Gilberto Bem Perto
Capitulo 3: A chegada a São Paulo, os festivais, “domingo no parque” e a tropicália “Essa é pra tocar no rádio”
“Amor e amizade têm sido coisas regidas por um desejo imposto pela minha hipersensibilidade. Eu sou
hipersensível, sempre romanceei todas as minhas relações, tanto de amor quanto de amizade. Minhas
amizades são romances, meus amores são romances, tudo é romanceado, tudo é fantasiado, tudo é
poetizado, tudo é permeado por esse campo da fantasia poética, todo meu amor filial, aquilo foi distribuído
pela vizinhança, pelos meninos que vinham brincar, aqueles com os quais eu compartilhava o cotidiano,
depois com os colegas de escola. A emoção profunda que tenho até hoje ao reencontrar um colega de
colégio, aquilo vem envolvido num embrulho de afeto. As amizades foram chegando depois com
responsabilidades ainda maiores, como é o caso do Caetano. E outros tantos de quem fui me tornando
amigo, como os músicos com quem eu trabalhei, os amigos que fiz na vida pública, nos trabalhos, na
secretaria, na Câmara de Vereadores, no ministério, jornalistas que se tornaram amigos. O afeto para mim é
quase como uma hipertrofia, ele tem uma capacidade de dar nó, de me tencionar inteiro e exigir lágrimas e
exigir efusão em grau exagerado, ‘exagerado/ jogado aos teus pés/ eu sou mesmo exagerado’, como
naquela música do Cazuza, que era um desses. Amores e amizades foram elementos cênicos importantes
na confecção desse palco, que é o palco da vida. Eu sou completamente envolvido pelo afeto. Isso teve
também um papel importantíssimo na forma como fui me expressar como músico, como poeta.”
Gil defendendo “Domingo no parque”, no Festival da Record, em 1967.
A CHEGADA A SÃO PAULO, OS
FESTIVAIS, “DOMINGO NO PARQUE” E
A TROPICÁLIA
“Essa é pra tocar no rádio”
“Essa é pra tocar no rádio”
Numa tarde sem graça de 1965, sentado em sua sala na Gessy Lever, em São Paulo,
acompanhando as projeções sobre as vendas de sabonetes e pastas de dente, Gil recebeu um
telefonema:
— Aqui é Elis, Elis Regina. Estou ligando porque Edu Lobo e Ruy Guerra me disseram
que você tem umas músicas, que está trabalhando aqui em São Paulo e veio da Bahia. Queria
te ver, queria te conhecer, queria que trouxesse seu violão para tocar um pouco.
— Aonde você quer que eu vá?
— Vem aqui na minha casa.
— Onde você mora?
— Eu moro pertinho. Você não trabalha na praça da República?
— É...
— Eu estou a dois quarteirões de você.
Às cinco da tarde, Gil bateu o ponto. Saiu do trabalho apressado, andou até a esquina da
avenida Ipiranga com avenida Rio Branco e tocou a campainha do apartamento de Elis
Regina, já então uma estrela da TV, no comando do programa O fino da bossa, o grande sucesso da Record. Nem bem entrou na casa e ela já foi logo pedindo: “Toque uma música”.
Depois: “Toque mais uma”. Segundo Elis, todo mundo na cidade só falava de Gilberto Gil:
“Edu fala muito de você. O Baden já me falou de você também. Ouvi outro dia uma música
sua...” Nascia ali uma grande amizade e uma das muitas parcerias que Gil estabeleceria nesse
primeiro ano fora de casa, fora da sua Bahia: “Elis era a Pimentinha, sempre entusiasmada e
sempre sisuda, sempre olhando a distância antes de olhar para você. Ela primeiro ficava de
longe, assim, para depois se dirigir a você. Era uma figura, totalmente teatral.”
O desembarque em São Paulo aconteceu em junho de 1965. Antes, porém, Gil teve que
tomar algumas decisões. Ao mesmo tempo que era recrutado pela Gessy Lever para um teste,
ele recebeu o convite da Universidade de Michigan, nos EUA, para fazer pós-graduação em
administração de empresas. Resolveu arriscar o teste na capital paulistana. Foi aprovado. E
acertou que começaria o trabalho no meio do ano. Corria, então, o mês de janeiro e ele
precisava voltar a Salvador para a última providência: casar-se. Em 29 de maio de 1965, aos
23 anos, Gilberto Gil se casou com a namorada Belina. E, na semana seguinte, o casal se
instalou no hotel Términus, a primeira das muitas moradias que teriam dali em diante. Gil se
lembra do cheiro de São Paulo, da cidade grande, tão diferente dos aromas que conhecia.
“O cheiro de São Paulo era diferente do cheiro da Bahia e do Rio e foi minha primeira impressão da cidade.
Nessas cidades grandes, o odor é a primeira marca porque há uma mistura muito grande de gases da
poluição dos automóveis e dos ônibus. O Rio já tinha me causado uma impressão diferente de Salvador.”
Após a temporada no hotel Términus, Gil e Belina passaram três meses em Campinas — o
estágio exigia que Gil trabalhasse nas unidades produtivas da Gessy de Campinas e de
Valinhos, onde fabricavam o sabonete Lever, a pasta dental Gessy, e outros produtos do
gênero. Nesses três meses, pularam de hotel em hotel. Ao final do tempo de andanças, Belina
engravidou. Como não tinha família ou amigos por perto, o casal decidiu que a criança
nasceria em Salvador. E assim foi. Quando estava chegando a hora do parto, ela seguiu para
Bahia e ele ficou sozinho em São Paulo. Nara nasceu em janeiro de 1966. Gil só conheceu a
primeira filha quarenta dias depois. O encontro se deu num lugar inusitado: na pista do
aeroporto de Congonhas. Foi um encontro cinematográfico.
Ansioso, ele foi com o amigo Péricles Cavalcanti, vizinho de bairro, até Congonhas.
Chegando lá, contou ao rapaz que guardava o portão de acesso à pista que a filha recém-
nascida estaria no próximo voo: “Vou conhecer a minha filha, ela está chegando.” Comovido,
o guarda abriu o portão e deixou que Gil corresse até o avião. Claro, eram outros tempos. O
aeroporto de Congonhas era pequeno e os aviões abriam a porta na pista mesmo, nada de
tubos engatados. Com a permissão do funcionário, Gil esperou Belina, que trazia Narinha no colo, ao pé da escada. “Aqueles primeiros abraços são algumas das lembranças muito fortes
que eu tenho desses primeiros tempos em São Paulo.”
O próximo endereço foi Cidade Vargas, no ABC paulista, ao lado de Diadema. Como
trainee na Gessy Lever, Gil estava sendo preparado para se tornar diretor da empresa e,
talvez, um dos primeiros executivos negros da companhia. Em Cidade Vargas, viveram em um
bairro residencial habitado, na sua maioria, por pessoas que trabalhavam em São Paulo. Era
praticamente um bairro dormitório, com expansões urbanizadas e casas padronizadas. Gil
trabalhava o dia todo e, à noite, ia com Belina se encontrar com a turma dos amigos baianos,
que também havia se mudado para São Paulo. Voltavam de ônibus para casa, muitas vezes sob
a famosa garoa paulistana. Ao todo, Gil e Belina ficaram em Cidade Vargas durante um ano.
Mesmo trabalhando na Gessy, Gil nunca deixou de lado a música. Era um pé lá, outro cá.
A música era paixão, e a Gessy Lever, o sustento. “Eu ia nesse modus operandi, equilibrando
as coisas, atendendo ao projeto da família, atendendo à sobrevivência e à música.” Belina
entendia o seu amor pela música, incentivava timidamente, porque sempre foi uma pessoa
reservada. Não dava palpites, mas também não reprimia. “Ela gostava, sim, tanto é que
guardou os meus cadernos de rabiscos iniciais, as primeiras letras de músicas”, diz Gil.
Belina os manteve por décadas e depois os devolveu ao ex-marido.
Ronda paulistana
A vida de Gil em São Paulo era frenética. Bares, casas de amigos, festivais, não havia noite
em que não se reunisse para tocar, mostrar as suas músicas ou ouvir as dos outros. A dupla
jornada exigia fôlego. Ele pegava um ônibus bem cedo em Cidade Vargas, levava quase uma
hora para chegar até o vale do Anhangabaú, onde saltava, subia a pé a avenida São João,
entrava na avenida Rio Branco e chegava à praça da República, no escritório da Gessy. Uma
caminhada de uns quinhentos metros, que ele fazia diariamente. Ao final do expediente, por
volta de cinco da tarde, começava o plantão noturno.
Um dos pontos de encontro era o célebre Teatro de Arena, no entorno da praça da
República, bem pertinho da Gessy. Outro lugar onde se encontravam era o Redondo, também
nos arredores da praça da República, um bar que tinha esse nome porque ficava no térreo de
um edifício arredondado de esquina. O Redondo era frequentado pela nata da boemia artística.
Todo mundo dava uma passadinha por lá: Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, os
fundadores do Arena; Carlos Castilho, diretor musical do teatro; e artistas como Dina Sfat e
Marília Medalha; além dos novatos na área, como Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso
e, claro, o então funcionário da Gessy Lever. Perto dali ficava a boate Stardust, onde tocavam Hermeto Pascoal e Lanny Gordin, que depois veio a ser guitarrista do Gil. Essa foi a época
áurea do Teatro Arena. Em cartaz, o musical Arena conta Zumbi , de Edu Lobo e Guarnieri,
com direção de Boal. Entre os encontros que aconteceram por ali, nasceu a amizade de Gil
com Isaías Almada, namorado de Marília Medalha, que faria com ele o primeiro videoclipe
brasileiro, com a música “Domingo no parque”.
O parque, o sorvete, a rima
No livro Gilberto Gil: todas as letras, o músico fala sobre a gênese de “Domingo no parque”, em 1967.
Escolheu primeiro os personagens, o capoeirista e o feirante. Aí, já tinha os elementos nítidos para
começar a criação da história, um “romance mexicano”. Veio, então, o parque, o sorvete, a rima. “Para
rimar com ‘sumiu’, eu cheguei a Boca do Rio (bairro de Salvador). E quando eu pensei na Boca do Rio,
me veio um parque de diversões que eu tinha visto, não sei quantos anos antes, instalado lá.” Era
preciso também fazer o João e o José se encontrarem. “No parque vem a conformação dos caracteres
psicológicos dos dois. Um, audacioso, aberto, expansivo. O outro, tímido, recuado.” Era só concluir.
No depoimento bruto que deu ao documentário Uma noite em 67, de Renato Terra e
Ricardo Calil, Gil falou da influência do cinema na sua vida:
“O cinema era importantíssimo para nós, toda a revolução do cinema brasileiro, com o Cinema Novo e
tudo o que girava em torno, mais a Nouvelle Vague, mais o grande cinema americano, que ia de Hitchcock
até os grandes novos criadores. O cinema era a linguagem mais cativante, a que reunia tudo. O cinema era
o grande teatro, era a grande música. Nós tínhamos tido os grandes musicais americanos como fonte
extraordinária de referência para a imagem e a palavra, entre o movimento, a dança e a narrativa dramática.
O cinema era para a nossa geração uma forma de arte extraordinária, que juntava tudo. Então, ainda que
inconscientemente, o cinema está ali no ‘Domingo no parque’.”
Gil assistiu a Arena conta Zumbi dezenas de vezes. Gostava da música de Edu Lobo, “um
dos primeiros”, segundo ele, “a trazer os elementos nordestinos para a chamada música
contemporânea, a incorporar esse lado da toada e do baião à dimensão moderna”. “Ponteio”,
apresentada pouco depois no III Festival da Música da TV Record, em 1967, era um exemplo
disso. Numa dessas noites, Gil conheceu Carlos Lyra. Ele era da turma, “amigo de toda aquela
esquerda festiva, como se costumava dizer”. Morava no Rio de Janeiro, mas foi visitar o
Arena e Gil foi apresentado a ele por Edu e Guarnieri. “Eu me lembro da gente sentado ali no
Redondo conversando, falando da Bahia, de Caymmi, de quem ele gostava, e da bossa nova,
confessando a paixão pela ‘Pobre menina rica’.”
Convergência artística O país vivia um turbilhão político. Mas apesar de o presidente Castelo Branco ter abolido
todos os partidos existentes no Brasil e incentivado a criação de apenas dois, a Aliança
Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que se
tornaram os únicos partidos políticos brasileiros permitidos até 1979, a vida cultural ainda
não sentira, de fato, todo o impacto do regime de exceção. Quando em março de 1967 assumiu
o marechal linha-dura Arthur da Costa e Silva, também eleito indiretamente, começou no
Brasil o período mais nefasto da ditadura militar.
Naquele tempo, as artes convergiam, dialogavam, interagiam. O cinema, o teatro, a
música, tudo estava interligado. E pipocavam novas estéticas e propostas, sempre regadas a
uísque e discussão política. Era um tempo de redescoberta da identidade brasileira, quando a
valorização da cultura nacional assumiu papel preponderante. Os artistas flertavam
simultaneamente com várias áreas, até porque as amizades cruzavam fronteiras artísticas.
Guarnieri era diretor de teatro, ator e compunha letras de música para as peças do Teatro de
Arena. O Cinema Novo ia buscar seus atores no Arena ou no Teatro Opinião, no Rio de
Janeiro. Chico Buarque já era compositor e cantor conhecido quando também se aproximou do
teatro, fazendo peças como Roda viva ou a trilha de Morte e vida severina. Vinicius de
Moraes passou a compor com Baden Powell os primeiros afro-sambas, inclinando o leme
para outro lado, bem diferente da bossa nova. “Berimbau”, de Baden e Vinicius, impressionou
todo mundo.
O teatro era uma expressão forte da efervescência cultural da época. Em São Paulo, o
Arena, e, no Rio de Janeiro, o Teatro Opinião. Ambos polos de resistência e protesto, que
apostavam na dramaturgia nacional e popular. O sucesso de público determinou novas versões
de Arena conta... No mesmo ano de Zumbi, 1965, Boal escreveu e dirigiu Arena conta Bahia,
com direção musical de Gilberto Gil e Caetano Veloso, com Maria Bethânia e Tom Zé no
elenco. O espetáculo foi encenado no Teatro Brasileiro de Comédias, o TBC, em Salvador.
Em seguida, com texto de Boal e Guarnieri, o Teatro Oficina, fundado por Amir Haddad, José
Celso Martinez Corrêa e Carlos Queiroz Telles, montou Tempo de guerra , construído com
poemas de Brecht, com Gil, Gal Costa, Tom Zé e Maria Bethânia no elenco.
Caetano e Gil chegaram a São Paulo na mesma época. Caetano ficou no Rio de Janeiro
enquanto o espetáculo Opinião estava em cartaz e depois seguiu com Maria Bethânia para a
cidade que logo renomearia: Sampa. Outro baiano também desembarcou na capital paulistana
no mesmo ano, 1965: Tom Zé. Ele chegou para fazer Arena conta Bahia, convidado por Gil e
Caetano, que já haviam subido ao palco com ele no show Nós, por exemplo. Para os baianos,
o período entre 1965 e 1966 foi de reconhecimento de território, de encontros e início das relações que se ramificavam de São Paulo para o Rio de Janeiro e vice-versa.
Além do Arena e do Redondo, dois outros bares faziam parte do circuito dos jovens
artistas: João Sebastião Bar e o Rui Barbosinha. Nas duas casas, os novatos mostravam suas
criações e também se apresentavam, como Gil fez inúmeras vezes, em pequenos shows.
Tocavam meia hora e cantavam entre cinco e oito músicas. Outras vezes, as músicas eram
mostradas nas mesas dos bares mesmo.
A Galeria Metrópole era um capítulo à parte. Anunciada nos anos 1960 como “a maior
concentração de lojas da América Latina”, era uma mistura de lojas, confecções, lanchonetes,
bares, clubes e casas noturnas e tinha quatro andares. Os shopping centers nem tinham sido
inventados, mas havia nessa época uma profusão de galerias na cidade de São Paulo. A
Metrópole, uma das mais famosas, localizada na avenida São Luiz, no Centro, era ponto
obrigatório de artistas, intelectuais, jornalistas e estudantes, que frequentavam sobretudo os
seus inúmeros bares. Os grandes músicos em início de carreira, como Gil, Caetano Veloso,
Chico Buarque, Jorge Ben, Edu Lobo, apareciam sempre atrás de boa conversa e boa música.
Lupicínio Rodrigues era frequentador assíduo. Era comum encontrar Ângela Maria, Maysa,
Elis Regina, Nara Leão, Wilson Simonal, Cauby Peixoto, Silvio César e Jair Rodrigues nos
restaurantes e bares. Num deles, o Ponto de Encontro, que ficava no subsolo, Plínio Marcos
lançou Dois perdidos numa noite suja, sua primeira peça. Acontecia de tudo. No pocket show
de Lennie Dale e o Sambalanço Trio, um garçom aparecia diante da plateia com um filhote de
pato numa bandeja, ao lado de um dry martini, assim que Lennie começava a cantar “O pato”,
de João Gilberto. Numa noite, o canadense Oscar Peterson, um dos maiores pianistas de jazz
de todos os tempos, causou o maior alvoroço ao aparecer de surpresa na boate Le Club, na
galeria, e dar uma canja que se transformou na maior jam session que a cidade já vira. Tinha o
restaurante-bar Cha Moon, para o chá das cinco ou uísque das seis. O Barroquinho,
Barquinho’s Drink, Esquilo’s, O Jogral. Isso sem contar o Cine Metrópole, cinema de
primeira que exibia filmes franceses e italianos. Hoje, sem o charme e a ebulição boêmia e
artística de outros tempos, a Galeria Metrópole passa por uma reforma para abrigar agências
de turismo, lojas e restaurantes, à espera da revitalização do centro de São Paulo.
Os encontros, porém, aconteciam em todos os lugares, a qualquer hora do dia e da noite.
Quando chegou a São Paulo para fazer o teste para a Gessy Lever, Gil assistiu pela primeira
vez ao programa de televisão O fino da bossa, que ia ao ar toda segunda-feira, e que, na sua
primeira versão, chamou-se Dois na bossa, também com Elis Regina e Jair Rodrigues. Foi a
noite de estreia do Ary Toledo, que emergia do teatro musicado e do Arena, e que cantou pela
primeira vez na televisão as toadas humorísticas que compunha. Depois, já como cidadão paulistano, Gil foi mais uma vez assistir aoO fino da bossae finalmente conheceu Baden
Powell em um bar ao lado do teatro da TV Record, na rua da Consolação. Edu Lobo
apresentou os dois e pediu a Gil que mostrasse uma de suas músicas. O baiano cantou “Amor
até o fim”. Baden adorou e disse a Edu: “Olha outro diferente aí”. Gil se lembra de Baden
“fazendo aqueles trejeitos” que ele tinha. “Ele era muito tímido, quieto, mas era ao mesmo
tempo muito espirituoso.”
A era dos festivais
A música, que até então chegava ao público pela rádio, passou a ser divulgada por um novo
veículo que começava a mudar a face da comunicação no Brasil no início dos anos 1960: a
televisão. Gil já tinha experimentado a novidade em Salvador, com o programa de Jorge
Santos. Mas a televisão ainda iria se tornar a grande arena da música brasileira, que arrastaria
verdadeiras multidões aos auditórios de seus programas e festivais, em São Paulo e no Rio de
Janeiro, com suas torcidas organizadas. Os festivais marcaram época. Revelaram grandes
artistas, que formaram uma geração de talento excepcional e duradouro, e representaram uma
virada da música, iniciando a chamada MPB. A discreta e suave bossa nova abriu espaço a
outro tipo de música, boa parte da qual mostrada nos festivais. Artistas como Gil, Edu Lobo,
Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Elis Regina, Tom Zé, Rita Lee, Roberto
Carlos, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Dori Caymmi e muitos outros ganharam fama
nessa época, mostrando o talento nos festivais.
Os primeiros concursos de música surgiram nas universidades paulistanas, principalmente
no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, o Tuca, e se alastraram para a televisão.
Aprisionada no contexto do regime militar, que botava suas mangas repressoras de fora, a
juventude universitária se insurgia contra o estado das coisas e, a partir de 1965 e até 1972,
usou como arma e munição as letras das canções dos compositores dos festivais promovidos
pela televisão, que viraram febre no meio estudantil. O primeiro festival foi na TV Excelsior
— I Festival Nacional da Canção —, liderado por Solano Ribeiro. Começou no Guarujá, em
São Paulo, e teve sua etapa final realizada no Rio de Janeiro, na sede da TV, em Ipanema.
Ganhou “Arrastão”, que lançou Edu Lobo como compositor e o furacão Elis Regina como
intérprete. Depois, vieram os festivais da TV Record, em São Paulo, e finalmente da TV
Globo, que bancou os festivais do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro.
O festival da Record acontecia no Teatro Paramount, de São Paulo. Um show ao vivo —
“on-line”, diria Gil — televisionado em tempo real para o Brasil. Naquela época não existia o
videoteipe. Com os festivais, Gil decidiu que música era mesmo seu caminho. Sua vida estava difícil. Saía de casa cedo para trabalhar e voltava tarde. “Era uma confusão danada, uma hora
da manhã, duas horas da manhã eu voltava, tendo que acordar às seis para chegar no trabalho
no centro, cochilando pelos banheiros da companhia. Não podia dar certo!” Foi quando seu
próprio orientador na Gessy, Vicente Creazzo, o chamou um dia e disse: “Gil, está na hora de
você seguir o seu destino”. Creazzo conhecia música, acompanhava o programa O fino da
bossa, e Gil contava a ele sobre suas aventuras. Um dia, depois de muito maturar, telefonou
para seu pai e anunciou que tinha resolvido largar o emprego:
— Mas você está louco?
— Pois é, pai, agora não tem jeito, a música está me chamando!
Seu Zeca ainda tentou argumentar:
— Como é que você vai viver do ponto de vista financeiro, como vai enfrentar suas
responsabilidades?
E Gil:
— Velho, vai ser assim!
Apesar da preocupação, seu Zeca decidiu apoiar o filho e passou a mandar uma ajuda em
dinheiro, até que Gil conseguisse se sustentar com seu novo ofício. A oportunidade de ganhar
mais visibilidade veio na voz da amiga Elis Regina. Gil mostrou a Elis a música “Ensaio
geral”, que ela defendeu no II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record. Mas
Chico Buarque venceu com “A banda” e Gil ficou em quinto lugar com a música interpretada
por Elis. Segundo ele, uma das missões e talentos da cantora era descobrir músicas de
qualidade e lançar bons compositores.
“Ela se atribuía isso. Fez isso com Edu, com Milton, comigo, com Ivan Lins, João Bosco, com Belchior,
todo mundo. Ficava de olho em cada novo lençol geracional que aparecia e gravava suas músicas.
Durante pelos menos 15 ou vinte anos foi o trabalho a que ela se dedicou, além da excepcional qualidade
da interpretação. Mas esse aspecto de revelar os novos talentos ela levava muito a sério.”
Gil conheceu Milton Nascimento na casa de Elis. O mineiro, como outros músicos,
zanzava entre Rio e São Paulo. “Milton passou a fazer a mesma coisa que Edu tinha feito, que
eu tinha feito: apresentar as músicas para ela cantar.”
Foi no II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em 1966, que o grande
público conheceu, então, o compositor Gilberto Gil. Caetano Veloso também estreou nos
festivais neste mesmo ano, com sua música “Boa palavra”, cantada por Maria Odete. Mas as
preferências ficaram com “A banda”, de Chico Buarque, interpretada por ele e Nara Leão, e
“Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, apresentada por Jair Rodrigues e o ainda
Trio Novo, com Theo de Barros (contrabaixo e violão), Heraldo do Monte (viola caipira e guitarra) e Airto Moreira (bateria e percussão, com queixada de burro). Mais tarde, com a
entrada de Hermeto Pascoal, o trio virou Quarteto Novo. “A banda” e “Disparada” empataram
em primeiro lugar e, de estilos totalmente diversos, retomaram a transformação da música
brasileira iniciada com “Arrastão”, que abriu um novo caminho, distanciando-se da bossa
nova e trazendo para o eixo Rio-São Paulo os temas do Nordeste brasileiro.
Pânico em “Domingo no parque”
Quando fez “Domingo no parque”, Gil chamou Rogério Duprat para fazer o arranjo e Os Mutantes para
defenderem a canção com ele no Festival da Record. Sabia que estava mexendo em casa de
marimbondo. No depoimento bruto que deu para o filme Uma noite em 67, conta com detalhes o pânico
que sentiu antes de subir ao palco. “Era como se eu estivesse com 42 de febre, quase em delírio, na
fronteira da inconsciência, de tanto medo. Foi um dos momentos de maior pânico da minha vida. Eu
vejo hoje as imagens e digo: ‘Não é possível, não corresponde à realidade, eu ali de fato, minimamente
de posse dos sentidos’. Eu nunca achei que fosse ganhar o festival... até hoje não acredito no meu taco.
Resumindo, não acho que vou ganhar nada, nunca.”
Primeiro LP
No ano seguinte, Gil lançou pela Philips seu primeiro LP, Louvação, com músicas que já eram
sucesso, como “Louvação”, “Lunik 9”, “Procissão”, “Rancho da rosa encarnada” e “Ensaio
geral” (Gil havia gravado pouco antes, pela RCA Victor, um compacto simples com as
músicas “Procissão”, dele, e “Roda”, dele e de João Augusto, e participara do 4º Festival da
Balança, da Universidade Mackenzie, em São Paulo, com a música “Iemanjá”, escrita por ele
e Othon Bastos).
O long-play de estreia de Gil, Louvação, chegou com a marca da força da música
brasileira. Nas palavras de Torquato Neto, Chico Buarque, Capinan e Caetano Veloso, que
escreveram textos para a capa do disco, sedimentava-se o respeito, a admiração e o futuro
brilhante de Gil. Cada um escreveu com paixão sobre o trabalho musical de Gil. Vale a pena
reler as opiniões:
De Torquato Neto:
“Há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira. Gilberto Gil prefere todas. Assim, ele se entende
com o público. E daí, o espanto dos incautos que não entendem (ou aceitam) a extraordinária
musicalidade de Gil e o modo pelo qual ele apreende e pode utilizar — do jeito mais pessoal — qualquer
forma musical nossa, do baião ao samba, da marcha-rancho à canção mais romântica. O repertório deste
seu primeiro LP foi escolhido para que o público possa ter uma visão geral do caminho que ele vem
seguindo, no trabalho que desenvolve ativamente de uns cinco anos pra cá, primeiro na Bahia, depois em
São Paulo e no Rio. Portanto, estão aqui sucessos recentes, como ‘Roda’, ‘Lunik 9’ ou ‘Louvação’, ao lado
de composições novas, inéditas (‘Água de meninos’, ‘Beira-mar’, ‘A rua’) e outras, mais antigas, como
‘Maria’ (“Me perdoe, Maria”), ‘Amor de Carnaval’ ou ‘Procissão’. No todo, este disco pretende deixar claro
que meu querido amigo e parceiro Gilberto Gil está pronto para assumir o lugar que o situa — entre Chico
Buarque de Hollanda e Edu Lobo — como o compositor mais fértil e importante da música popular
brasileira atual.”
De Chico Buarque de Hollanda:
“Grande é o coração do baiano. Se bem que me convidaram a escrever sobre Gilberto Gil, o compositor. É
difícil separar o baião de seu peito, visto que dançam tão juntos. Como é impossível desligar de sua cara
redonda os rodeios que sua melodia faz. Sua música se desenrola tal qual uma serpentina que antes de
terminar seu passeio dá um giro a mais, só para nos surpreender. Há uns tempos atrás, em São Paulo, Gil
mostrou-me uma safra, uma dúzia de composições novas. Estranhei a princípio. Depois, confesso que
senti certa inveja. Mas o sorriso redondo de Gil venceu, deixando todo mundo doido de vontade de jogar
serpentina logo atrás. Pelas letras de seu samba, fui apresentado a Torquato, Capinan e Caetano. Gilberto
Gil, que também é ótimo letrista, quando não encontra as palavras de seu samba sabe quem as pode
adivinhar. É notável como a poesia bem pessoal de cada um de seus parceiros leva uma marca de Gil
como denominador comum. É que Gilberto Gil contagia, no bate-papo, no bate-coxa, na sinceridade do
cantar. Senão, ouçam.”
De José Carlos Capinan :
“O pessoal da nossa moderna música popular encontrou uma montanha de perguntas pelo caminho.
Perguntas que o samba e seus mais autênticos artistas deixaram, como também deixou o baião, o chorinho
e poderá deixar o iê-iê-iê. Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico Buarque, Sidney Miller, Torquato Neto,
Paulinho da Viola — geração ótima de compositores e letristas — estão aí respondendo com o violão e os
vários estilos de cada um, que são o conflito entre a formação que tiveram e o momento que enfrentam.
Entre eles, Gilberto Gil, com sua herança de Luiz Gonzaga, sua posterior paixão por João Gilberto, Baden e
Vinicius, e com sua resposta sensual, densa e alegre — no mesmo caminho de Caymmi — tendo a Bahia
no fundo e a realizada preocupação de ser popular. Gil é, como os outros, a melhor medida do mais jovem
em nossa música, porque responde. E porque, em nível diferente, cria novas perguntas sobre o caminho
desta música, de nossa saudade e amor, e sobre, principalmente, o caminho de nós mesmos nestes
tempos de ‘Procissão’ e ‘Lunik 9’.”
De Caetano Veloso:
“Penso que o canto de Gilberto Gil situa-se no centro da única discussão verdadeira sobre a música
brasileira do nosso tempo, uma extraordinária musicalidade que se perde entre as emoções da cidade e do
sertão, de depuramento das tradições e da vulgaridade total — essa musicalidade que tenta reencontrar-se
além de tudo isso — e que é a mais vigorosa exigência de que se coloquem em outro nível as relações de
nossa música com a realidade. Conheço de muito tempo o agrado com que se pode ouvir o que Gilberto
Gil faz em música e sei que isso nasce da espontaneidade que ele escolhe as notas, da intimidade bruta
com que se aproxima das formas musicais. Mas prefiro descobrir e ressaltar que a verdade mais profunda
da beleza do seu trabalho está no risco que corre de descobrir uma beleza maior: a capacidade de criar
uma obra inteira, assumindo o Brasil inteiro.”
O primeiro disco proporcionou a Gil o que lhe faltava: dinheiro. Marcos Lázaro,
empresário de uma grande parte dos artistas que trabalhavam na Record, como Elis e Jair
Rodrigues, ocupou-se naquele momento da carreira do músico. Ele fez shows no Automóvel
Clube de Santos e no Automóvel Clube de Belo Horizonte, sempre sozinho, com o banquinho
e o violão. Por essas apresentações recebeu cachês que o ajudavam a pagar as contas.
O universo de Gil e o homem na Lua
Louvação foi o álbum de estreia de Gil no mercado fonográfico, em 1967, aos 25 anos. Nele trouxe suas
raízes do Nordeste, as marcas do Carnaval na infância, samba, bossa nova e um olhar atento sobre o
mundo que misturava sua história de vida com uma nova era que se abria à sua frente, com a aventura
espacial, como em “Lunik 9”. Eram músicas inteiramente suas e parcerias com Caetano Veloso,
Torquato Neto, Capinan e Geraldo Vandré. A ditadura militar que se instalara em 1964 aparece como
pano de fundo em canções que mencionavam questões sociais, como “Ensaio geral” ou “Procissão”.
Anos mais tarde, o crítico americano John Bush escreveu que o LP Louvação já revelava “um dos mais
brilhantes compositores e intérpretes do Brasil”.
O disco Louvação foi sem dúvida um cartão de visitas para que a carreira começasse a
prosperar. O relato mais curioso sobre a divulgação do disco envolve um fato prosaico que, à
primeira vista, nada tinha a ver com a bela e vigorosa canção. Gravada pela primeira vez ao
vivo por Elis Regina e Jair Rodrigues, acompanhados do Bossa Jazz Trio, no programa O fino
da bossa, da TV Record, foi, no entanto, num programa de rádio que ela teve sua projeção.
Conta o livro A canção no tempo, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, que, na manhã
de 29 de julho de 1966, o locutor da rádio Jovem Pan interrompeu a programação para
anunciar um incêndio num edifício nas organizações Record, na avenida Miruna. Por obra do
destino, tocava na rádio “Louvação” quando foi anunciado o incêndio.
Por alguma razão cabalística, sabe-se lá (ou talvez pelos versos “Louvo a luta repetida/
Da vida pra não morrer”), assim que as emissoras de rádio e televisão voltaram a operar
depois do fogo, mesmo de forma precária, a direção da Record decidiu tocar a canção
seguidamente. Diz o livro:
“Teve assim a música de Gil, de uma forma inusitada, uma divulgação maciça (bem superior a das outras
canções da sua fase inicial), ‘louvando quem bem merecia’, muito especialmente os bombeiros, como
reconheceu o editorial do Jornal da Tarde, em 1º de agosto”.
Gil recebeu a letra de “Louvação” do amigo e parceiro Torquato Neto e ao fazer a
melodia modificou ligeiramente alguns versos. Quando gravou a canção, no LP Louvação, lançado no começo de 1967, Gil adotou o samba no lugar do ritmo de baião em que a música
havia sido composta.
Ele, porém, não se esqueceu do episódio do incêndio:
“Elis gravou ‘Louvação’ e aí veio o incêndio da Record, não do teatro, mas da estação de televisão, que
ficava ao lado do aeroporto de Congonhas. Todos os estúdios da Record ficavam ali. São essas coisas
malucas. Na hora que chegou a notícia do incêndio pelo rádio estava tocando ‘Louvação’ com Elis. Essa
história virou folclore. Eu só fiquei sabendo depois. E toda vez que a rádio dava notícias do incêndio, a
cada cinco, dez, 15 minutos, tocavam novamente ‘Louvação’. Tocou o dia todo, e no dia seguinte, e
depois. Era essa coisa de ‘levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima’. A música ficou associada a esse
momento de retomada. Ficou muito conhecida. A partir disso, a cada segunda-feira, no Fino da bossa, eu
tinha que ir à Record cantar ‘Louvação’ com a Elis.”
Havia também os programas de televisão da Record e ele recebia para fazer
apresentações em O fino da bossa e em outros programas, como Essa noite se improvisa, em
que artistas convidados tinham até 15 segundos para se lembrar de uma música que contivesse
determinada palavra, sorteada na hora. Participavam Caetano Veloso, Chico Buarque,
Vinicius de Moraes, Edu Lobo e a maioria dos músicos e artistas da Record. No repertório do
programa tinha de tudo: música popular tradicional, velhos sambas, marchas etc. Com a renda
dos shows e dos programas, e a ajuda do pai, Gil ia levando.
Guitarras elétricas
Mas a visibilidade também transformou a televisão em uma arena para os músicos. Os artistas
da TV Record protagonizaram uma disputa estimulada pela direção para divulgar ainda mais
os dois “polos cintilantes de dois movimentos antagônicos naquele momento”, como diz Gil.
Essa disputa ocorria entre os programas O fino da bossa, de Elis Regina e Jair Rodrigues, e
Jovem Guarda, de Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos, programa exibido pela TV
Record a partir de 1965. O programa da Elis começava a perder audiência para o rock de
Roberto Carlos. Assim, a Record convenceu Elis de que era preciso haver uma reação porque
a Jovem Guarda roubava audiência dos programas de MPB.
Elis tinha deixado O fino da bossa durante quase dois meses para passar férias na Europa.
Ficou fora seis programas semanais, que passaram a ser repetidos durante suas férias. Quando
voltou o Jovem Guarda já tinha lhe roubado o título de campeã de audiência. Como fala Gil,
“por razões do próprio conteúdo do Jovem Guarda, mas também pelo vácuo deixado ali, pelo
espaço cedido”. O diretor Paulo Machado de Carvalho, preocupado, propôs que ela fizesse
um movimento contra a guitarra elétrica, a vilã que se impunha na música brasileira, vindo de
fora. “Elis embarcou nessa”, Gil lamenta. Ela propôs uma passeata contra a guitarra, que aconteceu em São Paulo. Os puristas a “acusavam” de desvirtuar a “autêntica” música
brasileira e trazer influências estrangeiras inadmissíveis. Elis lançou-se com toda a sua força
contra a Jovem Guarda, da qual a cantora Celly Campello era musa e Elvis Presley ídolo. A
atrevida Jovem Guarda, ainda por cima, inventava o rock ’n’ roll nacional e o chamava de iê-
iê-iê, nome inspirado no filme dos Beatles, de 1964, A Hard Day’s Night (também título da
música que tinha o refrão “yeah, yeah, yeah”), que no Brasil recebeu o título de Os reis do iê-
iê-iê.
A passeata saiu em 17 de julho de 1967, foi do largo São Francisco ao Teatro Paramount,
na avenida Brigadeiro Luís Antônio. Gil era muito próximo de Elis. Ela incentivava sua
carreira. Incentivava, mas também cobrava.
“Ela dava, mas queria ali seus súditos fiéis. Então eu disse: ‘Não posso deixar de ir’.” Gil conta: “Fui por
causa da Elis, para não contrariá-la, porque ela tinha muita ascendência sobre nós, principalmente sobre
mim e Milton Nascimento, mas também sobre todos que se aproximaram muito dela, tornavam-se amigos,
frequentavam sua casa — e ela pairava um pouco como uma rainha sobre todos nós”.
Muito mais tarde, em 28 de janeiro de 2012, numa entrevista a Júlio Maria, de O Estado
de S. Paulo, Gil reafirmou sua grande admiração por Elis:
“Eu participava com ela daquela coisa cívica, em defesa da brasilidade. Tinha aquela mítica da guitarra,
como invasora, e eu não tinha isso com a guitarra, mas tinha com outras questões da militância; era o
momento em que nós todos queríamos atuar. E aquela passeata era um pouco a manifestação desse afã
na Elis”. E segue: “Não quis fazer esse jogo, se eu fosse colocar como termo da equação essas questões e
tirar a Elis da equação eu não teria ido. Mas eu fiz o contrário, eliminei todos os outros termos da equação e
deixei ali só a Elis. Determinei meu ato, pautei meu ato por aquela questão. A questão era ela. Eu nada
tinha contra a guitarra elétrica”.
Os Doces Bárbaros: Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Caetano Veloso, em 1976.
Com Caetano e Gal, em 1968.
Carnaval em Salvador, em 1990.
Show com Caetano, Tropicália 2, em 1994.
Show no Carnegie Hall, em 1992.
Para Gil, Elis tinha uma enorme capacidade de liderança e muita força impositiva daquilo
que ela queria, que ela pensava. “Uma mulher de caráter determinado a fazer coisas.”
Acontece que Gil já estava em outra, flertando com as guitarras elétricas e curtindo os
Beatles. Mesmo assim, foi para a passeata, sem nenhuma convicção ideológica, mas por
solidariedade à artista que ele tanto admirava e que o havia apoiado desde a chegada a São
Paulo.
“Mas eu não tinha nada a ver com aquilo. Eu tenho uma dimensão afetiva que de vez em quando
transborda e não se sabe muito bem o tipo de encharco que ela vai provocar. Às vezes ela pode encharcar
de uma forma complicada aquele lugar onde o vaso transborda. Mas é assim, eu sou assim.”
Logo depois da tal passeata, alguns artistas se reuniram e decidiram criar o movimento
Frente única, que juntava todo o mundo da música da época. Na reportagem da revista Fatos
e Fotos, de 29 de julho de 1967, intitulada “A frente única da Jovem Guarda”, Roberto Carlos
e Chico Buarque pareciam estar, pela primeira vez, no mesmo time. “Vamos partir para a
união. Nosso lema revolucionário será a comunicação com o público jovem”, afirmaram à
revista. Eles, e outros músicos, concluíram que seria inútil manter a rivalidade entre o iê-iê-iê
e o samba tradicional e fizeram as pazes. Mais que isso, organizaram o movimento que uniria
“Geraldo Vandré, o samba de breque de Wilson Simonal, o samba de morro de Zé Keti, as
bossas de Elis Regina e Jair Rodrigues, o romantismo de Dóris Monteiro, a ternura de
Wanderléa e os protestos de Gilberto Gil”. Todos se apresentariam num programa da TV
Record.
“A combinação era de que o movimento teria várias frentes. No palco do Teatro Paramount, Gilberto Gil
leria um manifesto, anunciando a nova disparada da música jovem, acompanhado por Maria Bethânia,
cantando ‘Querem acabar comigo’, de Roberto Carlos. Cabia a Caetano Veloso garantir que ‘o iê-iê e a
bossa nova já terminaram: agora começa a existir apenas a música popular brasileira’.”
A incrível verdade é que a gaúcha Elis tinha começado em Porto Alegre cantando rock.
Fora descoberta por Carlos Imperial, que queria transformá-la numa cantora de rock. Amargou
uns três discos de rock, boleros, baladas, sambas, sambalanços e até alguma bossa, antes de
seu definitivo lançamento no disco Samba — Eu canto assim, de 1965, já na época de O fino
da bossa. O crítico e jornalista Tárik de Souza conta:
“Por incrível que pareça, o mesmo Imperial que lançou o rock no Brasil (e mais Roberto Carlos, Erasmo
Carlos e Wilson Simonal) foi o descobridor de Clara Nunes e Elis Regina. Só que ele queria transformar a
gaúcha na ‘nova Celly Campello’. E a baixinha já atrevida, do alto dos seus 16 para 17 anos, peitou o
Gordo: ‘Nada disso, eu quero ser é a nova Elis Regina’”.
O protesto contra a guitarra, no entanto, não foi muito longe. Para Elis e muitos dos artistas
que apoiaram a passeata, aquela história toda era grave e eles acreditavam que era preciso
marcar território. Mas as consequências não foram maiores porque a força da Jovem Guarda
já era grande e estava bastante consolidada. Além disso, o grande público não parecia estar
muito preocupado com essas distinções. Amava tanto Elis Regina quanto Roberto Carlos,
gostava tanto de Caetano Veloso e de Gilberto Gil quanto de Erasmo Carlos e Wanderléa. O
episódio refletia o surgimento da televisão como um veículo forte e novo, que ampliava a
força de penetração da música num grau até então desconhecido.
O festival dos festivais
O ano de 1967 fervilhava no Brasil e no mundo. No universo musical internacional ganhava
força o pop psicodélico com o lançamento dos LPs Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e
Magical Mystery Tour , ambos dos Beatles, que imediatamente chamaram a atenção de Gil.
Florescia o movimento hippie no chamado Verão do Amor ( Summer of Love) em São
Francisco, EUA, e saía publicada a primeira edição da revista Rolling Stone. Foi também o
ano do lançamento dos álbuns de estreia de The Doors, David Bowie e Jimi Hendrix.
No início de 1967, antes do festival que o consagrou, Gil se mudou com Belina para o Rio
de Janeiro. Já havia deixado a empresa para viver de música quando decidiram passar uma
temporada em terras cariocas. Ficaram primeiro no Leblon, num apartamento emprestado por
Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, até se mudarem para o Leme, onde nasceu Marília, a
segunda filha do casal. Nara já tinha quase um ano. No Leme, moraram perto da boate Arpège,
onde Chico Buarque se apresentava com o MPB-4 e a atriz Odete Lara. Era o show Meu
refrão, que depois passou a se chamar Pra ver a banda passar. Pouco depois de se mudarem
para o Rio de Janeiro, e do nascimento de Marília, Gil e Belina se separaram. Gil havia
conhecido Nana Caymmi, filha de Dorival Caymmi, quando ela voltou da Venezuela com os
filhos, já separada de Gilberto, um médico venezuelano com quem se casara. Os dois se
conheceram na ponte aérea Rio-São Paulo. Decidiram ficar juntos, montaram casa na rua
Pompeu Loureiro, em Copacabana, e se mudaram com os filhos dela para lá.
Foi nessa época que Gil compôs “Domingo no parque”, pois precisava de uma música
nova para o novo festival da Record. Assim nasceu a música, de uma tacada só: em São
Paulo, Gil e Nana estavam no hotel Danúbio, lugar onde a Record e a Excelsior hospedavam
os artistas do Rio de Janeiro. Caetano também morava lá quando estava em São Paulo. Jacob
do Bandolim, Elizeth Cardoso, todos se hospedavam no Danúbio, que se tornou uma república
de músicos. Numa certa noite, Nana e Gil foram visitar Clóvis Graciano, pintor, desenhista, cenógrafo, ilustrador, amigo e compadre de Dorival. Gil relata: “Ficamos ali naquele papo.
Clóvis era pintor renomado, muito aclamado. Voltamos para o hotel lá pela uma da manhã
depois daquelas conversas todas e com a cabeça pensando na música, porque estava na hora
de fazer”. Nana se deitou e Gil ficou ali com o violão, o gravador do lado.
“Tínhamos conversado muito. Ele, o Clóvis Graciano, pintava barcos, paisagens marinhas, era muito
caymmiano nesse sentido, mas também do ponto de vista pictórico. Caymmi também experimentava pintar
algumas coisinhas e seguia um pouco essa escola. E eu estava impregnado com aquelas histórias todas de
Bahia, de pescadores, que tinha sido um dos temas básicos da conversa toda no jantar. Fiquei com aquilo
tudo na cabeça, aquelas imagens, aqueles negros fortes, pescadores, aquela gente praieira da Bahia, e
pronto! Peguei o violão e veio logo a ideia de um som de berimbau. Queria dar um toque de capoeira à
música. Além disso, tinha visto a ciranda em Pernambuco e fiquei com aquilo na cabeça. Aí veio a ideia de
que a cena se passava na Ribeira, um lugar importante da Bahia, e na Boca do Rio, que é outro. Saiu tudo
de uma vez só. Nana dormindo. Amanhecendo, cinco da manhã, as primeiras luzes do dia, eu cutuquei a
Nana e disse ‘ouça aqui’. Era ‘Domingo no parque’. E Nana disse: ‘Você fez! Está bonito, está ótimo!’ Foi
assim. A canção vai variando, variando, é uma espécie de suíte, montagem de vários movimentos... é muito
interessante!”
Ousadia divina maravilhosa na TV
Em 28 de outubro de 1968, foi ao ar ao vivo na extinta TV Tupi o primeiro de uma série de programas
Divino, Maravilhoso, comandados por Gil e Caetano. No livro Verdade tropical, Caetano Veloso relembra
momentos do programa: “Eu próprio, numa homenagem ao grande compositor suicida Assis Valente, e
numa desmistificação das róseas sentimentalidades natalinas, cantaria a linda e triste canção ‘Boas
festas’ daquele autor (‘...eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...’), apontando um revólver
para a minha têmpora. E assim fiz. O resultado (que ainda vi no vídeo) era assustador. Fiquei orgulhoso
porque considerei que ali havia densidade ‘poética’, mas intimamente arrependido por crer talvez —
mais uma vez — ter ido longe demais”.
Música pronta, surge a questão: como apresentá-la? Edu Lobo tinha uma relação muito
forte com o Quarteto Novo. O grupo fora criado para acompanhar o cantor e compositor
Geraldo Vandré nas suas apresentações, e a exuberância dos arranjos e das sonoridades que
eles alcançavam chamavam a atenção dos outros artistas. Gil pensou que seria uma boa ideia
se apresentar com o quarteto. Sua cabeça estava cheia de ideias e ele corria atrás de
inovações como as sugeridas pelos Beatles. Gil se empolgou com “aquelas coisas todas do
George Martin”, os arranjos, as combinações de orquestra com conjunto, “aquele sinfonismo”
e “as novas sonoridades de orquestra que ele extraía da tradição alemã, do serialismo, da
música dodecafônica, aquele experimentalismo extraordinário que os Beatles estavam fazendo naquela época. Estava apaixonado por tudo aquilo”.
Resolveu falar com o pessoal do Quarteto Novo. Explicou que queria fazer uma coisa
diferente, queria misturar o som com guitarras elétricas, mas o grupo não se animou, ficou
reticente. Por outro lado, Gil já conversava com o maestro Rogério Duprat, que tinha se
aproximado dele e de Caetano. Duprat disse:
“Olha, Gil, eu acho que na verdade não é bem do Quarteto Novo que você precisa para a sua música. Para
a gente fazer esses experimentos vamos nos aproximar um pouco mais ainda da coisa dos Beatles. Vamos
procurar um conjunto que tenha uma formação mais próxima daquilo, guitarra elétrica, baixo elétrico, uma
dinâmica rock, uma coisa mais do jeito que você quer e aí a gente faz. Eu conheço um grupo e eu acho
que você vai gostar, são uns meninos que trabalham comigo todos os fins de semana no programa do
Ronnie Von na televisão Bandeirantes, chamam-se Os Mutantes”.
Ronnie Von, cantor que começou sua carreira na Jovem Guarda, tinha um programa
chamado O pequeno mundo de Ronnie Von , que além de Os Mutantes, passou a receber
também artistas como Gil e Caetano. Duprat era carioca, mas havia se mudado para São
Paulo, em 1955, para integrar a Orquestra Sinfônica Municipal. Ainda muito jovem, ele tocava
de ouvido cavaquinho, violão e gaita de boca. Também em São Paulo fundou e dirigiu a
Orquestra de Câmara da Cidade e foi um dos idealizadores do movimento de vanguarda
erudita Música Nova, em 1961. Duprat sempre trabalhou no sentido de romper as barreiras
entre a música erudita e a música popular e acabou sendo um dos grandes responsáveis pela
Tropicália, a partir dos arranjos ousados e criativos que fez para “Domingo no parque”.
Vaias à ousadia
O III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, reuniu num só concurso o maior
número de músicas brasileiras de alta qualidade de todos os tempos. Foi classificada a nata
da MPB que alçava voo naquele momento. A página Era dos festivais, do site R7, da Rede
Record, dá a dimensão da efervescência musical da época e do incrível ano que foi 1967 para
a MPB:
“A finalíssima do III Festival da Música Popular Brasileira era assunto obrigatório nos bares, faculdades,
mesas de jantar e rodas de amigos. No palco do Teatro Record estava uma geração praticamente imbatível
da MPB: Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Edu Lobo, Elis Regina, Nara Leão,
Sidney Miller, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré, Nana Caymmi, Sérgio Ricardo e MPB-4. Algumas músicas
que o tempo se encarregaria de consagrar — como ‘Eu e a brisa’ (Johnny Alf), ‘Menina moça’ (Martinho
da Vila) e ‘Máscara negra’ (Zé Keti) — ficaram de fora”.
A lista das vencedoras dessa edição do festival reunia canções que se tornaram clássicos
da música brasileira:
1º Lugar: “Ponteio” (Edu Lobo e Capinan) — Intérpretes: Edu Lobo, Marília Medalha e Quarteto Novo
2º Lugar: “Domingo no parque” (Gilberto Gil) — Intérpretes: Gilberto Gil e Os Mutantes
3º Lugar: “Roda viva” (Chico Buarque) — Intérpretes: Chico Buarque e MPB-4
4º Lugar: “Alegria, alegria” (Caetano Veloso) — Intérpretes: Caetano Veloso e Beat Boys
5º Lugar: “Maria, Carnaval e cinzas” (Luiz Carlos Paraná) — Intérprete: Roberto Carlos
Com “Alegria, alegria”, de Caetano, e “Domingo no parque”, interpretada por Gil e Os
Mutantes, surgiam os primeiros sinais do Tropicalismo. Mais uma vez, a página Era dos
festivais relata o começo da polêmica que mais tarde desembocaria no movimento
tropicalista:
Sucesso tropicalista numa noite de loucuras
O show que reuniu Gil, Caetano e Os Mutantes na boate Sucata, no Rio de Janeiro,
no mês de outubro de 1968, foi “possivelmente a mais bem-sucedida peça do
Tropicalismo”, segundo Caetano Veloso. Por outro lado, traria também consequências
nefastas. A razão específica foi uma peça do cenário, uma bandeira, obra de Hélio
Oiticica, que trazia a imagem de um bandido morto a tiros pela polícia com a inscrição
“Seja marginal, seja herói”. Isso causou a suspensão do show e o fechamento da boate,
como também a maledicência de um radialista paulista que tratou de disseminar a
versão de que Caetano e Gil apareciam enrolados na bandeira brasileira e cantavam “o
Hino Nacional enxertado de palavrões”. Na verdade, a curta temporada na boate foi um
sucesso.
“A maior surpresa musical do festival estava guardada para a segunda eliminatória. Para apresentar seu
número, Gilberto Gil procurou o Quarteto Novo, composto por Hermeto Pascoal, Theo de Barros, Airto
Moreira e Heraldo do Monte. Mesmo tendo participado de uma passeata contra as guitarras elétricas, Gil
estava profundamente influenciado pelo som dos Beatles — especialmente o disco Sgt. Pepper’s Lonely
Hearts Club Band —, dos Rolling Stones e da vanguarda do rock internacional. Na sua cabeça, pipocavam
ideias de mesclar as guitarras de George Harrison e Keith Richards com o violão de Jorge Ben, a sanfona
de Luiz Gonzaga e os ritmos regionais brasileiros com os sons eletrônicos. Eram ideias arrebatadoras. E o
Quarteto Novo não topou a encrenca. O grupo acabou acompanhando Edu Lobo em ‘Ponteio’. O maestro
Rogério Duprat, que seria o arranjador da obra-prima de Gil, sugeriu que ele conhecesse uns meninos: um
grupo de jovens de extrema sensibilidade musical e, principalmente, com afinidades estéticas em relação a
Gil. (...) Dessa forma, Rita, Arnaldo e Sérgio — Os Mutantes — foram convidados a tocar guitarra, baixo e
cantar ‘Domingo no parque’. (...) A imprensa decretou que ‘Domingo no parque’ era a favorita ao lado de
‘Ponteio’.”
Gil apostava na renovação. Duprat incentivava, mostrando o caminho: “Vambora, vamos
inovar, vamos arrojar, vamos arriscar, vamos fazer coisas!” Caetano apoiava e insistia em ir
para a “linha evolutiva”. Gil com Os Mutantes e Duprat, Caetano com os Beat Boys.
Muitos anos depois, em 2012, Rita Lee escreveu um texto para a exposição que marcou os
setenta anos de Gil, relembrando o frisson da época:
“Gilberto Gil, amigo generoso, me chamou num canto e disse ‘antene-se, Ritinha, vou te apresentar à
música’. As primeiras aulas aconteceram no meio da loucura da vida de um baiano recém-chegado na
tresloucada São Paulo. A loucura dos festivais de música sobre e atrás dos palcos. A loucura daquela tal
passeata antiguitarra elétrica da MBP em 1967. Gil mantinha-se calmo, pero sin perder la ousadia. Lá fomos
nós para o front munidos cada vez mais da parafernália que machucava os ouvidos dos pseudopuristas
mpdebistas, ao mesmo tempo que rasgava a caretice e fazia brotar alegria no povo em meio a uma
ditadura claustrofóbica.”
A apresentação de “Domingo no parque” foi histórica. O impacto para o próprio Gil ao
compor uma música que abriria caminhos novos e inquietantes foi tão forte que ele sentiu
medo. Caetano relata, em seu livro Verdade tropical, aquele drama momentâneo:
“Parti para a feitura de ‘Alegria, alegria’ como para a conquista da liberdade. Depois do fato consumado, eu
sentia a euforia de quem quebrou corajosamente amarras inaceitáveis. Gil, ao contrário, considerando que,
se dava tamanho peso ao que se passava em música popular, e se nós estávamos tomando atitudes
drásticas em relação a ela, algo pesado deveria nos acontecer em consequência — um cálculo que eu, em
minha excitação, evitei —, entrou em pânico. Na noite da apresentação de ‘Domingo no parque’, ele se
escondeu sob os cobertores, no quarto do hotel (nós estávamos morando provisoriamente no hotel
Danúbio, em São Paulo), tremendo com o que parecia ser uma febre repentina, e se recusou a ir para o
teatro. Ele tinha se separado de Belina, sua primeira mulher, uma baiana com quem já tinha duas filhas, e
iniciava um romance com Nana Caymmi, filha de Dorival. Nana, que tinha cantado ‘Bom dia’, do próprio
Gil, no mesmo festival, para os apupos da plateia, esforçava-se para convencê-lo a enfrentar o seu destino.
Guilherme Araújo também intercedeu. O espetáculo já ia a meio quando Paulinho Machado de Carvalho,
diretor-geral (e filho do dono) da TV Record, foi até o hotel Danúbio e, finalmente, conseguiu arrancá-lo da
cama. A apresentação de Gil foi deslumbrante. Os Mutantes pareciam uma aparição vinda do futuro. A
fricção entre o tema afro-baiano e o som deles era instigante — Beatles + berimbau ou Beatles x berimbau
—, e a belíssima orquestração de Rogério Duprat dava a tudo aquilo um ar imponente e respeitável que
trazia a plateia para anos-luz de distância do momento em que, apenas um dia antes, esboçou vaiar
‘Alegria, alegria’. E o próprio Gil, alegre e extrovertido como sempre, não demonstrava em nada o medo de
que fora possuído havia poucos minutos. (...) Muito pouco ele se dispôs a falar sobre isso nos dias e meses
subsequentes. Mas, com toda a insegurança íntima de um homem que mudava de vida, saía de um
casamento e sabia-se responsável por uma espécie de revolução, Gil deixou escapar, breve e vagamente, o
sentido de uma angústia que um ano depois, quando consequências terríveis se presentificariam, ele
soube ou pôde articular melhor: ‘Eu sentia que nós estávamos mexendo com coisas perigosas’”.
A ousadia teria um preço. A reação dos outros artistas foi pesada. Gil recorda:
“Nos corredores da TV Rio, ali no Posto 6, já depois do festival, quando a gente estava se apresentando
com Os Mutantes num daqueles programas de auditório, lembro-me de ter encontrado o Nelson Motta nas
escadarias e ele veio com ar lamentoso: ‘Poxa, Gilberto Gil, mas guitarra elétrica? Poxa!’ A crítica vinha
desde esse tom benigno do Nelson Motta até as coisas mais escabrosas em termos de ofensas e
agressões”.
A primeira apresentação no festival não foi fácil. O pânico na final pode ter sido, em
parte, resultado das vaias naquele momento. A revista Fatos e Fotos, na sua edição de 14 de
outubro de 1967, conta um pouco e mostra um Gil consciente do que se passava:
“A vaia é importante. O que seria do III Festival sem ela? Quisera Deus que o público
vaiasse sempre, com muito ódio e amor. É sinal que ainda há vida no povo”. A declaração é
de Gilberto Gil, que, com sua parceira Nana Caymmi, foi o grande vaiado da noite quente da
Record que apontou as quatro primeiras finalistas do III Festival da Música Popular
Brasileira. Mas Gil não foi o único intérprete visado pelo público. Roberto Carlos foi
apupado por seus fãs por haver trocado o iê-iê-iê pelo samba (...) “Se há guerra nos
bastidores, dessa guerra quem sairá vencendo mesmo é a nossa música popular autêntica”,
disse o jovem Gil.
“Os olhares eram meio obliterados”, afirma Gil hoje, “ofuscados por essas disputas, essas coisas. Éramos
muito jovens. Éramos facilmente seduzidos por essas coisas, esses deuses da guerra. A gente ia com
facilidade para uma guerra qualquer, uma guerra particular com A e com B. A recusa dos meninos do
Quarteto Novo em fazer o ‘Domingo no parque’ comigo já era um exemplo disso. Aí vêm Os Mutantes,
comigo, e os Beat Boys, com Caetano, Rita angelical tocando aquele prato, aquela visão, o Dirceu ali
tocando aquele berimbau, eu aquela figura de cavanhaque, bigodão, barba, aquela figura meio estranha.
Tudo aquilo meio novo, diferente, muito diferente. Caetano com aquela coisa bem jovem, aquele traje
jovem, garoto debaixo dos caracóis dos seus cabelos, tanta inteligência e tanta criatividade!”
Os Beat Boys chegaram a se apresentar com o nome de Los Bichos, acompanhando Gil na
música “Questão de ordem”, que foi desclassificada no mesmo festival que tinha o “É
proibido proibir”, do Caetano.
Inaugurando um movimento
Gil e Caetano sentiram que era tempo de criar um movimento, a que deram o nome de
Tropicália. “De intuitivo, passou a ser institucional”, afirma Gil. “Caetano começa a
convocar, começa a articular. Aí vem o guerreiro, o líder, o leão, o leonino que ele é. E
vamos lá com Tom Zé, Capinan, Rogério Duprat, Rogério Duarte. Convocamos Gal e Nara, e
fomos fazer o disco Tropicália”.
Embora tenha sido ela quem chamou a atenção do irmão Caetano para o programa Jovem
Guarda (“Caetano, preste atenção, é diferente, é novo, é outra coisa, tem guitarras elétricas”),
Maria Bethânia não participou de Tropicália. Ela não havia participado da história da passeata contra a guitarra elétrica ou de O fino da bossa ou dos festivais. Gil acredita que por
um senso profundo de particularidade, Bethânia se mantinha à parte. Mais tarde, gravou um
disco inteiro com músicas de Roberto Carlos. Já Gal mergulhou no Tropicalismo e lançou,
alguns anos depois, Fatal, em 1971, e Índia, em 1973. Os dois discos bebiam da água em
ebulição do Tropicalismo. Gil, Caetano e Gal nadavam nessas águas. Só se falava dos
movimentos novos que surgiam no mundo. Gil ouvindo Hendrix o tempo todo. Gal ouvindo
Janis Joplin.
Enquanto o movimento tomava forma, ele preparava também o disco Gilberto Gil, 1968,
já com as tintas tropicalistas. Na capa original do disco, ultracolorida — vermelho, preto,
amarelo, branco, verde —, aparece um Gil de óculos, vestido com uma espécie de fardão
daqueles das academias de letras ou de música e um monóculos acomodado no nariz. Na
contracapa, um texto que tem por título “Gilberto Gil psicografado por Rogério Duarte” em
que ele diz, entre outras coisas, que está nu e que não existe guarda-chuva contra o amor ou
contra Caetano Veloso:
“Eu sempre estive nu. Na Academia de Acordeão Regina tocando ‘La Cumparsita’, eu estava nu. Eu só
sabia que estava nu, e ao lado ficava o camarim cheio de roupas coloridas, roupas de astronauta, pirata,
guerrilheiro. E eu, do mais pobre da minha nudez, queria vestir todas. Todas, para não trair minha nudez.
Mas eles gostam de uniformes, admitiriam até a minha nudez, contanto que depois pudessem me esfolar e
estender a minha pele no meio da praça como se fosse uma bandeira, um guarda-chuva contra o amor,
contra os Beatles, contra Os Mutantes. Não há guarda-chuva contra Caetano Veloso, Guilherme Araújo,
Rogério Duarte, Rogério Duprat, Dirceu, Torquato Neto, Gilberto Gil, contra o câncer, contra a nudez. Eu
sempre estive nu. (...) Vou andar até explodir colorido. O negro é a soma de todas as cores. A nudez é a
soma de todas as roupas.”
Depois de “Domingo no parque”, no festival de 1967, e envolvidos de corpo e alma com
as novas experiências na música, Gil e Caetano fizeram “Divino, maravilhoso”, em 1968.
Caetano convidou Gal para defender a canção no festival da Record e Gil fez o arranjo. Mas
não sem antes perguntar a Gal como queria cantá-la. E ela conta, numa entrevista em 2005, à
revista Florense: “Expliquei que queria cantar de uma forma nova, explosiva, de uma outra
maneira. Queria mostrar uma outra mulher que há em mim. Uma outra Gal além daquela que
cantava num banquinho a bossa nova. Queria cantar explosivamente. Para fora”. Gil fez então
o arranjo de “Divino, maravilhoso” e Gal cantou “com toda a fúria e a força”, em meio a uma
plateia dividida entre vaias vigorosas e aplausos frenéticos.
Era um tempo de corações apaixonados e dilacerados. “Corações boiando naquele misto
de água clara e sedimentos lamacentos e sangue. Era tudo paz e guerra, dostoiesviskiano,
aqueles personagens incríveis, essas musas quase heroínas tipo Bethânia, Elis, Gal, Nara”, diz
Gil. No mesmo festival de “Divino, maravilhoso”, ele tocou acordeão em “2001”, música de Rita Lee e Tom Zé, que Os Mutantes defenderam. Com Gil e Caetano à frente “orientando o
carnaval”, nasceu o movimento cultural revolucionário e polêmico, como tudo que rompe com
o estabelecido, que propunha inovações estéticas na produção cultural brasileira. Segundo o
próprio Caetano, em Verdade tropical , o tropicalismo se transformou na “aventura de um
impulso criativo surgido no seio da música popular brasileira, na segunda metade dos anos
1960, em que os protagonistas — entre eles o próprio narrador — queriam poder mover-se
além da vinculação automática com as esquerdas, dando conta, ao mesmo tempo, da revolta
visceral contra a abissal desigualdade que fende o povo (...)”.
Gil, intuitivamente, abria o caminho e Caetano organizava o movimento. “Eu era uma
espécie de batedor, desbravador pela intuição, pelo impulso, pelo empuxo, o ser empurrado e
puxado pelas coisas, meio índio africano na floresta, ameríndio nas matas, aquela coisa que eu
sou até hoje.” Gil se define como um ser que funciona “do pescoço para baixo”. Puro
sentimento.
“Você vê como eu me expresso, como eu falo, é tudo daqui para baixo (aponta para o pescoço). Isso aqui
(a cabeça) funciona apenas como um armazém de signos verbais, palavras e tudo, porque a caixa de
ressonância da vontade, do sentimento é tudo aqui (aponta para o coração). No sentido de movimento, de
articulação, de lógica, de racionalidade, tudo foi obra de Caetano, que explicava e contextualizava o que
estava ao redor, fazia a ligação histórica com tudo aquilo, explicava o que se buscava resgatar ou
aposentar, no que fosse conveniente resgatar e aposentar.”
A inspiração de Gil para esse novo movimento começou bem antes, quando foi para
Recife lançar seu disco Louvação. Ainda não havia composto “Domingo no parque”. Em
Pernambuco, ficou um mês inteiro se apresentando e conheceu Naná Vasconcelos, Teca
Calazans, Geraldinho Azevedo, todos começando a vida artística. Conheceu Hermilo Borba
Filho, autor, diretor e crítico, que fundou o Teatro Popular do Nordeste e era diretor artístico
do Teatro do Estudante. Ele e sua mulher, Leda Alves, fizeram do teatro um ato político e uma
trincheira de resistência à ditadura. O Teatro Popular do Nordeste, brechtiano, era uma versão
pernambucana do Teatro Opinião no Rio de Janeiro, do Arena, em São Paulo, ou do Teatro
dos Novos, em Salvador. Gil também se aproximou das várias formas de maracatu, das
manifestações populares do Recife, do entorno praieiro da capital pernambucana, de Nazaré
das Matas, de onde vem Lia de Itamaracá (“essa ciranda quem me deu foi Lia”), ainda menina,
no início da carreira. Foi também para Caruaru e viu pela primeira vez a Banda de Pífanos.
“Profanação” do reduto da MPB
A apresentação de “Domingo no parque” foi descrita na revista Realidade de junho de 1969 como se
tivesse sido uma batalha. Sob o título “Os Mutantes são demais”, o jornalista Dirceu Soares relata o fato
(negativo, para alguns) de Gil ter usado a guitarra elétrica em vez de “instrumentos brasileiros”. “O
grande momento de afirmação de Os Mutantes foi precisamente diante de uma vaia formidável, dada
pelas duas mil pessoas que lotavam o Teatro Paramount, da TV Record, quando eles acompanharam
Gilberto Gil em ‘Domingo no parque’. A presença dos três ali significava uma profanação de um reduto
da chamada música popular autêntica: eles eram então considerados um conjunto de iê-iê-iê.”
Nesse período, ficou exposto àquela brasilidade, recebendo os ventos nordestinos de
Pernambuco misturados com a lembrança recente do Sgt. Pepper’s na cabeça.
“Tudo isso provocou em mim um desejo muito grande de revolver de uma forma mais generosa, mais
ousada, revolver o terreno todo, arar de novo, replantar, semear coisas novas, trazer sementes novas, fazer
os cultivares híbridos, plantar coisas novas, misturar laranja com mamão, o abacateiro, a ideia da
‘Refazenda’ já estava ali.” A lembrança flui: “Ave Maria, eu ia engolindo aquilo tudo. Eu me identificava com
algo que já era minha identidade, porque aquilo tudo era uma reconstituição do Recôncavo da Bahia, dos
subúrbios cariocas com o dedo do samba, era todo esse Brasil essência, autóctone, forte e ao mesmo
tempo Sgt. Pepper’s, esse estrangeiro sedutor que vinha com tanta coisa!”
Gil voltou de Recife com as gravações da Banda de Pífanos, dos maracatus, das cirandas
de Lia em Nazaré da Mata. Caetano estava ouvindo Bob Dylan. Tinha acabado de sair seu
disco Bringing it All Back Home. Ao mesmo tempo, chegara aos seus ouvidos o primeiro
disco de Jimi Hendrix, de 1967, Are You Experienced . Os “meninos” Caetano, Rogério
Duarte, Torquato Neto, Capinan e Rita Lee, que apresentava o rock ’n’ roll anglo-americano a
São Paulo, ouviam aquela música. Gil queria saber como estimular no Brasil uma busca
arrojada, como “chacoalhar os extratos convencionais”, misturando guitarra e berimbau.
A ida a Pernambuco foi fundamental para Gil. Na volta, uma vez tomada a decisão com
Caetano de seguir adiante com uma proposta arrojada de inovação, pensaram em qual seria a
primeira providência a ser tomada. “Junta todo mundo e vamos falar. Chama Edu, Vandré,
Chico, Sidney Miller, todos”, disse Gil. Ele e Caetano queriam comunicar a todos a intenção.
A reunião foi marcada na casa do compositor Sérgio Ricardo. Gil, entusiasmado, fez a
convocação:
“Pessoal, vambora, vamos inventar. Temos oportunidades agora, temos os meios, estamos na televisão, no
rádio, no disco, estamos em tudo, temos gosto, temos conhecimento, temos talento, temos formação,
temos informação. Vamos botar essas informações todas à disposição de um novo processo criativo”.
Gil falou, Caetano também. Gil era o mais entusiasmado, já era “esse abre-alas de
sempre”, como ele mesmo diz. “Ficamos falando, falando, e não deu resultado. Ninguém se
manifestou contra a proposta, mas houve uma total falta de entusiasmo, um silêncio que dizia ‘não’ ou ‘façam vocês’.” Foi uma ducha de água fria. Não houve uma única voz de apoio, com
exceção de Nara Leão. Dori Caymmi dizia: “Na minha casa não toca Beatles”. O resultado é
que essa primeira intenção de abrir aquelas ideias inovadoras para todo mundo não deu certo,
fazendo com que os dois se fechassem.
Nara Leão foi a única desse segmento carioca que apoiou a ideia. E foi com Gil, Caetano,
Gal Costa, Tom Zé e Os Mutantes fazer o disco Tropicália. “Nara está lá na capa do disco
Tropicália. Tinha o Capinan, que vinha da militância poético-política e já tinha feito
‘Viramundo’ comigo, Os Mutantes representando o segmento rock de São Paulo e Rogério
Duprat o segmento rebelde da música erudita.”
Alternativos e alienados
Daí em diante houve cada vez mais hostilidade por parte dos colegas, muitas verbais. É
provável que a ditadura brasileira, que naquele momento se fortalecia ainda mais, tenha
influenciado a postura defensiva dos artistas contra o novo movimento que surgia. O marechal
Costa e Silva já havia assumido a presidência e uma nova Constituição para o país havia sido
aprovada, institucionalizando o regime militar. Anos antes, surgira a bossa nova, depois o
Cinema Novo, os novos movimentos do teatro, tudo germinando a partir de um sentimento de
identidade nacional, de brasilidade cultural, que, naquele momento, repelia o que era
estrangeiro.
A guitarra era um símbolo do “americanizado”. Alienado era a palavra que se usava na
época para definir não apenas quem não era politizado ou não se posicionava contra a
ditadura, mas também aqueles artistas que buscavam novidades numa esfera fora do que era
considerado “brasileiro”. Gil e Caetano foram tachados de alienados. Não se entendia que
eles estavam, acima de tudo, reafirmando uma brasilidade mais livre, até mais profunda, no
movimento de misturar as raízes com os novos tempos.
Ao fazer um retrospecto hoje, muitos anos depois, Gil acredita que aquelas ideias
causavam desconforto.
“Causavam aos outros deslocamento, ‘onde é que eu estou, estão tirando o meu chão, onde é que eu fico,
mas eu não posso me sustentar no ar, sozinho’! A insustentável leveza do ar, não dava! Eu, porque uma
carga mística muito forte me movia, entregava a Deus, um Deus desconhecido. Não tive medo e me lancei
meio Don Juan, do Carlos Castaneda, não tem problema vamos correr pelo deserto no meio da noite sem
medo do abismo. Se cair no abismo o abismo lhe amparará, o abismo é feito de ar, e a leveza do ar lhe
sustenta. Caetano fazia a ponte entre a racionalidade, as lógicas gregas e a compreensão do mundo, a
leitura do mundo a partir da inteligência e do conhecimento. Eu só falo daquilo que também desconheço,
dizendo ‘deixa o profeta falar, deixa o desconhecido, deixa o mago falar, deixa a magia rolar!’”
As músicas da Tropicália
“Alegria, alegria” — Caetano Veloso
“Domingo no parque” — Gilberto Gil
“Tropicália” — Caetano Veloso
“Superbacana” — Caetano Veloso
“Soy loco por ti, América” (Gilberto Gil/Capinan) — Caetano Veloso
“Marginália 2” (Gilberto Gil/Torquato Neto) — Gilberto Gil
“Panis et Circencis” (Gilberto Gil/Caetano Veloso) — Mutantes
“Miserere nobis” (Gilberto Gil/Capinan) — Gilberto Gil e Os Mutantes
“Lindonéia” (Gilberto Gil/Caetano Veloso) — Nara Leão
“Parque industrial” (Tom Zé) — Tom Zé
“Geleia geral” (Gilberto Gil/Torquato Neto) — Gilberto Gil
Milton Nascimento também estava fascinado com os Beatles. Gil comenta:
“Não só ele, mas a mineirada toda daquela geração. Só que Minas é calada, quietinha, e quando
apareceram já estavam todos fazendo aquilo, capitaneados pelo Milton, e nem discutiam com ninguém.
Faziam, gravavam, ganhavam os ouvidos populares e pronto, foram comendo pelas beiradas, não
entraram nessa. Mas nós tivemos que entrar na briga. Imagina, baianos, cheios de petulância, de impulso,
desse gosto pelo inaugural!”
Na ocasião do lançamento do disco Tropicália, em 1968, o poeta Augusto de Campos
escreveu:
“Em vez de fazer a revolução musical na epiderme temática, Gil, Caetano e seus companheiros estão
fazendo uma revolução mais profunda, que atinge a própria linguagem da música popular. Por isso mesmo
eles incomodam, mais do que muitos protestistas ostensivos, logo assimilados pelo sistema”.
A rebelião contra o sistema era universal. A Tropicália nasceu quando em todo o mundo
pipocavam movimentos anti-establishment, que se davam de maneiras diferentes nos EUA, na
França, na Alemanha, na antiga Tchecoslováquia e no Brasil. Tinham razões e objetivos
distintos, mas em todos germinavam as sementes do inconformismo com a maneira como a
sociedade se organizava em todas as esferas. A rebeldia dos jovens daquela época bebia no
movimento da contracultura de meados da década de 1950, quando, nos EUA, escritores e
poetas beatniks — com William Burroughs, Jack Kerouac e Allen Ginsberg como expoentes
— se lançavam contra os valores tradicionais da classe média norte-americana.
A negação do modelo civilizatório e a luta contra o autoritarismo tão presentes nos anos
1960 tiveram inspiração também em pensadores alemães, como Wilhelm Reich, Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse, que disseminaram um pensamento que
influenciou fortemente a juventude dos anos 1960 em toda parte. Esses pensadores espalharam
o germe libertário que defendia a valorização do indivíduo e da subjetividade, e abria espaço
para a liberdade sexual, o feminismo, o direito à busca da felicidade, o direito das minorias e
até o movimento ecológico, entre outras questões. Era um movimento a favor do desejo que,
com o tempo, influenciou fortemente a filosofia hippie, que cultivava o respeito pela natureza,
o pacifismo, o vegetarianismo e a alimentação natural e saudável, o amor livre.
A ideia de liberdade e de rompimento com o status quo estava contida no movimento
tropicalista, conscientemente ou não. A Tropicália queria romper com a estética estabelecida
e se inserir no movimento a favor das liberdades individuais, enquanto flertava com o rock ’n’
roll, num momento em que a rebelião dos jovens artistas brasileiros estava marcada pela luta
contra a ditadura militar, ainda sem o AI-5, contra os militares que ocupavam o Estado (e não
contra o Estado, como nos EUA e na França), e também contra a influência americana na
política brasileira.
É uma explicação para o isola-mento sentido por Gil e Caetano quando apresentaram sua
proposta aos colegas artistas. Gil acredita que os primeiros sinais dos novos ares e atitudes
internacionais na música brasileira foram dados pelos tropicalistas:
“No mundo inteiro falava-se da mudança comportamental. O disco Tropicália falava disso. Era no Brasil o
primeiro eco forte desse internacionalismo novo, da globalização, e preparava o terreno da internet, avant la
lettre, com os visionários desempenhando seu papel na história. Eles são puxados por aquilo. É o
sentimento, a intuição”.
“Baby” (Caetano Veloso) — Gal Costa e Caetano Veloso
“Enquanto seu lobo não vem” (Caetano Veloso) — Caetano Veloso
“Mamãe, coragem” (Caetano Veloso/Torquato Neto) — Gal Costa
“Batmakumba” (Gilberto Gil/Caetano Veloso) — Gilberto Gil e Mutantes
“Saudosismo” — Caetano Veloso
“É proibido proibir”, versão integral, com discurso (Caetano Veloso) — Caetano Veloso
“Não identificado” (Caetano Veloso) — Gal Costa
“Divino, maravilhoso” (Gilberto Gil e Caetano Veloso) — Gal Costa
“2001” (Rita Lee/Tom Zé) — Mutantes
“São São Paulo” (Tom Zé) — Tom Zé
Para Gil a Tropicália foi o primeiro movimento pós-moderno no Brasil, “porque já advogava a fragmentação, a dissociação, a simultaneidade, a complexidade, uma série de
conceitos filosóficos e das ciências humanas que vieram a se estabelecer depois (naquela
época já estávamos lendo McLuhan)”.
Foi também, “no sentido de grandes arregimentações, de grandes polemizações na
cultura”, o último movimento modernista do Brasil, “porque era assim que Caetano quis”. A
Tropicália queria ser o Cinema Novo do Glauber, do Terra em transe , o teatro de O rei da
vela, de Oswald de Andrade, os Beatles e os Rolling Stones, o rock ’n’ roll, o iê-iê-iê ( o
mundo explode e as migalhas caem todas sobre Copacabana, superbacana, superbacana,
superbacana).
“Era um movimento para anunciar isso. Caetano muito consciente, muito culto, dominando como ele
dominava todas as movimentações do cinema mais contemporâneo da Europa, do Godard, do Fellini, do
Rossellini, do Truffaut, dos grandes filmes, do cinema americano. Caetano tinha sido crítico de cinema no
jornal, em Salvador, muito cioso dos modernismos e de todos os campos na literatura, leitor que era dos
grandes literatos. Ele tinha noção de para onde devia caminhar, para onde o momento brasileiro devia
caminhar. Ele pegou todos os intuitivos e os intelectuais com quem podia contar e tocou o barco naquele
momento. E, naquele momento, o papel foi esse, foi essa instauração de uma base moderno-pós-moderno
nova, uma base de complexidade, uma base de simultaneidade para onde tudo convergia aqui no Brasil.
Essa era a missão. Todas as novas mentalidades convergiam, havia o espírito de um novo tempo, o
movimento de uma nova era. O Tropicalismo de uma forma condensada na expressividade de um
punhado de meninos e meninas manifestou. Foi um manifesto. De 1967. Caetano é o Oswald de Andrade
em 1967, é isso. E nós todos éramos colegas de Caetano como eram os outros todos colegas de Oswald”,
analisa Gil.
Ele acredita também que o movimento tropicalista abriu caminho para muita coisa “que
depois veio a ser compreendida e não mais incompreendida”, como a música de Hermeto
Pascoal, Egberto Gismonti, Ney Matogrosso, o rock dos anos 1970. “Tudo já pronto para ser
aceito. A Tropicália abriu a pós-modernidade brasileira.”
Para Gil, até agora não surgiu um movimento cultural novo e ele acredita que a evolução
tecnológica pode ser responsável por isso:
“Não houve por causa desse processo de fragmentação e simultaneização contínuas aberto pela internet,
que lançou o espaço definitivo para tudo isso, para aquilo que nós chamamos de hipertexto, de cultura
Wikipédia, em vez da enciclopédia. O mundo, então, desaguou na era pós-enciclopédica. Então, e agora?
Foi lá de trás que veio. Tanto é que, recentemente, o Tropicalismo despertou uma curiosidade imensa no
campo acadêmico mundial. São teses e mais teses na Alemanha, na Inglaterra, nos EUA, no Japão, nas
grandes universidades desses lugares todos.”
Muitas dessas teses chegam a Gil e são, para ele, a prova de que o movimento tropicalista
não foi apenas um momento musical associado à televisão, como querem alguns, mas uma
manifestação que extrapolou a seara da música. “Caetano quando escreveu ‘Tropicália’ já estava tudo lá, na letra. Já queria ser a fossa, a bossa, a Carmen Miranda, a banda.”
Pesquisadores de universidades como Berkeley, Louisiana, Nova York, Washington,
Berlim, Munique, Londres analisam o processo.
“Tenho contato com os orientadores desses alunos, com as pessoas que se debruçam sobre esse material,
que produzem os estudos. São sempre muito pertinentes porque eles já partem de um lugar confortável,
que é o de estar num mundo que a gente buscava acessar com o Tropicalismo. Eles dizem: ‘Vejam como
esses meninos se aproximaram de nós!’ A chamada pós-modernidade que se vem vivendo desde o pós-
guerra e todos os movimentos de modernização já eram nessa direção. Os estudos hoje mostram a
amplitude da Tropicália como movimento cultural.”
As opiniões variam, no entanto. Anos mais tarde, no filme Rock brasileiro — história em
imagens (2009), de Bernardo Palmeiro, Erasmo Carlos afirmou que a Tropicália nada mais
foi do que uma Jovem Guarda num estágio cultural mais avançado. Jorge Mautner, músico e
escritor que afirma ser a música brasileira a grande herança do Tropicalismo, lembrou que o
escritor e dramaturgo Ariano Suassuna está certo quando diz: “Ah, o Tropicalismo não trouxe
novidade, o Brasil já nasceu misturando culturas”. Nada mais tropicalista que Ariano
Suassuna. E o pai de Gil, seu Zeca, que passou a se dedicar à medicina tropical, brincava com
Gil sobre sua profissão: “Na verdade, o tropicalista aqui sou eu”.