Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 2 de 18 · parte 4/5

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Guerra e Paz

Segunda Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

— Senhor ajudante-de-campo, proteja-me! Que quer isto dizer? — gritava a mulher do médico.

— Deixem passar este carro. Não vêem que leva uma mulher? — disse o príncipe André, avançando para o oficial. Este olhou para ele e sem responder voltou-se para o soldado:

— Eu vou ensinar-te como elas cantam... Para trás! — Deixe-o passar, já lhe disse — repetiu o príncipe, de dentes cerrados.

— E tu, quem és tu? — lançou, de repente, o oficial, voltando-se para o príncipe num ataque de fúria. — Quem és tu? Tu. (E era com uma entoação particularmente ofensiva que ele pronunciava esta palavra.) És o comandante, talvez? Aqui o comandante sou eu, e não tu. Para trás, tu — repetia —, ou esborracho-te como uma carocha.

A expressão tinha-lhe agradado, sem dúvida.

— É espevitado, o ajudantezinho-de-campo! — exclamou uma voz atrás dele.

O príncipe André viu perfeitamente que o oficial estava num desses paroxismos de cólera em que as pessoas já não sabem o que dizem. Percebeu que a sua intervenção em defesa da mulher da carripana estava a dois passos de o lançar naquilo que ele mais receava no mundo: o ridículo. Mas o seu instinto venceu-o. Assim que o oficial acabou de falar, aproximou-se dele com uma expressão transtornada pela ira, puxando do chicote.

— Queira deixar passar! — gritou, escandindo as palavras.

O oficial esboçou um gesto e deu-se pressa em afastar-se.

— É tudo por causa deles, destes tipos do estado-maior — resmungou ele. — Faça o que quiser.

O príncipe André, apressadamente, sem erguer os olhos, afastou-se da mulher do médico, que lhe chamava seu salvador, e, lembrando-se com desgosto dos mínimos pormenores desta cena confrangedora, galopou até à povoação onde, como lhe tinham dito, se encontrava o general-chefe.

Assim que chegou, apeou-se e dirigiu-se à primeira casa que viu, na intenção de descansar um instante, de comer qualquer coisa e de pôr um pouco de ordem nos penosos pensamentos que o assaltavam. «É uma leva de bandidos, não é um exército», dizia ele de si para consigo, aproximando-se de uma janela. Nessa altura uma voz conhecida chamou-o pelo nome.

Voltou-se. A uma janelinha assomava a bonita máscara de Nesvitski, que estava a comer, na companhia de outro ajudante-de-campo. Apressou-se, a perguntar a Bolkonski se ele não sabia nada de novo. Naquelas máscaras muito suas conhecidas lia o príncipe André preocupação e inquietude. Era sobretudo a expressão habitualmente risonha de Nesvitski que mais o impressionava.

— Onde está o general — chefe? — perguntou Bolkonski. — Aqui mesmo, naquela casa — respondeu o ajudante-de-campo, com um gesto.

— Então é verdade que vão assinar a paz e a capitulação? — perguntou Nesvitski.

— É isso que eu lhes pergunto. Nada sei senão que me vi e desejei para vos encontrar.

— E o que se passa aqui, camarada, é horroroso! Tenho de pedir desculpa, camarada. Fizemos troça de Mack, mas o certo é que a nossa situação é bem pior — disse Nesvitski. — Senta-te e como qualquer coisa.

— A esta hora, príncipe, já não encontrará nem uma carroça nem nada, e o seu Piotre (Alusão a Bagration, cujo nome completo era Piotre Ivanovitch Bagration. (N, dos T.) só Deus sabe onde está — disse o outro oficial.

— Então onde é que está o quartel-general?

— Vamos dormir em Znairri.

— Cá por mim, tratei de carregar tudo de que preciso em cima de dois cavalos — disse Nesvitski — e arranjaram-me umas óptimas albardas. Estou preparado para atravessar os montes da Boémia. As coisas estão feias, meu filho. Mas que tens tu? Pareces pálido. Porque é, que estás a tremer? — perguntou Nesvitski, ao ver que o príncipe André estremecia, como se tivesse tocado numa garrafa de Leyde.

— Não tenho nada — replicou.

Recordara-se naquele momento do recente encontro com a mulher do médico e do oficial do comboio.

— Que faz aqui o general — chefe? — inquiriu.

— Não percebo nada — disse Nesvitski.

— Tudo o que eu posso compreender é que isto é uma vergonha, e vergonha a dobrar! — exclamou Q príncipe André e dirigiu-se para a habitação onde estava o general-chefe.

Ao passar viu a carruagem de Kutuzov, os cavalos de sela da comitiva, extenuados, e os cossacos que conversavam em voz baixa. Depois penetrou no vestíbulo. Tal qual como lhe tinham dito, o próprio Kutuzov lá estava na companhia do príncipe Bagration e de Weirother. Weirother era o general austríaco que tinha substituído Schmidt. No vestíbulo, o pequeno Kozlovski estava de cócoras diante de um escriba. Este escrevia precipitadamente sobre uma cuba voltada de fundo para o ar, com as mangas do uniforme arregaçadas. Kozlovski tinha um aspecto desfeito. Via-se perfeitamente que também ele não pregara olho em toda a noite. Olhou para o príncipe André sem lhe fazer sequer um aceno de cabeça.

— Na segunda linha... Está escrito? — continuou ele, ditando — os regimentos de granadeiros de Kiev, de Podolski...

— Não consigo acompanhá-lo. Vossa Alta Nobreza — interrompeu o escriba, sem grande respeito, colérico, erguendo os olhos para o oficial.

Através da porta ouviu-se nesta altura a voz animada e descontente de Kutuzov, interrompida por outra voz desconhecida. Pelo tom destas vozes, pela pouca atenção que Kutuzov lhes prestara, pelo desrespeito deste escriba que caía de cansaço, por este mesmo escriba e Kozlovski estarem sentados no chão, junto de uma cuba, tão perto do general-chefe, pelo facto de os cossacos que guardavam os cavalos rirem alto mesmo junto da janela, por tudo isto, o príncipe André concluiu que se deviam ter passado coisas sumamente lamentáveis,

Interrogou Kozlovski com impaciência.

— Já vou, príncipe — replicou Kozlovski. — A disposição das tropas de Bagration...

— Que há a respeito da capitulação?

— Não há capitulação. Estão tomadas as disposições para a batalha.

O príncipe André avançou até à porta donde vinham as vozes. Mas no momento em que ia abri-la, estabeleceu-se o silêncio lá dentro, a porta abriu-se, e Kutuzov, com o seu nariz aquilino no rosto inchado, apareceu no limiar. O príncipe André ficou mesmo diante dele; mas a expressão do olho intacto do general-chefe indicava claramente que os pensamentos e as preocupações o absorviam tão completamente que o não deixavam ver fosse o que fosse. Olhou de frente o seu ajudante-de-campo sem o reconhecer.

— Então, está pronto? — perguntou a Kozlovski.

— É já. Excelência.

Bagration, um homenzinho de rosto duro e imóvel, de tipo oriental, seco, de meia-idade, surgiu por detrás do general-chefe.

— Tenho a honra de me apresentar — repetiu o príncipe André, em voz alta, exibindo um sobrescrito.

— Ah!, é de Viena? Bom. Mais tarde.

Kutuzov saiu para a escada exterior na companhia de Bagration.

— Bom, príncipe, adeus — disse-lhe ele — Que Cristo seja contigo. Abençoo-te para que tenhas grandes êxitos.

Os traços de Kutuzov enterneceram-se; de súbito as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Puxou Bagration com a mão esquerda, e com a direita, onde tinha um anel, num gesto evidentemente familiar, traçou sobre ele o sinal da cruz, apresentando-lhe, ao mesmo tempo, a face inchada. Mas Bagration beijou-o no pescoço.

— Que Cristo seja contigo! — repetiu Kutuzov, dirigindo-se para, a sua caleche. — Sobe comigo — disse a Bolkonski.

— Excelência, eu queria ser útil aqui. Consinta que eu fique no destacamento do príncipe Bagration.

— Sobe — repetiu Kutuzov; e, ao ver que Bolkonski hesitava: — Tenho grande necessidade de bons oficiais, grande necessidade.

Sentaram-se os dois na caleche, e durante alguns instantes rolaram em silêncio.

— Há ainda muito, muito que fazer — disse ele, como se, com a sua perspicácia de velho, compreendesse tudo quanto naquele instante se estava a passar na alma de Bolkonskí. — Se ele amanhã conseguir salvar a metade do seu destacamento, darei graças a Deus — acrescentou como se falasse a si mesmo.

O príncipe André olhou para Kutuzov e involuntariamente reparou, ali tão perto dele, nas escaras muitíssimo bem lavadas da cicatriz que o general-chefe tinha na testa, no sítio onde uma bala, em Ismail, lhe atravessara a cabeça e o olho. «Ah, sim, este tem o direito de falar com tanta calma da perda de tantos homens!», murmurou Bolkonski para si mesmo.

— É precisamente por isso que eu lhe pedi que me deixasse fazer parte daquele destacamento — disse o príncipe André. Kutuzov não respondeu. Parecia ter esquecido o que lhe diziam, e para ali estava cismador. Cinco minutos depois, suavemente embalado pelas molas da caleche. Kutuzov voltou-se para, o príncipe André. Na sua expressão já não havia a mais pequena sombra de sofrimento. Perguntou, com fina ironia, pormenores sobre a entrevista com o imperador, inquiriu dos comentários que se faziam na corte a respeito do caso de Krems e interrogou o príncipe acerca de certas senhoras que ambos conheciam.

 

[XIV]

Kutuzov tinha recebido no dia 1 de Novembro, do seu ser— viço de informações, a indicação de que o exército que ele comandava se encontrava numa situação quase irremediável. O relatório dizia que os Franceses, com forças imensas, depois de terem atravessado a ponte de Viena, marchavam sobre as linhas de comunicação de Kutuzov com as tropas procedentes da Rússia. Se Kutuzov decidisse continuar em Krems, os cento e cinquenta mil homens de Napoleão cortar-lhe-iam todas as suas comunicações, cercar-lhe-iam o exército inteiro de quarenta mil homens, absolutamente extenuados, e ele ver-se-ia na situação em que Mack se encontrara em Ulm. Se resolvesse abandonar a linha de comunicação com a Rússia, ver-se-ía obrigado a meter-se pelas regiões desconhecidas das montanhas da Boémia, sem estradas, lutando contra um inimigo superior em número e a abandonar toda a esperança de vir a operar a sua junção com Boekshevden. Se, enfim, decidisse bater em retirada pela estrada de Krems a Olmütz, a fim de se reunir aos exércitos que vinham da Rússia, corria o risco de ser ultrapassado pelos Franceses, que já tinham atravessado a ponte de Viena, e assim ser obrigado a aceitar a batalha durante a marcha, com todas as viaturas e as bagagens, tendo diante de si um inimigo três vezes mais nume, roso e que o atacaria por dois lados.

Kutuzov escolheu esta última alternativa.

Os Franceses, segundo o relatório do informador, depois de terem atravessado a ponte de Viena, dirigiam-se, em marchas forçadas, para Znaim, que ficava na linha de retirada de Kutuzov, mais de cem verstas para além do ponto onde ele estava. Atingir Znaim, antes dos Franceses era proporcionar ao seu exército uma grande oportunidade de salvação; consentir que os Franceses o ultrapassassem em Znaim era, com certeza, expor todo o exército a urna derrota comparável à de Ulm, ou então a destruição total. A verdade, porém, é que preceder os Franceses com todo o seu exército seria impossível. A estrada que o inimigo seguia de Viena para Znaim era mais curta e melhor do que a que os Russos seguiam, a que ia de Krems a Znaim.

Na mesma noite em que Kutuzov recebeu esta informação mandou a guarda avançada de Bagration, ou seja quatro mil homens, pela montanha, à direita, passar da estrada que ia de Krems a Znaim para a que ia de Viena a Znaim. Bagration devia executar esta marcha sem se deter, passar em frente de Viena, voltando costas a Znaim, e, no caso de passar à frente dos Franceses, demorá-los o tempo que lhe fosse possível. Quanto a Kutuzov, esse dirigir-se-ia a Znaim com todos os abastecimentos.

Depois de ter percorrido quarenta e cinco verstas, com soldados esfomeados e descalços, sem caminhos, através das serras, por uma noite de tempestade, e abandonando a terça parte dos seus efectivos. Bagration chegou a Hollabrünn, na estrada de Viena,— Znaim, algumas horas antes dos Franceses, que de Viena se dirigiam àquela cidade.

Kutuzov ainda precisava, pelo menos, de vinte e quatro horas de marcha, com as bagagens, para chegar a Znaim; e por isso, para ,alvar o exército. Bagration, com quatro mil soldados extenuados e cheios de fome, devia deter durante vinte e quatro horas todo o exército inimigo, que se encontrava em Hollabrünn, o que era, evidentemente, impossível. A fortuna, porém, sempre caprichosa, tomou possível o impossível. O bom êxito do ardil que havia dado aos Franceses, sem um tiro, a ponte de Viena levou Murat a tentar um ardil semelhante junto de Kutuzov. Ao encontrar, na, estrada de Znaim, o fraco destacamento de Bagration. Murat convenceu-se de que estava na presença de todo o exército de Kutuzov. Para mais completamente o desbaratar, resolveu aguardar que chegassem de Viena os seus soldados retardatários, e nessa intenção propôs aos Russos um armistício de três dias, com a condição de tanto de um lado como do outro não haver qualquer deslocação de tropas e se conservarem as respectivas posições.

Murat afirmou haver já propostas de paz e que, para evitar um inútil derramamento de sangue, melhor seria um armistício. O general austríaco conde de Nostitz, que se encontrava na vanguarda, acreditou tias propostas do parlamentário de Murat e recuou, deixando sem cobertura o destacamento de Bagration. Outro parlamentário levou às linhas russas a notícia das propostas de paz, oferecendo às tropas um armistício de três dias. Bagration replicou não poder responder quer negativa, quer afirmativamente, e enviou o seu ajudante-de-campo a Kutuzov com um relatório sobre as propostas apresentadas.

Um armistício para Kutuzov era a única maneira de ganhar tempo e de permitir ao destacamento de Bagration algum descanso enquanto as bagagens, cujo movimento os Franceses desconheciam, faziam, pelo menos, mais uma etapa a caminho de Znaim. Aquela proposta dava aos Russos um meio único e inesperado de salvarem o seu exército. Assim que recebeu essa notícia. Kutuzov enviou imediatamente ao campo inimigo o único oficial do estado-maior que tinha à sua disposição, o general Wintzegerode. Este devia não só aceitar a proposta de armistício, mas oferecer mesmo propostas de capitulação, enquanto Kutuzov enviava à retaguarda os seus ajudantes-de-campo com instruções no sentido de se apressar o mais possível a evacuação das viaturas pela estrada de Krems— Znaim. Só o destacamento de Bagration, sempre esfomeado e derreado, devia continuar imóvel diante de um inimigo oito vezes superior, escondendo o movimento das bagagens e do exército inteiro.

Kutuzov não se enganou no que dizia respeito à proposta de capitulação, que não obrigava a coisa alguma e dava tempo de pôr a salvo grande parte das bagagens, tanto mais que não tardaria que o erro de Murat fosse descoberto. Bonaparte, então em Schoenbrünn, a vinte e cinco verstas de Hollabrünn, assim que recebeu o relatório de Murat e o projecto de armistício e de capitulação, percebeu logo tratar-se de um ardil e endereçou-lhe a carta seguinte:

Ao Príncipe Murat

SchoenbriInn, 25 de Brumário, ano de 1805, às oito horas da

manhã.

Não tenho palavras com que lhe possa exprimir o meu

descontentamento. Apenas está sob o seu comando a minha guarda avançada, e não tem o direito de propor tréguas sem ordem minha. Rompa imediatamente o armistício e avance contra o inimigo. Far-lhe-ei saber que o general que assinou esta capitulação não tinha poderes para isso, que só o imperador da Rússia tem esse direito.

Sempre, contudo, que o imperador da Rússia ratificar a dita

convenção, eu próprio a ratificarei; mas trata-se apenas de um ardil. Marchai, aniquilai o exército russo.., sua posição permite-lhe tomar todas as bagagens e toda artilharia russas.

O ajudante-de-campo do imperador da Rússia é um... Os oficiais

nada são sem poderes; este não tinha nenhuns... Os Austríacos deixaram-se burlar na passagem da ponte de Viena; o senhor. Murat, deixa-se ludibriar por um ajudante-de-campo do imperador.

Napoleão.

Esta tremenda carta foi enviada a Murat por um ajudante-de-campo de Bonaparte expedido a toda a brida. O próprio Bonaparte, sem confiança nos seus generais, fez-se transportar, com toda a sua guarda, para o local das operações, a fim de não deixar fugir a vítima esperada. Quanto aos quatro mil homens do destacamento de Bagration, esses armavam alegremente as suas tendas de campanha, secavam-se, aqueciam-se, e, pela primeira vez havia três dias, preparavam o seu kacha sem que ninguém entre eles pudesse saber ou sequer suspeitar o que os aguardava.

 

[XV]

As quatro horas da tarde, o príncipe André, que reiterara com insistência o seu pedido junto de Kutuzov, dirigiu-se a Grunt e apresentou-se a Bagration. O ajudante-de-campo de Bonaparte ainda ia ao encontro de Murat e a batalha ainda não principiara. No destacamento de Bagration nada se sabia do que se passava: falava-se da paz, sem que, de resto, pessoa alguma acreditasse nisso. Falava-se também de uma batalha próxima sem que igualmente ninguém acreditasse que ela estava para tão breve. Bagratíon, que conhecia Bolkonski e o sabia ajudante-de-campo selecto e de toda a confiança, recebeu-o com uma distinção particular e atenções de comandante, dizendo-lhe que muito provavelmente, nesse dia ou no dia seguinte, seria necessário baterem-se e que lhe dava inteira liberdade para ele escolher: podia ficar a seu lado durante a batalha ou na retaguarda, dirigindo a retirada, «o que também era muitíssimo importante».

— De resto, hoje é provável que não se passe coisa alguma — acrescentou Bagration, como para sossegar o príncipe André.

«Se és um desses petimetres do estado-maior para aqui destacado na esperança de uma condecoração, até à retaguarda a conseguirás, mas se quiseres acompanhar-me, anda daí... Se fores um bom oficial, poderás prestar bons serviços», dizia Bagration de si para consigo. O príncipe André, sem nada responder, pediu licença para percorrer a posição e dar-se conta da disposição das tropas, a fim de saber, caso viesse a ter uma missão a cumprir, aonde dirigir-se. Um oficial de serviço, um belo homem, irrepreensivelmente vestido, com um anel de diamantes no dedo indicador, que falava mal francês, embora com visível prazer, ofereceu-se para acompanhar o príncipe André,

Por toda a parte havia oficiais completamente encharcados, de caras franzinas, como à procura fosse do que fosse, e soldados que traziam da aldeia portas, bancos, tabiques.

— Não podemos acabar com esta gentinha, príncipe — disse o oficial apontando os soldados. — Os comandantes dispersam-nos. Olhe — acrescentou, indicando a barraca de um cantineiro —, é ali que essa gente se reúne e passa os seus dias. Ainda esta manhã tive de correr com eles, e, como vê, a barraca está outra vez cheia. Venha daí, príncipe, vamos pregar-lhes um susto. É um momento,

— Pois, sim, vamos, e já agora aproveito para comer um bocado de pão com queijo — disse o príncipe André, que ainda não tivera tempo de comer fosse o que fosse.

— Porque é que me não disse, príncipe? Ter-lhe-ia oferecido qualquer coisa.

Desmontaram e dirigiram-se para a barraca do cantineiro. Sentados às mesas havia alguns oficiais, muito corados e de aspecto cansado, que comiam e bebiam.

— Mas que quer isto dizer, meus senhores? — exclamou o oficial do estado-maior num tom repreensivo, de quem já devia ter repetido várias vezes a mesma coisa. — Não se podem ausentar assim. O príncipe deu ordens para ninguém aqui estar. Vamos, capitão, realmente — disse ele a um insignificante oficial de artilharia, magro e sujo, sem botas (tinha-as dado ao cantineiro, para que este as pusesse a secar, e estava em palmilhas), que se levantara, ao ver entrar os dois oficiais superiores, e sorria com certo embaraço.

— Não tem vergonha, capitão Tuchine? — prosseguiu o oficial.— O senhor, como artilheiro, devia dar o exemplo, e afinal está para aí descalço. Seria bonito se agora tocassem a reunir, com o senhor ai em palmilhas. — O oficial teve um sorriso. — Queiram recolher às suas unidades, meus senhores, todos, todos — acrescentou, em voz de comando.

O príncipe André não pôde deixar de sorrir ao ver o capitão Tuchine, que, saltando a pé-coxinho, ia interrogando com seus olhos, bons e inteligentes, ora o príncipe ora o oficial do estado-maior.

— Os soldados costumam dizer que correm melhor descalços — disse Tuchine, embaraçado, na esperança de disfarçar aquela penosa situação com um dito chistoso.

Percebendo, porem, que o seu tom brincalhão não agradava, ainda se sentiu mais embaraçado.

— Volte para a sua unidade — disse o oficial do estado-maior, procurando manter um ar sério.

André olhou ainda urna vez para a figura do artilheiro. Havia nela qualquer coisa de especial, um aspecto nada militar, cómico até, mas que não deixava, de ser simpático.

O oficial e o príncipe André montaram de novo a cavalo e prosseguiram o seu caminho.

À saída da povoação, sempre no meio de soldados e oficiais de vários corpos, que se iam dispersando, viram, à esquerda, em construção, entrincheiramentos de greda avermelhada, ainda fresca. Alguns batalhões de soldados, em mangas de camisa, apesar do vento frio, agitavam-se lá dentro como se fossem formigas brancas. Do fundo do fosso aberto braços invisíveis iam atirando continuamente pazadas de terra vermelha. Ambos se aproximaram das obras, examinaram-nas e seguiram um pouco mais adiante. Na retaguarda do entrincheiramento depararam-se-lhes algumas dezenas de soldados que iam e vinham a caminho das trincheiras. Tiveram de tapar o nariz e esporear os cavalos para evitarem aquela atmosfera pestilencial.

— É este o atractivo dos acampamentos. Senhor Príncipe — articulou o oficial do estado-maior.

Chegavam à eminência que se erguia do outro lado. Dali já se podiam descobrir os Franceses. O príncipe André parou e pôs-se a observar,

— Aqui estão instaladas as nossas batarias — explicou o oficial do estado-maior, apontando para o cabeço —, é àquela que pertence o nosso pândego sem botas. Dali pode ver-se tudo. Venha daí, príncipe.

— Muito obrigado, mas agora vou muito bem sozinho — disse o príncipe André, que desejava ver-se livre do companheiro —, não se preocupe, faça favor.

O oficial afastou-se e o príncipe André seguiu o seu caminho.

Quanto mais avançava, quanto mais se aproximava do inimigo, mais o aspecto das tropas se lhe apresentava em ordem, e mais alegres se lhe afiguravam os homens. No comboio das bagagens, em Znaím, que o príncipe visitara nessa manhã, a dez verstas dos Franceses, é que a desordem era grande e a disposição menos alegre. Em Grunt também se sentia uma certa flutuação e um vago medo. Mas quanto mais o príncipe André se aproximava das linhas francesas mais as forças russas lhe davam a impressão de confiança. Os soldados, formados em fileiras, envergavam, capotes, sargentos e capitães procediam à contagem dos seus homens, pousando o dedo no peito dos que rompiam o alinhamento no momento em que levantavam a mão. Alguns, espalhados nas imediações, arrastavam pedaços de madeira ou ramos de árvores e construíam abrigos, rindo e conversando alegremente. Em volta das fogueiras, despidos uns, vestidos outros, procuravam secar as camisas e as ceroulas, limpavam as botas ou os capotes, agrupados em tomo das marmitas e dos caldeirões de kacha. Numa rias companhias, a refeição estava pronta e os soldados fitavam, gulosos, as marmitas a fumegar, aguardando o momento em que o sargento daria a sopa a provar, numa tigela de madeira, ao oficial, sentado numa viga diante da sua barraca.

Noutra companhia — com melhor aspecto, pois nem todas tinham vodka —, os soldados haviam-se reunido em volta de um sargento de cara bexigosa e grandes ombros, que ia tombando uma vasilha e enchendo as marmitas que lhe apresentavam, em volta. Os soldados, com um ar reverente, levavam-nas à boca, despejavam-nas na goela, limpavam os beiços às mangas do capote e afastavam-se, de cara satisfeita. Todos se mostravam tranquilos, como se realmente não estivessem em frente do inimigo, na véspera de uma batalha em que pelo menos metade do destacamento ficaria no campo, mas, pelo contrário, na sua pátria, descansando num pacífico acampamento. Depois de ter atravessado pelo meio de um regimento de caçadores e de passar pelas fileiras dos granadeiros de Kiev, soldados de aspecto marcial, todos entretidos, igualmente, em pacíficas tarefas, o príncipe André, não longe de uma alta barraca, diferente das outras, pois era a do comandante do regimento, cruzou um pelotão de granadeiros onde havia um homem estendido despojado de toda a sua roupa. Seguravam-no duas praças, e duas outras, brandindo varas flexíveis, batiam a compasso nos ombros nus do soldado. A vítima soltava gritos que nada tinham de humano. Um corpulento major andava de um lado para outro, diante das tropas, e continuamente, sem prestar a mais pequena atenção aos gritos do supliciado, ia dizendo:

— É uma vergonha para um soldado roubar; um soldado deve ser humilde, nobre e valente, e quando rouba os seus camaradas, deixa de ser digno, é um miserável. Mais, mais!

E lá continuavam as vergastadas e os gritos desesperados, em que não havia nada de fingido.

— Mais, mais! — repetia o maior.

Um moço oficial, com um ar embaraçado e lastimoso, afastou-se do soldado supliciado e interrogou com os olhos, o ajudante-de-campo, que ia passando.

O príncipe André, ao atingir as posições avançadas, seguiu ao longo das fileiras. A linha russa e a do inimigo, tanto no flanco esquerdo como no direito, afastavam-se muito uma da outra, mas no centro, no ponto em que os parlamentários tinham passado nessa mesma manhã, as linhas estavam tão próximas que os soldados se viam cara a cara e podiam, inclusivamente, conversar. Além dos soldados que constituíam as linhas, nesse, ponto, de um lado e outro, viam-se curiosos, que, rindo, miravam esses inimigos estrangeiros que nunca tinham visto.

Desde madrugada, apesar da proibição de se aproximarem das linhas, que os comandantes procuravam debalde afastar os curiosos. Os soldados das linhas, dando-se ares de exibidores de curiosidades de feira, já nem sequer olhavam para os Franceses, e trocavam entre si ditos sobre os basbaques, aguardando impacientes a hora de render. O príncipe parou para ver os Franceses.

— Olha, olha — dizia um soldado para o camarada, mostrando-lhe um mosqueteiro russo, que, na companhia de um oficial, se aproximava das linhas e contava qualquer coisa, com volubilidade e calor, a um granadeiro francês. — Olha, olha para ele, olha para a língua dele! Nem os Franceses são capazes de o apanhar. Que dizes tu a isto. Siderov?

— Cala-te, escuta. Nada mau! — replicou Siderov, que tinha fama de falar francês na ponta da língua.

O soldado que os franceses apontavam rindo era Dolokov. O príncipe André reconheceu-o e prestou atenção à conversa. Dolokov, com o seu capitão, vinha do flanco esquerdo, onde estava o seu regimento.

— Vamos, continue, continue — dizia o capitão, que se debruçava, procurando não perder uma única palavra da conversa, aliás incompreensível para ele. — Vamos, continue, faça favor. Que diz ele?

Dolokov não parecia preocupado em responder ao capitão. Estava numa calorosa discussão com o granadeiro francês. Falavam, claro está, da campanha. O francês queria provar, misturando austríacos e russos, que estes se tinham rendido e haviam fugido de ‘Ulm; Dolokov, pelo contrário, afirmava que os Russos não se tinham rendido e haviam derrotado os Franceses.

— Recebemos ordens para correr com vocês, e havemos de os correr — protestava Dolokov.

— É melhor que vocês não se deixem apanhar todos, cossacos e tudo — replicava o granadeiro.

Os mirones de um lado e do outro puseram-se a rir.

— São vocês que hão-de dançar na corda bamba, como já dançaram com o Suvorov! — exclamava Dolokov.

— Que está ele a dizer? — perguntou um francês.

— É história antiga — comentou outro, que calculava que eles estivessem a falar das guerras passadas. — O imperador lhe tratará da saúde, ao vosso Suvara, como já fez aos outros...

Dolokov, mas o francês interrompeu-o.

— Não é Bonaparte. É o imperador! Maldito nome...— gritou, colérico.

— Diabos o levem ao teu imperador!

E Dolokov pôs-se a proferir, em russo, grosseiras injúrias, e, pondo a espingarda às costas, afastou-se.

— Vamos embora. Ivan Lukitch — disse para o capitão.

— Isto é que é falar francês — diziam os soldados.— Vamos, agora tu. Siderov!

Siderov piscou o olho e, dirigindo-se aos franceses, pôs-se a sibilar muito depressa palavras incompreensíveis:

— Kari-ma-la-ta-sa-fi-mu-ter-kess-ka — algaraviava ele, fingindo, pelo seu tom de voz, estar a dizer coisas sensatas.

— Ah! Ah! Ah! Hi! Hi! Hi! — Os soldados romperam a rir, num riso tão franco e tão contagioso que até os franceses, do outro lado das linhas, riam também. Dir-se-ia que depois disto nada mais havia a fazer que descarregar as espingardas, fazer saltar as munições e cada um voltar o mais depressa possível para casa.

Mas a verdade é que as espingardas continuaram carregadas, as seteiras das casas e os entrincheiramentos conservaram o seu aspecto ameaçador e as peças de artilharia, desatreladas das carretas, continuaram apontadas umas contra as outras.

[XVI]

Depois de ter percorrido as linhas do flanco direito até ao flanco esquerdo, o príncipe André subiu até à bataria donde, no dizer do oficial, se abrangia toda a área do campo. Uma vez ali, desmontou e parou ao pé da última das quatro peças desengatadas da sua carreta. No primeiro plano, um artilheiro fazia sentinela. Apresentou armas ao oficial, e, em seguida, a um aceno deste, continuou a sua ronda monótona e fastidiosa. Atrás dos canhões estavam as carretas das peças e ainda por detrás as muar2s e o bivaque dos artilheiros. À esquerda, não muito longe da peça que ficava na extremidade, via-se uma barraca, recentemente levantada, onde se ouvia uma animada conversa de oficiais.

Realmente, da bataria descobriam-se quase todas as posições russas e uma grande parte das do inimigo. Directamente do outro lado, na linha do horizonte de um cabeço, via-se a povoação de Schöngraben; à esquerda e à direita podiam distinguir-se, em três sítios distintos, por entre o fumo dos acampamentos, a massa das tropas francesas, cuja maior parte, evidentemente, ocupava a própria povoação e o declive por trás do cabeço. A esquerda da povoação, no meio da fumarada, divisava-se qualquer coisa que parecia uma bataria, sem que a olho nu se pudesse ter a certeza disso. O flanco direito russo estava disposto sobre uma colina, assaz escarpada, que dominava a posição francesa. Era aí que se instalava a infantaria moscovita. Na extremidade dessa mesma colina ficavam os dragões. No centro, onde se encontrava, também, a bataria de Tuchine, o ponto donde o príncipe André examinava as posições, um declive suave e em linha recta conduzia à torrente que separava as tropas de Schöngraben. À esquerda, as tropas russas apoiavam-se numa floresta onde se via, subindo no ar, o fumo das fogueiras da infantaria, que cortava lenha. A linha francesa era mais extensa do que a russa e era evidente que os Franceses podiam com toda a facilidade cercar o exército pelos dois lados. Por detrás da posição russa existia um barranco abrupto e profundo, por onde seria difícil retirar artilharia e a cavalaria. O príncipe André, o cotovelo apoiado uma das peças, e o livro de apontamentos na mão, esboçou, para seu governo, o plano da disposição das tropas. Em dois pontos tomou algumas notas a lápis, na intenção de comunicá-las a Bagration. Propunha, em primeiro lugar, concentrar no centro toda a artilharia e depois retirar a cavalaria para a retaguarda, para o outro lado do barranco. O príncipe, sempre ao pé do general-chefe, acompanhando os movimentos de tropas e a execução das disposições gerais, e interessado pelos pormenores do desenvolvimento das batalhas no ponto de vista histórico, via já, no caso que tinha diante, a marcha futura das operações, pelo menos em seus traços gerais, o encarava já, de certo modo, importantes hipóteses neste género: «Se o inimigo atacar pelo flanco direito, os granadeiros de Kiev e os caçadores de Podolski devem manter-se até que cheguem os reforços do centro. Neste caso, os dragões poderão atacá-los de flanco e destroçá-los. Na hipótese de o inimigo atacar pelo centro, nós colocaremos neste cabeço a bataria central e a coberto dela retiramos o flanco esquerdo, recuando, por degraus, até ao barranco.»

Durante todo o tempo em que se conservara na bataria, junto à peça, não deixara de ouvir o tagarelar dos oficiais na barraca, mas, como tantas vezes acontece, não tinha compreendido uma só palavra de tudo quanto eles diziam. De repente, ouviu uma voz cuja tonalidade era tão sincera que se pôs involuntariamente a escutar:

— Não, meu rapaz — dizia essa voz agradável, que o príncipe André parecia conhecer —, garanto-lhe que se fosse possível uma pessoa saber o que acontece depois da morte, ninguém teria medo de morrer. É o que lhe digo, meu amigo.

Outra voz, mais jovem, interrompeu a primeira:

— Com medo ou sem medo, ninguém escapa à morte.

— Isso não impede que se tenha medo! Eh! Vocês aí, os sabichões — interrompeu uma terceira voz, mais máscula, — Sim, vocês, os artilheiros, são uns sabichões a apropriarem-se de tudo que podem: comidas e bebidas.

E o detentor desta voz grossa, evidentemente oficial de infantaria, soltou uma gargalhada.

— Isso não impede que se tenha medo – prosseguiu a primeira voz. — Temos medo do desconhecido, é o que é. Por mais que a gente diga que a alma vai para o Céu.., a verdade todos nós sabemos que Céu é coisa que não existe na atmosfera.

A voz máscula voltou a interromper o artilheiro.

— Venha de lá um bocadinho da vossa aguardente. Tuchine.

«Ah! É o capitão que estava em palmilhas na do cantineiro», disse o príncipe André para si mesmo, reconhecer, satisfeito, a simpática voz do artilheiro filósofo.

— Aguardente, se quiserem — disse Tuchine isto de conceber a vida futura...

Não concluiu a sua frase. Nesse momento um assobio rasgou o ar, mais próximo, cada vez mais próximo,. Sempre mais próximo, mais rápido, cada vez mais rápido e mais e um projéctil, num gemido prolongado e como que de to interrompido, veio enterrar-se no chão, com uma força colossal, fazendo saltar estilhaços em toda a roda, a pequena distância da barraca dos oficiais. Dir-se-ia que a terra soltara um gemido ao receber aquela pancada colossal.

Nesse instante saltou da barraca, com todo outros oficiais, o insignificante Tuchine, que vinha de cachimbo na boca: a sua cara, boa e inteligente, parecia um pouco pálida. Atrás dele vinha o homem da voz grossa, um vigoroso oficial de infantaria, que se pôs a correr, em direcção à sua companhia, enquanto abotoava o capote.

 

[XVII]

O príncipe André, que tinha voltado a montar, deteve-se na bataria para observar, pelo fumo da peça, donde vinha o projéctil. Percorreu com os olhos um largo espaço. Apenas lhe foi dado perceber que as massas francesas, até então imóveis, principiavam a mover-se, e que à esquerda, realmente, havia uma bataria. Urna nuvenzinha de fumo pairava ainda nesse sítio. Dois franceses a cavalo, provavelmente dois ajudantes-de-campo, galopavam pela encosta. No sopé da colina, naturalmente para reforçar as linhas, avançava uma pequena coluna inimiga, que se distinguia nitidamente. Ainda o fumo da primeira detonação se não havia dissipado já um novo traço de fumo aparecia seguido de uma segunda detonação. Era a batalha que principiava. O príncipe André sacudiu as rédeas do seu cavalo e voltou a galope para Grunt, a juntar-se a Bagration. Atrás dele o tiroteio ia redobrando de violência. Era evidente que as forças russas principiavam a ripostar. Lá em baixo, no local onde os parlamentários se tinham encontrado, via-se perfeitamente a fuzilaria.

Lamarrois, portador da terrível carta de Bonaparte, acabava de chegar ao pé de Murat. Este, vexado, desejoso de dissipar o seu erro, dera ordens para que as suas tropas atacassem imediatamente ao centro, na intenção de cercar os dois flancos e de esmagar o destacamento insignificante, diante dele, antes da chegada do imperador.

«Começou! Aí está!» dizia de si para consigo o príncipe André, sentindo o sangue afluir-lhe ao coração, «mas onde desencantarei eu o meu Toulon?»

Ao passar diante dessas mesmas companhias que um quarto de hora antes comiam a sua kacha e bebiam a sua vodka, por toda a parte se lhe depararam soldados que, à pressa, formavam em linha de batalha e verificavam as espingardas, e em todos os rostos havia aquela mesma excitação que ele próprio sentia dentro de si mesmo. «Começou! Aí está! É terrível e é divertido!», lia-se em todas as máscaras, quer de soldados quer de oficiais.

Antes de chegar às trincheiras que andavam a abrir viu, à frouxa luz de uma sombria tarde de Outono, um grupo de cavaleiros que cavalgava ao seu encontro. O que vinha à frente envergava um burka e um barrete guarnecido de astracã e montava um cavalo branco. Era o príncipe Bagration. André estacou, a espera. Bagration refreou o cavalo e, reconhecendo-o, fez-lhe um aceno de cabeça. Enquanto o príncipe André lhe relatava o que tinha visto. Bagration, continuava a olhar em frente.

A expressão «Começo». Aí está!» também se via estampada no duro rosto trigueiro ,.e Bagration, de olhos baços, semicerrados, como que mal despertos. O príncipe André contemplava, com uma curiosidade inquieta, esta máscara imóvel, e teria gostado de saber se ele pensava e sentia e em que pensava e sentia aquele homem naquele instante. «E haverá mesmo alguma coisa ali, por detrás desta máscara imóvel?», perguntava a si mesmo enquanto o fitava. O príncipe Bagration aquiescia, meneando afirmativamente a cabeça, às palavras de Bolkonski, e dizia: «Está bem», com um ar que significava ter previsto tudo o que estava a acontecer e tudo o que lhe comunicavam. O príncipe André, sufocado pelo rápido galope que fizera, falava com precipitação. Bagration, com o seu sotaque oriental, particularmente lento, dir-se-ia querer sugerir que não havia necessidade de pressas. No entanto, meteu a trote na direcção da bataria de Tuchine. O príncipe André formou junto dos oficiais da escolta, que era constituída por um oficial às ordens, ajudante-de-campo pessoal de Bagration. Jerkov, oficial do estado-maior, destacado ao seu serviço, que montava um belo cavalo inglês, e um funcionário civil, o auditor, que tinha pedido para acompanhar a batalha de perto, por simples curiosidade. O auditor, um homem gordo, de cara cheia, olhava em tomo de si com um ingénuo sorriso de alegria, estremecendo em cima da sela, e o seu aspecto era estranho, debaixo do capote de camelo, em cima do selim de soldado raso, no meio de todos aqueles hússares, daqueles cossacos e daqueles ajudantes-de-campo.

— Este cavalheiro queria ver uma batalha — disse Jerkov para Bolkonski, apontando-lhe o auditor – e já está cheio de dores de barriga.

— Vamos, então, basta! – exclamou o auditor, com um sor riso aberto, ao mesmo tempo ingénuo e malicioso, como se sentisse muito lisonjeado com os gracejos de Jerkov e propositadadamente fingisse parecer ainda mais estúpido do que era na realidade.

— É engraçado, meu príncipe — dizia o oficial do estado-maior às ordens, que se lembrava perfeitamente que em francês o título de príncipe tem uma determinada colocação, embora nunca fosse capaz de o empregar no seu lugar próprio.

Entretanto tinham chegado à bataria de Tuchine e diante deles acabava de cair um projéctil.

— Que foi aquilo que caiu? — perguntou o auditor, sorrindo ingenuamente.

— Um pastel francês — tomou-lhe Jerkov.

— Ah! É então com isso que eles matam as pessoas? — retorquiu o auditor. — Que coisa horrível!

E, dizendo isto, parecia rir de satisfação. Mal ele tinha acabado, ouviu-se de novo um medonho assobio, de súbito interrompido por uma queda em cima fosse do que fosse de fofo. E, de repente, um cossaco que seguia um pouco à direita e na retaguarda do auditor caía por terra com o seu cavalo. Jerkov e o oficial do estado-maior debruçaram-se das suas selas e afastaram os seus cavalos. O auditor parou diante do cossaco e pôs-se a observá-lo com grande curiosidade. O cossaco estava morto e o cavalo ainda estrebuchava.

Bagration voltou a cabeça, piscando os olhos, e, ao ver a causa da confusão que se tinha estabelecido, retomou o seu ar indiferente, como se dissesse: «Valerá a pena a gente preocupar-se com semelhantes frioleiras?» Puxou as rédeas do cavalo e, com a ligeireza de um bom cavaleiro, inclinou-se um pouco e libertou a espada, presa na burka. Era uma espada antiga, diferente das que então se usavam. O príncipe André lembrou-se de uma anedota em que se contava que Suvorov, na Itália, dera de presente a Bagration a sua própria espada, e esta lembrança naquele momento foi-lhe de bom augúrio. Aproximavam-se, precisamente, da bataria em que Bolkonski estivera quando observara o campo de batalha.

— Que companhia é esta? — perguntou Bagration ao servente de bataria de sentinela às caixas de munições. Perguntava: «Que companhia é esta?», quando, na realidade, o que ele dizia era: «Há medo por aqui?» E o servente de bataria percebeu-o.

— Do capitão Tuchine. Excelência — disse, num, — voz forte e alegre, pondo-se em sentido, o servente de bataria, um ruivo, de cara cheia de sardas.

— Bom, bom — murmurou Bagration, num tom de quem reflecte, e passou diante das carretas, aproximando-se da peça do extremo.

No momento preciso em que se aproximava desta ouviu-se uma detonação, que o ensurdeceu, a ele e aos da sua escolta, e no meio da fumarada que de repente envolveu a peça viram-se artilheiros que, com grande esforço, se davam pressa de a voltar a pôr no seu lugar. O soldado nº 1, um rapagão de largos ombros, que empunhava o taco, deu um salto para o lado da roda. O nº 2, de mão trémula, carregou a peça. Um homenzinho atarracado, o oficial Tuchine, tropeçando em direcção à carreta, seguiu para diante, sem reparar no general, e pôs-se a olhar, protegendo a vista com a mão.

— Dois pontos ainda mais alto e damos no vinte! — gritou, na sua voz aflautada, a que procurava imprimir um acento grave, que não condizia com a sua pessoa.— A segunda! — guinchou ele. — Fogo. Medviedev!

Bagration chamou o oficial, e Tuchine, num movimento tímido e desajeitado, não como é costume perfilar-se um oficial para uma continência militar, mas antes como um sacerdote que lança a sua bênção, levou dois dedos à pala da barretina e aproximou-se do general. Embora as peças de Tuchine tivessem por missão varrer o desfiladeiro, este estava a bombardear a aldeia de Schöngraben, que se via do outro lado, e onde se agitavam grandes massas de tropas francesas.

Ninguém tinha dito a Tuchine contra que objectivo é que devia dirigir o tiro das suas peças, mas, depois de ter consultado o seu sargento Zakartchenko, a quem muito considerava, resolvera que seria acertado incendiar a povoação,

— Muito bem! — exclamou Bagration, ao ouvir o relato do oficial, e pôs-se a examinar o campo de batalha que se lhe apresentava à vista, como se estivesse a combinar um plano qualquer.

Era pela direita que os Franceses se aproximavam. Ao fundo da eminência onde estava o regimento de Kiev, nos alcantis sobranceiros ao rio, ouvia-se um tiroteio ininterrupto, que confrangia o coração, e, muito mais para a direita, para além do regimento de dragões, o oficial às ordens mostrava ao príncipe uma coluna francesa que envolvia o flanco russo. A esquerda limitava o horizonte a floresta próxima. O príncipe Bagration deu ordens para que dois batalhes do centro fossem reforçar a ala direita. O oficial às ordens permitiu-se observar-lhe que, em virtude da deslocação destes dois batalhes, as peças ficavam sem cobertura. Bagration voltou-se para o oficial e fitou-o com os seus olhos nublados, sem dizer palavra. Ao príncipe André afigurou-se-lhe que a observação era justa e que efectivamente nada havia a responder. Mas no mesmo instante surgiu a galope um ajudante-de-campo do comandante do regimento que se encontrava no declive do ribeiro com a informação de que massas imensas de franceses se lançavam sobre ele, que o regimento estava disperso e que recuava para se juntar aos granadeiros de Kiev. Bagration acenou com a cabeça, a dar o seu consentimento e a sua aprovação. A passo, dirigiu-se para a direita e enviou o ajudante-de-campo com ordem de ataque ao regimento de dragões. O ajudante-de-campo destacado voltou, daí a meia hora, a anunciar que o comandante de dragões já tinha recuado para o outro lado da escarpa, pois fora recebido por um tiroteio violento e estava a perder homens inutilmente, de modo que assim concentrara os seus soldados na floresta, donde eles faziam fogo.

— Bom! — exclamou Bagration.

No momento em que se afastava da bataria, ouviu-se igualmente à esquerda fuzilaria na floresta. Como o flanco esquerdo ficava bastante longe para que ele pudesse deslocar-se até lá a tempo, mandou Jerkov dizer ao general que o comandava, aquele mesmo que tinha apresentado o regimento a Kutuzov em Braunau, que recuasse o mais depressa possível para a retaguarda da escarpa, visto o flanco direito não poder conter por muito tempo o inimigo. E, quanto ao batalhão que cobria a bataria de Tuchine, esse foi esquecido. O príncipe André prestou uma grande atenção às conversas de Bagration com os oficiais comandantes e às ordens que ele dava, e com grande espanto seu verificou que ele não dava ordem alguma: tudo quanto fazia era apenas dar a entender que o que se passava por força das circunstâncias, em consequência do acaso ou mercê da intervenção dos diferentes comandantes acontecia, se não graças às ordens que ele dava, pelo menos de acordo com os seus planos. Mercê do tacto de que Bagration dava provas. André notava que, não obstante os acontecimentos estarem confiados ao acaso e de qualquer maneira não dependerem da vontade dos chefes, bastava a presença deste para o resultado ser extraordinário. Os comandantes que dele se aproximavam com uma expressão transtornada afastavam-se confiantes; soldados e oficiais saudavam-no alegremente, readquiriam na sua presença um aspecto animado e diante dele era visível que se sentiam orgulhosos do seu heroísmo.

 

[XVIII]

O príncipe Bagration, depois de atingir a extremidade norte do flanco russo, principiou a descer naquele ponto onde rompera um fogo rolante e onde nada se via no meio da fumarada. Quanto mais ele e a sua escolta avançavam pela escarpa abaixo, menos podiam ver, mas mais vivamente sentiam aproximar-se do verdadeiro campo de batalha. Encontraram os primeiros feridos. Um deles, a cabeça ensanguentada e sem barretina, era levado por dois homens que o amparavam por debaixo dos braços. Golfava sangue e sentia-se-lhe o estertor. A bala, evidentemente, havia-lhe atingido a boca ou a garganta. Outro que encontraram caminhava galhardamente sozinho, sem espingarda, ululando, com toda a força dos pulmões, fustigado pela dor que lhe causava uma ferida recente e agitava um braço donde manava um veio de sangue, como se fosse um frasco a escorrer, que se lhe ia espalhando pelo capote. No seu rosto havia mais espanto que sofrimento. Acabara naquele instante de ser ferido. Depois de atravessarem a estrada, desceram uma ladeira abrupta e viram alguns homens prostrados no caminho. Cruzou-se com eles um bando de soldados, entre os quais alguns sem estarem feri— dos. Outros subiam a ladeira e, não obstante a presença do general, falavam em alta voz, com grandes gestos. Lá diante, no meio da fumarada, lobrigavam-se já fileiras de capotes cinzentos, e um oficial, ao ver Bagration, correu, interpelando a turbamulta dos soldados que debandavam para os obrigar a voltar para trás. Bagration seguiu em frente, ria direcção das fileiras donde, aqui e ali, partiam descargas que abafavam as conversas e os gritos dos comandantes. Toda a atmosfera era de fumo. As caras dos soldados estavam excitadas e negras de pólvora. Alguns deles carregavam as espingardas com as respectivas varetas, outros deitavam pólvora nas caçoletas, sacavam os cartuchos, outros, ainda, disparavam. Mas sobre quem é que disparavam? Eis o que se não podia ver por causa do fumo que o vento não dissipava. Muito frequentemente ouvia-se como que um zumbido de abelhas, uma espécie de assobio agradável. «Que vem a ser isto?», perguntava o príncipe André aos seus botões, à medida que se aproximava. «Não é um ataque, visto que eles continuam imóveis; também não pode ser uma formação em quadrado; não é esta a atitude.»

Um velhito magro, de aspecto doentio, o comandante do regimento, com um sorriso amável e semicerrando as pálpebras enrugadas, o que lhe dava um ar afável, aproximou-se de Bagration e recebeu-o como quem recebe um hóspede de cerimónia. Participou-lhe que o seu regimento fora atacado pela cavalaria francesa e que, embora esta tivesse sido repelida, o regimento perdera mais de metade dos seus efectivos. Dizia que o ataque fora repelido, imaginando ser esse o termo militar para o que tinha acontecido com o seu regimento. Mas a verdade é que nem ele próprio sabia o que é que naquela meia hora tinham feito as tropas que lhe haviam sido confiadas e não podia dizer com precisão se o ataque fora repelido ou se o seu regimento fora aniquilado pelo ataque. No principio da acção sabia apenas que as balas e os obuses tinham chovido sobre o seu regimento, matando homens, e que depois alguém havia gritado: «A cavalaria!», e que os seus tinham principiado a fazer fogo. E agora já não disparavam sobre a cavalaria, que se afastara, mas sobre a infantaria francesa, que aparecia na escarpa fazendo fogo contra os russos.

O príncipe Bagration acenou com a cabeça, como que a dizer que tudo se passava exactamente como ele desejava e como havia previsto. Voltou-se para o seu ajudante-de-campo, deu-lhe ordens para que mandasse descer ao vale dois batalhões do 6 de caçadores, diante do qual acabavam de passar. O príncipe André reparou com surpresa, nesse instante, na mudança de expressão que se operara no rosto de Bagration. Havia nele a decisão concentrada e jovial de um homem que, num dia quente de Verão, se dispõe a atirar-se à água e prepara o mergulho. Já não se lhe viam os olhos embaciados, sonolentos, nem aquele seu falso ar de pensador profundo: os seus olhos redondos e duros de gavião olhavam em frente com solenidade e um ligeiro desdém, não se detendo, aparentemente, em coisa alguma, embora os seus movimentos conservassem a mesma lentidão e a mesma firmeza.

O comandante do regimento pedia-lhe que se afastasse, pois o local era muito perigoso. — Peço-lhe, excelência, por amor de Deus! — dizia-lhe ele, implorando com o olhar a aprovação do oficial às ordens, que se afastara. — Olhe!

Fazia-lhe notar as balas que continuamente zumbiam, cantavam e assobiavam em tomo deles. Na sua voz havia aquele tom de imploração e de censura cortês que costuma ter um carpinteiro para falar ao patrão a quem ocorre a veleidade de manejar o machado: «Nós estamos acostumados, mas o patrão, o patrão vai fazer calos nas palmas das mãos!» Falava como se aquelas balas o não pudessem matar a ele, e os olhos semicerrados davam-lhe às palavras um acento ainda mais persuasivo. O oficial do estado-maior associou-se às diligências do comandante do regimento; mas Bagration não lhes respondeu, contentando-se em dar ordem de cessar fogo e de tomarem disposições para receber os dois batalhões que se aproximavam. Enquanto ele falava, como que corrida por mão invisível, a cortina de fumo que escondia a escarpa levantou-se da direita para a esquerda, impelida pelo vento que se pôs a soprar, e diante dos olhos surgiu-lhe a serra fronteira, coberta de franceses em marcha. Todos os olhos se dirigiram involuntariamente para a coluna francesa que avançava para eles, acompanhando os altos e baixos do terreno. Já se viam as barretinas de pele dos soldados, já se podiam distinguir os oficiais dos simples soldados de linha. Via-se já palpitar a bandeira.

Continuar: parte 5 de 5