Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 2 de 18 · parte 3/5

Páginas do PDF

Guerra e Paz

Segunda Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Rostov, sempre absorvido pela ideia de Bogdatnitch, parara no meio da ponte, sem saber que fazer. Sempre se tinha representado a guerra como um acutilar alguém, mas a verdade é que não via ninguém a quem espadeirar; de resto, quanto a cooperar no incêndio da ponte, também o não podia fazer, pois não se havia munido, como os outros, de tições de palha. Continuava de pé na ponte, indeciso, quando, de repente, sentiu crepitar sobre o pavimento como que uma saraivada de nozes, e viu um hússar perto dele cair gemendo sobre o parapeito. Rostov correu para ele, com os outros. Alguém gritou de novo: <Uma maca!» Quatro homens agarraram-no e ergueram-no.

— Oh! Oh!... Deixem-me, por Deus! — gritava o ferido; mas nem por isso eles o largaram, e estenderam-no na maca.

Nicolau Rostov afastou-se, e, como se procurasse qualquer coisa, pôs-se a olhar ao longe as águas do Danúbio, o céu, o Sol, que cintilava. Que lindo lhe parecia o céu! Que azul estava, e que sereno e profundo! Como o fulgor do Sol em declínio era vivo e solene! Como cintilavam, amistosas, as águas do longínquo Danúbio! E as montanhas azuladas mais para além, o mosteiro, as misteriosas ravinas, os pinheirais envoltos até ao alto pelo nevoeiro!... Lá adiante era a serenidade, a felicidade... «Se eu lá estivesse nada teria a desejar, não, nada teria a desejar», dizia Rostov de si para consigo. «No meu coração e neste sol há tanta felicidade, enquanto que neste lugar.., só há gemidos, dor, terror, e esta confusão, esta pressa... E lá estão a gritar outra ordem e todos começam a recuar, correndo, e eu também corro com eles, e ela aí está, a morte em cima de mim, em volta de mini... Um segundo, e nunca mais verei este sol, estas águas, estes desfiladeiros...»

Neste momento o Sol escondeu-se por detrás das nuvens; Rostov viu passar diante dele outras macas. O horror que lhe inspiravam a morte e aquelas macas, o seu amor pelo Sol e pela vida, tudo se confundia numa só impressão de desordem e de angústia,

«Oh!, meu Deus! Tu, que estás lá no alto, no Céu, salva-me, perdoa-me e protege-me!», murmurou.

Os hússares corriam para os seus cavalos, as vozes eram mais fortes e mais calmas, as macas tinham desaparecido.

— Eh, camarada, cheiraste a pólvora? — gritou-lhe ao ouvido a voz de Vaska Denissov.

«Tudo acabou; mas eu sou um poltrão, sim, sou um poltrão», disse para si mesmo Rostov, e, soltando um profundo suspiro, pegou no bridão do seu Gratchik, que arrastava uma pata, tomando-o das mãos de quem o tinha ficado a guardar, e saltou para a sela.

— Que era aquilo? Era metralha? — perguntou a Denissov.

— E que metralha! — exclamou este. — Eles sabem afinar as peças pela última moda. Mas aquilo não é o meu género! Um ataque da cavalaria é outra coisa é ali cara a cara! Mas isto, cos diabos, é atirar ao alvo, nada mais!

E Denissov lá se foi reunir a um grupo parado a pequena distância de Rostov, onde estavam o coronel. Nesvitski. Jerkov e o oficial de ordenança,

«No entanto, parece-me que ninguém deu por nada», pensou Rostov. E, realmente, ninguém tinha dado por nada, pela simples razão de que todos sabiam muitíssimo bem qual a impressão que sente um junker no dia do seu baptismo de fogo.

— Agora já têm que dizer a nosso respeito — disse Jerkov. — Vão-me promover num abrir e fechar de olhos.

— Peço que comuniquem ao príncipe que fiz saltar a ponte disse o coronel com um ar jovial e triunfante.

— E se ele perguntar pelas perdas?

— Uma bagatela! — replicou ele, na sua voz de baixo — Dois hússares feridos e outro morto no seu posto... — Não pôde esconder um sorriso de satisfação e frisou muito as últimas palavras «no seu posto».

 

[IX]

Perseguido por um exército francês de cem mil homens, comandados por Bonaparte, acolhido hostilmente pelas populações, que tinham perdido a confiança nos seus aliados, causticado pela falta de abastecimentos e obrigado a agir completamente à margem das previstas condições da guerra, o exército russo, os trinta e cinco mil homens de Kutuzov, retirava apressadamente para jusante do Danúbio, não se detendo senão naqueles pontos onde o inimigo o atacava e não procedendo senão a operações de retaguarda na medida em que se tornavam necessárias para poder continuar a retirar sem perda de material e de bagagens. Houve os recontros de Lambach, de Amsteten e de Melk, mas, não obstante a bravura e a resistência das tropas russas, aliás reconhecidas pelo próprio inimigo, estas escaramuças de nada mais serviram que não fosse para acelerar a retirada.

As tropas austríacas salvas da capitulação de Ulm, e que se tinham juntado às de Kutuzov em Braunau, separaram-se agora do exército russo e Kutuzov via-se reduzido às suas fracas forças, já esgotadas. Não se podia pensar sequer em defender Viena.

Em vez de uma guerra ofensiva, maduramente reflectida segundo as regras dessa nova ciência que se chamava a estratégia, cujo plano lhe tinha sido comunicado durante a sua estada em Viena pelo Conselho Superior de Guerra, o único e quase inacessível objectivo que se oferecia agora a Kutuzov consistia, para não perder o seu exército, à imitação do que fizera Mack em Ulm, em reunir-se às tropas que chegavam da Rússia.

A 28 de Outubro. Kutuzov atravessa com o seu exército para a margem esquerda do Danúbio e pela primeira vez faz alto, depois de ter deixado o rio entre ele e as principais forças francesas. A 30 ataca a divisão de Mortier, que se encontrava na margem esquerda, e esmaga-a. Nesta operação tomaram-se pela primeira vez troféus de guerra: umas bandeiras e peças de artilharia. Dois generais inimigos foram feitos prisioneiros. Pela primeira vez desde que tinham batido em retirada, havia quinze dias, as tropas russas faziam alto e depois do combate não só tinham conservado o campo de batalha, mas, inclusivamente, haviam perseguido os Franceses. Embora as tropas estivessem cobertas de andrajos, extenuadas, reduzidas de um terço, em virtude dos retardatários, dos feridos, dos mortos e dos doentes; embora os doentes e os feridos da outra margem do Danúbio tivessem sido abandonados com uma nota de Kutuzov confiando-os à humanidade do inimigo; embora os grandes hospitais e as casas de Krems, transformados em lazaretos, já não pudessem abrigar todos os feridos e doentes; apesar de tudo isto, a paragem em Krems e a vitória sobre Mortier tinham levantado muito o moral dos soldados. No exército em peso e no quartel-general corriam os boatos mais animadores, ainda que mal fundamentados, sobre a imaginária aproximação de colunas chegadas da Rússia, de uma vitória dos Austríacos e de um recuo de Napoleão, aterrorizado.

O príncipe André, durante o combate, permanecera ao lado do general austríaco Schmidt, que tinha sido morto nessa operação. O cavalo que o príncipe montava fora ferido e ele próprio recebera uma escoriação num braço produzida por uma bala.

Graças a uma mercê especial do general-chefe, fora encarregado de transmitir a nova desta vitória à corte austríaca, que já se não encontrava em Viena, ameaçada pelos Franceses, mas em Brünn. Na própria noite da batalha, emocionado, mas não fatigado, a despeito da sua compleição assaz delicada — suportava melhor as fadigas físicas que muitos homens de forte constituição —, chegava a Krems, a cavalo, com um relatório de Dokturov, dirigido a Kutuzov. André fora imediatamente expedido para Brünn, como correio. A sua escolha, além da distinção que implicava, equivalia a uma importante promoção.

Estava uma noite escura e cheia de estrelas; a estrada desenhava-se a negro na neve que caíra na véspera, o dia do combate. Ora rememorando as impressões que a batalha lhe deixara, ora pensando com alegria no efeito que iriam produzir as novas da vitória, e lembrando-se do acolhimento que lhe tinham feito o general-chefe e os seus camaradas, deixava-se levar pela britchka de viagem na sensação de um homem que, depois de muito esperar, vê, finalmente, raiar a aurora de uma felicidade muito desejada. Mal fechava os olhos, logo lhe crepitavam nos ouvidos a fuzilaria e as descargas da artilharia, à mistura com o fragor do rodar das viaturas e a sensação da vitória. Outras vezes pensava que os Russos tinham sido derrotados e que ele próprio fora morto em combate; mas logo acordava, num sobressalto, contente por poder verificar que nada disso era verdade, e que, pelo contrário, tinham sido os Franceses quem debandara. De novo se recordava de todos os pormenores da vitória, da sua calma e da sua bravura durante o combate, e, tranquilizado, adormecia... A noite sombria e estrelada sucedia agora uma manhã clara e alegre. A neve fundia aos primeiros raios de sol, os cavalos galopavam, rápidos, e à direita e à esquerda, indefinidamente, desfilavam constantemente novos campos, florestas, povoados.

Numa das estações de posta cruzou-se com um comboio de feridos russos. O oficial que o dirigia, deitado numa carroça da vanguarda, cobria de grosseiras injúrias’ um soldado. Compridos carros alemães lá iam aos solavancos pela estrada esburacada. Cada um deles levava entre seis e sete feridos, sujos e pálidos, todos envoltos em ligaduras. Alguns deles falavam, e pareceu-lhe que se exprimiam em russo, outros comiam pão, os mais atingidos olhavam, sem nada dizer, com uma curiosidade tranquila e infantil própria de doentes, para o correio que ia passando por eles a galope.

O príncipe mandou parar a britchka e perguntou a um dos soldados em que recontro é que ele tinha sido ferido. «Anteontem, no Danúbio», respondeu o soldado. Sacando da bolsa, o príncipe deu-lhe três ducados de ouro.

— É para todos — disse ele ao oficial que se aproximou. — Tratem de se curar, rapazes, ainda há muito que fazer.

— Que novidades há? — interrogou o oficial, desejoso de conversar, dirigindo-se ao ajudante-de-campo.

— Boas! Vamos embora! — gritou para o postilhão, e prosseguiu no seu caminho.

Já era escuro quando chegou a Brünn e se viu cercado de altas construções, com lojas e janelas vivamente iluminadas, olhando todos aqueles revérberos, aquelas belas carruagens, que rolavam, estrepitosas, pelos pavimentos, aquela atmosfera animada de grande cidade, que tão atraente era para o militar depois da vida em campanha. Apesar da sua rápida viagem e de não ter dormido, ao chegar ao palácio ainda se sentia mais excitado do que na véspera. Nos seus olhos havia um brilho de febre e os pensamentos atravessavam-lhe o cérebro com uma rapidez e urna nitidez extraordinárias. Os mais pequenos pormenores do combate se lhe pintavam, vivos, no espírito, não já confusos, mas muito nítidos, no relatório conciso que ele pensava fazer ao imperador Francisco. Entretanto iam-se representando as perguntas ocasionais que lhe seriam feitas e pensando nas respostas que lhes daria. Supunha que iria ser imediatamente apresentado ao imperador. Mas à entrada nobre do palácio um funcionário correu ao seu encontro, e, ao ver que se tratava de um correio, conduziu-o para outra porta.

— No corredor à direita. Aí encontrará Sua Alta Nobreza o ajudante-de-campo de serviço — disse-lhe o funcionário. — Ele o conduzirá até junto do ministro da Guerra.

O ajudante-de-campo de serviço veio ao encontro do príncipe André; pediu-lhe que esperasse e foi avisar o ministro da Guerra. Cinco minutos depois voltou a aparecer, e, fazendo uma vénia cheia de deferência e deixando-o passar adiante, levou-o, ao longo de um corredor, até ao gabinete de trabalho do ministro. O ajudante-de-campo, com a sua requintada cortesia, parecia querer impedir qualquer familiaridade, da parte do oficial russo. A jovial disposição do príncipe André foi diminuindo à medida que se aproximava do gabinete do ministro da Guerra. Sentia-se melindrado, e, sem que ele próprio se desse conta disso, esta irritação breve se tomou em profundo desdém, desdém, aliás, que nada justificava. O seu espírito inventivo sugeriu-lhe imediatamente algumas reflexões que lhe davam o direito de tratar com um certo desprezo tanto o ajudante-de-campo como o próprio ministro.

«Não há dúvida, a eles não lhes custa nada obterem vitórias sem lhes cheirar a pólvora!», dizia com os seus botões. Piscava o olho com uma expressão trocista e foi propositadamente que penetrou negligente no gabinete do ministro. As suas impressões desfavoráveis ainda mais se acentuaram quando se lhe deparou aquela personagem, sentada a uma grande mesa, que permaneceu pelo menos dois minutos sem prestar qualquer atenção ao visitante. O ministro inclinava a cabeça calva, com as suas têmporas grisalhas, no meio de dois brandões de cera, enquanto lia, anotando-os a lápis, uns papéis que tinha diante de si. Acabava a leitura desses papéis, sem nunca ter levantado a cabeça, quando a porta se abriu e uns passos se aproximaram.

— Tome e transmita — disse ele para o ajudante-de-campo, dando-lhe os papéis, sem prestar ainda a mais pequena atenção ao correio.

O príncipe André depreendeu que ou o ministro da Guerra prestava menos atenção ao que se passava com o exército de Kutuzov do que a qualquer outro assunto que o solicitava, ou então que era isso mesmo que ele pretendia fazer compreender ao correio russo. «Mas isso é-me completamente indiferente», murmurou para si mesmo o príncipe André. O ministro da Guerra juntou os papéis que ficaram em cima da mesa, acertou-os bem, depois levantou os olhos. Tinha uma expressão enérgica e inteligente. Mas, precisamente no momento em que se voltou para o príncipe, este ar de homem inteligente e decidido transformou-se, evidentemente consequência de um hábito muito consciente. Apenas conservou o sorriso simplório, hipócrita, que não vale a, pena ocultar, o sorriso do homem que se vê obrigado a receber, uns após outros, muitos peticionários.

— Da parte do marechal Kutuzov? — perguntou ele. — São boas notícias, não é verdade? Teve um combate com Mortier? Uma vitória? Já era tempo!

Pegou no ofício que lhe era pessoalmente dirigido— e pôs-se a lê-lo, dando sinais de mortificação.

— Oh, meu Deus! Meu Deus. Schmidt! — exclamou em alemão. — Que desgraça! Que desgraça!

Tendo lido o ofício, pousou-o em cima da mesa e olhou para o príncipe André, com uma expressão evidentemente muito preocupada.

— Oh, que desgraça! A operação, diz o senhor, é decisiva? No entanto. Mortier não foi feito prisioneiro. — Ficou um momento pensativo— Felicito-o por me ter trazido boas notícias, ainda que a morte de Schmidt nos faça pagar cara a vitória. Sua Majestade vai querer vê-lo, naturalmente, mas hoje não. Muito obrigado. Pode retirar-se. Esteja amanhã à saída, depois da parada. De resto, eu o mandarei prevenir.

O sorriso simplório, que desaparecera durante a conversa, tomou de novo ao rosto do ministro.

— Até à vista, muito agradecido! O imperador há-de naturalmente querer vê-lo — repetiu, numa reverência.

Quando deixou o palácio, o príncipe André deu-se conta de que todo o interesse e toda a satisfação que a vitória lhe tinha comunicado estavam agora a desvanecer-se, prejudicados pela indiferença de um ministro da Guerra e de um ajudante-de-campo assaz cortês. Todo o seu tesouro de bons sentimentos desaparecera num abrir e fechar de olhos: a batalha, para ele, já não era mais que uma recordação longínqua de outrora.

 

[X]

O príncipe André tinha-se hospedado em Brünn em casa de um dos seus amigos, o diplomata russo Bilibine.

— Meu querido príncipe, riem imagina o prazer que me dá disse Bilibine, vindo ao encontro do seu hóspede.

— Franz, leva a bagagem do príncipe para o seu quarto de dormir! — prosseguiu, dirigindo-se ao criado que acompanhava Bolkonski — Que me diz? Um mensageiro da vitória? óptimo! Mas eu estou doente, como vê.

O príncipe André, depois de se ter lavado e preparado, penetrou no luxuoso gabinete do diplomata e dispôs-se a fazer as honras a uma refeição expressamente preparada para ele. Bilibine sentou-se, calado, junto do fogão.

Depois daquela viagem, e sobretudo desde que se encontrava em campanha, privado de todo o conforto de asseio e elegância, c, príncipe André sentia agora, no meio daquele luxo a que estava habituado desde pequeno, uma agradável impressão de alívio. Além disso, experimentava uma grande satisfação, depois da recepção dos austríacos, em conversar, não em russo, visto que ambos falavam francês, mas com um russo que, como ele supunha, compartilhava da aversão geral dos seus compatriotas, naquele momento particularmente viva, por todos os austríacos.

Bilibine era um homem dos seus trinta e cinco anos, celibatário, e que pertencia à mesma sociedade que o príncipe André. Tinham-se conhecido em Petersburgo, mas as suas relações haviam-se estreitado aquando da última estada do príncipe André em Viena, na comitiva de Kutuzov. André era um moço a quem esperava um brilhante futuro na carreira das armas, mas Bilibine ainda estava destinado a ir mais longe na da diplomacia. Era ainda novo, mas não como diplomata, uma vez que ingressara na carreira com dezasseis anos de idade e que tinha estado em Paris e em Copenhaga e que em Viena, agora, desempenhava um posto importante.

O chanceler e o embaixador russo em Viena conheciam-no e estimavam-no. Não fazia parte do número desses diplomatas, bastante vulgares, que julgam necessário não se ter senão qualidades negativas, absterem-se de certas coisas e falarem bem francês para serem excelentes funcionários. Ele era desses que gostam de trabalhar e sabem trabalhar, e, não obstante a indolência de que era dotado, acontecia passar noites inteiras sentado à mesa de trabalho. Fosse qual fosse a tarefa que tivesse a executar, fazia-a sempre bem. O que o interessava não era o «porquê» das coisas, mas o «como». Pouco lhe importava a questão diplomática a tratar: mas redigir habilmente com finura e elegância uma circular, um memorando ou um relatório, isso dava-lhe um grande prazer.— Além da perícia na redacção, apreciava-se nele igualmente o savoir-faire quando era necessário apresentar-se e falar nas altas esferas.

Bilibine gostava tanto da conversa como do trabalho, desde que ela fosse espirituosa e distinta. Quando em sociedade, estava sempre à espreita do momento de dizer fosse o que fosse digno de ser notado e só com essa condição consentia embrenhar-se numa conversa. A sua conversação era toda salpicada de frases originais e espirituosas, e de interesse geral. Preparava as suas frases no silêncio do gabinete, expressamente para que elas pudessem vir a ser espalhadas, para que as mais significativas pessoas da sociedade pudessem lembrar-se delas facilmente e repeti-las de salão em salão. E, efectivamente, os ditos de espírito de Bilibine espalhavam-se nos salões de Viena, e por vezes tinham influência nos assuntos considerados sérios.

Era magro de cara, pálido e fatigado. Tinha o rosto sempre coberto de grossas rugas regulares e como que bem lavadas, como costuma acontecer às extremidades do corpo depois do banho. O movimento destas rugas constituía o seu principal jogo fisionómico. Ora a fronte se lhe cavava em largas pregas e as sobrancelhas se lhe franziam, ora, pelo contrário, se lhe abaixavam e nas faces se lhe formavam grossas rugas. Nos seus pequenos olhos, profundamente enterrados nas órbitas, havia sempre um olhar alegre e franco.

— Então, conte-nos agora as suas proezas — disse ele. Boikonski, muito modestamente, sem nunca referir o seu próprio nome, contou o que se tinha passado e a recepção que tivera da parte do ministro da Guerra.

— Fui recebido com bem pouco entusiasmo, eu e as minhas notícias — concluiu.

Bilibine pôs-se a rir e as pregas do rosto desvaneceram-se-lhe.

— No entanto, meu caro — voltou ele, contemplando as unhas a distância e piscando o olho esquerdo — apesar da alta estima que eu professo pelo exército ortodoxo russo, confesso que a vossa vitória não é das mais famosas.

Continuou assim a falar francês, não pronunciando em russo senão as frases a que queria atribuir intenção irónica.

— Como assim? Vocês precipitaram-se com toda a massa das vossas tropas sobre o desgraçado do Mortier e da sua única divisão, e o tal Mortier foge-vos das mãos? Onde é que está então a vitória?

— Em todo o caso, falando a sério — replicou o príncipe André — o certo é que podemos dizer, sem nos vangloriarmos, que sempre foi um poucochinho melhor do que em UIm...

— E porque é que então não souberam trazer-nos ao menos um marechal, pelo menos um marechal?

— Porque nem tudo acontece como é nosso desejo, e regularmente, como na parada de um quartel. Nós pensávamos, como lhe dissemos, estar na retaguarda dos Franceses às sete horas da manhã, e às cinco da tarde ainda lá não tínhamos chegado.

— E porque é que vocês não conseguiram estar lá às sete horas da manhã? Era a essa hora que deviam ter chegado — disse, sorrindo. Bilibine — Era preciso ter chegado às sete horas da manhã.

— E porque é que vocês não sugeriram a Bonaparte, pelas vias diplomáticas, que teria sido melhor vê-lo deixar Génova? — disse o príncipe André no mesmo tom.

— Sim, bem sei — interrompeu Bilibine— Bem sei, está a pensar que não há nada mais fácil que aprisionar marechais sem sair do canto do fogão. É verdade, mas, ainda assim, por que diabo é que vocês não aprisionaram um? Não se mostre surpreendido de ver que o ministro da Guerra, assim como o seu augusto soberano, o imperador e rei Francisco, não ficam extraordinariamente contentes com a vossa vitória, e que eu próprio, um pobre secretário da Embaixada da Rússia, não me sinto na necessidade, em sinal de satisfação, de presentear o meu criado Franz com um thaler para que ele vá passear corria sua Liebchen até ao Prater.., embora seja verdade que aqui não há nenhum Prater...

Fitou nos olhos o príncipe André e de súbito toda a pele da testa se lhe desenrugou.

— Agora, meu caro, cabe-me a vez de lhe pôr um «porquê» — disse Bolkonski. — Confesso-lhe que não percebo... É possível que haja aqui qualquer subtileza diplomática muito acima do meu fraco entendimento, mas uma coisa há que eu não compreendo: Mack perde todo o seu exército, o arquiduque Fernando e o arquiduque Carlos não dão sinais de vida e cometem erros sobre erros; enfim, apenas Kutuzov consegue obter uma verdadeira vitória, quebrar o charme dos Franceses e o ministro da Guerra não se interessa sequer por conhecer pormenores.

— Ora aí está precisamente o problema, meu caro. Está a ver, meu caro: hurra pelo czar, pela Rússia, pela fé! Tudo isso é muito bonito, mas a nós que nos importam, quero dizer, à corte da Áustria, que nos importam a nós as vossas vitórias? Tragam-nos uma boa vitória dos arquiduques Carlos ou Fernando, vale tanto um como o outro, como muito bem sabe, ainda que não seja senão uma vitória contra uma companhia de bombeiros de Bonaparte, e, então, isso seria outra coisa, e cá estaríamos nós para a proclamar a salvas de canhão. Enquanto que o presente caso parece de propósito para nos irritar. O arquiduque Carlos nada faz, o arquiduque Fernando cobre-se de opróbrio. Abandona-se Viena, não se defende mais Viena; é como se nos dissesse: Deus está connosco, mas vocês, vocês vão lá passear com a vossa capital. Vocês tinham um general, chamado Schmidt, de quem todos nós gostávamos. Vocês mandam-no para a linha de fogo, e depois vêm-nos cantar vitória! Tem de concordar que não há nada mais exasperante que estas notícias que você nos traz. É como se fosse de propósito, como se fosse de propósito. E, além disso, mesmo que vocês tivessem obtido realmente uma brilhante vitória, mesmo que o arquiduque Carlos tivesse obtido uma vitória, em que é que isso iria alterar a marcha geral dos acontecimentos? Agora é tarde, agora que Viena já foi ocupada pelas tropas francesas.

— Ocupada, como? Pois Viena está ocupada?

— Não só ocupada, mas Bonaparte está em Shoenbrünn e o conde, o nosso querido conde Wrbna, está pronto a receber as suas ordens.

Bolkonski, depois das impressões de viagem, do acolhimento que recebera, sobretudo depois do jantar que acabava de digerir, tão fatigado estava que se dava conta de que já não compreendia muito bem o sentido das coisas que lhe diziam.

— Esta manhã mesmo esteve aqui o conde Lichtenfeld — prosseguiu Bilibine —, que me mostrou uma carta onde se descrevia em pormenor a parada dos Franceses em Viena. O príncipe Murat e toda a sua pompa... Como vê, a vossa vitória não é grande motivo de alegria. O príncipe não podia ser recebido como um salvador.

— A falar verdade, para mim isso é-me indiferente, absolutamente indiferente — disse o príncipe André, que acabava de compreender que o combate de Krems tinha realmente pouca importância ao pé de acontecimentos magnos como a tornada da capital austríaca.— Que me diz? Então Viena foi tomada! E a ponte, e a famosa testa de ponte e o príncipe Auersperg? Entre nós tinha corrido o boato de que o príncipe Auersperg era o defensor da cidade.

— O príncipe Auersperg está do lado de cá do rio, do nosso lado, e defende-nos a nós. Na minha opinião, acho que ele nos defende muito mal, mas defende-nos. Viena, porém, fica na outra, margem. Não, a ponte ainda não foi tomada, e espero que o não seja, visto estar minada e haver ordem para a fazer ir pelos ares. Se assim não fosse, há muito tempo que nós estaríamos nas montanhas da Boémia, e o vosso exército já teria passado um mau quarto de hora, apanhado entre dois fogos.

— Mas, em todo o caso, isso não quer dizer que a campanha tenha acabado — observou o príncipe André,

— Na minha opinião já acabou. E é o que pensam os graúdos destas paragens, embora não tenham coragem de o dizer. Acontecerá o que eu dizia no princípio da guerra, que não será o vosso fracasso de Dürenstein e, de maneira geral, a pólvora, que resolverão a questão, mas aqueles que a inventaram... — acrescentou Bilibine, repetindo um dos seus ditos espirituosos; após o que desfranziu a pele da testa e fez uma pausa. — O problema está em saber o que se vai decidir na entrevista de Berlim entre o imperador Alexandre e o rei da Prússia. Se a Prússia entrar na aliança, leva-se a Áustria à parede, e haverá guerra. Se o não fizer, tudo consistirá em as partes se entenderem para formular os primeiros artigos de um novo Campo Fórmio.

— Mas que génio extraordinário! — exclamou, subitamente, o príncipe André, cerrando o seu pequeno punho e batendo com ele em cima da mesa. — E que sorte tem esse homem!

— Buonaparte? — perguntou Bilibine, franzindo a testa e sugerindo assim que ia chegar um dito de espírito — Buonaparte? — repetiu, acentuando especialmente o u. — Em todo o caso, visto que ele agora, de Schoenbrün, dita leis à Áustria, concedamos-lhe a queda do u. Decididamente, faço uma inovação e chamo-lhe Bonaparte simplesmente,

— Zombaria à parte — interrompeu o príncipe André. — Acha que a campanha está terminada?

— Eis a minha opinião: a Áustria é o perú da farsa, e a verdade é que não está habituada a isso. E ela acabará por se vingar. Encontra-se nesta situação, antes de mais nada, porque as suas províncias estão devastadas — dizem que o exército ortodoxo é terrível no saque —, o exército está vencido, a capital foi tomada e tudo isto pelos lindos olhos de Sua Majestade da Sardenha. Por isso mesmo, entre nós, meu caro, cheira-me que nos estão a enganar, cheira-me a um entendimento com a França e a projectos de paz, uma paz secreta feita separadamente.

— Isso não pode ser! — exclamou o príncipe André. — Seria indigno.

— Quem viver verá — replicou Bilibine, desfranzindo de novo a testa, para indicar que tinha acabado a conversa.

Quando o príncipe André se recolheu ao quarto que lhe tinham preparado e se estendeu entre os lençóis brancos, numa cama de penas, e pousou a cabeça em almofadas tépidas e perfumadas, teve a impressão de que a batalha cuja vitória viera anunciar estava longe, muito longe. A aliança prussiana, a traição da Áustria, o recente triunfo de Bonaparte, a revista militar a que o imperador iria assistir e a recepção que o esperava para o dia seguinte tudo isso lhe ocupava o espírito.

Fechava os olhos, mas, nesse mesmo instante, enchiam-se-lhe os ouvidos do ruído da fuzilaria, das descargas dos canhões, do rodar das viaturas, e eis que de novo desciam das montanhas os mosqueteiros cai Unha de atiradores; os Franceses disparavam, o coração batia-lhe e dirigia-se para as primeiras linhas com Schmidt, enquanto as balas assobiavam alegres em tomo dele, e ele, príncipe André, sentia como que uma sensação da vida multiplicada, coisa que não tornara a sentir desde a infância. Acordou...

«Ah, tudo isto já vai longe!...», murmurou, sorrindo para si mesmo, com um sorriso feliz e infantil, e voltou, a adormecer, mergulhando num sono despreocupado e profundo.

[XI]

No dia seguinte acordou tarde. Ao recordar as impressões passadas, a primeira coisa de que se lembrou foi que seria nesse dia apresentado ao imperador Francisco: depois pensou no ministro da Guerra, no ajudante-de-campo austríaco, todo oficioso, em Bilibine e na conversa que com ele tivera na véspera. Tendo envergado o seu uniforme de gala, que há muito não vestia, a fim de se apresentar no palácio, com a sua tez fresca e remoçada, com um belo aspecto moço, o braço em barideirola, penetrou no gabinete de Bilibine. Ali estavam quatro personalidade, do corpo diplomático. Bolkonski já conhecia o príncipe Hipólito Kuraguíne, secretário da Embaixada; Bilibine apresentou-o aos restantes.

Estes cavalheiros, pessoas da sociedade, jovens, ricos e alegres companheiros, tanto em Viena como em Brünn formavam uma roda à parte a que Bilibine, como que o seu chefe, chamava os nossos... Esta roda, quase exclusivamente composta de diplomatas, não se interessava pelos assuntos militares e políticos, e só uma coisa a preocupava: a vida da alta sociedade, algumas relações femininas e problemas de carreira. Acolheu no seu seio o príncipe André com vivo prazer e como se fosse um dos seus, honra que concedia a muito poucas pessoas. Por cortesia, e para entabular conversa, dirigiram-lhe algumas perguntas sobre o exército e a batalha que se tinha travado e de novo a conversa se dispersou em ditos sem continuidade, gracejos e mexericos.

— Mas o cúmulo — disse um deles, que estava a contar a história, de um camarada que fora posto em xeque —, o cúmulo é que o chanceler lhe disse cara a cara que a sua nomeação para Londres era uma promoção, e que ele como tal a considerava. Imaginem a cara dele ao ouvir estas palavras...

— Mas o que é mais grave, meus senhores. é que eu vou atraiçoar o Kuraguine — aqui está este D. Juan, este homem terrível, que aproveita a infelicidade dos outros!

O príncipe Hipólito estava afundado numa poltrona, com as pernas apoiadas nos braços da cadeira. Pôs-se a rir.

— Fale-me disso — disse ele.

— Oh! D. Juan! Oh! Serpente! — exclamaram várias vozes. — Talvez não saiba. Bolkonski — disse Bilibine, dirigindo-se ao príncipe André —, que todas as atrocidades cometidas pelo exército francês, e ia a dizer pelo russo, nada são comparadas com as devastações que este homem tem feito entre as mulheres,

— A mulher é a companheira do homem— declarou Hipólito, contemplando as suas próprias pernas por detrás dos vidros do lorgnon.

Bilibine e os nossos romperam a rir, olhando curiosamente para Hipólito. O príncipe André compreendeu que este Hipólito, de que quase sentira ciúmes por causa da sua atitude para com a mulher, coisa que, ele intimamente reconhecia, era o bobo daquela sociedade.

— Ah!, tenho de lhe apresentar uma amostra de Kuraguine — disse muito baixo Bilibine a Bolkonski. — É impagável quando fala de política. É preciso ver os ares importantes que toma.

Sentou-se ao pé de Hipólito e chamando à testa as pregas das coisas sérias pôs-se a conversar com ele sobre política. André e os outros formaram círculo em volta deles.

— O Gabinete de Berlim não pode exprimir um sentimento de aliança — principiou Hipólito Kuraguine, fitando o auditório com um olhar de entendido — sem exprimir.., como na sua última nota.., compreende.., compreende.., e depois Sua Majestade o Imperador não anula o princípio da nossa aliança... Espere, ainda não acabei — disse para o príncipe André, pegando-lhe num braço. — Acho que a intervenção será mais forte que a não intervenção. — Calou-se um momento. — E não poderão invocar por fim não terem recebido o nosso ofício de 28 de Outubro. Aqui têm como tudo acabará.

Soltou o braço de Bolkonski para indicar que tinha concluído.

— Demóstenes, reconheço-te pelo calhau que escondeste na tua boca de ouro — exclamou Bilibine, cujo topete estremecia com as gargalhadas.

Todos se puseram a rir. Hipólito ainda mais do que os outros. Não podia mais, sufocava, mas não conseguia reter o estrépito desordenado de um riso que lhe distendia todos os traços do rosto, ordiriariamente inexpressivo.

— Vou fazer-lhes uma proposta, meus senhores — disse Bilibine — Bolkonski é meu hóspede, e temo-lo aqui, em Brünn, e é meu desejo que lhe façamos as honras, tanto quanto nos seja possível, de todas as distracções que se podem encontrar aqui. Se estivéssemos em Viena, a coisa era fácil. Mas aqui, neste horrível buraco morávio, é mais difícil e peço-vos a todos que me ajudem. É preciso fazer as honras de Brünn. Vocês encarreguem-se do teatro; eu trato do problema mundano. Tu. Hipólito, claro está, encarregas-te das mulheres.

— Temos de lhe mostrar a Amélia; é uma pérola! — interrompeu um dos nossos, beijando a ponta dos dedos.

— Numa palavra, este sanguinário militar — disse Bilibine —, temos de o tornar homem de sentimentos mais humanitários. — Mal tive tempo de gozar o prazer da vossa companhia, meus senhores, e já sou obrigado a deixá-los — disse Bolkonski, consultando o relógio.

— E aonde vai?

— Ver o imperador.

— Oh! Oh!

— Bom, até à vista. Bolkonski! Até à vista, príncipe! Venha então jantar cedo! — exclamaram várias vozes — Contamos consigo.

— Não deixe de fazer o elogio da intendência para o serviço dos abastecimentos e de transportes na sua entrevista com o imperador — disse Bilibine ao reconduzir Bolkonski.

— Gostaria muito, mas sinto-me incapaz — respondeu este, sorrindo.

— Enfim, faça o que puder e fale muito. Ele adora as audiências e não gosta de falar, nem sabe, como vai ter ocasião de verificar.

 

[XII]

Na parada, o imperador Francisco contentou-se em conceder um olhar ao príncipe André, que se encontrava no local indicado no meio dos oficiais austríacos, e em dirigir-lhe um aceno com a sua grande cabeça. Mas, depois desta cerimónia, o ajudante-de-campo que o recebera na véspera aproximou-se do príncipe, cortesmente, para lhe comunicar que o imperador desejava conceder-lhe uma audiência. O monarca recebeu-o de pé no meio do seu gabinete. Antes mesmo de se proferirem as primeiras palavras, o príncipe André notou o embaraço do imperador, que corava e não sabia que dizer.

— Diga-me cá, quando é que principiou a batalha? — inquiriu com precipitação.

O príncipe André respondeu-lhe. Outras perguntas vieram atrás desta, e tão banais como ela: «Está Kutuzov de saúde?» «Já chegou há muito tempo a Krems?», etc. Dir-se-ia que o imperador não tinha outro objectivo senão formular um número determinado de perguntas. Quanto às respostas, era evidente que elas não lhe interessavam.

— A que horas principiou a batalha? — perguntou.

— Não passo precisar a Vossa Majestade a que horas começaram as hostilidades na frente militar, mas em Dürenstein, onde eu me encontrava, as tropas atacaram as dez da noite — replicou Bolkonski com animação, supondo que naquela altura lhe seria dado fazer a descrição verídica, já preparada na sua mente, de tudo quanto sabia e vira.

Mas o imperador sorriu e interrompeu-o:

— Quantas milhas?

— Desde onde e até que ponto Majestade?

— De Dürenstein a Krems.

— Três milhas e meia. Majestade.

— Os Franceses abandonaram a margem esquerda?

— Segundo o que sabemos pelos nossos informadores, os últimos atravessaram o rio de noite em jangadas.

— Em Krems há forragens com abundância?

— Não as forneceram em tais quantidades...

O imperador cortou-lhe a palavra:

— A que horas foi morto o general Schmidt?

— Às sete, segundo parece.

— Às sete horas! Muito triste! Muito triste!

Acrescentou que lhe agradecia e fez uma vénia. O príncipe André saiu e viu-se imediatamente cercado pelos cortesãos. De todos os lados lhe lançavam olhares amáveis: só ouvia gentilezas em tomo de si. O ajudante-de-campo da véspera censurou-o por se não ter hospedado no palácio e ofereceu-lhe a sua casa. O ministro da Guerra aproximou-se para o felicitar pela cruz de Maria Teresa, de 3ª classe, que o imperador lhe conferira. O camarista da imperatriz convidou-o a apresentar-se nos aposentos de Sua Majestade. A arquiduquesa também o quis ver. Não sabia a quem prestar atenção e durante alguns minutos procurou concentrar-se. O embaixador da Rússia tomou-o pelo braço, arrastou-o para o vão de uma janela e pôs-se a fazer-lhe perguntas.

A despeito das previsões de Bilibine, a notícia que ele trazia fora recebida com alegria. Deu-se ordem para se realizar um Te Deum em acção de graças. Kutuzov foi agraciado com a grã-cruz de Maria Teresa e todo o exército recebeu condecorações e louvores. Bolkonski teve convites de toda a parte e durante toda a manhã viu-se obrigado a fazer visitas aos principais dignitários austríacos. Depois de terminadas estas visitas, as cinco horas da tarde, ruminando já a carta que tinha de escrever a seu pai, a propósito da batalha e da jornada a Brünn, regressou a casa de Bilibine. Diante da escadaria estava parada uma britchka, meio carregada de bagagens, e Franz, o criado de Bilibine, apareceu à porta sobraçando uma grande mala.

Antes de voltar para casa de Bilibine, o príncipe André fora a uma livraria abastecer-se de livros para se distrair durante a campanha e ali se tinha demorado bastante.

— Que se passa? — perguntou.

— Ah! Excelência! — disse Franz, instalando, com dificuldade, a mala em cima da britchka. — Mudamos de casa. O bandido está já em cima de nós (Em alemão no texto russo. (N, dos T.).

— Que aconteceu? O que é? — interrogou o príncipe André. Bilibine veio ao seu encontro. O seu rosto, sempre tão calmo, estava emocionado.

— Não, não, confessemos que é encantadora — disse ele — esta história da ponte de Thabor. (Era uma ponte de Viena). Atravessaram-na sem disparar um tiro.

O príncipe André, não percebia nada.

— Mas donde vem que não sabe uma coisa que todos os cocheiros da cidade já conhecem?

— Venho de casa da arquiduquesa. Nada me disseram. F não viu que toda a gente está a fazer as malas?

— Não... De que se trata? — perguntou o príncipe André com impaciência.

— De que se trata? Trata-se de que os Franceses atravessaram a ponte que Auersperg defendia. Não a fizeram ir pelos ares, de modo que Murat já aí vem a galope pela estrada de Brünn e que ainda hoje ou amanhã estará aqui.

— Quê? Aqui? E porque é que não fizeram saltar a ponte, se estava minada?

— É isso que eu lhe pergunto. É o que ninguém sabe, nem mesmo Bonaparte.

Bolkonski encolheu os ombros.

— Então, se a ponte foi atravessada, isso quer dizer que o exército está perdido. Vai ter a retirada cortada — disse ele.

— É precisamente isso — replicou Bilibine — Ouça. Os Franceses entram em Viena, como eu lhe disse. Está certo. No dia seguinte, quer dizer, ontem, os senhores marechais Murat. Lannes e Belliard montam a cavalo e dirigem-se para a ponte. Note que são todos três gascões. «Meus senhores», diz um deles, «os senhores sabem que a ponte de Thabor está minada e contraminada e que é precedida de uma terrível testa de ponte, com quinze mil homens que receberam ordens de a fazer saltar e de nos impedir de a atravessar. Mas ao nosso imperador Napoleão seria muito agradável que nós a tomássemos. Vamos nós os três e tomemos a ponte.» «Vamos», responderam os outros. E lá vão os três, e tomam a ponte, atravessam-na, e agora, com todo o seu exército deste lado do Danúbio, dirigem-se sobre nós, sobre vocês e sobre as vossas comunicações.

— Basta de gracejos — disse o príncipe André, num tom grave e triste. A notícia, para ele, era ao mesmo tempo penosa e agradável.

Desde que soubera que o exército russo se encontrava numa situação perigosa, viera-lhe ao espírito ser ele a pessoa destinada a salvá-lo da situação em que se encontrava, que aquilo seria o seu Toulon, que o arrancaria à obscuridade de simples oficial para lhe abrir o caminho da glória. Ouvindo Bilibine, via-se já de volta do exército, no conselho de guerra, onde exporia a única sugestão que salvaria as tropas e seria encarregado de pôr em prática o seu plano.

— Basta de gracejos — repetiu,

— Não estou a gracejar — continuou Bilibine — Nada há de mais verdadeiro e mais triste. Aqueles cavalheiros chegam sozinhos à ponte e acenam com lenços brancos. Afirmam que existe um armistício e que eles, os marechais, vêm parlamentar com o príncipe Auersperg. O oficial de serviço fá-los penetrar na testa de ponte. Eles contam-lhe uma enfiada de bazófias: dizem-lhe que a guerra acabou, que o imperador Francisco marcou uma entrevista com Bonaparte, que eles precisam de se encontrar com o príncipe Auersperg, numa palavra, todas as bazófias deste e do outro mundo. O oficial manda procurar Auersperg. Aqueles senhores abraçam os oficiais, dizem facécias. Cavalgam as peças de artilharia e entretanto um batalhão francês penetra por debaixo da ponte, sem ser visto, lança à água os sacos com as matérias incendiárias e avança para a testa de ponte. Por fim, chega o próprio tenente— general, o nosso príncipe Auersperg von Mautern. «Caro amigo! Flor do exército austríaco, herói das guerras turcas! A nossa inimizade acabou, podemos apertar as nossas mãos... O imperador Napoleão está morto por conhecer o príncipe Auersperg.» Numa palavra, aqueles cavalheiros, para alguma coisa são gascões, tão bonitas palavras dizem a Auersperg, tão lisonjeado ele se sente com esta súbita intimidade com os marechais franceses, está tão deslumbrado com a presença do manto e das plumas de avestruz de Murat, que só vê o fogo dele e se esquece do que devia fazer contra o inimigo. (Apesar do interesse da sua história. Bilibine não se esqueceu de fazer uma pausa depois de pronunciar a frase, para dar tempo a ser bem apreciada). O batalhão francês entra em passo acelerado na testa de ponte, encrava os canhões e a ponte é tomada. Mas, ainda falta o melhor da história — prosseguiu ele, deixando à graça que encontrava na sua própria narrativa o cuidado de serenar a sua própria emoção —, o que ainda é mais curioso é que o sargento de guarda ao canhão que devia dar o sinal da inflamação da mina, ao ver chegar os Franceses, quis disparar, mas Lannes segurou-lhe no braço. O sargento, que naturalmente era mais inteligente do que o general, aproximou-se de Auersperg e disse-lhe: «Príncipe, estão a ludibriá-lo, aqui estão os Franceses!» Murat, vendo que perderia a partida se deixasse prosseguir o sargento, dirige-se a Auersperg com uma surpresa fingida, como verdadeiro gascão que é: «Não estou a reconhecer a disciplina austríaca tão apregoada», observa; «consente que um subalterno lhe fale nestes termos?». É genial. O príncipe Auersperg sente-se ofendido e manda prender o sargento. Não, mas confessem que é encantadora esta história da ponte de Thabor. Não é estupidez nem cobardia.

— É talvez traição — disse o príncipe André, vendo diante dos seus olhos os capotes cinzentos, os feridos, o fumo da pólvora, o crepitar da fuzilaria e a glória que o aguardava.

— Também não. Isso põe a Coroa em maus lençóis — prosseguiu Bilibine — Não é traição, nem cobardia, nem estupidez; é como em Ulm... — Fez menção de reflectir, procurando o que havia de dizer — é... é estilo Mack. Estamos «mackés» — disse, por fim, contente com a palavra que descobrira, uma palavra novinha em folha, uma dessas palavras que deveriam ser repetidas.

As rugas que até ali se lhe tinham acumulado na testa desapareceram subitamente, o que traduzia a sua satisfação, e, com um ligeiro sorriso, pôs-se a olhar para as unhas.

— Aonde vai? — lançou ele, de repente, ao príncipe André, que se levantara para retirar-se.

— Vou-me embora.

— Para onde?

— Para o exército.

— Mas tinha dito que ainda ficaria dois ou três dias!

— Disse, mas agora resolvi partir imediatamente.

E o príncipe André, depois de ter dado ordens para se preparar a partida, retirou-se para os seus aposentos.

— Quer saber, meu caro — disse Bilibine entrando nos aposentos do príncipe. — Pensei melhor. Porque é que se vai embora? E para prova de que o seu raciocínio era indiscutível, todas as rugas do rosto se lhe desvaneceram.

O príncipe André interrogou com os olhos o interlocutor, sem responder.

— Porque é que se vai embora? Sei que entende que o dever lhe impõe que se apresse a juntar-se às tropas, agora que o exército russo está em perigo. E eu compreendo isso, meu caro, é heroísmo.

— De maneira nenhuma — replicou o príncipe André.

— Mas o senhor é um filósofo. Seja então um verdadeiro filósofo integralmente: encare as coisas de outro ponto de vista e chegará à conclusão de que o seu dever, pelo contrário, é proteger-se contra o perigo. Deixe isso para aqueles que não têm préstimo para coisa alguma... Não lhe deram ordens para regressar e não o despediram ainda daqui. Por isso pode ficar e ir connosco para onde nos levar a nossa pouca sorte. Parece que vamos para Olmütz. É uma linda cidade. E faremos os dois a viagem juntos, tranquilamente, na minha caleche.

— Deixe-se de brincadeiras. Bilibine — disse Bolkonski.

— Falo-lhe com toda a sinceridade, e como se falasse a um amigo. Raciocinemos. Porque é que vai partir quando pode perfeitamente ficar aqui? De duas, uma (as rugas formaram-se-lhe em volta da fronte esquerda): ou a paz será assinada antes que tenha tempo de chegar ao seu destino, ou então irá assistir ao desastre e à vergonha de todas as forças de Kutuzov.

E Bilibine desfranziu a testa, persuadido de que o seu dilema era irrefutável.

— Não posso raciocinar dessa maneira — replicou, friamente, o príncipe André, e para si mesmo murmurou: «Eu parto exactamente para salvar o exército.»

— Meu caro, o senhor é um herói — concluiu Bilibine.

[XIII]

 

Nessa mesma noite, depois de se ter despedido., ministro da Guerra. Bolkonski partiu para, se juntar ao exército, sem saber sequer onde poderia encontrá-lo e correndo o risco , inclusivamente, de ser feito prisioneiro pelos Franceses em plena estrada.

Em Brünn toda a corte preparava as suas malas, e as bagagens pesadas já tinham sido expedidas para Olmütz. Perto de Etzelsdorf, o príncipe André encontrou-se na estrada por onde retirava a toda a pressa, e na maior desordem, o exército russo. A estrada estava tão atravancada com as viaturas que a carruagem não podia avançar. Depois de ter pedido um cavalo ao comandante dos cossacos, o príncipe André, esfomeado e a cair de fadiga, ultrapassou as viaturas e partiu à procura do general-chefe e da sua carruagem. Ao longo do caminho chegavam-lhe aos ouvidos os boatos mais sinistros e o certo é que a desordem daquele exército em fuga confirmava esses boatos.

«A esse exército russo, transportado dos confins do universo pelo ouro da Inglaterra, vamo-lo sujeitar ao mesmo destino» (o destino do exército de Ulm). Lembrava-se destas palavras da proclamação de Bonaparte às tropas no princípio da campanha e estas palavras despertavam nele um sentimento de admiração por esse herói de génio, à mistura com o orgulho ferido e o desejo de glória, «E se me não resta senão morrer?», pensava ele. «E então! Se assim for preciso, saberei morrer tão bem como os outros!»

O príncipe André contemplava com tristeza essas filas intermináveis de destacamentos, de carroças, de parques de artilharia ( ainda de galeras, e viaturas de todos os modelos possíveis que se confundiam, se ultrapassavam umas às outras, em três, quatro filas, obstruindo a estrada enlameada. De todos os lados, atrás, — adiante, tão longe quanto o permitia a transmissão do som, só se ouvia o estrondo de rodas, carroças, galeras, patas de cavalo, estalidos de chicote, gritos, injúrias dos soldados, das ordenanças e dos oficiais. Nas bermas da estrada viam-se a todo o instante quer cavalos rebentados ou meio mortos, quer viaturas despedaçadas, ao pé das quais, esperando não se sabia quê, soldados isolados se sentavam, quer tropas em debandada, que se dirigiam em grupo para os povoados vizinhos e de lá traziam galinhas, carneiros, forragens ou sacos a abarrotar. Nas subidas e nas descidas a multidão tornava-se mais densa e ouvia-se um clamor constante. Soldados com lama até aos joelhos procuravam agarrar-se aos canhões e às viaturas enquanto os chicotes estalavam, as patas dos cavalos escorregavam, os freios se partiam e as vociferações pareciam rebentar os peitos. Os oficiais que vigiavam a marcha iam e vinham pelo meio das viaturas. As suas vozes de comando perdiam-se no meio do alarido geral e via-se, pela expressão dos seus rostos, que se sentiam impotentes para impedir a desordem.

«Eis aqui o querido exército ortodoxo!», dizia Bolkonski de si para consigo, lembrando-se das palavras de Bilibine.

Na esperança de perguntar a um desses homens onde se encontrava o general-chefe, aproximou-se de uma viatura. Precisamente do seu lado oposto avançava uma estranha carruagem, tirada por um único cavalo, evidentemente arranjada pelos soldados com o que lhes viera às mãos, e que era um misto de telega, de cabriolé e de caleche. Conduzia-a um soldado, e uma mulher toda embrulhada em xales ia sentada debaixo do tejadilho de couro. O príncipe André aproximou-se e dispunha-se já a dirigir-se ao soldado quando reparou nos gritos desesperados que essa mulher soltava. O oficial que dirigia o comboio chicoteava o soldado que conduzia a caleche porque ele queria ultrapassar os demais, e o chicote tinha atingido a cobertura da carruagem. A mulher soltava gritos agudíssimos. Ao ver o príncipe André, deitou a cabeça fora da cobertura, agitando os braços magros libertos dos xales, e gritou:

— Senhor ajudante-de-campo, senhor ajudante-de-campo... Por piedade... Proteja-me... Que vai ser de nós?... Sou a mulher do médico do 7 de caçadores... Não nos deixam passar: ficámos para trás, perdemo-nos dos nossos...

— Volta para trás ou esborracho-te como uma carocha! — gritava ao soldado o oficial iracundo. — Volta para trás com a tua caranguejola.

Continuar: parte 4 de 5