Gilberto Bem Perto

Gilberto Gil · Capítulo 7 de 13

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Gilberto Bem Perto

Capitulo 6: A carreira que segue, a política na Bahia “O que a gente não pode, explodirá”

“Tenho prazer e dor, muito sofrimento, mas é assim mesmo. Ao longo dos anos, a dor foi me ajudando a

compreender o sentido da vida. A dor é a dor, e o prazer é o prazer, mas eles são no fundo uma coisa só,

eles são sustentáculos do ser, não há existência possível sem um ou sem outro. Daí talvez essa obstinação

dos iogues, dos ascetas, no sentido de superar essa dicotomia e harmonizar inteiramente, para cair numa

terceira com a qual durante muito tempo flertei. Desejei e quis ser santo. Mas ser santo é muito difícil e eu

não consegui. Talvez não tenha investido com tanto empenho. Será que não é mesmo esse terceiro lugar o

vazio? Os santos dizem que esse lugar é aqui mesmo, é na própria dimensão humana, é na tensão terrena.

E aí fui me conformando com isso. Era como não querer mais ser santo.”

 

Campanha para vereador em Salvador, 1988.

A CARREIRA QUE SEGUE,

 

A POLÍTICA NA BAHIA

 

“O que a gente não pode, explodirá”

“Realce”

 

Música, paixão, política e dor. Em três décadas, Gil viveu sentimentos extremos,

experimentou mais uma vez a consagração e escreveu música sobre quase tudo, tendo sempre

como norte o mergulho profundo. A carreira se consolidou com o lançamento de uma trilogia

fundamental: Refazenda, em 1975, Refavela, em 1977, e Realce, em 1979, lançados em

sequência. A fase dos discos “re” foi marcada pelo “gosto da aventura intelectual e estética”,

como Gil afirmou, em 1999, à revista IstoÉ Gente.

“Pela transformação do estado de consciência que eu vivia com frequência, saindo do estado sóbrio para o

transformado, naquelas práticas quase que diárias de uso de maconha, de uso periódico de ácido

lisérgico, de mescalina. Era um grande fetiche, que exorcizava demônios e abria as portas para anjos.

Depois, já não me davam mais nada e eu parei com tudo.”

 

A redescoberta do baião e dos ritmos nordestinos, aliada às novas experimentações que já

havia introduzido na sua música, fez do álbum Refazenda um marco. Já Refavela surgiu de

uma experiência na África, mais especificamente em Lagos, na Nigéria, onde Gil participou,

junto com Caetano, do 2º Festival Mundial de Arte e Cultura Negra, no começo de 1977. A

viagem durou um mês e rendeu inspiração. Gil disse ter reencontrado a “paisagem sub-urbana

dos conjuntos habitacionais surgidos no Brasil a partir dos anos 1950, tirando muitas pessoas

das favelas e colocando-as em locais que, em tese, deveriam recuperar uma dignidade de habitação, mas que, por várias razões, acabaram se transformando em novas favelas”.

A paisagem nigeriana deixou uma forte impressão.

“Para abrigar os cinquenta mil negros do mundo inteiro que para lá acorreram, tinha sido construída uma

espécie de vila olímpica com pequenas casas feitas com material barato e um precário abastecimento de

água e luz, que reavivou em mim a imagem física do grande conjunto habitacional pobre. ‘Refavela’ foi

estimulada por este reencontro, de cujas visões nasceu também a própria palavra, embora já houvesse o

compromisso conceitual com o ‘re’ para prefixar o título do novo trabalho, de motivação urbana, em

contraposição a Refazenda, o anterior, de inspiração rural.”

 

O disco saiu com um manifesto, assim como Refazenda e Realce.

 

MANIFESTO DE REFAVELA

 

Refavela, como refazenda, um signo poético.

Refavela, arte popular sob os trópicos de câncer e de capricórnio.

Refavela, vila/abrigo das migrações forçadas pela caravela.

Refavela, como luz melodia.

Refavela, etnias em rotação na velocidade da cidade/nação.

Não o jeca, mas o zeca total.

Refavela, aldeia de cantores, músicos e dançarinos pretos, brancos e mestiços.

O povo chocolate e mel.

Refavela, a franqueza do poeta; o que ele revela;

o que ele fala, o que ele vê.

 

Segundo Gil, a informação forte da música “Refavela” está nas duas primeiras estrofes.

“Perto delas, o resto é ornamento.”

 

A refavela

Revela aquela

Que desce o morro e vem transar

O ambiente

Efervescente

De uma cidade a cintilar

A refavela

Revela o salto

Que o preto pobre tenta dar

Quando se arranca

Do seu barraco

Prum bloco do BNH

 

(“Refavela”, 1977)

 

A entrevista a Marcelo Fróes para a caixa Palco revela a intenção do artista com o disco:

“Era época do movimento Black Rio, com o funk começando por aqui e eu quis gravar algo como aquela

versão de ‘Samba do avião’”, lembra Gil. “O disco era para isso, para registrar os ‘afrorismos’ da época —

como era a juju music de Balafon e os blocos afro-baianos de Ilê Aiyê. Eu trouxe um balafon típico da

região do Golfo da Guiné e fiz ‘Balafon’”.

 

Refavela foi lançado em maio e, em outubro e novembro, Gil fez Refestança, da Som

Livre, a partir de uma série de shows com Rita Lee, que havia saído dos Mutantes e seguia

carreira solo.

A carreira estava a pleno vapor. Em julho de 1978, Gil viajou com Sandra e as crianças

para os EUA, e viveram quase um ano em Los Angeles, para que ele preparasse a gravação do

seu primeiro disco feito para o mercado internacional, produzido por Sergio Mendes. Gil

compôs algumas músicas e verteu para o inglês outras de Refazenda e Refavela. Com a

canção “Nightingale” como música-título do álbum e outras como “Sarará miolo” e “Here and

Now” (a versão de Gil para “Aqui e agora”) o disco foi sendo preparado. Ele fez duas

músicas inéditas: “Move Along With Me”, em inglês, e “Samba de Los Angeles”, que só foi

gravada nesse disco. Foi entre o planejamento e a gravação que Gil foi com Rubão, o baixista

que havia seguido com ele para Los Angeles, para o festival de Montreux, na Suíça.

Até Nightingale, seus discos só haviam alcançado a América do Sul. Com o sucesso da

música de trabalho “Sarará miolo”, ele penetrou na Europa, fez a primeira turnê nos EUA e foi

lançado no Japão. No final de 1978, Gil ainda fez apresentações em Buenos Aires e passou

pelo Brasil para fazer shows de verão e uma temporada no Teatro Vila Velha. Entre março e

maio de 1979, enquanto viajava de ônibus na turnê das universidades americanas, foi

trabalhando num novo disco a partir de ideias que trouxera do Brasil. Em Salvador, compôs

“Toda menina baiana”, inspirada em sua filha Nara, então adolescente, e “Rebento”. No final

da temporada americana, começou a gravar o LP Realce, em Los Angeles. Levou do Brasil a

banda com Rubão Sabino (baixo), Luiz Carlos (bateria), Tuca (teclados) e Djalma Correa

(percussão). Os outros músicos eram americanos e foram contratados na Califórnia, seguindo

a sugestão do produtor Mazola.

Nesse meio-tempo, Gil foi convidado a integrar o Conselho de Cultura do Estado da

Bahia, do qual Maria Bethânia também passou a fazer parte, compondo os dois a Câmara de

Música. Gil assumiu em julho de 1979, tornando-se o primeiro negro a ocupar o cargo. Ainda

nesse ano, lançou em compacto um de seus maiores hits: “Não chore mais”, sua versão para o

reggae “No Woman, No Cry” (de B. Vincent), gravado por Bob Marley. O disco, que tinha no

lado B “Macapá”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, vendeu 750 mil cópias.

 

O amor floresce Em janeiro de 1979, antes de voltar aos EUA para a gravação de Realce, um acontecimento

mudaria a vida do cantor. Gil conheceu a paulista Flora Nair Giordano, em Salvador. Flora,

com quem Gil se casaria no ano seguinte, tinha 18 anos e estava de férias na Bahia. O encontro

aconteceu na saída de um show de Baby Consuelo. A jovem estudava no colégio Objetivo, em

São Paulo, e começou a trabalhar como vendedora em uma loja de shopping, um pouco antes

do Natal de 1978. Três meses depois já era gerente. Como foi a melhor vendedora do período,

ganhou uma viagem em que podia escolher entre Fortaleza e Salvador. Escolheu Salvador. Foi

para lá pela primeira vez e se hospedou no Salvador Praia Hotel, com tudo pago. Dois dias

depois, conheceu o homem com quem viveria pelas próximas décadas.

Gil jamais se esqueceu daquele show da Baby:

“São essas coisas circulares da vida. Eu saí à noite e fui para um show da Baby Consuelo. A própria Baby

tinha conhecido Pepeu Gomes no Barra 69, show de despedida da gente. Ela foi ao show no Teatro Castro

Alves e conheceu o Pepeu tocando. Começaram a namorar ali, naquele dia. Anos depois, vou a um show

dela e conheço a Flora”.

 

Logo que terminou a apresentação de Baby Consuelo, Gil, acompanhado da filha Nara e

da amiga Regina Casé, caminhava na direção do seu Chevette quando duas moças pediram

carona. Uma delas se chamava Angélica e a outra, Flora. No caminho, foram conversando,

trocando ideias. Não demorou muito para a tal da química entrar em ação. “Era o tempo em

que ele usava no cabelo os tererês com aquelas bolinhas brancas”, diverte-se Flora, que,

alguns anos depois de se casar com Gil, tornou-se sua empresária e produtora associada.

Depois da carona, Gil passou a telefonar para a menina paulistana e marcava encontros na

praia. Após uma semana de férias em Salvador, Flora voltou para São Paulo, mas não resistiu

aos apelos do Carnaval baiano e, em fevereiro, estava de novo na cidade. Foi quando Gil

mostrou a ela a música “Flora”. Ele diz que na canção havia um convite, um projeto de vida

em conjunto. “Foi a cantada que faltava”, assegura.

Os irmãos Gildina e Gil.

Os Doces Bárbaros, em 1976.

Gil, Flora, Marina Morena, Bem e José Gil.

Com Steve Wonder, Flora e músicos de Gil (Rubão Sabino, Jorjão e Raul Mascarenhas), em 1995.

Na porta do consulado brasileiro em Londres, como ministro. No detalhe: Gil em cena e com o filho Bem

beijando sua testa (gravação de Banda dois, 2009).

Preta, Pedro e Maria Gil.

Gil no estúdio Tuff Gong (Jamaica), gravando Kaya N’Gan Daya, em 2001.

Marina Morena e Bem Gil

Em visita ao Taj Mahal, na Índia.

Com Flora e Bem Gil nas costas.

Gil na Jamaica, para a gravação de Kaya N’Gan Daya, em 2001.

Com Flora, Lula e dona Marisa, numa festa junina na Granja do Torto.

Gravação de Fé na festa no Retiro dos Artistas. No detalhe: quatro flagrantes em Paris, durante o exílio.

Gil no palco, durante a gravação do Acústico MTV.

Gil com Sandra Gadelha (Drão), em Londres, durante o exílio (1969/1972).

 

Gil no Carnaval da Bahia.

Gil ministro.

Eles ainda não namoravam quando Gil fez a canção.

“Telefonei para um amigo comum e pedi um favor: ‘Diga que eu quero vê-la, que vou estar no Teatro Vila

Velha entre quatro e seis da tarde. Tenho uma coisa pra mostrar’. Quando ela chegou, eu cantei a música.

‘Flora’ foi, portanto, uma cantada literal. Cantei Flora na canção e com a canção. É minha única canção-

cantada, que bom que tenha ficado suficiente em beleza e elegância. A alma exigia capricho: o sentimento

era intenso, e o desejo, de uma relação durável. O que eu cantava não era só uma pessoa, mas toda uma

vida com ela. Na letra eu já a imagino ‘idosa’, ‘bela senhora’, ‘futura’. Elis é que me disse: ‘Nunca uma

mulher teve de um homem uma música dessa!’ Uma música em que já se-lhe-oferecia a conformidade a

estados que iriam aparecer na sucessão de eventos no tempo.”

 

Pelo chão, muitos caroços

Como que restos dos nossos

Próprios sonhos devorados

Pelo pássaro da aurora

Ó, Flora

 

(“Flora”, 1979)

 

Flora e Gil começaram a namorar. Mas ele ainda estava casado com Sandra. Na época, a

família Gil vivia em Salvador, numa casa de três quartos, “pequena e bonitinha”. Flora voltou

para São Paulo depois do Carnaval e eles passaram a se encontrar do jeito que dava. Ora na

capital paulistana, ora no Rio de Janeiro. Falavam-se pelo telefone o tempo inteiro, e foram

muitas idas e vindas. Quando Gil aparecia na loja em que Flora trabalhava, era um frisson

entre as vendedoras e os clientes. No começo, a família da moça ficou furiosa. Afinal, Gil era

casado, tinha cinco filhos e duas ex-mulheres. Em 1980, Gil e Sandra se mudaram para

Ipanema. E logo em seguida se separaram. Ele, então, se mudou para seu sítio em Jacarepaguá

e foi viver com a sua Flora.

O fim do casamento com Sandra e o início da relação com Flora resultaram em duas belas

e marcantes canções: “Flora”, para saudar o novo amor, e “Drão”, a despedida de Sandra,

“uma música difícil de concretizar, tamanha a emoção envolvida”. Em “Drão”, as palavras

tinham que ser ainda mais precisas:

“Outra exigência que eu me colocava era de não me precipitar. Eu queria que o fazer, a prática, o

empirismo da realização fossem observados pelo meu ser ali a distância. Eu tinha que contemplar o feitio

da canção. Ao lado do esforço, da tensão concentrada, tinha que haver a descontração, o relaxamento

concentrado — as duas coisas, e todas essas exigências sobrepostas determinando o modo de compor a

canção”.

 

“Drão” fala de um novo sentimento que pode surgir com o fim de uma história de amor que durou dez anos. “Uma poesia profunda e sutil do amor e do desamor”, diz Gil. A dificuldade

de passar tanta coisa numa canção só foi inteiramente confessada no livro Gilberto Gil: todas

as letras, de Carlos Rennó.

“Eu me lembro de estar sentado no chão, anotando frases no caderno, com o violão do lado, e de repente

sentir o sufoco do coágulo da criação, e ao mesmo tempo a iminência da explosão da via criativa, e não

aguentar, saindo dali e indo para o quarto me deitar e deixar, então, aquele coágulo se dissolver, criando

filetes que se encaminhavam pra aqui e pra ali... Aí o cérebro e o coração entumeciam, algumas ideias

fluíam, e dois, três ou quatro versos saíam. Satisfeito, eu fechava o caderno e ia embora cuidar da vida.

Saía, passava o dia fazendo outras coisas, chegava de noite e retomava; ficava a madrugada toda de

novo.”

 

Gil tem os detalhes ainda claros:

“Sua criação apresentou altos graus de dificuldade porque ela lidava com um assunto denso — o amor e o

desamor, o rompimento, o final de um casamento, porque era uma canção para Sandra e para mim. Além

disso, havia a exigência de excelência, de que o versar tivesse capricho. Então demorou dias e dias de

trabalho”.

 

Em entrevista à revista Marie Claire, em 2000, Sandra recorda a emoção de ouvir a

canção pela primeira vez:

“Desde meus 14 anos, todo mundo em Salvador me chamava de Drão. Fui criada com Gal (Costa),

morávamos na mesma rua. Sou irmã de Dedé, primeira mulher de Caetano. Nossa rua era o ponto de

encontro da turma da Tropicália. Fui ao primeiro casamento de Gil. Depois conheci Nana Caymmi, sua

segunda mulher. Nosso amor nasceu dessa amizade. Quando ele se separou de Nana, nos encontramos

em um aniversário de Caetano, em São Paulo, e ele me pediu textualmente: ‘Quer me namorar?’ Já tinha

pedido outras vezes, mas eu levava na brincadeira. Dessa vez aceitei. Engraçado que Gil mesmo não me

chamava de Drão. Antes havia feito a música ‘Sandra’. Já ‘Drão’ marcou mais. Estávamos separados havia

poucos dias quando ele fez a canção. Ele tinha saído de casa, eu fiquei com as crianças. Um dia passou lá

e me mostrou a letra. Achei belíssima. Mas era uma fase tumultuada, não prestei muita atenção. No dia

seguinte ele voltou com o violão e cantou. Foi um momento de muita emoção para os dois”.

 

Drão

Não pense na separação

Não despedace o coração

O verdadeiro amor é vão

Estende-se infinito

Imenso monolito

Nossa arquitetura

Quem poderá fazer

Aquele amor morrer!

Nossa caminha dura

Cama de tatame

Pela vida afora

(“DRÃO”, 1980)

 

A separação aconteceu de comum acordo. Anos mais tarde, na mesma entrevista à Marie

Claire, Sandra afirmou:

“O amor tinha de ser transformado em outra coisa. E a música fala exatamente dessa mudança, de um tipo

de amor que vive, morre e renasce de outra maneira. Nosso amor nunca morreu, até hoje somos muito

amigos. Com o passar do tempo a música foi me emocionando mais, fui refletindo sobre a letra”.

 

A casa na Bahia e o apartamento no Rio de Janeiro ficaram com Sandra e as crianças. Gil

e Flora se instalaram no sítio em Jacarepaguá. Era 1982. Lá os dois enfrentaram um incidente

nada agradável, um assalto, em que Gil teve a mais inusitada reação. Certa noite, ele, Flora e

uma amiga dela de São Paulo estavam se preparando para ir ao show de Ney Matogrosso. A

televisão estava ligada e Flora estava no banho quando a casa foi invadida por quatro

assaltantes, que apontaram uma arma para a cabeça de Gil e colocaram uma faca em seu

pescoço. “Sai, sai, sai”, gritou um deles para Flora que estava debaixo do chuveiro. “Quero

joia, relógio, dinheiro, senão vou matar vocês.” Apavorada, Flora se sentou no sofá, ao lado

de Gil e da amiga, e o homem berrou: “Cadê o cofre?” Gil, do alto da sua tranquilidade,

virou-se para ele e falou: “Vai procurar. Você não é o assaltante, não entrou na minha casa?

Então, esse trabalho é seu”. Flora, em pânico, retrucou: “Não é isso, não, moço, ele está

nervoso”. Havia realmente um cofre, mas estava vazio. “Tinha umas pulseiras, uns anéis, ele

cismou que eram de ouro e eu confirmei. ‘Leva tudo’, disse. Nesse tempo a gente era duro.

Fiquei traumatizada, maluca, vomitando tudo.” A partir daí, Flora quis se mudar e foram

novamente para um hotel. André Midani, na época diretor da Warner, foi solidário e ofereceu

a Gil um adiantamento pelo próximo disco. Assim, puderam alugar o apartamento do

conhecido comediante Chico Anísio.

Ainda morando em hotel, Flora ficou grávida de Bem, seu primeiro filho e o sexto de Gil.

O casal, então, se mudou para um apartamento financiado no condomínio Alfa Barra, na Barra

da Tijuca, que Gil ia pagando com shows. Flora, porém, continuava traumatizada com o

assalto. Um dia ela ouviu na televisão que o ex-presidente João Figueiredo havia comprado

um apartamento no condomínio Praia Guinle, em São Conrado. Logo imaginou que o tal

condomínio possuía um esquema de segurança digno de ex-presidente militar. Pensou: “É lá

que eu quero morar”. Mudaram-se quando Bem tinha um ano. Caetano e Waly Salomão

apelidaram o lugar de Talavera Bruce, o presídio de mulheres, porque era como um bunker e

lá moravam também Simone e Gal Costa. Flora já mostrava seu lado de empreendedora e

empresária competente. O casal foi juntando dinheiro e se mudando várias vezes no mesmo condomínio, até ficarem no apartamento que estão até hoje. “Gil foi ganhando mais dinheiro e

eu organizando as finanças e arrumando a vida da gente.”

A esta altura, Gil era mais que um sucesso nacional. Até ir para a Bahia, em 1987, ele já

tinha lançado pela Warner os LPs A gente precisa ver o luar (1981), Brasil (1981, com João

Gilberto e Caetano, e participação de Bethânia), Um banda um (1982), Extra (1983), Raça

humana (1984) e Dia dorim noite neon (1985). Tinha lançado dois compactos, um com “Se

eu quiser falar com Deus” e “Cores vivas” (1981) e outro com “Andar com fé” e “Esotérico”

(1982). Em 1981, o diretor Jom Tob Azulay filmou a turnê de Gil para o lançamento do LP A

gente precisa ver o luar. O resultado, o documentário Corações a mil (lançado em 1983),

primeiro filme brasileiro gravado em dolby stereo, mostra um vigoroso Gil, extremamente

pop e roqueiro, com uma grande vitalidade e uma impressionante capacidade de comunicação

com o público.

Em 1984, Gil compôs e gravou a trilha sonora de Quilombo, filme de Cacá Diegues,

depois lançada em disco. Gravou em 1986 a trilha sonora de Jubiabá, filme de Nelson Pereira

dos Santos. O LP Raça humana, com exceção do reggae “Vamos fugir”, que Gil gravou na

Jamaica com a participação do grupo The Wailers, foi todo produzido no estúdio Nas Nuvens,

que Gil e o produtor Liminha abriram, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Quase todos os

discos subsequentes de Gil foram gravados lá.

 

Pé na política

 

Em 1987, Gil recebeu um convite para presidiu a Fundação Gregório de Mattos, o equivalente

à secretaria de cultura de Salvador. E aceitou. Com isso, comprou um apartamento na cidade e

uma grande família se instalou na capital baiana: Gil, Flora, Bem, então com seis anos, Preta e

Maria, filhas de Sandra, que foram viver com o pai. As duas filhas do primeiro casamento

com Belina, Nara e Marília, já moravam na Bahia e também passaram a conviver mais com

Gil. Nesse período, nasceu ainda Isabela, a segunda filha com Flora. Para completar o

cenário, Fátima Giordano, a Fafá, irmã mais nova de Flora, foi morar com eles e os

acompanhou também quando voltaram para o Rio de Janeiro, em 1992, trabalhando com o

casal por vários anos e até hoje.

Quando Gil chegou a Salvador, Mário Kertész era o prefeito, eleito em 1985. Ele já

ocupara o cargo entre 1979 e 1981 como prefeito biônico, indicado pelo governador Antonio

Carlos Magalhães. Naquele tempo, governadores, prefeitos e até senadores recebiam

mandatos chamados “biônicos”. Além de cassar mandatos de opositores do regime militar, os

militares suspenderam a realização de eleições diretas e apontavam políticos da ARENA para cargos em todo o Brasil. O MDB, partido de oposição, só conseguiu nomear prefeitos a partir

de 1982. O movimento a favor das eleições diretas foi iniciado no ano seguinte pelo senador

Teotônio Vilela, e foram surgindo, a partir daí, manifestações em todo o país, que culminaram

com a passeata de mais de um milhão de pessoas na Candelária, no Rio de Janeiro, e a de um

milhão e meio no vale do Anhangabaú, em São Paulo, ambas no mês de abril. O Brasil se

mobilizava para acabar com o estado de exceção do governo militar. Com os ventos

democráticos começando a soprar novamente, Kertész rompeu com o carlismo (movimento

político que surgiu na Bahia sob a liderança do governador Antonio Carlos Magalhães),

filiou-se ao PMDB (a sigla oposicionista MDB virou PMDB) e foi eleito por voto popular.

Em 25 de abril de 1984, a emenda constitucional das eleições diretas foi colocada em

votação no Congresso, mas não foi aprovada. Em 15 de janeiro de 1985, ocorreriam as

primeiras eleições indiretas, quando o Congresso elegeu o civil Tancredo Neves, mas ele

faleceu antes de tomar posse. Seu vice, José Sarney, tornou-se o primeiro presidente civil

desde o golpe militar de 1964. Terminavam, assim, mais de vinte anos do regime que prendeu

Gil e o mandou para o exílio. As eleições diretas para presidente do Brasil só ocorreriam em

1989, após serem restabelecidas na Constituição de 1988.

Com o novo mandato de Kertész, chegou à prefeitura de Salvador um grupo de amigos de

Gil, entre eles o escritor Antonio Risério, que organizara e publicara em 1982 o livro

Gilberto Gil: Expresso 2222. A função do grupo era a de auxiliar Kertész a conceber uma

política cultural para a cidade. Criaram uma secretaria que denominaram Fundação Gregório

de Mattos. Foi aí que Gilberto Gil deu os primeiros passos na política. O começo da abertura

política certamente estimulou Gil a participar da administração soteropolitana. No campo

internacional também havia estímulos.

 

“Era a época da perestroika e da glasnost, a abertura política e econômica na União Soviética, e isso de

alguma forma me motivou. Achei que tinha uma contribuição a dar e que era possível o Estado absorver

gente oriunda do mundo artístico com outra sensibilidade e outra visão de política.”

 

Gil aceitou o convite e tomou posse como presidente da Fundação em janeiro de 1987.

Durante a sua gestão, foi realizado o importante projeto de recuperação do centro histórico de

Salvador, elaborado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi e pelo arquiteto carioca

João Filgueiras Lima, o Lelé. Sob a liderança de Gil, a Fundação começou um trabalho de

retomada das relações culturais da Bahia com a África. Foram intensificadas as relações com

Angola, Moçambique, Nigéria e Benin. E aberta a Casa da Bahia, no Benin, e a Casa do

Benin, em Salvador. Gil viajou muitas vezes para a África. Ele criou ainda uma estrutura de

sustentação do candomblé e da vida cultural negra de Salvador, inaugurou o Teatro Gregório de Mattos e criou o projeto Boca de Brasa, apresentações teatrais utilizando palcos móveis

em áreas carentes da cidade. A ideia era valorizar, preservar e resgatar as artes em Salvador.

“Apoiamos os recém-criados Olodum e Ilê Ayê, grupos que estavam começando a emergir. Outros

aspectos culturais da cidade, como a questão do patrimônio histórico, do patrimônio material e imaterial,

estavam contidos na recuperação da visão andradiana, capanemiana da cultura brasileira. Tratamos de

retomar esse olhar que havia no Brasil e que de certa forma havíamos perdido em relação à vida cultural e a

importância da cultura para o desenvolvimento”, relata Gil. E continua: “Mário de Andrade concebeu, fez as

viagens, identificou a riqueza cultural dos povos brasileiros, mas era um projeto antropológico que nunca

se transformou em política pública. Na Fundação, naquela ocasião, resolvemos retomar isso e trabalhar

numa base experimental importante e rica, assim como é a Bahia, com essa diversidade toda, com os

portugueses, os negros.”

 

Essa matriz conceitual, que compreende uma visão antropológica da cultura, que a vê

como economia e como cidadania, migrou para o MinC 15 anos depois, quando Gil assumiu o

Ministério da Cultura a convite do então presidente Lula. Ele ficou pouco mais de um ano à

frente da Fundação e o trabalho desenvolvido culminou com a possibilidade de uma

candidatura à prefeitura. Kertész começou a articular o nome de Gil para sua sucessão em

1988, mas a candidatura não prosperou dentro do PMDB, partido pelo qual iria concorrer. O

partido preferiu apostar no radialista Fernando José, candidatura à qual o prefeito acabou

aderindo. Eleito, Fernando José rompeu os acordos políticos e iniciou uma campanha contra

Kertész. O grupo que apoiou a ideia, porém, não desistiu de levar Gil a outro cargo político na

Bahia e sugeriu que ele deveria se candidatar a vereador. Apesar de resistir, ele acabou

aceitando e se elegeu nas eleições de 15 de novembro de 1988 com o maior número de votos

(11.111 votos) entre todos os candidatos. No mesmo ano em que foi eleito, Gil casou-se no

civil com Flora.

Gil assumiu como vereador no momento em que as câmaras do Brasil inteiro se

incumbiam de criar seu plano diretor: as constituintes municipais. A oportunidade de

reformulação do arcabouço institucional da Câmara o animou. Gil e outros vereadores

decidiram criar a Comissão de Defesa do Meio Ambiente, que ele foi presidir. Foi nesse

momento que Gil saiu do PMDB e foi para o Partido Verde (PV). Na mesma época, passou a

integrar os conselhos consultivos da Fundação Mata Virgem e da Fundação Alerta Brasil

Pantanal, e tornou-se presidente do Centro de Referência Negro-Mestiça (Cerne), criado por

ele e seu amigo Antonio Risério. Outros militantes ecológicos como Fernando Gabeira,

Alfredo Sirkis, Fábio Feldmann se uniram a Gil e tornaram-se conselheiros da ONG OndAzul,

criada por ele para defender as águas dos mares e dos rios brasileiros. Sua militância nessa

esfera ampliou-se do âmbito local para o federal na discussão e aplicação das propostas do

movimento.

Mais tarde, compôs “Marmundo”, que está no seu disco Fé na festa, de 2010, e derrama

sua preocupação ecológica:

 

O mar do mundo sujou

Manda o mundo se limpar

O mar do mundo secou

Manda o mundo se molhar

O mar do mundo entornou

Manda o mundo se fechar

O mar do mundo acabou

Manda o mundo se acabar

 

(“MARMUNDO”)

 

Quando assumiu seu posto na Câmara já havia uma certa mobilização social no país em

torno da ecologia. Mas a preocupação com as águas ainda era novidade.

“O verde já era elemento de mobilização em torno de questões ecológicas. Mas o azul não, as águas ainda

não propriamente. Então, criamos a fundação com foco específico nas águas: mares, lagos, rios, lençóis

freáticos. Os quatro anos na Câmara Municipal tiveram esse viés ecológico e o início do trabalho da

OndAzul se deu com a associação a outros movimentos, como o da Fundação Mata Atlântica e do Instituto

Socioambiental. Havia uma rede brasileira e internacional — ligada a projetos na Itália, na Suíça, nos EUA.

Isso tudo antes da conferência internacional Rio 92. Meu mandato foi até 1992.”

 

No último ano, ele se dedicou à mobilização para essa conferência. “Eu e o grupo

assumimos o trabalho mais intenso. E acabado o trabalho voltei para o Rio.”

Gil cumpriu na íntegra o mandato de vereador. Em uma entrevista que deu anos depois

para o filme Uma noite em 67, afirmou:

“Abracei a política por conta do meu temperamento impetuoso e experimental. Mas ela é a representação

da guerra em que os adversários viram inimigos. Se pouco me deu, pelo menos me fez compreender que,

por natureza, sou diplomático e odeio a ideia de suprimir aquele que não concorda comigo”.

 

Antena parabólica

 

A volta de Gil ao mundo artístico coincidiu com o lançamento do disco Parabolicamará. A

essa altura, ele já entendia o mundo como uma pequena aldeia e, ao mesmo tempo, um grande

universo de intercâmbio de informações:

 

Antes mundo era pequeno

Porque Terra era grande

Hoje mundo é muito grande

Porque Terra é pequena

Do tamanho da antena parabolicamará

 

(“PARABOLICAMARÁ”)

 

O mundo era, ao mesmo tempo, o lugar do camará, o vocativo das cantigas de capoeira, e

da antena parabólica, que traz o planeta para dentro de casa. O próprio Gil considera a junção

“parabolicamará” uma “verdadeira invenção concretista”. “Nela, como um símbolo, vinham-

me reveladas todas as interações de mundos que eu queria fazer. Aí se tornou irrecusável

prosseguir e, mais, fazer daquilo um emblema do conceito, não só da canção, mas de todo o

disco.”

Gil retomou o trabalho musical no Rio de Janeiro, embora nunca tivesse parado

totalmente. Por várias vezes pediu licença na Câmara para fazer shows ou gravações. Quando

tinha acabado de assumir como vereador, lançou alguns discos preparados antes de seu

envolvimento político: Gilberto Gil em concerto, Soy loco por ti, América e Ao vivo em

Tóquio (1987), gravado numa excursão ao Japão e que saiu pelo selo Geleia Geral, que Gil

acabara de criar.

A década de 1990 chegou trazendo profunda tristeza. No dia 25 de janeiro de 1990, Pedro

Gil, então com 19 anos, baterista da banda do pai, sofreu um acidente na lagoa Rodrigo de

Freitas quando voltava para casa de madrugada. Após uma semana em coma, ele faleceu. Gil

desmoronou. Alguns anos depois, em 2000, ele declarou à revista IstoÉ Gente:

“Ali foi um momento da coleira absoluta. Para que o meu ego não se despedaçasse eu tive que segurar...

(emocionado, contém as lágrimas) Até que Jorge Amado e Chico Buarque me levaram para a Europa uns

vinte dias depois. E aí Jorge me levou para Nice, para o Carnaval. Fui com ele, Flora, e depois o Chico me

levou para uma pequena turnê pela Itália. Aquilo foi me ajudando, e eu fui retomando, reentrando na vida

aos poucos. Pedro foi enterrado no dia 2 de fevereiro de 1990. Fez dez anos agora (mais uma vez segura o

choro). E ficou aí a saudade dele...”

 

Para o jornalista Otávio Rodrigues revelou, cerca de vinte anos depois:

“Foi uma boa chamada de atenção que a vida me deu. Eu vinha celebrando muito a coisa da carreira. Eu

não quis deixar que a experiência se esvaísse na sua forma natural de eliminação, como urinar ou qualquer

coisa deste tipo. Eu quis reter um pouco, segurar um pouco a urina da experiência daquela dor. Até

porque foi uma semana de espera. A morte e a vida estavam ali, cada uma num prato da balança, e a gente

sem saber para que lado ela ia pender. Mas, ao mesmo tempo, hoje em dia, penso assim: ‘Se me

entregasse ao choro, ao desespero, ao ranger de dentes...’”

 

Tempos depois, em depoimento gravado à atriz Cissa Guimarães, que também perdeu um

filho, Gil já conseguia direcionar seu sentimento:

“Pedro era um molecão forte. Minha ligação com ele é permanente, através da lembrança e da memória

que está guardada num nicho especial das lembranças. É um campo que vai do densamente físico ao

etereamente espiritual. É a fé na vida que segura essas perdas. É por eles, que se foram, que nós queremos

continuar vivendo. Estendemos a vida em nós para estender a vida deles”.

 

Outra notícia triste o aguardava um ano depois. Em maio de 1991, seu pai, José Gil

Moreira, morreu, aos 78 anos, em Vitória da Conquista, onde vivia com dona Claudina. Mas,

como a morte e a vida vão se sucedendo, chegavam também notícias boas. Nascera em

Salvador, em 26 de junho de 1990, João, filho de Nara e primeiro neto de Gil. João veio

embrulhado para presente porque nasceu no mesmo dia do aniversário do avô. Outra boa

novidade foi o nascimento, no Rio de Janeiro, do caçula José, terceiro filho de Flora e oitavo

de Gil, em agosto de 1991.

A vida seguiu seu rumo. Em 1993, Gil e Caetano gravaram juntos o disco Tropicália 2

para comemorar 26 anos de Tropicalismo e trinta de amizade. Em julho, Gil foi homenageado

na noite brasileira da 27ª edição do Festival Internacional de Jazz de Montreux, com o

espetáculo Gilberto Gil and Friends, do qual participam Caetano, Gal, Chico Buarque,

Dominguinhos e Trio Esperança. Em setembro, todos os seus discos lançados originalmente

em LPs pela Philips foram relançados em CDs remasterizados pela Polygram, dentro da série

Colecionador.

Um acontecimento, anunciado no ano anterior, iria eletrizar o Sambódromo do Rio de

Janeiro e o coração de Gil no Carnaval. Em fevereiro de 1994, a Estação Primeira de

Mangueira, escola de samba das mais queridas dos cariocas e de muitos brasileiros,

homenageou Gil, Caetano, Bethânia e Gal, com um enredo sobre os Doces Bárbaros e o samba

Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu (de David Corrêa, Paulinho Carvalho,

Carlos Sena e Bira do Ponto). Os quatro fizeram um show na quadra da escola e participaram

do desfile na Marquês de Sapucaí. Para cada um dos quatro foi reservado um carro especial,

mas o de Gil teve problemas na hora do desfile e ele teve que dividir outro carro com

Carlinhos do Pandeiro. Nem por isso perdeu a alegria e sambou do início ao fim.

A carreira prosseguia. No mesmo ano, em junho, Gil, Caetano, Gal e Bethânia se

apresentaram juntos no Royal Albert Hall, em Londres, que teve a participação especial da

bateria da Mangueira. Em junho e julho, Gil e Caetano viajaram pelos EUA e pela Europa

com o show Tropicália duo , transposição acústica do Tropicália 2 . O disco Gilberto Gil

Unplugged foi lançado em 1994, e quando ensaiava para gravar o especial Unplugged Gil

recebeu a visita do produtor e baixista Rodolfo Stroeter e da cantora e compositora Marlui

Miranda. Depois do ensaio, Rodolfo falou da sua ideia de uma participação no disco de

Marlui. Gil topou, foi para São Paulo fazer a gravação e comentou com o produtor que havia gostado muito da maneira como a música havia acontecido e queria mais. Foi assim que surgiu

a ideia do CD O sol de Oslo. “Fiquei pensando como seria inédito e exato um encontro de

músicos criativos que pudessem dialogar livremente entre si, a partir de umas poucas ideias

preconcebidas em torno da força criativa dele”, disse Stroeter.

Encontraram-se tempos depois para planejar, Gil e Rodolfo empolgadíssimos. “Mário de

Andrade, Jackson do Pandeiro, Moacir Santos, tudo ia fazendo sentido. Era o Brasil que eu

tinha ouvido no ‘Domingo no parque’ da minha infância voltando”, escreveu Stroeter no

encarte da caixa Palco. O CD seria gravado na Noruega. O sol de Oslo foi produzido em

cinco sessões em condições muito especiais, como conta Stroeter:

“Havia uma amplificação curiosa, pois o material que se ia selecionando numa sala de ensaio — onde

ficamos trancafiados durante cinco ou seis dias — era dividido com um indiano, um norueguês e um

sideral sanfoneiro brasileiro. No entanto, tudo cheirava a Brasil, tudo tinha um sabor inequívoco de sertão.

Mas era só sair do ensaio e aquele frio escandinavo de novembro… Éramos sertanejos anônimos num

outro planeta. Mas então por que gravar lá? (Todo mundo me pergunta isso…) Porque sim. Porque, em

primeiro lugar, é importante estar estrangeiro e anônimo para que possamos nos reconhecer melhor.

Depois, porque lá tem um silêncio diferente. E, depois, porque seria fundamental celebrar um encontro de

música criativa tão forte no Rainbow Studio, com um engenheiro tão especial quanto Jan Erik

Kongshaug”. Gravado em 1994, o CD só foi lançado em 1998, tornando-se referência entre os músicos.

 

Um ano antes do lançamento do disco, Gil teve um problema nas cordas vocais. Um

pólipo, comumente chamado de calo, o obrigou a fazer uma cirurgia. Depois apareceu um

gânglio e os médicos suspeitaram de um câncer linfático. “Eu disse: ‘Tudo bem, se for câncer

não me operem, não façam nada’. Eles tiraram e não era câncer, mas decidi reprogramar

minha vida, minha dieta alimentar. Voltei à minha prisão”, disse à revista IstoÉ, em 1998.

A alimentação sempre foi uma preocupação na vida de Gil, desde a adoção da

macrobiótica nos anos 1970, embora nunca tenha sido rígido em relação a isso. Flora revela

que Gil acha a carne de porco a mais gostosa. Seu filho Bem diz que no meio de um papo

sobre macrobiótica Gil já confessou que o que gosta mesmo é de bacon. Como sempre foi

aberto na maneira de pensar o mundo, voltar à “prisão”, ou a uma maior rigidez, é, muitas

vezes, uma simples correção de rumo. Abre o leque para comer carne-seca e costeletas, mas

depois volta à disciplina da leveza alimentar.

Apesar de ser cuidadoso com a saúde, Gil enfrentou contratempos que abalaram seu bem-

estar físico. Houve uma época em que o esforço repetitivo causado pelo uso praticamente

diário do violão lhe valeu uma incômoda tendinite na mão direita. Como, na maioria das

vezes, ele prefere buscar as soluções oferecidas pela medicina oriental, para resolver o

problema recorreu, durante um bom tempo, à acupuntura. Em outras ocasiões, a questão foi

mais séria. Em 2007, Gil fez nova cirurgia para retirar pólipos das cordas vocais. Já era a segunda vez que passava por esse procedimento.

A voz exige mais cuidados. Numa entrevista ao jornalista Fábio Rodrigues, em junho de

2009, para a revista Expressions, admitiu a necessidade de “uso mais parcimonioso, para não

estragar a voz. Me imponho uma disciplina porque o meu desejo é continuar cantando

enquanto viver”. E admitiu também mudanças de timbre.

“Isso é, primeiro, uma coisa natural, causada pelo envelhecimento das cordas vocais. Elas vão mudando e

eu preciso ser mais contido, principalmente na escolha das alturas. Tenho que cantar nas tonalidades mais

médias, mais cômodas, que exijam menos esforço. Ao mesmo tempo, as intervenções cirúrgicas, com a

remoção dos pólipos, e as intensas sessões de fonoterapia a que tive de me submeter acabaram por me

dar uma extensão maior de voz.”

 

Gil tem hoje mais graves e mais agudos. “Se precisar, eu vou mais longe do que ia antes”,

diz.

A idade e os netos foram chegando. Em janeiro de 1995, nasceu, no Rio de Janeiro,

Francisco, filho de Preta, segundo neto de Gil. Em 1996, nasceu Pedro, em Salvador, filho de

Marília. Em 1998, vieram ainda Lucas Gil e Gabriel, os gêmeos, também filhos de Marília.

 

Ciência e arte

 

Depois de quase um ano e meio dedicado ao projeto Unplugged, Gil entrou no estúdio Nas

Nuvens para gravar seu primeiro disco só de músicas inéditas em muitos anos. Acompanhado

pela banda da turnê Unplugged — Celso Fonseca, Arthur Maia, Jorge Gomes, Marcos

Suzano, Gustavo di Dalva e Lucas Santtana — Gil gravou Quanta, em 1997, contando com os

velhos companheiros Raul Mascarenhas (sax) e William Magalhães (teclados), além do

produtor Liminha. Quanta foi um dos discos mais caros e demorados da história da MPB,

segundo o jornalista Marcelo Fróes escreveu na caixa Palco. O produto final é um álbum

duplo, com 26 faixas, e passou a representar para a carreira de Gil, segundo Fróes, o que o

The Beatles (ou Álbum branco, como ficou mais conhecido) representou para os Beatles.

As incursões no mundo da ciência e o envio do disco Quanta ao físico brasileiro César

Lattes (1924 -2005), codescobridor da partícula subatômica méson pi, renderam uma

saborosa carta de Lattes em resposta a Gil e seu trabalho:

 

“Prezado Gil,

 

Agradeço as atenções e remessas.

Não tenho os conhecimentos musicais que me permitam dar uma apreciação à altura do K7 que você me

enviou. Posso dizer que gostei muito, assim como já havia apreciado toda a obra de Gilberto Gil que

chegou ao meu conhecimento.

Peço apenas que me permita dizer o sentido que a física dá atualmente a algumas palavras que você usou,

com muita felicidade, mas que em alguns casos me parecem licença poética:

 

O ‘infinitésimo’ é uma ficção matemática.

Quantum é o mínimo de ação (energia x tempo).

O Quantum de ação é mais real do que a maioria das grandezas físicas: seu valor não depende do

movimento em relação ao observador.

Tiraria ‘Quark’, que está na moda com ‘cromodinâmica quântica’, mas que só pode aparecer escondido.

Não engoli ainda, apesar dos livros modernos e da Enciclopédia Britânica. Sobre as letras:

‘Ciência e Arte’: comovido agradeço a atenção.

A ciência se insemina subliminarmente.

A ciência é uma irmã caçula (talvez bastarda) da arte: Camões pediu ajuda do engenho e da arte — não da

ciência. Salomão diz que ‘ciência sem consciência não é senão a ruína da alma’ — a arte, não.

Paro por aqui, porque Salomão também diz: ‘Não busques ser demasiado justo nem demasiado sábio:

queres te arruinar?’

Para concluir cito um grande arquiteto: ‘Quando a ciência se cala, a arte fala’ (Artigas).

Com um abraço,

César Lattes

Campinas, 05 de fevereiro de 1997”

Em Quanta, Gil reuniu as suas reflexões sobre ciência:

“Quanto mais eu leio sobre o quantum da matéria, sobre essa abolição da escravatura da física do

mecanicismo, do paradigma cartesiano, mais eu fico pensando porque eu resolvi passar quase cinco anos

dedicando uma especulação sobre isso a um trabalho artístico, acabando por fazer um disco duplo,

enorme, exaustivo, até confuso para muita gente. Mas é bacana que eu tenha feito. E a confusão se parece

muito comigo mesmo, com o modo como a minha mentalidade se insinua por aí, pelo mundo, pelos

fazeres, pelo meio das coisas”.

 

Suas ideias se mostram em cada palavra da canção, como no trecho abaixo:

 

Quanta do latim

Plural de quantum

Quando quase não há

Quantidade que se medir

Qualidade que se expressar

Fragmento infinitésimo

Quase que apenas mental

Quantum granulado no mel

Quantum ondulado no sal

Mel de urânio, sal de rádio

Qualquer coisa quase ideal

Cântico dos cânticos

Quântico dos quânticos

 

Depois de Quanta, ele lançou no ano seguinte Quanta gente veio ver, em álbum duplo e

ao vivo, que celebrava o enorme sucesso da turnê mundial e que ganhou o Grammy Award da

Academia Americana de melhor disco, em 1999.

O envolvimento de Flora em projetos na web acabou inspirando Gil a compor “Pela

internet”, em 1996, pouco antes de ele se lançar à tentação irresistível do mundo high-tech.

Não eram apenas as experimentações musicais que o moviam. Ele começava a mergulhar nos

mistérios da física quântica — que surgiu na esteira da busca contínua do homem pela

compreensão do cosmos —, nas maravilhas do universo internáutico e na contemplação da

união de ciência e arte.

 

Criar meu web site

Fazer minha home-page

Com quantos gigabytes

Se faz uma jangada

Um barco que veleje

 

(“PELA INTERNET”)

 

O Carnaval de 1998 em Salvador não poderia ficar de fora das comemorações dos trinta

anos do Tropicalismo. Gil subiu no seu trio elétrico com vários convidados famosos e tornou-

se uma das grandes atrações daquele fevereiro.

Mas nem só de Carnaval era feita sua vida: a política voltava a falar mais alto. No final

daquele ano, ele estava cotado para ser ministro do Meio Ambiente no novo governo que

estava sendo montado pelo recém-eleito presidente Fernando Henrique Cardoso. Sua

militância nas questões ecológicas o tornavam um forte candidato, mas ele acabou não sendo

chamado.

No entanto, o mundo o solicitava cada vez mais. As turnês internacionais se repetiam a

cada ano, com exceção do ano 2000. Gil ia acumulando prêmios. Em novembro de 1999, Gil,

Caetano, Gal, Chico Buarque, Elza Soares e Virgínia Rodrigues apresentaram, no Royal

Albert Hall, em Londres, o show Since Samba Has Been Samba (Desde que o samba é

samba).

O show era parte das comemorações dos quinhentos anos do Descobrimento do Brasil e

foi uma das maiores reuniões de artistas consagrados brasileiros que a Inglaterra já vira. Os

cinco mil ingressos esgotaram três semanas antes. Segundo o correspondente da Folha de S.Paulo na época, Fábio Zanini, a revista semanal Time Out , especializada em eventos

culturais na capital britânica, definiu o Tropicalismo como “um movimento com músicas

densas e letras inteligentes, inseridos em uma bizarra e bela mistura de samba, bossa nova e

elementos do rock psicodélico”. Caetano foi considerado pela revista “o papa do

Tropicalismo”, enquanto Gil ganhou o apelido de “Bob Marley brasileiro”.

Os encontros ao longo do caminho foram também rendendo frutos importantes. O novo

milênio prometia. Uma conversa iniciada com Milton Nascimento no lançamento do disco

Quanta, no qual ele gravou a música “Sala de som” dedicada ao cantor e compositor mineiro,

foi amadurecendo até que começaram a gravar um disco juntos, com canções dos dois, que foi

lançado mais adiante. Na época, a jornalista francesa Véronique Montaigne, crítica de música

do Le Monde, escreveu:

“Esses dois ícones da MPB tinham material para alimentar um longo papo, sendo ambos um produto direto

da história do Brasil e da diáspora negra nas Américas. Os 15 títulos deste álbum a dois dão equilíbrio ao

movimento oscilatório entre a vastidão das Gerais, com seus santos mártires (tal como são Sebastião

transpassado de flechas) e o vaivém incessante das ondas na baia de Salvador. Brasil legal esse, que ainda

curte a mistura de raças — índios, negros e brancos, quinhentos anos depois do descobrimento”.

 

O talento documentado

 

Gil ganhou também belos documentários que falam dele e de sua música. Tempo rei , de

1996, dirigido por Andrucha Waddington, Breno Silveira e Lula Buarque de Hollanda, da

Conspiração Filmes, celebra trinta anos da carreira de Gil. Filhos de Gandhy, de Lula

Buarque de Hollanda, parcialmente filmado na Índia, revela, através das memórias de seus

idealizadores, a origem e as histórias do bloco carnavalesco baiano que Gil ajudou a reerguer

ao tornar-se integrante ativo do grupo em 1973. Viva São João, do diretor Andrucha

Waddington, foi lançado em 2001 e filmado durante uma turnê do artista pelas festas juninas,

tão caras a ele. O filme faz um paralelo sobre a história das festas de são João e sua

importância onde quer que aconteçam. O cinema continuou a ser parte do seu trabalho, fazendo

as trilhas para filmes. Como a de Eu tu eles, que privilegia os clássicos de Luiz Gonzaga e

acabou virando disco, lançado em 2000.

Gil prosseguia, como em toda a sua carreira, buscando a síntese da sua história e do seu

trabalho. Quando lançou, em 2002, o CD Kaya N’Gan Daya o desejo de homenagear Bob

Marley, com quem já gravara antes, mais a incursão que fizera recentemente pelos caminhos

de Luiz Gonzaga na trilogia que incluía o disco São João vivo (2001), a trilha de Eu tu eles e

o documentário Viva São João o impeliam para um combinação inusitada: “Na verdade,

encontrei uma espécie de similitude entre o Cangaceiro e o Rastaman. Ambos causando-me a mesma impressão de estranheza, beleza e grandeza em seus processos/projetos de vida”,

escreveu, na apresentação do disco.

“O Cangaceiro: estrelas de david ornando seu chapéu exótico, mal encobrindo cabelos longos e crespos,

sua roupa de campanha, cartucheiras em cruz sobre o peito, os pés calçando pregatas de rabicho, as

mãos armadas com fuzil para a luta pela liberdade e a justiça. O Rastaman: as mesmas estrelas de david, o

leão de Judá, sua juba em dreadlocks descobrindo, enfatizando cabelos também longos e crespos, sua

roupa de campanha, a comida vegetariana, a maconha e nos lábios, numa língua cheia de novos signos,

um discurso, arma para a luta também pela liberdade e a justiça. Para um artista, músico como eu, o foco

obviamente recairia sobre a música que se liga e se refere a ambos, o Cangaceiro e o Rastaman, e os

associa, direta ou indiretamente, a dois dos maiores artistas da música popular do século que passou. Dois

mestiços, em todos os sentidos, dois dos meus maiores ídolos: Luiz Gonzaga e Bob Marley”.

 

No fim de 2000, foi lançada a caixa Palco. Apresentava um apanhado importante de uma

carreira mais que consolidada, o retrato de uma vida entrelaçada com a música. A caixa traz

toda a discografia de Gil da Warner, entre 1975 e 2002, e que inclui farto material inédito,

como sobras de discos, mas também a trilha do filme Quilombo, do diretor Cacá Diegues, de

1984, inédita no Brasil, e do disco Z: 300 anos de Zumbi, composto para o Balé da Cidade de

São Paulo, em 1995. A caixa reúne 28 CDs de Gil, dois discos jamais lançados no Brasil,

Nightingale (1979) e Quilombo, e é reveladora da qualidade inspirada e variada da sua

música.

FRONDOSA FLORA

 

Tranquilize seu coração

Nosso amor virou pedra e não

Temos força pra quebrar não

 

(“QUATRO COISAS”)

 

No depoimento de seis horas que deu ao Museu da Imagem e do Som, em 2012, ano em que completou setenta

anos, Gil falou com imenso carinho da mulher que organizou sua vida e seus afetos, e conduziu com maestria, desde

que se casaram, em 1980, tudo o que revolve em torno dele. “Flora teve um papel importante na minha vida, o de

unificar a família, essa superfamília, a transfamília que se formou em torno de mim. Ajudou a recuperar minha

amizade com (as ex-mulheres) Belina, Sandra e Nana.” Na célebre foto do aniversário de cinquenta anos de Gil, em

junho de 1992, ele aparece com Flora e suas três ex-mulheres reunidas em sua casa.

Flora impulsionou os negócios de Gil, recuperou na Justiça os direitos autorais sobre a sua parte em 120 músicas

compostas por ele nos primeiros vinte anos de carreira, que agora estão na sua própria empresa, a Gege. Ela dirige a

Gege Produções, o selo de música Geleia Geral e é sócia da Refazenda Webdesign no Rio de Janeiro, além da Alafia

Produções e da Editora FG em Salvador. É dona, também, do selo Preta Music, que controla os direitos autorais das

músicas de Gilberto Gil em Nova York.

“Quando casamos as músicas do Gil estavam em algumas editoras administradas por grandes gravadoras. Ele fazia uma música e editava na Gapa (G Araújo), outra no Waldemar Marchetti, estava tudo espalhado. Resolvi então pegar tudo e trazer para a Gege Edições. Demorou muitos anos e muitas brigas na Justiça. Hoje temos mais de mil músicas de Gil e de outras pessoas e tenho muito orgulho disso. É o que fica para a família, para os filhos, é o que vamos deixar. Está tudo organizado. Eu sou uma pessoa organizada. Gosto de organizar.”

Empreendedora incansável, Flora garante que nada disso teria acontecido se Gil não tivesse participado. Sentada

no sofá da ampla sala, com vista para a baía de Todos os Santos e Itaparica, do seu apartamento em Salvador, em

setembro de 2012, Flora fala da solidez do seu encontro de uma vida inteira com Gil: “Estamos casados há 32 anos.

Foi meu primeiro casamento. Eu tinha 19 anos. Não me vejo casada com outra pessoa. Começar tudo de novo? Com

Gil me sinto muito junto”.

Ao trabalhar na Gege Produções, Flora passou a ler os contratos minuciosamente e comprou briga com velhos

amigos do cantor para reaver a exploração dos direitos autorais de músicas antigas. Com sua administração financeira,

a família tem hoje um bom e seguro patrimônio, um apartamento em São Conrado, no Rio de Janeiro, e outro no

Corredor da Vitória, em Salvador. Quando ela conheceu Gil, ele tinha apenas um sítio em Jacarepaguá.

Mas Flora é muito mais que uma “organizadora” da carreira de Gil. Ela cuida do marido, dos filhos e das casas

com dedicação invejável. Seu filho mais velho, Bem, diz que ela resolve tudo: em casa, no trio elétrico ou no camarote.

Flora criou com Gil o Camarote Expresso 2222, um dos mais famosos, que abre suas portas no Carnaval de Salvador

para receber convidados e participar da folia baiana. Isabela e José são seus outros dois filhos com Gil, mas, para ela,

a família Gil é uma só e engloba todos os filhos e netos do marido.

Num depoimento para a revista Rolling Stone, Gil exaltou o papel de Flora na sua vida:

“Eu tinha vários filhos, várias ex-mulheres e tudo mais quando a conheci. Um pacote do Gil Moreira que a Flora botou no colo, integralmente! Mesmo ali, no próprio reduto afetivo da minha

vida, ela também foi ali. Meus filhos, meus parentes, meus amigos, meus pais, minha mãe. Tudo! Ela assumiu que há uma grande família Gil, e que é dela também. Jogou com habilidade esse jogo afetivo amplo dentro das famílias e unificou tudo, incluindo o entorno da família, como os amigos todos”.

No mesmo artigo, Preta dá uma opinião certeira:

“Flora sabe gerir, empreender, tudo com uma precisão muito grande. As coisas partem sempre da vontade dele. O que ele está vislumbrando, as ideias que ele começa a rabiscar na cabeça, a Flora tem a capacidade de transformar num projeto rapidamente, o que é muito bom para um artista. Eu vejo isso acontecer há muito tempo. É sempre um disco por ano, um filme por ano, acho que funciona muito bem. Mas ele que rege a carreira dele, ele decide o que quer, ao contrário do que as pessoas pensam. Tem muito essa visão de que a Flora manda. Na verdade ela é uma realizadora dos desejos dele”.

Flora conhece bem o marido e entende seu universo:

“Gilberto é simples, mas misterioso. Ele fica ali quieto no quarto, ele medita. Não atrapalho, não pergunto nada, faço as coisas como se ele não estivesse ali. Convivemos na paz, adoro isso. Não brigo com Gil, e olha que sou muito briguenta. Às vezes ele é meio ranzinza. Mas brigamos pouquíssimas vezes na vida. Ele gosta muito mais da contemplação do que da briga ou da discussão. É um cara zen”.

São tão raras as brigas que Flora se lembra de um episódio num show em Recife, no Teatro Guararapes, quando

ela brigou com Gil no camarim, “uns vinte anos atrás”. Gil subiu no palco ainda escuro e quando acenderam as luzes

ele deu um tapa no microfone de pedestal e o microfone caiu. Estava irritadíssimo. Alguém foi lá e levantou. Ele deu

outro tapa e o microfone caiu de novo. Flora estava na plateia. Então, ele saiu do palco e entrou de novo. E disse:

“Desculpem, vou fazer um show perfeito para vocês, mas é que estou com um problema pessoal”.

Flora fala de Gil com carinho:

“É uma pessoa generosa. No palco deixa os outros aparecerem. É diplomático. Gil facilita, com ele é fácil, é do temperamento dele. Mas também só faz o que quer. Só faz o show que quer, canta o que quer. Sempre foi assim. Acho incrível, por outro lado, a generosidade dele. Essa coisa de ficar mais quieto é assim também com a família. Não é aquele pai que liga para os filhos todo dia pra saber se está tudo bem. Quando me casei ele já tinha cinco filhos: Nara, Marília, Pedro, Preta e Maria. No começo eu ficava ligando para eles e ele achava aquilo ótimo. Gil gosta de trazer os filhos para perto, mas não faz o movimento. Eu gosto de casa cheia, de todo mundo junto. Ele não gosta de briga, de confusão, longe disso. Mas não é do tipo ‘não me perturbe, sou um gênio, estou criando’. Pode estar criando vendo novela”.

Flora adotou também a cidade onde Gil nasceu. Tem uma forte ligação com Salvador. Criou-se católica, como Gil,

mas frequenta o terreiro Ilê Omorode Axé Orixa N’la, de pai Augusto César. Antes frequentava a casa de Mãe

Menininha, que descobriu que Flora é filha de Ewa, “orixá misterioso, invocado, arredio, valente e cismado”.

Depois que Bem nasceu, Flora e Gil foram viver em Salvador. Isabela, a segunda, nasceu lá. Nessa época Preta e

Maria moraram com eles. Quando voltaram para o Rio de Janeiro, nasceu José. Flora tinha então trinta anos.

Para Gil a presença da mulher é uma tranquilidade.

“Ele não precisa se preocupar com nada. Se perguntar para ele qual o banco em que ele tem conta talvez não saiba. Não sabe nada do cartão de crédito, vencimento, valor, nada. O escritório

paga. Ao mesmo tempo, se eu morrer amanhã, ele não vai ficar perdido porque ele sabe fazer tudo isso, ele estudou administração. Só que vai achar um saco. Além disso, temos um time bom.”

Sobre a criação, Flora admira a agilidade do marido.

“Ele tem uma ideia, rabisca um pouco, senta e faz direto. Nunca vi demorar mais de três dias fazendo uma canção. Mas pode virar a noite. Anos atrás eu ia dormir com ele tocando na sala, acordava e lá estava ele, ainda com o violão na sala. ‘Ah, fiz uma música ontem.’ Às vezes ele está lá com o violão e me chama. Sai assim. Parece que aperta um botão.”

Flora organizou a vida profissional de Gil e a equipe que trabalha com ele. “É uma superequipe, e tudo muito

família.” Maria, filha de Gil, cuida da agenda de entrevistas, das viagens, coisas não relacionadas com música.

“Ela viaja com a gente, cuida do camarim, da roupa. Fafá, minha irmã, é a produtora. Viaja com a Maria. Eveline toma conta de todo o direito autoral. Regina cuida da Gege pessoa jurídica. André e Neuci cuidam da parte de internet. Jerry só viaja no internacional. São 12 pessoas no escritório. Gilda Mattoso é a assessora de imprensa, que trabalha fora da produtora. Gil é muito requisitado, tem muito pedido de show, de participação em programa de TV, de seminários, palestras, de música para comercial, prefácio de livro, roda de samba, composição, gravação no CD ou DVD de alguém. Queria reunir tudo dele, consegui um patrocínio e estamos fazendo o acervo. Uma parte grande na internet, no portal Gilberto Gil e no portal do Instituto Antônio Carlos Jobim, e a parte física na Gege.”

Como diz a música que Gil fez para Flora logo que se conheceram, ela “multiplicou a ramagem” em todos os

aspectos de sua vida e tornou-se “árvore frondosa”.

 

“ FLORA”

 

Imagino-te já idosa

Frondosa toda a folhagem

Multiplicada a ramagem

De agora

 

Tendo tudo transcorrido

Flores e frutos da imagem

Com que faço essa viagem

Pelo reino do teu nome

Ó, Flora

 

Imagino-te jaqueira

Postada à beira da estrada

Velha, forte, farta, bela

Senhora

 

Pelo chão, muitos caroços

Como que restos dos nossos

Próprios sonhos devorados

Pelo pássaro da aurora

Ó, Flora

 

Imagino-te futura

Ainda mais linda, madura

Pura no sabor de amor e

De amora

 

Toda aquela luz acesa

Na doçura e na beleza

Terei sono, com certeza

Debaixo da tua sombra

Ó, Flora

 

Mais tarde, no repertório do disco Banda larga cordel, de 2008, Gil incluiu outra música que fez para Flora:

 

“ A FACA E O QUEIJO”

 

Você reclama

Que eu não lhe faço uma canção

Acha que a chama

A velha chama da paixão

Não nos inflama mais

Com tanto ardor

Como na época em que éramos

A faca e o queijo

 

A faca e o queijo

E o desejo tinha mãos

E as mãos, traquejo

No bom manejo da emoção

No jeito de tomar

No ato de cortar

No simples fato de juntar

A faca e o queijo

 

A gente ama

E o amor produz transformações

A velha chama

Acende novas ilusões

Com mãos bem mais sutis

Novos desejos

Vão tornando nossos beijos

Mais azuis, menos carmins

 

Você reclama

E eu sei que é só por reclamar

Como quem chama

Outra criança pra jogar

Seus jogos infantis

Ainda nos vejo como outrora

Faca e queijo, sim

Num tempo mais feliz