Golpe de Amor
Capítulo 2
Lia Carneiro
Contar a dona Claudete que odeia ser chamada assim foi uma loucura, pois uma vendedora de livros não deveria se envolver com um médico bonitão. Segundo dona Claudete, é mais fácil uma atendente de livraria se engraçar com o atendente de lanches, do que com um médico. Aliás, o que um médico iria querer com uma simples vendedora de livros?
Segundo a mamãe, um médico gostoso seria areia demais para o meu caminhão. Um caminhão culto e cheios de livros lidos, mas sem faculdade.
Marcamos o jantar, porque sempre precisa rolar jantarzinho, não é? Então ao invés da mamãe ficar quieta, me disse em alto e bom som que Levi estava querendo me usar. Que provavelmente me largaria grávida por aí e nunca mais ouviria falar de uma tal Lia Carneiro.
Resultado? Levi surtou. Disse que minha mãe não me valorizava, que ele não queria me usar, queria me namorar. Acho que nunca esquecerei essa cena. Levi dizendo que eu era uma mulher maravilhosa e que "a senhora dona Claudete devia admirar a filha que tem."
Meu namorado, foi posto para fora aos gritos de: “Claudete é a senhora sua mãe, eu me chamo Cecília.”
Depois disso, tudo piorou. Minha mãe, a louca de dupla personalidade, fazia questão de nos esperar chegar. Era só ouvir o barulho do carro chegando que lá estava ela, lavando a rua às nove, dez da noite. Molhava todo o "carrão" do genro. Levi, educado como sempre foi, fazia questão de descer do carro para dar um "boa noite dona Claudete". Isso fazia com que fosse embora molhado e ouvindo minha mãe gritar: Meu nome é Cecília seu aproveitador.
Graças ao relacionamento de dona Cecília, digo, Claudete e Levi, me perguntei se todos éramos loucos ou estávamos apenas descompassados. Muitas vezes, me abri com a mamãe e disse que aquela atitude me fazia questionar se eu estava fazendo a escolha certa.
Minha mãe me disse de forma firme que eu deveria assumir minhas escolhas e tomar um rumo na vida.
Eu tomei.
Cinco meses depois, Levi e eu estávamos em mais um jantarzinho na casa dos meus pais para anunciar as boas novas! Em minha mão direita havia uma aliança de noivado. Em nossa frente uma Cecília brava.
— Surtou, Lia! Acha mesmo que esse médico safado vai querer se casar com você?
— Amo sua filha, dona Claudete.
— Cecília. — rebate.
— Seu RG diz que é Claudete. — Por que ele não parou?
— Mostrou a ele, Lia? Que ótima filha você é.
— Pode não gostar de mim, mas poderia tentar ser gentil e educada?
— Fora, doutorzinho aproveitador!
E lá estava Levi sendo mais uma vez expulso da minha casa enquanto eu orava para que ele não desistisse de casar-se comigo.
— Precisa parar, mãe. Eu o amo. Levi me ama e seremos felizes juntos.
— Ele está te dando um golpe, Lia! Acorda, menina!
Foi o que tive que ouvir. Na época, que parece mais distante do que realmente é, achei que dona Claudete estava louca. Mas então lembro-me do espermatozoide vencedor e acho que realmente levei um golpe.
O golpe da barriga.
— Amor... Amor... Lia! — A voz forte de Levi me traz de volta a realidade.
Uma realidade onde eu, uma mulher de vinte e quatro anos precisa fugir para estar com o noivo.
— Onde estava?
— Bem aqui. Mas poderia estar no seu quarto, na sua cama.
Levi sorri.
— Quando penso que teremos que enfrentar sua mãe. Ela adora me cansar.
— Ainda bem que me ama. Se sua mãe fosse um por cento do que dona Claudete é, eu já teria te largado.
— Largaria o pai do seu filho?
— Filho não prende ninguém não, Levi. Está doido?
— Já disse que para quem lê romances você é bem ogrinha?
— Chama de ogra, mas me ama.
— É, dá para o gasto.
— Como é que é? — pergunto brava.
— Disse que conquistou meu coração.
— Está pronto para dizer a dona Claudete que ela será avó? — mudo de assunto.
— Nem um pouco.
E se Levi não estava eu também não.
Mas também não deu tempo contar. Minha mãe continuava com o papo de golpe e graças a isso ouvimos durante longos minutos minha mãe dizer que estávamos loucos. Que Levi não tinha cara de quem leva um casamento com uma vendedora de livros a sério. O que ele queria?
— Já pensou se ele pode ser um homem casado querendo desvirtuar você?
— Não sou casado dona Claudete.
— Lia, e se a esposa dele for estéril e ele quiser apenas uma criança? Se te engravidar para realizar o sonho da esposa e sumir com a criança?
— Mãe... — tento puxá-la de volta a realidade.
— Espera, filha. Já vi um caso de um homem que era casado e mentia para noiva, tudo porque a esposa não podia engravidar.
— Ele não é casado. — resmungo e Levi diz que não é a hora.
Existe hora para vencer as teorias malucas da mamãe? Eu acho que não, mas não adiantou. Levi levou tantas porradas com a almofada que vi meu casamento acabar antes mesmo de começar. Depois chorei sozinha. Achando que mais uma vez, tudo estava errado.
Então aceitei.
Levi e eu somos adultos, nos amamos e teremos um filho. Um filho que minha mãe ainda não sabe da existência, mas quer saber? Dona Claudete, que lute.
— Uma única noite irresponsável e uma responsabilidade de dezoito anos. Bem que a mamãe disse que a única forma de sair por cima na luta contra o espermatozoide vencedor era não transar. — brinco e o vejo sorrir.
— Mas, amor transar é o que nós sempre fazíamos, fazemos e queremos. — Levi fala e me puxa para seus braços.
— E se eu enjoar de você? — pergunto.
— Acho melhor não pensar nisso. Vai que atrai.
— A única coisa que quero atrair é você para mim.
— Já me tem. — responde de forma sensual.
— Adoro um médico galante.
— E eu uma vendedora de livros maluca.
Sorrimos.
Nossas vidas podem ser diferentes, os nossos caminhos poderiam nunca se cruzar, mas o destino nos uniu. E o amor, nos prendeu.