Gilberto Bem Perto
Gil a mais
Uma tarde na casa de dona Coló
Miúda, alegre, olhos vivos e voz firme, Claudina, ou Coló, ou dona Cola, estava com 99 anos,
tinha uma memória prodigiosa e uma conversa gostosa. Adorava lembrar a vida vivida.
“Antigamente era formidável, era bonito”, dizia ela, que é quem mais sabe. Seu filho, Gilberto
Gil, que até o final ela chamou de Beto, se emocionou em vários momentos nesta tarde
passada na casa de dona Cola, em Salvador, outubro de 2012, poucos meses antes de ela se
despedir da vida. “Gil toda a vida foi esperto e sabido”, disse ela com satisfação. E passou a
rememorar com o filho os tempos passados, as árvores do quintal em Ituaçu, a grande figueira,
os nomes e sobrenomes dos vizinhos e conhecidos, dos professores e pessoas de destaque na
cidade.
Na casa dos pais, o apelido de Claudina era Coló. “Mas Zeca quando começou a namorar
comigo disse: ‘Não vou lhe chamar Coló, não. Prefiro Cola’.” E passou a chamar a noiva e
futura mulher assim. Zeca e Claudina se preparavam para celebrar cinquenta anos de casados
no dia 5 de julho de 1991, mas ele morreu semanas antes, no dia 15 de junho. Ele queria fazer
uma festa, ela disse a ele que preferia fazer uma viagem. Ele concordou, mas partiu antes,
deixando saudades no coração de dona Cola.
Claudina nasceu na rua Ismael Ribeiro, no bairro do Tororó, em Salvador, e lembra do
avô que morreu tirando fruta da árvore no quintal da casa. A casa do avô ficou para a mãe de
Claudina. “Quando papai casou com mamãe ela já tinha essa casa. Meu avô era carroceiro,
tinha uma carroça e fazia mudança para as pessoas porque naquele tempo não tinha caminhão.”
Ela não conheceu os avós por parte de pai, mas das tias, irmãs da mãe — Bonifácia,
Timocléia e Maria Eufrásia — e dos tios — Argemiro, Deocleciano e Recensiano — ela
lembra bem.
“Papai trabalhava no Arquivo Público e Museu do Estado da Bahia, era funcionário público, porteiro.
Depois foi sendo promovido. Recebo a pensão dele até hoje. Minha mãe costurava e toda a roupa da
família era ela quem fazia. E pegava encomenda, costurava em casa. Ela me ensinou a fazer ponto de cruz
e labirinto. Fiz o vestido da primeira comunhão da minha irmã Dinha, com barra de labirinto.”
Claudina, antes de se casar, ensinava religião em Palmeiral, no interior baiano. Formou-se
aos 19 anos e pouco depois se mudou. Lá exercia um de seus maiores prazeres, que era cantar.
Cantava na igreja. Dona Cola cantava mesmo aos 99 anos, com a voz firme e afinada e a
memória que não deixava espaços em branco na hora de “tirar os cânticos”.
“Um dia, quando terminou a missa e eu cantei ‘Queremos Deus’ (ela canta com vigor: ‘Queremos Deus,
que é nosso rei/ queremos Deus, que é o nosso pai’), recebi muitos elogios. Cantava com as crianças e as
mães ficavam emocionadas. Uma beleza! Isso era em Palmeiral, eu tinha vinte e poucos anos.”
Lembrou que sua mãe tinha boa voz: “Mamãe era filha de Maria, e tinha uma voz
formidável. Gostava muito de cantar”. E se envaidecia quando lembrava de uma vez, na
trezena de santo Antônio, em Salvador: “O povo cantava baixinho e eu sobressaía, aí seu Justo
dizia: ‘Isso é que cantar!’”
Foi dona Claudina que deu a Gil seu primeiro violão, depois de ter lhe dado o acordeão.
Incentivou o filho, talvez sem saber e por também gostar de música.
Certa vez, quando o filho já era ministro da Cultura, foi à casa da mãe fazer uma visita.
Alguém perguntou: “A senhora não tem orgulho de ver seu filho ministro?” E ela respondeu:
“Mas ele criou todos os filhos foi na música”.
Claudina lembrava bem das festas de São João em Ituaçu, quando as moças entravam nas
casas e perguntavam: “São João passou por aqui?” “Zeca mandava tirar um galho grande de
árvore, plantava perto da fogueira nas festas juninas e pendurava laranja, milho, garrafa de
vinho.” Ela gostava de dar aula para criança, ensinava a ler e a escrever, contar, cantar, tudo.
Dona Claudina morreu aos 99 anos, em 2013.
Luiz Gonzaga, a grande influência
Luiz Gonzaga representou uma verdadeira revolução musical no país, e através dele Gil
consolidou o orgulho de ser nordestino. Luiz Gonzaga trazia com sua música o universo do
sertão nordestino e interiorano que o pequeno Gil conhecia bem de perto, mas que não
imaginava tão mágico até que ouviu sua música de ritmo forte e raízes sertanejas.
“Era uma maravilha ele falar daquilo tudo, do cavalo alazão, do boiadeiro, daqueles tipos. Aquele era o meu
dia a dia. Ter um grande artista, o maior artista brasileiro, que era o Rei do Baião, que dominava o país
inteiro, oriundo daquele mundo ao qual eu pertencia. Aquilo era de uma força, de um privilégio e de um
orgulho extraordinários. Inventor de um gênero, acessado medianamente pelo rádio, ele conseguiu trazer
os tipos interioranos para a integração do país. Foi meu escolhido.”
Se em criança, ouvindo pelo rádio, Gil já era fascinado pelo Rei do Baião, quando sua tia
Margarida o levou para ver um show de Luiz Gonzaga na praça de Sé em Salvador, com 11
anos, o fascínio aumentou mais ainda. Gil nunca mais esqueceu esse evento e decidiu ali que
queria ser também um artista quando crescesse.
Se para Gil Luiz Gonzaga abriu as postas da música e do orgulho nordestino, para o Brasil
o Rei do Baião arrebentou as fronteiras geográficas, sociais e regionais ao levar o xote, o
baião e o xaxado, pouco conhecidos fora do Nordeste, para todo o país. Com seu acordeão,
zabumba e triângulo, deu voz ao povo nordestino. Cantou seus amores, as dores da seca e a
vida no sertão. Gonzaga sustentou “o ritmo e as origens brasileiras pelos anos da crise para a
MPB que o fim da guerra indiretamente trouxe, com a avalanche de músicas importadas”,
afirma Ricardo Cravo Albin, em seu Livro de ouro da MPB. No livro, ele se refere a Gonzaga
como uma “figura rara e excepcional”, que teve “decisiva participação histórica dentro da
afirmação de uma cultura nacional mais ligada às fontes telúricas do próprio Brasil”.
Luiz Gonzaga Nascimento (Luiz, por ser o dia de Santa Luzia; Gonzaga, por sugestão do
vigário; Nascimento, por ter nascido em dezembro, mês de nascimento de Jesus Cristo) nasceu
em 13 de dezembro de 1912 na fazenda Caiçara, nas terras do barão de Exu, no sopé da serra
de Araripe, sertão pernambucano. Era o segundo dos nove filhos de Januário José dos Santos,
trabalhador na roça da fazenda e tocador de sanfona de oito baixos, e da cabocla Ana Batista
de Jesus, a Santana. Aprendeu cedo a tocar com o pai, sanfoneiro respeitado naquelas bandas.
Aos oito anos já pegava na enxada e trabalhava na lavoura, e foi com essa idade que pela
primeira vez substituiu um sanfoneiro numa festa da fazenda. Cantou e tocou a noite inteira e
recebeu seu primeiro cachê: vinte mil réis. A partir daí, os convites para animar as festas, ou
sambas, como se falava na época, não pararam. Antes de completar 16 anos, Luiz de Januário,
Lula ou Luiz Gonzaga já havia se tornado conhecido no Araripe e em toda a redondeza, como
Canoa Brava, Viração, Bodocó e Rancharia, tocando nos bailes, forrós e feiras. No começo,
acompanhado do pai, depois, se virando sozinho.
Depois que uma grande cheia do rio Brígida inundou sua casa em Exu, a família foi
obrigada a mudar-se para Araripe, na fazenda Várzea Grande. Aos 17 anos conheceu
Nazarena, sua primeira paixão. A proibição do namoro pelo pai da moça e o castigo que
recebeu de seus pais por insistir no romance fizeram com que ele fugisse para o Crato, no
Ceará, ingressando, um ano depois no Exército, em Fortaleza. Seguiu em missão militar pelo
Brasil como o soldado Nascimento. Depois que concluiu o serviço militar, ele decidiu
continuar no Exército, até virar soldado-corneteiro. Nas horas de descanso ouvia no rádio os sucessos musicais da época.
Dizem que aprendeu a tocar sanfona de 120 baixos com um soldado de polícia chamado
Domingos Ambrósio, em Juiz de Fora, Minas Gerais, conhecido por ser um bom acordeonista.
A partir daí, seu interesse pela música foi se consolidando.
Foi nesse tempo, por volta de 1938, que o jovem soldado comprou por quinhentos réis
divididos em prestações mensais uma sanfona branca Honner, de oitenta baixos, que teria que
buscar em São Paulo. Para isso, chegou a fugir do quartel, descobriu que foi enganado, mas
acabou comprando outra igual. Um ano depois, deixou definitivamente o Exército e, no
caminho de volta para Exu, desembarcou no Rio de Janeiro, onde, à espera do navio que o
levaria a Recife, foi conhecer o Mangue, próximo ao porto. Explodia no mundo a Segunda
Guerra e a música estrangeira invadia o país. Com sua Honner branca, Gonzaga fincou pé na
cidade, tocando choros, foxtrotes e valsas naquela região que o fascinava e acabou indo morar
no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro.
Em 1939 subiu num palco pela primeira vez, apresentando-se no cabaré O Tabu, na Lapa.
Mas só começou a perceber a força da música nordestina quando se apresentou, em 1941, no
programa de Ary Barroso na rádio Tupi, Calouros em Desfile, e fez sucesso com sua canção
de ritmo regional “Vira e mexe”, que lhe valeu um contrato com a gravadora Victor. Além do
primeiro sucesso, “Vira e mexe” foi a primeira música que gravou em disco, seguida de mais
de cinquenta músicas instrumentais. Foi em seguida contratado pela Rádio Nacional e passou
a usar o figurino de vaqueiro nordestino, que adotaria por toda a sua trajetória artística.
Em 1945 gravou sua primeira música como cantor, a mazurca “Dança Mariquinha”, que
fez em parceria com Miguel Lima. No mesmo ano, conheceu Odaléia Guedes dos Santos, que
passou a morar com ele, e assumiu o filho que ela esperava de um romance desmanchado.
Léia, como era chamada, cantava e dançava. O filho foi batizado de Luiz Gonzaga do
Nascimento Júnior, o Gonzaguinha. O casal se separou com menos de dois anos de
convivência e Gonzaga visitava o filho de vez em quando.
Em 1946, depois de muitos anos sem ver os pais, Gonzaga voltou a Exu. Dessa visita
resultou a canção “Respeita Januário”, parceria com o cearense Humberto Teixeira. Dois anos
depois, casou-se com sua secretária particular, a professora pernambucana Helena Cavalcanti,
com quem viveu até o fim da vida e com quem adotou a menina Rosa. Com a morte da antiga
namorada Léia, Gonzaga foi buscar o filho e o entregou aos padrinhos Dina e Henrique Xavier
Pinheiro, que o criaram no morro de São Carlos.
Gonzaguinha tornou-se músico como o pai e os dois ficaram amigos, finalmente, depois de
uma convivência tumultuada, e, em 1980, viajaram juntos, cantando pelo Brasil. A essa altura, Luiz Gonzaga já era um ídolo nacional e Gonzaguinha um artista consagrado. Gonzagão
representava o retirante bem-sucedido, que venceu as dificuldades e conquistou o Sul do país
cantando sua própria terra. Lançou a música nordestina nos grandes centros urbanos do país e
despertou o olhar brasileiro para o Nordeste. “Asa branca”, seu maior sucesso, foi composta
em 1947, com Humberto Teixeira.
Em sua homenagem, Gil fez a música “Treze de dezembro”, gravada pela primeira vez no
CD Luas do Gonzaga, e lançado em 2011. Luiz Gonzaga morreu em 2 de agosto de 1989, de
parada cardiorrespiratória.
Escravidão no sangue
O bisavô de Gilberto Gil era um escravo que comprou sua alforria. José Gil subiu na vida
como comerciante e viu seu filho João entrar para a Guarda Nacional.
“Meu avô João adquiriu cidadania cedo porque teve ascensão social. Sorte dele porque, como Joaquim
Nabuco se queixava, a abolição largou todo mundo por aí. Os que podiam negociavam, tinham armazém.
Vendiam de tudo e muita mercadoria que vinha da África: os colchões de palha da Costa do Marfim, os
panos da costa do Golfo da Guiné, da Nigéria, Togo, Gana, com fios de ouro. Muita coisa da Índia, como
os pentes de tartaruga, as especiarias, e muita coisa da China, como o marfim. A farinha do reino, também
vendida, era herança de Portugal”, conta Gil.
Num processo crescente de ascensão social, o pai de Gil se formou em medicina.
A mistura de culturas na Bahia faz do estado um dos mais representativos da mestiçagem
brasileira, tão exaltada por Darcy Ribeiro, Jorge Mautner e muitos outros.
“Na música que fiz para Canô (dona Canô, mãe de Caetano) nos seus cem anos, tive a ousadia de
considerá-la indiana. Eles chegaram quando trouxeram o gado zebu no final do século XIX. Muitos
indianos vieram, para muitas regiões, entre elas o Recôncavo Baiano, como Santo Amaro. Zeca (pai de
Caetano) é uma figura completamente indiana. Como os registros se perderam não se tem como traçar
essa ancestralidade.”
Como dois irmãos
“Todo sábado a gente ia para dois ou três bares de nossa preferência, em Salvador, tomar malzbier.
Caetano e eu gostávamos de cerveja doce, a gente ficava tocando e cantando nossas coisas. Tocávamos o
que estávamos começando a compor e o que tínhamos escutado recentemente. Hoje os encontros são
muito esporádicos. A vida leva um pra cada canto e o que nos aproximava muito era Caetano e o trabalho
conjunto, a intensidade. Mas Caetano é o irmão que não tive. A vida me deu ele de presente. Se não fosse
por ele eu provavelmente não teria tido as responsabilidades que tive em relação à música.”
Gil diz que Caetano é a pessoa com quem pode contar, sempre. Destaca as diferenças
entre eles.
“Admiro-o não só pelo talento e sensibilidade, mas pela pessoa verdadeira que eu conheci nos anos 1960.
Caetano é político, é leão, tem essa vocação para a compreensão plena da encarnação como sendo una.
Caetano é um, eu sou dois. Eu sou no mínimo, dois. Eu nunca fui um, não quero ser, não tenho vocação
para isso.”
No seu livro Verdade tropical , Caetano assegura que ele e Gil juntos constituem “uma
espécie de entidade”.
Já no começo da carreira de Gil, Caetano escreveu na contracapa do LP Louvação, em
1968, palavras que demonstram sua admiração pelo talento do amigo:
“Penso que o canto de Gil situa-se no centro da única discussão verdadeira sobre a música brasileira no
nosso tempo: uma extraordinária musicalidade que se perde entre as emoções da cidade e do sertão, do
depuramento das tradições e a vulgaridade total — essa musicalidade que tenta reencontrar-se além de
tudo isso — e que é a mais vigorosa exigência de que se coloquem em outro nível as relações de nossa
música com a realidade”.
Um filho de Gandhy
O Carnaval sempre teve para Gil um misto de dor e delícia. Uma das lembranças mais
recorrentes que tem da festa dionisíaca era o triste fim das promessas de amor que o Carnaval
trazia e levava embora. Achava graça das fantasias, mas tinha medo dos mascarados. E não
queria mais a tristeza das paixões abortadas. Só se reconciliou com a celebração quando
entrou para o afoxé Filhos de Gandhy. Neste depoimento do final dos anos 1970, publicado no
livro Gilberto Gil: Expresso 2222, de Antonio Risério, Gil fala da sua relação com o
Carnaval, mas também descreve o desenrolar da festa desde que era criança:
“Nunca fui um carnavalesco, um folião. Não tenho temperamento. Na verdade, o afoxé, onde saio já há seis
anos, foi minha forma de me reconciliar com o Carnaval e superar um verdadeiro trauma que eu tinha com
ele. Em criança mesmo eu já tinha um certo grilo de Carnaval porque, se de um lado havia todo o aspecto
mágico da fantasia, da beleza, da transfiguração — ainda mais para mim, que era do interior e vinha para
Salvador especialmente pra isso —, havia também muito medo, por causa dos mascarados, dos blocos de
sujos, dos caretas que dominavam o espaço diurno do Carnaval e me aterrorizavam. No final da tarde,
havia uma compensação, a gente vestia as fantasias, em geral de pirata, de tirolês, e ia ver os desfiles das
grandes sociedades, que eram o principal do Carnaval naquela época. Tinha o trio elétrico, também, desde
1948, mas, nesses primeiros anos, ninguém ‘de família’ saía atrás do trio elétrico — só a marginalidade
mesmo, a barra-pesada. E mesmo durante esse espaço de magia, a beleza do Carnaval, havia o grilo de
levar com o lança-perfume nos olhos, que é uma experiência terrível. Então, mesmo na infância, o Carnaval
para mim era sempre eivado desses dois sentimentos, de maravilha e terror.
Na adolescência, o lado mágico do Carnaval começou a ser substituído pelo lado sensual, sexual, a
paquera, a paixão. E isso me arrasava, porque todo ano eu enlouquecia de paixão e depois mergulhava no
dilaceramento de perder aquela pessoa, não rever jamais. Quando eu tinha 16 anos, foi uma paixão que
me traumatizou para sempre. Nos anos seguintes eu chorava o Carnaval inteiro, procurava aquela pessoa,
enlouqueci. E aí me afastei totalmente do Carnaval.”
Quando chegou de Londres, em 1972, Gil foi passar o Carnaval na Bahia. Encontrou o
afoxé Filhos de Gandhy, que tinha começado a sair em 1949, quando ele tinha sete anos, sem
massa humana na avenida, reduzido a poucas pessoas na praça da Sé. O bloco era vivo na sua
memória e um dos grandes emblemas da sua infância.
Para Carlos Rennó, Gil contou:
“Os integrantes passavam pela porta de casa no bairro de Santo Antônio, todos de branco, com turbantes
e lençóis, palhas de alho trançadas e fita na cabeça, e com um toque que era diferente do samba, da
marcha, do frevo, dando uma sensação de espaço sagrado (depois viemos a saber que o afoxé era mesmo
um toque religioso do candomblé). Eu tinha veneração pelo Gandhy, e ao rever o bloco numa situação de
indigência, me deu uma dor seguida de um arroubo de filialidade, de amor de filho, arrimo de família;
resolvi dar uma força. A primeira coisa que fiz foi me inscrever no bloco — para ‘engrossar o caldo’. Depois
fiz a música, e continuei saindo — saí 13 anos seguidos. As fileiras foram aumentando, e o Gandhy se
recuperando. Os jovens ficaram entusiasmados com minha presença, e os velhos se sentiram mais
estimulados a trabalhar; enfim, foi um estímulo geral”.
A filiação ao grupo de afoxé fazia parte do processo de “retomada” e redescoberta das
coisas brasileiras:
“Fui procurar especificamente os afoxés, porque, mesmo no Carnaval da minha infância, eles me
apareciam como bálsamos, oásis de paz naquele caos da rua. Foi como uma coisa devocional, uma
promessa, uma vontade de pôr meu prestígio para funcionar em prol daquela coisa bonita que é o afoxé. E
saí fazendo todo o percurso das 12 horas, cantando e tocando, parando nos pontos de devoção,
obedecendo à disciplina, que é muito rigorosa. O afoxé funciona para mim como a ordem no caos.
Embora eu seja, racionalmente, plenamente favorável à atitude radical do Carnaval, a anarquia, o
enlouquecimento, a catarse atrás do trio elétrico, não tenho barra pra isso. É questão de temperamento.
Carnaval é uma coisa muito séria, e muito complexa. É um espaço muito curto para a transfiguração, para
a loucura, para a reconciliação total com a carne, que é ignorada o ano todo”.
A filiação de Gil ao bloco deu visibilidade e força, e os Filhos de Gandhy voltaram a ser
grandes no Carnaval da Bahia.
Passando o chapéu
Numa noite, quando saía do trabalho na alfândega, andando pela Praça Municipal, Gil
encontrou Chico Buarque. Ele fazia parte do Sambafo, um grupo musical formado por
universitários da Faculdade de Arquitetura, a FAU, de São Paulo. O Sambafo fazia pequenos
shows, que começavam sempre a sério e terminavam em farra. Os estudantes resolveram fazer
um passeio em Salvador e aproveitavam para fazer um showzinho aqui e outro ali para
alongar as férias. Essa história foi contada na revista Realidade, em dezembro de 1966, por
Roberto Freire, diretor do Teatro Universitário Católico (TUCA) da PUC, de São Paulo, na época amigo de Chico e integrante dos sambafistas. De óculos escuros e boné na mão, Chico
se fez passar por um cantador cego, enquanto os outros fingiam ser transeuntes que jogavam
notas dentro do boné para “estimular” os passantes. Quando Chico estava cantando, um jovem
parou e ficou olhando desconfiado. Até que deu num grito: “Virge, é o Chico!”
O jovem era Gil, que conta história parecida, mas sem o detalhe do cantor ceguinho:
“Eu saía de um daqueles turnos de seis à meia-noite e já combinado com uma turma de nos reunirmos na
Praça Municipal, que tinha a biblioteca pública de um lado, o palácio Rio Branco do outro, a Prefeitura
Municipal antiga — prédio centenário do tempo da fundação da cidade — do outro, e o Elevador Lacerda
do outro. Era o quadrilátero da Praça Municipal. Eu saía da alfândega, pegava o elevador, subia e caía na
Praça Municipal. Combinamos que aquela noite ia ter serenata. Eram serenatas públicas feitas para os
transeuntes, para os passantes, para os notívagos, para os madrugadores. Costumávamos fazer isso de vez
em quando ali na Praça Municipal. Nessa noite nos juntamos ali. Estávamos tocando na porta da Biblioteca
Municipal, nos batentes, três ou quatro de nós ali tocando violão, cantando, mostrando as músicas. Nisso
se aproxima uma turma e percebemos logo que eram forasteiros, era gente de fora e eram esses meninos
da faculdade de arquitetura em passeio a Salvador. Ficaram ali olhando a gente e tal. Me lembro que Chico
ainda não era conhecido. Só um ano depois é que ele faria ‘Pedro Pedreiro’, em 1965. Mas ele nos deu
dinheiro, porque a gente rodava o chapéu para comprar cachaça. Eles estavam tomando cerveja e
cachaça. Compartilhamos ali uma ou duas horas de convívio artístico boêmio.”
Quando mais tarde, em 1965, Gil foi para São Paulo e passou a frequentar os bares da
noite paulistana, reencontrou-se com Chico no João Sebastião Bar, e os dois se lembraram
daquele encontro em Salvador.
“Impressionante! São essas coincidências, essas coisas loucas. Aí fizemos uma amizade por causa da
música, mas também por causa desse fato inicial. Nos tornamos amigos, passei a frequentar a casa dele,
conheci a família, as irmãs, dona Maria Amélia, o doutor Sérgio. Tornei-me amigo de Chico em São Paulo.
‘Pedro Pedreiro’ estava estourando.”
Divino, Maravilhoso
O polêmico programa da extinta TV Tupi Divino, Maravilhoso, comandado por Gil e
Caetano, dirigido por Fernando Faro, com produção de Antônio Abujamra, estreou em outubro
de 1968 e durou bem pouco. Era um programa ousado para a época e sua realização se deu
graças a Guilherme Araújo, que ajudou a concretizar a ideia dos tropicalistas.
No final de 1968, não apenas o programa estava fora do ar, como o Ato Institucional nº 5
tinha sido promulgado, e Gil e Caetano haviam sido presos. De Divino, Maravilhoso só
restaram algumas fotos e a memória das pessoas. As imagens em videoteipe foram apagadas
pelo próprio diretor-geral do programa, Fernando Faro, por medo de que o Exército as usasse
“contra os meninos”, como explicou. E o pouco que restou fala por si.
Anárquico e irreverente, o primeiro programa teve Caetano plantando bananeira, Gil dançando e rodopiando, os Mutantes cantando “Baby” com os dois apresentadores, Gal Costa
cantando “A luta contra a lata ou A falência do café”, composição de Gil que dizia, entre
outros versos:
Alô, mulatas! Alô, alô, mulatas!
O barulho que vocês estão ouvindo é um barulho de latas!
De latas! Eu disse: “Latas! Latas!”
Era um autêntico happening, muito em voga naqueles tempos. O site Tropicália descreve
um dos programas seguintes:
“O clima natalino invadia o programa Divino, Maravilhoso, transmitido ao vivo pela TV Tupi, na noite de 23
de dezembro de 1968. O editor de imagens do programa, Cassiano Gabus Mendes, fez o que pôde, mas
não conseguiu evitar que a cena de Caetano apontando um revólver para a própria cabeça aparecesse em
primeiro plano no vídeo. (...) Inspiração e homenagem à parte, o que os tropicalistas queriam mesmo era
mostrar o inconformismo com a caretice da tradicional família brasileira. E não havia melhor hora para uma
cena chocante como essa. Diante de tantas provocações, já se comentava logo nas primeiras semanas de
exibição que os dias do programa estavam contados. Não bastassem as cartas indignadas dos
telespectadores e de autoridades de cidades interioranas, policiais à paisana frequentavam o auditório, o
que fazia subir ainda mais a pressão e o mal-estar contra os tropicalistas. Com a decretação do AI-5 em 13
de dezembro do mesmo, o medo havia crescido entre o elenco e a produção. Jô Soares chegou a avisar
Caetano e Gil que seus nomes integravam uma lista de ‘personas non gratas do governo’. Não deu outra.
Ambos foram presos em 27 de dezembro”.
Em matéria publicada na época na Folha da Tarde , apenas dois dias após o primeiro
programa ir ao ar, há uma descrição da estreia:
“No começo aparece Caetano, de blusa militar aberta sobre o torso nu e o cabelo penteado. Senta-se num
banquinho, em estilo ioga, e começa a cantar ‘Saudosismo’, sua nova música, toda nos moldes da bossa
nova original, bem Tom Jobim, bem João Gilberto. Mas a música é para proclamar um ‘Chega de
Saudade’ e Caetano assanhar o cabelo e Os Mutantes entrarem em cena e começarem todos
freneticamente, amalucadamente, a fazerem o ‘som livre’. No auge da improvisação, com guitarras, gritos e
movimentos de quadris, Caetano diz que vieram mostrar o que estão fazendo e como estão fazendo. E o
programa daí para o fim é o mau comportamento total, caótico nos sons e gestos, alucinação. Para que Gil
cante ‘A falência das elites’ entram em cena várias latas velhas e é aquele baticum. Caetano deita-se no
chão, rola-se como num estertor, vira as pernas para cima, de repente levanta-se e entra no ritmo
alucinante, revirando os quadris, em gestos tão ousados que às vezes o próprio Cassiano (Gabus Mendes,
diretor da TV Tupi que fazia o corte das imagens) não tem coragem de captar”.
No livro Verdade tropical , Caetano Veloso relembra de outros momentos do programa,
que foi exibido até a semana do Natal:
“Fizemos um atrás de grades e dentro de gaiolas (...). No final, eu vinha do fundo do palco berrando o
sucesso de Roberto Carlos ‘Um leão está solto nas ruas’ e quebrava as grades, convidando todo o elenco
de participantes a colaborar comigo nessa destruição (...). Num outro programa, nos distribuímos um
pouco à maneira de Cristo e os apóstolos na Santa Ceia, mas sobre a mesa havia apenas bananas.
Cantávamos e comíamos as bananas”.
A noite da Sucata
A curta temporada na boate Sucata, em 1968, foi um sucesso. Provocou debates acalorados
entre os que acusavam os tropicalistas de traírem a verdadeira música brasileira e os que
defendiam a postura livre dos compositores e resultou em um compacto duplo — um vinil com
quatro músicas — gravado ao vivo, de Caetano com os Mutantes. Na edição de 11 de outubro
de 1968, sob o título “Sucata: a longa noite de loucuras”, o extinto jornal Última Hora
publicou, na coluna “Grande festival”, a seguinte reportagem sobre o show:
“Isto é uma apelação, fora, fora! E a moça continuava gritando, quando de repente notou que estava
fazendo parte do show. As luzes se alternavam do palco para a plateia. Enquanto isso Caetano Veloso,
com a calma que lhe é peculiar, cantava rindo e o público que lotava a boate Sucata se dividia: uns
indiferentes, outros aplaudindo delirantemente. Até então as pessoas que iam assistir ao show de Caetano,
Gil e Os Mutantes vinham reagindo pacificamente. Ou aplaudiam, ou saíam atônitos e revoltados.
Os fanáticos da Tradicional Música Brasileira erguem seus escudos em defesa do nosso samba: ‘Isto é uma
loucura, um deboche, é a submúsica imperando, onde é que nós vamos parar?’, gritavam transtornados
para os tropicalistas fanáticos que cantarolavam irritantemente ‘É proibido proibir’ e ‘Caminhante noturno’.
Ricardo Amaral ouve isto tudo com um enorme sorriso: a Sucata tem estado lotada desde que tudo
começou. ‘Pode deixar que eles reclamam, mas acabam vindo’, comenta Ricardo, que agora de patrão
passou a ser fanzoca: assiste ao show todos os dias na maior animação. Ele e Carlinhos de Oliveira.
Mas nem mesmo o imaginoso Carlinhos de Oliveira poderia prever o desfecho do happening de ontem. A
tal moça, ao se sentir figurante do show, atirou-se envergonhadíssima nos braços de seu acompanhante e
iniciou uma cena de amor que ficaria mais de acordo num filme de Roger Vadim. E tudo isso com um spot
de luz em cima. E o show continuava no palco e na plateia. No último número da noite Gilberto Gil cantava
‘Batmakumba’, quando não mais que de repente a moça novamente se levantou e continuou seus
insultos: ‘Fora, impostor, isto é uma apelação comercial’,
mas Gil não dava bola e a moça, que devia ter uns 28 anos, não aguentou e lançou seu brado de guerra:
‘Bicha’ e, imediatamente, foi acompanhada em coro não só por Gil, como também por Caetano e pelos
Mutantes, que improvisavam: ‘Bi-cha, Bi-cha-cha, Bi-bi-cha-cha’, contagiando imediatamente toda a boate
que, batendo palmas, acompanhava: ‘Bi-cha. Bi-cha-cha. Bi-bi-cha-cha’. Foi um sucesso.”
Gênese de “Domingo no parque”
No filme Uma noite em 67, de Ricardo Calil e Renato Terra, Gil narra a gênese da música, o
convite para Os Mutantes e o medo de enfrentar o palco. A seguir, alguns trechos do
depoimento (a íntegra está em http://www.jobim.org/gil/handle/2010.4/209):
“(...) A minha primeira inclinação para o arranjo, pra versão musical da música foi o Quarteto Novo. Foi o
Hermeto, o Theo, o Airton, aquele grupo que tinha feito a ‘Disparada’, tava fazendo aquelas coisas todas.
Eu via ali, naquela dimensão country, sertaneja, eu sentia aquilo próximo do ‘Domingo no parque’, da
coisa do afoxé, daquele enclave baiano e tal. Eu adorava aquele som, mas o Airton não quis. Eu já queria
misturar, fazer uma coisa contando um pouco o híbrido, do George Martin, os Beatles, com elementos da
modernidade, da música moderna e tal, e o os meninos não quiseram, não. Daí foi que Rogério Duprat (...)
disse: ‘Eu conheço uns meninos que estão fazendo um programa na Bandeirantes, que são jovens
interessantes. (...) Eles são loucos pelos Beatles e já são eletrificados, o Arnaldo toca baixo elétrico, o Sérgio
toca guitarra, a Rita canta, compõe e faz aquelas coisas, acho que eles vão gostar’. E me apresentou então
aos Mutantes, que disseram: ‘Ah, que bom, bacana, vamos fazer!’ Aí o Duprat se sentiu inteiramente à
vontade para fazer exatamente a colagem que a gente queria”.
“(...) Mas isso era o meu medo normal do palco (a respeito do episódio em que não queria entrar no palco
nem sair do hotel antes da eliminatória do ‘Domingo no parque’), quando eu estudava acordeão, a
academia de acordeão fez uma apresentação pública no teatro de Salvador com vários alunos, eu senti a
mesma coisa, vontade de correr pra casa e não tocar. No colégio, quando participei do meu primeiro
concurso, no festival do colégio, com 12, 13 anos, de tanto medo, de tanto pavor, eu acabei esquecendo a
música que eu ia cantar. Entrei no tom errado, coisas assim. Até pouco tempo atrás eu tinha pânico do
palco. Não do mesmo tipo do Chico, mas tinha. Naquele momento eu estava morrendo de medo de
cantar, participar de um concurso, ser submetido a um exame. A final do festival era uma prova.”
“(...) Prestar exame, fazendo prova com uma série de questões polêmicas, complicadas, tendo que ser
aprovado já submetido a uma reprovação antecipada, já bastante ampla, com muita gente me condenando
por estar fazendo aquilo. Então era uma provação que eu ia viver. Passar por uma situação atormentada,
difícil. Por causa de todas essas coisas, evidentemente. Estava fazendo uma coisa nova e sujeito a grandes
reprovações, que no final vieram, as grandes aprovações também, mas um percentual bem alto de
reprovação.”
“Foram lá, disseram: ‘Vamos embora, que bobagem’. Eu ali, querendo ficar embaixo do cobertor.”
“Não lembro (como foi a primeira apresentação da música na eliminatória) porque era como se eu estivesse
com 42 de febre, quase em delírio, na fronteira da inconsciência de tanto medo, de tanto pânico. Foi um
dos momentos de maior pânico da minha vida. Eu vejo hoje as imagens, eu cantando assim e digo: ‘Não é
possível, não corresponde à realidade, eu ali de fato, minimamente de posse dos sentidos’. Eu digo: ‘Não
faz sentido, eu não estava de posse de nenhum de meus sentidos plenamente naquele momento. Eu
estava completamente transtornado, em delírio febril mesmo’. Só me lembro de ter sido jogado naquele
palco e depois ter sido tirado. O que aconteceu ali, só hoje vendo as imagens que eu tenho certo
apaziguamento com aquilo.”
“Não me lembro de nada. Nada do que foram as reações normais, os desdobramentos naturais dos fatos
circunstanciais, nada disso tinha força para tomar lugar da minha agonia. Era tão grande que eu só podia
me dedicar à ela para não desmaiar. Eu tinha que ficar ali vivendo a agonia de forma plena. Só me recordo
de agonia tão grande, ou até maior, em seguida, no dia em que fui preso. Pavor.”
“Compensação (o que sentiu quando o medo baixou). Ah, que bom que alguém gostou, alguém não viu
aquela alma penando naquele palco, alguém viu outra coisa. Por isso eu digo que quando vejo as imagens
eu fico admirado de que as imagens não tivessem gravado na verdade um fantasma, que era o que eu era
naquele momento naquele palco.”
“(...) Levantei da cama (risos) por alguma razão absurda para mim naquele momento. O que fazia sentido
para mim naquele momento era o sentimento do niilismo, da anulação — com o qual eu tenho muita
identificação. Depois dali então, com a ioga, com as renúncias, com as disciplinas. Tudo isso veio
comprovar uma tendência minha por esse lado de negar a dimensão da materialidade no mundo em nome
de um mergulho, de uma dissolução no etéreo. Essa coisa sempre marcou minha personalidade, plena e
plenamente dos fatores que estão em mim e fora de mim, na minha própria vontade, mas também além
dela, fora dela. Eu nunca quis, eu nunca tive um projeto egoísta, eu não tenho o ego propriamente bem-
constituído (risos). Não era o meu projeto, ‘Domingo no parque’ era a minha fantasia a respeito do projeto
humano. Não era a minha música, era a música que eu achava que estava se engendrando no mundo e o
Brasil era do mundo. E como é que o Brasil, sendo do mundo, não vai fazer parte da música do mundo?
Esse era o meu pensamento. Não representava um projeto pessoal. Nunca foi.”
“(...) Ali era um universalista sem fronteiras. Eu estava comprometendo a minha pessoa e era a única que
eu podia comprometer. (...) Tanta gente já me reprovando, já duvidando. Só eu e, ainda assim, muitas
partes desse próprio eu escapavam a essa adesão, queriam fugir da própria fantasia, queriam se
descomprometer com ela. Daí o pânico, daí a divisão, daí a paranoia, essas coisas que a psicologia explica,
e eu não tenho explicação nenhuma.”
“(...) Eu nunca achei que fosse ganhar o festival... até hoje não acredito no meu taco. Resumindo, não
acho que vou ganhar nada, nunca.”
“Profanação” do reduto da MPB
A apresentação de “Domingo no parque” foi descrita na revista Realidade, de junho de 1969
como se tivesse sido uma batalha. Sob o título “Os Mutantes são demais”, o jornalista Dirceu
Soares relata o fato (negativo, para alguns) de Gil ter usado a guitarra elétrica em vez de
“instrumentos brasileiros”, e faz referência distinta à “música brasileira” e ao “iê-iê-iê”. A
seguir um trecho da reportagem, que dá uma ideia de como os novos caminhos musicais
eleitos por Gil foram rejeitados num primeiro momento e como Os Mutantes começavam a
alçar voo:
“(...) O grande momento de afirmação de Os Mutantes foi precisamente diante de uma vaia formidável,
dada pelas duas mil pessoas que lotavam o Teatro Paramount, da TV Record, quando eles acompanharam
Gilberto Gil em ‘Domingo no parque’, em setembro de 1967. A presença dos três ali significava uma
profanação de um reduto da chamada música popular autêntica: eles eram então um conjunto de iê-iê-iê e,
pior ainda, invadiam o festival empunhando guitarras elétricas. Os puristas da música popular tinham
espasmos de indignação.
— Quando nós pisamos no palco, com roupas coloridas e guitarras — relembra Sérgio (dos Mutantes) —
foi aquela vaia.
Junto com ‘Alegria, alegria’, de Caetano Veloso, apresentada uma semana depois no mesmo festival,
‘Domingo no parque’ era uma tentativa de ligar duas correntes da música popular brasileira: a tradicional,
executada com arranjos característicos e instrumentos brasileiros ou já integrados há muito no país, e o iê-
iê-iê.
O maestro Rogério Duprat, que há anos fazia música eletrônica em Brasília e que foi o autor do arranho
definitivo de ‘Domingo no parque’, resolveu colocar guitarras elétricas como uma provocação aos
tradicionalistas: tratava-se de enfrentá-los em seu santuário, seu campo mais forte, o festival da Record. Era
uma grande cartada, poderiam vencer a batalha num único lance, ao invés de ganhá-la aos poucos, em
discos isolados ou em breves aparições na televisão. Ao convidar Os Mutantes, vinte dias antes da
apresentação, o maestro Duprat advertiu-os dos riscos:
— Preparem-se para o pior. Dificilmente vocês escaparão de uma vaia homérica.
Até ali, Os Mutantes só tinham tocado praticamente música jovem estrangeira, cantando em inglês, mas
pretendiam executar música brasileira, desde que encontrassem um caminho novo. E o acaso os ajudou.
O maestro Chiquinho de Moraes, que já os ouvira na TV Bandeirantes, convidou-os para acompanhar
Nana Caymmi na gravação de ‘Bom Dia’, de autoria dela e de Gil. O baiano estava procurando um
conjunto bom e pouco conhecido, sem vícios musicais, para acompanhar ‘Domingo no parque’.
— Ele nos mostrou a música e falou de novas ideias, para o emprego da eletrônica na execução de
músicas brasileiras, com letras funcionais, quase como as histórias em quadrinhos, em forma de colagens
pop ou concretistas, combinando sons e palavras, mas sem perder a característica nacional. Eu, Sérgio e
Rita vibramos, estava ali o caminho musical que procurávamos — conta Arnaldo.
As vaias não impediram o êxito. ‘Domingo no parque’ ficou em segundo lugar, perdendo apenas para
‘Ponteio’, de Edu Lobo, e depois do festival permaneceu muito tempo em posição de destaque nas
paradas de sucesso.”
Louvação ao primeiro álbum
Com Louvação Gil se lançou definitivamente na música, em 1967. A ditadura militar que se
instalara no país, em 1964, aparece como pano de fundo em canções como “Ensaio geral” (“O
Rancho do Novo Dia/ O Cordão da Liberdade”) ou “Procissão” (“Muita gente se arvora a ser
Deus/ E promete tanta coisa pro sertão/ Que vai dar um vestido pra Maria/ E promete um
roçado pro João”), que mencionavam questões sociais.
Anos mais tarde, o crítico americano John Bush escreveu no site Allmusic que o LP
Louvação já revelava “um dos mais brilhantes compositores e intérpretes do Brasil”. O
francês François Viguier, afirmou, também em retrospecto, que, apesar de ser jovem, aos 25
anos, Gil já mostrava qualidade em suas “composições surpreendentes”, “prometendo um
futuro brilhante, como cantor e compositor”. Para Viguier, Louvação mostra uma “incrível
riqueza melódica”, influenciada por Tom Jobim, o que deu a Gil, um dos seus álbuns mais
“bossa nova, mais doce”. Com esse álbum, diz ele, Gilberto Gil traz o embrião “do que vai se
tornar, em poucos anos mais tarde, a fusão da bossa (nova) com o jazz, particularmente feita
por Jobim e Stan Getz”.
Mas naquela altura, maio de 1967, o crítico musical Juvenal Portella, em sua coluna
“Discos populares” do Jornal do Brasil, já reconhecia e ressaltava no texto “Louvemos
Gilberto Gil”, a excelência musical e a originalidade do jovem músico baiano:
“Estão na praça a música e a voz de Gilberto Gil, o compositor baiano que se integrou, já se pode dizer que
definitivamente, à linha sadia da música popular brasileira. Gil desfila 12 de seus trabalhos, sete dos quais
aliados a bons parceiros, dando oportunidade a que se possa fazer um ligeiro estudo de sua obra. Nem ele
nem ninguém esconde as influências sofridas durante o que se pode chamar de fase preparatória de sua
carreira, influências iniciadas com o ritmo de Luiz Gonzaga, dono do baião, depois continuada com Baden,
Tom e Vinicius. Acredito que hoje Gil já não se sente mais preso a isso e constrói suas peças com uma
certa liberdade e bastante personalidade. Não se deve entender que Gil criou uma nova dimensão na
música, mesmo porque o atual estágio me parece indefinido. Mas que está contribuindo com uma dose de
revigoramento, tendo como base uma força melódica totalmente despida de manifestações rítmicas que
não sejam bem brasileiras, isto está obtendo resultados, a meu ver, elevadíssimos. Deve-se por justiça
lembrar que Gilberto Gil tem encontrado parceiros identificados com sua linha e o seu pensamento, não
fossem eles, na maioria, ligados as mesmas origens. O fato é que estes moços — Gil, Torquato, Vandré,
Lona, Caetano, Capinan, Sá, Sidney, Chico etc. — estão fazendo com simplicidade uma música menos
sofisticada e mais autêntica. Há regionalismo, há críticas, há medo, há verdade, há observação, há de um
tudo na música de Gil. E tudo colocado em termos tão fáceis de se entender, tornando a sua comunicação
nada complicada. É por isso que está chegando à massa, que está conseguindo ser entendido pelo povo,
nas suas várias camadas. Quando diz que ‘olha lá, vai passando a procissão/ como cobra pelo chão’, ou
explica que ‘as mulheres tiram os versos, os homens o chapéu’, parece juntar-se com os que
acompanham o ritual, misturado a gente de todo o tipo. Tem-se dito que Gil é mais melodista do que
letrista, mas estão aí ‘Procissão’, ‘Ensaio geral’, ‘Lunik 9’ etc., para provar o contrário: o baiano é bom nos
dois campos. O LP dá uma visão bem nítida da obra de Gil, proporcionando motivos para observações
quanto ao seu poder de criar, de transmitir e de informar através de muitos ritmos, como sejam: o baião, o
samba, a marcha, o rancho e até o da canção lenta, gêneros todos enraizados nas origens de nossa
música, portanto livres de outras correntes. (...) Cabe apenas recomendar um disco muito significativo,
mesmo que não bata recordes de vendagem. Trata-se de um documento, estejam certos, que servirá para
consulta num futuro bem próximo, quando Gil estiver num plano maior dentro do panorama da música
popular. Eu digo mais, é um LP de primeira qualidade.”
RECUSO + ACEITO = RECEITO
Quando estava exilado em Londres, no começo dos anos 1970, expulso pela ditadura, Gil
recebeu a notícia de que havia sido premiado pelo Museu da Imagem e do Som, no Rio de
Janeiro. Com uma carta escrita de Londres e publicada no jornal brasileiro O Pasquim, em 25
de agosto de 1970, Gil recusou o prêmio Golfinho de Ouro, que havia sido concedido em
homenagem a sua música “Aquele abraço”. Com o título acima e o texto do Pasquim abaixo,
Gil explica a célebre recusa ao prêmio:
“No papo eu me safo. Minto, reminto, remato, mato, morro, me entrego, me tomo todo e a bola sempre
acaba no fundo das redes. Marco meu gol. Como Garrincha, sem saber como, guiado pelo fôlego, pelo
sopro, pela grandeza escondida da inteligência pobre, magra, marginal — de um universo paralelo ao da
cultura. No papo eu me safo. A fada é a fala. É como se não fosse minha. É santo baixado, xaxado. A gente
tira de letra, de cor e salteado. Escrever é diferente. A caneta na mão me dá outro babado.
Responsabilidade. É como o fim de um circuito cuidadosamente montado, sofisticado, resultante de uma
consciência poderosa, central de energia que guia as ideias para que elas se escrevam, sejam inscritas,
registrem, invistam, capitalizem, reinem, escravizem, imperem. Escrever pra mim é como submeter minha
cuca a uma disciplina militar. Eu detesto isso, é sem swing, o fim da picada. Detesto. Pois, um golfinho de
mares cariocas resolve tirar o meu sossego ajudado pela ingenuidade ou pela burrice de meia dúzia de
pessoas que de repente resolvem achar importante o fato de eu aceitar ou não um prêmio que me deram.
A velha mania brasileira de se meter nos problemas domésticos do vizinho. Mesmo se ele mora na
Inglaterra.
Para mim, a esta altura, aceitar ou não prêmios ao trabalho que fiz no Brasil já não tem a menor
importância. Agora eu estou on the road. Sábado passado no Festival Hall, amanhã, depois e sempre em
outros lugares — I’m wasted but I can’t find my way home. Repito que recusar ou aceitar não tem a menor
importância e eu resolvi recusar para ver se vocês estão mesmo a fim de entender alguma coisa.
Pois é. Porque não acredito como pensam meu pai & amigos do Brasil que o golfinho me tenha sido
concedido por aqueles que reconhecem meu trabalho, que realmente gostam de mim e não pelos que me
menosprezam e ignoram. Ingenuidade. Embora muita gente possa mesmo respeitar o que fiz no Brasil
(talvez até mesmo gente do museu), acho muito difícil que esse museu venha premiar a quem, claramente,
sempre esteve contra a paternalizacão cultural asfixiante, moralista, estúpida e reacionária que ele faz com
relação à música brasileira. Sempre estive contra toda forma de fascismo cultural de que o museu — à sua
maneira — vem representando uma parcela do Brasil. Se, quando eu estava aí, eu nunca perdi tempo
atacando diretamente organizações como o Museu da Imagem e do Som é porque o meu trabalho já fazia
isso; minha música já assumia essa responsabilidade. E se eu continuasse aí não sei o que estaria fazendo,
mas de qualquer forma tenho certeza de que não estaria sendo premiadão. Claro que eu não acredito
nesse prêmio. Pelo que me é dado saber o museu continua o mesmo e, portanto, eu continuo contra e
recusar o prêmio é só pra deixar isso bem claro. Se ele pensa que com ‘Aquele abraço’ eu estava
querendo pedir perdão pelo que fizera antes, se enganou. E eu não tenho dúvida de que o museu
realmente pensa que ‘Aquele abraço’ é samba de penitência pelos pecados cometidos contra a ‘sagrada
música brasileira’. Os pronunciamentos de alguns de seus membros e as cartas que recebi demonstram
isso claramente. O museu continua sendo o mesmo de janeiro, fevereiro e março: tutor do folclore de verão
carioca. Eu não tenho porque não recusar o prêmio dado para um samba que eles supõem ter sido feito
zelando pela ‘pureza’ da música popular brasileira. Eu não tenho nada com essa pureza. Tenho três LPs
gravados aí no Brasil que demonstram isso. E que fique claro para os que cortaram minha onda e minha
barba que ‘Aquele abraço’ não significa que eu tenha me ‘regenerado’, que eu tenha me tornado ‘bom
crioulo puxador de samba’ como eles querem que sejam todos os negros que realmente ‘sabem qual é seu
lugar’. Eu não sei qual é o meu e não estou em lugar nenhum; não estou mais servindo a mesa dos
senhores brancos e nem estou mais triste na senzala em que eles estão transformando o Brasil. Por isso
talvez Deus tenha me tirado de lá e me colocado numa rua fria e vazia onde pelo menos eu possa cantar
como o passarinho. As aves daqui não gorjeiam como as de lá, mas ainda gorjeiam.
O que meu pai precisa saber é que o museu sempre esteve contra o meu gorjeio, que sempre achou
desnaturado, desarmonioso, inautêntico e incômodo; sempre esteve contra tudo que na música, no disco,
e na TV, tenha tido um sentido de abertura compatível com a liberdade criativa de um povo novo e fogoso
como o brasileiro. Pelo que sei as aristocráticas e puritanas prateleiras do museu não guardaram até hoje
um só programa do Chacrinha, o mais lindo que alguém jamais pôde encontrar em qualquer televisão do
mundo.
Pra mim o museu e o nazifascismo comem no mesmo prato, e, exatamente por não compreenderem isso,
meu pai e meus ingênuos amigos acabam comendo também desta suculenta e colorida pasta de miséria
tropical, sal, mal, mel, fel & fé (a geleia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia — e O Pasquim
também?).
Acho que só a falta de fé vai nos salvar a todos. E o preço da salvação vai ser bem alto & muitos vão morrer
sem ver o dia & eu nunca mais talvez veja Narinha e Marília e as marinaravilhas da Bahia & o rapaz que eles
mataram ontem foi meu colega no colégio dos irmãos maristas, que eram quase todos espanhóis e a favor
de Franco & por isso é que o demônio está vencendo & por isso eu sei que os anjos descerão dos céus
pra nos ajudar a encontrar, entre as ruínas, a cidade dos homens.
Na verdade nem sei por que estou estendendo este papo. Eu, o museu e o Brasil somos uma coisa só: o
nazismo oficial, a esquerda policial, o fascinismo de Nelson Rodrigues, o amor obsessivo e impertinente de
meu pai, a imbecilidade de um velho que pensa me ameaçar me chamando de moleque (quisera eu ser
realmente um moleque!), o sentimentalismo barato de um povo de bom coração que insiste para que eu
receba um prêmio sem ter em mente que os que me premiam querem premiar a minha capitulação e não a
minha vitória. Por isso nos confunde e nos reúne a todos, a mim e ao museu. Por isso eu bem que poderia
aceitar o tal golfinho. Mas eu estou longe, sozinho e não quero saber de nada. Por favor, entendam, é fácil,
é primário.
Mesmo de longe eu posso compreender tudo. Mesmo na Inglaterra a embaixada brasileira me declara
persona non grata para as agências de notícias. Nenhum prêmio vai fazer desaparecer essa situação. Vocês
que me amam e me respeitam sabem que eu não os estou confundindo com o inimigo; vocês sabem
quem são meus inimigos. Agora os campos estão bem-definidos e quem não está comigo está contra mim.
E os que estão comigo estão comigo há muito tempo, desde que perceberam o meu amor por eles; não
agora, depois de eu ter que declarar o meu amor por eles; não agora, depois de eu ter que declarar o meu
amor em prantos, do meio da rua, já posto pra fora de casa, num samba que apenas quer dizer a mesma
coisa que a balada ‘alienada’ da Martinha: eu te amo mesmo assim.
Eu devia ter aberto a cabeça de vocês a machadadas para que vocês entendessem o que eu estava
dizendo. Talvez seja o que estou tentando fazer agora. Se a machadada tem que ser dada, a marcha será
dada. Não foi por bem, vai por mal. Aguentem o tombo e por favor sosseguem e entendam. E não me
deem mais prêmio nenhum. Vou cuidar de aprender as coisas que elas estão no mundo — coisas do
mundo, minha nega — e Paulinho da Viola que é bom sambista já nos avisou, há mais de dois anos, num
samba:
RECUSO + ACEITO = RECEITO
Receito uma dose de formicida tatu para esse assunto. Não há nenhum herói nem nenhum gênio para ser
condecorado; não há nada para ser premiado. Somos todos muito pobres e eu já estou longe, muito
longe, vendendo minha miséria pra comer.
Meu pai, fique tranquilo. O que eu fizer está bem-feito. Mas está feito e de qualquer jeito eu vou ter de
aguentar. E se eu não aguentar DEUS é maior do que tudo e a nossa fé vai nos salvar...
PS: Com a publicação desta carta, o prêmio está implicitamente recusado. Que o golfinho volte para as
águas tranquilas da sua insignificância.”
“Vejo religião como cultura”
Minha ideologia é o nascer de cada dia
E minha religião é a luz na escuridão
(“MINHA IDEOLOGIA, MINHA RELIGIÃO”)
A primeira vez que Gil entrou num terreiro de candomblé foi depois que voltou de seu
exílio em Londres. Até ele sair de Salvador, na década de 1960, e mudar-se para São Paulo, o
candomblé era marginalizado e as poucas casas com as obrigatórias bandeiras brancas no
telhado indicavam que ali tinha um terreiro de candomblé, que era ainda uma atividade
proibida. “A Igreja Católica exigia do Estado que fiscalizasse. Tinha que ter autorização da
polícia para bater o candomblé. Isso só desapareceu em 1972.”
Gil tinha uma curiosidade remota, olhava de longe porque aquilo era escondido e mesmo
marginal.
“Eram basicamente famílias pobres, negras, algumas famílias de classe média, poucas casas de
candomblé, discretamente, a maioria delas na periferia da cidade, nos subúrbios, embora os mais pobres
frequentassem também a igreja, no sincretismo religioso da Bahia. Senhor do Bonfim e Oxalá.”
Em Ituaçu, no interior, onde Gil passou a infância, não havia candomblé, pelo menos que
ele tivesse ouvido falar. Aí, ele foi para Salvador, para um bairro e um colégio católicos, num
círculo de relações ligados a religiões confessionais.
“O candomblé estava à margem. Eu sabia que estava ali, mas não fazia ainda associação entre o
candomblé e o Carnaval, não sabia ainda que os Filhos de Gandhy tinham sido formados por gente como
estivadores das docas de Salvador, todos eles egressos das comunidades afro-brasileiras ligadas ao
candomblé nas periferias de Salvador.”
Segundo Gil, Caetano e Bethânia tinham um pouco mais de aproximação com o candomblé
por causa de Santo Amaro, que era uma cidade do Recôncavo, uma cidade de negros, de ex-
escravos, uma cidade no centro da cultura da cana-de-açúcar onde a presença negra era
grande.
“Era um interior diferente do meu. O meu era o interior da caatinga, da cultura do couro, do gado, do
boiadeiro e a deles era a cultura do Recôncavo Baiano, a cultura do dendê, que eu só vou acessar depois,
nos primeiros anos em Salvador, através da culinária, das festas. Mas o lado secreto, digamos assim,
religioso, profundo só vou ter acesso depois do exílio em Londres.”
Mas mesmo em Santo Amaro, apesar do convívio com isso, eles pertenciam à classe
média católica, cujo mundo ritualístico estava todo associado às igrejas, às festas religiosas, à
Nossa Senhora. Era um universo fronteiriço.
“É interessante conversar com Caetano e com Bethânia a respeito para saber como que era lá em Santo
Amaro o convívio com os orixás. Era uma cultura à distância, não era propriamente religiosa, isso com
certeza. Bethânia só vai entrar no candomblé pelas mãos de Mãe Menininha, muito tempo depois, e Gal a
mesma coisa. A gente vai depois, é pelo interesse, pela aproximação com o mundo descrito nos livros de
Jorge Amado. É um interesse que vem com a vida universitária, com o conhecimento, com o interesse pela
sociologia, pela antropologia.”
Gil foi educado na religião católica, estudou em colégio de padres maristas, foi filho de
Maria na Congregação Mariana e seguiu as procissões nos dias santos quando era garoto. Sua
mãe, Claudina, adorava cantar os hinos religiosos na igreja. Gil ia à missa aos domingos e
fazia as orações diárias no início e no final de todas as aulas do colégio. Levava a sério, com
um certo distanciamento, porque nunca se tornou propriamente um carola.
“Estava sempre de olho nas coisas do mundo, nas coisas da vida pagã, queria música, diversão,
entretenimento, festa, salsa, rumba. Que missa que nada, missa aos domingos tudo bem! Era uma coisa
natural pela proximidade com as igrejas de Salvador no bairro onde eu morava, perto do centro histórico,
do Pelourinho com todas as suas igrejas, o Convento do Carmo, onde começou a cidade, a igreja do
Santo Antônio onde tinha a festa do Espírito Santo. Eu tinha muita aproximação com a igreja por causa
disso, e as procissões todas, procissão e festa da Páscoa, a Sexta-Feira da Paixão, o Domingo de Ramos,
tudo aquilo era uma festa enorme no bairro de Santo Antônio. Eu ouso dizer que a centralidade cultural de
Salvador estava ali, na praça da Sé, no largo do Terreiro, no Pelourinho, no Santo Antônio e largo do Santo
Antônio. Era aquele corredor que vinha do largo, da Praça Municipal, onde estava o centro cívico e político
da cidade, passando pela Ladeira do Carmo, Convento do Carmo, rua Direita do Santo Antônio. A vida
pulsava, ali era tudo, o Natal, a Semana Santa, o São João, o Carnaval. Ali é o bairro onde nasceram os
Filhos de Gandhy, onde nasceram os grandes blocos carnavalescos que vão dar nos blocos de abadá, dos
trios elétricos. Era central, a centralidade absoluta.”
Hoje Gil se diz “um espírito sambista”. Quando fala de religião, está falando de fé e não
dogma, “nada que exija uma pessoa de Deus, uma personificação da divindade”.
Gil não pratica nenhum ritual, nem mesmo para entrar no palco.
“Nada, nada, e como muitos dos meninos de hoje, os evangélicos, mesmo nos campos de futebol eles
oram, agradecem a Deus quando fazem um gol, olham para os céus e agradecem a Deus. Eu não tenho
nada dessas coisas, não. Meu Deus sempre foi um Deus que não precisava estabelecer uma confissão
específica, criar uma religião, então meu Deus era um Deus sem religião, um Deus desconhecido e muito
interno.”
“Há um caminho que no fundo veio adotado de todas as religiões, vou pegando os aspectos, digamos,
mais poéticos, mas interessantes esteticamente. Vejo religião como cultura, como estética, que é por onde
eu sempre caminhei na minha relação com a divindade. Sempre tive um interesse muito eclético, das
relações comparativas entre o que quer uma religião e o que outra quer, os efeitos que elas causaram nas
pessoas, nos indivíduos ao longo das histórias dessas religiões. Sempre também com o auxílio profundo da
filosofia, que é a maneira leiga, digamos assim, a maneira laica de ver a religião, de interpretar. Eu sempre
caminhei com as duas coisas. Sempre me atraiu nas religiões os seus aspectos mais filosóficos, aquilo em
que elas se aproximavam mais do homem, da maneira do homem ler o mistério, porque com Deus o
mistério está entregue. Basta eu ter o nome de Deus e eu tenho o mistério. Na filosofia é a própria questão
de um mais um, dois; dois mais dois, quatro. É a matemática do mistério, é a decupação matemática do
mistério que vai sendo feita por uma peça que se encaixa na outra. A leitura filosófica é mais humanista
nesse sentido. Eu sempre procurei o recurso das duas. Por isso eu fiquei sem propriamente um Deus...”
Back in Bahia
Um mês e meio depois da volta do exílio em Londres, Gil falou ao jornal Bondinho, em meio
às muitas viagens que fez pelo Brasil. A reportagem foi feita pelo jornalista Hamilton de
Almeida Filho, em 2 de março de 1972. Nessa edição especial da revista, saiu um compacto
duplo de Gil com “O sonho acabou”, “Oriente”, “Felicidade vem depois” e “Expresso 2222”
(todas dele). A seguir, alguns trechos desvairados e reveladores:
“Gil, agora back in Bahia, abriu seu baú de prata: mergulhe nele, bicho!
(instruções aqui)
Um mês e meio depois de chegar, Gil chegou mesmo e começou a abrir ‘o velho baú de prata dentro de
mim’ — seu som. No Teatro do Parque, no Recife, ele começou uma maratona de sessenta dias que
incluiu dezenas de shows, viagens por quase todas as capitais e um disco gravado. Para subir com seu
som no palco, Gil passou por cinco mil quilômetros de Nordeste, no Volks bordô de Capinan, assistiu ao
Carnaval baiano e ensaiou dez dias com Tutty, Perna, Brussi (sic) (o baixista Bruce Henry) e Lanny, e na
casa do regente do Teatro Castro Alves em Salvador. E, principalmente, cantou sua própria volta, depois da
viagem pelo interior da Bahia e Pernambuco, num rock, ‘Back in Bahia’: ‘Lá em Londres, vez em quando,
me sentia longe daqui.’ (...)
No ritmo quente e acelerado do rock dom fim dos anos 1950, início dos anos 1960, Gil dá de novo, a seu
jeito e dengo, um outro ‘Aquele abraço’. E ri seu riso de corpo inteiro quando fala sobre isso ou mesmo
ouve falar. Mesmo no Carnaval, em Salvador, Gil conseguiu se preservar, trabalhar e observar — enquanto,
quando o assunto não era Carnaval, em todas as rodas ligadas de Salvador, era certamente um toque
sobre Gil: ‘Você ouviu o rock de Gil?’ ‘É da pesada!’
É, o rock de Gil é da pesada. Gil é da pesada, meio iluminado, assim como um louco manso que descobriu
o real.
‘É, meu irmão, o quié que eu vou fazer? Sambão? Com essas coisas todas por aí? Capinan te falou da
viagem, num foi? Pois é, meu irmão, hanhanhan!’
E Capinan não só falou da viagem, dos cinco mil quilômetros rodados, do gravador dado pela Philips que
funcionou mal, das muitas caixas de fitas gravadas, do comportamento seu e de Gil, das brincadeiras,
como falou também dos cirandeiros, dos cantadores, dos repentistas e das bandas de pífaros de Caruaru.
Falou também com os olhos acesos que nem faróis, um rosto de tranquila felicidade, dando a dimensão do
prazer causado pela viagem toda. Nas fitas, Capi traz as músicas do real e do popular como conceito
verdadeiro, se prestando com prazer ao papel de preservar e divulgar o visto e ouvido — sem qualquer
necessidade pessoal senão a satisfação de fazer assim. Gil pensa até em gravar com uma banda de pífaros
de Caruaru pra colocar na faixa de abertura de seu LP. Trabalho sério, falado com os artistas da banda, os
donos do som, pra mostrar o que ninguém vê.
‘ÉHHHHH! Meu irmão! A barra do dia vem/ o galo cocó-rocó.’ Gil sempre brincalhão não brincou o
Carnaval baiano, foi ver, sentir a barra, chorar na rua e voltar pra casa com Sandra. Faz mais de dez, 11
anos que Gil não brinca Carnaval porque sempre fica triste. São as transas que ele vê na gente na rua, a
barra do comportamento não reprimido só naquela hora, o jogo sensual e a transa de sexo que domina
todas as manifestações, tudo envolvido com a magia da música. Barra muito pesada, de deixar triste e
lembrando do último Carnaval, no interior, quando rompeu o namoro com uma namoradinha de fé no
primeiro baile de Carnaval e mandou brasa o Carnaval inteiro pra esquecer.
No colorido de seu som, seu Carnaval agora no palco dos teatros ligando as pessoas. Já no primeiro
ensaio, mesmo sem Lanny, só com Perna no piano, Brussi no baixo e Tutty na bateria, Gil mostrou sua
disposição. Seu show não tem roteiro estabelecido e rígido como o de Caetano. Vai ter muitas músicas
ensaiadas e liberdade pra se ligar na que pintar na hora. Um jeito de ser ‘free’, de deixar reagir e reagir ao
colorido de seu próprio som. Na sua banda tem um lugar ainda pra Hermeto Pascoal e seus instrumentos
mágicos, mas fica reservado pra gravação do LP, em São Paulo, no fim de março.”
O canto do cisne do Tropicalismo?
Em 1976, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Gal Costa e Caetano Veloso, em comemoração aos
dez anos de carreiras individuais de sucesso, formaram o grupo musical Doces Bárbaros, que
se apresentaria nas principais cidades brasileiras. Até aí, nenhuma novidade. Mas não fosse
pelo registro em filme da preparação e início da turnê do grupo e de seus desdobramentos
talvez não se pudesse debater hoje o que representou aquilo que o crítico, ensaísta e músico
José Miguel Wisnik considera na história da MPB “um dos momentos esplendorosos de alguns
dos mais importantes artistas do Brasil no século XX”.
Jom Tob Azulay, diretor do filme Os Doces Bárbaros , realizado em 1976 e lançado em
1978, acha que o movimento tropicalista, que para muitos se restringiu ao final da década de
1960, na verdade, estava presente na formação dos Doces Bárbaros e “parece que se insere
num movimento amplo de libertação e emancipação próprio do século XX, que se estende
pela chamada revolução dos anos 1970”. Azulay se pergunta:
“Nesse sentido, teria os Doces Bárbaros características de um fruto desse movimento (tropicalista) ou
constituiria ele próprio uma manifestação amadurecida que sintetizou a ampla gama de propostas de
grande diversidade que o Tropicalismo lançou?”
O filme mostra o processo criativo dos artistas através de bem-humorados ensaios e das
apresentações do show, antes e depois de ser interrompido pelo incidente de Florianópolis
com a prisão de Gil e do baterista Chiquinho Azevedo por porte de maconha. Mostra a ação
da Justiça e da polícia em funcionamento por meio de entrevistas e registros realizados na
delegacia e no tribunal, e os acontecimentos noticiados com destaque pela imprensa da época
envolvendo o caso. E ainda o relacionamento dos fãs com seus ídolos em filmagens realizadas
na intimidade dos camarins e a atitude agressiva da imprensa nas entrevistas com os quatro.
“Interpretei os Doces Bárbaros como o canto do cisne do Tropicalismo. Naquela época não assumíamos
isso porque havia muita censura. Em 1976, a Tropicália não era vista com bons olhos pelo regime. Vivíamos
num ambiente extremamente defensivo. Agíamos defensivamente. A prisão do Gil reacendeu essa questão
da repressão aos artistas. Foi tudo muito surrealista na prisão de Gil”, revela Azulay.
Azulay havia aprendido novas técnicas cinematográficas nos EUA, onde estudara, e voltou
conhecedor da técnica do cinema direto. “As câmeras portáveis em 16mm permitiram uma
revolução na linguagem cinematográfica, sobretudo para documentários. Revolucionaram
documentários musicais, como Woodstock e Corações e mentes.” Quando soube que os quatro
baianos iam formar um grupo para fazer uma turnê, Azulay foi à Phonogram (Phillips) propor
que gravassem o ensaio geral, dali a poucos dias, no Canecão.
“Eles toparam. Fui para o Canecão e eu próprio fiz a câmera. Guilherme Araújo percebeu e pediu para
procurá-lo porque aquele trabalho era importante. Guilherme abriu o caminho e foi quase coautor. Ele e
Lea Millon. E decidi botar Caetano como narrador.”
Azulay se lembra de perguntas “incríveis” de alguns repórteres nas entrevistas no filme,
como o dia em que perguntaram: “O trabalho de vocês parece ser o contrário dos Beatles, eles
começaram juntos e acabaram separando. Vocês começaram separados e acabaram se
juntando — tem relação?” Ou outra: “Ah, isso já vem com um esquema comercial montado”.
Ao que Caetano respondeu: “Claro, eu não conheço ninguém que faça diferente”. Ou então:
“Você concorda que tem música feita para tocar no rádio?” E Gil: “Eu faço todas pra tocar no
rádio”.
“A carência de recursos era muito grande e aquilo era tudo improvisado, coreografia e tudo o mais. Eles
dividiam quarto de hotel. Cada um inventava seu figurino. Eram como uns demônios pulando de um lado
para outro.”
O lançamento do filme não foi simples.
“Não havia tecnologia no Brasil para finalizar o filme como eu queria. Foi um processo louco para
convencer a Polygram a levar o filme para Los Angeles para fazer a finalização do som e da imagem,
ampliar para 35mm. Passei seis meses tentando convencer o Banco Central a me autorizar a ir sem pagar
imposto. Eles achavam que eu ia trazer outro filme de lá e não apenas beneficiá-lo. Ia levar 16mm e trazer
35mm. Foi quando um sujeito lá de dentro, fumando cachimbo, disse: ‘O que ele está querendo dizer é
que o filme vai baiano e volta baiano’. Aí deixaram.”
“Fiz tudo lá. Finalização da montagem e o som todo. Uma epopeia. Levei o som num tipo de fita que não
existia mais lá. Fui num ferro-velho de Hollywood pegar uma moviola do tempo da Metro-Goldwyn-Mayer,
nos anos 1950. Só consegui mixar num estúdio que fazia filmes em língua espanhola. Fiquei quase três
meses. Encontrei com Gil na casa do Sergio Mendes. Perguntei: ‘O que o pessoal acha?’ E ele: ‘Ih, o
pessoal já esqueceu isso’. Voltei com o filme pronto. Em 1978 começaram as pré-estreias. O som dos
cinemas era horrível. Mas teve sessões memoráveis, como a do Cinema Íris, lotada de fãs de Bethânia. Em
todas as matérias da época só uma falava em Tropicalismo.” Azulay conclui: “Há quem diga que Doces
Bárbaros é o momento mais alto da carreira dos quatro. Ali houve uma coisa mágica, muito poderosa. Foi
um fenômeno impressionante. Vi o brilho nos olhos de cada um”.
No filme Caetano diz que o principal valor do Tropicalismo foi tirar “nossa cultura do
provincianismo”.
Segundo Wisnik afirmou ao jornal O Globo em 2008, é possível reconhecer em Os Doces
Bárbaros questões que foram lançadas pelos tropicalistas,
“como a instauração de um espírito paródico, o mergulho da chamada MPB na ambiência do pop-rock, e
um experimentalismo que não estava tão presente no filme, mas que o DVD resgata através do extras —
‘Tarasca guidon’, de Waly Salomão, e ‘Eu e ela estávamos ali encostadas na parede’, música feita sobre
um trecho de PanAmérica, de José Agripino de Paula.”
“As imagens de Os Doces Bárbaros podem parecer datadas para quem olha sem ver. Tudo é puro anos
1970 nos sinais de época, nos trajes, nos situações em volta. Poucas vezes vi imagens tão atuais, no
sentido pleno da palavra atual, como as que fazem o coração do filme: os quatro doces bárbaros estão ali
presentes na vida como só milagrosamente é possível a um mortal.”
Wisnik acredita que a prisão de Gilberto Gil alterou o rumo e a dimensão da turnê
nacional, mas também “desse projeto político, fazendo-o reviver, de certa forma, a prisão de
1968, mas de maneira mais explícita no front que o próprio Tropicalismo instaurou: o da
experiência existencial, da contracultura, da vertente mais antropológica do que sociológica
da política”. Jorge Mautner complementa: “Caetano e Gil, o mulato e o negro geniais que
encarnavam o Tropicalismo, eram realmente os maiores perigos para a ditadura militar, os
verdadeiros subversivos”.
Em 2004, foi lançada uma versão digital do documentário sem os cortes impostos em
1978. Em 1981, Azulay fez o documentário Corações a mil, lançado em 1983, com Gil
totalmente superstar numa de suas maiores turnês pelo Brasil. Foram sessenta shows por trinta
cidades brasileiras. Começou em Porto Alegre e terminou em Belém. Azulay filmou imagens
do show em Salvador, São Luís, Belém, Bauru, Rio de Janeiro, entre outras cidades.
“Em Corações a mil tínhamos dois atores com experiência em improvisação que eram Regina Casé e Joel
Barcelos. Acho que o documentário foi fruto da nossa paixão por Regina Casé. Resolvemos fazer um filme
que girasse em torno dela também.”
Gil fez a ONU requebrar
Em, 2003, Gilberto Gil fez um show a convite do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan,
em plena Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Mais do que isso, botou o
secretário da ONU para tocar.
Em artigo escrito dois anos depois para o jornal alemão Die Zeit, publicado em 28 de julho de 2005, Gil comenta:
“Ter cantado nas Nações Unidas, juntamente com Kofi Annan, foi um ato espontâneo. Simplesmente
porque a oportunidade se ofereceu. Estava num lugar muito sério. E ali me foi permitido fazer música por
uma, duas horas. Uma oportunidade de misturar as esferas. Citei então, como exemplo, o poeta brasileiro
Vinicius de Moraes. Um poeta que era ao mesmo tempo diplomata e escreveu algumas das mais
conhecidas canções do Brasil”.
Quem bem conta a história é Luis Turiba, o então chefe da assessoria de comunicação
social do MinC, jornalista e poeta que acompanhava Gil. Na época escreveu, no portal do
ministério, sob o título de “Um furacão na ONU”, um emocionado e detalhado relato sobre o
que aconteceu em 19 de setembro de 2003 no Hall da Assembleia Geral:
“(...) Na realidade, o ministro da Cultura deu seu recado pacifista ao planeta de maneira bem brasileira, ou
seja: através da música. Gil transformou o austero e sóbrio plenário da ONU, onde maiores e mais
dramáticas decisões da política mundial são tomadas, em uma espécie de praça Castro Alves, durante o
Carnaval baiano. Começou devagarzinho, como quem não quer nada, cantando ‘Filhos de Gandhi’,
merecida homenagem ao pacifista indiano. Depois, ‘Aquarela do Brasil’, ‘No Woman No Cry’ e duas
músicas marcantes dos anos 1970: ‘Imagine’, de Lennon; e ‘Let It Be’, dos Beatles.
Ao todo, Gil cantou 16 músicas em quarto línguas — português, inglês, francês e espanhol — deu sete
recados pacifistas, também em diferentes línguas; e leu um lindo poema para Muhammad Ali (o ex-
campeão de boxe Cassius Clay), com quem trocou carícias verbais durante um almoço ontem, lembrando
o legendário e zen discurso de Ali ‘Me, We’.
No final, na sala ultrarreservada do secretário-geral da ONU transformada em camarim improvisado, a
mulher do embaixador brasileiro Ronaldo Sardenberg, a jornalista Célia Sardenberg, fez o comentário
síntese da noite: ‘Valeu por mais de um ano de negociações’. O russo Serguei Vastolovk, que trabalha na
assessoria de imprensa da ONU, era um dos mais empolgados pela performance dos ministro brasileiro:
‘Magia, pura magia. A política externa tem que ter magia. Gil é mago’, gritava, comemorando o fato inédito
na história da ONU.
(...) O ministro brasileiro almoçou, a convite de Annan, com um seleto grupo conhecido como os
Embaixadores da Paz, entre os quais o ator Michael Douglas, o prêmio Nobel Elie Wiesel e o ex-pugilista
Muhammad Ali. Na sobremesa, Kofi Annan perguntou a Gil sobre quantos músicos iriam lhe acompanhar
no concerto. Gil disse: ‘Dois, um guitarrista e um percursionista’, e perguntou ao secretário-geral: ‘Você
toca?’ ‘Alguma coisa de percussão’, respondeu Annan. Gil guardou o segredo.
Antes de iniciar o concerto, foi Kofi A. Annan quem fez uma brilhante apresentação do ministro da Cultura
do Brasil, destacando a música como uma ferramenta a favor da Paz. Ao entrar no palco e abraçar o
secretário-geral, o ministro lhe deu o xeque-mate: ‘Vou lhe convidar para tocar comigo uma música’. Foi a
vez de Annan calar-se. Mas não sem antes fazer um elogio: ‘Your hair is beautiful’. Antes de a nova parceria
materializar-se para espanto da mídia mundial (o New York Times publicou material sobre o assunto),
Gilberto Gil leu, em inglês, a mais forte de suas mensagens ao plenário da ONU:
‘Deixem a paz reinar sobre o céu tropical do Brasil. Deixem a paz governar as Américas. Deixem a paz
dominar o planeta.
O Brasil espera que esta organização possa genuinamente continuar a reunir as Nações Unidas que é o
espaço de mútuo respeito, de tolerância, irmandade e solidariedade. Só isso justifica sua existência. Não faz
sentido pensar em segurança sem pensar em desenvolvimento. Não faz sentido pensar em segurança sem
pensar em justiça. Não faz sentido pensar em segurança sem pensar em respeito ao outro. Essas coisas
estão intrinsicamente relacionadas. Como disse o poeta Yeats: ‘Você não pode separar o dançarino da
dança’. Ou disse Ezra Pound: ‘A usura é um câncer no azul’. O que nós temos a dizer ao mundo hoje é
que o Brasil está limpo. O Brasil é claro. O Brasil é afiado. O Brasil é inteiro. O Brasil é todo pela Paz’.
E para encerrar, Gil gritou como se estivesse em casa: ‘E viva Luiz Gonzaga, o Rei do Baião’. E toda a ONU
dançou ao som de ‘Asa branca’.”
“Ê, volta do mundo, camará”
Menino de Salvador e Ituaçu, criado de frente para o mar e com um pé no sertão, o ministro da
Cultura Gilberto Gil fez a síntese da tradição cultural com a inovação tecnológica, que sempre
defendeu, ao discursar poeticamente na segunda cúpula mundial de representantes do Creative
Commons, o ISummit, em 2006, no Rio de Janeiro. Na reunião, os representantes do Creative
Commons — que criaram licenças alternativas em que autores de bens culturais abrem mão de
direitos totalmente abrangentes, optando por um registro que permite a utilização mais livre da
obra — discutiram temas como o desenvolvimento de ferramentas para auxiliar criadores,
autores, cientistas e pesquisadores a desenvolverem sua criatividade e inovação e estratégias
para garantir iniciativas de livre acesso através de políticas locais e internacionais.
No seu discurso, Gil falou dos desafios da indústria cultural global, mas também de
fenômenos culturais espontâneos, como a capoeira, que ganhou o mundo com sua própria
força. Falou da vontade de juntar conceitos que pareciam destinados a “ficarem eternamente
separados” e afirmou pensar a cultura “como uma obra aberta, como um software de código
aberto”. Diante de centenas de observadores internacionais, mencionou “a antropofagia
cultural constante” e, finalmente, a vocação do menino de Salvador de “umbigo atado ao
torrão natal e alma vagabunda de navegador”, que acredita que “somos iguais em nossas
imensas diferenças”.
Segue discurso na íntegra:
“Considere a contracapa do meu disco Parabolicamará, que traz a foto de minha filha Maria Gil levando na
cabeça uma parabólica de palha:
Antes o mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje o mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, mundo dá volta, câmara
Gravei esta música em 1991. Ela dava título ao disco que tem a contracapa que vocês estão vendo
projetada no telão. É a foto de minha filha Maria, carregando — com o jeito característico das mulheres
africanas e brasileiras — um cesto em forma de antena na cabeça. Naquela época ainda não era tão
comum se ouvir a palavra globalização. Chamei o disco de Parabolicamará, dando nome a alguns aspectos
de uma possível globalização que eu vislumbrava e que também até desejava de maneira ao mesmo tempo
alegre e trágica, como alguém que deseja firmemente tudo aquilo que lhe acontece. Parabolicamará une as
palavras parabólica, da antena onipresente hoje mesmo nos recantos mais pobres do Brasil, com camará, a
maneira que os jogadores de capoeira, a luta lúdica afro-abrasileira, escolheram para chamar seus
parceiros, camaradas, enquanto dançam e cantam.
O refrão ‘Ê, volta do mundo, camará’, eu sampleei também de um verso muito comum em qualquer roda
de capoeira. É uma maneira de cantar a vastidão do mundo, que também carrega a certeza de que o
mundo vai e volta, e que na próxima volta — na volta também coreografada pela dança-luta — quem hoje
perde pode se tornar o vencedor. Tudo muda, o tempo todo. E só quem sabe entender a mudança pode
conquistar a vitória, ou melhor, vitórias, sempre parciais. Quando estava compondo pensava também na
história da capoeira. Outro dia fui conhecer Macau. Há poucos anos, lá em Macau, havia um garoto
português que ensinava capoeira para garotos angolanos. O mundo certamente dá muitas voltas e se torna
cada vez mais complexo.
Dizem que a capoeira engravidou em Angola, mas foi nascer no Brasil. Ninguém sabe ao certo sua história.
Mas parece mesmo que é uma criação bem brasileira a partir de elementos africanos, como o samba. Hoje
brasileiros dão aulas de capoeira na África, em Portugal, e em muitos outros países. Seus alunos espalham
a arte pelo resto do mundo. É uma prática esportiva, artística e até mesmo espiritual que se torna
patrimônio da humanidade, assim como o judô, a esgrima ou o boxe tailandês. Procurem a capoeira na
internet. Eu consultei o Google: são 553 mil páginas de web. Poucas se comparadas com as 5 milhões e
800 mil que citam a palavra samba, ou as 6 milhões e 668 mil que falam de reggae, ou as 25 milhões de
jazz. Mas é um número que não para de crescer.
Não houve uma política cultural do Estado brasileiro ou da indústria cultural global para difundir a capoeira
pelo mundo. A coisa aconteceu sem apoio oficial, descentralizadamente. Como um vírus que se espalha
por todos os continentes. Fico muito interessado ao contemplar esse tipo de fenômenos. Nós, que
produzimos as políticas culturais para nossos governos e para as instituições internacionais, temos muito o
que aprender ao observá-los. Na minha visão devemos identificá-los, solidificá-los, enfim, fortalecer o que já
existe e é produzido com maior ou menor espontaneidade pelos povos em seus encontros e desencontros
criativos. Isso me parece mais eficiente do que tentar impor de cima para baixo formas de comportamento
que tentam dizer aos povos que eles devem ser, ou quem eles devem permanecer sendo. Esses
fenômenos de encontros culturais não programados mostram que muitas forças estão em ação na cultura
do planeta e que falar de uma simples homogeneização que acontece sempre da mesma maneira em
todos os cantos é talvez simplificar demais a realidade.
Ingenuidade minha? Sei muito bem do outro lado da moeda, das terríveis relações de poder que fazem
desaparecer originalidades culturais todos os dias e impõem padrões de consumo em escala planetária
visando apenas o lucro fácil. Mas quero encarar de frente o desafio que a indústria cultural global nos
propõe, tanto que até hoje também trabalhei dentro dessa indústria, tentando usar seu poder para meus
objetivos artísticos. Não sei se consegui criar o meu espaço dentro de suas leis. Mesmo assim continuo
cultivando esse estranho e provocador gosto de juntar conceitos que pareciam estar destinados a ficarem
eternamente separados. Como parabólica e camará. Gosto de ver o mundo ecoando como uma cabaça
de berimbau. Gosto de juntar diferenças.
Defendendo radicalmente essa visão de mundo, já fui vaiado muitas vezes. Quando era bem jovem, nos
anos 1960, e estava me tornando conhecido no Brasil, fui vaiado por uma plateia de estudantes
universitários por ter me apresentando acompanhado de um grupo de rock. Esses estudantes achavam
que as guitarras elétricas poderiam destruir a autêntica cultura brasileira. Mas sempre pensei cultura como
uma obra aberta, como um software de código aberto. As trocas com o que é dos outros, a antropofagia
cultural constante, fazem parte das vitalidades das culturas, e a possibilidades de trocas livres devem ser
preservadas contra qualquer tentativa de imposição. Talvez pense assim por ter vivido tanto tempo à beira
do mar. Tentarei explicar melhor tudo que já disse até agora. Peço desculpas se parecerei repetitivo:
Beira do mar
Lugar comum
Começo do caminhar
Pra beira de outro lugar.
Entre as várias classificações que se pode fazer do ser humano, uma há que me parece conduzir a duas
perspectivas bastante distintas, ainda que complementares, sobre a nossa situação no planeta: o ser
litorâneo e o do interior. Sou do litoral. Apesar de ter passado parte da infância no interior, cresci com o
ethos do litoral. Mais especificamente, da cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, Brasil. Essa
categoria a que pertenço tende a formar sua noção de pertencimento ao mundo com os olhos perdidos no
horizonte. Sentado à beira da praia, olhando o mar, este cinema transcendental a que se refere Caetano
Veloso, ainda pequeno viajei por todos os oceanos, ancorei em todos os portos, o bumbum firmemente
posto no meu lugar, a alma perambulando por algum lugar nenhum. O continental tende a olhar com
desconfiança para este ser, que lhe parece frívolo e sonhador, pois é uma criatura mais sólida, com raízes
profundas plantadas em seu território, noção clara de limites e caminhos.
Habitante do porto, do vaivém das ondas e das ideias, cresci brasileiro, afirmação carregada de sentidos
ambíguos e misteriosos. Em busca de certezas, voltei-me para os irmãos do interior, paulistas e paulistanos,
mineiros das gerais, amazônidas, sertanejos. Como artista, me comovi com este a que chamei de meu
povo e cantei suas agruras. Com meu espírito inquieto de litorâneo, no entanto, não resisti à tentação da
mistura e embaralhei a sina de uns com a condição de outros, masquei chiclete com banana e, em
Bonsucesso, bairro pobre do Rio de Janeiro, outra cidade portuária brasileira, peguei o trem expresso que
me tirou do subúrbio pobre brasileiro para o mundo, me lançando para depois do ano 2000.
Começou a circular o expresso 2222
Que parte direto de Bonsucesso pra depois
Começou a circular o expresso 2222 da Central do Brasil
Que parte direto de Bonsucesso pra depois do ano 2000.
Como já disse, ao tocar os ritmos do interior brasileiro com a guitarra elétrica dos Beatles e dos Rolling
Stones, choquei os espíritos continentais do meu país. Logo, era considerado uma ameaça à segurança
nacional. A Tropicália foi a minha cria, meu destino e meu espaço de afirmação como brasileiro.
Hoje, quando muito se fala de globalização que não é exatamente a que eu cantava em ‘Parabolicamará’,
quando muito se teme a homogeneização que ela traria, quando guerras de novo são encetadas sob a
alegação de garantir a supremacia de determinados valores, considerados superiormente humanos, penso
nos meus ancestrais portugueses, que ‘da ocidental praia lusitana… foram dilatando a fé, o império, e as
terras viciosas d’África e d’Ásia andaram devastando’. E como na época disso se orgulhou o poeta
Camões. Penso nos meus ancestrais africanos, em homens e mulheres litorâneos, debruçados sobre o
Atlântico, que significava riquezas, comércio, desgraça, escravidão e saudade. E penso num dos resultados
disso tudo, o Brasil de hoje, com seu peculiar amálgama de tragédia e celebração da vida. A história, como
Deus, tem formas tortas e insuspeitas de ir escrevendo o seu texto.
Em algum momento, declarei não ter medo de não ser brasileiro. Somos o que somos, apesar de nós, por
nós e contra nós. Mas com outro poeta português de olhos também fixos no mar, sempre soube que não
sou um, sou muitos. Este que significativamente chamou-se Pessoa, se em um de seus vários eus sofreu a
nostalgia do império perdido, não foi por uma grandeza terrena, mas por uma outra inefável, que podia
habitar os campos da Antiga Grécia, expressar-se no idioma bretão, ou celebrar o pequeno rio de sua
aldeia. Tudo podia, desde que a alma não fosse pequena.
Quando a desconfiança da hegemonia do nacional se alastrou pelo mundo, eu como bom litorâneo já
estava preparado. E na minha condição de homem, reconheci minha metade mulher; na de heterossexual,
vislumbrei minha sensibilidade homo; na de negro, exaltei minh’alma de todas as cores, na de crente,
abracei o credo de todos os deuses. Como político, vi na ecologia a possibilidade de superar nossas
mesquinharias imediatistas e dar uma dimensão mais cósmica às nossas ações em sociedade. Hoje, como
ministro da Cultura do meu país, vejo no conceito de cultura a possibilidade de lidar com o ser humano
brasileiro em todas as suas dimensões, mergulhado num meio ambiente Brasil que é sempre já natureza e
cultura. Como artista e cidadão do mundo, vejo na cultura o espaço para o encontro de países, credos,
etnias, sexualidades e valores, na cacofonia de suas diferenças, no antagonismo de suas
incompatibilidades, na generosidade de um lugar comum, algo que nunca existiu, mas sempre foi sonhado
por aqueles que deixam seu olhar se perder no horizonte.
A vocação do menino de Salvador de Todos os Santos, umbigo atado ao torrão natal e alma vagabunda
de navegador, me acompanha por todos os portos em que hoje aporto, para falar na linguagem
internacional da música sobre um certo povo, que habita em algum lugar, e sobre esse lugar comum, onde
todos somos iguais em nossas imensas diferenças.”
Os novos tempos no Terceiro Milênio
Em outubro de 2012, Gil concedeu à autora uma entrevista para o jornal Clarín, de Buenos
Aires, fazendo um balanço sobre os novos tempos no Terceiro Milênio. Falou sobre o bem e
todo o mal que os novos instrumentos de conhecimento e comunicação podem nos trazer, a
perversidade do consumismo e mostrou-se surpreendentemente pessimista.
A seguir, alguns trechos dessa entrevista:
“O Brasil e a América do Sul vêm passando por mudanças residuais do milênio que acabou,
consequências ainda da exploração colonial espanhola e portuguesa, como a pauperização ao longo do
crescimento das populações locais, a dificuldade no estabelecimento de sistemas republicanos e
democráticos, a força profunda das elites dominantes, impondo suas oligarquias etc. Parte disso é
resultado também dos regimes de exceção que vivemos, das ditaduras apoiadas pela visão hegemônica
dos EUA em todo o hemisfério que vieram no final do século passado. A superação parcial e relativa de
tudo isso foi se dando através dos movimentos de libertação e independência, da restauração da
possibilidade republicana, dos Estados democráticos, com os congressos reabertos e fortalecidos. As
rebeliões que levaram o sistema a recuar, abrir mão e adotar uma dimensão republicana mais efetiva foram
informadas pela adoção de elementos do socialismo e do comunismo. O Brasil entra nisso e por ser um
país imenso, de dimensões continentais e economia forte, teve um papel de influência no processo de
retomada do sonho republicano e democrático. Essa é a cara básica desse começo de terceiro milênio:
vida política restaurada, partidos de ideário mais novo, agendas populares, anti-imperialismo, agenda Sul-
Sul, antidomínio do Norte, afirmação da nacionalidade. Por outro lado, vem o paradoxo trazido pela
globalização. Ou seja, o movimento de autodeterminação é também, de uma certa forma, inibido pela
globalização.”
“Os processos do fim do milênio passado correspondem a lutas anticoloniais, num tempo em que era
possível se falar em autodeterminação dos povos, fortalecimento da economia local, alinhamentos entre
países emergentes e parceiros. (...) (Antes) se podia sonhar com as autonomias, com as escolhas que os
países pudessem fazer. A globalização inibe isso fortemente porque estabelece uma unilateralidade que
anula as lateralidades próprias de um sistema onde se quer as autonomias nacionais com seus modos de
ser. Temos uma civilização global ditada pela força do mercado, que é o que está aí. (...) Todos esses
esforços de retomada de um republicanismo continental próprio, de uma democracia moldada pelas
próprias necessidades locais, tudo isso fica submetido a um novo processo de civilização que está aí,
ditado pelo industrialismo e o consumismo.”
“Ao mesmo tempo, há tentativas, como no Equador e na Venezuela, de estabelecer a dimensão local como
informadora do modo de pensar o desenvolvimento. Isso acontece, mas inibido por esse contra-ataque
permanente do sistema através da ideologia do consumo, do mercado hegemônico, do Estado pequeno.
É preciso um esforço muito grande para conseguir vencer tudo isso. E fazer emergir um processo
civilizatório autêntico, autônomo, com as características locais. Porque esse MacWorld varre tudo, é
demolidor.”
“A vida cultural do país é muito forte e se impõe como traço distintivo dessa massificação uniformizadora
que se tem no mundo inteiro. O país tem força, duzentos milhões de habitantes, um continente enorme,
uma diversidade cultural e étnica muito forte, então tem força para se impor com suas próprias
características e é uma das maiores forças da América do Sul. Isso dá uma certa expectativa de que seja
possível criar-se um modelo, um jeito brasileiro de tocar o processo civilizacional, de fazer escolhas.”
“Não sou muito otimista. Já fui mais, agora nem tanto.”
“(No ministério) assumimos investir nesse esforço de implantação de um método, um modo brasileiro de se
autorreconhecer, de se autoavaliar e de trabalhar a responsabilidade do Estado e da sociedade em relação
a fortalecer esse modelo. Colhemos alguns frutos, tivemos alguns resultados porque a expectativa no resto
do mundo está sempre a nosso favor. É o que se espera de nós. Nas próprias fontes geradoras desse
processo de uniformização, que são os EUA e um pouco a Europa, enfim, os países do primeiríssimo
mundo, existem as reações ao movimento de homogeneização do processo global. Essas correntes
aplaudem e recepcionam com muito interesse os esforços locais no sentido de uma contraposição a esse
sistema uniformizante, a esse capitalismo massificante, consumista, industrialista, cientificista. (...) Há um
desgaste brutal desse modelo globalizante e hegemonista. E há poucos sinais de que a sociedade vá dar
conta de se autocorrigir. Porque o modelo existente dita fortemente o modo de ser da economia e dos
costumes — o consumismo global é massificador, dissemina modos comportamentais, que vão se
cristalizando no mundo inteiro. Então fica a pergunta: como lutar por uma autenticidade, por um modelo
próprio desenvolvido a partir do desejo e das necessidades das populações locais? Isso fica inibido,
obliterado. Você quer caminhar no sentido de fazer do Brasil o Brasil, dos países sul-americanos eles
próprios, com suas características ameríndias. Mas na contramão disso vem a maré.”
“(Os novos meios digitais) influíram muitíssimo na cultura. A contradição reside aí muito profundamente.
São modos, tecnologias, aportes de poder novos, muito propícios a outras formas de empoderamento de
novos grupos. Tem, portanto, um processo horizontalizante no sentido da democratização, abertura,
autoafirmação e fortalecimento de pequenos grupos e indivíduos em especial. Esse novo mundo deu ao
indivíduo a sua autonomia enquanto gestor de meios e do seu próprio conhecimento, mas ao mesmo
tempo esses processos todos estão sendo incorporados pelo velho alinhamento industrialista e capitalista.
Essa é a disputa que está aí. Internet, ciberespaço, redes sociais: de um lado servindo a essa pulverização
positiva do poder e da influência, mas ao mesmo tempo sendo também processado por essas estruturas
hegemônicas enormes, que querem o controle, o uso dessas ferramentas para seu próprio projeto. A
disputa é a mesma — política.”
“O conhecimento hoje passa por onde sempre passou, pelas acumulações obtidas nas escolas, pelo
ensino, pela propagação do conhecimento de modos organizados, a chamada educação convencional.
Mas passa também cada vez mais por essa coisa aberta, amplificada pela internet, pelo ciberespaço, pela
força da rua, pela horizontalização e o esparramamento da informação, pela velocidade de distribuição da
informação, que é fundamental para a questão da acumulação e da propagação do conhecimento.
Conhecimento e informação cada vez mais lado a lado. O conhecimento trabalha para dentro, para baixo,
para verticalizar, aprofundar, e a informação para espalhar na horizontal. Quanto mais profundo, mais
conhecimento, mais noção, mais episteme, mas também mais difusão, propagação, capacidade de
alcance múltiplo no mundo inteiro. Mudaram as fontes de acumulação e propagação.”
“Estamos em pleno debate sobre a crise na educação e onde está localizada a fonte de formação do
processo educacional. Com esses meios rápidos eletrônicos de consulta, abertura das bibliotecas do
mundo inteiro ao alcance de todos, temos, de novo, a pulverização do acesso ao conhecimento e à
informação que poderá levar a uma acumulação de poder coletivo novo, de imposição de modelos de
fruição do conhecimento que desemboquem em fortalecimento político da visão coletiva. Quem sabe
novas possibilidades do comunismo? (risos)”
Sertão no coração
Gilberto Gil está sentado no meio do sertão. A câmera fixa o observa, silencioso, pensativo,
emocionado. Suas palavras vão saindo devagar, aos poucos, como torrente reprimida. A fala
vem através de palavras marcantes, como num jogo de memória.
“Sertão, sei não, é muito difícil de falar.
Só quem viveu lá.
Saudade.
Terra seca.
Mas a árvore é folhada quando chove.”
Uma lágrima começa a escorrer no seu rosto.
“Lua bonita.
Mandacaru.
Alma.
(...)
Os hômi encourado.
Os vaqueiros.
(...)
Os violeiros.
A rapadura.
(...)
Saudades do meu São João.
Sertão é duro, mas é bão.
Só quem viveu lá é que sabe.
Umbu, azedo e doce.”
Depois de vários segundos em silêncio emocionado, diz:
“Não tem mais palavra.”
A cena está no documentário Viva São João, que Andrucha Waddington fez sobre Gil.