Guerra e Paz
Segunda Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Telianine continuava sentado na atitude indolente que mostrara momentos antes, esfregando as pequenas mãos brancas. «Sempre há cada cara neste mundo!», dizia de si para consigo Rostov, ao voltar ao quarto.
— Então mandou buscar o cavalo? — inquiriu Telianine, levantando-se e lançando um olhar distraído à sua roda.
— Mandei.
— Ora vamos lã ver isso. Vim apenas para pedir ao Denissov as ordens de ontem. Tem-nas consigo. Denissov?
— Não, ainda não. Eh! Onde é que vai?
— Vou ensinar a este rapaz como se ferra um cavalo — disse Telianine.
Desceram a escada e dirigiram-se à cavalariça. O tenente ensinou a Rostov como convém pregar os cravos numa ferradura e voltou para casa.
Quando Rostov regressou, em cima da mesa havia urna garrafa de aguardente e uma salsicha. Denissov estava sentado e a pena rangia sobre o papel. Olhou para Rostov com uma expressão sombria.
— Estou a escrever-lhe — disse.
Pôs o cotovelo na mesa, apoiou-se, com a caneta na mão, e, evidentemente contentíssimo por ter oportunidade de dizer de uma só vez tudo o que tinha intenção de escrever, pormenorizou a Rostov o conteúdo da carta entre mãos.
— Como vês, meu velho — comentou —, enquanto não gostamos de alguém é como se estivéssemos a dormir. Não somos mais que pó... Mas assim que um homem começa a amar, é como se fosse Deus, sente-se puro, é como nos primeiros dias da Criação... Que temos ainda? Manda-o para o diabo que o carregue! Não tenho tempo — gritou para Lavruchka, que se aproximava, sem se perturbar.
— Que quer que eu faça? Foi o senhor quem o mandou. O sargento vem pelo seu dinheiro.
Denissov franziu as sobrancelhas, quis levantar a voz, mas calou-se.
— Ora esta! Que estopada! — disse como para consigo mesmo. — Que dinheiro há ainda na bolsa? — perguntou a Rostov.
— Sete moedas novas e três velhas.
— Isto é que é uma espiga! Que estás tu aí a fazer, idiota? Vai chamar o sargento — gritou Denissov para Lavruchka.
— Se tu quiseres. Denissov, eu empresto-te dinheiro. Eu tenho dinheiro — disse Rostov corando.
— Não gosto de pedir dinheiro emprestado aos amigos, não, não gosto — balbuciou Denissov.
— Se não aceitares o meu dinheiro, como camarada que és, fico contrariado. Realmente tenho dinheiro – repetiu Rostov. Denissov aproximou-se da cama, para tirar a bolsa de baixo da almofada.
— Onde é que puseste a bolsa. Rostov?
— Aí sob a almofada.
— Não está cá nada.
Denissov atirou para o chão as duas almofadas. A bolsa não estava.
— É extraordinário!
— Espera. Naturalmente não procuraste bem! — interveio Rostov, pegando nas almofadas, uma por uma e sacudindo-as.
Levantou igualmente a colcha e sacudiu-a. A bolsa, nada.
— Ter-me-ia eu esquecido? Qual quê? Até disse de mim para comigo que tu a punhas debaixo da cabeça, como se fosse um tesouro. Foi aí que eu pus a bolsa. Onde está ela? — acrescentou, dirigindo-se a Lavruchka.
— Eu não pus os pés no quarto. Onde a pôs é que ela deve estar.
— Mas não esta!
— É sempre assim, deixa as coisas em qualquer parte e depois esquece-se delas. Veja nas algibeiras.
— Não, se eu não tivesse pensado que era como fosse um tesouro — repetiu Rostov — Lembro-me perfeitamente de que a arrumei.
Lavruchka desfez a cama, espreitou por debaixo barras, sob a mesa, revolveu a casa inteira e acabou por parado no meio do quarto. Denissov seguia, sem dizer palavra, todos os movimentos de Lavruchka, e quando o viu, parado no meio do quarto, os braços abertos, declarando que, a bolsa não estava em parte alguma, olhou para Rostov.
— Rostov, deixa-te de brincadeiras
Rostov sentiu pousado nele o olhar de Denissov, ergueu os olhos e voltou logo a baixá-los. Todo o sangue das veias, que lhe estava parado na garganta, lhe subiu à cara. Não podia respirar.
— Aqui não estiveram senão o tenente e os senhores. Tem de estar em qualquer parte — disse Lavruchka.
— Pois então, filho de uma velha, mexe-te, procura — subitamente Denissov, corando muito e lançando-se sobre o pedido com um gesto ameaçador. — A bolsa já ou, então, o chicote! Vai tudo corrido a chicote!
Rostov, olhando Denissov bem de frente, abotoou o dólman, afivelou o sabre e pós a barretina.
— É o que eu te digo, é preciso que a bolsa apareça — gritava Denissov, sacudindo a ordenança pelos ombros e encostando-a à parede.
— Basta. Denissov: eu sei quem a levou — disse Rostov, que avançou para a porta, sem erguer os olhos.
Denissov soltou Lavruchka, reflectiu um momento e compreendendo, certamente, a quem Rostov aludia, agarrou-o por um braço.
— Que imbecilidade! — gritou com tamanha violência que as veias do pescoço e da testa se lhe intumesceram. — É o que eu te digo: estás doido, não te consentirei uma coisa dessas! A bolsa tem de estar aqui! Ainda que eu tenha de arrancar a pele a este miserável, a bolsa há-de aparecer.
— Eu sei quem a levou — repetia Rostov, em voz trémula, encaminhando-se para a porta.
— E eu repito-te que não te atrevas a fazer uma coisa dessas! — gritou Denissov, lançando-se sobre o junker, para o não deixar partir.
Mas Rostov soube evitá-lo, olhando-o fixamente e bem de frente com tamanho rancor que dir-se-ia ser Denissov o seu maior inimigo.
— Estás a perceber o que dizes? — articulou, com a voz trémula. — Além de mim mais ninguém havia neste quarto. Por isso, se não foi o outro...
Não pode concluir, e desapareceu.
— Diabos te levem a ti e a todos os outros! ouviu Rostov, quando se afastava.
Rostov dirigiu-se a casa de Telianine.
— O meu amo não está, foi ao estado-maior — disse-lhe a ordenança. — Aconteceu alguma coisa? — acrescentou, ao ver os traços descompostos do junker.
— Nada.
— Por pouco que o apanhava aqui — continuou o impedido.
O estado-maior ficava a três verstas de Saltzeneck. Rostov, sem voltar a casa, montou a cavalo e para lá se dirigiu. Na aldeia onde estava instalado o estado-maior havia um albergue frequentado pelos oficiais.
Foi para aí que Rostov se encaminhou. A porta estava o cavalo de Telianine.
Na segunda sala do albergue encontrou o tenente abancado diante de um prato de salsichas e de uma garrafa de vinho.
— Ah!, então por aqui, meu rapaz? — disse ele, sorrindo e erguendo as sobrancelhas.
— É verdade — volveu Rostov, como se dizer coisa tão simples lhe custasse muito, e sentou-se a uma mesa vizinha. Ambos ficaram calados. Estavam presentes dois alemães e um oficial russo. Ninguém falava, e apenas se ouvia o tinir das facas de encontro aos pratos e o ruído das maxilas do tenente, que mastigava. Quando Telianine acabou de almoçar, puxou de uma bolsa. Com os dedos delicadamente soerguidos fez deslizar a argola, pegou numa moeda de ouro e, franzindo as sobrancelhas, pagou ao criado.
— Depressa, se fazes favor — recomendou.
A moeda era nova. Rostov levantou-se e aproximou-se de Telianine.
— Deixe-me ver essa bolsa — disse em voz muito baixa, quase ininteligível.
Com o olhar esquivo e o ar sempre preocupado. Telianine deu-lhe a bolsa.
— É bonita, não é?... É... é... — disse, empalidecendo repentinamente. — Pode vê-la, meu rapaz.
Rostov pegou na bolsa, examinou-a, fez o mesmo ao dinheiro que ela continha, e depois fitou Telianine. O tenente, como de costume, deixou errar os olhos, sem o fixar, e de repente pareceu divertir-se.
— Se chegarmos a Viena, tenho a impressão de que deixamos lá tudo, mas por agora não há onde gastar o nosso dinheiro senão nestes antros. Dê cá a bolsa, meu rapaz, vou andando.
Rostov não disse palavra.
— Que é que vai fazer? Vem almoçar? Não se come nada mal aqui — prosseguiu Telianine. — Deixe ver.
Estendeu a mão para a bolsa. Rostov deixou que ele a tomasse. Telianine pegou-lhe e enfiou-a na algibeira dos calções de montar, enquanto erguia as sobrancelhas, despreocupadamente, e abria a boca como para dizer. «Pois claro, meto a minha bolsa na algibeira, não há nada mais simples, e ninguém tem nada com isso.»
— Então, meu rapaz? — disse, com um suspiro, e por debaixo das sobrancelhas erguidas lançou um olhar a Rostov.
Faíscas eléctricas correram e saltaram entre os olhos de ambos, duas, três vezes, num relâmpago.
— Venha daí — disse Rostov, pegando-lhe num braço. E conduziu-o quase a força para o pé da janela,
— Esse dinheiro é do Denissov. O senhor fez-lhe mão baixa — murmurou-lhe ao ouvido.
— O quê?... O quê... Atreve-se?... O quê?... — disse Telianine.
Saíra nestas palavras qualquer coisa de desesperado, como a pedir perdão. Ao ouvir esta voz. Rostov sentiu que lhe tiravam como que um grande peso de cima dos ombros. Uma grande alegria o tomou, ao mesmo tempo que sentia piedade pelo infeliz que estava diante dele. Mas era preciso ir até ao fim.
— Só Deus sabe o que esta gente vai pensar — balbuciou Telianine, pegando na barretina e dirigindo-se para uma salinha que estava vazia. — Temos de nos explicar.
— Eu sei o que digo e posso prová-lo — afirmou Rostov.
— Eu...
Todos os músculos do rosto assustado e pálido de Telianine estremeceram. O seu olhar continuava fugidio, mas fito no chão, e não ousava levantar os olhos para Rostov; abafou uma espécie de soluço.
— Conde!... Não perca um homem... Aqui tem este miserável dinheiro, tome conta dele... — Atirou-o para cima da mesa. — Tenho um pai, que é velho, tenho um mãe!...
Rostov pegou no dinheiro, evitando o olhar de Telianine, e, sem dizer palavra, abalou. Mas ao chegar ao limiar da porta, deteve-se e voltou atrás.
— Meu Deus! — exclamou com as lágrimas nos olhos. — Como é que pôde?
— Conde — disse Telianine, aproximando-se do junker.
— Não me toque — tornou Rostov, recuando. — Se está precisado de dinheiro, tome o que aí está.
Atirou-lhe com a bolsa e saiu a correr da estalagem.
[V]
Na noite do mesmo dia, em casa de Denissov, travava-se urna animada conversa entre os oficiais do esquadrão.
— E eu, na minha opinião, acho que o Rostov deve apresentar as suas desculpas ao comandante do regimento — dizia para o próprio Rostov, vermelho como uma papoula, e emocionadíssimo, um capitão, muito alto, de cabelos grisalhos, grandes bigodes e um rosto duro, sulcado de rugas.
O capitão Kirsten já por duas vezes fora degradado em soldado raso, por questões de honra, e das duas vezes recuperara o seu antigo posto.
— Não consinto a ninguém que me chame mentiroso! — exclamou Rostov. — Ele disse-me que eu estava a mentir, e eu retorqui-lhe que quem mentia era ele. E é assim que as coisas ficarão. Está no seu direito, se, quiser, pôr-me de serviço todos os dias e mandar-me deter até. Eu é que lhe não apresentarei desculpas, visto que se ele, como comandante do regimento, entende que lhe não fica bem dar-me satisfações...
— Calma, calma, meu rapaz; ouça lá — interrompeu o capitão, na sua voz de baixo, cofiando tranquilamente os longos bigodes. — Disse ao comandante do regimento, na presença de outros oficiais, que um oficial tinha roubado...
— Não tenho culpa que a conversa se tivesse passado diante de outros oficiais. Talvez que eu, realmente, não devesse ter falado diante deles; falta-me o jeito diplomático. Se escolhesse os hússares, é porque estava convencido de que aqui ninguém se preocupava com essas finezas; e vai ele e diz que eu estava a mentir... Então é ele quem me deve apresentar desculpas...
— Tudo isso está certo, ninguém diz que o senhor é um poltrão. Não é disso que se trata. Pergunte ao Denissov se isso é conveniente, se um junker deve pedir satisfações ao comandante do seu regimento.
Denissov, mordiscando o bigode, ouvia a conversa de sobrecenho carregado, sem querer, ao que parecia, intervir na discussão. Quando o capitão formulou a sua pergunta, ele meneou a cabeça negativamente.
— O senhor falou nessa vilania ao comandante diante dos oficiais — prosseguiu o capitão. — Bogdanitch (era o nome do comandante do regimento) mandou-o calar.
— Não me mandou calar, mas disse-me que eu não falava verdade.
— Sim, mas o senhor respondeu-lhe umas tolices, e é preciso pedir-lhe desculpa.
— De maneira alguma! — exclamou Rostov.
— Não esperava isto de si — disse o capitão num tom ao mesmo tempo sério e severo. — O senhor não quer apresentar desculpas; mas, meu amigo, não há dúvida de que é culpado, não só perante ele, mas perante o regimento inteiro, perante todos nós. Ouça: se ao menos o senhor tivesse pensado dois minutos e se se tivesse aconselhado, mas não, foi logo às do cabo, e diante dos oficiais. Que é que o comandante tinha a fazer? Entregar um oficial à justiça e enlamear todo o regimento? Desonrar o regimento inteiro por causa de um miserável? Era isto que se devia ter feito, na sua opinião? Mas nós não pensamos assim: Bogdanitch teve razão: disse-lhe que o senhor não falava verdade. É desagradável, mas que quer, meu velho, foi o senhor quem assim o quis. E agora, que se pretendem abafar as coisas, o senhor, por amor-próprio, não quer apresentar desculpas e deseja pôr tudo em pratos limpos. Está furioso por o terem posto de serviço permanente, mas que é que lhe custava apresentar desculpas a um oficial velho e honesto? Seja qual for, de resto, a atitude de Bogdanitch neste caso, o certo é que é um velho coronel digno e valente; e o senhor sente-se ofendido, e, quanto a manchar o regimento, isso não o incomoda? — A voz do capitão tremia, comovida. — O senhor não vai ficar aqui muito tempo. Se hoje está neste regimento, amanhã já estará em qualquer outra parte, como ajudante-de-campo. Pouco lhe importa que venha a dizer-se: «Entre os oficiais do Pavlogrado há ladrões!» Mas a nós, a nós, isso não nos é indiferente. Não é verdade. Denissov? Isso a nós não nos é indiferente.
Denissov calava-se e não se mexia, fitando Rostov, de tempos a tempos, com os seus olhos pretos muito vivos.
— O senhor preza acima de tudo o seu amor-próprio e não quer apresentar desculpas — continuou o capitão —, mas aos velhos, àqueles que têm envelhecido no regimento, e se Deus quiser nele hão-de morrer, a esses, a honra do regimento importa muito, e Bogdanitch sabe-o bem. Queremos-lhe muito! Não está certo! Que o senhor esteja ou não ofendido, eu, por mim, gosto de dizer a verdade. Não está certo!
O capitão levantou-se e voltou costas a Rostov.
— Ele tem razão, diabos me levem! — exclamou Denissov, erguendo-se de um salto.— Vamos. Rostov, vamos!
Rostov, corando e empalidecendo ao mesmo tempo, fitava ora um oficial ora outro.
— Não, meus senhores, não... Não devem pensar... Eu compreendo muito bem, fazem mal em pensar que eu seria capaz... Eu.., por mim.., sou pela honra, do regimento... Mas falar nisso para quê?... Hei-de-o mostrar com acções, e para mim a honra da bandeira... Bem, pouco importa, é verdade, sou culpado!... Tinha as lágrimas nos olhos. — Sou culpado, inteiramente culpado!... Que é que querem mais?
— Bom, está bem, conde — disse, voltando-se, o capitão, e bateu-lhe no ombro com a sua grande manápula.
— Eu tinha-te dito — acrescentou Denissov— que ele era um bom camarada.
— Assim está bem, conde — repetiu o capitão, que o tratava pelo título como se isso fosse uma recompensa do seu gesto. — Vá apresentar as suas desculpas. Excelência. Está bem!
— Meus senhores, estou pronto a tudo, nunca mais ninguém ouvirá falar deste caso — protestou Rostov, numa voz comovida. — Mas desculpas não, cos diabos, desculpas não. Que querem que eu faça? Que peça desculpa, como um garoto, que implore perdão?
Denissov pôs-se a rir.
— Tanto pior para si. O Bogdanitch é rancoroso. Há-de-lhe fazer pagar cara a sua obstinação — disse Kirsten.
— Com mil diabos, não, não é obstinação! Não lhes posso dizer o que sinto.., não posso.
— Bom, faça o que entender! — exclamou o capitão-adjunto. — E esse miserável, onde é que ele se meteu? — perguntou a Denissov.
— Deu parte de doente; amanhã a ordem de serviço há-de dá-lo como doente — respondeu este.
— A doença; não há outra desculpa — disse o capitão-adjunto.
— Doente ou não, que me não caia nas mãos, dou cabo dele! — gritou Denissov, feroz.
Jerkov entrou na sala.
— O que há? — perguntaram os oficiais imediatamente.
— Ordem de marcha, meus senhores. Mack rendeu-se com todo o seu exército.
— Não pode ser!
— Vi-o com os meus próprios olhos.
— Quê? Tu viste o Mack vivo? Em carne e osso?
— Para a guerra!, para a guerra! Vamos beber pela boa nova. E tu, que estás aqui a fazer?
— Mandaram-me regressar ao meu regimento precisamente por causa desse diabo do Mack. O general austríaco queixou-se de mim; felicitei-o pelo seu regresso... Que é isso. Rostov? Que tens tu? Parece que acabas de sair de um banho quente.
— Temos estado metidos num tal sarilho estes últimos dois dias!
Um ajudante-de-campo do regimento entrou nesse momento e confirmou a notícia trazida por Jerkov. Havia ordem para se porem em marcha no dia seguinte de manhã.
— Para a guerra, meus senhores!
— Graças a Deus; estávamos a criar bolor.
[VI]
Kutuzov tinha retirado para Viena, fazendo saltar as pontes do Inn em Braunau e a do Traun em Lintz. No dia 23 de Outubro, o exército russo atravessava o Enns. As bagagens, a artilharia e as colunas de tropas atravessaram-no em pleno dia, formando colunas dos dois lados da ponte.
O tempo estava suave, uma atmosfera de Outono, mas chuvosa. A longa perspectiva que se descobria das eminências ocupadas pelas batarias que defendiam a ponte ora se estendia por detrás das cortinas de musselina formada pela chuva oblíqua, ora se alargava, e na luz brilhante do Sol podiam distinguir-se os objectos a distância como cobertos por uma camada de verniz. Lá em baixo via-se a cidadezinha, com as suas casas brancas de tectos vermelhos, a sua catedral e a sua ponte, em cujos flancos corria, em fileiras apressadas, a onda dos exércitos russos. Na curva que o Danúbio ali formava viam-se barcos, uma ilha e um castelo com um parque cercado pelas águas da confluência do Enns e do Danúbio. Depois via-se a margem esquerda do rio, escarpada e coberta de pinheirais, misteriosos horizontes de cumeadas verdejantes e de desfiladeiros azulados; um pouco mais adiante, as torres de um convento emergindo de um pinheiral selvagem, tão cerrado que parecia uma floresta virgem; na distância, e defronte, na outra margem do Enns, numa eminência, entreviam-se as patrulhas inimigas.
A frente da bataria, lá no alto, estava o comando da retaguarda: um general, com um oficial às ordens, que examinava o terreno pelo óculo. Um pouco mais para trás, sentado sobre a carreta de uma peça de artilharia, via-se Nesvitski, enviado à retaguarda pelo general-chefe. O cossaco que o acompanhava apresentava-lhe um saco de provisões e um frasco, e Nesvitski regalava os oficiais com pastéis e kummel autêntico. Estes formavam roda em tomo dele, muito alegres, uns de joelhos, outros escarranchados, à turca, na erva molhada.
— Não era qualquer imbecil o príncipe austríaco que mandou ali construir um castelo. Que sítio magnífico! Eh! Então? Os senhores não comem? — dizia Nesvitski.
— Obrigado, príncipe — respondeu um dos oficiais, que parecia encantado de se ver assim a conversar com um membro tão importante do estado-maior. — Soberbo local, realmente! Passámos diante do parque e vimos lá dentro dois veados; que magnífica residência!
— Olhe, príncipe — disse outro oficial, desejoso de comer mais um pastel, mas sem coragem de o pedir e, por isso mesmo, fingindo examinar a paisagem. — Olhe, a nossa infantaria acabou agora mesmo de lá chegar. Lá diante, ao pé daquele prado, por detrás da aldeia, três soldados estão a puxar qualquer coisa. Vão fazer uma rica limpeza no palácio — acrescentou com evidente aprovação.
— Sem dúvida — disse Nesvitski — Não, cá por mim, o que eu gostava — acrescentou, metendo um pastel pela boca abaixo — era de ir até ali.
Apontava para o convento torreado que se descobria no alto da colina. Sorriu; os olhos fizeram-se-lhe pequenos e brilhantes.
— Não há dúvida, devia ser uma beleza, meus senhores!
Os oficiais puseram-se a rir.
— Meter um susto às freirinhas. Parece que são italianas, e novas, segundo dizem. Palavra de honra, dava cinco anos de vida para ir até lá.
— Tanto mais que elas devem estar aborrecidíssimas — disse, rindo, um oficial mais atrevido do que os outros.
Entretanto, o oficial às ordens, de serviço, apontava fosse o que fosse ao general. Este pôs-se a observar pelo óculo.
— Sim, senhor, lá estão eles, lá estão eles! — exclamou, encolerizado, afastando o óculo e encolhendo os ombros. — Lá estão eles e vão-nos cair em cima na altura da travessia do rio. Que estarão eles para ali a fazer?
Do outro lado do rio via-se o inimigo a olho nu e uma das suas batarias, por cima da qual se elevava um fumozinho leitoso. O fumo foi acompanhado, momentos depois, de uma detonação longínqua e viram-se as tropas russas estugar o passo na passagem do rio.
Nesvitski, para se fazer valer, levantou-se e, sorrindo, aproximou-se do general.
— Não quer Vossa Excelência comer também um bocadinho? — disse-lhe ele.
— A coisa vai mal — declarou o general, sem lhe responder. — Os nossos estão atrasados.
— Quer que vá lá. Excelência? — inquiriu Nesvitski.
— Vá, sim, faça favor — tornou o general, repetindo-lhe as ordens dadas já em pormenor —, e diga aos hússares que sejam os últimos a atravessar e que queimem a ponte, como eu ordenei, e que voltem a inspeccionar as matérias inflamáveis que lá estão.
— Muito bem — respondeu Nesvitski.
Chamou o cossaco que lhe segurava o cavalo, disse-lhe que guardasse as provisões e o cantil, e, ligeiro, instalou a sua pesada corpulência em cima do cavalo.
— Palavra de honra, que vou fazer uma visita às freiras — disse para os oficiais, que olhavam para ele sorrindo, e pôs-se a descer a colina ao longo de um caminho que serpenteava.
— Ouça, capitão, veja até onde isso vai — gritou o general, dirigindo-se ao comandante dos artilheiros. — Vamos, para entreter o tempo,
— Serventes, a postos! — comandou o oficial.
Momentos depois os artilheiros acorriam alegremente, saindo dos seus bivaques, e punham-se a carregar as peças.
— Primeira peça! — exclamou o comandante.
A primeira peça deu um salto à retaguarda. Ouviu-se o estampido de um trovão metálico e o projéctil passou, assobiando, por cima da cabeça dos russos, no sopé da colina; muito longe do lugar onde estava o inimigo uma nuvem de fumo veio assinalar o sítio onde o projéctil tinha caído.
Soldados e oficiais rejubilaram ao ouvir a detonação. Todos se levantaram e puseram-se a observar, lá no fundo, os movimentos das tropas russas, tão visíveis como se estivessem na palma de uma mão, e mais adiante o movimento do inimigo, que se aproximava. Nessa altura, o sol rompeu as nuvens e aquele belo tiro de canhão isolado fundiu-se com o seu fulgor radioso, criando uma sensação de bravura jovial.
[VII]
Por cima da ponte já tinham passado dois projécteis inimigos e o tumulto ali era grande. No meio da ponte estava Nesvitski. Tinha-se apeado e ei-lo ali, com a sua corpulenta pessoa, cerrado contra o parapeito. Voltava-se para o cossaco, que, com os dois cavalos pela arreata, ficara alguns metros mais atrás. De cada vez que tentava avançar, os soldados e as viaturas obrigavam-no a retroceder, e comprimiam-no de novo de encontro às guardas da ponte. Nada mais podia fazer do que rir.
— Eh, tu, lá de diante — dizia o cossaco para um soldado que conduzia uma grande viatura, forçando a marcha por cima dos próprios pés dos soldados, contra os quais avançavam rodas e cavalos. — Eh, tu, não podes esperar? O general quer passar,
O soldado do comboio, sem prestar atenção à palavra general que lhe atiravam, gritava para os soldados que lhe impediam a marcha: «Eh, camaradas, pela esquerda, esperem um bocado!» Mas os camaradas, ombro com ombro, embaraçando-se nas baionetas, avançavam pela ponte fora em massa compacta. Debruçando-se sobre o parapeito, o príncipe Nesvitski via as pequenas vagas rápidas e rumorosas do Enns, que, misturando-se e quebrando-se de encontro aos pegões da ponte, se perseguiam umas às outras. Em cima da ponte também se espraiavam ondas vivas e monótonas de soldados; barretinas, com grandes cordões, envoltas em suas capas, mochilas, baionetas, lanças e, debaixo das barretinas, figuras poderosamente musculadas, de faces cavadas, um ar de fadiga e despreocupação, pernas Que se moviam na lama viscosa colada às pranchas da ponte. De onde em onde, por entre as vagas iguais dos soldados, emergia, tal a espuma branca nas águas do Erms, um oficial com o seu casacão e uma máscara que ressaltava no meio das dos soldados; de quando em quando, como se fosse um feixe de palha levado pelas águas, flutuava, por cima das vagas da infantaria, um hússar a pé, uma ordenança ou um civil; e outras vezes, como uma prancha flutuante, via-se sobrenadar, cercado por todos os lados, um furgão de regimento ou uma viatura de oficial cobertos de couro, carregadíssimos.
— Parece que se rompeu um dique — disse o cossaco, detendo-se desesperado. — Ainda faltam muitos?
— Metade e outros tantos! — exclamou, piscando o olho, um soldado folgazão que naquele momento passava, de capote esfarrapado; atrás dele surgiu um soldado já velho.
— Se ele (ele era o inimigo) se lembrasse agora de nos dar um calor em cima da ponte — murmurou para um camarada, taciturno — não tínhamos tempo de nos coçar.
E seguiu adiante. Atrás dele vinha outro a guiar uma carroça.
— Onde é que diabo meteram a chave? — gritava uma ordenança, que acompanhava a viatura, espiolhando-lhe as traseiras. Tanto o homem como a carroça afastaram-se. Depois apareceu um grupo de soldados muito alegres e que se via bem estarem embriagados.
— É o que te digo, meu velho, quando ele lhe atirou com a coronha da espingarda... — dizia, rindo, um dos militares, que tinha o cabeção do capote levantado e fazia grandes gestos.
— Ah, sim, que rico presunto — respondeu outro soldado, escancarando a boca.
E foram andando, de modo que Nesvitski não conseguiu perceber quem é que tinha sido agredido nem o que é que queria dizer aquele presunto.
— Porque é que se puseram agora a correr? Lá porque ele lhes mandou um balázio, já pensam que estão todos perdidos — disse um sargento, furioso.
— Quando ela passou por mim, a granada — exclamou um soldado muito novo que, a rir, abria uma boca enorme —, julguei ir desta para melhor. Caramba, sempre tive um destes medinhos! — acrescentou, como que orgulhoso de ter tido medo.
E também este foi andando para diante. Depois chegou uma viatura que se não parecia com qualquer das que tinham passado. Era uma carroça alemã tirada por dois cavalos, carregada, ao que parecia, com o recheio de uma casa inteira. Atrás da carroça, guiada por um alemão, vinha amarrada uma bela vaca malhada, de grandes tetas. Sobre um colchão de penas ia deitada uma mulher que dava de mamar a uma criança, uma velha c uma rapariga sadia e rubicunda. Via-se perfeitamente que aqueles emigrantes tinham sido autorizados a circular mercê de uma licença especial. Os olhos de todos os soldados seguiam as duas mulheres e, enquanto o comboio ia passando, a passo, todas as observações as tinham por objecto. Em todas as máscaras se notava a expressão agarotada que a presença daquelas mulheres sugeria.
— Então, minha salsicha, mudamos de casa?
Está à venda a tiazinha? — interrogou outro soldado, acentuando a última sílaba (Matucka (tiazinha). (N, dos T.) e dirigindo-se ao alemão, que caminhava, de cabeça baixa, com grandes passadas e um ar ao mesmo tempo furioso e assustado.
— Olha para o vestido dela! Ah! Com mil diabos!
— Hem! Agradava-te estares aboletado lá em casa. Fedotov?
— Tenho visto muita mulher, meu filho!
— Onde é que vais? — perguntou um oficial de infantaria, que comia uma maçã, e que também estava de olhos arregalados, todo sorridente, para a mocetona.
O alemão, cerrando os olhos, fazia menção de não perceber.
— Queres? — disse o oficial, oferecendo uma maçã à rapariga.
A moça sorriu e pegou na maçã. Tanto Nesvitski, como os demais em cima da ponte, não perderam de vista as mulheres enquanto elas não passaram. Atrás delas continuaram a passar os mesmos soldados, dizendo sempre as mesmas coisas, e finalmente houve uma paragem geral. Como costuma acontecer frequentemente à saída das pontes, os cavalos embaraçaram-se nas viaturas do regimento e toda aquela massa de tropa ficou detida.
— Que diabo de paragem é esta? Não há ordem? — gritavam os soldados. — Vê lá onde pões os pés! Cos demónios, não sei porque é que esperam! O bom e o bonito seria se ele deitasse fogo à ponte. Olha, lá fica esmagado aquele oficial... — E de todos os lados choviam comentários deste género: cada um olhava para o vizinho e ia fazendo pressão no sentido da saída da ponte.
Estando a olhar para as águas do Erms, que corriam por debaixo da ponte. Nesvitski sentiu, de repente, um ruído novo para ele, fosse o que fosse que se aproximava muito depressa.., qualquer coisa muito grande veio cair com estrondo nas águas.
— Hem! Boa pontaria! — exclamou, carrancudo, um soldado, ali a dois passos, que se voltara ao ouvir o estampido.
— Dá-nos coragem para andarmos mais depressa — disse outro soldado com inquietação.
A multidão voltou a mover-se. Nesvitski compreendeu que aquilo fora bala de canhão.
— Eh! Cossaco! O cavalo — gritou. — Vamos, rapazes, afastem-se! Mexam-se! Deixem passar!
Foi com dificuldade que conseguiu chegar até ao pé da montada. Sem nunca deixar de gritar à multidão, conseguiu avançar. Os soldados cerravam fileiras para lhe dar lugar, mas acabavam por se comprimir contra ele de tal modo que lhe imobilizavam as pernas, sem querer, eles próprios vítimas da compressão dos outros.
— Nesvitski! Nesvitski! Eh, malandro! — exclamou, nessa altura, atrás dele uma voz rouca.
Nesvitski voltou-se e viu, a uns quinze passos de distância, separado dele pela massa viva da infantaria em marcha, uma criatura muito vermelha, muito negra, a barretina atirada para a nuca, com um dólman garbosamente aos ombros: era Vaska Denissov.
— Diz-lhes que nos deixem passar, a esses demónios, a esses filhos do Diabo! — gritava Denissov, visivelmente num dos seus acessos de fúria. Os olhos negros e brilhantes como carvão rolavam-lhe nas órbitas inflamadas. Brandia o sabre, que não tirara da bainha, na pequena mão nua, tão vermelha como a cara.
— Ah! Vaska! — volveu-lhe, alegremente. Nesvistski. — Que fazes aqui?
— É impossível fazer avançar o esquadrão — gritava Vaska Denissov, mostrando os dentes brancos e esporeando o belo murzelo, um beduíno de puro sangue, que, ao picar-se nas baionetas, eriçava as orelhas, resfolgado, espargindo de espuma tudo à sua volta, escarvava com as patas as tábuas da ponte, pronto a saltar por cima do parapeito se o cavaleiro que o montava consentisse.
— O quê? Como carneiros, sim, como autênticos carneiros! Ao largo!... Deixem passar!... Façam alto, viaturas! Com mil diabos! Esperem, que eu lhes digo, vai à espadeirada... — E, com efeito, arrancando o sabre da bainha, pôs-se a agitá-lo no ar.
Os soldados, aterrorizados, encolheram-se uns contra os outros, e Denissov pôde aproximar-se de Nesvitski.
— Quê, que dizes tu? Ainda hoje não bebeste nada? — exclamou Nesvitski para Denissov, assim que o viu perto dele.
— Que queres, eles nem para isso nos dão tempo! — replicou Vaska Denissov — Todo o dia temos andado com o regimento em bolandas, de um lado para o outro. Se é preciso que a gente se bata, vamos a isso. Mas, assim, que é que isto quer dizer?
— Que elegante estás hoje! — observou Nesvitski, olhando para o seu dólman novo e para a gualdrapa do seu cavalo. Denissov sorriu-se, tirou o lenço da algibeira, todo perfumado, e levou-o ao nariz de Nesvitski.
— Claro que não pode ser de outra maneira, vamos para o campo de batalha! Barbeei-me, lavei os dentes e perfumei-me.
A imponente estatura de Nesvitski, acompanhada do seu cossaco, assim como o ar decidido de Denissov, que espadeirava para a direita e para a esquerda, em altos gritos, deram tal resultado que os dois conseguiram esgueirar-se para o outro lado da ponte, detendo os peões. Nesvitski, à saída, foi encontrar o coronel a quem devia entregar a mensagem, e, depois de cumprida a sua missão, voltou para trás.
Denissov, que tinha conseguido abrir caminho, deteve-se à entrada da ponte. Segurando, negligentemente, o seu cavalo, que escoicinhava e resfolgava, via passar diante dele o seu esquadrão. Sobre as pranchas da ponte ressoavam ferraduras; eram alguns cavalos que vinham a trote. O esquadrão, com os oficiais à frente, alinhado a quatro, surgiu na ponte e começou a sair do outro lado.
Os homens da infantaria, obrigados a parar em cima da lama espezinhada da ponte, olhavam para os hússares, asseados e elegantes, que diante deles iam desfilando galhardamente, com essa hostilidade especial, misto de inveja e de troça, que em geral se observa entre os vários corpos de um exército.
— Isto é que é uma tropa catita! Parece mesmo que vai a caminho da parada de Podnovinskoie!
— Para que serve esta gente? Só para vista! — exclamou outro soldado.
— Eh!, infantaria! Isso não é poeira? — zombou um hússar, cujo cavalo, caracolando, salpicara de lama um dos peões.
— Gostava de te ver depois de duas boas marchas de mochila às costas. Deviam ficar bonitos os teus alamares! — ripostou o soldado de infantaria, limpando a lama da cara com a manga. — Aí empoleirado pareces mais um pássaro do que gente!
— E tu. Zikine, devias ficar bem a cavalo. Tens boa figura — dizia, trocista, um cabo a um pobre soldado de infantaria, muito magro, ajoujado ao peso da mochila.
— Monta num pau e já terás cavalo — zombou um hússar.
[VIII]
O resto da infantaria dava-se pressa em atravessar a ponte, comprimida à entrada, como num funil. Por fim, tendo passado todas as viaturas, houve menos precipitação, e o último batalhão penetrou na ponte. Apenas os hússares de Denissov permaneciam na outra, extremidade, frente ao inimigo. Este, que se via perfeitamente ao longe da colina oposta, ainda não era visível do nível da ponte, pois, na ravina por onde corriam as águas do rio o horizonte era limitado pelas cumeadas vizinhas a uma meia versta de distância. Ali defronte ficava um baldio, onde evolucionavam, por aqui e por ali, patrulhas de cossacos. De súbito, nos cabeços em frente da estrada surgiram soldados de túnica azul e artilharia. Eram os Franceses. A patrulha de cossacos, a trote, retirou-se do sopé das colinas. Oficiais e soldados do esquadrão de Denissov, procurando falar sobre outra coisa e olhar para outro lado, não deixavam de pensar no que ali estava, naqueles cabeços, e a todo o momento olhavam as manchas que se iam formando no horizonte, e que sabiam perfeitamente serem soldados inimigos. O tempo, para a tarde, clareara, o Sol dardejava os seus raios sobre as águas do rio e as montanhas sombrias que o cercavam. Tudo estava sereno; dos montes vizinhos chegavam, de quando em quando, toques de clarins e vozes do inimigo. Entre o esquadrão e os Franceses nada mais havia além de algumas pequenas patrulhas. Um espaço vazio de cerca de trezentas sagenas (Medida russa, equivalente a 2,1336 metros. (N, dos T.) os separava. O inimigo tinha cessado fogo, e isso mesmo ainda tornava mais agudo o sentimento da grave ameaça que representava aquela inacessível e insondável faixa de terreno entre os dois adversários.
«Um passo para além daquela linha que lembra a que separa os vivos dos mortos e eis-nos no mundo desconhecido do sofrimento e da morte. E lá adiante que é que está? Lá adiante, para além deste campo e desta árvore e daquele telhado iluminado pelos raios do Sol? Ninguém sabe e ninguém o deseja saber. Toda a gente tem medo de transpor aquela linha e ao mesmo tempo há como que uma tentação de o fazer; e o certo é que todos sabem que mais tarde ou mais cedo haverá que transpô-la e que conhecer o que lá existe, do outro lado da linha, exactamente como é inevitável virmos a saber o que fica do outro lado da morte. E no entanto todos nós nos sentimos fortes, saudáveis, cheios de vida.» Eis o que sente, sem dar por isso, todo o soldado diante do inimigo, e esta sensação, naquele instante, dá um brilho particular, um sentimento de rude alegria ao mais pequeno incidente.
Sobre o outeiro ocupado pelo inimigo surgiu o fumo de um tiro de peça e a bala passou, assobiando, por cima da cabeça dos soldados do esquadrão de hússares. Os oficiais, que estavam em grupo, retomaram os seus lugares. Os homens procuraram fazer alinhar as suas montadas. O silêncio reinou. Todos olhavam o inimigo, ao longe, aguardando uma ordem. Passaram uma segunda e uma terceira balas. Era evidente que faziam pontaria sobre os hússares: mas os projécteis, com um assobio monótono, passavam-lhes sobre as cabeças e iam cair, algures, lá para trás deles. Os hússares não se voltavam, mas de cada vez que se ouvia o sibilar da, bala, todo o esquadrão, como a uma voz de comando, todas aquelas feições, tão variadas ria sua uniformidade, retinham a respiração enquanto o projéctil passava, e viam-se os homens fincar-se nos estribos e depois encurvar-se. Os soldados, sem mexer a cabeça, entreolhavam-se de viés, examinando, curiosos, a impressão que sentiam os camaradas. Todos os rostos, desde o de Denissov até ao do clarim, denunciavam, por qualquer coisa, de nervoso nos lábios e no queixo, um desejo de luta, certo enervamento, certa emoção. O sargento franzia as sobrancelhas fitando os soldados, como se os ameaçasse de os castigar. O junker Mironov curvava-se sempre que o projéctil passava. Rostov, no flanco esquerdo, no seu Gratchik, um belo cavalo, apesar do seu casco fendido, tinha o aspecto feliz de um colegial chamado, a prestar provas de exame diante de uma grande assembleia e confiante no seu triunfo. Olhava para todos com os seus olhos claros e luminosos, como se quisesse mostrar a toda a gente a sua perfeita serenidade sob a metralha. Mas o certo é que, sem que desse por isso, também ele, como os demais, mostrava, na expressão, que qualquer coisa de novo e de grave se estava a passar.
— Quem é que está a fazer sinais lá em baixo? Junker Mironov! Não está certo! Olhem para mim! — gritou Denissov, que, não podendo sossegar, evolucionava, no seu cavalo, à frente do esquadrão.
O rosto de nariz esborrachado e os cabelos negros de Vaska Denissov, a sua minúscula pessoa já bastante trabalhada pela vida, as suas mãos nodosas, de dedos curtos e peludos, empunhando o sabre nu, eram os mesmos de sempre, sobretudo quando à noite já tinha despejado duas ou três garrafas. Apenas parecia um pouco mais corado que de costume. Erguendo a cabeça hirsuta, como as aves quando bebem, e esporeando impiedosamente, com as pernas curtas, o seu bom beduíno, ei-lo que se põe a galopar, o corpo atirado para trás, ao longo do outro flanco do esquadrão, e, numa voz rouca, grita que preparem as pistolas. Aproximou-se de Kirsten. O capitão, sobre a sua égua vasta e majestosa, veio, a passo, ao encontro de Denissov. De grande bigodeira, estava sério, como sempre; só os olhos lhe brilhavam mais que habitualmente.
— Então! — exclamou — Parece-me que isto não dá nada. Vais ver, acabamos por bater em retirada.
— Não sei que diabo é que eles estão a fazer! – resmungou Denissov. — Ah! Rostov! — gritou para o junker, ao ver o ar jovial. — Ah! Até que enfim, não tiveste que esperar muito!
E sorria, como para o encorajar, vendo-se que estava contente por vê-lo. Rostov sentia-se feliz. Nessa altura na ponte o coronel. Denissov dirigiu-se para ele a galope.
— Excelência, deixe-me atacar! Dou cabo deles.
— É de atacar que se trata, realmente — volveu o coronel numa voz enfadada, franzindo as sobrancelhas, como quem sacode uma mosca importuna. — Que diabo estão vocês aqui a fazer? Bem vê que os flancos já retiraram. Leve o esquadrão.
O esquadrão voltou a atravessar a ponte e saiu da zona de fogo sem perder um único homem. Atrás dele seguiu, igualmente o segundo esquadrão, exposto também ao fogo do inimigo, e os últimos cossacos evacuaram a margem.
Depois de terem passado a ponte, os dois esquadres de Pavlogrado bateram em retirada, um atrás do outro, para as cumeadas. O comandante do regimento. Karl Bogdanitch Schubert, aproximou-se do esquadrão de Denissov e seguiu a passo não longe de Rostov, sem lhe prestar a mais pequena atenção, embora fosse a primeira vez que o via desde o caso de Telianine. Rostov, consciente do seu papel, na dependência do homem perante o qual agora se sentia culpado, não perdia de vista a estatura atlética, a nuca loura e o pescoço vermelho do comandante do regimento. Ora se convencia de que Bogdanitch se fingia indiferente e que não pensava senão em experimentar a sua bravura de junker, e então empertigava-se e lançava em tomo de si um olhar jovial; ora supunha que Bogdanitch fazia de propósito, conservando-se junto dele, para assim lhe mostrar o quanto era corajoso; ora ainda pensava que o seu inimigo enviava deliberadamente o esquadrão a um ataque duro para o castigar a ele. Rostov, e de si para consigo ia dizendo que depois da refrega iria ter com ele e generosamente lhe estenderia a mão, a ele, ferido, em sinal de reconciliação.
Jerkov, cuja alta estatura e largos ombros eram bem conhecidos dos hússares de Pavlogrado, regimento que ele abandonara havia pouco, aproximou-se do coronel. Depois de ter sido expulso do estado-maior, tinha deixado o regimento dizendo que não era tão parvo que fosse condenar-se a trabalhos forçados nas fileiras quando podia ganhar muito mais sem fazer coisa alguma nas ordenanças, e tivera artes de conseguir ser nomeado oficial de ordenança do príncipe Bagration. Era portador de urna ordem para o seu velho coronel da parte do comandante da retaguarda.
— Coronel! — exclamou, com um ar sério e sombrio, dirigindo-se ao inimigo de Rostov e trocando um olhar com os camaradas. — Há ordem para voltar para trás e lançar fogo à ponte.
— Ordem? E quem a deu? — perguntou o coronel, num tom grosseiro.
— Não sei, meu coronel, não sei quem deu a ordem — replicou Jerkov, muito sério. — O príncipe só me disse: «Monta e vai dizer ao coronel que os hússares devem retirar o mais depressa possível e queimar a ponte.»
Depois de Jerkov chegou um oficial de ordenança com a mesma ordem. Atrás deste oficial aproximou-se igualmente o corpulento Nesvitski, montado num cavalo de cossaco, que só muito a custo fazia galopar.
— Que é isto, coronel?! — exclamou assim que chegou. Eu disse-lhe que queimasse a ponte, e agora diz que não sabe quem deu esta ordem? Está tudo doido, ninguém percebe nada.
O coronel, sem pressa, deu ordem ao regimento para fazer alto, e dirigindo-se a Nesvitski:
— Falou-me em matérias inflamáveis – disse — Mas, quanto a deitar fogo à ponte, nada me comunicou.
— Que me diz, camarada? — exclamou Nesvitski, que tinha refreado o seu cavalo, tirando a barretina e passando a gordurosa mão pelos cabelos ensopados de suor. — Que me diz? Não lhe comuniquei que queimasse a ponte depois de derramar as matérias inflamáveis?
— Eu não sou seu «camarada», senhor oficial do estado-maior, e o senhor não me disse que deitasse fogo à ponte! Sei muito bem o que estou a fazer e tenho por hábito cumprir rigorosamente as ordens que me dão. O senhor disse que se queimaria a ponte, mas não quem o faria. Ora eu não poderia sabê-lo por obra do Espírito Santo,
— Ah! É sempre a mesma coisa — volveu Nesvitski com um gesto de indiferença. — Que fazes tu aqui? — interrogou, dirigindo-se a Jerkov.
— O mesmo que tu. Estás encharcado! Deixa, que eu torço-te a roupa.
— O senhor disse, senhor oficial do estado-maior... — continuou o coronel, num tom ofendido.
— Coronel — interrompeu o oficial de ordenança —, é preciso agir, de outra maneira o inimigo acaba por colocar a sua artilharia ao alcance da ponte.
O coronel olhou sem dizer palavra o oficial de ordenança, o corpulento oficial do estado-maior Jerkov, e franziu as sobrancelhas.
— Deitarei fogo à ponte — volveu ele, num tom solene, como se com isso quisesse dizer que, apesar de todas as maçadas que lhe davam, cumpriria o seu dever.
Esporeando os flancos do seu cavalo com as suas grandes pernas musculosas, como se o pobre animal fosse o culpado de tudo, o coronel avançou e deu ordens ao segundo esquadrão, aquele, precisamente, a que pertencia Rostov, e estava sob as ordens de Denissov, para voltar à ponte.
«Sim, é isto mesmo», pensou Rostov, «quer-me experimentar!» Sentiu um aperto no coração e o sangue subiu-lhe à cara. «Vai ver se eu sou poltrão», pensou.
De novo, a máscara jovial dos homens do esquadrão retomou a expressão preocupada que tinha quando sob o fogo das peças de artilharia. Rostov, sem baixar os olhos, olhava para o seu inimigo, o comandante do regimento, tentando descobrir-lhe nos traços a confirmação das suas suspeitas. Mas o coronel nem, uma só vez olhou para ele. Como sempre, no campo de batalha era severo e solene. Uma ordem de comando se ouviu.
— Depressa! Depressa! — exclamaram algumas vozes em volta dele.
Embainhando os sabres, com grande barulho de esporas, e a toda a pressa, os hússares apeavam-se, sem que eles próprios soubessem o que tinham a fazer. Persignaram-se. Rostov já não se preocupava com o coronel. Não tinha tempo. Nele havia medo, um medo cheio de ansiedade, receoso de ficar para trás dos seus hússares. Tremia-lhe a mão quando entregou o cavalo ao soldado encarregado de tomar conta dele e sentia bater violentamente o coração dentro do peito. Denissov, o corpo atirado para trás, passou, gritando, junto dele. Rostov não via nada além dos hússares a correrem apressados à sua volta, embaraçando-se nas esporas no meio do retinir de sabres.
— Uma maca! — gritou uma voz à sua retaguarda.
Rostov não percebeu o que é que aquilo queria dizer pedir uma maca; corria, e não pensava senão em chegar primeiro do que outro qualquer. Mas, já perto da ponte, como não via onde punha os pés, enterrou-se num lamaçal mole e espezinhado e, desequilibrando-se, caiu com as mãos para a frente. Os outros continuaram, ultrapassando -o.
— Dos dois lados, capitão — dizia a voz do comandante do regimento, que, depois de ter tomado uma certa dianteira, se conservava, a cavalo, a pequena distância da ponte, com um ar alegre e triunfante.
Rostov, limpando as mãos cheias de lama ao calção de montar, lançou os olhos ao seu inimigo e quis avançar ainda mais; entendia que quanto mais adiante fosse melhor seria. Mas Bogdanitch, sem olhar para ele, sem o reconhecer sequer, gritou-lhe furioso:
— Quem é aquele que vai a correr pelo meio da ponte? A direita! Junker, para trás!... — Depois, dirigindo-se a Denissov, que para exibição da sua coragem avançava, a cavalo, pelo tabuleiro da ponte:
— Para que é que se há-de expor, capitão? Desmonte.
— Tem sempre qualquer coisa a dizer — replicou Vaska Denissov, voltando-se no selim.
Entretanto. Nesvitski. Jerkov e o oficial da comitiva tinham-se reunido, ao abrigo do tiro do inimigo, e observavam ora este pequeno grupo de homens de barretina amarela, de jaquetas verde-escuras, com alamares e calções azuis de montar, que se agitava perto da ponte, ora, do outro lado, ao longe, as túnicas azuis, que se aproximavam, e grupos à mistura com cavalos, que se via logo serem batarias.
«Conseguiremos ou não deitar fogo à ponte? Quem o conseguirá primeiro? Serão eles capazes de chegar a tempo, ou serão os Franceses que conseguirão aproximar-se tanto que os possam alvejar, dizimando-os a todos?» Eis as perguntas que a si próprios formulavam involuntariamente, na maior angústia, todos aqueles homens do exército imobilizado perto do rio, contemplando, à clara luz do Sol, que ia descendo no horizonte, tanto os hússares em cima da ponte como, na outra margem, as baionetas e as peças de artilharia dos túnicas azuis em marcha.
— Caramba! Os hússares vão apanhar uma coça! — dizia Nesvitski. — Já não estão longe do alcance da metralha.
— Foi um erro mandar tanta gente — observou o oficial do estado-maior.
— Efectivamente — comentou Nesvitski —, ali apenas teriam sido precisos dois valentes.
— Ah! Excelência! — interveio Jerkov, sem perder de vista os hússares, e sempre com aquele seu ar ingénuo, que levava os outros a perguntar-se a si próprios se ele estava a falar ou não a sério. — Ah! Excelência! Que é que está a dizer? Mandar lá dois homens, e depois, quem é que nos havia de condecorar com a Ordem de Vladimiro? Enquanto que assim, se eles forem dizimados, poderemos citar todo o esquadrão na ordem do dia, propondo-o para a condecoração, e apanhá-la nós também. O nosso Bogdanitch sabe muito bem o que faz.
— Olhem! — exclamou o oficial do estado-maior. — Lá começa a metralha.
Apontou para as peças de artilharia francesas, que acabavam de ser desatreladas e que apressadamente principiavam a ser distribuídas.
Do lado francês, nos grupos onde estavam as peças, apareceu um fumozinho, a seguir outro e quase simultaneamente um terceiro, e quando o estampido do primeiro tiro chegou onde estavam os oficiais russos viu-se um quarto fumo. Houve duas detonações, uma atrás da outra, e por fim uma terceira.
— Oh! Oh! — gemeu Nesvitski, como se sentisse urna dor pungente, agarrando no braço do oficial de ordenança. — Olhe, olhe, lá caiu um!
— Dois, creio eu!
— Se eu fosse o czar, nunca faria guerra — disse Nesvitski, voltando os olhos.
Os canhões franceses foram apressadamente carregados de novo. A infantaria de túnica azul avançou para a ponte em passo acelerado. Ainda se viam núcleos de fumo; em diversos pontos crepitava a metralha e rebentava sobre a ponte. Mas desta vez Nesvitski não pôde distinguir o que se passava. Subiu da ponte uma fumarada espessa. Os hússares tinham conseguido lançar-lhe fogo, e as batarias francesas já não disparavam para impedir a operação, mas simplesmente por estarem em linha de fogo e aquele ser um alvo sobre o qual podiam lançar metralha.
Antes que os hússares pudessem voltar para junto dos cavalos, ainda os Franceses fizeram três descargas. Duas delas tinham sido mal dirigidas, e haviam-se perdido; a terceira caíra no meio de um grupo de hússares e abatera três.