Golpe de Amor

Anne K. Silva · Capítulo 4 de 14

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Golpe de Amor

Capítulo 3

 

Lia Carneiro

 

~ Meses antes ~

Enjoos, menstruação atrasada, seios sensíveis e sono em excesso. Eu deveria saber que algo não ia bem, mas como toda pessoa que tem medo de mudanças, ignorei os sintomas como se isso mudasse o resultado final. Não mudava e não mudou.

Entenda que mesmo que eu sonhasse com uma família, após conhecer o amor da minha vida, eu não esperava construí-la tão rapidamente. O ápice de toda essa fuga foi quando desmaiei ao atender um cliente da livraria. Os sons se tornaram zumbidos, tudo escureceu e caí como uma fruta que madura demais cai do pé.

Janaina, minha gerente, nenhum pouco romântica jogou-me água no rosto, pegou sem discrição nenhuma meu celular do bolso e tentou falar com minha mãe, depois tentou com meu pai, mas seu Ricardo vive sempre focado nos carros e motos que chegam para consertar. Por último, minha nem tão amada chefe discou para Levi.

— Olá, aqui é Janaina, chefe de Lia. Ela desmaiou no meio da loja e preciso de alguém para acompanhá-la ao médico.

Ela aguarda um pouco, ouvindo o que quer que Levi tenha falado.

— Não sei o que tem, ela apenas caiu dura na frente do cliente.

Silêncio.

— Já acordou, mas está aérea.

Silêncio.

— Claro, aguardaremos ao lado dela até que chegue.

Os minutos se passam até que vejo Levi entrar. Tão bonito.

— O que houve, amor? — pergunta realmente preocupado.

— Acho que... — caio no choro, Janaina se agonia e pede que Levi me leve ao hospital, meu noivo tenta me acalmar e só consigo chorar.

No hospital, o médico me olha num misto de pena, preocupação e cansaço.

— Precisa me dizer algo, Lia. Sente alguma dor? Diga-me o que há de errado. — pede e Levi me olha preocupado.

— Acho que estou grávida. — falo.

— Podemos solicitar um exame, examiná-la. Seu noivo disse que desmaiou, lembra de algo?

— Estava atendendo um cliente, dando suporte na busca por um livro, do nada veio um zumbido, tudo rodou, ficou escuro. Será que a queda machuca o pontinho?

Levi sorri.

— Vou solicitar os exames, chamar o obstetra de plantão e então vemos como está, tudo bem?

Não demora e sou levada para fazer alguns exames. O obstetra confirma minhas suspeitas e indica algumas vitaminas, pede que escolha assim que possível um médico para acompanhar todo a gestação.

Saímos da emergência com a sensação de “puta que alívio não foi nada” misturada com “que loucura agora somos três”. Levi está tão feliz, estou tão assustada.

— Minha mãe vai enlouquecer. — digo quando estacionamos em frente à minha casa.

Como mamãe não esperava que chegasse mais cedo, não saiu para lavar o asfalto.

— Mais? Não há como sua mãe enlouquecer mais. Achei que mães desejavam sempre os melhores partidos e sou tratado como aproveitador.

— Deveria ser o contrário, não é? Sua família achar que estou dando um golpe, tentar nos afastar. Mas não. Ainda não entendi como um médico bonito como você pode dar um golpe em uma simples atendente de livraria. Você quer livros com descontos pelo resto da vida, não é?

Levi sorri.

— Achei que por ser vendedora você teria ótimos descontos, e como seu futuro marido eu teria muitos livros de presente. Pelo visto me enganei. — brinca.

— Primeiro que o desconto não é tão grande assim, segundo que se houvesse livros quase de graça eu ficaria com todos.

— Que má você é. Conhecimento é poder. E conhecimento deve ser compartilhado. Você traz luz para minha vida. — Levi diz e eu meu derreto!

Há como não querer um futuro com ele?

— Você trouxe um filho para a minha, bobinho.

A gargalhada enche o carro. Respiro fundo.

— Pronto? — pergunto.

— Não, mas precisamos dizer.

— Não é melhor esperar? Uns nove meses, por exemplo? Chegar já com a criança para apresentar? Assim ela não surta. — falo preocupada com a segurança do meu noivo e com meu futuro casamento, ou a falta dele.

— E você planeja esconder o bebê aonde?

— Posso usar roupa larga, virar hippie.

— Podemos até esperar, mas não muito.

— Escolhi esperar.

— Decisão tomada. — fala e sorrio aliviada. Beijo meu médico bonitão.

A vida sempre nos dá muitos caminhos, escolhemos os que mais nos convém, os que acreditamos ser o correto, mas todos eles trazem consequências. O que a minha escolha traria a longo prazo eu não sabia, mas hoje, ela me dava paz.

— Já pode descer do carro e entrar Lia. Vai ficar o restante do dia aí? — A voz de dona Claudete soa brava o que nos leva a sorrir.

— Quando nos casarmos, o porteiro do prédio estará autorizado a sempre que dona Claudete chegar, chamar a polícia.

— Para você ou para ela? — pergunto rindo.

— Para ela.

— Ah, amor. Embora ela seja um pouco maluca, eu a amo e não quero que ela se afaste ou que nos afastemos dela ao nos casarmos.

— Ela é sua mãe e sempre será. É sua família. Não ser aceito gera exclusão, mas nunca destrataria alguém que você ama.

— Você é tão bonito por dentro quanto é por fora.

— Não seria o contrário, amor?

— Provavelmente. Logo vai descobrir que sou ruim de ditados.

— Não quer ir para minha casa? Pega uma roupa e fica comigo?

— Melhor não.

— Então é melhor você descer, a mangueira está sendo ligada. E tudo o que não quero é ter que me preocupar com sua mãe.

— Vou indo.

— Qualquer coisa, jura que me grita? — pergunta preocupado.

— Juro.

— Vai. — pede e desço sorrindo. O sorriso fica até tomar um banho gelado de mangueira.

Minha mãe me olha assustada.

— Desculpa, filha, não percebi que era você.

— Um dia vai torcer para que seja feliz?

— É feliz ao lado dele? — pergunta curiosa. Eu não mostro isso?

— Muito mais do que podia imaginar.

— Como um aproveitador de vendedora de livros pode te fazer feliz?

— Está louca, mamãe? Como um médico se aproveitaria de uma pobre?

— Não sei, ainda não pensei nisso.

— Não pode continuar maltratando-o.

— Não o maltrato, só acho estranho que um médico se relacione com moças pobres.

— Não me diminua mãe. Ele me ama pelo que sou. Inteligente, bonita, bem humorada. Se continuar com isso, farei as malas e irei embora.

— Ir para onde menina? Toma rumo na vida Lia Carneiro.

— Por que está fazendo isso?

— Acha esse moço um mocinho que saiu de um livro para viver um amor com você. Isso não existe. Vai quebrar a cara. Depois, não diga que não avisei.

— Podia desejar felicidades ao meu relacionamento apenas uma vez?

— Quando o padre finalizar o casamento. Até lá, ele tomará banho de água gelada e se você reclamar, tomará junto.

Subo chateada. Como uma mãe pode pensar assim? Um golpe? Pelo amor de Deus!

— Ah, meu Deus! Estou julgando uma mãe. Desculpe, logo serei uma.

Resmungo baixo, afinal, já posso me ver dizendo que o filho é meu, palpites na criação só aceito os meus. Será que serei uma mãe louca igual a minha é?

Que esse bebê me perdoe e que Deus nos proteja