Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 1 de 18 · parte 2/6

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Guerra e Paz

Primeira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

De súbito, o príncipe Hipólito, levantando-se, pediu a todos, com um gesto, que se conservassem sentados e principiou a dizer:

— Contaram-me hoje uma anedota moscovita encantadora; têm de a ouvir. Queira perdoar-me, visconde, tenho de a contar em russo. De outra maneira, perde o sal.

E o príncipe Hipólito pôs-se a falar russo como o falam os franceses chegados à Rússia há menos de um ano. Todos prestaram atenção, tão viva e instantemente o príncipe reclamara que lhe fizessem esse favor.

— Em Moscovo há uma senhora. E é muito avara. E precisava de arranjar dois lacaios para a sua carruagem. E de grande estatura. Era assim que ela gostava. E tinha uma criada de quarto também de grande estatura. E então disse...

Neste ponto, o príncipe Hipólito teve um momento de reflexão, mostrando certa dificuldade em combinar as frases.

— E então disse.., sim, disse: «Menina (para a criada de quarto) enfia a libré e vem daí comigo fazer visitas.»

Nesta altura o príncipe Hipólito deu uma gargalhada, rindo antes de mais ninguém, o que criou um pouco de embaraço ao narrador. Entretanto, várias pessoas, entre as quais a senhora idosa e Ana Pavlovna, sorriram.

— Lá foram. De repente levantou-se um grande vendaval. A rapariga ficou sem o chapéu e a cabeleira desprendeu-se-lhe... Aqui não pôde aguentar-se mais e um grande acesso de riso o tomou, ao mesmo tempo que dizia:

— E toda a gente soube...

E assim terminou a anedota, ainda que ninguém pudesse compreender porque a tinha ele contado e a que propósito lhe parecera indispensável narrá-la em russo. Ana Pavlovna e os demais convivas apreciaram a cortesia mundana do príncipe Hipólito, que assim tinha posto ponto final ao penoso e pouco cortês despropósito do Senhor Pedro. A conversa dispersou-se em seguida por miúdos e insignificantes dizeres a propósito de bailes em perspectiva ou já passados, em alusões a espectáculos ou então em referências a circunstâncias ou a locais onde as pessoas poderiam vir a encontrar-se.

 

[VI]

Depois de felicitarem Ana Pavlovna pela sua encantadora reunião, os convidados principiaram a retirar-se.

Pedro era um desajeitado. Gordo, estatura acima de mediana, largo de ombros, com enormes mãos vermelhuscas, se não sabia estar numa sala, como se costuma dizer, muito menos sabia sair dela, quer dizer, muito menos sabia pronunciar, antes de partir, as palavras atenciosas da praxe. Além disso, era distraído. Quando se levantou, em vez de pegar no chapéu que lhe pertencia, pegou num tricórnio empenachado de general e assim esteve, com ele na mão, sacudindo o penacho, até que o proprietário veio pedir-lhe que lho restituísse. É certo que estas suas distracções e o seu desconhecimento de usos e costumes da sociedade eram largamente compensados por um ar ingénuo, simples e modesto. Ana Pavlovna virou-se para onde ele estava, e cheia de indulgência cristã perdoou-lhe a intempestiva saída, dizendo-lhe, enquanto meneava a cabeça:

— Espero tornar a vê-lo, mas também desejo que mude de ideias, meu caro Senhor Pedro.

Pedro nada teve para responder a estas palavras, contentando-se em inclinar-se e em mostrar mais uma vez o seu sorriso, um sorriso em que se lia: «As minhas ideias são as minhas ideias, mas, no entanto, reparem como eu sou bom rapaz,» Ora era isso exactamente o que Ana Pavlovna e todos os demais estavam a dizer com os seus botões.

O príncipe André saiu para o vestíbulo, e ao mesmo tempo que voltava as costas ao lacaio que lhe vestia o sobretudo ouvia, distraidamente, a frívola tagarelice da mulher com o príncipe Hipólito, que também se preparava para abalar. O príncipe Hipólito, ao lado da linda princesinha grávida, fixava-a obstinadamente com o lorgnon.

— Vá-se embora. Annette, está a apanhar frio — disse ela, despedindo-se de Ana Pavlovna. — Está decidido — acrescentou em voz baixa.

Ana Pavlovna já tivera tempo de dizer duas palavras a Lisa sobre o projecto de casamento entre Anatole e a cunhada da princesinha.

— Conto consigo, querida amiga — respondeu Ana Pavlovna igualmente em voz baixa —, escreva-lhe e diga-me depois como encarará o pai o caso. Até à vista — e saiu do vestíbulo.

O príncipe Hipólito aproximou-se da princesinha e, debruçando-se muito para ela, murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Dois lacaios, o da princesa e o do príncipe, aguardando que os amos acabassem de falar, ali estavam, um com um xale, o outro com um sobretudo, e ouviam-nos falar francês, língua que desconheciam, mas dando-se ares de quem compreende e o não quer dar a perceber.

A princesa, como de costume, sorria enquanto falava e escutava sorrindo,

— Estou radiante por não ter ido à Embaixada — dizia o príncipe Hipólito. — Que estopada... Encantadora noite, não é verdade? Um encanto.

— Dizem que o baile vai ser uma beleza — retorquiu a princesa, desenhando-se-lhe um trejeito no lábio sombreado pela ligeira penugem. — Vão lá aparecer todas as nossas beldades mundanas.

— Nem todas, visto que a princesa lá não estará; nem todas — disse o príncipe Hipólito com jovialidade, e, pegando no xale, que tirou das mãos do lacaio, a quem deu mesmo um encontrão, lançou-o sobre os ombros da princesa.

Por falta de jeito ou de propósito, quem o poderia dizer?, quedou-se muito tempo sem baixar as mãos, embora o xale já estivesse no seu lugar. Dir-se-ia enlaçar a jovem princesa.

Evitando-o graciosamente, e sem deixar de sorrir, a princesa voltou-se e olhou para o marido. O príncipe André, de olhos fechados, parecia fatigado e sonolento.

— Está pronta? — perguntou ele à mulher, envolvendo-a num olhar.

O príncipe Hipólito enfiou apressadamente o sobretudo, que lhe descia até aos tacões, à última moda, e, tropeçando nas pregas do casacão, deu-se pressa em seguir a princesa, escadaria abaixo, que subia para a carruagem, auxiliada pelo lacaio.

— Princesa, até à vista! — gritou ele, tropeçando nas palavras como tinha tropeçado nas dobras do sobretudo.

A princesa, soerguendo o vestido, entrou na obscuridade da carruagem; o marido afivelava o sabre; o príncipe Hipólito, com o pretexto de ser útil, incomodava toda a gente.

— Com licença — disse em russo o príncipe André, num tom seco e pouco amável, dirigindo-se a Hipólito, que lhe vedava a passagem.

— Pedro, espero-te em casa — articulou a mesma voz com um ar afável e carinhoso.

O postilhão pôs a equipagem em andamento, que arrancou com fragor. O príncipe Hipólito ficara na escadaria, rindo ainda, aos sacões, enquanto esperava pelo visconde, a quem prometera reconduzir a casa.

— Pois bem, meu caro, a sua princesinha é um encanto, um encanto — dizia o visconde, ao sentar-se ao lado de Hipólito.— Mas o que se chama um encanto. — E atirando um beijo com a ponta dos dedos: — E francesa até à medula.

Hipólito riu estrepitosamente.

— Sabe que é terrível com o seu arzinho inocente — prosseguiu o visconde. — Lamento o pobre marido, esse oficialzito, que se dá ares de príncipe reinante.

Hipólito continuava a rir a bom rir, e, mesmo rindo, foi dizendo:

— E dizia o senhor que as damas russas não chegavam aos calcanhares das francesas. É preciso é saber tratar com elas.

Pedro, que chegara primeiro, como íntimo da casa que era, entrou no gabinete do príncipe André, e mal se sentou no divã tirou da estante o primeiro livro que lhe veio à mão — calhou ser os Comentários, de César —, pondo-se a ler, ao acaso, apoiado sobre os cotovelos.

— Fizeste-la bonita em casa de Mademoiselle Scherer! É certo e sabido que a pobre senhora vai cair doente — disse o príncipe André, ao entrar no gabinete, enquanto esfregava as mãos brancas.

Pedro voltou-se com todo o peso do seu corpo, e de tal maneira que o divã rangeu debaixo dele. O seu rosto animado fixou-se no do seu companheiro e com um sorriso aberto fez-lhe um gesto amistoso.

— Realmente, o abade é uma pessoa muito interessante, mas não compreende as coisas como elas são... Na minha opinião, a paz perpétua é possível, mas, como direi?..., não por meio do equilíbrio político...

André, visivelmente, não apreciava estas discussões abstractas.

— Ah, não, meu caro, não podemos dizer em toda a parte o que pensamos. Ora conta-me lá, já te resolveste, finalmente, a fazer qualquer coisa? Que queres tu ser, cavaleiro da Guarda ou diplomata? — perguntou o príncipe André, depois de alguns instantes de silêncio.

Pedro voltou a sentar-se no divã, encolhendo as pernas debaixo de si.

— Veja lá, não sei, realmente. Nem uma nem outra dessas situações se me dá com o feitio.

— No entanto, precisas de tomar uma resolução. Teu pai está à espera que te decidas.

Pedro fora enviado para o estrangeiro, aos dez anos, na companhia de um padre, seu preceptor. E por lã ficara até aos vinte. Quando voltou para Moscovo, o pai despediu o padre e disse ao jovem: «Agora vai até Petersburgo, observa e escolhe. Estou de acordo desde já com o que tu decidires. Aqui tens uma carta para o príncipe Vassili e dinheiro. Vai-me dando notícias, e conta comigo.» Havia já três meses que Pedro procurava decidir-se por uma carreira e não chegava a conclusão alguma. Era a tal escolha que o príncipe André aludia. Pedro passou a mão pela testa.

— Estou convencido de que o homem é mação — murmurou, pensando no abade que encontrara na recepção.

— Basta de frioleiras — voltou André, interrompendo-o.— Falemos de coisas sérias. Estás decidido pela Guarda montada?... — Não, mas vou dizer-lhe urna coisa que me veio a cabeça.

Estamos actualmente em guerra com Napoleão. Se se tratasse, de uma guerra de libertação, então, sim, compreendia, seria mesmo o primeiro a alistar-me. Mas ajudar a 1nglaterra e a Áustria contra o maior homem que há no mundo.., não está certo.

O príncipe André contentou-se, em encolher os ombros perante as infantis considerações de Pedro. O seu ar queria dizer que nada tinha a replicar a uma tal patetice; e, com efeito, seria difícil responder de outra maneira a uma tal ingenuidade.

— Se as pessoas fossem para a guerra só por convicção, não haveria guerra — disse ele.

— E era isso que convinha — respondeu Pedro.

O Príncipe André sorriu.

— É muito possível, mas aí está uma coisa que nunca acontecerá.

— E então por que diabo é que o André vai para a guerra? perguntou Pedro,

— Porquê? Não sei. É assim. Além disso, eu vou... — Calou-se.— Eu vou porque esta vida que levo aqui, esta vida não me— convém.

 

[VII]

Na sala contígua ouviu-se o ruge-ruge de um vestido. André teve um sobressalto, como se recuperasse os sentidos, e a sua máscara tomou a expressão com que se exibira nos salões de Ana Pavlovna. Pedro tirou os pés de cima do divã. A princesa entrou. Tinha outro vestido, um vestido íntimo, mas nem por isso menos fresco e elegante. O príncipe André levantou-se e ofereceu-lhe, cortesmente, uma cadeira,

— Uma coisa eu nunca deixo de perguntar a mim mesma — disse ela, como sempre, em francês, sentando-se com prontidão — porque é que a Annette se não teria casado? Que tolos vocês foram, senhores, não casando com ela! Desculpem, mas vocês não percebem nado de saias. Muito gosta de discutir. Senhor Pedro...

— Precisamente, não faço outra coisa senão discutir com o seu marido. Não compreendo porque é que ele quer ir para a guerra — disse Pedro, dirigindo-se à princesa sem o mais pequeno acanhamento, coisa, aliás, perfeitamente natural, tratando-se de um rapaz e de uma senhora jovem.

A princesa estremeceu. Evidentemente que as palavras de Pedro a tinham atingido no ponto sensível.

— É o que eu lhe estou sempre a dizer! — redarguiu ela. Não compreendo, decididamente não compreendo como é que os homens não podem passar sem a guerra! E que nós, mulheres, não possamos fazer nada, não tenhamos voz nesse capítulo! Ora, ouça, faça de conta que é um juiz. Passo a vida a dizer-lhe a mesma coisa. O André é ajudante-de-campo do tio, tem aqui uma brilhante situação. Toda a gente o conhece, toda a gente o aprecia. No outro dia, em casa dos Apraxine, ouvi uma senhora perguntar: «Este é que é o famoso príncipe André? Palavra!» — Ele pôs-se a rir. — É assim que o recebem em toda a parte. Tinha toda a facilidade em vir a ser ajudante-de-campo do imperador. Sabe que o imperador lhe dirigiu graciosamente a palavra? A Annette e eu estamos convencidas de que era tão fácil! Que acha?

Pedro olhou para o príncipe André, e, vendo que a conversa não agradava ao amigo, nada respondeu.

— Quando parte? — interrogou ele.

— Ah! Não me fale dessa partida, não me fale. Não quero ouvir falar nisso! — exclamou a princesa nesse mesmo tom de coquetterie satisfeita de si que ela mostrara quando, no salão de Ana Pavlovna, conversava com Hipólito, mas que naquele ambiente de intimidade familiar em que Pedro era recebido não caía nada bem. — Actualmente, quando me lembro de que temos de interromper todas as nossas queridas relações... E, além disso, não sei, sabes. André? — Teve para o marido um ligeiro piscar de olhos. — Tenho medo, tenho medo! — acrescentou muito baixo, estremecendo.

O marido olhou para ela com o ar surpreendido que teria se estivesse mais alguém presente que não fosse Pedro e ele próprio. André. Depois, com uma fria polidez, disse:

— Que receias. Lisa? Não compreendo...

— Ora aqui está o egoísmo dos homens! Não há um que se salve: são todos, todos egoístas, para satisfazerem os seus caprichos! Só Deus sabe porque é que ele me vai deixar enclausurada no campo.

— Com meu pai e minha irmã, não te esqueças — articulou, tranquilamente, o príncipe André.

— Nem por isso estarei menos só, sem as minhas amigas... E ainda ele quer que eu não tenha medo.

Tinha adoptado um tom de amuo e fazia um trejeito que lhe dava um ar já não alegre, mas quase animal, um ar de um pequenino esquilo. Calou-se, pensando não ser conveniente falar diante de Pedro do seu estado, no fundo a causa de tudo.

— Continuo a não compreender de que é que tens medo — disse, lentamente, o príncipe André, sem deixar de a fitar.

A princesa corou e fez um gesto impetuoso.

— Não. André, eu acho é que mudou tanto, tanto...

— O teu médico aconselhou-te a que te deitasses cedo — disse o príncipe André. — Era melhor que te retirasses.

A princesa nada disse, mas, de súbito, o seu lábio, sombreado por uma penugem ligeira, pôs-se a tremer; André levantou-se, encolhendo os ombros, e começou a andar de um lado para o outro.

Pedro, com um ar espantado e ingénuo, olhava por detrás das lunetas ora um ora outro, e agitava-se, como se ele também quisesse levantar-se, mas continuava indeciso.

— Quero lá saber que esteja aqui o Senhor Pedro — disse, abruptamente, a princesinha, e pelo seu delicado rosto perpassou, de súbito, um ricto como de quem vai chorar.— Há muito tempo que eu te queria dizer. André. Porque é que mudaste tanto para comigo? Que te fiz eu? Vais para a guerra e não tens pena de mim. Porquê?

— Lisa! — foi tudo quanto disse André.

Mas nesta palavra havia ao mesmo tempo uma súplica e uma ameaça, e sobretudo qualquer coisa em que se lia que ela havia de arrepender-se de ter proferido aquelas palavras. Precipitadamente, ela continuou:

— Tratas-me como uma doente ou como uma criança. Eu bem vejo. Achas que eras assim há seis meses?

— Lisa, peço-te que te cales — disse André numa voz cortante.

Pedro, cada vez mais perturbado com aquela troca de palavras, levantou-se e aproximou-se da princesa. Dir-se-ia não poder suportar a vista das lágrimas e ele próprio estava quase a chorar.

— Sossegue, princesa. É o que lhe parece; porque eu próprio tive a mesma impressão.., porque... é que... Ah!, desculpe-me, sinto que estou aqui a mais... Ah!, sossegue... Adeus...

O príncipe André segurou-o por um braço.

— Um momento. Pedro. A princesa é tão boa que não quererá privar-me do prazer de passar a noite contigo.

— Vê, vê, não pensas senão nele! — exclamou a princesa, sem poder reter as lágrimas, onde havia revolta.

— Lisa — disse o príncipe secamente, erguendo o tom da voz a uma altura tal que significava ter perdido por completo a paciência.

Subitamente, o arzinho de esquilo furioso que se pintara no rosto da princesa converteu-se num medo impressionante, digno de piedade. Lançou, furtivamente, com os seus belos olhos um rápido olhar ao marido e teve essa expressão tímida e submissa de um cão batido que foge com a cauda entre as pernas.

— Meu Deus, meu Deus! — murmurou, pegando na cauda do vestido, e, aproximando-se do marido, beijou-o na testa.

— Boa noite. Lisa — disse o príncipe André erguendo-se e beijando-lhe a mão com cortesia, como se fosse uma estranha.

 

[VIII]

Os dois amigos ficaram silenciosos. Nem um nem outro ousavam falar. Pedro tinha os olhos pousados no príncipe André, que passava a fina mão pela testa.

— Vamos cear — disse ele, suspirando. Levantou-se e dirigiu-se para a porta.

Entraram na sala de jantar, elegantíssima, recém-arranjada e ricamente posta. Tudo, desde os guardanapos às pratas, à baixela e aos cristais, tinha esse aspecto novo característico das casas dos recém-casados. No meio do repasto o príncipe André apertou a cabeça entre as mãos, e, como alguém muito preocupado que finalmente resolve abrir-se, principiou a dizer, com um nervosismo que Pedro lhe não conhecia.

— Não, te cases nunca, nunca, meu amigo; é o conselho que te dou. Não te cases antes de estares convencido de que fizeste tudo de que eras capaz, antes de teres deixado de amar a mulher que escolheste, antes de a teres visto bem; sem isso, enganar-te-ás cruelmente e sem remissão. Casa-te quando fores velho e já não prestares para coisa alguma... Se o não fizeres, perder-se-á tudo quanto houver em ti de bom e de grande. Tudo irá por água abaixo. Sim, sim, sim! Não me olhes com essa cara de espanto. Se estás convencido de que serás capaz de fazer alguma coisa no futuro, verificarás que tudo acabou para ti, que tudo te está vedado, salvo o salão onde virás a encontrar-te ao nível de qualquer lacaio ou de qualquer imbecil... E aqui tens!

Teve um gesto enérgico.

Pedro tirou as lunetas, ficando com outra cara, ainda mais bondosa, e fitou o amigo com espanto.

— A minha mulher — continuou o príncipe André— é uma excelente senhora. É uma dessas raras pessoas que não fazem perigar a nossa honra. Mas. Deus meu, o que daria eu para me não ter casado! És tu a primeira e a única pessoa a quem o digo, porque sou teu amigo.

Enquanto falava, o príncipe André cada vez se parecia menos com esse Bolkonski enterrado numa cadeira em casa de Ana Pavlovna deixando passar por entre dentes, de olhos piscos, frases francesas. Todos os músculos da sua seca máscara estavam agitados por movimentos nervosos; os seus olhos, em que o fogo da vida, até então, parecia extinto, brilhavam agora com um fulgor luminoso e claro. Dir-se-ia que quanto menos vida nele havia habitualmente mais enérgico parecia nestes instantes de uma excitação quase anormal.

— Tu não compreendes porque eu falo assim. No entanto estás diante da história de toda uma existência. Tu dizes Bonaparte e a sua carreira — continuou ele, embora Pedro nada tivesse dito acerca de Bonaparte. — Dizes: Bonaparte. Mas Bonaparte, quando trabalhava, quando caminhava, passo a passo, para o seu fim era livre, não tinha mais nada em vista senão esse objectivo, e atingiu-o. Porém, se tu te ligares a uma mulher, como um forçado com uma braga aos pés, perderás toda a liberdade. E tudo quanto em ti possa haver de esperança e de energia tornar-se-á um peso morto, que te oprimirá de desgosto. Os salões, a má-língua, os bailes, a vaidade, as futilidades, eis daí por diante o círculo vicioso de que é impossível uma pessoa evadir-se. Vou partir para a guerra, para a maior das guerras, e não sei nada, e não presto para nada. Sou muito amável e muito cáustico e as pessoas ouvem-me quando eu falo em casa de Ana Pavlovna. E aí tens essa estúpida sociedade mundana sem a qual não podem passar nem a minha mulher nem essas mulheres... Se tu ao menos pudesses fazer uma ideia do que são todas as mulheres distintas e todas as mulheres em geral. Meu pai tem razão. O egoísmo, a vaidade, a tolice, a nulidade em tudo, aí tens a mulher quando se mostra tal qual é. Quando a gente a vê na sociedade, julga que vale alguma coisa, e não vale nada, nada, nada! É o que te digo: não te cases, meu caro, não te cases — concluiu.

— Que vontade de rir que isto me dá — disse Pedro. — Pois é o André, o André, precisamente, que se considera a si próprio um incapaz, que considera falhada a sua vida? O André que tem o futuro diante de si, todo um futuro? O André...

«De que não será capaz?», pensou, mas o tom da sua voz denunciava claramente a alta estima em que ele tinha o amigo e o que esperava dele para mais tarde.

«Como pode ele falar assim!», dizia Pedro de si para consigo.

E efectivamente Pedro via no príncipe André como que um modelo de todas as perfeições, precisamente porque ele era dotado no mais alto grau das qualidades que ele próprio não tinha, essas qualidades que mais do que quaisquer outras exigem força de vontade. Sempre lhe causara admiração a serenidade que o príncipe André sabia manter nas relações com as pessoas mais diversas e a sua memória extraordinária, as suas vastas leituras — tinha lido tudo, sabia tudo, compreendia tudo — e sobretudo a sua capacidade de trabalho e de assimilação. E, se é verdade que frequentes vezes o impressionava, a ele. Pedro, a pouca tendência que o príncipe André manifestava pela reflexão e pela filosofia, coisas para que Pedro sentia mais inclinação, estava longe de pensar que isso constituísse um defeito; pensava até que representava uma força.

Nas melhores relações, nas mais amistosas e mais simples relações, a adulação ou os louvores são coisas indispensáveis, tal qual como o azeite é indispensável nas rodas dos carros.

— Sou um homem liquidado — murmurou o príncipe André. Para que havemos nós de perder tempo a falar de mim? Falemos antes de ti — acrescentou depois de um curto silêncio e sor— rindo, como se regressasse, finalmente, a um assunto mais consolador.

Nessa altura um sorriso apareceu nos lábios de Pedro.

— E para que havemos nós de falar de mim? — disse abandonando-se a uma despreocupada alegria.— Que sou eu, no fim de contas? Sou um bastardo! — E, subitamente, corou até às orelhas. Via-se bem que fizera um grande esforço para pronunciar estas palavras.— Sem nome, sem fortuna... E, de resto, para falar francamente... — Quereria ter dito tanto melhor, mas não concluiu a frase. — Enquanto espero, sou livre, estou satisfeito com a minha sorte. Mas o certo é que não sei o que hei-de fazer. Seriamente, queria pedir-lhe que me aconselhasse.

O príncipe André olhou-o com bondade, mas, apesar disso, no seu olhar amável e amistoso sentia-se-lhe a superioridade.

— Gosto de ti, sobretudo porque és tu, entre toda a gente das nossas relações, o único ser vivo. Dizes que estás satisfeito. Escolhe o que quiseres, é indiferente. Em toda a parte serás feliz. Só te peço uma coisa: deixa de conviver com esses Kuraguine, deixa a vida que levas. Isso não te convém: toda essa devassidão, esse convívio com hússares, tudo que...

— Que quer, meu caro? — disse Pedro encolhendo os ombros. — As mulheres, meu caro, as mulheres!

— Não compreendo — retorquiu André. — As verdadeiras senhoras, sim, essas são outra coisa, mas as mulheres de Kuraguine, as mulheres e o vinho, confesso-te que não compreendo!

Pedro vivia em casa do príncipe Vassili Kuraguine e acompanhava nas suas orgias o filho deste. Anatole, esse mesmo Anatole que queriam casar, para o corrigir, com a irmã do príncipe André.

— Quer saber? — disse Pedro, como se acabasse de ter uma feliz ideia. — Seriamente, há muito tempo que penso nisto. Com a vida que levo, nem posso decidir-me por coisa alguma, nem reflectir seja sobre o que for. Só dores de cabeça e o nosso dinheiro perdido. O Anatole convidou-me para esta noite, mas não vou.

— Dás-me a tua palavra de honra?

— Palavra de honra!

[IX]

Eram quase duas horas da madrugada quando Pedro saiu de casa do amigo. Era uma noite de Junho, uma noite típica de Petersburgo, sem obscuridade. Meteu-se numa carruagem de aluguer, decidido a voltar para casa. Mas à medida que se aproximava, ia sentindo que lhe não era possível dormir numa noite daquelas, que mais parecia um crepúsculo ou uma aurora. A vista perdia-se ao longe pelas ruas desertas. No caminho. Pedro lembrou-se de que em casa de Anatole Kuraguine deviam estar reunidos os convivas habituais, os jogadores, que depois do jogo se entregavam, normalmente, ao prazer da bebida, um dos seus divertimentos favoritos.

«Se eu fosse a casa de Kuraguine?», disse ele para consigo mesmo.

De súbito, porém, lembrou-se de que tinha dado a palavra de honra a André. Mas, de repente também, coisa natural nas pessoas que é de uso considerar-se sem carácter, sentiu um tão intenso desejo de voltar uma vez ainda a gozar aquela louca vida, que ele tão bem conhecia, que se decidiu. E então veio-lhe à mente que o compromisso tomado não valia nada, visto que antes de o ter assumido para com o príncipe André tinha prometido ao Anatole que iria a casa dele; e depois, em conclusão, dizia de si para consigo: «Todas estas palavras de honra são coisas convencionais, sem qualquer fundamento sério, sobretudo quando uma pessoa pensa que amanhã pode estar morta ou em circunstâncias tais que as palavras de honra e desonra não tenham o mais pequeno significado.» Pedro costumava fazer muitas vezes raciocínios deste gosto, que tornavam nulos todos os seus projectos e todas as suas resoluções. E dirigiu-se para casa de Kuraguine.

Quando chegou à escadaria da vasta mole formada pelas casernas da Guarda montada, onde Anatole vivia, subiu os degraus iluminados e deparou-se-lhe a porta aberta. Não havia ninguém no vestíbulo; por um lado e pelo outro só se viam garrafas vazias, sobretudos, galochas; cheirava a vinho. Ouviam-se ruídos de vozes e gritos distantes.

O jogo e a ceia tinham acabado, mas os convivas ainda se não haviam dispersado. Pedro despiu o sobretudo e entrou na primeira dependência, em que se viam ainda os restos do festim e onde um lacaio, julgando-se só, bebia, às escondidas, os restos de vinho dos copos. Da sala contígua saía um alarido: risos, gritos de pessoas conhecidas e grunhidos de ursos. Oito rapazes comprimiam-se, muito excitados, junto da janela aberta. Três outros entretinham-se com um ursinho novo, que um deles puxava por uma corrente para atemorizar os companheiros.

— Eu aposto por Stevens cem rublos! — gritou uma voz.

— Que ideia essa de apostar por ele! — exclamou um terceiro.— Kuraguine, sê tu o árbitro.

— Está bem, então deixem o Michka (Nome familiar do urso na Rússia. (N, dos T.); vamos lá fazer a aposta.

— De um só trago, ou então perde! — gritou uma quarta voz.

— Iakov, traz uma garrafa. Iakov! — clamou o dono da casa, um rapagão magnífico, que estava no meio de todos os outros, envergando apenas uma ligeira blusa toda aberta no peito — Um momento, meus amigos! Eh! Até que enfim. Petrucha, meu caro! — exclamou dirigindo-se a Pedro.

Uma outra voz, a de um homem de pequena estatura, de olhos azuis-claros, que contrastava pelos seus modos cordatos no meio de todas aquelas vozes avinhadas, gritou da janela:

— Vamos, serve de árbitro na aposta! — Era Dolokov, um oficial do regimento Seminovski, famoso jogador e não menos famoso espadachim, que compartilhava dos aposentos de Anatole.

Pedro sorria, lançando um olhar alegre a toda a companhia.

— Não há maneira de ninguém se entender. De que se trata?

— Esperem, ele não está bêbado. Venha de lá uma garrafa — disse Anatole, e, pegando num copo de cima da mesa, deu dois passos para Pedro.

— Antes de mais nada, bebe,

Pedro pôs-se a beber copo sobre copo, olhando de soslaio para toda aquela gente embriagada que se tinha juntado ao pé da janela e escutava o que se dizia. Anatole deitava-lhe vinho no copo e contava que Dolokov apostara com o inglês Stevens, oficial de marinha ali presente, que ele. Dolokov, seria capaz de beber uma garrafa de rum sentado na janela do segundo andar com as pernas dependuradas para a parte de fora.

— Então, despeja-me lá essa garrafa! — exclamou Anatole, apresentando a Pedro o último copo.— Enquanto o não beberes, não te largo.

— Não, já basta — tornou Pedro recusando, ao mesmo tempo que se aproximava da janela.

Dolokov segurava o inglês por uma mão e explicava claramente, com precisão, as condições da aposta, dirigindo-se de preferência a Anatole e a Pedro.

Dolokov era de estatura meã, frisado, com olhos azuis-claros. Tinha aproximadamente vinte e cinco anos. Não usava bigode, como os outros oficiais de infantaria daquela época, e tinha a boca, o traço mais característico da sua figura, completamente descoberta. Era uma boca com um desenho extraordinariamente fino. O lábio superior descia sobre o forte lábio inferior formando dois ângulos agudos, em cujos cantos se via sempre esboçado uma espécie de duplo sorriso, um sorriso de cada lado. No seu conjunto, sobretudo com os seus olhos decididos, impudentes e inteligentes, dava uma impressão que obrigava as pessoas a fitá-lo. Dolokov não era rico nem tinha qualquer parente. E, conquanto Anatole gastasse dezenas de milhares de rublos. Dolokov compartilhava das suas instalações e sabia arranjar as coisas de tal maneira que o próprio Anatole e todos os seus conhecidos o estimavam mais que ao próprio dono da casa. Sabia todos os jogos e ganhava quase sempre. Por mais que bebesse, tinha sempre a cabeça no seu lugar. Kuraguine e Dolokov eram naquela época, tanto um como o outro, verdadeiras celebridades no mundo das cabeças loucas e dos boémios de Petersburgo.

Trouxeram a garrafa de rum. Dois lacaios, azafamados e visivelmente estupefactos, desnorteados no meio dos gritos e das ordens que lhes davam, procuravam demolir o caixilho que impedia que uma pessoa se sentasse sobre o parapeito exterior da janela.

Anatole aproximou-se com ares vitoriosos. Tinha necessidade de quebrar fosse o que fosse. Afastou os lacaios e pôs-se a puxar pelo caixilho, o qual não cedeu. Quebrou um vidro.

— Experimenta tu, valentão — exclamou dirigindo-se a Pedro. Pedro agarrou-se à couceira, puxou e arrancou com fragor o enquadramento de castanho.

— Tudo fora, senão depois são capazes de dizer que eu me agarrei a alguma coisa — intimou Dolokov.

— O inglês perdeu a cabeça... Eh! Não é verdade? — inquiriu Anatole.

— Com certeza — disse Pedro olhando para Dolokov, que, com a garrafa na mão, se aproximava da janela, através da qual se via o céu claro e a aurora, que se confundia com o crepúsculo.

Dolokov, sempre com a garrafa na mão, saltou para cima da janela.

— Ouçam! — gritou de pé sobre o parapeito, voltado para a assistência. Todos se calaram.

— Aposto — falava em francês para que o inglês o compreendesse, embora este não fosse um portento nessa língua —, aposto cinquenta imperiais; quer apostar cem? — acrescentou, para o inglês.

— Não, cinquenta — retorquiu este.

— Bom, aposto cinquenta imperiais em como sou capaz de beber a garrafa de rum até à última gota, de um só trago, sentado na janela, neste sítio — debruçou-se e apontou para o parapeito inclinado no sentido da rua— e sem me segurar a coisa alguma... Está, apostado?

— Perfeitamente — volveu o inglês.

Anatole voltou-se para este, e, segurando-o por um botão da farda, olhou-o de cima, pois o outro era de pequena estatura, e pôs-se a repetir-lhe em inglês as condições da aposta.

— Atenção! — gritou Dolokov, batendo com a garrafa na janela, para que o ouvissem— Um momento. Kuraguine. Ouçam. Se houver alguém capaz de fazer o mesmo, dou-lhe cem imperiais. Estão a compreender?

O inglês disse «sim» com a cabeça, sem com isso querer dizer que tinha intenção de aceitar a nova aposta. Anatole não o largava, e, embora ele tivesse dado a entender que compreendera, traduzia-lhe para inglês as palavras de Dolokov. Um rapazola escanzinado, um hússar da Guarda, que toda a noite estivera a perder ao jogo, trepou à janela, debruçou-se e olhou lá para baixo.

— Ui! Ui! Ui! exclamou, apontando as pedras da calçada.

— Fora daí! — gritou Dolokov, obrigando a descer da janela o oficial, que, embaraçado nas esporas, tropeçou.

Depois de ter colocado a garrafa no parapeito da janela, para assim a ter à mão. Dolokov, com prudência e serenidade içou-se para o rebordo do janelão. Depois de ter passado as pernas por cima, do alizar e de haver avançado, com o auxílio das mãos, até ao extremo do parapeito, escolheu o lugar, sentou-se, deixou pender as pernas, deslocou-se para a direita e para a esquerda e pegou na garrafa. Anatole trouxe duas velas e pousou-as sobre o parapeito, embora já fizesse dia claro. O dorso de Dolokov, de camisa branca, a cabeça anelada, recebia luz dos dois lados. Toda a gente se tinha juntado em volta da janela. O inglês estava na primeira fila. Pedro sorria sem dizer nada. Um dos presentes, mais velho do que os outros, furioso e apavorado, arremeteu, de súbito, para a janela e quis agarrar Dolokov pela camisa.

— Meus senhores, isto é uma loucura; o rapaz vai matar-se! — exclamou esta criatura, mais razoável que as restantes. Anatole deteve-o.

— Não lhe toques; se o assustas, ele mata-se. Hem!... E nesse caso?... Hem!

Dolokov voltou-se, compôs-se e colocou-se em posição com o auxílio das mãos.

— Se mais alguém mete o bedelho na minha vida — disse, deixando cair as palavras dos lábios finos e cerrados —, obrigo-o a descer imediatamente por aqui. Está combinado?...

Ao dizer «Está combinado?», voltou-se ainda, soltou as mãos, pegou na garrafa e levou-a à boca, atirando a cabeça para trás e erguendo no ar a mão livre para estabelecer o equilíbrio. Um lacaio que se tinha posto a apanhar os pedaços de vidro da janela deteve-se, sempre debruçado para o chão, sem perder de vista a janela e as costas de Dolokov. Anatole conservava-se direito, de olhos arregalados. O inglês, mordendo os lábios, desviava os olhos. Aquele que tentara intervir tinha-se afastado para um canto e estiraçara-se num divã com a cara para a parede. Pedro tapou a cara e um ligeiro sorriso parecia errar-lhe na máscara, onde se estampavam agora susto e terror. Todos se calavam. Pedro tirou a mão dos olhos. Dolokov mantinha-se na mesma posição, mas com a cabeça de tal modo caída para trás que os cabelos anelados, pela retaguarda, afloravam-lhe o colarinho, e a mão com que segurava a garrafa cada vez se erguia mais, animada por um certo tremor, e como se fizesse esforço. A garrafa, que se esvaziava a olhos vistos, elevava-se ao mesmo tempo no ar, obrigando a cabeça a descair para trás. «Que tempo que isto leva!», murmurou Pedro consigo mesmo. Afigurava-se-lhe haver decorrido mais de meia hora. Subitamente Dolokov teve um movimento de espinha para a retaguarda e a mão foi-lhe sacudida por um tremor nervoso, quanto bastou para fazer avançar o corpo sentado no parapeito resvaladiço. Todo ele se deslocou, e as mãos e a cabeça, com o esforço, estremeceram-lhe ainda mais. Uma das mãos ergueu-se para se agarrar ao alizar da janela, mas logo descaiu. Pedro voltou a fechar os olhos e prometeu não tornar a abri-los. Subitamente percebeu que tinha havido um movimento na assistência. Abriu os olhos: Dolokov estava de pé sobre o parapeito, o rosto pálido e alegre.

— Vazia!

Atirou com a garrafa ao inglês, que a agarrou no ar. Deu um pulo da janela. Todo ele cheirava a rum.

— Muito bem! Que valentão! Bela aposta, cos diabos! — dizia-se por todos os lados.

O inglês tinha puxado da bolsa e contava o dinheiro. Dolokov franzia as sobrancelhas sem dizer palavra. Pedro precipitou-se para a janela.

— Meus senhores. Quem é que quer apostar comigo? Estou pronto a fazer o mesmo! — gritou ele, de chofre.— De resto, dispenso as apostas. Venha de lá uma garrafa. Exactamente!... Uma garrafa.

— Isso mesmo! Isso mesmo! — exclamou Dolokov, rindo.

— Que mosca é que te mordeu? Estás maluco? Quem é que vai consentir nisso? Até a subir uma escada tens vertigens — dizia-se por aqui e por ali.

— Vão ver como eu a bebo. Deixem-me ver uma garrafa! gritava Pedro, batendo no tampo duma mesa, com uma teimosia de bêbado. E trepou para cima da janela.

Agarraram-no por um braço; mas ele era tão forte que sacudia de si os que tentavam aproximar-se dele.

— É inútil, não desiste — disse Anatole.— Esperem aí, que eu ensino-o. Ouve lá, eu aposto contigo, mas fica para amanhã. Agora vamos todos para casa da...

— Está bem — exclamou Pedro. — Vamos embora!... Mas o Michka também vai connosco. — Apoderou— se do urso, e agarrando nele com ambas as mãos para o obrigar a levantar-se, pôs-se a rodopiar com o bicho pelo meio da sala.

 

[X]

O príncipe Vassili cumpriu a promessa que tinha feito à princesa Drubetskaia na reunião em casa de Ana Pavlovna relativamente a seu único filho. Bóris. Falaram nele ao imperador, e a título excepcional foi promovido a alferes do regimento Seminovski. Mas não foi nomeado ajudante-de-campo, nem adido ao quartel-general de Kutuzov, apesar dos pedidos e das intrigas de Ana Mikailovna. Pouco tempo depois da reunião em casa da dama de honor. Ana Mikailovna voltou para Moscovo e foi instalar-se em casa dos Rostov, seus ricos parentes, onde sempre se hospedava. Era ali que tinha sido educado desde criança e onde ainda vivia o seu Bóris adorado, só agora admitido no exército e que acabava de ser promovido a alferes da Guarda. O regimento tinha saído de Petersburgo a 10 de Agosto, e o rapaz, que ficara em Moscovo por causa do equipamento, devia ir ao encontro dele em Radzivilov.

Em casa dos Rostov celebrava-se o aniversário das duas Natalias, a mãe e a filha mais nova. Desde manhã que era um chegar e partir de carruagens sem fim com visitas para o palácio da condessa Rostov, na Povarskaia, palácio que toda a gente conhecia em Moscovo.

A condessa, acompanhada pela filha mais velha, uma linda mulher, estava no salão, rodeada das suas visitas, que não cessavam de chegar.

Era a condessa Rostov urna senhora de rosto magro, tipo oriental, dos seus quarenta e cinco anos, visivelmente esgotada por doze partos sucessivos. A lentidão do seu passo e a morosidade da sua fala, consequências do quebranto das suas forças, davam-lhe um ar de dignidade que inspirava respeito. A princesa Ana Mikailovna Drubetskaia também se encontrava presente, íntima da casa que era, ajudando-a a receber as visitas e a manter a conversação. A gente nova estava nas dependências das traseiras, desinteressada das visitas. O conde lá se encarregava, de as acolher e de as conduzir, convidando toda a gente para jantar.

— Estou-lhe muito reconhecido, muito, meu caro ou minha cara — dizia a toda a, gente, sem excepção, minha cara ou meu caro, sem pôr nisso qualquer distinção, quer as pessoas fossem de uma classe inferior ou superior —, estou-lhe muito reconhecido em meu nome e em nome das festejadas. Não deixe de vir jantar connosco: ficaria melindrado, meu caro. Peço-lhe, cordialmente, em nome da família, minha cara.

Estas mesmas palavras, com uma expressão sempre igual no rosto cheio e sorridente, bem escanhoado, e um aperto de mão enérgico, sempre o mesmo, e breves e frequentes flexões, repetia-as ele a todos, sem excepção e sem alterar uma vírgula. Depois de acompanhar aquele que partia, ei-lo que voltava para junto daquele ou daquela que ficava no salão. Puxava de uma cadeira, e com os modos de um homem à vontade em sociedade, estendia as pernas desprendidamente, e, de mãos assentes nos joelhos, meneava a cabeça com um ar entendido, fazendo conjecturas sobre o estado do tempo, dando conselhos higiénicos, ora em russo, ora em francês, num francês bastante mau, mas pronunciado com segurança, e depois, como uma pessoa que se sente fatigada mas quer cumprir a sua obrigação até ao fim, acompanhava as pessoas, assentando as farripas brancas sobre a calva e tornando a repetir o eterno convite. Uma que outra vez, no regresso do vestíbulo, atravessava o jardim de Inverno e a sala de espera, dirigindo-se a uma grande dependência pavimentada de mármore, onde se preparava uma mesa de oitenta talheres: lançava urna olhadela aos criados, afadigados a acarretar pratas e porcelanas, a arranjar a mesa e a estender as toalhas adamascadas, e mandava chamar Dimitri Vassilievich, um jovem fidalgo, uma espécie de seu factótum, a quem dizia: — Atenção. Mitenka, é preciso que tudo esteja em ordem. óptimo! óptimo! — Depois acrescentava, inspeccionando, satisfeito, a imensa mesa elástica. — O mais importante é uma mesa bem posta. Bom, bom... — E voltava, contente, ao salão.

— Maria Lvovna Karaguine e sua filha! — anunciou em voz de baixo o imenso escudeiro às ordens da condessa penetrando no salão. A condessa, pensativa, tomou uma pitada de rapé da sua caixa dourada com o retrato do marido,

— Ah! Que maçada estas visitas! — exclamou ela. — É a última que eu recebo. Que pessoa tão amaneirada! Manda entrar — ordenou para o lacaio numa voz áspera que queria dizer: «Bom, acabemos com isto!»

Uma senhora, alta, de grande corpulência, ar altivo, acompanhada de sua filha, uma menina de nédias bochechas, toda sorridente, entrou na sala no meio de um ruge-ruge de vestidos.

— Querida condessa, há tanto tempo.., tem estado de cama, pobre criança.., no baile dos Rasumovski.., e a condessa Apraksine.., fiquei tão contente!... — exclamavam vozes femininas muito animadas, interrompendo-se umas às outras mutuamente e confundindo-se com o sussurrar dos tecidos e o arrastar das cadeiras. Entabulou-se uma conversa tão pouco importante que permitia, assim que havia uma pausa, que as pessoas se levantassem e dissessem, rio meio do burburinho da partida: «Estou encantada; a saúde da mãe.., e a condessa Apraksine», e, em seguida, no meio de um novo ruge-ruge, passassem para o vestíbulo, pusessem os seus agasalhos e partissem. A conversa travou-se sobre a grande novidade do dia, a doença do velho e riquíssimo conde Bezukov, um dos mais belos homens do tempo de Catarina, e o comportamento do filho ilegítimo do mesmo. Pedro, que se tinha portado pessimamente ria recepção em casa de Ana Pavlovna.

— Muito lamento o pobre conde — disse a visita que acabava de chegar —; esta tão mal e, ainda por cima, com o desgosto daquele filho, acaba por morrer!

— Que aconteceu? — inquiriu a condessa, fingindo ignorar o assunto a que aludia a interlocutora, embora já tivesse ouvido contar a história pelo menos umas quinze vezes,

— São aquilo as educações modernas! Aquele tempo no estrangeiro fez com que o rapaz se tornasse insubmisso, e agora, em Petersburgo, segundo dizem, tais horrores fez que tiveram de recorrer à policia.

— Que me diz! — murmurou a condessa.

— São as más companhias — interveio a princesa Ana Mikailovna. — O filho do príncipe. Vassili, ele e um tal Dolokov fizeram trinta por urna linha. Dois deles sofreram-lhe as consequências: Dolokov foi obrigado a descer de posto e o filho do conde Bezukov, esse, mandaram-no para Moscovo. Quanto a Anatole Kuraguine, valeu-lhe o pai, que conseguiu abafar o escândalo. Mas também foi afastado de Petersburgo.

— Que fizeram eles, afinal? — perguntou a condessa.

— São uns autênticos bandidos. Principalmente esse Dolokov — disse a visita. — É o filho de Maria Ivanovna Dolokov, uma senhora da maior respeitabilidade. Pois não sabem? Imaginem que arranjaram um urso e levaram-no com eles de carruagem para casa de urnas actrizes. A polícia foi atrás deles, e eles não estiveram com meias medidas: apanham um guarda, amarram-no, costas com costas, com o urso, e atiram com os dois para o Moika (Canal do rio Neva que divide o centro da cidade do bairro de Kazari. (N, dos T.). O urso pôs-se a nadar com o polícia às costas.

— Só queria ver a cara do polícia, minha amiga! — exclamou o conde, rindo a bom rir.

— Parece impossível! Que horror! Como é que o conde pode achar graça a uma coisa destas?

Mas as próprias senhoras não podiam suster o riso.

— Foi difícil salvá-lo, àquele desgraçado — continuou a visita. — E dizer que, é o filho do conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov quem e dedica a divertimentos tão intelectuais! E há quem o ache bem educado e espiritual. Ora aqui têm o resultado dessas educações no estrangeiro! Tenho a certeza de que ninguém aqui o vai receber, apesar de toda a sua fortuna. Quiseram-mo apresentar. Mas eu disse redondamente que não: tenho filhas.

— Porque diz que, esse homem é assim tão rico? — perguntou a condessa, debruçando-se para ela, de maneira a que as raparigas a não ouvissem, e estas logo fingiram nada entender. — Dizem que só tem filhos naturais. Com certeza.., o Pedro também é filho natural.

A visita teve um gesto evasivo.

— Dizem que tem um caterva de ilegítimos.

A princesa Ana Mikailovna interveio, desejosa, é claro, de mostrar que tinha relações e que conhecia em pormenor todas as intrigas mundanas.

— A verdade é esta — disse ela, com um ar entendido e quase em voz baixa. — A reputação do conde Cirilo Vladimirovitch toda a gente a conhece... Nem sequer sabe o nome dos filhos que tem, mas este Pedro era o seu preferido.

— Que belo homem esse velho — murmurou a condessa — ainda o ano passado! Nunca vi um homem mais belo!

— Agora está muito mudado — observou Ana Mikailovna.-

O que eu queria dizer é que o príncipe Vassili, parente dele pelo lado materno, é que devia ser o seu herdeiro directo, mas ele gosta muito do Pedro; mandou-o educar e até escreveu a recomendá-lo ao imperador... Por isso ninguém sabe para quem irá a sua imensa fortuna, se para o Pedro se para o príncipe Vassili. Quarenta mil almas e milhões, milhões! Sei isto de fonte limpa, pois foi o próprio príncipe Vassili quem mo contou. De resto. Cirilo Vladimirovitch também é meu primo afastado pelo lado materno. E é padrinho do Bóris — insinuou ela, como se não ligasse a mais pequena importância ao facto.

— O príncipe Vassili está desde ontem em Moscovo. Dizem que anda em inspecção — murmurou a visita.

— Sim, mas, aqui entre nós — disse a condessa —, isso é um pretexto. O que ele veio fazer foi visitar o conde Cirilo Vladimirovitch logo que o soube muito mal.

— Seja como for, minha amiga, é uma rica história — disse, de chofre, o conde, e, ao verificar que a interlocutora o não ouvia, voltou-se para as raparigas— Estou a ver a cara do polícia!

E, mimando os gestos desesperados do pobre diabo, pôs-se de novo a rir, com grandes gargalhadas sonoras e profundas, que lhe faziam estremecer todo o rechonchudo corpo, um corpo de quem come bem e bebe melhor.

— Então, está combinado, janta connosco — disse ele.

 

[XI]

Houve um momento de silêncio. A condessa olhava para a sua visita com um sorriso amável, sem esconder, aliás, que lhe não seria desagradável vê-la erguer-se para se ir embora. A filha já se preparava para se despedir, depois de lançar um olhar interrogativo à mãe, quando, de súbito, se ouviram na sala contígua passos precipitados de homens e senhoras, ao mesmo tempo que urna cadeira era arrastada e caía, impelida por alguém que passava. Então entrou na sala uma menina dos seus treze anos, que trazia fosse o que fosse na saia de musselina, e que parava no meio do salão. Era evidente que fora por engano e sem premeditação que viera até ali. Simultaneamente, à porta, apareceram um estudante, de gola cor de framboesa, um oficial da Guarda, uma rapariguinha dos seus quinze anos e um rapazinho, gordo e rubicundo, com um casaquito curto,

O conde precipitou-se para a pequenita e impediu-lhe a entrada abrindo os braços.

— Ah!, aí vem ela! — gritou ele, rindo — A heroína da festa. Minha querida fadazinha!

— Minha querida, há horas para tudo — disse a condessa, fingindo-se severa— Estragas a pequena Elie — acrescentou dirigindo-se ao marido,

— Bom dia, minha querida, felicito-a — disse a senhora Karaguine. — Que criança encantadora! — prosseguiu ela para a mãe.

Era uma rapariguinha de olhos negros, a boca muito grande, não bonita, mas cheia de vida, com os ombros infantis descobertos, palpitando no corpete, graças à rapidez com que caminhara, os caracóis negros repuxados para trás, os braços pequeninos nus, as perninhas a sair de uma calças de rendas, e nos pés sapatos abertos. Estava naquela idade graciosa em que uma rapariga já não é criança e em que a criança ainda não é rapariga. Depois de ter conseguido escapar-se dos braços do pai, correu para a mãe e, sem prestar a mais pequena atenção às suas severas reprimendas, escondeu a cara buliçosa nas rendas da mantilha materna e pôs-se a rir. Enquanto ria ia falando, com palavras sincopadas, para a boneca que levava metida na saia.

Continuar: parte 3 de 6