Golpe de Amor
Capítulo 10
Lia Carneiro
Quem diria que eu ganharia meio quilo em apenas uma semana? Não que ganhar meio quilo seja algo difícil, mas eles não param de chegar. Às vezes pergunto se terei um bebê gigante e como ele irá passar por Joana, apenas para ouvir meu obstetra dizer que meu bebê está no peso ideal. Se ele está no peso ideal eu estou no meu?
Não quero nem pensar em como farei para perder todos os quilos que estou ganhando agora, mas isso não tem importância desde que Abacaxi Carneiro Costa continue ganhando o peso necessário.
Os inchaços continuam, o médico não cansa de dizer que é devido a retenção de líquido. Estou preocupada em não conseguir reter o único líquido que está em minha bexiga. Bateu vontade de fazer xixi já me sinto nervosa. Mamãe dizia que grávidas podem não aguentar e fazer na roupa mesmo, assustando-me ao extremo. O medo foi motivo de debates e mesmo uma fisioterapeuta pélvica me dizendo que não era normal e que eu estava bem o medo me dominava.
Só consigo me imaginar em um jantar desses que às vezes Levi precisa ir e o acompanho. Já vejo a cena, eu, desse tamanho pedindo licença e por favor para ir até o banheiro e no meio do caminho o xixi vazar.
Sempre que entramos na casa de algum amigo médico, rico e metido me pergunto o que pode acontecer se isso acontecer e eu gritar: a bolsa estourou!
Será que saberão que é xixi?
Às vezes penso tanto nisso que sorrio sozinha. Como agora.
— Está rindo de quê? — Levi pergunta ao estacionar em frente ao jardim grande e exuberante da chefe.
A mulher resolveu fazer um jantar em plena noite de sábado, dia que melhor consigo agarrar meu médico, para falar sobre as novas escolhas de residentes.
— Aposto que esse jantar é apenas para exibir aquela filha peituda e magra dela. Para que veja o que está perdendo. — resmungo.
— Está exagerando. Todos os médicos estarão presentes.
— Promete que se eu fizer xixi na roupa e gritar: a bolsa estourou você vai entrar no clima mesmo que a vaca, digo sua chefe, diga que é xixi?
— Por que pensa isso?
— Porque a mamãe disse que quando estava grávida de mim fez xixi na rua. Eu não quero pagar esse mico.
— Amor, não vai acontecer. Já aconteceu antes?
— Não, mas eu sempre cuido de fazer xixi certinho. Bate a vontade, corro para o banheiro.
— Então relaxa. Mas prometo que se acontecer entro na sua e depois digo que é alarme falso.
— É por isso que te amo.
— Achei que era por eu ser lindo e gostoso e pai do Abacaxi.
— Também. Mas te amo porque sempre me apoia, amo porque até nas loucuras mais loucas está ao meu lado.
— Pronta?
— Não, mas fazer o quê? Ou marco território ou essa velhinha te casa com a filha dela. Queria dizer que a mulher é sem graça, mas a peituda magricela é gentil e legal demais.
Ouço a risada de Levi que desce do carro e vem me ajudar a descer. A passos de tartaruga caminhamos para dentro da mansão.
— Velhinhos ricos são esnobes.
— Apenas alguns. — Levi diz e percebo que falei alto.
— Desculpe vou me comportar.
Entramos na casa e sorrio. Como sempre, recebo afagos na barriga, me perguntam quando nasce, se já escolhi o parto. É sempre a mesma coisa, mesmo sendo parentes de médicos.
A sala que a doutora está fazendo me consome. Já fui ao banheiro três vezes. Duas fazer xixi e uma xingar a peste que não serve logo esse jantar dos infernos. Estou quase me levantando para ir uma quarta vez quando a filha dela educadamente pede que ela adiante o jantar, afinal, um bebê precisa estar sempre bem alimentado.
— Que gafe, Brenda. Não sabe que é de mal tom apressar eventos assim? Indelicado é uma grávida vir sabendo que tudo vai demorar. Levi podia ter vindo sozinho. Os residentes são assunto importante.
— Indelicado é esperar a noite inteira para falar de trabalho e nunca ouvir falar dele. — resmungo e sou ouvida por Brenda que me olha sorrindo.
— Vamos jantar, talvez o assunto deva ficar para segunda. Uma reunião no trabalho é melhor.
— E só agora ela percebe? — Volto a resmungar e Levi sorri.
— Prometeu se comportar.
— Mas pelo visto ela não. Não viu quem começou?
— De bezerra desmamada a leiteira. De leiteira a touro bravo. Você é mil personalidades em uma e amo todas elas.
— Percebeu que em todas me chamou de vaca? — pergunto e ele sorri. O safado sorri.
Quando o jantar termina e juro que poderei ir para casa, a velha dos infernos no segura lá.
— Qual a fruta dessa vez? — pergunta com ar superior.
— Abacaxi. — falo sem graça, mas agradecendo a Deus por não ter um abacaxi em minha mão ou ele estaria voando em direção a chefe do meu médico gostoso.
— Descobriram o sexo, mas e o nome? Quando essa criança terá nome?
— Quando escolhermos um. — rebato e Levi suspira.
— Doutora Marlene, agradeço o jantar e a recepção...
— Nada elegante. — murmuro e ele continua.
— Mas precisamos ir. Estou cansado e tenho certeza de que Lia também está.
— Entendo querido. Que homem abençoado você é. Participando de cada etapa. Mas gravidez não é doença. Lia precisa aprender a se virar sozinha. Muitas mulheres passam por tudo isso sozinha.
— Mamãe... — a filha a alerta.
— Sou abençoado por ter a Lia e por ter a sorte de participar de tudo isso. Gravidez não é doença, mas meu papel como pai se inicia antes mesmo desse bebê nascer. Não será apenas o meu nome no registro. Estarei presente em todo momento.
— Boa sorte, querido.
— Até logo. — Se despede e seguimos para fora.
— Se grávidas matarem as chefes do marido, elas serão presas? — pergunto.
— Melhor não pensar em crimes. Estou vendo outras clínicas e hospitais. Marlene está passando dos limites e não há dinheiro no mundo que me faça suportar algo assim.
— Amo meu médico gostoso e consciente. Mas, será que podemos passar no seu João? — peço porque odiei o jantar. Levi, como um bom noivo realiza mais um desejo meu.
E por muito tempo durante nossa noite, quase madrugada, me permito comer algo que realmente gosto.
E assim, comendo em uma pizzaria de bairro, vejo o quanto sou feliz.