Gilberto Bem Perto

Gilberto Gil · Capítulo 12 de 13

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Gilberto Bem Perto

Depoimentos

Rita Lee

 

“Eu amo Gilberto Gil”

 

Rita Lee, uma das artistas mais populares do Brasil — roqueira, rebelde, musa da MPB e

compositora de mão cheia — se considera uma filha legítima do Tropicalismo. Conheceu Gil

quando era integrante do grupo Os Mutantes e estava no palco com ele quando defendeu

“Domingo no parque”, para assombro dos puristas da MPB, que encaravam as guitarras

elétricas com dois pés atrás. A partir de 1972, a banda se desfez e Rita seguiu carreira solo,

encontrando em Roberto de Carvalho uma parceria na vida e na música. Em 1977, ela gravou

com Gil o LP Refestança, a partir de uma série de shows realizados em outubro e novembro

daquele ano. Por ocasião da exposição dos setenta anos de Gil, em 2012 — Gil70 —, Rita foi

convidada a escrever um texto sobre o amigo. A seguir, trechos do seu texto:

 

“Eu estudava comunicações na USP, depois de entra-e-sai de cursos, lá estava

eu, enfim, seguindo a cartilha da família. Um belo dia depois do ensaio Gil me

perguntou se eu iria poder ir pra estrada com a tchurma. Contei minha bocejante

aventura como estudante, a rigidez do meu pai, coisa e tal. Pois ele foi em casa e

enfrentou o velho com sua lábia baiana: ‘Dr. Charles, sua filha estuda comunicação,

eu proponho que Ritinha se comunique direto com o público, ela tem muito talento,

além do que me responsabilizo por sua integridade’. Não deu outra, meu pai caiu de

amores.

Fosse contar aqui as peripécias que vivi junto do mestre encheria um livro. Eu

moro em Sampa, ele na Bahia, a distância não importa, por onde ando levo as

apostilas do cursinho gilbertogilense, aquele que te leva pra estrada e te faz desfilar

por todas as avenidas musicais sem o menor pudor. Sou filha legítima do

Tropicalismo, aprendi que a música brasileira é tudo o que você achar que a música

brasileira é. Gil me ensinou que depois da estrada começa uma grande avenida, e

que depois da avenida existe uma chance, uma sorte, uma nova saída. Eu amo

Gilberto Gil.”

Jorge Mautner

 

Luz e fogo do Espírito Santo

 

Pode-se dizer que o cantor, músico, compositor e escritor Jorge Mautner é um dos melhores

amigos de Gil. A amizade entre eles é fruto da longa interlocução que Gil mantém com

Mautner, autor de diversos livros e discos ao longo de quase cinquenta anos de carreira. Sua

obra literária completa foi publicada em dois volumes na Mitologia do kaos (Azougue, 2002).

No texto que escreveu sobre o amigo para a exposição Gil70, em 2012, Mautner visita a

essência e a alma do amigo:

 

“Gilberto Gil é o tempo todo aquele abraço, um abraço de braços abertos, de

imensa receptividade e que, ao mesmo tempo, reinterpreta esta receptividade e a

devolve em irradiante novidade mergulhada em celebração de vida com uma alegria

que anseia a eternidade! (...)

E me digam: quem, ao ser preso pela polícia política de uma ditadura e que é

lançado numa cela sem saber o que lhe aguarda por parte do destino não sente

qualquer pânico e nem fica apavorado, mas, ao contrário, começa a compor várias

músicas — sendo que uma delas já fala no computador, no cérebro eletrônico que

será de metal?

Em todas as questões, sejam filosóficas, políticas, poéticas, religiosas, científicas,

seja lá o que for, Gil tomará sempre o lado dos oprimidos, humilhados e ofendidos,

das novidades científicas e da curiosidade infinita que quer desvendar ou apenas

conviver lado a lado com os mistérios insondáveis da existência e do Universo.

A importância que o Brasil representa para o planeta hoje em dia foi, a meu ver,

cinquenta por cento obra do presidente Lula, mas os outros cinquenta por cento

desta importância foi obra de Gilberto Gil, no período de seu mandato como ministro

da Cultura. Aliás, como ministro da Cultura, inovou no campo eletrônico das

comunicações planetárias e criou o mais arrojado projeto cultural que são os ‘Pontos

de Cultura’. Este projeto é louvado por vários países como sendo o mais importante

neste intrincado problema da educação e da instrução pública no século XXI. (...)

Mas mesmo antes de ser ministro, ele sempre foi ministro da Cultura e algo mais,

sempre algo mais. Trabalhador incessante na música e na participação social-

política-militante 25 horas por dia, ele irradiou e profetizou o século XXI e a

importância do Brasil através do Tropicalismo, que é a ‘amálgama’ de José Bonifácio

em estado de plenitude! (...)

Nessa mesma década de 1970, Gil ainda trouxe para a visibilidade dos palcos a

música de Jackson do Pandeiro e o som dos Pífanos de Caruaru. E o que é mais

importante: desde a sua chegada através dos shows e entrevistas, ele

incessantemente irradiava a mensagem da necessidade de redemocratização,

shows com artistas internacionais e nacionais de todos os estilos e linguagens

musicais, a total liberdade e fusão de ritmos e estilos. Aquilo que o Tropicalismo havia

proclamado como tendência maior e vital, triunfava agora na prática de promulgar,

irradiar e fazer acontecer a democratização por todo o continente! (...)

Quando estive com Gil em excursão pela Europa, em Florença, Itália, ele foi

recebido por um enorme público constituído por grupos de vários matizes de

esquerda, os de centro e os conservadores. Em sua fala, Gil acentuou a necessidade

da caridade como ação transformadora. Após a sua fala, que foi aplaudidíssima,

houve, porém, quem discordasse do uso da palavra caridade, como sendo não

igualitária ou coisa assim, mas Gil respondeu com veemência que era justamente

caridade que era necessária e libertária. Todo o auditório de intelectuais de vários

matizes aplaudiu Gil em ovação, e a mais entusiasmada era uma senhora que estava

sentada a meu lado, e que era, vim a saber depois, uma heroína da resistência contra

os nazistas!

Na Grécia, nesta mesma excursão para a Europa, eu e Gil fomos para uma

reunião de filósofos do mundo todo. Estavam ali representantes de vários

pensamentos da cultura humana. Numa certa altura, Gil foi convidado para falar e

discursou dizendo que achava notável aquela reunião, ainda mais na Grécia dos

filósofos, mas que gostaria de lembrar a todos os sábios presentes que nos discursos

proferidos havia uma ausência marcante de pensamentos que representassem a

imensa cultura e filosofia dos indígenas, dos africanos com seus mitos de espantosa

profundidade, além da ausência do pensamento asiático de Lao-Tsé e Buda.

Novamente aplausos de pé e muito fervorosos.

Ao visitar o professor Mário Schenberg em São Paulo na década de 1980, o

professor sugeriu, quase pediu, que Gil fizesse uma música contra o apartheid da África do Sul. Gil imediatamente compôs e gravou a primeira música contra o

apartheid, muitos e muitos anos antes da iniciativa dos músicos e popstars anglo-

saxônicos, norte-americanos e europeus. É aquela que fala no rei Zulu e no bispo

Tutu (‘Oração pela libertação da África do Sul’).

Poderia me alongar infinitamente em descrever situações de amplidões da alma

de Gil, pois já são mais de quarenta anos que comemoro esta amizade eterna e

compartilho emoções, mas acho que deu para entender que alguém como Gil é um

artista e militante permanente, em que tudo é transformado em arte, até mesmo os

empecilhos, onde a fé impera e se proclama a força do amor que sempre

ressuscitará, apesar de tudo. Mesmo sendo tudo governado pelo deus Mu, o deus

mudança, o amor continua eterno, o amor não quer se mostrar, o amor não tem

vaidades, porque o amor é para sempre!

Muitas vezes, quando Gil fala, ou quando está cantando, eu vejo pairando acima

de sua cabeça incendiada em luz e fogo a pomba do Espírito Santo!”

Hermano Vianna

 

Modéstia zen para um mundo tropicalista

 

Hermano Vianna, antropólogo, roteirista e pesquisador musical, não se lembra da data exata

em que conheceu Gil. Acha que foi na casa de Caetano, em meados dos anos 1980, quando foi

levado lá por Arto Lindsay, músico e compositor americano, e o Gil apareceu. Refazenda foi

o primeiro show grande que Hermano viu na vida, no ginásio do colégio Marista, em Brasília.

Hermano se aproximou mesmo de Gil quando fez, junto com Sérgio Mekler e Quito Ribeiro, o

roteiro do documentário Tempo rei. Ele descobriu que Gil nunca tinha voltado para Ituaçu e a

ideia de levá-lo lá para as filmagens foi de Hermano. Um belo presente.

Uma vez Hermano foi para a Bahia a fim de convidar Gil para apresentar os programas de

TV do projeto Música do Brasil.

 

“Ele estava quase dizendo não”, conta Hermano. “Quando cheguei na casa dele,

ele me disse que muita gente o chama para projetos para os quais não sabe o que

pode acrescentar, nem se acha à altura para aquela missão. Eu fui dizendo: ‘Mas

você fez isso, fez aquilo, sabe muito disso e daquilo, que outra pessoa é tão

polivalente para lidar com todos esses aspectos da música brasileira?’ Era incrível. Gil

é vaidoso mas tem também uma modéstia zen.”

 

Hermano colaborou em diversos filmes e documentários sobre Gil, além de programas de

televisão, e realizou a pesquisa que resultou no livro e nos discos Música do Brasil.

 

“Gil é um mestre e também é pessoa física, ligada à vida cotidiana, bem real: ele

não me encontra sem perguntar sobre a minha mãe, o Herbert (Vianna, irmão de

Hermano), os sobrinhos. É amigo mesmo, com quem posso contar para qualquer

parada. E continua ídolo — existe coisa mais profunda do que a letra que ele fez para

‘A novidade’? Existe representação melhor de tudo de bom que eu quero para o

Brasil e o Universo do que ‘Casinha feliz’, do disco Dia dorim noite neon (não é nada

nostálgica, o Sertão de Rosa é o futuro metafísico do mundo, pós-computador). O Herbert me contou uma vez do Gil chorando num quarto de hotel, falando dessa

música, que ele viu essa casinha da janela de um ônibus entre um show e outro — a

música merece mesmo nosso choro mais feliz.”

 

Em 2012, Hermano escreveu um texto para a exposição Gil70, com o título de “Um mundo

tropicalista”:

 

“Nova York, 21 de setembro de 2004. Estou na plateia do Town Hall, local que já

abrigou apresentações de Richard Strauss e Charlie Parker. Hoje acontece concerto

beneficente para o Creative Commons, organizado pela revista Wired. Sinto a

aproximação de uma pessoa emocionada que me aborda com a seguinte pergunta,

na bucha: ‘Existe algum músico mais incrível do que ele?’ Quem fala é Jon Pareles,

editor de música popular do New York Times e da ‘Encyclopedia of Rock and Roll’, da

Rolling Stone, um dos nomes mais poderosos na crítica musical do planeta. Ele se

refere a Gilberto Gil, que naquele momento estava cantando no palco. Eu já tinha

encontrado Pareles antes, na minha casa no Rio, para uma audição do material do

projeto Música do Brasil, que documentou a música chamada de tradicional ou

folclórica de mais de cem municípios brasileiros (e gerou uma série de TV

apresentada, não por acaso, por Gilberto Gil). Ele comentou, impressionado: ‘Existe

país mais rico musicalmente?’ A pergunta me pegou de surpresa. Respondi,

reticente: ‘O seu país me parece tão rico quanto...’ No Town Hall, pensei em dar

resposta semelhante. Afinal, David Byrne acabara de fazer um show excelente,

abrindo para Gil. Porém, pensei bem e concordei: ‘Gil é realmente o cara, o músico

mais bacana do mundo, aqui e agora’.

Motivos extra-artísticos contribuíam para minha certeza. Gil estava no palco

também como ministro da Cultura. Era ainda o primeiro ano do governo Lula, mas

uma grande mudança — inesperada para muitos — já tomara conta da política

cultural brasileira, com atenção ousada para o novo mundo digital. Poucos meses

antes, no Fórum Internacional do Software Livre, em Porto Alegre, Gil — também como

ministro — se tornou o primeiro músico do mundo a usar uma nova licença Creative

Commons para autorizar o uso de uma de suas músicas para remixes, inclusive com

finalidades comerciais. A ideia inicial seria liberar ‘Refazenda’ e ‘Refavela’, canções

que já trazem o ‘re’ no título, para sampleamento generalizado. Mas a Warner,

detentora de direitos desses fonogramas, entrou em pânico e não autorizou. Sobrou ‘Oslodum’, da editora de Gil. Já dava para perceber que a briga ia ser longa e boa.

A Wired recém-lançada vinha com um CD contendo ‘Oslodum’ e seu primeiro

remix, feito pelo DJ Dolores. O show do Town Hall, ciceroneado por Chris Anderson,

editor da revista e futuro autor do cada vez mais influente A cauda longa,

comemorava o novo tempo no qual o símbolo CC, do Creative Commons, era apenas

uma pequena contribuição para lidarmos melhor, de forma legal, com a explosão de

criatividade que a internet tornou possível.

Como poucos, Gil entendeu o que estava acontecendo e colocou seu cargo

político e nome artístico em função da abertura de caminhos múltiplos para um futuro

onde a cultura brasileira pudesse ter papel de protagonista. Em nossas primeiras

conversas depois do convite de Lula, ele já deixava claro que o Ministério da Cultura

deveria se tornar laboratório onde novas possibilidades de produção cultural fossem

testadas. Logo o mundo percebeu o que estava acontecendo, e passou também a

ser liderado pela visão de Gil, talvez a única pessoa capaz de juntar John Perry Barlow

e Jack Lang num trio elétrico.

Eu não tinha idade para estar na plateia do festival onde Gil apresentou ‘Domingo

no parque’ com Os Mutantes. Mas ali no Town Hall, tinha a certeza de estar vivendo

momento de importância semelhante, que felizmente coincidia com a consagração

internacional atrasada do Tropicalismo (as palavras de Jon Pareles só confirmavam

essa consagração). A ficha do show de Nova York ainda não caiu para muita gente.

Vai cair, inevitavelmente, sem volta. Nas suas primeiras entrevistas como ministro,

respondendo a críticas estúpidas, Gil declarou: ‘Todo mundo sabe que quem vai

para o ministério é um tropicalista’. O ministro foi até mais tropicalista do que eu

esperava. Ainda bem: por causa de sua atuação corajosa, o mundo será cada vez

mais tropicalista. Um mundo tropicalista é um outro mundo possível e melhor.”

Fernanda Torres

 

“Tudo naquela gente estranha causava

desconforto e fascínio”

 

Duas gerações mais nova que Gilberto Gil, a atriz Fernanda Torres, filha dos atores Fernando

Torres e Fernanda Montenegro, foi topar com os quatro artistas baianos, que já faziam grande

sucesso no país, quando tinha cinco anos. No texto afiado que escreveu para a exposição

Gil70, inaugurada em 2012, no Rio de Janeiro, ela relembra com humor suas primeiras

memórias de Gil e da contracultura dos anos 1970. E acerta no alvo quando fala da “negação

afirmativa” que “o traduz imenso”:

 

“A primeira lembrança que eu tenho do Gil é do período em que a minha família

se mudou de volta para o Rio de Janeiro. Eu tinha cinco anos de idade, três dos quais

passados em São Paulo. As dunas da Gal, os hippies e a cultura alternativa dos anos

1970 me foram apresentados de supetão.

Foi nessa época que soube deles, dos baianos que viriam para acabar com a

frágil ordem social que eu havia estabelecido no Sumarezinho. Bem que eu tentava,

mas era impossível saber se os quatro eram irmãos, namorados, casados ou primos.

Todos tinham o mesmo cabelo. O Gil era preto, então não devia ser parente dos

outros três. Se Caetano e Gal namoravam, a Bethânia devia ser a irmã de um dos

dois, mas de qual? Isso fazia do Gil o marido da Bethânia, só que o par não formava.

Uma estranheza parecida me acometeu no dia em que descobri que o Ney

Matogrosso não era mulher. Eu e meu irmão estávamos com os olhos colados na TV,

admirando o pavão misterioso com voz de fêmea e, de repente, veio a confirmação:

ela não tinha peito. Por trás do esplendor de penas, um corpo magro e definido não

exibia volume. Era um homem com H.

Tudo naquela gente estranha causava desconforto e fascínio. Eram peludos,

sensuais, talentosos, livres e unissex. Pensavam sempre o contrário do que pregava o

senso comum e pareciam desfrutar, como poucos, de sua passagem na Terra.

‘Domingo no parque’ foi o meu cartão de visita para o Tropicalismo, eu não devia ter seis primaveras completas. A música contagiante acabava em morte; o iê-iê-iê

orgiástico lançava um desafio trágico, um traço que identifico até hoje nas ações do

Gil.

Minha cabeça de criança também não encontrava razão no exílio de dois dos

quatro baianos diferentes. Algum perigo eles deviam oferecer. No seu retorno ao

Brasil, coloquei peitos postiços para parecer mais velha e conseguir entrar no show

dos Doces Bárbaros, no Canecão. Apesar de já vacinada para os paradoxos da

existência, o queixo caiu quando vi o Gil metido em um colant branco e de toquinha

de crochê na cabeça, sempre anos-luz à frente da minha compreensão.

Dos companheiros que enfrentaram a estadia forçada em Londres, ele teria sido o

que menos se abateu pela justificável melancolia. Se curou com a macrobiótica, que

descobriu na prisão, o rock ’n’ roll, a ioga e o reggae.

Gil não luta contra.

O mesmo estoicismo, a não submissão ao papel que desejam lhe impor, se vê

nas tocantes imagens de sua prisão por porte de maconha, no Sul. Gil é de uma

calma assombrosa, uma dignidade brutal de lacinhos brancos na cabeça. A imagem

do drogado perdido, do artista criminoso e libertino, todos os pecados que o

delegado exibe nos autos, batem de encontro à sua consciência imperiosa e perdem

a força.

Esse homem tinha um milhão de significados imemoriais para mim quando me

casei com o Andrucha. O pai dos meus filhos registra o baiano há quase duas

décadas. É um misto de amizade e parceria. São dezenas de clipes, documentários,

shows, trilhas de cinema, trechos preciosos, como o do Gil cantando ‘Lamento

sertanejo’ na caatinga de Juazeiro; de ensaios, entrevistas, encontros e conversas

jogadas fora. Através do Andrucha, conheci a casa do Gil, a Flora, o Bem, o José e a

Bela, além do Mautner, do Carnaval da Bahia e da própria Bahia.

Uma vez, ouvi ele dizer que existem apenas dois inventores na música popular

brasileira: Luiz Gonzaga e João Gilberto. Os únicos que criaram algo que não existia

antes. Não posso contestar a afirmação, não tenho conhecimento para isso, mas a

firmeza comovida com que Gil soltou a frase não dá espaço à dúvida, é fato.

O filho de José Gil Moreira é muito emotivo. As abas largas de seu nariz retilíneo

se abrem sempre que algum pensamento tocante lhe atravessa o espírito. Depois, os

olhos se enchem d’água e ele sorri. A dor e a leveza, sempre os contrários, no mesmo

rosto faceiro de dentes alvos e grandes.

Foi na mesa de uma feijoada de domingo que Gil contou uma história que deve

ser muito conhecida, mas que eu não conhecia, sobre ‘Aquele abraço’. A música lhe

veio inteira, de cabo a rabo, no trajeto entre a cela e o aeroporto, de onde partiria o

voo para a Salvador, e, de lá, Deus sabe para que destino. Era fevereiro, em pleno

Carnaval, Gil olhou pela janela da viatura e percebeu que o Rio continuava lindo.

Já era um prelúdio de Londres, uma afirmação de vida inabalável, mesmo em

meio às piores ameaças, infortúnios e tragédias.

Faz pouco tempo, amigos instrumentistas me explicaram a infinidade de

harmonias que Gil é capaz de improvisar nas cordas para uma mesma melodia. A

música é um dom natural nele e o violão, uma extensão do seu corpo. O Gil pode não

ser o João, não ser Luiz, mas é criador da sensacional batida de abertura de

‘Expresso 2222’, aquela que imita a sanfona, primeiro instrumento dado pelo pai

quando Gil ainda era moleque. Esse rock é xote, denuncia o feito.

No último encontro que tivemos, discutia-se a construção da usina hidrelétrica de

Belo Monte, quando ele lançou o desafio: ‘Sou contra, apesar de estar convencido de

que é necessária. Assim como, muitas vezes, sou a favor de coisas desnecessárias’.

A negação afirmativa o traduz imenso.

E tem o Gil Jorge Ogum Xangô, uma sequência majestosa de mantras made in

Brazil, a partir da qual deveria ser criada uma religião. Além de ‘Sandra’, ‘Back in

Bahia’, ‘Nega’, ‘Cérebro eletrônico’, ‘Refazenda’ e ‘Refavela’, desta obra imensa que

ele arrasta consigo, o homem que deu um beijo na boca e disse assim:

‘Margaret Thatcher, Menahin Begin... política é o fim’.

E riu, e riu, e riu, e ria.”

José Miguel Wisnik

 

A soma, a suma, o sumo

 

Um dos principais intelectuais e artistas brasileiros contemporâneos, José Miguel Wisnik,

crítico, ensaísta, compositor, intérprete e pianista, acompanhou admirado desde cedo a

trajetória de Gil. Aqui está reproduzido um texto que Wisnik escreveu sobre Gil para o

catálogo virtual da exposição Gil70, cujo título é “Camarada Parabólico”:

 

“Quando eu nasci, Gilberto Gil tinha sete anos. Isto é, sou da geração que veio a

seguir, e também da geração que veio a segui-los, a eles que abriram o caminho das

grandes transformações que animaram o pós-guerra: o mundo e a mente menos

lineares e mais simultâneos, a juventude como estado de espírito, a liberação dos

papéis sexuais e as novas formas amorosas, o novo lugar do feminino, a vanguarda e

a massa, o ocidente e o oriente, a guerrilha e a contracultura, a negritude, a ecologia,

o cérebro eletrônico, as próteses, as mutações. Se todos esses tópicos apareceram

como questões vitais nas canções tropicalistas, em Gilberto Gil as transformações do

tempo puderam ser lidas em seu corpo como um processo de iniciação a olhos nus,

despindo-o da silhueta pequeno-burguesa do administrador de empresas de

cavanhaque para encarnar o sábio renascido que medita e o deus dançante da

mudança.

Ouvir canções de Gilberto Gil, ao acaso, no iPod, é se deixar levar pelas águas do

tempo, pelas ondas, pelas marés da história em que ele navega, nas graças da

música, e por seus mergulhos fundos no oceano atemporal e no mistério. Suas

canções deixam em nós o rastro radioso da intuição rítmica da vida, a sensação dos

saltos irradiantes da agudeza mental e a compaixão profunda pelo nosso destino. Ali

onde as ambições vivem serenamente seus fluxos e seus refluxos, o coração é o

lugar comum de onde tudo vem e para onde tudo vai.

É essa decantação que me atrai e que me move aqui: a soma, a suma, o sumo

desses setenta anos de vida que se tornaram nossos. Lembrar o quanto Gil, assim

como Caetano, compartilharam com o público, em forma de música, poesia, performance, testemunho, as trilhas e as vicissitudes da intimidade num tempo em

que todas as balizas se deslocaram. Que eles filtraram a exposição de suas

experiências pessoais (políticas, amorosas, físicas, metafísicas) de maneira a fazê-las

parte de uma grande experiência coletiva em progresso. Destilaram os segredos,

dando a eles uma dimensão pública, e concebendo uma dimensão pública capaz de

contemplar o singular e o incabível (em vez de vulgarizar tudo quanto existe em sua

versão banal).

Para quem viu Elis apresentando Gil no Fino da bossa, para quem torceu por ele

na noite de 1967, com ‘Domingo no parque’, para quem viveu com eles, à distância, o

pesadelo da prisão, para quem esteve nos shows de despedida no Teatro Castro

Alves, rumo ao exílio em Londres, para quem viu os shows da volta e esteve no TUCA

no dia da gravação ao vivo de ‘Lugar comum’ e ‘João Sabino’, para quem presenciou

a epifania de ‘Doces bárbaros’, e assim por diante, numa sequência incontável de

revelações sempre esperadas e inesperadas, mas também para quem foi recebendo

mais tarde os ecos e os arpejos de tudo isso, os setenta anos de Gilberto Gil

acompanham o desenho da nossa própria existência como uma onda luminosa.

Quando fiquei viúvo, em 1982, o disco Um banda um foi meu consolo, meu

amuleto precioso, em que cada música, sem exceção, falava milagrosamente de mim

— e daquela que eu perdi (‘Menina do sonho’). Através dele, no vão do ‘imenso

monolito’, debulhei ‘Drão’ por ‘Drão’, e andando com fé eu fui.

A transparência de ‘Não tenho medo da morte’, onde se distingue a morte do

morrer, parece escapar aos antecedentes filosóficos ou poéticos reconhecíveis no

tratamento do grande tema, se não retrocedermos talvez à sabedoria epicurista.

‘Cores vivas’ é o hino da vida oferecido à vida. E eu adoro especialmente esses

momentos em que Gil, depois de instaurar um de seus recantos rítmicos deliciosos,

como em ‘Buda nagô’, alça o voo melódico e poético batendo a voz no céu da

garganta, nas sílabas mais agudas: ‘Dorival é um Buda nagô/ filho da casa real da

inspiração/ como um príncipe principiou/ a nova idade de ouro da canção’.

Setenta anos de quem sabe da eternidade e da encarnação, do tempo de uma

saudade e do raio do instante, do momento da tragédia e do tempo que nunca

passa, no som da cabaça, onde não está preso nem foge o tanger do berimbau.

Nosso camarada.”

 

Em 2010, Wisnik compôs em ritmo de bossa nova a bela canção “Sou baiano também” , exaltando as influências que teve das melodias que vieram da Bahia.

 

Foi Gilberto Gil que viu

o sertão de Luiz Gonzaga

virar praia e mar dentro de Caymmi

sambaião no violão de João Gilberto

(...)

 

na Bahia eu conheci

na Bahia eu disse amém

sou baiano também

 

(‘SOU BAIANO TAMBÉM’, 2010)

Filhos

 

Os filhos por perto

 

O menino Beto, que aos dois anos de idade garantiu à sua mãe que seria “musgueiro” e pai de

menino, não exagerou na previsão. Casou-se três vezes e teve oito filhos. Um deles, Pedro, o

primeiro com Sandra, morreu em um acidente de carro. Eles mantêm uma relação de amor e

admiração muito próxima ao pai. Nara e Marília são filhas de Belina. Preta e Maria, de

Sandra. Com Flora vieram Bem, Isabela e José. Filho de artista carrega o bônus, mas também

o ônus do pai famoso. As relações são delicadas. Mas a admiração e o orgulho brotam

facilmente dos filhos de Gil quando se pede que descrevam em poucas linhas o significado

desse laço com o pai.

Nara Gil é cantora e vive em Salvador. Ficou “remoendo”, mas acabou usando uma

pequena história para relatar o que sente:

 

“Quando tinha uns 15 anos, meu pai, que estava nos EUA, me mandou um

cartão-postal com um Super-Homem abrindo a camisa. O escudo no peito era um

coração. Dentro do cartão a frase dele: ‘Do superpai para minha superfilha’. Meu pai

é e sempre será meu super-homem”.

 

José Gil, o mais novo dos filhos, estuda e trabalha no Rio de Janeiro, no canal SporTV.

Ele preferiu usar as imagens poéticas do pai para falar dele: “Meu pai é como um abacateiro,

que amanhecerá tomate e anoitecerá mamão. Ou como um grão, que morre, nasce trigo, vive,

morre pão”.

Maria Gil é formada em nutrição e produtora cultural. Ela trabalha com o pai, é

responsável por sua agenda de compromissos e entrevistas: “Meu pai, inspiração ética,

emocional e criativa”.

“Não sou poeta, nem frasista”, foi logo dizendo Bem Gil, músico como o pai. Ele resumiu

a importância do pai na sua vida, que lhe mostrou simultaneamente a disciplina e a liberdade:

“O Gil sempre foi para mim, como pai, uma espécie de professor, muito sábio e

generoso. Além disso, tem a sensibilidade para saber se colocar em espaços e

funções que só poderiam ser preenchidos e exercidos por ele. Às vezes disciplinador,

às vezes libertador. No meu caso, isso se estende à relação entre músicos”.

Marília, a mais parecida fisicamente com o pai, é produtora cultural, formada em

psicologia:

 

“Eu amo meu pai. Amor incondicional mesmo. Sinto imenso orgulho da sua

trajetória, da sua obra e tenho consciência de que ser sua filha me diferencia, marca e

por vezes limita. Pareço muito com ele fisicamente. Eu gosto, mas queria mesmo ter

herdado um pouquinho do seu dom, sabedoria e sensibilidade artística”.

 

Isabela, a Bela, estuda nutrição, vive em Nova York, e se especializa em alimentação

ayurveda e macrobiótica, seguindo o caminho do pai na preocupação com a alimentação. Tem

um blog (http://www.belagil.com/) em que fala dos benefícios de uma alimentação correta, dá

dicas e receitas. Ela ressaltou o lado família de Gil:

 

“Meu pai é um superpai com seu jeito único e fofo de ser pai. É muito

compreensivo, mas, paradoxalmente, crítico. E pode parecer não demonstrar muito

seus sentimentos de amor e carinho, mas é o homem que conheço que mais preza e

zela por sua família. Para deixá-lo feliz, basta encher a casa com os filhos e netos”.

 

Preta Maria, cantora e atriz, costuma contar uma historinha da infância para ilustrar a

admiração que sente pelo pai. Uma vez, quando era bem pequena e brincava com Amora

Mautner, filha de Jorge Mautner, um dos melhores amigos do pai, ficou indignada porque a

amiga tinha chegado com uma boneca especialíssima, que só ela tinha, e não quis emprestar

para Preta brincar. Para se vingar, Preta recorreu ao pai: “Está bem, você tem a boneca, mas o

meu pai fala com Deus, o seu não fala”. Preta se referia à canção “Se eu quiser falar com

Deus”, que muito a impressionava quando era criança. Depois de crescida, já cantora, Gil fez

uma música especialmente para Preta gravar: “Praga”. E ela gravou, emocionada.

 

“Ele nunca me podou em nada. Sempre acreditou que eu deveria correr os meus

próprios riscos e pagar o preço pelas minhas atitudes. Uma das coisas que ele mais

diz, citando Caetano, é: ‘Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é’.”

Certa vez, em seu apartamento em Salvador, estavam Maria, Nara e Marília, além de sua

 

mulher, Flora, e outros amigos. As filhas passaram algumas horas na casa do pai, todos em

volta da grande mesa de jantar, conversando, rindo, bebendo vinho. Notava-se que Gil estava

feliz de estar ali, ouvia mais que falava, mas nada lhe escapava. A conversa animada e as

brincadeiras entraram pela noite. Gil tinha no olhar o orgulho sereno de ver as filhas criadas,

mulheres determinadas e independentes. Ele gosta de ter os filhos sempre por perto. Bela tem

toda a razão.

 

 

 

 

Agradecimentos de Regina Zappa

 

A Gilberto Gil, pela prosa, paciência e luz.

A Flora Gil.

A Nara, Marília, Maria, Preta, Bem, Bela e José Gil. Dona Claudina, Belina e Sandra. A Caetano Veloso.

A José Miguel Wisnik, Hermano Vianna, Jorge Mautner, Rita Lee e Fernanda Torres. A Paulo Miguez.

A Luis Turiba.

A Jom Tob Azulay.

A Marina Gadelha.

A toda a equipe da Gege Produções Artísticas.

A Fábio Rodrigues, pela valiosa cooperação.

A Gayané Palian, pela força.

A Tulio, Carol, Manu, João Pedro, Aparecida, e, agora, o pequeno João Vicente. Sempre.