Gilberto Bem Perto
Capitulo 4: Prisão na ditadura: “éramos mais difíceis de decifrar” “Só eu posso chorar quando estou triste”
“Hoje percebe-se um certo cansaço desse modelão homogeneizante. Suspeita-se que ele não poderá
resolver essas grandes questões, ou investir nas autonomias individuais de fato, dando espaço aos novos
coletivos que se formam. Vivemos ainda com uma pauperização crescente e a manutenção da fome, apesar
do aumento da formação das classes médias. Todo o esforço no sentido de criar uma humanidade mais
equilibrada, pagar as grandes dívidas históricas, estabelecer um humanismo mais efetivo, tudo isso vai
sendo anulado por essa enxurrada de uniformização em proveito da visão do lucro, da acumulação da
riqueza por poucos a partir do esforço de muitos. Não se obteve ainda esse mínimo equilíbrio. Antes tudo
era mais claro, sabia-se contra quem lutar, havia um rosto, as monarquias, os despotismos.”
Foto do passaporte.
PRISÃO NA DITADURA:
“ÉRAMOS MAIS DIFÍCEIS
DE DECIFRAR”
“Só eu posso chorar quando estou triste”
“Cérebro eletrônico”
Naquele tempo, o corriqueiro som da campainha podia mudar destinos. Corria o ano de 1968,
aquele em que o mundo explodiu em revoluções juvenis, enquanto a ditadura militar endurecia
no Brasil. Na manhã do dia 27 de dezembro, na avenida São Luiz, centro de São Paulo, Gil
encontrava-se trancado no quarto com Sandra Gadelha, a irmã de Dedé, mulher de Caetano,
que ele começava a namorar. Matutavam, provavelmente, a própria revolução ou os rumos da
Tropicália, quando Dedé bateu na porta: “Os militares estão aqui. Querem levar Caetano”. Gil
ficou no quarto com a mulher. Caetano foi para a sala conversar com os indesejados
visitantes. A essa altura, Gil havia se separado de Nana Caymmi e aquele começo de namoro
com Sandra acabaria num casamento que duraria os próximos dez anos. Passado alguns
minutos, Caetano voltou ao quarto e avisou: “Eles foram embora. Mas disseram que vão
voltar. Vão me levar, eu sei”. Não supunham que Gil estivesse lá e avisaram que iriam
também à sua casa. Gil saiu apressado, caminhou até o próprio apartamento, a poucos metros
da casa do amigo. “Eu tinha a sensação de que tinha que viver com ele (Caetano) aquela
história toda. O que acontecesse com um precisava acontecer com o outro.”
E assim foi. Meia hora depois de entrar em casa, Gil recebeu a visita da polícia. “Nós
vamos te levar, você está sendo chamado ao Rio de Janeiro para depor”, anunciaram.
Deixaram que pegasse apenas uma muda de roupa. Gil seguiu na viatura para o apartamento de
Geraldo Vandré. Os policiais subiram e voltaram dez minutos depois, sem encontrar o dono
da casa. Em seguida, estacionaram na porta de Caetano. Enfiados no banco de trás de um
camburão, os dois baianos deixaram São Paulo a caminho do Rio de Janeiro. Durante a
viagem pela Via Dutra, o rádio transmitia notícias sobre a Apollo 8, a primeira nave
americana a levar homens próximo à Lua. A missão, tripulada pelos astronautas Frank
Borman, Jim Lovell e William Anders, fazia parte do projeto Apollo e durou seis dias, entre
21 e 27 de dezembro, abrindo caminho para o pouso histórico que aconteceria sete meses mais
tarde, com a Apollo 11. Caetano e Gil não estavam seguindo para a Lua, sabiam disso. Mas
desconheciam o próprio destino.
“Não fomos maltratados. Íamos ali sentados no banco de trás, o motorista e outro rapaz à
frente. Não tínhamos a menor ideia para onde estávamos sendo levados.” Eles, de certa forma,
já esperavam por aquele momento. Dias antes, 13 de dezembro, um decreto fora anunciado na
televisão por Luís Antônio da Gama e Silva, o ministro da Justiça do general Costa e Silva,
numa das noites mais sombrias da história do Brasil. A partir do AI-5, a música, assim como
todas as artes, sofreu censura e os artistas começaram a ser perseguidos. A era de ouro dos
festivais, e a geração brilhante que eles revelaram, sofreria um golpe mortal. A criação
artística passaria longos anos submetida à censura e à repressão. O jornalista e crítico musical
Tárik de Souza afirmou certa vez que “o AI-5 promoveu a MPB à inimiga cultural número um
do regime militar”. Caetano e Gil foram presos, interrogados, confinados na Bahia e depois
exilados na Inglaterra. Geraldo Vandré exilou-se no Chile e na França, e, ao voltar, em 1973,
foi obrigado a gravar uma declaração renegando a sua música e elogiando o regime militar.
Edu Lobo deixou o país para estudar orquestração em Los Angeles. Chico Buarque, que tinha
viajado para um festival na Itália, foi convencido a adiar sua volta e ficou um ano por lá.
Antes do AI-5 espalhar de vez o terror, o cenário político fervia, borbulhava,
transbordava. O grande marco foi a célebre Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, no dia
26 de junho de 1968. Naquele dia, o país assistiu algo inédito: estudantes, intelectuais,
professores, escritores, religiosos... Gente de diversas camadas sociais se juntou na
Cinelândia, no centro da cidade, para marchar em direção à Candelária, no maior protesto
político até então contra o regime militar. Gil estava lá, militando e protestando contra o
regime no dia do seu aniversário de 26 anos. “Mas você vai passar seu aniversário numa
passeata?”, questionou Nana. De braços dados com ela, Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Odete Lara, Ítala Nandi, Norma Bengell, Tônia Carrero e muitos outros, Gil e seus
colegas artistas se uniram aos estudantes para se manifestar contra a censura e a repressão às
liberdades democráticas.
Desde que a Tropicália explodiu, Gil, porém, vinha sentindo um pânico inexplicável, uma
coisa estranha, um aperto no coração. Era como uma premonição, uma sensação de que aquilo
não ia dar certo. O movimento tropicalista batia de frente com o status quo. E batia de frente
até mesmo com os interesses da própria classe artística, que não via com bons olhos aquelas
guitarras e afins.
“Isso fazia com que nos sentíssemos mais solitários, desamparados, fragilizados no ímpeto mesmo de fazer
alguma coisa. Eu tinha essa desconfiança. Havia um regime militar instalado com tudo que já se anunciava
de absurdo, de intolerância, eu estava vendo aquilo ali acontecer. E pensei: mais cedo ou mais tarde a
gente pode ser feito de vítima também, eles podem nos pegar.”
Enquanto isso, o mundo inteiro explodia, numa espécie de catarse. Nos EUA, a façanha
espacial ganhou contornos políticos. Em janeiro, os soldados americanos que lutavam na
guerra do Vietnã (1959-1975) haviam sofrido um grande revés militar quando as forças
guerrilheiras apoiadas por Hanói e lideradas pelo general Vo Nguyen Giap, numa
surpreendente ofensiva, tomaram de assalto 36 cidades sul-vietnamitas, e entraram em Saigon,
onde chegaram a ocupar a embaixada americana. Ficou conhecida como a Ofensiva do Tet e
mostrou aos americanos que os vietnamitas do norte eram capazes de vencer a guerra. Mas
não foi só isso. Em abril, Martin Luther King, líder da luta pelos direitos civis nos EUA, fora
assassinado, e as ruas foram tomadas por manifestações violentas. O país ainda acompanhara
o choque entre a polícia e manifestantes contra a guerra nas ruas de Chicago, durante a
Convenção Nacional Democrática. Em junho, o candidato presidencial Bob Kennedy foi
assassinado, supostamente pela máfia americana. Portanto, a missão da Apollo 8 no fim do
ano era, enfim, uma vitória dos yankees.
Prisão no Rio
Para Gil e Caetano, as notícias ouvidas no rádio do camburão ficaram guardadas na memória
como marco de uma experiência aterradora. Chegaram ao Rio de Janeiro no final da tarde,
depois de um dia inteiro de viagem. Assim que chegaram na capital da Guanabara foram
direto para a Polícia Federal. E, de lá, levados para o prédio do então Ministério da Guerra,
sede do 1º Exército, ao lado da Central do Brasil, na avenida Presidente Vargas. Ao chegar,
foram para uma sala, onde ficaram esperando por cerca de uma hora. Depois do chá de
cadeira, foram conduzidos a outra sala, onde um coronel os interrogou. Disse que iriam ficar detidos para investigação, porque havia suspeitas contra eles. Falava do envolvimento com
isso ou aquilo, mas na verdade ele se referia sempre ao conceito subjetivo de subversão.
A dupla de “subversivos” acabou sendo transferida para o quartel da Polícia do Exército
(PE), na rua Barão de Mesquita, na Tijuca, futura sede do famigerado DOI-CODI. Cada um foi
levado para uma solitária, onde Gil e Caetano passaram uma semana sem ver ou falar com
ninguém. “Caetano foi levado a uma cela e eu fui levado a outra, celas pequenininhas,
solitárias.”
Dali seriam levados para outro quartel da PE na Vila Militar, em Deodoro, subúrbio do
Rio de Janeiro, onde ocuparam celas com outros presos e ficaram pelo menos mais uma
semana. No quartel, Gil não viu Caetano nenhuma vez, mas Caetano soube que Gil estava “na
companhia de vários escritores e jornalistas famosos”, entre eles Ferreira Gullar, Antonio
Callado e Paulo Francis. Na cela de Caetano estava o ator e produtor cultural Perfeito
Fortuna. No quartel, todos podiam sair da cela para ver parentes na varanda nos dias de visita,
exceto Gil e Caetano.
Enquanto esteve preso na solitária, Gil não pensou em nada. “Eu não pensava no fato que
estivessem cometendo comigo uma injustiça ou equívoco, eu não tinha tempo para pensar
nisso, porque minha aflição toda era voltada para o pânico e o medo.” Estava fragilizado e
entregue a uma grande interrogação: “O que vão fazer comigo? O que será de mim amanhã?
Vou passar o resto da minha vida nessa prisão?” Tais perguntas o acompanharam durante toda
aquela semana de isolamento. A cela de Caetano era ainda mais isolada. Passaram ali o Ano-
Novo. Não viram o ano de 1969 raiar. Durante o curto período na futura sede do DOI-CODI,
os amigos estiveram próximos, embora não pudessem se falar. Estavam em um corredor que
tinha quatro ou cinco solitárias, segundo lembra Gil. Ao lado da cela dele havia outro preso e,
na seguinte, estava Caetano. As celas eram fechadas por uma porta de ferro com uma
gradezinha e um pequeno basculante na janela. Um buraco no chão fazia às vezes de vaso
sanitário. No mais, somente uma pia e um colchão velho. Durante aqueles sete dias ninguém
apareceu e eles não foram chamados para interrogatório. Foi nesse momento que Gil e
Caetano tiveram suas cabeleiras e barbas raspadas, numa espécie de ritual.
Ao fim dessa primeira semana foram transferidos durante a noite: “Sai, sai, vamos
embora”. Jogados no camburão, rodaram durante um bom tempo e acabaram no quartel dos
paraquedistas, na Vila Militar. Gil foi retirado do veículo e levado para as dependências
militares, enquanto Caetano seguia para outra parte do quartel. Ficaram ali um mês e meio,
sendo interrogados seguidamente. Os militares perguntavam sobre as suas ligações, as
famílias, envolvimento com pessoas de esquerda, vida estudantil, militância na Bahia. “Na verdade”, diz Gil, “eles não tinham o que perguntar, eram interrogatórios mansos.” E não
havia o que esconder. “Eles sabiam de tudo, não tinha nada secreto. Era assim: comunista?
Não comunista? Tem ligação? Não tem ligação?”
Foi em meio a essa situação de medo e incertezas que apareceu o sargento Juarez. Era um
dos sargentos da guarda, um mulato cortês, refinado. A prisão ficava no corpo da guarda, ou
seja, na entrada do quartel, por onde passavam todos os soldados, aonde chegavam as visitas,
por onde entrava o abastecimento que vinha de fora — tudo passava por ali. Gil acompanhava
toda a movimentação. Um dia, o sargento Juarez aproximou-se dele e perguntou se queria um
violão: “Eu tenho um simples em casa, vou falar com o capitão e trago o violão para você”.
Levou o instrumento e deixou na cela. E, graças a esse gesto, Gil fez quatro músicas na prisão.
Fazia as anotações das canções em papel emprestado pelos guardas ou em capas de revistas.
“O violão ficou comigo uns 15 dias. Aí, eu, que até então não tinha tido estímulo para compor (faltava a
‘voz’ da música, o instrumento), fiz ‘Cérebro eletrônico’, ‘Vitrines’ e ‘Futurível’ — além de uma outra,
também sob esse enfoque, ou delírio, científico-esotérico, que possivelmente ficou apenas no esboço e eu
esqueci”.
Passado um mês e meio, os baianos foram ali um mês e meio até serem levados novamente
para a Polícia Federal. E, em seguida, para o aeroporto Santos Dumont, de onde foram
conduzidos para Salvador. Muitos anos depois, quando voltou do exílio, Gil soube que o
sargento Juarez era um dos diretores do Clube dos Sargentos. Convidado por ele, fez um show
no quartel.
Brasil, ame-o ou deixe-o
Após o encarceramento no Rio de Janeiro, Gil e Caetano foram condenados à prisão
domiciliar. Teriam que permanecer em Salvador e se apresentar diariamente à Polícia
Federal. Era fevereiro de 1969. Ficaram confinados em casa por quatro meses até serem
convidados a deixar o Brasil. Nesse meio tempo, Gil retornou ao Rio de Janeiro somente para
tratar do exílio. Na manhã do dia em que voltaria para a Bahia, após acertar a saída do país,
foi visitar a mãe de Gal, Mariah Costa. E foi na casa dela que ele criou os primeiros acordes e
versos de “Aquele abraço”. Era preciso dizer adeus e a música representava uma catarse de
tudo o que ele estava vivendo. Terminou de compor no avião, escrevendo a letra num
guardanapo, a canção que se transformaria num hino cantado por todo o Brasil.
“Mentalizei a melodia. Tanto que é uma melodia muito simples, quase de blues. Como eu não dispunha de
instrumento, tive que recorrer a uma estrutura fácil para guardar na memória. Quando cheguei à Bahia, eu
só peguei o violão e toquei, já estava comprometido afetivamente com a canção.”
Na época, havia um bordão usado num programa muito em voga do humorista Lilico, que
dizia “aquele abraço”. Era assim que os soldados no quartel saudavam o compositor: “Aquele
abraço, Gil”. O humorista chegou a reivindicar o direito autoral da canção, mas o fato é que
Gil não via televisão e aprendeu a saudação na cadeia. “Aquele abraço” tornou-se uma das
músicas mais populares de Gil. Além de uma de suas gravações que ficaram em primeiro
lugar nas paradas de sucesso durante maior tempo.
“O reencontrar a cidade do Rio na manhã em que nós saímos da prisão e revimos a avenida Getulio Vargas
ainda com a decoração de Carnaval foi o pano de fundo da canção. Na minha cabeça, ‘Aquele abraço’ se
passa numa Quarta-Feira de Cinzas; é quando o ‘filme’ da música é em mim mentalmente locado”,
rememora Gil, ao explicar sua composição em seu site oficial.
Em Salvador, Gil e Caetano foram monitorados pelo coronel Luiz Arthur, então diretor da
Polícia Federal na Bahia. Eles eram vigiados 24 horas e obrigados a ficar em casa. Em março,
Gil passou a viver com Sandra, que viajaria com ele quatro meses depois para o exílio. E
ainda gravou a voz e o violão de seu novo disco. Sobre essas bases, Rogério Duprat fez os
arranjos e dirigiu as gravações complementares em São Paulo e no Rio de Janeiro. O disco,
Gilberto Gil, 1969, seria lançado em agosto, quando já havia partido para Londres.
O antropólogo e pesquisador musical Hermano Vianna exaltou anos depois o disco e a
trajetória de vanguarda do artista na sua coluna de junho de 2012, no jornal O Globo,
intitulada “Semi e menos: muito mais”:
“O disco de 1969 foi composto quase todo na prisão ou no período entre a prisão e o exílio londrino.
Portanto, é quase um milagre que tenha sido produzido e lançado. Começa com ‘Cérebro eletrônico’ e
termina com ‘Objeto semi-identificado’, depois de passar por ‘Volks-Volkswagen Blue’ e ‘Futurível’. ‘Objeto
semi-identificado’ é consequência das conversas entre Gil e Rogério Duarte (que fez a capa do disco, uma
das mais ousadas do design gráfico nacional, com poema-desenho na capa e quadrinhos Gil versus
Solaries na contracapa) no pré-exílio, semiprisão de Salvador. A conversa ganhou forma de texto e foi
gravada, apenas com as vozes dos dois amigos. Depois, como no resto do disco, a música foi
acrescentada em São Paulo. (...) Quem comprou o disco em 1969, ao ouvir ‘Objeto semi-identificado’ deve
ter se lembrado de ‘Revolution 9’, lançado naquele álbum branco dos Beatles um ano antes. Não era uma
cópia, mas sim duas trajetórias diferentes, a dos Beatles e a de Gil (com suas respectivas turmas),
desembocando num mesmo lugar (quântico). O namoro entre tropicalistas e as estratégias sonoras
barulhentas da música contemporânea era antigo. Vinha pelo menos dos Seminários Livres de Música da
UFBA, com Koellreutter à frente, que trouxe até David Tudor para tocar John Cage em Salvador. (...)
Incrível como o pessoal dos anos 1960 conseguia fazer esse tipo de colagem sonora apenas com
gravadores de poucos canais e overdubs”.
Antes de partirem para o exílio, Gil e Caetano fizeram dois shows de despedida, com o
incentivo de ninguém menos do que o coronel Luiz Arthur. Os artistas convidaram Roberto
Santana, o produtor musical que criara, em 1961, o espetáculo Nós, por exemplo, para a produção e direção. O local escolhido para a apresentação foi o Teatro Castro Alves. E
Caetano compôs algumas músicas novas especialmente para a ocasião. Era julho de 1969.
Toda a plateia sabia que se tratava de um adeus. Mas nada foi dito, nada podia ser dito. O
primeiro espetáculo aconteceu às dez da manhã de um domingo. E, o segundo, às sete da noite.
Ambos com teatro lotado. “Foi bacana, foi bonito”, lembra Gil, que cantou “Aquele abraço”
em meio a muita emoção. O compositor e percussionista Djalma fez uma gravação rudimentar
do show, que depois saiu em disco intitulado Barra 69.
O poeta Augusto de Campos saiu de São Paulo só para ver o show. “Estes baianos estão
cada vez mais interplanetários”, declarou. O escritor Jorge Amado, também presente, não se
conteve: “Estou comovido. Isso parece muito sofisticado, mas não é. Tudo o que eles fazem
tem profundas raízes baianas. E minha comoção se manifesta na barriga. É como se eu sentisse
um nó nas tripas”, disse o romancista à revista Veja, que publicou, em 30 de julho de 1969,
reportagem de duas páginas sobre o show com o título “Os baianos que vão da Bahia para o
mundo. Caetano e Gil encerram uma fase da música popular brasileira”.
Poucas notícias foram veiculadas na imprensa sobre o show ou a partida de Caetano e Gil
para o exílio. A mão de ferro da censura calou a boca dos jornais. Em notas publicadas em
jornais da Bahia, porém, é possível ter uma ideia de como o assunto foi abordado.
Em 7 de julho, o Jornal da Bahia noticiava:
“Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa (Gracinha) são os três nomes que estarão no Teatro Castro Alves
num dos maiores shows da Bahia para o ano de 1969. Uma quantidade bem grande de músicas novas dos
dois compositores será mostrada pela primeira vez em público, fato que garante casa cheia de qualquer
forma. Os ingressos para este espetáculo já se encontram à venda no próprio Teatro Castro Alves”.
O mesmo jornal publicaria, em 22 de julho de 1969, uma longa crítica sobre o show de
despedida dos baianos, com o título “Caetano e Gil fazem do TCA parque encantado em sua
despedida do Brasil”. Algumas palavras estão quase apagadas no recorte de jornal:
“Caetano e Gil transformaram o Teatro Castro Alves na manhã de domingo num verdadeiro parque
encantado no show com que se despediram da Bahia, já que amanhã viajam para Europa e não voltam
mais. Os dois famosos compositores brasileiros farão primeiro uma temporada em Lisboa e depois seguirão
para Londres onde pretendem fixar residência. Duas mil pessoas foram vê-los nessa apresentação de
adeus.
Público
O espetáculo de domingo foi composto de um público em sua maioria de estudantes. Também foi o único
dia em que se vendeu meia-entrada. Os jovens que lá se encontravam, em sua maioria não se
conformando em assistir de longe o show, passavam para as escadas que se localizam em frente ao palco,
fazendo assim companhia às pessoas que lá estavam por não encontrarem lugar para sentar. A primeira
música apresentada foi ‘Cinema Olympia’ e a partir daí o público não parou de vibrar, ora aplaudindo, ora
se levantando, cantando e mesmo sambando, quando no fim Gilberto Gil interpretou ‘Aquele abraço’,
acompanhado de três ritmistas da Escola de Samba do Garcia.
Caetano e Gil
Caetano estava vestido num estilo hippie com muitos colares e espelhinhos pendurados na jaqueta xadrez.
Trazia uma camisa vermelha, calça branca muito justa com boca de sino e sapatos brancos, com listas
laterais vermelhas. Seus cabelos estão mais curtos, mas bastante encaracolados. Gil usava camisa branca
de mangas de (...), calça branca, uma corrente ao pescoço e sandálias sertanejas. Estava sem barba, mais
magro, com um aspecto muito mais jovem.
O ‘show’
Durante o ‘show’ foi usada uma nova técnica de iluminação que produzia os mais variados coloridos
reflexos na parede, dando sempre ideia de movimento de vaivém acompanhando o (...) com que Caetano
dança. Quando cantou ‘Irene’, uma de suas mais novas criações, Caetano chorou de emoção e repetiu a
música que foi feita em homenagem a sua irmã. Uma música que foi cantada aqui na Bahia há muito
tempo tomou novo aspecto com os arranjos realizados nela por Gil, e todo o auditório cantou ‘entra em
beco sai em beco/ há um recurso Madalena/ entra em beco sai em beco/ há uma santa com seu nome...’
As músicas já conhecidas do público, como ‘Baby’ e ‘Alegria, alegria’. ‘Domingo no parque’ é outra que foi
dada uma conotação diferente na maneira de interpretar. Um exemplo disso foi o fim de ‘Alegria, alegria’,
quando todo mundo espera Caetano dizer um ‘instante maestro, pare’ e ele não disse, despertando assim
um efeito psicológico de surpresa no público. O conjunto que acompanha Caetano Veloso e Gilberto Gil,
Os Leif’s, há um mês estava em casa de Caetano a fim de (...) ensaiar e pegar o estilo dos dois
compositores. Seus componentes foram bem aplaudidos. São todos daqui da Bahia. Um deles estava
vestido de pierrô e os outros estavam com vestimentas bem diferentes e originais.
Hino e volks
Quando Caetano cantou o hino do Bahia todo o público acompanhou o músico, mesmo quem era de
outro time. Nesse momento refletiram-se na parede as cores azul, vermelho e branco. ‘Volks-Volkswagen
Blues’ ou ‘Carrinho azul’ é uma das mais novas criações de Gil, e no momento em que foi cantada, refletiu-
se um carro azul na parede do fundo do palco. Os ingredientes usados para efeito de projeção tinham de
ser usados na hora, chegando o cheiro deles até o público, que também gostava e achava graça.
Programa
Caetano e Gil interpretaram as seguintes músicas; ‘Irene’, ‘Atrás do trio elétrico’, ‘Superbacana’, ‘Baby’,
Hino do Bahia, ‘Alegria, alegria’, ‘Cinema Olympia’, ‘Tropicália’, ‘Marcianita’, ‘Não identificado’, ‘Procissão’,
‘Domingo no parque’, ‘Ele falava nisso todo dia’, ‘Volks-Volkswagen Blues’, ‘Cérebro eletrônico’, ‘Frevo
rasgado’, ‘Dezessete léguas e meia’, ‘Madalena’, ‘Aquele abraço’ e ‘2001’.”
Menos de dez anos depois que saiu com Gil do Brasil para o exílio na Inglaterra, Caetano
Veloso escreveu um artigo para a revista Manchete, em 4 de julho de 1977, com o título de
“Pra cá de Marrakesh”, em que refletia sobre o Tropicalismo e a prisão, ligando um ao outro,
e sobre a força de Gil no exílio:
“E como a coisa era muito flagrante o Tropicalismo só precisou de um apelo alegre. ‘Alegria, alegria’. E
tudo bem. Os poucos que não entenderam que só pretendíamos fazer música eram muito mais fortes. Eu
juro que nosso esquema era musical. Uma euforia bonita. Nossa. Brasileira. Mas acho que ao tocar os
primeiros pontos houve um curto geral e deu uma zoeira rápida. Admito que nossa atitude era muito
agressiva em relação aos preconceitos vigentes. Mas daí a Londres... hoje eu entendo. Na época,
desbundei. Um ano de um trabalho limpo, forte, honesto. ‘Por quê?’, eu me perguntava a caminho de
Londres. Que consequências sociais nós deveríamos atingir? Sei lá. E a falta de resposta me fez um sujeito
ensimesmado, passivo, lerdo. Leso. Lesado.”
Depois do AI-5, era ainda mais difícil noticiar qualquer coisa sobre Gil e Caetano e
outros artistas. A simples missão de informar a prisão dos dois era negada aos jornais. Haja
criatividade para tornar público o porquê do sumiço dos baianos. Jornais e colunistas
praticavam contorcionismos para dar a notícia, nem sempre compreendida pelos leitores,
como mostram os trechos a seguir, retirados de colunas publicadas no jornal Última Hora.
No dia 31 de dezembro de 1968, a coluna “Tabela 2”, assinada por Eli Halfoun, publicou
a seguinte nota, sob o título “Os motivos de força maior”:
“Os mesmos motivos de força maior que impediram Chico Buarque de comparecer a São Paulo para
receber, há 15 dias, os prêmios do Festival da Record impediram Caetano Veloso e Gilberto Gil de
comparecer ontem, quando os prêmios foram entregues de qualquer maneira” (Festival de Música Popular
Brasileira da TV Record de 1968, vencido pela música “São São Paulo”, de Tom Zé, que também premiara
as composições “Benvinda”, de Chico Buarque, e “Divino, maravilhoso”, de Gil e Caetano).
No dia 10 de janeiro de 1969, o mesmo Eli Halfoun voltava ao assunto em outra nota, “Ok
para o Miden”, que dizia o seguinte:
“Está marcado para o dia 14, à noite, o embarque da delegação brasileira para o Festival de Miden, em
Cannes. O Brasil será o país mais importante deste festival ou, pelo menos, o único que terá direito a trinta
minutos de espetáculo, enquanto os outros terão 11 minutos. As apresentações do Brasil serão abertas no
dia 19 com Elis Regina e Edu Lobo. No dia seguinte será a vez dos Mutantes, Gilberto Gil e Chico Buarque
de Hollanda. O único embarque não confirmado ainda é o de Gilberto Gil, já que outros compromissos o
prendem no Rio”.
No dia seguinte, foi a vez de Tarso de Castro se manifestar sobre o assunto na coluna
“Hora H”. A nota, intitulada “Nova bossa”, anunciava:
“Os fãs de Caetano Veloso e Gilberto Gil poderão ter uma surpresa muito breve: parece que os dois líderes
se encontram em São Paulo — continuariam na mesma linha. Caetano passaria a se apresentar, inclusive,
de cabelo curto e Gilberto Gil sacrificaria a volumosa barba”.
Dois dias depois, Tarso de Castro retomaria a questão, confirmando que os dois baianos
já estavam com os cabelos cortados. Um mês após a prisão dos dois, no dia 17 de janeiro de
1968, Eli Halfoun escrevia:
“Caetano Veloso e Gilberto Gil, que iniciarão nova fase em matéria de apresentações — o primeiro de
cabelos cortados e o segundo sem a barba — estão pensando seriamente em fazer parceria com Carlos
Imperial e Castor de Andrade. Os dois ‘tropicalistas’ resolveram também dar umas férias a seus
instrumentos, já substituídos por enxadas”.
Naqueles dias, e isso era público, o bicheiro Castor de Andrade e o compositor Carlos
Imperial estavam presos no presídio da Ilha Grande, com acusações que tinham respaldo no
AI-5. O primeiro por conta de suas atividades na jogatina e o segundo por causa de um cartão
de Natal que distribuíra no qual aparecia sentado em uma privada.