmão. Os dois se

apresentavam nos concursos de calouros do serviço de alto-falantes de Ibirataia, nas férias,

quando iam visitar os pais na cidade para onde José e Claudina se mudaram. “Minha mãe

estimulava”, lembra Gil. Os irmãos entoavam o repertório da época e quase todas as canções

de Ângela Maria, além de fazer dupla e vocais. “Beijinho doce” (de Nhô Pai, o João Alves

dos Santos) era uma das prediletas porque podiam fazer duas vozes.

Depois que ouviu João Gilberto, Gil resolveu pedir à mãe um violão de presente. Ela

perguntou: “Você quer mesmo?” O filho não titubeou. Com o dinheiro dado pela mãe,

comprou o violão na filial de Salvador da loja de departamentos Mesbla, que tinha sede no

Rio de Janeiro. Em seguida, foi a uma loja de música e comprou um método Bandeirantes

(Método para violão tenor, bandolim e banjo , de Annibal Augusto Sardinha, o Garoto), que

já trazia os acordes dissonantes usados na bossa nova por gente como João Gilberto, Carlos

Lyra e Garoto.

Gil aprendeu sozinho a decifrar os segredos do violão, querendo imitar a batida de João Gilberto para poder tocar “Chega de saudade” e “Desafinado”. As duas músicas foram

lançadas no mesmo ano, em 1958, a primeira em julho e a outra, em novembro, num segundo

disco compacto. No mesmo ano, João havia acompanhado Elizeth Cardoso em “Chega de

saudade”, na gravação de um LP (long-play) da cantora, considerado o marco inicial da bossa

nova.

Só no ano seguinte, em 1959, apareceu o primeiro LP de João Gilberto com canções como

“Lobo bobo”. Era uma extraordinária novidade, e Gil queria aprender a tocar daquele jeito.

Uma vez dominado o violão, ele começou a compor. Vieram, então, as primeiras

composições: canções, sambas, bossa nova imitando João Gilberto, sozinho com seu

instrumento, sem fazer parte de um conjunto e sem tocar em outros lugares.

Com a mãe, Claudina

Com Flora, na década de 1980.

Com Bem, que carrega Bento no colo, Ana Claudia, com Dom (filho de Bem) no colo, Isabela, José, com Flor

no colo, JP e Giovana ao lado de Flora.

Nara, Isabela, Flora, Maria, José, Preta e Bem, com Dom no colo.

Com Flora, com Flor no colo, Bento, dona Claudina, Isabela e José.

Com Flora, Preta, Nara, Maria, Bem, Sandra e Isabela, João, Francisco e José.

Com os netos Pedro, Francisco e João, a mulher, Flora, as filhas Marília, Nara, Maria e Isabela e os filhos José e

Bem.

Com Preta, Marina Morena, a cunhada, Fafá, Isabela, Nara e Bem.

Fafá, José, Flora e Marina Morena.

 

Com Nara, João, Marília, José, Isabela, Flora, Fafá, Preta, Gildina, Maria, Bem, a mãe de Flora, Nair, a mãe,

Claudina, e o neto Francisco.

Tia Lea, Guilherme Araújo e Ruth Mautner.

Com Preta e Sandra.

Com Torquato Neto.

Claudina e José.

Com as mulheres: Flora, Sandra, Nana e Belina.

Com o filho Pedro.

Pedro Gil.

Com as filhas Marília e Nara.

A primeira composição foi “Felicidade vem depois”, bossa nova que diz assim:

“Se você disser/ que ainda me quer, amor/ eu vou correndo lhe abraçar/ seus beijos, seus carinhos/ vivo a

procurar/ como um poeta busca inspiração/ nas noites de luar. Se você disser/ que ainda me quer, amor/

eu vou correndo lhe apanhar/e unidos bem juntinhos/ partiremos só nós dois/ e o bom, felicidade, vem

depois.”

 

Gil nunca gravou esta sua primeira composição, toda feita de uma vez só, letra e música,

quando ele tinha 17 anos. “A música era para uma vizinha do bairro, na esperança de chamar

sua atenção.” A canção, no entanto, foi gravada por Paulinho da Viola. Aliás, cantada por Gil,

apareceu apenas em um compacto encartado na revista Bondinho que saudou sua volta ao

Brasil após o exílio.

 

Um mundo que se abre

 

Também aos 17 anos, o jovem músico fez sua primeira incursão fora da Bahia. Jorge Santos ia

ao Rio de Janeiro de tempos em tempos comprar equipamento e ver as novidades. Convidou

Gil. Foram os três, Jorge, a mulher dele, Carmelita, e Gil, pela Rio-Bahia. Ficaram

hospedados na casa da irmã de Carmelita, no bairro de Fátima, próximo à Lapa. Através de

um amigo que frequentava a boemia musical carioca, Gil foi conhecer a casa de Baden

Powell, na Penha, mas o violonista não estava. À noite, foi ao Beco das Garrafas, em

Copacabana, para ver seu show, mas justamente nessa noite o músico não estava lá. “Foi um

dia de desencontros.”

Acabou ficando no Rio de Janeiro quase um mês. Jorge viajara para comprar

equipamentos e fez contato com os diretores dos estúdios da CBS. Eles haviam desenvolvido

um aparelho equalizador novo que chamava-se Larex, em homenagem ao nome do inventor,

Lara. Além do Larex, Jorge queria também comprar um gravador Ampex, para renovar os

estúdios em Salvador. Gil o acompanhava nas andanças. Conheceu os estúdios da CBS, o

Lara, o estúdio de Sivan Castelo Neto, um grande criador de jingles e pai do Berto Filho e de

Vera Brasil, compositora e violonista importante de São Paulo, com uma presença muito forte

nos meios paulistas da bossa nova.

Foi por essas e outras relações que, em 1964, quando se formou e saiu de Salvador, seu

caminho estava aberto com contatos já estabelecidos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Gil só

precisou esperar a hora certa de dar o pulo. Desde Salvador, quando foi apresentado ao

mundo dos estúdios e dos grupos de músicos profissionais de gravação, seu destino estava traçado. “Você vai ser músico, já é músico, já está nesse negócio”, incentivava Jorge.

Em Salvador, as vizinhas serviam de inspiração para as serenatas que Gil e seus amigos

cantavam nas praças e debaixo das janelas das moças mais bonitas. Logo foi convidado para o

grupo Os Desafinados, que reunia meninos do bairro e outros interessados em música. Era a

vez dos instrumentos. Havia uma bateria, um contrabaixo e apareceu um vibrafone. “Aí eles

me chamaram porque eu tocava acordeão. Disseram: ‘Vamos botar um vibrafone no conjunto,

você conhece teclado, toca um pouco de piano. Venha tocar com a gente’. Então eu fui tocar

um vibrafone nesse conjunto.”

Mas era no universo dos jingles que ganhava seus primeiros cachezinhos. A essa altura, no

começo dos anos 1960, Jorge Santos, além da agência de publicidade e do estúdio de

gravações, decidiu criar um programa de televisão, que ia ao ar aos sábados de tarde na TV

Itapuã de Salvador. Naquele tempo, as programações eram locais, porque ainda não havia o

videoteipe, que só apareceu por volta de 1962. Tanto que os jogos da Copa do Mundo de

1962 só podiam ser vistos no dia seguinte na TV Itapuã, associada da TV Tupi, do grupo do

Chateaubriand. Como eram poucos os aparelhos de televisão, sempre juntava um grupo grande

de pessoas para ver os jogos do Brasil na casa de alguém.

Como bom empreendedor do setor de criação, arte, publicidade e música, Jorge Santos

entendeu que a televisão era um elemento novo, de enorme apelo, e por isso resolveu comprar

um horário na TV para fazer seu próprio programa de variedades, com sorteios e novidades,

antecipando o estilo do apresentador Silvio Santos (não há nenhum parentesco entre os dois).

O programa começava às três horas da tarde com um sorteio e depois apresentava um show de

calouros. “Esse programa era um celeiro, foi lá onde o Jorge encontrou as meninas do

Quarteto em Cy.”

Era um programa muito popular, conhecido de todos em Salvador porque era lá onde

apareciam as pessoas e os espectadores que vinham de outros lugares para tentar ganhar no

sorteio uma batedeira, um liquidificador. Gil, que já frequentava o estúdio do produtor, por

quem era chamado quase toda semana para algum trabalho, começou a cantar as suas

primeiras composições no programa. Eram canções como “Felicidade vem depois”, mas

também “Serenata de teleco-teco” e “Maria Tristeza”, ambas seriam gravadas em seu

primeiro disco. Tinha quase 18 anos.

Naquela época, a composição vinha com certa facilidade.

“Eu me sentava, começava a pensar numa frase qualquer que ia desencadear o assunto daquela música e

aí ia procurando a melodia correspondente. Outras vezes vinha uma frase literária, uma frase poética que

buscava sua própria melodia. É o modo como componho até hoje. É sentar, pegar o violão e vai vindo.

Vem vindo uma ideia, vem uma frase, vem um acorde, vem uma harmonia, vem uma acentuação rítmica,

vem isso, vem aquilo outro. Era assim. Foi assim que começou. Eu ia tocando, tocando e aquilo entrava na

memória. Naquela época não tinha gravador, não tinha nada. Eu ia escrevendo a letra ao longo da

composição. Enquanto fazia, escrevia. Depois que aquilo estava pronto e decorado, eu cantava para as

pessoas.”

 

Jorge Santos eventualmente o chamava quando aparecia alguém interessado em gravar uma

canção. “Vem aqui e toca um violão ou um acordeão”, dizia Santos. Para os jingles, ele

também começou a chamar Cybele, Cylene e Cynara, as meninas que deram origem ao

Quarteto em Cy, que na origem se chamava As Três Baianas. As filhas do seu Eurico e dona

Antonia Iazinha tinham ainda uma irmã mais velha, Cyva, que morava no Rio de Janeiro, que

se juntou ao conjunto. Daí nasceu o Quarteto em Cy. Gil já as conhecia de longa data. Cylene

era afilhada de crisma de sua mãe e Cynara era parceira nas festas de Carnaval, quando

voltavam para o interior para visitar os pais. “Todos dançavam nos bailes de Carnaval de

Ibirataia, eu de pirata, elas de bailarinas.”

 

Encontro com Chico na serenata

Numa noite, Gil encontrou Chico Buarque, que farreava por Salvador com sua turma do Sambafo,

grupo musical formado por universitários da Faculdade de Arquitetura, a FAU, de São Paulo. Gil tinha

22, Chico, vinte anos. Reza a lenda que os sambafistas, para ganhar algum, foram para a Praça

Municipal. De óculos escuros, Chico se fez passar por um cantador cego. Mas um jovem deu num grito:

“Virge, é o Chico!” O jovem seria Gil, que conta história diferente: “Eu fazia uma serenata. Nisso se

aproximam forasteiros. Chico nos deu dinheiro, porque a gente rodava o chapéu para comprar

cachaça”. Quando, em 1965, Gil foi para São Paulo, reencontrou-se com Chico. “Nos tornamos amigos

e conheci as irmãs, dona Maria Amélia e o doutor Sérgio.”

 

Foi para esta cidade, região do cacau, que Zeca e Claudina se mudaram, depois de saírem

de Ituaçu e passarem por Água Fria. Lá Zeca se tornou sanitarista e passou a trabalhar no

Departamento Nacional de Endemias Rurais, do Ministério da Saúde, participando de

programas de erradicação da malária, da leishmaniose e outras doenças. Manteve o

consultório de clínica geral e especializou-se também em alergia. Claudina continuou a

trabalhar como professora primária e só se aposentou quando se mudou com o marido para

Vitória da Conquista, onde o sanitarista se elegeu vereador pelo PSD, chegando a assumir a

prefeitura da cidade durante as viagens do prefeito. Nesse período, a família ascendeu

definitivamente à classe média.

“Em Ituaçu meu pai não entrou na política. Ele só foi se interessar pela vida política anos depois, quando foi

ser vereador, presidente da câmara em Vitória da Conquista. Quando Dutra foi eleito em 1945 pelo PSD e

caiu o regime do Estado Novo, vindo a redemocratização, ele se filiou ao partido”, recorda Gil.

 

Primeiro disco, primeiro emprego

 

Gil participava ativamente de jingles e acompanhamentos musicais quando recebeu uma

encomenda: Jorge Santos pediu que ele gravasse duas músicas compostas por Everaldo

Guedes, um entusiasmado funcionário da Petrobras, que queria gravá-las no acetato. “Você

não quer gravar essas músicas dele?”, perguntou Santos a um Gil de 18 anos. Uma das

composições era “Povo petroleiro”, espécie de hino aos trabalhadores do petróleo. A outra se

chamava “Coça, coça, lacerdinha”, e se referia aos mosquitinhos, muito comuns no Rio de

Janeiro, que no final das tardes desciam das árvores e perturbavam a ordem pública,

provocando uma irritante coceira e entrando nos olhos das pessoas. Ardia que era um horror.

Se a vítima usasse amarelo, aí é que os insetos infestavam a roupa do cidadão. A música em

homenagem aos bichinhos era uma marchinha de Carnaval, que fez um certo sucesso em

Salvador e dizia: “Coça, coça, coça, ai que coceirinha, a coceira é gostosa quando morde o

lacerdinha”. Na época, o governador do Rio de Janeiro era Carlos Lacerda. O nome do

mosquitinho foi dado, certamente, por algum carioca, mas a Bahia também sofria com eles.

Foram estas circunstâncias que fizeram com que o primeiro disco de 78 rotações gravado

por Gil, em 1961, tivesse “Povo petroleiro” de um lado e “Coça, coça, lacerdinha” do outro.

O disco não tinha capa e vinha num envelope aberto no meio. Não mais do que cem

exemplares foram prensados. Logo depois, Santos propôs a Gil que gravasse seu primeiro

disco autoral (com cinco músicas suas, as duas de Everaldo e uma de Silvan Castelo Neto e

Jorge Santos). O disco foi gravado em 1963, com exceção das duas músicas de Everaldo

Guedes, que já tinham sido gravadas em 1961. Eram estas as canções:

 

“Povo petroleiro” (Everaldo Guedes)

“Coça, coça, lacerdinha” (Everaldo Guedes)

“Serenata de teleco-teco” (Gilberto Gil)

“Maria Tristeza” (Gilberto Gil)

“Vontade de amar” (Gilberto Gil)

“Meu luar, minhas canções” (Gilberto Gil)

“Amor de Carnaval” (Gilberto Gil)

“Vem, colombina” (Silvan Castelo Neto e Jorge Santos)

 

As Três Baianas faziam o vocal. Naquele momento Cybele já tinha viajado para o Rio de

Janeiro, para se encontrar com a irmã Cyva. Portanto o grupo era constituído por Cynara,

Cylene e uma prima delas, Regina, que substituiu Cybele. Mais tarde, quando passaram a se apresentar como Quarteto em Cy, Cylene se casou e deixou o grupo, sendo substituída

permanentemente por Regina, que passou a ser conhecida como Cyregina.

Depois de gravar o primeiro disco próprio, Gil tomou gosto de verdade pela música. Já

tinha terminado o curso nos maristas, em 1959, feito vestibular no ano seguinte, e já cursava

administração de empresas na Universidade Federal da Bahia, a UFBA. Não era bem o que

ele queria estudar. “Apesar de meu pai querer que eu fosse médico, ou engenheiro ou

advogado, eu não queria nada daquilo. Mas fiz vestibular para engenharia, perdi e desisti. No

ano seguinte, fiquei sabendo da escola de administração.” Naquele momento surgiam

faculdades novas ligadas a especializações modernas, como a escola de geologia, por causa

do petróleo, e a de administração, pela necessidade de se formar novos gestores públicos e

privados. Gil decidiu fazer administração privada. Muitos de seus colegas optaram por fazer

administração pública e estiveram ligados depois às reformas do governo da Bahia, na época

de Antônio Carlos Magalhães. No final do curso, em 1964, Gil foi recrutado pela empresa

Gessy Lever para trabalhar em São Paulo.

Nesse meio-tempo, fez concurso para a Alfândega em Salvador, para trabalhar como

agente fiscal da Receita Federal. Passou no concurso, em 1961, com louvor, e foi nomeado

agente fiscal do imposto aduaneiro na capital baiana. Poderia ter escolhido Corumbá ou

Santos, mas tinha que ficar em Salvador para terminar a universidade. Na Alfândega, Gil

trabalhava todos os dias, mas não o dia inteiro. Isso permitia que ele frequentasse a faculdade

e dedicasse parte do seu dia à música. Eram seis horas por dia em turnos alternados no porto,

fiscalizando as mercadorias que chegavam nos navios e, no dia seguinte, na parte burocrática

dos armazéns, registrando as entradas e as saídas de cargas. Algumas vezes, Gil fiscalizava os

navios fora do porto. Pegava um barco e ia verificar o embarque de minério fora de Salvador,

na baía de Camamu.

“Lia O Capital, de Karl Marx, e ao mesmo tempo ficava de olho nos navios, para detectar

contrabando”, contou Gil. Na universidade, a militância estudantil não o via com os melhores

olhos. “Eu não era propriamente alinhado com aquela turma. Eles tinham uma denominação

específica para esse tipo de gente: linha auxiliar. Eu tomava conta da Escola de Samba Unidos

do CPC. E dizia claramente: não acredito nessa utopia.” Para Gil, nem a extrema esquerda

nem a direita eram atraentes porque não permitiam nuances. “O justo meio está na igual

possibilidade dos extremos.”

Gil fazia tanta coisa que às vezes não conseguia espantar o sono. Sua mãe contava uma

história que se tornou folclore da família. Uma vez ele estava nos Quinze Mistérios, esperando

o ônibus. Morava na rua dos Marchantes e ia pegar o ônibus para Sapateiro. O cansaço batendo, o sono pesando nas pálpebras. De repente, se assustou com o ônibus saindo do ponto.

O ônibus tinha chegado, parado, recebido os passageiros e estava arrancando. Gil tinha

dormido em pé.

 

Um econtro que marcaria a MPB

 

Foi por essa época, em 1962, que Gil conheceu aquele que seria seu parceiro, amigo,

inspiração e principal interlocutor durante toda a sua vida. Caetano Veloso cursava filosofia

na Universidade Federal da Bahia e foi apresentado a Gil por Roberto Santana, que mais tarde

tornou-se produtor de discos no Rio de Janeiro. Roberto sabia que os dois gostavam de bossa

nova e poderiam ter outras afinidades além do encantamento por João Gilberto.

Mas Caetano já sabia quem era Gil mesmo antes de sair de Santo Amaro, no interior da

Bahia, onde nasceu e cresceu, porque assistia ao programa de Jorge Santos. Reza a lenda que

dona Canô, mãe de Caetano, certa vez, assistindo ao programa, viu Gil e chamou Caetano:

“Venha ver aquele pretinho que você gosta”. Quando o pai de Caetano, seu Zeca, se aposentou

do cargo nos Correios e Telégrafos, mudou-se com a família para Salvador e foi morar em

Nazaré, bairro que Gil começou a frequentar depois que conheceu o parceiro.

Gil e Caetano ficaram amigos imediatamente. O ponto de fusão da amizade era o gosto por

João Gilberto, Tom Jobim, Carlos Lyra, Nara Leão, enfim, a bossa nova. O papo girava em

torno da modernidade: a música nova, o Brasil novo, a efervescência da era de Juscelino

Kubitschek com a indústria automobilística chegando. O Brasil crescia, se modernizava. E

assim, flutuando sobre esses temas, Gil e Caetano passavam noites e noites conversando e

ouvindo música.

Caetano descreveu, em artigo publicado no jornal O Globo, em 2011, como era a vida de

estudante na Universidade Federal da Bahia:

“Todos os meus amigos na faculdade — e fora dela — eram de esquerda. Nenhum iria ao Cine Roma

assistir a um show de rock de Raulzito e os Panteras. Íamos ao clube de cinema, ao MAM, ao Teatro dos

Novos, aos concertos da Reitoria, ouvíamos João Gilberto e Thelonious Monk. Rock era lixo e anátema.

Carlos Nelson Coutinho era nosso contemporâneo na faculdade e já escrevia artigos sérios: era o lado

teórico do movimento que crescia no período pós-Jânio e pré-ditadura. (...) O Centro Popular de Cultura

da UNE local me pediu que escrevesse um samba para um bloco de Carnaval engajado. Fiz ‘Samba em

paz’ — que veio a ser gravado, anos depois, por Elis”.

 

Maria Bethânia, que estava ainda no ginásio, foi apresentada a Gil por Caetano. “Você

precisa conhecer minha irmã”, insistia. Uma semana depois ele levou Bethânia para apresentar

ao novo amigo. Antes de terminar a faculdade, Caetano começou a namorar Dedé Gadelha

(que se tornou depois Dedé Veloso), que morava no bairro da Graça e era vizinha de Gal Costa, naquela época ainda Gracinha. Gal já tinha o disco do João Gilberto em casa e ouvia

bossa nova. Dedé apresentou Gal a Gil e Caetano. Gal morava com a mãe viúva, Mariah, e

tinha em comum com os dois a paixão pela música. Caetano ficou encantado com sua voz e

com seu jeito novo de cantar, ao estilo de Sylvinha Telles, cantora dos primórdios da bossa

nova, que morreu em um acidente de carro em 1966.

Nessa mesma época, Gil conheceu Belina Dias de Aguiar, em Conceição de Salinas, uma

ilha perto de Salvador. Ela tentava esquecer uma decepção amorosa passando alguns dias na

casa da madrinha. Levou o acordeão, mal sabia tocar, até que um amigo garantiu que ia

apresentar alguém que “arrasava” no instrumento. Um dia atracou na ilha uma lancha vinda de

Salvador e nela chegou o acordeonista de mão cheia. Era Gil, que deixou suas coisas no lugar

onde ficaria hospedado e se dirigiu para a casa da madrinha de Belina, ponto de encontro das

serenatas. À noite, Gil trocou o acordeão pelo violão e o bando de jovens foi para a praia, ao

som de Maísa, João Gilberto, Luiz Gonzaga e Lúcio Alves.

Depois que Belina e Gil voltaram para Salvador, passaram a namorar. Nos anos 1960, as

saídas noturnas eram sempre acompanhadas por amigas ou irmãs. Quando Gil se formou em

administração e foi orador da turma, Belina o acompanhou na festa, com Zeca e Claudina. O

namoro acabaria em casamento pouco depois. “Eu acho que o namoro com Belina provocou

ciúmes em Maria Bethânia”, comentou Gil, na brincadeira.

 

Ecos de 1964

 

Em 1964, foi inaugurado em Salvador o Teatro Vila Velha, criado pela Sociedade Teatro dos

Novos, formada por Echio Reis, Sônia Robatto, Carlos Petrovich, Othon Bastos, Thereza Sá e

Carmen Bittencourt, alunos dissidentes da Escola de Teatro da UFBA, liderados pelo

professor João Augusto. O Vila, como passou a ser chamado, tornou-se um dos mais

importantes teatros da Bahia e foi inaugurado com, nada mais nada menos, o show Nós, por

exemplo, dos estreantes e futuras celebridades Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal

Costa e Maria Bethânia.

Sessenta e quatro foi também o ano do golpe militar que mergulharia o país numa ditadura

que se estendeu por vinte anos. Começava um dos períodos mais nefastos da história do Brasil

moderno. João Goulart (Jango), presidente até o golpe militar, foi derrubado em 1º de abril de

1964, colocando um ponto final ao seu projeto das reformas de base, ao qual os militares se

opunham. O mundo vivia, em meados dos anos 1960, o ápice da Guerra Fria, a luta entre as

duas superpotências mundiais, EUA e a então União Soviética. A guerra do Vietnã, a

revolução cubana, com a ascensão de Fidel Castro e Che Guevara, estavam na pauta do dia. A perspectiva de ascensão do comunismo em vários países assustava os militares, a classe

média e a Igreja Católica. Os latifundiários temiam a reforma agrária planejada por Jango e as

empresas multinacionais se opunham aos limites impostos à remessa de lucros para o exterior.

O general Castelo Branco assumiu a presidência no dia 15 de abril do mesmo ano, depois

de eleito indiretamente pelo Congresso Nacional em 11 de abril. A criação artística estava a

pleno vapor, mas prestes a ser abalroada no final de 1968. Glauber Rocha filmava Deus e o

diabo na terra do sol, marco do Cinema Novo. João Gilberto gravava em Nova York com

Stan Getz e a novata Elis Regina ganhava o Prêmio Roquete-Pinto de melhor cantora. Nara

Leão estreava no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, o célebre show Opinião, em dezembro

de 1964, com os sambistas Zé Kéti e João do Vale, mais tarde ela seria substituída por Maria

Bethânia. Roberto Carlos tornava-se ídolo da Jovem Guarda e Jorge Amado publicava

Gabriela, cravo e canela. Naquele tempo, o movimento estudantil ganhava força e as

universidades passaram a ser um dos principais focos da resistência ao regime militar.

Em Salvador, o grupo Teatro dos Novos — que se moldava à semelhança do Teatro

Opinião no Rio de Janeiro, do Teatro de Arena, que se formava em São Paulo e do Teatro

Popular do Nordeste, de Recife — assim como os demais, era ligado à proposta de um teatro

de cunho social, seguidor de Bertolt Brecht, e também participava da resistência política ao

golpe. O Teatro dos Novos planejou abrir o Teatro Vila Velha com uma variada semana

cultural. O grupo era dirigido por João Augusto Azevedo, crítico carioca que foi ensinar teatro

na Bahia e acabou ficando de vez.

Gil e Caetano estavam por ali, soltos, acompanhando as novidades. Os dois já haviam

estreitado a amizade e as afinidades. Roberto Santana, que os apresentara e era integrante do

Teatro dos Novos, era sobrinho do conhecido militante comunista Fernando Santana, depois

eleito deputado federal. A inauguração do Teatro Vila Velha teve uma programação intensiva.

Numa noite seria apresentada a peça Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri —

drama político e social que trazia para os palcos os conflitos da realidade operária brasileira

—, na outra noite, um balé da escola de música da Universidade da Bahia, depois, um

musical. A ideia era apresentar o grupo de novos compositores, cantores e instrumentistas. Foi

exatamente esse concerto de música a oportunidade para a primeira apresentação dos baianos

que iriam logo depois conquistar o Brasil. Roberto sugeriu ao diretor da programação de

inauguração, João Augusto, que apresentasse “os meninos” que estavam começando a aparecer

em Salvador: Gil, Caetano, Bethânia, Gal.

Eles não eram um grupo propriamente dito, mas amigos que se reuniam nos fins de semana

na casa de um ou de outro, aos sábados na casa de Maria Muniz, para cantar, tocar, mostrar música, falar do disco recém-lançado da Sylvinha Telles ou da Wanda Sá, que lançou seu

primeiro disco em 1964 (Wanda Vagamente ) e gravou “Vagamente”, de Roberto Menescal,

que Gal adorava cantar. Nessa época, Maria Bethânia já cantava clássicos do samba, de

autores como Noel Rosa. Portanto, quando recebeu o convite para organizar o show de música

popular brasileira, na inauguração do Teatro Vila Velha, Caetano já sabia que podia contar

com sua turma.

Os “meninos”, então, ficaram responsáveis por uma das noites que marcariam a

inauguração do teatro. Mãos à obra. Caetano, que já manifestava interesse pelo teatro e

começava a dar vazão ao seu extraordinário viés criativo, concebeu e dirigiu o espetáculo.

Ele já tinha experiência como assistente de direção de Wilson Vitorino na peça de Brecht A

exceção e a regra, em 1962. A peça foi montada pela Cia. de Teatro Popular da Bahia, do

produtor e diretor baiano Álvaro Guimarães, o Alvinho, que Caetano diz ter tido grande

influência em sua formação: “Álvaro Guimarães foi mesmo mais do que isso: foi um anjo do

destino. Bethânia e eu fazemos música por causa dele”, declarou ao Portal Eduardo Cabus —

Memória da arte cênica.

Caetano havia feito também, em 1962, a trilha sonora para um curta-metragem de Alvinho

sobre menores abandonados, chamado Moleque de rua. Convidou Bethânia, na época com 16

anos, para cantar suas músicas no filme. “Tá louco?”, disse ela. “Eu não sei cantar nada!”

Teatro, cinema, música, nada escapava a seus interesses.

“Vivíamos em meio a esse tecido artístico e criativo, do teatro e do cinema. Nas telas, a gente ia ver os filmes

de Godard e Fellini. Caetano escrevia críticas sobre cinema no Diário de Notícias de Salvador. Caetano já

era isso tudo: teatro, cinema, música, já era esse holismo cultural que é até hoje”, define Gil.

 

Com o golpe de 1964, Gil, assim como Caetano, passaram a se posicionar cada vez mais à

esquerda. O interesse político foi se adensando por meio do grupo Teatro dos Novos. Primo

de Roberto Santana, Tom Zé acabou entrando no círculo de amizades dos dois. Ele já

participava do programa de concurso para cantores, instrumentistas e compositores. Gil e

Caetano já o tinham visto.

“É importante notar o papel central do Roberto Santana nessa história toda, porque ele estava ligado ao

Teatro dos Novos, era primo do Tom Zé, tornou-se camarada e amigo de Caetano por causa do circuito

nos eventos musicais que os dois frequentavam, aproximou-se de mim também por causa disso, fez a

ponte Gil-Caetano-Teatro dos Novos, fez a ponte Gil-Caetano-Tom Zé, e juntou-se a esse grupo”, conta Gil.

 

O grupo incluía ainda o músico, compositor, violonista, baixista e contrabaixista baiano

Alcivando Luz, e o Fernando Lona, conhecido de Gil das sessões de gravação dos jingles no

estúdio de Jorge Santos. Todos, incluindo Tom Zé, frequentavam os circuitos variados e estavam interessados e seduzidos pela bossa nova. Gil diz que Tom Zé fazia uma música

intermediária entre a bossa nova e a música de Juca Chaves — compositor, músico e

humorista célebre na década de 1960 —, porque Juca

“era também uma espécie de apêndice, uma pequena dissidência da bossa nova autônoma, com aquela

coisa do menestrel, da ironia. Tom Zé tinha um pouco esse viés, era uma mistura disso com as coisas da

bossa nova e com as coisas da nova música erudita que se cultivava nos seminários de música da Bahia,

onde ele estudava”.

 

Eram tempos férteis. O compositor e regente baiano Lindembergue Cardoso — que morreu

em 1989 e deixou vasta obra que inclui música de concerto, popular, religiosa, ópera e música

incidental — também se aproximou do grupo, assim como, mais tarde, o cantor, violonista e

compositor baiano Elomar.

Esse era o grupo que ocupou o palco do Teatro Vila Velha em uma das noites de

inauguração, que durou toda uma semana, em 1964. Eles todos participaram, cada um se

apresentava individualmente e depois, em grupo. O repertório era meio joãogilbertiano:

coisas da bossa nova, mas também da tradição musical brasileira, como Noel Rosa, Ismael

Silva, Ataulfo Alves. O espetáculo foi um sucesso em Salvador.

Pouco depois desse primeiro show do grupo, passou pela cidade Nara Leão, consagrada

cantora e formadora de opinião, musa da bossa nova (título que rejeitava), conhecida por

descobrir e dar seu aval a novos talentos. Ela vinha do Japão, depois de uma turnê com Sergio

Mendes, que criou um grupo de bossa nova nos anos 1960, o Sergio Mendes & Brasil 66,

famoso no mundo inteiro. “Eles estavam fazendo uma turnê no Japão e passaram pela Bahia

para fazer uma apresentação em Salvador. Aí Nara foi ver o ensaio de um daqueles nossos

shows que aconteceram em seguida. Foi quando a conhecemos, Caetano, Bethânia e eu.” Por

intermédio de conhecidos, Nara chegou aos “meninos interessados em bossa nova”.

Alguns meses depois, em janeiro de 1965, Bethânia, que havia voltado para Santo Amaro,

recebeu um convite por telefone para substituir Nara no show Opinião, no Rio de Janeiro. A

princípio, não acreditou que era para valer. “Vai, mas Caetano tem que ir junto”, disseram

seus pais, dona Canô e seu Zeca. Os dois partiram, então, para o Rio de Janeiro e mais tarde

para São Paulo.

Por coincidência, nessa mesma época Gil se formou na universidade e foi chamado pela

Gessy Lever em São Paulo. Gil aceitou o convite da empresa e recusou uma proposta para

fazer pós-graduação nos EUA. Ele sabia que Caetano e Bethânia já estavam em São Paulo.

“No fundo, eu queria era continuar com a música e com a amizade. E foi isso que me levou,

aos poucos, a abandonar a ideia de me tornar um executivo.”

Gil foi, então, para São Paulo, fazer o teste para ser avaliado. Eram 36 candidatos e

apenas seis foram efetivamente escolhidos para fazer o estágio. Antes de ir de vez para São

Paulo, Gil fez ainda um show solo no Teatro Vila Velha. Depois dos shows coletivos — Nós,

por exemplo, Velha bossa nova, nova bossa velha e Mora na filosofia, ficou resolvido que

haveria shows individuais. Primeiro foi Bethânia, depois Gal, Caetano e, finalmente, Gil, com

o show Inventário, apresentado em março de 1965, com direção do Caetano. Nesse show, Gil

apresentou sua música “Eu vim da Bahia”, já pensando na sua mudança para o Sul. Fez o

show, casou-se com Belina e foi de mala e cuia para São Paulo.

Em Salvador, começou a traçar seu caminho, usando a régua e o compasso que a Bahia lhe

dava através do conhecimento da vida metropolitana e do bairro, com suas colônias árabe,

portuguesa, galega e espanhola, do aprendizado de uma nova sociabilidade no colégio, das

festas católicas e populares, do Carnaval. Salvador também foi palco do primeiro trabalho, da

praia, das turmas, da vida intelectual, sexual e amorosa. Todas as iniciações tiveram Salvador

como cenário principal.