Gilberto Bem Perto
Capitulo 6: A carreira que segue, a política na Bahia “O que a gente não pode, explodirá”
“Tenho prazer e dor, muito sofrimento, mas é assim mesmo. Ao longo dos anos, a dor foi me ajudando a
compreender o sentido da vida. A dor é a dor, e o prazer é o prazer, mas eles são no fundo uma coisa só,
eles são sustentáculos do ser, não há existência possível sem um ou sem outro. Daí talvez essa obstinação
dos iogues, dos ascetas, no sentido de superar essa dicotomia e harmonizar inteiramente, para cair numa
terceira com a qual durante muito tempo flertei. Desejei e quis ser santo. Mas ser santo é muito difícil e eu
não consegui. Talvez não tenha investido com tanto empenho. Será que não é mesmo esse terceiro lugar o
vazio? Os santos dizem que esse lugar é aqui mesmo, é na própria dimensão humana, é na tensão terrena.
E aí fui me conformando com isso. Era como não querer mais ser santo.”
Campanha para vereador em Salvador, 1988.
A CARREIRA QUE SEGUE,
A POLÍTICA NA BAHIA
“O que a gente não pode, explodirá”
“Realce”
Música, paixão, política e dor. Em três décadas, Gil viveu sentimentos extremos,
experimentou mais uma vez a consagração e escreveu música sobre quase tudo, tendo sempre
como norte o mergulho profundo. A carreira se consolidou com o lançamento de uma trilogia
fundamental: Refazenda, em 1975, Refavela, em 1977, e Realce, em 1979, lançados em
sequência. A fase dos discos “re” foi marcada pelo “gosto da aventura intelectual e estética”,
como Gil afirmou, em 1999, à revista IstoÉ Gente.
“Pela transformação do estado de consciência que eu vivia com frequência, saindo do estado sóbrio para o
transformado, naquelas práticas quase que diárias de uso de maconha, de uso periódico de ácido
lisérgico, de mescalina. Era um grande fetiche, que exorcizava demônios e abria as portas para anjos.
Depois, já não me davam mais nada e eu parei com tudo.”
A redescoberta do baião e dos ritmos nordestinos, aliada às novas experimentações que já
havia introduzido na sua música, fez do álbum Refazenda um marco. Já Refavela surgiu de
uma experiência na África, mais especificamente em Lagos, na Nigéria, onde Gil participou,
junto com Caetano, do 2º Festival Mundial de Arte e Cultura Negra, no começo de 1977. A
viagem durou um mês e rendeu inspiração. Gil disse ter reencontrado a “paisagem sub-urbana
dos conjuntos habitacionais surgidos no Brasil a partir dos anos 1950, tirando muitas pessoas
das favelas e colocando-as em locais que, em tese, deveriam recuperar uma dignidade de habitação, mas que, por várias razões, acabaram se transformando em novas favelas”.
A paisagem nigeriana deixou uma forte impressão.
“Para abrigar os cinquenta mil negros do mundo inteiro que para lá acorreram, tinha sido construída uma
espécie de vila olímpica com pequenas casas feitas com material barato e um precário abastecimento de
água e luz, que reavivou em mim a imagem física do grande conjunto habitacional pobre. ‘Refavela’ foi
estimulada por este reencontro, de cujas visões nasceu também a própria palavra, embora já houvesse o
compromisso conceitual com o ‘re’ para prefixar o título do novo trabalho, de motivação urbana, em
contraposição a Refazenda, o anterior, de inspiração rural.”
O disco saiu com um manifesto, assim como Refazenda e Realce.
MANIFESTO DE REFAVELA
Refavela, como refazenda, um signo poético.
Refavela, arte popular sob os trópicos de câncer e de capricórnio.
Refavela, vila/abrigo das migrações forçadas pela caravela.
Refavela, como luz melodia.
Refavela, etnias em rotação na velocidade da cidade/nação.
Não o jeca, mas o zeca total.
Refavela, aldeia de cantores, músicos e dançarinos pretos, brancos e mestiços.
O povo chocolate e mel.
Refavela, a franqueza do poeta; o que ele revela;
o que ele fala, o que ele vê.
Segundo Gil, a informação forte da música “Refavela” está nas duas primeiras estrofes.
“Perto delas, o resto é ornamento.”
A refavela
Revela aquela
Que desce o morro e vem transar
O ambiente
Efervescente
De uma cidade a cintilar
A refavela
Revela o salto
Que o preto pobre tenta dar
Quando se arranca
Do seu barraco
Prum bloco do BNH
(“Refavela”, 1977)
A entrevista a Marcelo Fróes para a caixa Palco revela a intenção do artista com o disco:
“Era época do movimento Black Rio, com o funk começando por aqui e eu quis gravar algo como aquela
versão de ‘Samba do avião’”, lembra Gil. “O disco era para isso, para registrar os ‘afrorismos’ da época —
como era a juju music de Balafon e os blocos afro-baianos de Ilê Aiyê. Eu trouxe um balafon típico da
região do Golfo da Guiné e fiz ‘Balafon’”.
Refavela foi lançado em maio e, em outubro e novembro, Gil fez Refestança, da Som
Livre, a partir de uma série de shows com Rita Lee, que havia saído dos Mutantes e seguia
carreira solo.
A carreira estava a pleno vapor. Em julho de 1978, Gil viajou com Sandra e as crianças
para os EUA, e viveram quase um ano em Los Angeles, para que ele preparasse a gravação do
seu primeiro disco feito para o mercado internacional, produzido por Sergio Mendes. Gil
compôs algumas músicas e verteu para o inglês outras de Refazenda e Refavela. Com a
canção “Nightingale” como música-título do álbum e outras como “Sarará miolo” e “Here and
Now” (a versão de Gil para “Aqui e agora”) o disco foi sendo preparado. Ele fez duas
músicas inéditas: “Move Along With Me”, em inglês, e “Samba de Los Angeles”, que só foi
gravada nesse disco. Foi entre o planejamento e a gravação que Gil foi com Rubão, o baixista
que havia seguido com ele para Los Angeles, para o festival de Montreux, na Suíça.
Até Nightingale, seus discos só haviam alcançado a América do Sul. Com o sucesso da
música de trabalho “Sarará miolo”, ele penetrou na Europa, fez a primeira turnê nos EUA e foi
lançado no Japão. No final de 1978, Gil ainda fez apresentações em Buenos Aires e passou
pelo Brasil para fazer shows de verão e uma temporada no Teatro Vila Velha. Entre março e
maio de 1979, enquanto viajava de ônibus na turnê das universidades americanas, foi
trabalhando num novo disco a partir de ideias que trouxera do Brasil. Em Salvador, compôs
“Toda menina baiana”, inspirada em sua filha Nara, então adolescente, e “Rebento”. No final
da temporada americana, começou a gravar o LP Realce, em Los Angeles. Levou do Brasil a
banda com Rubão Sabino (baixo), Luiz Carlos (bateria), Tuca (teclados) e Djalma Correa
(percussão). Os outros músicos eram americanos e foram contratados na Califórnia, seguindo
a sugestão do produtor Mazola.
Nesse meio-tempo, Gil foi convidado a integrar o Conselho de Cultura do Estado da
Bahia, do qual Maria Bethânia também passou a fazer parte, compondo os dois a Câmara de
Música. Gil assumiu em julho de 1979, tornando-se o primeiro negro a ocupar o cargo. Ainda
nesse ano, lançou em compacto um de seus maiores hits: “Não chore mais”, sua versão para o
reggae “No Woman, No Cry” (de B. Vincent), gravado por Bob Marley. O disco, que tinha no
lado B “Macapá”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, vendeu 750 mil cópias.
O amor floresce Em janeiro de 1979, antes de voltar aos EUA para a gravação de Realce, um acontecimento
mudaria a vida do cantor. Gil conheceu a paulista Flora Nair Giordano, em Salvador. Flora,
com quem Gil se casaria no ano seguinte, tinha 18 anos e estava de férias na Bahia. O encontro
aconteceu na saída de um show de Baby Consuelo. A jovem estudava no colégio Objetivo, em
São Paulo, e começou a trabalhar como vendedora em uma loja de shopping, um pouco antes
do Natal de 1978. Três meses depois já era gerente. Como foi a melhor vendedora do período,
ganhou uma viagem em que podia escolher entre Fortaleza e Salvador. Escolheu Salvador. Foi
para lá pela primeira vez e se hospedou no Salvador Praia Hotel, com tudo pago. Dois dias
depois, conheceu o homem com quem viveria pelas próximas décadas.
Gil jamais se esqueceu daquele show da Baby:
“São essas coisas circulares da vida. Eu saí à noite e fui para um show da Baby Consuelo. A própria Baby
tinha conhecido Pepeu Gomes no Barra 69, show de despedida da gente. Ela foi ao show no Teatro Castro
Alves e conheceu o Pepeu tocando. Começaram a namorar ali, naquele dia. Anos depois, vou a um show
dela e conheço a Flora”.
Logo que terminou a apresentação de Baby Consuelo, Gil, acompanhado da filha Nara e
da amiga Regina Casé, caminhava na direção do seu Chevette quando duas moças pediram
carona. Uma delas se chamava Angélica e a outra, Flora. No caminho, foram conversando,
trocando ideias. Não demorou muito para a tal da química entrar em ação. “Era o tempo em
que ele usava no cabelo os tererês com aquelas bolinhas brancas”, diverte-se Flora, que,
alguns anos depois de se casar com Gil, tornou-se sua empresária e produtora associada.
Depois da carona, Gil passou a telefonar para a menina paulistana e marcava encontros na
praia. Após uma semana de férias em Salvador, Flora voltou para São Paulo, mas não resistiu
aos apelos do Carnaval baiano e, em fevereiro, estava de novo na cidade. Foi quando Gil
mostrou a ela a música “Flora”. Ele diz que na canção havia um convite, um projeto de vida
em conjunto. “Foi a cantada que faltava”, assegura.
Os irmãos Gildina e Gil.
Os Doces Bárbaros, em 1976.
Gil, Flora, Marina Morena, Bem e José Gil.
Com Steve Wonder, Flora e músicos de Gil (Rubão Sabino, Jorjão e Raul Mascarenhas), em 1995.
Na porta do consulado brasileiro em Londres, como ministro. No detalhe: Gil em cena e com o filho Bem
beijando sua testa (gravação de Banda dois, 2009).
Preta, Pedro e Maria Gil.
Gil no estúdio Tuff Gong (Jamaica), gravando Kaya N’Gan Daya, em 2001.
Marina Morena e Bem Gil
Em visita ao Taj Mahal, na Índia.
Com Flora e Bem Gil nas costas.
Gil na Jamaica, para a gravação de Kaya N’Gan Daya, em 2001.
Com Flora, Lula e dona Marisa, numa festa junina na Granja do Torto.
Gravação de Fé na festa no Retiro dos Artistas. No detalhe: quatro flagrantes em Paris, durante o exílio.
Gil no palco, durante a gravação do Acústico MTV.
Gil com Sandra Gadelha (Drão), em Londres, durante o exílio (1969/1972).
Gil no Carnaval da Bahia.
Gil ministro.
Eles ainda não namoravam quando Gil fez a canção.
“Telefonei para um amigo comum e pedi um favor: ‘Diga que eu quero vê-la, que vou estar no Teatro Vila
Velha entre quatro e seis da tarde. Tenho uma coisa pra mostrar’. Quando ela chegou, eu cantei a música.
‘Flora’ foi, portanto, uma cantada literal. Cantei Flora na canção e com a canção. É minha única canção-
cantada, que bom que tenha ficado suficiente em beleza e elegância. A alma exigia capricho: o sentimento
era intenso, e o desejo, de uma relação durável. O que eu cantava não era só uma pessoa, mas toda uma
vida com ela. Na letra eu já a imagino ‘idosa’, ‘bela senhora’, ‘futura’. Elis é que me disse: ‘Nunca uma
mulher teve de um homem uma música dessa!’ Uma música em que já se-lhe-oferecia a conformidade a
estados que iriam aparecer na sucessão de eventos no tempo.”
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
(“Flora”, 1979)
Flora e Gil começaram a namorar. Mas ele ainda estava casado com Sandra. Na época, a
família Gil vivia em Salvador, numa casa de três quartos, “pequena e bonitinha”. Flora voltou
para São Paulo depois do Carnaval e eles passaram a se encontrar do jeito que dava. Ora na
capital paulistana, ora no Rio de Janeiro. Falavam-se pelo telefone o tempo inteiro, e foram
muitas idas e vindas. Quando Gil aparecia na loja em que Flora trabalhava, era um frisson
entre as vendedoras e os clientes. No começo, a família da moça ficou furiosa. Afinal, Gil era
casado, tinha cinco filhos e duas ex-mulheres. Em 1980, Gil e Sandra se mudaram para
Ipanema. E logo em seguida se separaram. Ele, então, se mudou para seu sítio em Jacarepaguá
e foi viver com a sua Flora.
O fim do casamento com Sandra e o início da relação com Flora resultaram em duas belas
e marcantes canções: “Flora”, para saudar o novo amor, e “Drão”, a despedida de Sandra,
“uma música difícil de concretizar, tamanha a emoção envolvida”. Em “Drão”, as palavras
tinham que ser ainda mais precisas:
“Outra exigência que eu me colocava era de não me precipitar. Eu queria que o fazer, a prática, o
empirismo da realização fossem observados pelo meu ser ali a distância. Eu tinha que contemplar o feitio
da canção. Ao lado do esforço, da tensão concentrada, tinha que haver a descontração, o relaxamento
concentrado — as duas coisas, e todas essas exigências sobrepostas determinando o modo de compor a
canção”.
“Drão” fala de um novo sentimento que pode surgir com o fim de uma história de amor que durou dez anos. “Uma poesia profunda e sutil do amor e do desamor”, diz Gil. A dificuldade
de passar tanta coisa numa canção só foi inteiramente confessada no livro Gilberto Gil: todas
as letras, de Carlos Rennó.
“Eu me lembro de estar sentado no chão, anotando frases no caderno, com o violão do lado, e de repente
sentir o sufoco do coágulo da criação, e ao mesmo tempo a iminência da explosão da via criativa, e não
aguentar, saindo dali e indo para o quarto me deitar e deixar, então, aquele coágulo se dissolver, criando
filetes que se encaminhavam pra aqui e pra ali... Aí o cérebro e o coração entumeciam, algumas ideias
fluíam, e dois, três ou quatro versos saíam. Satisfeito, eu fechava o caderno e ia embora cuidar da vida.
Saía, passava o dia fazendo outras coisas, chegava de noite e retomava; ficava a madrugada toda de
novo.”
Gil tem os detalhes ainda claros:
“Sua criação apresentou altos graus de dificuldade porque ela lidava com um assunto denso — o amor e o
desamor, o rompimento, o final de um casamento, porque era uma canção para Sandra e para mim. Além
disso, havia a exigência de excelência, de que o versar tivesse capricho. Então demorou dias e dias de
trabalho”.
Em entrevista à revista Marie Claire, em 2000, Sandra recorda a emoção de ouvir a
canção pela primeira vez:
“Desde meus 14 anos, todo mundo em Salvador me chamava de Drão. Fui criada com Gal (Costa),
morávamos na mesma rua. Sou irmã de Dedé, primeira mulher de Caetano. Nossa rua era o ponto de
encontro da turma da Tropicália. Fui ao primeiro casamento de Gil. Depois conheci Nana Caymmi, sua
segunda mulher. Nosso amor nasceu dessa amizade. Quando ele se separou de Nana, nos encontramos
em um aniversário de Caetano, em São Paulo, e ele me pediu textualmente: ‘Quer me namorar?’ Já tinha
pedido outras vezes, mas eu levava na brincadeira. Dessa vez aceitei. Engraçado que Gil mesmo não me
chamava de Drão. Antes havia feito a música ‘Sandra’. Já ‘Drão’ marcou mais. Estávamos separados havia
poucos dias quando ele fez a canção. Ele tinha saído de casa, eu fiquei com as crianças. Um dia passou lá
e me mostrou a letra. Achei belíssima. Mas era uma fase tumultuada, não prestei muita atenção. No dia
seguinte ele voltou com o violão e cantou. Foi um momento de muita emoção para os dois”.
Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora
(“DRÃO”, 1980)
A separação aconteceu de comum acordo. Anos mais tarde, na mesma entrevista à Marie
Claire, Sandra afirmou:
“O amor tinha de ser transformado em outra coisa. E a música fala exatamente dessa mudança, de um tipo
de amor que vive, morre e renasce de outra maneira. Nosso amor nunca morreu, até hoje somos muito
amigos. Com o passar do tempo a música foi me emocionando mais, fui refletindo sobre a letra”.
A casa na Bahia e o apartamento no Rio de Janeiro ficaram com Sandra e as crianças. Gil
e Flora se instalaram no sítio em Jacarepaguá. Era 1982. Lá os dois enfrentaram um incidente
nada agradável, um assalto, em que Gil teve a mais inusitada reação. Certa noite, ele, Flora e
uma amiga dela de São Paulo estavam se preparando para ir ao show de Ney Matogrosso. A
televisão estava ligada e Flora estava no banho quando a casa foi invadida por quatro
assaltantes, que apontaram uma arma para a cabeça de Gil e colocaram uma faca em seu
pescoço. “Sai, sai, sai”, gritou um deles para Flora que estava debaixo do chuveiro. “Quero
joia, relógio, dinheiro, senão vou matar vocês.” Apavorada, Flora se sentou no sofá, ao lado
de Gil e da amiga, e o homem berrou: “Cadê o cofre?” Gil, do alto da sua tranquilidade,
virou-se para ele e falou: “Vai procurar. Você não é o assaltante, não entrou na minha casa?
Então, esse trabalho é seu”. Flora, em pânico, retrucou: “Não é isso, não, moço, ele está
nervoso”. Havia realmente um cofre, mas estava vazio. “Tinha umas pulseiras, uns anéis, ele
cismou que eram de ouro e eu confirmei. ‘Leva tudo’, disse. Nesse tempo a gente era duro.
Fiquei traumatizada, maluca, vomitando tudo.” A partir daí, Flora quis se mudar e foram
novamente para um hotel. André Midani, na época diretor da Warner, foi solidário e ofereceu
a Gil um adiantamento pelo próximo disco. Assim, puderam alugar o apartamento do
conhecido comediante Chico Anísio.
Ainda morando em hotel, Flora ficou grávida de Bem, seu primeiro filho e o sexto de Gil.
O casal, então, se mudou para um apartamento financiado no condomínio Alfa Barra, na Barra
da Tijuca, que Gil ia pagando com shows. Flora, porém, continuava traumatizada com o
assalto. Um dia ela ouviu na televisão que o ex-presidente João Figueiredo havia comprado
um apartamento no condomínio Praia Guinle, em São Conrado. Logo imaginou que o tal
condomínio possuía um esquema de segurança digno de ex-presidente militar. Pensou: “É lá
que eu quero morar”. Mudaram-se quando Bem tinha um ano. Caetano e Waly Salomão
apelidaram o lugar de Talavera Bruce, o presídio de mulheres, porque era como um bunker e
lá moravam também Simone e Gal Costa. Flora já mostrava seu lado de empreendedora e
empresária competente. O casal foi juntando dinheiro e se mudando várias vezes no mesmo condomínio, até ficarem no apartamento que estão até hoje. “Gil foi ganhando mais dinheiro e
eu organizando as finanças e arrumando a vida da gente.”
A esta altura, Gil era mais que um sucesso nacional. Até ir para a Bahia, em 1987, ele já
tinha lançado pela Warner os LPs A gente precisa ver o luar (1981), Brasil (1981, com João
Gilberto e Caetano, e participação de Bethânia), Um banda um (1982), Extra (1983), Raça
humana (1984) e Dia dorim noite neon (1985). Tinha lançado dois compactos, um com “Se
eu quiser falar com Deus” e “Cores vivas” (1981) e outro com “Andar com fé” e “Esotérico”
(1982). Em 1981, o diretor Jom Tob Azulay filmou a turnê de Gil para o lançamento do LP A
gente precisa ver o luar. O resultado, o documentário Corações a mil (lançado em 1983),
primeiro filme brasileiro gravado em dolby stereo, mostra um vigoroso Gil, extremamente
pop e roqueiro, com uma grande vitalidade e uma impressionante capacidade de comunicação
com o público.
Em 1984, Gil compôs e gravou a trilha sonora de Quilombo, filme de Cacá Diegues,
depois lançada em disco. Gravou em 1986 a trilha sonora de Jubiabá, filme de Nelson Pereira
dos Santos. O LP Raça humana, com exceção do reggae “Vamos fugir”, que Gil gravou na
Jamaica com a participação do grupo The Wailers, foi todo produzido no estúdio Nas Nuvens,
que Gil e o produtor Liminha abriram, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Quase todos os
discos subsequentes de Gil foram gravados lá.
Pé na política
Em 1987, Gil recebeu um convite para presidiu a Fundação Gregório de Mattos, o equivalente
à secretaria de cultura de Salvador. E aceitou. Com isso, comprou um apartamento na cidade e
uma grande família se instalou na capital baiana: Gil, Flora, Bem, então com seis anos, Preta e
Maria, filhas de Sandra, que foram viver com o pai. As duas filhas do primeiro casamento
com Belina, Nara e Marília, já moravam na Bahia e também passaram a conviver mais com
Gil. Nesse período, nasceu ainda Isabela, a segunda filha com Flora. Para completar o
cenário, Fátima Giordano, a Fafá, irmã mais nova de Flora, foi morar com eles e os
acompanhou também quando voltaram para o Rio de Janeiro, em 1992, trabalhando com o
casal por vários anos e até hoje.
Quando Gil chegou a Salvador, Mário Kertész era o prefeito, eleito em 1985. Ele já
ocupara o cargo entre 1979 e 1981 como prefeito biônico, indicado pelo governador Antonio
Carlos Magalhães. Naquele tempo, governadores, prefeitos e até senadores recebiam
mandatos chamados “biônicos”. Além de cassar mandatos de opositores do regime militar, os
militares suspenderam a realização de eleições diretas e apontavam políticos da ARENA para cargos em todo o Brasil. O MDB, partido de oposição, só conseguiu nomear prefeitos a partir
de 1982. O movimento a favor das eleições diretas foi iniciado no ano seguinte pelo senador
Teotônio Vilela, e foram surgindo, a partir daí, manifestações em todo o país, que culminaram
com a passeata de mais de um milhão de pessoas na Candelária, no Rio de Janeiro, e a de um
milhão e meio no vale do Anhangabaú, em São Paulo, ambas no mês de abril. O Brasil se
mobilizava para acabar com o estado de exceção do governo militar. Com os ventos
democráticos começando a soprar novamente, Kertész rompeu com o carlismo (movimento
político que surgiu na Bahia sob a liderança do governador Antonio Carlos Magalhães),
filiou-se ao PMDB (a sigla oposicionista MDB virou PMDB) e foi eleito por voto popular.
Em 25 de abril de 1984, a emenda constitucional das eleições diretas foi colocada em
votação no Congresso, mas não foi aprovada. Em 15 de janeiro de 1985, ocorreriam as
primeiras eleições indiretas, quando o Congresso elegeu o civil Tancredo Neves, mas ele
faleceu antes de tomar posse. Seu vice, José Sarney, tornou-se o primeiro presidente civil
desde o golpe militar de 1964. Terminavam, assim, mais de vinte anos do regime que prendeu
Gil e o mandou para o exílio. As eleições diretas para presidente do Brasil só ocorreriam em
1989, após serem restabelecidas na Constituição de 1988.
Com o novo mandato de Kertész, chegou à prefeitura de Salvador um grupo de amigos de
Gil, entre eles o escritor Antonio Risério, que organizara e publicara em 1982 o livro
Gilberto Gil: Expresso 2222. A função do grupo era a de auxiliar Kertész a conceber uma
política cultural para a cidade. Criaram uma secretaria que denominaram Fundação Gregório
de Mattos. Foi aí que Gilberto Gil deu os primeiros passos na política. O começo da abertura
política certamente estimulou Gil a participar da administração soteropolitana. No campo
internacional também havia estímulos.
“Era a época da perestroika e da glasnost, a abertura política e econômica na União Soviética, e isso de
alguma forma me motivou. Achei que tinha uma contribuição a dar e que era possível o Estado absorver
gente oriunda do mundo artístico com outra sensibilidade e outra visão de política.”
Gil aceitou o convite e tomou posse como presidente da Fundação em janeiro de 1987.
Durante a sua gestão, foi realizado o importante projeto de recuperação do centro histórico de
Salvador, elaborado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi e pelo arquiteto carioca
João Filgueiras Lima, o Lelé. Sob a liderança de Gil, a Fundação começou um trabalho de
retomada das relações culturais da Bahia com a África. Foram intensificadas as relações com
Angola, Moçambique, Nigéria e Benin. E aberta a Casa da Bahia, no Benin, e a Casa do
Benin, em Salvador. Gil viajou muitas vezes para a África. Ele criou ainda uma estrutura de
sustentação do candomblé e da vida cultural negra de Salvador, inaugurou o Teatro Gregório de Mattos e criou o projeto Boca de Brasa, apresentações teatrais utilizando palcos móveis
em áreas carentes da cidade. A ideia era valorizar, preservar e resgatar as artes em Salvador.
“Apoiamos os recém-criados Olodum e Ilê Ayê, grupos que estavam começando a emergir. Outros
aspectos culturais da cidade, como a questão do patrimônio histórico, do patrimônio material e imaterial,
estavam contidos na recuperação da visão andradiana, capanemiana da cultura brasileira. Tratamos de
retomar esse olhar que havia no Brasil e que de certa forma havíamos perdido em relação à vida cultural e a
importância da cultura para o desenvolvimento”, relata Gil. E continua: “Mário de Andrade concebeu, fez as
viagens, identificou a riqueza cultural dos povos brasileiros, mas era um projeto antropológico que nunca
se transformou em política pública. Na Fundação, naquela ocasião, resolvemos retomar isso e trabalhar
numa base experimental importante e rica, assim como é a Bahia, com essa diversidade toda, com os
portugueses, os negros.”
Essa matriz conceitual, que compreende uma visão antropológica da cultura, que a vê
como economia e como cidadania, migrou para o MinC 15 anos depois, quando Gil assumiu o
Ministério da Cultura a convite do então presidente Lula. Ele ficou pouco mais de um ano à
frente da Fundação e o trabalho desenvolvido culminou com a possibilidade de uma
candidatura à prefeitura. Kertész começou a articular o nome de Gil para sua sucessão em
1988, mas a candidatura não prosperou dentro do PMDB, partido pelo qual iria concorrer. O
partido preferiu apostar no radialista Fernando José, candidatura à qual o prefeito acabou
aderindo. Eleito, Fernando José rompeu os acordos políticos e iniciou uma campanha contra
Kertész. O grupo que apoiou a ideia, porém, não desistiu de levar Gil a outro cargo político na
Bahia e sugeriu que ele deveria se candidatar a vereador. Apesar de resistir, ele acabou
aceitando e se elegeu nas eleições de 15 de novembro de 1988 com o maior número de votos
(11.111 votos) entre todos os candidatos. No mesmo ano em que foi eleito, Gil casou-se no
civil com Flora.
Gil assumiu como vereador no momento em que as câmaras do Brasil inteiro se
incumbiam de criar seu plano diretor: as constituintes municipais. A oportunidade de
reformulação do arcabouço institucional da Câmara o animou. Gil e outros vereadores
decidiram criar a Comissão de Defesa do Meio Ambiente, que ele foi presidir. Foi nesse
momento que Gil saiu do PMDB e foi para o Partido Verde (PV). Na mesma época, passou a
integrar os conselhos consultivos da Fundação Mata Virgem e da Fundação Alerta Brasil
Pantanal, e tornou-se presidente do Centro de Referência Negro-Mestiça (Cerne), criado por
ele e seu amigo Antonio Risério. Outros militantes ecológicos como Fernando Gabeira,
Alfredo Sirkis, Fábio Feldmann se uniram a Gil e tornaram-se conselheiros da ONG OndAzul,
criada por ele para defender as águas dos mares e dos rios brasileiros. Sua militância nessa
esfera ampliou-se do âmbito local para o federal na discussão e aplicação das propostas do
movimento.
Mais tarde, compôs “Marmundo”, que está no seu disco Fé na festa, de 2010, e derrama
sua preocupação ecológica:
O mar do mundo sujou
Manda o mundo se limpar
O mar do mundo secou
Manda o mundo se molhar
O mar do mundo entornou
Manda o mundo se fechar
O mar do mundo acabou
Manda o mundo se acabar
(“MARMUNDO”)
Quando assumiu seu posto na Câmara já havia uma certa mobilização social no país em
torno da ecologia. Mas a preocupação com as águas ainda era novidade.
“O verde já era elemento de mobilização em torno de questões ecológicas. Mas o azul não, as águas ainda
não propriamente. Então, criamos a fundação com foco específico nas águas: mares, lagos, rios, lençóis
freáticos. Os quatro anos na Câmara Municipal tiveram esse viés ecológico e o início do trabalho da
OndAzul se deu com a associação a outros movimentos, como o da Fundação Mata Atlântica e do Instituto
Socioambiental. Havia uma rede brasileira e internacional — ligada a projetos na Itália, na Suíça, nos EUA.
Isso tudo antes da conferência internacional Rio 92. Meu mandato foi até 1992.”
No último ano, ele se dedicou à mobilização para essa conferência. “Eu e o grupo
assumimos o trabalho mais intenso. E acabado o trabalho voltei para o Rio.”
Gil cumpriu na íntegra o mandato de vereador. Em uma entrevista que deu anos depois
para o filme Uma noite em 67, afirmou:
“Abracei a política por conta do meu temperamento impetuoso e experimental. Mas ela é a representação
da guerra em que os adversários viram inimigos. Se pouco me deu, pelo menos me fez compreender que,
por natureza, sou diplomático e odeio a ideia de suprimir aquele que não concorda comigo”.
Antena parabólica
A volta de Gil ao mundo artístico coincidiu com o lançamento do disco Parabolicamará. A
essa altura, ele já entendia o mundo como uma pequena aldeia e, ao mesmo tempo, um grande
universo de intercâmbio de informações:
Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
(“PARABOLICAMARÁ”)
O mundo era, ao mesmo tempo, o lugar do camará, o vocativo das cantigas de capoeira, e
da antena parabólica, que traz o planeta para dentro de casa. O próprio Gil considera a junção
“parabolicamará” uma “verdadeira invenção concretista”. “Nela, como um símbolo, vinham-
me reveladas todas as interações de mundos que eu queria fazer. Aí se tornou irrecusável
prosseguir e, mais, fazer daquilo um emblema do conceito, não só da canção, mas de todo o
disco.”
Gil retomou o trabalho musical no Rio de Janeiro, embora nunca tivesse parado
totalmente. Por várias vezes pediu licença na Câmara para fazer shows ou gravações. Quando
tinha acabado de assumir como vereador, lançou alguns discos preparados antes de seu
envolvimento político: Gilberto Gil em concerto, Soy loco por ti, América e Ao vivo em
Tóquio (1987), gravado numa excursão ao Japão e que saiu pelo selo Geleia Geral, que Gil
acabara de criar.
A década de 1990 chegou trazendo profunda tristeza. No dia 25 de janeiro de 1990, Pedro
Gil, então com 19 anos, baterista da banda do pai, sofreu um acidente na lagoa Rodrigo de
Freitas quando voltava para casa de madrugada. Após uma semana em coma, ele faleceu. Gil
desmoronou. Alguns anos depois, em 2000, ele declarou à revista IstoÉ Gente:
“Ali foi um momento da coleira absoluta. Para que o meu ego não se despedaçasse eu tive que segurar...
(emocionado, contém as lágrimas) Até que Jorge Amado e Chico Buarque me levaram para a Europa uns
vinte dias depois. E aí Jorge me levou para Nice, para o Carnaval. Fui com ele, Flora, e depois o Chico me
levou para uma pequena turnê pela Itália. Aquilo foi me ajudando, e eu fui retomando, reentrando na vida
aos poucos. Pedro foi enterrado no dia 2 de fevereiro de 1990. Fez dez anos agora (mais uma vez segura o
choro). E ficou aí a saudade dele...”
Para o jornalista Otávio Rodrigues revelou, cerca de vinte anos depois:
“Foi uma boa chamada de atenção que a vida me deu. Eu vinha celebrando muito a coisa da carreira. Eu
não quis deixar que a experiência se esvaísse na sua forma natural de eliminação, como urinar ou qualquer
coisa deste tipo. Eu quis reter um pouco, segurar um pouco a urina da experiência daquela dor. Até
porque foi uma semana de espera. A morte e a vida estavam ali, cada uma num prato da balança, e a gente
sem saber para que lado ela ia pender. Mas, ao mesmo tempo, hoje em dia, penso assim: ‘Se me
entregasse ao choro, ao desespero, ao ranger de dentes...’”
Tempos depois, em depoimento gravado à atriz Cissa Guimarães, que também perdeu um
filho, Gil já conseguia direcionar seu sentimento:
“Pedro era um molecão forte. Minha ligação com ele é permanente, através da lembrança e da memória
que está guardada num nicho especial das lembranças. É um campo que vai do densamente físico ao
etereamente espiritual. É a fé na vida que segura essas perdas. É por eles, que se foram, que nós queremos
continuar vivendo. Estendemos a vida em nós para estender a vida deles”.
Outra notícia triste o aguardava um ano depois. Em maio de 1991, seu pai, José Gil
Moreira, morreu, aos 78 anos, em Vitória da Conquista, onde vivia com dona Claudina. Mas,
como a morte e a vida vão se sucedendo, chegavam também notícias boas. Nascera em
Salvador, em 26 de junho de 1990, João, filho de Nara e primeiro neto de Gil. João veio
embrulhado para presente porque nasceu no mesmo dia do aniversário do avô. Outra boa
novidade foi o nascimento, no Rio de Janeiro, do caçula José, terceiro filho de Flora e oitavo
de Gil, em agosto de 1991.
A vida seguiu seu rumo. Em 1993, Gil e Caetano gravaram juntos o disco Tropicália 2
para comemorar 26 anos de Tropicalismo e trinta de amizade. Em julho, Gil foi homenageado
na noite brasileira da 27ª edição do Festival Internacional de Jazz de Montreux, com o
espetáculo Gilberto Gil and Friends, do qual participam Caetano, Gal, Chico Buarque,
Dominguinhos e Trio Esperança. Em setembro, todos os seus discos lançados originalmente
em LPs pela Philips foram relançados em CDs remasterizados pela Polygram, dentro da série
Colecionador.
Um acontecimento, anunciado no ano anterior, iria eletrizar o Sambódromo do Rio de
Janeiro e o coração de Gil no Carnaval. Em fevereiro de 1994, a Estação Primeira de
Mangueira, escola de samba das mais queridas dos cariocas e de muitos brasileiros,
homenageou Gil, Caetano, Bethânia e Gal, com um enredo sobre os Doces Bárbaros e o samba
Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu (de David Corrêa, Paulinho Carvalho,
Carlos Sena e Bira do Ponto). Os quatro fizeram um show na quadra da escola e participaram
do desfile na Marquês de Sapucaí. Para cada um dos quatro foi reservado um carro especial,
mas o de Gil teve problemas na hora do desfile e ele teve que dividir outro carro com
Carlinhos do Pandeiro. Nem por isso perdeu a alegria e sambou do início ao fim.
A carreira prosseguia. No mesmo ano, em junho, Gil, Caetano, Gal e Bethânia se
apresentaram juntos no Royal Albert Hall, em Londres, que teve a participação especial da
bateria da Mangueira. Em junho e julho, Gil e Caetano viajaram pelos EUA e pela Europa
com o show Tropicália duo , transposição acústica do Tropicália 2 . O disco Gilberto Gil
Unplugged foi lançado em 1994, e quando ensaiava para gravar o especial Unplugged Gil
recebeu a visita do produtor e baixista Rodolfo Stroeter e da cantora e compositora Marlui
Miranda. Depois do ensaio, Rodolfo falou da sua ideia de uma participação no disco de
Marlui. Gil topou, foi para São Paulo fazer a gravação e comentou com o produtor que havia gostado muito da maneira como a música havia acontecido e queria mais. Foi assim que surgiu
a ideia do CD O sol de Oslo. “Fiquei pensando como seria inédito e exato um encontro de
músicos criativos que pudessem dialogar livremente entre si, a partir de umas poucas ideias
preconcebidas em torno da força criativa dele”, disse Stroeter.
Encontraram-se tempos depois para planejar, Gil e Rodolfo empolgadíssimos. “Mário de
Andrade, Jackson do Pandeiro, Moacir Santos, tudo ia fazendo sentido. Era o Brasil que eu
tinha ouvido no ‘Domingo no parque’ da minha infância voltando”, escreveu Stroeter no
encarte da caixa Palco. O CD seria gravado na Noruega. O sol de Oslo foi produzido em
cinco sessões em condições muito especiais, como conta Stroeter:
“Havia uma amplificação curiosa, pois o material que se ia selecionando numa sala de ensaio — onde
ficamos trancafiados durante cinco ou seis dias — era dividido com um indiano, um norueguês e um
sideral sanfoneiro brasileiro. No entanto, tudo cheirava a Brasil, tudo tinha um sabor inequívoco de sertão.
Mas era só sair do ensaio e aquele frio escandinavo de novembro… Éramos sertanejos anônimos num
outro planeta. Mas então por que gravar lá? (Todo mundo me pergunta isso…) Porque sim. Porque, em
primeiro lugar, é importante estar estrangeiro e anônimo para que possamos nos reconhecer melhor.
Depois, porque lá tem um silêncio diferente. E, depois, porque seria fundamental celebrar um encontro de
música criativa tão forte no Rainbow Studio, com um engenheiro tão especial quanto Jan Erik
Kongshaug”. Gravado em 1994, o CD só foi lançado em 1998, tornando-se referência entre os músicos.
Um ano antes do lançamento do disco, Gil teve um problema nas cordas vocais. Um
pólipo, comumente chamado de calo, o obrigou a fazer uma cirurgia. Depois apareceu um
gânglio e os médicos suspeitaram de um câncer linfático. “Eu disse: ‘Tudo bem, se for câncer
não me operem, não façam nada’. Eles tiraram e não era câncer, mas decidi reprogramar
minha vida, minha dieta alimentar. Voltei à minha prisão”, disse à revista IstoÉ, em 1998.
A alimentação sempre foi uma preocupação na vida de Gil, desde a adoção da
macrobiótica nos anos 1970, embora nunca tenha sido rígido em relação a isso. Flora revela
que Gil acha a carne de porco a mais gostosa. Seu filho Bem diz que no meio de um papo
sobre macrobiótica Gil já confessou que o que gosta mesmo é de bacon. Como sempre foi
aberto na maneira de pensar o mundo, voltar à “prisão”, ou a uma maior rigidez, é, muitas
vezes, uma simples correção de rumo. Abre o leque para comer carne-seca e costeletas, mas
depois volta à disciplina da leveza alimentar.
Apesar de ser cuidadoso com a saúde, Gil enfrentou contratempos que abalaram seu bem-
estar físico. Houve uma época em que o esforço repetitivo causado pelo uso praticamente
diário do violão lhe valeu uma incômoda tendinite na mão direita. Como, na maioria das
vezes, ele prefere buscar as soluções oferecidas pela medicina oriental, para resolver o
problema recorreu, durante um bom tempo, à acupuntura. Em outras ocasiões, a questão foi
mais séria. Em 2007, Gil fez nova cirurgia para retirar pólipos das cordas vocais. Já era a segunda vez que passava por esse procedimento.
A voz exige mais cuidados. Numa entrevista ao jornalista Fábio Rodrigues, em junho de
2009, para a revista Expressions, admitiu a necessidade de “uso mais parcimonioso, para não
estragar a voz. Me imponho uma disciplina porque o meu desejo é continuar cantando
enquanto viver”. E admitiu também mudanças de timbre.
“Isso é, primeiro, uma coisa natural, causada pelo envelhecimento das cordas vocais. Elas vão mudando e
eu preciso ser mais contido, principalmente na escolha das alturas. Tenho que cantar nas tonalidades mais
médias, mais cômodas, que exijam menos esforço. Ao mesmo tempo, as intervenções cirúrgicas, com a
remoção dos pólipos, e as intensas sessões de fonoterapia a que tive de me submeter acabaram por me
dar uma extensão maior de voz.”
Gil tem hoje mais graves e mais agudos. “Se precisar, eu vou mais longe do que ia antes”,
diz.
A idade e os netos foram chegando. Em janeiro de 1995, nasceu, no Rio de Janeiro,
Francisco, filho de Preta, segundo neto de Gil. Em 1996, nasceu Pedro, em Salvador, filho de
Marília. Em 1998, vieram ainda Lucas Gil e Gabriel, os gêmeos, também filhos de Marília.
Ciência e arte
Depois de quase um ano e meio dedicado ao projeto Unplugged, Gil entrou no estúdio Nas
Nuvens para gravar seu primeiro disco só de músicas inéditas em muitos anos. Acompanhado
pela banda da turnê Unplugged — Celso Fonseca, Arthur Maia, Jorge Gomes, Marcos
Suzano, Gustavo di Dalva e Lucas Santtana — Gil gravou Quanta, em 1997, contando com os
velhos companheiros Raul Mascarenhas (sax) e William Magalhães (teclados), além do
produtor Liminha. Quanta foi um dos discos mais caros e demorados da história da MPB,
segundo o jornalista Marcelo Fróes escreveu na caixa Palco. O produto final é um álbum
duplo, com 26 faixas, e passou a representar para a carreira de Gil, segundo Fróes, o que o
The Beatles (ou Álbum branco, como ficou mais conhecido) representou para os Beatles.
As incursões no mundo da ciência e o envio do disco Quanta ao físico brasileiro César
Lattes (1924 -2005), codescobridor da partícula subatômica méson pi, renderam uma
saborosa carta de Lattes em resposta a Gil e seu trabalho:
“Prezado Gil,
Agradeço as atenções e remessas.
Não tenho os conhecimentos musicais que me permitam dar uma apreciação à altura do K7 que você me
enviou. Posso dizer que gostei muito, assim como já havia apreciado toda a obra de Gilberto Gil que
chegou ao meu conhecimento.
Peço apenas que me permita dizer o sentido que a física dá atualmente a algumas palavras que você usou,
com muita felicidade, mas que em alguns casos me parecem licença poética:
O ‘infinitésimo’ é uma ficção matemática.
Quantum é o mínimo de ação (energia x tempo).
O Quantum de ação é mais real do que a maioria das grandezas físicas: seu valor não depende do
movimento em relação ao observador.
Tiraria ‘Quark’, que está na moda com ‘cromodinâmica quântica’, mas que só pode aparecer escondido.
Não engoli ainda, apesar dos livros modernos e da Enciclopédia Britânica. Sobre as letras:
‘Ciência e Arte’: comovido agradeço a atenção.
A ciência se insemina subliminarmente.
A ciência é uma irmã caçula (talvez bastarda) da arte: Camões pediu ajuda do engenho e da arte — não da
ciência. Salomão diz que ‘ciência sem consciência não é senão a ruína da alma’ — a arte, não.
Paro por aqui, porque Salomão também diz: ‘Não busques ser demasiado justo nem demasiado sábio:
queres te arruinar?’
Para concluir cito um grande arquiteto: ‘Quando a ciência se cala, a arte fala’ (Artigas).
Com um abraço,
César Lattes
Campinas, 05 de fevereiro de 1997”
Em Quanta, Gil reuniu as suas reflexões sobre ciência:
“Quanto mais eu leio sobre o quantum da matéria, sobre essa abolição da escravatura da física do
mecanicismo, do paradigma cartesiano, mais eu fico pensando porque eu resolvi passar quase cinco anos
dedicando uma especulação sobre isso a um trabalho artístico, acabando por fazer um disco duplo,
enorme, exaustivo, até confuso para muita gente. Mas é bacana que eu tenha feito. E a confusão se parece
muito comigo mesmo, com o modo como a minha mentalidade se insinua por aí, pelo mundo, pelos
fazeres, pelo meio das coisas”.
Suas ideias se mostram em cada palavra da canção, como no trecho abaixo:
Quanta do latim
Plural de quantum
Quando quase não há
Quantidade que se medir
Qualidade que se expressar
Fragmento infinitésimo
Quase que apenas mental
Quantum granulado no mel
Quantum ondulado no sal
Mel de urânio, sal de rádio
Qualquer coisa quase ideal
Cântico dos cânticos
Quântico dos quânticos
Depois de Quanta, ele lançou no ano seguinte Quanta gente veio ver, em álbum duplo e
ao vivo, que celebrava o enorme sucesso da turnê mundial e que ganhou o Grammy Award da
Academia Americana de melhor disco, em 1999.
O envolvimento de Flora em projetos na web acabou inspirando Gil a compor “Pela
internet”, em 1996, pouco antes de ele se lançar à tentação irresistível do mundo high-tech.
Não eram apenas as experimentações musicais que o moviam. Ele começava a mergulhar nos
mistérios da física quântica — que surgiu na esteira da busca contínua do homem pela
compreensão do cosmos —, nas maravilhas do universo internáutico e na contemplação da
união de ciência e arte.
Criar meu web site
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje
(“PELA INTERNET”)
O Carnaval de 1998 em Salvador não poderia ficar de fora das comemorações dos trinta
anos do Tropicalismo. Gil subiu no seu trio elétrico com vários convidados famosos e tornou-
se uma das grandes atrações daquele fevereiro.
Mas nem só de Carnaval era feita sua vida: a política voltava a falar mais alto. No final
daquele ano, ele estava cotado para ser ministro do Meio Ambiente no novo governo que
estava sendo montado pelo recém-eleito presidente Fernando Henrique Cardoso. Sua
militância nas questões ecológicas o tornavam um forte candidato, mas ele acabou não sendo
chamado.
No entanto, o mundo o solicitava cada vez mais. As turnês internacionais se repetiam a
cada ano, com exceção do ano 2000. Gil ia acumulando prêmios. Em novembro de 1999, Gil,
Caetano, Gal, Chico Buarque, Elza Soares e Virgínia Rodrigues apresentaram, no Royal
Albert Hall, em Londres, o show Since Samba Has Been Samba (Desde que o samba é
samba).
O show era parte das comemorações dos quinhentos anos do Descobrimento do Brasil e
foi uma das maiores reuniões de artistas consagrados brasileiros que a Inglaterra já vira. Os
cinco mil ingressos esgotaram três semanas antes. Segundo o correspondente da Folha de S.Paulo na época, Fábio Zanini, a revista semanal Time Out , especializada em eventos
culturais na capital britânica, definiu o Tropicalismo como “um movimento com músicas
densas e letras inteligentes, inseridos em uma bizarra e bela mistura de samba, bossa nova e
elementos do rock psicodélico”. Caetano foi considerado pela revista “o papa do
Tropicalismo”, enquanto Gil ganhou o apelido de “Bob Marley brasileiro”.
Os encontros ao longo do caminho foram também rendendo frutos importantes. O novo
milênio prometia. Uma conversa iniciada com Milton Nascimento no lançamento do disco
Quanta, no qual ele gravou a música “Sala de som” dedicada ao cantor e compositor mineiro,
foi amadurecendo até que começaram a gravar um disco juntos, com canções dos dois, que foi
lançado mais adiante. Na época, a jornalista francesa Véronique Montaigne, crítica de música
do Le Monde, escreveu:
“Esses dois ícones da MPB tinham material para alimentar um longo papo, sendo ambos um produto direto
da história do Brasil e da diáspora negra nas Américas. Os 15 títulos deste álbum a dois dão equilíbrio ao
movimento oscilatório entre a vastidão das Gerais, com seus santos mártires (tal como são Sebastião
transpassado de flechas) e o vaivém incessante das ondas na baia de Salvador. Brasil legal esse, que ainda
curte a mistura de raças — índios, negros e brancos, quinhentos anos depois do descobrimento”.
O talento documentado
Gil ganhou também belos documentários que falam dele e de sua música. Tempo rei , de
1996, dirigido por Andrucha Waddington, Breno Silveira e Lula Buarque de Hollanda, da
Conspiração Filmes, celebra trinta anos da carreira de Gil. Filhos de Gandhy, de Lula
Buarque de Hollanda, parcialmente filmado na Índia, revela, através das memórias de seus
idealizadores, a origem e as histórias do bloco carnavalesco baiano que Gil ajudou a reerguer
ao tornar-se integrante ativo do grupo em 1973. Viva São João, do diretor Andrucha
Waddington, foi lançado em 2001 e filmado durante uma turnê do artista pelas festas juninas,
tão caras a ele. O filme faz um paralelo sobre a história das festas de são João e sua
importância onde quer que aconteçam. O cinema continuou a ser parte do seu trabalho, fazendo
as trilhas para filmes. Como a de Eu tu eles, que privilegia os clássicos de Luiz Gonzaga e
acabou virando disco, lançado em 2000.
Gil prosseguia, como em toda a sua carreira, buscando a síntese da sua história e do seu
trabalho. Quando lançou, em 2002, o CD Kaya N’Gan Daya o desejo de homenagear Bob
Marley, com quem já gravara antes, mais a incursão que fizera recentemente pelos caminhos
de Luiz Gonzaga na trilogia que incluía o disco São João vivo (2001), a trilha de Eu tu eles e
o documentário Viva São João o impeliam para um combinação inusitada: “Na verdade,
encontrei uma espécie de similitude entre o Cangaceiro e o Rastaman. Ambos causando-me a mesma impressão de estranheza, beleza e grandeza em seus processos/projetos de vida”,
escreveu, na apresentação do disco.
“O Cangaceiro: estrelas de david ornando seu chapéu exótico, mal encobrindo cabelos longos e crespos,
sua roupa de campanha, cartucheiras em cruz sobre o peito, os pés calçando pregatas de rabicho, as
mãos armadas com fuzil para a luta pela liberdade e a justiça. O Rastaman: as mesmas estrelas de david, o
leão de Judá, sua juba em dreadlocks descobrindo, enfatizando cabelos também longos e crespos, sua
roupa de campanha, a comida vegetariana, a maconha e nos lábios, numa língua cheia de novos signos,
um discurso, arma para a luta também pela liberdade e a justiça. Para um artista, músico como eu, o foco
obviamente recairia sobre a música que se liga e se refere a ambos, o Cangaceiro e o Rastaman, e os
associa, direta ou indiretamente, a dois dos maiores artistas da música popular do século que passou. Dois
mestiços, em todos os sentidos, dois dos meus maiores ídolos: Luiz Gonzaga e Bob Marley”.
No fim de 2000, foi lançada a caixa Palco. Apresentava um apanhado importante de uma
carreira mais que consolidada, o retrato de uma vida entrelaçada com a música. A caixa traz
toda a discografia de Gil da Warner, entre 1975 e 2002, e que inclui farto material inédito,
como sobras de discos, mas também a trilha do filme Quilombo, do diretor Cacá Diegues, de
1984, inédita no Brasil, e do disco Z: 300 anos de Zumbi, composto para o Balé da Cidade de
São Paulo, em 1995. A caixa reúne 28 CDs de Gil, dois discos jamais lançados no Brasil,
Nightingale (1979) e Quilombo, e é reveladora da qualidade inspirada e variada da sua
música.
FRONDOSA FLORA
Tranquilize seu coração
Nosso amor virou pedra e não
Temos força pra quebrar não
(“QUATRO COISAS”)
No depoimento de seis horas que deu ao Museu da Imagem e do Som, em 2012, ano em que completou setenta
anos, Gil falou com imenso carinho da mulher que organizou sua vida e seus afetos, e conduziu com maestria, desde
que se casaram, em 1980, tudo o que revolve em torno dele. “Flora teve um papel importante na minha vida, o de
unificar a família, essa superfamília, a transfamília que se formou em torno de mim. Ajudou a recuperar minha
amizade com (as ex-mulheres) Belina, Sandra e Nana.” Na célebre foto do aniversário de cinquenta anos de Gil, em
junho de 1992, ele aparece com Flora e suas três ex-mulheres reunidas em sua casa.
Flora impulsionou os negócios de Gil, recuperou na Justiça os direitos autorais sobre a sua parte em 120 músicas
compostas por ele nos primeiros vinte anos de carreira, que agora estão na sua própria empresa, a Gege. Ela dirige a
Gege Produções, o selo de música Geleia Geral e é sócia da Refazenda Webdesign no Rio de Janeiro, além da Alafia
Produções e da Editora FG em Salvador. É dona, também, do selo Preta Music, que controla os direitos autorais das
músicas de Gilberto Gil em Nova York.
“Quando casamos as músicas do Gil estavam em algumas editoras administradas por grandes gravadoras. Ele fazia uma música e editava na Gapa (G Araújo), outra no Waldemar Marchetti, estava tudo espalhado. Resolvi então pegar tudo e trazer para a Gege Edições. Demorou muitos anos e muitas brigas na Justiça. Hoje temos mais de mil músicas de Gil e de outras pessoas e tenho muito orgulho disso. É o que fica para a família, para os filhos, é o que vamos deixar. Está tudo organizado. Eu sou uma pessoa organizada. Gosto de organizar.”
Empreendedora incansável, Flora garante que nada disso teria acontecido se Gil não tivesse participado. Sentada
no sofá da ampla sala, com vista para a baía de Todos os Santos e Itaparica, do seu apartamento em Salvador, em
setembro de 2012, Flora fala da solidez do seu encontro de uma vida inteira com Gil: “Estamos casados há 32 anos.
Foi meu primeiro casamento. Eu tinha 19 anos. Não me vejo casada com outra pessoa. Começar tudo de novo? Com
Gil me sinto muito junto”.
Ao trabalhar na Gege Produções, Flora passou a ler os contratos minuciosamente e comprou briga com velhos
amigos do cantor para reaver a exploração dos direitos autorais de músicas antigas. Com sua administração financeira,
a família tem hoje um bom e seguro patrimônio, um apartamento em São Conrado, no Rio de Janeiro, e outro no
Corredor da Vitória, em Salvador. Quando ela conheceu Gil, ele tinha apenas um sítio em Jacarepaguá.
Mas Flora é muito mais que uma “organizadora” da carreira de Gil. Ela cuida do marido, dos filhos e das casas
com dedicação invejável. Seu filho mais velho, Bem, diz que ela resolve tudo: em casa, no trio elétrico ou no camarote.
Flora criou com Gil o Camarote Expresso 2222, um dos mais famosos, que abre suas portas no Carnaval de Salvador
para receber convidados e participar da folia baiana. Isabela e José são seus outros dois filhos com Gil, mas, para ela,
a família Gil é uma só e engloba todos os filhos e netos do marido.
Num depoimento para a revista Rolling Stone, Gil exaltou o papel de Flora na sua vida:
“Eu tinha vários filhos, várias ex-mulheres e tudo mais quando a conheci. Um pacote do Gil Moreira que a Flora botou no colo, integralmente! Mesmo ali, no próprio reduto afetivo da minha
vida, ela também foi ali. Meus filhos, meus parentes, meus amigos, meus pais, minha mãe. Tudo! Ela assumiu que há uma grande família Gil, e que é dela também. Jogou com habilidade esse jogo afetivo amplo dentro das famílias e unificou tudo, incluindo o entorno da família, como os amigos todos”.
No mesmo artigo, Preta dá uma opinião certeira:
“Flora sabe gerir, empreender, tudo com uma precisão muito grande. As coisas partem sempre da vontade dele. O que ele está vislumbrando, as ideias que ele começa a rabiscar na cabeça, a Flora tem a capacidade de transformar num projeto rapidamente, o que é muito bom para um artista. Eu vejo isso acontecer há muito tempo. É sempre um disco por ano, um filme por ano, acho que funciona muito bem. Mas ele que rege a carreira dele, ele decide o que quer, ao contrário do que as pessoas pensam. Tem muito essa visão de que a Flora manda. Na verdade ela é uma realizadora dos desejos dele”.
Flora conhece bem o marido e entende seu universo:
“Gilberto é simples, mas misterioso. Ele fica ali quieto no quarto, ele medita. Não atrapalho, não pergunto nada, faço as coisas como se ele não estivesse ali. Convivemos na paz, adoro isso. Não brigo com Gil, e olha que sou muito briguenta. Às vezes ele é meio ranzinza. Mas brigamos pouquíssimas vezes na vida. Ele gosta muito mais da contemplação do que da briga ou da discussão. É um cara zen”.
São tão raras as brigas que Flora se lembra de um episódio num show em Recife, no Teatro Guararapes, quando
ela brigou com Gil no camarim, “uns vinte anos atrás”. Gil subiu no palco ainda escuro e quando acenderam as luzes
ele deu um tapa no microfone de pedestal e o microfone caiu. Estava irritadíssimo. Alguém foi lá e levantou. Ele deu
outro tapa e o microfone caiu de novo. Flora estava na plateia. Então, ele saiu do palco e entrou de novo. E disse:
“Desculpem, vou fazer um show perfeito para vocês, mas é que estou com um problema pessoal”.
Flora fala de Gil com carinho:
“É uma pessoa generosa. No palco deixa os outros aparecerem. É diplomático. Gil facilita, com ele é fácil, é do temperamento dele. Mas também só faz o que quer. Só faz o show que quer, canta o que quer. Sempre foi assim. Acho incrível, por outro lado, a generosidade dele. Essa coisa de ficar mais quieto é assim também com a família. Não é aquele pai que liga para os filhos todo dia pra saber se está tudo bem. Quando me casei ele já tinha cinco filhos: Nara, Marília, Pedro, Preta e Maria. No começo eu ficava ligando para eles e ele achava aquilo ótimo. Gil gosta de trazer os filhos para perto, mas não faz o movimento. Eu gosto de casa cheia, de todo mundo junto. Ele não gosta de briga, de confusão, longe disso. Mas não é do tipo ‘não me perturbe, sou um gênio, estou criando’. Pode estar criando vendo novela”.
Flora adotou também a cidade onde Gil nasceu. Tem uma forte ligação com Salvador. Criou-se católica, como Gil,
mas frequenta o terreiro Ilê Omorode Axé Orixa N’la, de pai Augusto César. Antes frequentava a casa de Mãe
Menininha, que descobriu que Flora é filha de Ewa, “orixá misterioso, invocado, arredio, valente e cismado”.
Depois que Bem nasceu, Flora e Gil foram viver em Salvador. Isabela, a segunda, nasceu lá. Nessa época Preta e
Maria moraram com eles. Quando voltaram para o Rio de Janeiro, nasceu José. Flora tinha então trinta anos.
Para Gil a presença da mulher é uma tranquilidade.
“Ele não precisa se preocupar com nada. Se perguntar para ele qual o banco em que ele tem conta talvez não saiba. Não sabe nada do cartão de crédito, vencimento, valor, nada. O escritório
paga. Ao mesmo tempo, se eu morrer amanhã, ele não vai ficar perdido porque ele sabe fazer tudo isso, ele estudou administração. Só que vai achar um saco. Além disso, temos um time bom.”
Sobre a criação, Flora admira a agilidade do marido.
“Ele tem uma ideia, rabisca um pouco, senta e faz direto. Nunca vi demorar mais de três dias fazendo uma canção. Mas pode virar a noite. Anos atrás eu ia dormir com ele tocando na sala, acordava e lá estava ele, ainda com o violão na sala. ‘Ah, fiz uma música ontem.’ Às vezes ele está lá com o violão e me chama. Sai assim. Parece que aperta um botão.”
Flora organizou a vida profissional de Gil e a equipe que trabalha com ele. “É uma superequipe, e tudo muito
família.” Maria, filha de Gil, cuida da agenda de entrevistas, das viagens, coisas não relacionadas com música.
“Ela viaja com a gente, cuida do camarim, da roupa. Fafá, minha irmã, é a produtora. Viaja com a Maria. Eveline toma conta de todo o direito autoral. Regina cuida da Gege pessoa jurídica. André e Neuci cuidam da parte de internet. Jerry só viaja no internacional. São 12 pessoas no escritório. Gilda Mattoso é a assessora de imprensa, que trabalha fora da produtora. Gil é muito requisitado, tem muito pedido de show, de participação em programa de TV, de seminários, palestras, de música para comercial, prefácio de livro, roda de samba, composição, gravação no CD ou DVD de alguém. Queria reunir tudo dele, consegui um patrocínio e estamos fazendo o acervo. Uma parte grande na internet, no portal Gilberto Gil e no portal do Instituto Antônio Carlos Jobim, e a parte física na Gege.”
Como diz a música que Gil fez para Flora logo que se conheceram, ela “multiplicou a ramagem” em todos os
aspectos de sua vida e tornou-se “árvore frondosa”.
“ FLORA”
Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
Mais tarde, no repertório do disco Banda larga cordel, de 2008, Gil incluiu outra música que fez para Flora:
“ A FACA E O QUEIJO”
Você reclama
Que eu não lhe faço uma canção
Acha que a chama
A velha chama da paixão
Não nos inflama mais
Com tanto ardor
Como na época em que éramos
A faca e o queijo
A faca e o queijo
E o desejo tinha mãos
E as mãos, traquejo
No bom manejo da emoção
No jeito de tomar
No ato de cortar
No simples fato de juntar
A faca e o queijo
A gente ama
E o amor produz transformações
A velha chama
Acende novas ilusões
Com mãos bem mais sutis
Novos desejos
Vão tornando nossos beijos
Mais azuis, menos carmins
Você reclama
E eu sei que é só por reclamar
Como quem chama
Outra criança pra jogar
Seus jogos infantis
Ainda nos vejo como outrora
Faca e queijo, sim
Num tempo mais feliz