Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 1 de 18 · parte 5/6

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Guerra e Paz

Primeira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

— Bom, vejamos, sossega. Eu conheço o teu excelente coração.

— Não, eu tenho mau coração.

— Eu conheço o teu coração — repetiu ele —, aprecio a tua amizade e gostaria que tu tivesses a mesma opinião a meu respeito. Sossega, e sejamos razoáveis enquanto é tempo: talvez vinte e quatro horas, uma hora talvez. Conta-me tudo quanto sabes do testamento e principalmente diz-me se sabes onde ele está: tu deves saber. Pegaremos nele imediatamente e leva-lo-emos ao conde. Ele com certeza se esqueceu dele, e quererá destruí-lo. Tu sabes que o meu único desejo é cumprir religiosamente a sua vontade; não é para outra coisa que estou aqui. Eu não estou aqui senão para vos auxiliar, a vós e a ele.

— Agora já sei tudo. Já sei donde partem as intrigas. Veio-o claramente — disse a princesa.

— Não é disso que se trata, minha querida.

— A alma de tudo isto é a sua protegida, a sua querida princesa Drubetskaia. Ana Mikailovna, que eu nem para criada de quarto quereria, essa horrível, essa ignóbil mulher.

— Não percamos tempo.

— Oh, não me diga nada! No Inverno passado introduziu-se aqui em casa e contou tantas coisas horríveis ao conde, tantas vilanias a nosso respeito, e principalmente sobre a Sofia — não as posso repetir —, que ele ficou doente e durante quinze dias não nos quis ver. Foi nessa altura, tenho a certeza, que o tio redigiu esse sujo, esse infame papel. Mas eu supunha que não tinha importância.

— Ora aí está. Porque é que me não falaste logo nisso? — Está na pasta de couro que tem debaixo da almofada. Agora compreendo — disse ela, sem responder à pergunta do príncipe. — E se eu tenho qualquer pecado na consciência, um grande pecado, é o ódio que essa miserável me inspira — gritou, e tomou-se quase irreconhecível, — Que apareça outra vez por aí! Ajustarei contas com ela. É uma questão de tempo.

 

[XXII]

Enquanto decorriam todas estas conversas na sala de visitas e nos aposentos da princesa, uma carruagem com Pedro, enviada para o trazer, e Ana Mikailovna, que entendera por bem acompanhá-lo, penetrava rio pátio da residência do conde Bezukov. No momento em que o carro deslizava maciamente por cima da palha estendida debaixo das janelas. Ana Mikailovna, que procurava consolar o companheiro, verificou que ele adormecer,—, encolhido no seu canto e acordou-o. Pedro, tendo voltado a si, apeou-se atrás de Ana Mikailovna, e só então se lembrou da entrevista que ia ter com o pai moribundo. Tinha notado que a, carruagem parara não junto da escadaria nobre, mas em frente da escada das traseiras. No momento em que punha os pés no chão, dois homens com aspecto de comerciantes acolheram-se apressadamente à sombra da parede.

Enquanto se deteve. Pedro pôde ver na sombra, de cada lado da entrada, outros homens do mesmo género. Mas nem Ana Mikailovna, o trintanário, ou o cocheiro, que não podiam ter deixado de dar por eles, lhes prestaram a mais pequena atenção, «Naturalmente, tem de ser assim», decidiu de si para consigo, e lá foi na peugada da sua condutora. Ana Mikailovna, em passinhos rápidos, subia a estreita escada de pedra, fracamente iluminada, chamando Pedro, que ficava para trás: embora este não compreendesse porque lhe era absolutamente indispensável apresentar-se junto do conde, e muito menos ainda porque tinha de subir pela escada de serviço, a segurança e a pressa de Ana Mikailovna persuadiram-no da urgência do que ia fazer.

A certa altura ia sendo derrubado por um grupo de homens, carregados com uns baldes, cujas grossas botas ressoavam no chão. Mas eles encostaram-se à parede para dar passagem aos visitantes sem mostrar qualquer surpresa.

— É este o caminho para os aposentos das princesas? — perguntou Ana Mikailovna a um deles.

— É — replicou um dos lacaios, numa grossa voz atrevida, como se naquela altura tudo fosse permitido — a porta à esquerda, minha senhora.

«Talvez que o conde não me tenha mandado chamar», pensou Pedro na altura do patamar. «Era bem melhor eu ir para o meu quarto.»

Ana Mikailovna deteve-se, para que Pedro a pudesse alcançar.

— Ah!, meu amigo! — exclamou ela, pegando-lhe num braço, como tinha feito ao filho nessa mesma manhã, — Pode crer que sofro tanto como o Pedro, mas precisa de ser homem.

— Realmente, era melhor eu não ir — disse Pedro, olhando para ela através das lentes das lunetas, com um ar afectuoso.

— Ah!, meu amigo, esqueça-se das injustiças que lhe fizeram, lembre-se que seu pai.., está talvez na agonia. — Soltou um suspiro.— Gostei logo de si como se fosse meu filho. Confie em mim. Pedro. Não me esquecerei dos seus interesses.

Pedro não compreendia nada; o mais claro para ele era pensar que as coisas deviam ser assim, e seguiu docilmente Ana Mikailovna, que já abria a porta.

A porta dava para o vestíbulo dos aposentos das traseiras. O velho criado das princesas estava sentado a um canto a fazer meia. Pedro nunca entrara naquela parte da casa, ignorava mesmo a existência de tais dependências. Ana Mikailovna perguntou pela saúde das princesas a uma rapariga que trazia uma garrafa em cima de uma bandeja, e que se tinha juntado a elos, chamando-lhe «minha cara» e «minha boa rapariga», e em seguida conduziu Pedro ao longo de um corredor lajeado. A primeira porta à esquerda que abria para esse corredor levava aos aposentos das princesas.

De tão apressada que ia — em circunstâncias daquelas tudo se fazia apressadamente— a criada de quarto que levava a bandeja com a garrafa não fechou a porta, e tanto Pedro como Ana Mikailovna, ao passarem, olharam involuntariamente para o quarto onde a princesa mais velha e o príncipe Vassili conversavam muito animadamente. Ao vê-los, este teve um movimento de impaciência e recuou; a princesa deu um pulo e fechou a porta com um gesto violento.

Esta atitude condizia tão pouco com a habitual serenidade da princesa, e o pânico que se pintou no rosto do príncipe Vassili era tão imprevisto na sua grave compostura, que Pedro parou, lançando, através das lentes das suas lunetas, um olhar inquiridor à sua condutora. Ana Mikailovna, sem trair qualquer surpresa, contentou-se em sorrir vagamente, suspirando, como se tudo aquilo para ela fosse coisa natural.

— Mostre-se homem, meu amigo, eu zelarei pelos seus interesses — disse ela, ao mesmo tempo que apressava o passo ao longo do corredor.

Pedro não percebia do que se tratava e muito menos compreendia o que queria dizer: zelar pelos seus interesses, mas de si para consigo pensava que assim mesmo devia ser. O corredor conduziu-os a uma dependência mal iluminada que dava para a sala de visitas do conde. Era um dos compartimentos frios e luxuosos que Pedro conhecia muitíssimo bem, mas onde nunca entrava senão pela escada nobre. No centro desta sala via-se uma banheira vazia e havia água entornada no tapete. Aí cruzaram com um criado e um sacristão com um turíbulo, que caminhavam em bicos de pés, os quais nem neles sequer repararam. Depois penetraram na sala de visitas, que Pedro conhecia muito bem, com as suas duas janelas à italiana e a sua porta para o jardim de Inverno, onde havia um grande busto de Catarina e, um retrato em corpo inteiro da mesma soberana. Eram as mesmas pessoas, por assim dizer nas mesmas atitudes, que ainda ali estavam conversando em voz baixa. Todos se calaram e fitaram Ana Mikailovna, que entrava, com o seu rosto pálido e como sulcado de lágrimas, e aquele grande e corpulento rapaz, que, de cabeça baixa, a seguia com toda a docilidade.

Podia ler-se nos traços de Ana Mikailovna que ela tinha a certeza de que se aproximava o momento decisivo. Com a segurança de uma petersburguesa a tudo habituada, entrou na sala, bem agarrada a Pedro, com um ar ainda mais ousado que o dessa manhã. Tinha a certeza de que se trouxesse consigo a pessoa a quem o moribundo queria ver, logo, seria recebida. Lançou um rápido olhar às pessoas ali presentes, e, ao ver o confessor do conde, aproximou-se dele em passinhos miúdos, sem propriamente se inclinar, mas tornando-se como que mais pequena, e dois eclesiásticos presentes lançaram-lhe a bênção.

— Graças a Deus que chegámos a tempo — disse ela aos sacerdotes — todos nós, que somos da família, estávamos com tanto medo! Este rapaz é filho do conde — acrescentou em voz baixa. — Que instantes medonhos!

Ao dizer estas palavras, aproximou-se do médico.

— Caro doutor — principiou — este rapaz é o filho do conde.. Ainda há esperanças?

O médico, sem dizer palavra, ergueu os olhos e encolheu os ombros, num ar de dúvida. Ana Mikailovna copiou exactamente a sua mímica, teve um suspiro quase que fechando os olhos e voltou-se para o lado onde estava Pedro. Parecia testemunhar-lhe, urna atenção particularmente respeitosa e uma ternura contristada.

— Tende confiança na divina misericórdia! — exclamou ela indicando-lhe um divã onde pudesse esperar, enquanto ela se dirigia, sem fazer barulho, para a porta cm que estavam fitos todos os olhares. Depois de a abrir silenciosamente, desapareceu.

Pedro, disposto a obedecer em tudo ao seu guia, encaminhou-se para o divã indicado. Assim que Ana Mikailovna desapareceu, afigurou-se-lhe que todos os olhares se dirigiam para ele com algo mais que curiosidade e simpatia. Viu que toda aquela gente cochichava entre si, apontando-o com os olhos, numa espécie de medo servil. Tiveram para com ele atenções que anteriormente nunca haviam tido. A senhora, para ele desconhecida, que conversava com o sacerdote levantou-se e ofereceu-lhe o seu lugar. O ajudante-de-campo baixou-se para lhe apanhar a luva que tinha caído. Quando ele passou, os médicos calaram-se respeitosamente e abriram alas para o deixar passar. Pedro tinha pensado, primeiro, em sentar-se em qualquer parte, para não incomodar a senhora, pensara em apanhar a luva e evitar os médicos, que aliás lhe não impediam a passagem; mas, de súbito, compreendeu que naquela noite se tornara uma personagem com a obrigação de cumprir uma espécie de rito terrível, aguardado por toda a gente, e por conseguinte devia aceitar as solicitudes de todos. Recebeu em silêncio a luva que lhe estendia o oficial, sentou-se no lugar da senhora desconhecida, apoiando as grandes mãos nos joelhos, simetricamente colocadas numa posição ingénua de estátua egípcia, e de si para consigo decidiu que tudo aquilo se devia justamente passar assim e que naquela noite, para não perder a cabeça e não fazer disparates, não deveria agir como era sua vontade, mas confiando-se em absoluto a vontade daqueles que o guiavam.

Ainda se não tinham passado dois minutos, já o príncipe Vassili, com o seu cafetã decorado com três estrelas, o ar majestoso, a cabeça erguida, entrava na sala. Dir-se-ia ter emagrecido desde essa manhã; os seus olhos pareceram crescer quando viu Pedro e percorreu a sala com o olhar. Aproximou-se dele, apertou-lhe a mão, coisa que até aí nunca fizera, e sacudiu-lha energicamente, como se quisesse experimentar-lhe a resistência.

— Coragem, coragem, meu amigo. Ele disse que o queria ver. Está certo.

E quis afastar-se.

Mas Pedro julgou necessário perguntar-lhe:

— Como está...?

Hesitou, sem saber como seria conveniente referir-se ao conde, o moribundo; teve vergonha de dizer: «meu pai».

— Ainda há meia hora teve um ataque. Coragem, meu amigo.

Pedro estava num tal estado de semiconsciência que a palavra ataque lhe deu a ideia imediata de que alguém o tinha atacado. Olhou perplexo para o príncipe Vassili, e só depois lhe ocorreu que aquela palavra podia significar uma doença. O príncipe Vassili, ao passar, disse umas palavras a Lorrain e encaminhou-se para a porta em bicos de pés. Não se pode dizer que fosse muito destro em caminhar dessa maneira; todo o seu corpo oscilava desajeitadamente. Atrás dele passou a mais velha das princesas, depois os padres e os sacristães; seguiram-se alguns criados do conde. Atrás da porta ouviu-se um burburinho e Ana Mikailovna, sempre muito pálida, mas decidida no cumprimento do seu dever, apareceu, correndo, e tocando tio braço de Pedro murmurou:

— A bondade divina e inesgotável. Vai começar a cerimónia da extrema-unção. Venha.

Pedro penetrou no quarto, enterrando os pés no tapete fofo, e verificou que o ajudante-de-campo, a senhora desconhecida e alguns criados também o seguiam, como se já não fosse preciso pedir licença para se entrar naquele aposento.

 

[XXIII]

Pedro conhecia muito bem aquela grande dependência cortada por uni, arco e algumas colunas e forrada de tapetes persas. A, parte que ficava por detrás das colunas, de um lado tinha uma grande cama de mogno com cortinados de seda, e do outro um oratório com as suas imagens, o qual, todo iluminado, era como uma igreja preparada, para os ofícios da noite. Debaixo do enquadramento dos ícones iluminados estava uma grande cadeira de doente, com o espaldar coberto de almofadas brancas como neve, ainda não amarrotadas, e que acabavam de ser mudadas. Nessa cadeira perfilava-se a majestosa figura, do pai, o conde Bezukov, muito sua conhecida, coberto até à cintura por uma manta verde-clara e os cabelos brancos, em que havia qualquer coisa de leonino, a coroar-lhe a testa ampla e as características linhas daquele rosto amarelento sulcado de pequenas rugas. Estava estendido mesmo por debaixo das imagens, com as grossas mãos espessas emergindo da coberta, e sobre ela pousadas. Na mão direita, espalmada, entre o polegar e o indicador, erguia-se urna vela que um velho criado amparava debruçado sobre a cabeceira. Em tomo, os padres, de pé, revestidos com os seus magníficos paramentos, muito brilhantes, os longos cabelos soltos, e de velas acesas, oficiavam com uma, lentidão solene. Um pouco mais atrás viam-se as duas princesas mais novas, de lenço nos olhos, e, diante delas. Katicha, a mais velha, com uma expressão má e resoluta, os olhos fixos nos ícones, o que queria dizer que não poderia responder por si caso viesse a olhar para outro lado. Junto à porta. Ana Mikailovna, com o seu ar de resignada tristeza e imploração, bem como a senhora desconhecida.

O príncipe Vassili, do outro lado desta mesma porta, mais perto da cadeira, por detrás de um cadeirão de talha guarnecido de veludo, cujo espaldar voltara para si, apoiando nele a sua mão esquerda, em que segurava uma vela, enquanto com a direita se benzia e erguia os olhos ao céu, de cada vez que tocava na testa. Na sua máscara havia uma devoção tranquila e submissão à vontade divina, «Se Tu não compreendes estes sentimentos, tanto pior para Ti», parecia dizer a sua expressão.

Atrás dele encontravam-se o ajudante-de-campo, os médicos e o pessoal masculino: como na igreja, havia separação de sexos. Toda a gente estava calada, persignando-se. Apenas se ouviam as orações litúrgicas, um canto baixo, profundo e contínuo, e nos momentos de silêncio movimento de pés e suspiros. Ana Mikailovna, com aquele ar significativo com que mostrava saber o que estava fazendo, atravessou o quarto para entregar uma vela a Pedro. Este acendeu-a, e, entretido com as observações que fazia sobre os assistentes, pôs-se a persignar-se com a mesma mão com que segurava o círio.

A jovem, princesa Sofia, a da pele rosada, ar trocista e um sinalzinho, olhava para ele. Depois sorriu, escondeu o rosto no lenço, e assim esteve muito tempo; daí a pouco, voltando a olhar para ele, pôs-se a rir. Evidentemente que ela se não sentia capaz de o olhar sem rir, mas como, ao mesmo tempo, não podia deixar de o olhar, para não ter essa tentação foi postar-se, sem ruído, atrás de uma coluna. A meio da cerimónia, as vozes dos sacerdotes calaram-se, repentinamente, e os padres puseram-se a dizer qualquer coisa ao ouvido uns dos outros; o velho criado que segurava a vela do conde ergueu-se e voltou-se para o lado das senhoras. Ana Mikailovna avançou e, debruçando-se para o doente, tomou entre as suas mãos brancas e finas a mão livre pousada sobre a coberta verde, e, virada de lado, pôs-se a tomar-lhe o pulso com um ar recolhido. Deram de beber ao doente; foi uma agitação em volta dele; depois cada um retomou o seu lugar e a cerimónia prosseguiu. Durante esta pausa. Pedro notou que o príncipe Vassili tinha saído de trás do cadeirão e com o ar de quem sabe muito bem o que anda a fazer, e lhe é completamente indiferente a presença dos outros, em vez de se aproximar do moribundo, passara ao lado dele, encaminhando-se para onde estava a mais velha das princesas, juntamente com quem se dirigira para o fundo do quarto, em que estava o leito alto com cortinados de seda.

Tanto um como outro, depois, tinham desaparecido por uma porta no extremo do aposento, e só no fim da cerimónia haviam reaparecido, um por cada vez, retomando os seus lugares. Pedro não prestou mais atenção a este pormenor que a qualquer outro, persuadido como estava de que tudo quanto se passasse naquela noite diante dos seus olhos assim tinha de ser e nunca de outra maneira.

Os cantos litúrgicos cessaram e ouviu-se então a voz de um dos sacerdotes felicitando o doente por haver recebido o sacramento. O moribundo continuava estendido sem dar sinais de vida e sem fazer o mais pequeno movimento. Toda a gente se aproximou dele. Ressoaram passos, e ouviu-se o ciciar das vozes, entre as quais se distinguia a de Ana Mikailovna.

Pedro ouviu-a dizer:

— É indispensável levá-lo outra vez para a cama. Aqui é impossível.

O moribundo estava de tal modo rodeado pelos médicos, pelas princesas, pelos criados, que Pedro já lhe não via a cabeça vermelho-amarelada com a coroa de cabelos brancos que não perdera de vista durante toda a cerimónia, apesar da presença de toda aquela gente. Pelo movimento prudente das pessoas que o cercavam percebeu que o estavam a soerguer para o transportar.

— Firma-te no meu braço, vais deixá-lo cair — dizia a voz abafada de um dos criados.— Mais baixo... Outro aqui... — murmuravam as vozes.

O resfolgar das respirações opressas e o andar arrastado pareciam mostrar que o peso que transportavam era superior às forças dos que o conduziam.

Toda aquela gente, de que fazia parte Ana Mikailovna, passou diante do jovem, que durante alguns segundos, através das nucas e das costas, pôde ver os grossos e fortes peitorais nus e os ombros vigorosos do moribundo soerguidos pelas pessoas que lhe pegavam pelas axilas, e a cabeça branca, crespa, leonina. A cabeça, com a sua fronte extraordinariamente espaçosa e a face musculada, a bela boca sensual, o olhar frio, ainda majestoso, não estavam desfigurados pela morte. Era a mesma pessoa que ele tinha conhecido três meses antes, quando o conde o mandara para Petersburgo. Mas esta cabeça balouçava, inerte, a cada passada dos que transportavam o moribundo e o seu olhar frio, insensível, não sabia onde fixar-se.

Durante alguns minutos houve agitação em volta da cama, depois as pessoas que tinham transportado o conde afastaram-se. Ana Mikailovna tocou no braço de Pedro e disse-lhe: — Venha daí. — Pedro, sempre junto dela, aproximou-se da cama em que tinham estendido o doente, numa postura solene, de acordo com o sacramento que acabava de receber. Uma pilha de almofadas soerguia-lhe o busto. As mãos estavam dispostas simetricarnente sobre a coberta de seda verde, com as palmas para baixo. Quando Pedro se aproximou, o conde olhou-o fixamente, mas com um olhar de que ninguém seria capaz de discernir o significado e a intenção. Ou esse olhar não queria dizer absolutamente nada além de significar que enquanto os nossos olhos estão abertos para algures têm de olhar, ou então muito queriam dizer. Pedro ficou imóvel sem saber o que fazer, interrogando com o olhar a sua cicerone. Esta teve um rápido movimento de olhos, indicando-lhe a mão do moribundo, e com a boca mimou um beijo.

Pedro, inclinando a cabeça com precaução, para não se embaraçar na coberta, seguiu o conselho dela e aplicou os lábios sobre a mão carnuda e de grandes ossos. Nem a mão nem nenhum dos músculos do rosto do conde deram sinal de vida. Pedro continuou a olhar Ana Mikailovna interrogativamente, para lhe perguntar o que tinha a fazer. Esta indicou-lhe com a vista a cadeira ao lado da cama. Pedro aí se instalou, com toda a docilidade, continuando a perguntar-lhe, por acenos, se estava a proceder bem. Ana Mikailovna disse-lhe «sim» com um aceno de cabeça. Pedro retomou a sua pose ingénua da estátua egípcia, visivelmente incomodado por ver a sua desastrada pessoa ocupar tão largo espaço, e recorrendo a todos os estratagemas de espírito para parecer o mais pequeno possível. Olhou para o conde. Este tinha os olhos pousados no lugar onde se encontrava a figura de Pedro antes de se sentar. Ana Mikailovna, pela sua atitude, traduzia a importância tocante que atribuía a estes derradeiros momentos de despedida entre pai e filho. Isto prolongou-se por dois ou três minutos, que a Pedro se lhe afiguraram horas. Subitamente, um estremecimento perpassou pelas rugas da máscara do conde. O estremecimento acentuou-se, a boca, de contomos regulares, deformou-se. Só então Pedro compreendeu quão perto da morte estava seu pai. A boca toda contorcida soltou um estertor rouco e indistinto. Ana Mikailovna fixara o moribundo atentamente, na esperança de adivinhar o que ele queria, e mostrava-lhe ora Pedro, ora a poção, ora lhe mencionava em voz baixa o nome do príncipe Vassili, ora lhe indicava a coberta.

O olhar e a fisionomia do moribundo traduziam impaciência. Fazia esforços para fixar o criado constantemente à cabeceira da cama,

— Quer que o virem para o outro lado — murmurou este, que se levantou para voltar para o lado da parede o pesado corpo doente.

Pedro ergueu-se para ajudar o criado.

Enquanto o mudavam de posição, um dos braços do conde ficou inerte para trás, fazendo ele baldados esforços para o trazer ao seu lugar. O conde ou viu o olhar aflito que Pedro teve para o braço sem vida, ou outro qualquer pensamento perpassou nesse instante pela cabeça do moribundo: olhou para o seu próprio braço, que, já lhe não obedecia, depois para a expressão aflitiva de Pedro, em seguida de novo para o braço e pelo seu rosto passou um débil e doloroso sorriso, que, destoava na sua máscara, parecendo, por isso mesmo, escarnecer da sua própria impotência. Ao deparar-se-lhe este sorriso. Pedro sentiu uma súbita crispação no peito, um formigueiro nas narinas e as lágrimas vieram turvar-lhe a vista. Tinham colocado o moribundo voltado para a parede. Ouviu-se que suspirava.

— Adormeceu — disse Ana Mikailovna, ao ver uma das princesas que vinha substituí-la.— Vamo-nos.

Pedro saiu.

 

[XXIV]

Na sala de visitas não estava já mais ninguém senão o príncipe Vassili e a mais velha das princesas, conversando animadamente debaixo do retrato de Catarina. Assim que viram chegar Pedro e a sua companheira, calaram-se. A princesa dissimulou qualquer coisa, pelo menos foi isso que Pedro pareceu distinguir, e murmurou:

— Não posso ver esta mulher.

— Katicha mandou servir o chá na salinha — disse o príncipe a Ana Mikailovna. — Vá, minha pobre Ana Mikailovna, tome qualquer coisa, caso contrário não aguentará.

Nada disse a Pedro, limitando-se a apertar-lhe o braço com emoção. Pedro e Ana Mikailovna dirigiram-se para a salinha.

— Não há nada melhor para levantar as forças que uma xícara deste excelente chá russo depois de uma noite em claro! — exclamou Lorrain com uma vivacidade refreada, enquanto bebia, em pequenos goles, por uma chávena da China, sem asa, de pé, na salinha redonda, diante de uma mesa onde estavam alguns pratos frios e um serviço de chá. Em volta da mesa tinham-se juntado, para recuperar forças, todos quantos haviam passado a noite em casa do conde Bezukov. Pedro lembrava-se muitíssimo bem daquela salinha circular com os seus espelhos e os seus guéridons. Aquando dos bailes que havia lá em casa, ele, que não sabia dançar, gostava de vir sentar-se naquela pequenina saleta, donde ficava a ver as senhoras de vestido de noite e os ombros nus cobertos de pérolas e diamantes, as quais, ao atravessar aquela dependência, se miravam vivamente nos espelhos iluminados em que as imagens se multiplicavam indefinidamente. Naquele momento a saleta estava apenas iluminada por duas velas, e na obscuridade, em cima de um guéridon, havia, pousados desordenadamente, pratos e chávenas de chá, enquanto pessoas da mais variada natureza, em trajes comuns, falando entre si em voz baixa, se sentavam, exprimindo, em todos os seus movimentos e em todas as suas palavras, a ideia de que não esqueciam um só momento o que estava a passar-se naquela noite e o que devia passar-se ainda no quarto de dormir. Pedro nada comeu, embora muito lhe apetecesse fazê-lo. Ia interrogar com os olhos a sua condutora, mas viu que ela tornava a entrar, na ponta dos pés, na sala de visitas, em que ficara o príncipe Vassili e a mais velha das princesas.

Pedro pensou mais uma vez que assim tinha de ser, e, depois de hesitar alguns instantes, seguiu atrás dela. Ana Mikailovna estava de pé junto da princesa e ambas falavam ao mesmo tempo, em voz baixa, com animação.

— Perdão, minha senhora, eu julgo saber o que se deve fazer e o que se não deve fazer — dizia a princesa, certamente na mesma agitação em que se encontrava no momento em que tinha fechado violentamente a porta do quarto,

— Mas, minha querida princesa — volveu Ana Mikailovna, num tom modesto e insinuante, vedando à princesa o caminho para o quarto de dormir —, não seria penoso para o seu pobre tio, num momento destes, em que tanto necessita de repouso? Falar-lhe numa hora destas das coisas deste miserável mundo, quando a sua alma está já preparada...

O príncipe Vassili estava sentado numa cadeira, as pernas cruzadas uma em cima da outra, numa das suas posições habituais. No seu rosto havia movimentos convulsivos, e as faces moles pareciam, na parte inferior, mais largas do que de costume; e fingia estar pouco atento à conversa das duas senhoras.

— Então, minha boa Ana Mikailovna, deixe proceder Katicha. Bem sabe quanto o conde a estima.

— Não sei o que há aqui dentro — disse a princesa, dirigindo-se ao príncipe Vassili, e apontando para a pasta de couro que tinha na mão. — O que eu sei é que o verdadeiro testamento está no escritório dele e que só se encontra aqui papelada esquecida...

Quis passar, contornando Ana Mikailovna, mas esta fez um movimento rápido e de novo se lhe atravessou no caminho.

— Bem sei, minha boa, minha querida princesa — disse, apoderando-se da pasta, e segurando-a com tanta forca que se via não estar disposta a largá-la de mão tão depressa— Minha querida princesa, peço-lhe, suplico-lhe, poupe o doente. Imploro-lhe...

A princesa não deu resposta. Apenas se ouvia o ruído da luta que se travava para a conquista da pasta. Era evidente que se ela falasse não seria para dizer coisas amáveis a Ana Mikailovna. Mas esta resistia energicamente, embora a sua voz conservasse um tom suave e carinhoso.

— Pedro, venha cá, meu amigo. Suponho que não será a mais rio conselho de família. Não é isto verdade, príncipe?

— Porque é que não diz alguma coisa, primo? — gritou, subitamente, a princesa, e tão alto que em toda a sala se lhe ouviu a voz. — Fica calado quando uma pessoa estranha se atreve a intervir nos nossos assuntos e fazer uma cena no limiar do quarto de um moribundo? Intriguista! — exclamou ela com ódio, puxando pela pasta, com todas as suas forças.

Para não ser obrigada a abandonar a presa, e sob a violência do puxão. Ana Mikailovna viu-se forçada a dar alguns passos avante, e pegou-lhe no braço.

— Oh! — exclamou Vassili com espanto e num tom de censura — É ridículo — prosseguiu ele, erguendo-se— Vejamos, largue, faça favor.

A jovem princesa abriu as mãos.

— Largue — repetiu-lhe. — Eu encarrego-me de tudo. Vou já falar com ele. Sim, eu... Deixe isso comigo.

— Mas, meu príncipe — disse Ana Mikailovna —, depois de um sacramento tão solene, deixe-o descansar um momento. Pedro, vá, dê a sua opinião — prosseguiu ela, dirigindo-se ao jovem, o qual, tendo-se aproximado, observava, espantado, a figura da princesa conturbada pela cólera e os movimentos nervosos do rosto do príncipe.

— Lembre-se de que será responsável por tudo o que vier a acontecer — disse o príncipe Vassili com severidade. — O senhor não sabe o que faz.

— Mulher infame! — gritou a princesa, lançando-se sobre ela, repentinamente, e arrancando-lhe a pasta das mãos.

O príncipe Vassili, baixando a cabeça, deixou cair os braços para mostrar que nada podia fazer.

Neste momento, a porta, aquela porta horrível em que os olhos de Pedro se haviam fixado durante tanto tempo e que antes se tinha aberto tão suavemente, escancarou-se, de súbito, com fragor e veio bater de encontro à parede, enquanto a segunda das princesas se lançava na sala torcendo as mãos.

— Que estão aqui a fazer? — disse ela, num desespero — Ele vai-se embora e todos me deixam só.

A princesa mais idosa deixou cair a pasta. Ana Mikailovna baixou-se, lépida, e, pegando no corpo de delito, desapareceu no quarto de dormir. A princesa e o príncipe Vassili, recuperando a serenidade, foram-lhe no encalço. Daí a pouco, a mais velha das princesas voltou a aparecer na sala de visitas, o rosto pálido e seco, mordendo o lábio inferior. Ao ver Pedro, veio-lhe um ataque de cólera, que deixou expandir livremente,

— Agora pode estar satisfeito! -exclamou,— Ai tem o que esperava.

E rompendo a soluçar, escondeu o rosto no lenço, desaparecendo da sala. O príncipe Vassili foi quem veio depois. Aproximou-se cambaleando do divã em que Pedro estava sentado e deixou-se cair com a cara entre as mãos. Pedro viu que ele estava pálido e que o queixo lhe tremia convulsivamente, como se tivesse febre.

— Ah, meu amigo! — exclamou, pegando no braço de Pedro, e a sua voz exprimia uma sinceridade e uma doçura que este nunca lhe tinha notado — Os pecados que nós cometemos, tanto equívoco, e tudo isso para quê? Estou quase com sessenta anos, meu amigo... E eu... A morte é o fim de tudo. Ah, que coisa terrível é a morte!... — E principiou a soluçar.

Ana Mikailovna foi a última a sair do quarto. Aproximou-se de ^Pedro em passos lentos e sem fazer ruído.

— Pedro! — exclamou ela.

Pedro interrogou-a com os olhos. A princesa beijou o rapaz na testa, cobrindo-o de lágrimas. Esteve calada alguns momentos. — — Acabou...

Pedro olhou para ela através das suas lunetas.

— Vamos, eu acompanho-o. Procure chorar. Não há nada como as lágrimas para aliviar.

Levou-o para uma sala escura e Pedro sentiu-se contente por ninguém poder ver-lhe a expressão. Ana Mikailovna afastou-se, e quando voltou a entrar na sala encontrou-o, de cabeça encostada ao braço, dormindo profundamente.

No dia seguinte disse-lhe:

— Sim, meu caro, é uma grande perda para todos nós. Não falo de si. Mas Deus o ajudará, é novo e ei-lo à frente de uma imensa fortuna, assim o espero. O testamento ainda não foi aberto. Conheço-o muito bem para saber que isso não lhe dará volta à cabeça, mas impõe-lhe deveres, e é preciso ser homem.

Pedro ficou calado.

— Talvez mais tarde lhe conte, meu caro, que se eu ali não estivesse, só Deus sabe o que poderia ter acontecido. Ainda antes de ontem meu tio me prometia não se esquecer de Bóris. Mas não teve tempo. Espero, meu caro, que saiba cumprir os desejos de seu pai.

Pedro não percebia nada, contentando-se em olhar para Ana Mikailovna sem dizer palavra e corando com um ar embaraçado. Esta, depois da sua conversa com Pedro, voltou para casa dos Rostov e deitou-se. No dia seguinte pela manhã contou aos Rostov e aos seus demais conhecimentos os pormenores da morte do conde Bezukov. Segundo dizia, o conde tinha morrido como ela própria desejaria morrer, e que o seu passamento fora não só emocionante, mas até mesmo edificante; a última entrevista entre pai e filho, então, tinha sido de tal modo comovente que ela não podia lembrar-se dessa cena sem ch5rar, e lhe era impossível dizer qual dos dois se portara melhor naqueles terríveis momentos: se o pai, que nos últimos instantes se tinha referido a todos os acontecimentos importantes, recordando-se de toda a gente e dizendo coisas tão comovedoras ao filho; se Pedro, que metia dó, de tal modo estava comovido, não obstante ter feito tudo para esconder a sua dor, para que o moribundo se não impressionasse. «É penoso, mas faz bem; eleva a alma ver homens como o velho conde e o seu digno filho.» Ana Mikailovna aludiu também à atitude da princesa e do príncipe Vassili num tom de censura, mas pedindo muito segredo e falando ao ouvido das pessoas.

 

[XXV]

Em Lissia Gori, domínio do príncipe Nicolau Andreivitch Bolkonski, aguardava-se, de dia para dia, a chegada do jovem príncipe André e de sua mulher. Mas esta expectativa não alterava a ordem admirável que pautava a existência, no solar do velho príncipe. O general-chefe príncipe Nicolau Andreivitch, aquele a quem a gente da sociedade tinha apelidado do «rei da Prússia», desde que, no reinado de Paulo I, se recolhera às suas terras, nunca mais deixara a sua Lissia Gorí, onde vivia com sua filha Maria e a dama de companhia desta. Mademoiselle Bourienne. E quando viera o novo reinado, embora lhe tivesse sido permitido regressar à capital, ali continuara a viver, sem nunca mais de lá sair, dizendo que se alguém precisasse dele era natural que se dispusesse a percorrer as cento e cinquenta verstas que separavam Moscovo do seu domínio, pois, quanto a ele, a verdade é que não precisava de nada nem de ninguém. Era sua opinião não haver senão duas fontes do vício humano: a ociosidade e a superstição, e senão duas virtudes: a actividade e a inteligência. Ele próprio se encarregava pessoalmente da educação da filha, e para desenvolver nela estas virtudes cardinais, a partir dos vinte anos dava-lhe lições de álgebra e de geometria, não permitindo que ela estivesse desocupada o mais breve instante da sua vida. Quanto a ele, passava todo o seu tempo, quer a escrever as suas memórias, quer a resolver problemas de alta matemática, quer a tornear caixas de rapé num tomo mecânico, quer a trabalhar de jardineiro e a vigiar as construções que andava sempre a fazer no seu domínio. Partindo do princípio de que a ordem é a primeira condição de toda a actividade, na sua vida a ordem era levada ao extremo. As pessoas sentavam-se à mesa segundo ritmos inalteráveis e sempre iguais, e não somente sempre à mesma hora, mas, até mesmo, no mesmo minuto. Para com as pessoas que o cercavam, quer fosse a filha, quer os criados, era rígida e invariavelmente exigente.

Esta a razão por que, não sendo propriamente violento, inspirava um terror e um respeito em que lhe não levavam a palma os homens mais brutais. Embora ele se encontrasse na inactividade e nenhuma influência tivesse já nos negócios públicos, não havia governador de província onde dispusesse de propriedades que se não sentisse na obrigação de se apresentar em sua casa, sujeitando-se, à semelhança do arquitecto, do jardineiro ou da própria princesa Maria a aguardar o momento em que o príncipe comparecia na sua vasta sala de visitas. E o certo é que todos naquela sala sentiam o mesmo receio e o mesmo respeito quando se abriam as altas portas maciças do gabinete e surgia a pequena figura do príncipe, com a sua cabeleira empoada, as suas mãozinhas secas e as suas sobrancelhas brancas, proeminentes, as quais, por vezes, quando ele as franzia, lhe velavam o fulgor do olhar brilhante, inteligente e sempre jovem.

No dia da chegada do casal, pela manhã, segundo o costume, a princesa Maria. à hora habitual, entrou na sala de visitas para apresentar os seus cumprimentos matinais, benzendo-se, medrosa, enquanto orava, em voz baixa. Todos os dias entrava naquela sala e nem uma só vez deixava de rezar, pedindo a Deus que fizesse correr bem a entrevista que ia ter com o pai.

O velho criado de cabeleira branca que estava na sala levantou-se sen) fazer ruído e disse em voz baixa:

— Faça o favor de entrar.

Atrás da porta ouvia-se o monótono rolar do tomo. A princesa empurrou timidamente o batente e a porta abriu-se sem esforço, deixando-a parada no limiar. O príncipe, que trabalhava ao tomo, depois de ter voltado a cabeça para trás prosseguiu na sua tarefa.

O enorme gabinete transbordava de objectos que, evidentemente, estavam a todo o momento a ser precisos. A grande mesa coberta de livros e plantas, as altas estantes da biblioteca, com as chaves nas respectivas fechaduras, a secretária alta para se escrever de pé, sobre a qual estava aberto um caderno, o tomo, com as ferramentas espalhadas e as aparas de madeira pelo chão, tudo denunciava uma actividade constante, variada e metódica. Os movimentos das curtas pernas do príncipe, que calçava botas tártaxas pregueadas de prata, e a pressão enérgica das suas mãos magras e nervosas proclamavam a força tenaz e bem mantida de uma velhice vigorosa.

Depois de ter feito girar ainda algumas vezes a roda do tomo, levantou o pé do pedal, limpou a goiva, guardando-a depois numa bolsa de couro pendente daquele e aproximando-se da mesa, chamou a princesa. Nunca abençoava os filhos, e estendendo à filha a cara eriçada de pêlos e ainda por barbear disse-lhe severamente, embora com um olhar meigo e cuidadoso:

— Como vai isso?... Bom, então senta-te!

Pegou num caderno de exercícios de geometria, escrito com a sua própria caligrafia, e puxou a cadeira com o pé.

— Para amanhã! — exclamou, procurando rapidamente a página e marcando corri a unha robusta os períodos que era preciso estudar.

A princesa debruçou-se para o caderno.

— Espera.., uma carta para ti — disse de repente o velho, tirando de um saco suspenso da mesa um sobrescrito com letra feminina e pousando-o em cima do tampo da mesa.

Assim que a princesa viu a carta, toda ela se ruborizou. Pegou-lhe, pressurosa, fazendo urna grande vénia.

— É da tua «Heloísa»? (Alusão a Júlia da Nova Heloísa. (N, dos T.) — perguntou o príncipe, mostrando, num frio sorriso, os dentes amarelados, mas ainda sólidos. — É, é da Júlia — replicou a princesa, com um olhar tímido e um sorriso receoso.

— Ainda vou deixar passar mais duas cartas, mas a terceira hei-de lê-la — disse o pai severamente.— Tenho cá os meus receios de que vocês escrevam muita tolice. A terceira leio-a.

— Pode ler esta, meu pai — respondeu a rapariga, corando ainda mais e apresentando-lhe a carta.

— A terceira, eu disse a terceira — interrompeu o príncipe, repelindo a carta; e apoiando o cotovelo à mesa, puxou para si o caderno de geometria.

— Como vê, menina — principiou o velho, debruçando-se muito para a filha por cima do caderno e apoiando-se corri uma das mãos nas costas da cadeira onde se sentava a princesa, que se sentiu envolta numa onda de cheiro a tabaco e desse aroma especial das pessoas idosas, muito do seu conhecimento. — Como vê, menina, estes triângulo são iguais: olhe, o ângulo A-B-C...

A jovem princesa fitava, assustada, os olhos brilhantes do pai muito perto da sua cara. As maçãs do rosto cobriram-se-lhe de manchas vermelhas. Via-se perfeitamente que não compreendia e que estava cheia de medo: isso era o bastante para não poder apreender as longas explicações do pai, por mais claras que fossem. Ou por culpa do professor ou da aluna, o certo é que todos os dias acontecia o mesmo. Os olhos da jovem turvavam-se, não via, não ouvia mais nada, para ela nada mais existia além daquele rosto seco e severo muito perto do seu, daquele hálito e daquele aroma, e o seu único desejo seria fugir o mais depressa possível do gabinete para, sozinha, resolver com tranquilidade o problema que o pai lhe propunha. O velho exaltava-se, afastava e aproximava com estrépido a cadeira em que estava sentado, procurando não se deixar encolerizar, mas não raramente acabava a ferro e fogo, no meio de injúrias e até, por vezes, atirando fora o caderno.

A princesa enganou-se na resposta que deu.

— Que estúpida que tu me saíste! — gritou-lhe o pai, empurrando o caderno e voltando-se bruscamente. De chofre, ergueu-se, deu alguns passos de um lado para o outro, pousou a mão na cabeça da filha e tomou a sentar-se. Aproximando a cadeira, continuou a explicar.

— Assim não fazemos nada, princesa, assim no fazemos nada — disse quando a filha fechava o caderno, depois da lição, disposta a partir— Mas a verdade é que as matemáticas são uma coisa importante, menina. E o que eu não quero é que tu fiques como todas as nossas estúpidas senhoras. Com tempo e paciência hás-de acabar por gostar da matemática. — Bateu-lhe na cara— Hei-de tirar-te da cabeça toda a estupidez que lá tens dentro.

Ela quis abalar mas ele deteve-a com um gesto, e tirou de cima da secretária um livro novo com as folhas ainda por abrir.

— Aqui tens um livro que te manda a tua «Heloísa», um tal A Chave do Mistério. É um livro religioso. Eu não gosto de interferir nas crenças religiosas de ninguém... Passei a vista pelo livro. Toma lá. E agora vai-te, vai-te embora.

Bateu-lhe no ombro e foi ele próprio quem fechou a porta depois de ela sair.

A princesa Maria voltou para o seu quarto, com aquele seu ar triste e receoso que raramente a abandonava e que ainda mais feios tornava os seus traços doentios e pouco regulares; sentou-se à sua mesa de trabalho, coberta de retratos, miniaturas, cadernos e livros. O sentimento da ordem que a ela lhe faltava tinha-o o pai em excesso. Pousou o caderno de geometria e abriu a carta com impaciência. Era da sua mais íntima amiga de infância: precisamente essa tal Júlia Karaguine, que estivera na festa em casa dos Rostov.

Júlia escrevia, em francês:

Querida e excelente amiga:

Que coisa terrível e pavorosa é a ausência! Por mais

que eu me diga a mim própria que a metade da minha existência e da minha felicidade está contigo, que, apesar da distância que nos separa, os nossos corações estão unidos por laços indissolúveis, o meu coração revolta-se contra o destino e é-me impossível, não obstante os prazeres e as distracções que me cercam, vencer uma certa tristeza oculta que sinto no fundo do coração, desde que

nos separámos. Porque não estamos nós juntas como no Verão passado no teu gabinete, sentadas no teu canapé, o canapé das confidências? Porque é que eu não posso, como há três meses, colher novas forças morais no teu olhar, tão meigo, tão calmo e tão penetrante, olhar de que eu tanto gostava e que julgo ainda ver diante de mim enquanto te vou escrevendo!

Ao chegar a este ponto da carta, a princesa Maria soltou um suspiro e lançou um olhar para o espelho que estava à sua direita. O cristal devolveu-lhe uma desajeitada e enfezada figura. Os seus olhos, sempre tristes, fixavam o espelho com uma expressão particularmente desencantada. «Tudo para me lisonjear», pensou, e afastou os olhos do espelho, prosseguindo na leitura da carta. Realmente. Júlia não lisonjeava a amiga: esta tinha, com efeito, uns olhos grandes, tão profundos e tão luminosos que dir-se-ia irradiarem, de vez em quando, quentes raios de luz, olhos tão belos que a cada momento, apesar da fealdade dos traços do seu rosto, lhe emprestavam mais atractivos que se ela fosse, de facto, bonita. A princesa nunca seria, porém, capaz de descobrir esta bela expressão do seu olhar, essa expressão que lhe vinha aos olhos quando ela menos sonhava. Acontecia consigo o que tantas vezes se dá com outras pessoas: sempre que olhava para o espelho, vinha-lhe à cara um ar afectado e pouco natural que a tornava feia.

Continuou a ler:

Em Moscovo não se fala noutra coisa senão em guerra.

Um dos meus dois irmãos já seguiu para o estrangeiro, o outro está na Guarda, que vai partir para a fronteira. O nosso querido imperador saiu de Petersburgo e segundo consta está disposto a expor a sua preciosa existência aos perigos da guerra. Deus queira que o monstro corso que acabou com a tranquilidade na Europa venha a ser esmagado pelo anjo que o Todo— Poderoso, na Sua infinita misericórdia, nos deu por soberano. Sem falar nos meus irmãos, esta guerra privou-me de um dos conhecidos mais queridos do meu coração. Refiro-me ao jovem Nicolau

Rostov, que no seu entusiasmo não pôde resignar-se a manter-se inactivo e abandonou a Universidade para se alistar no exército. Pois bem, querida Maria, devo confessar-te que, apesar de muito novo, a sua partida para a guerra foi para mim motivo de grande desgosto. Este rapaz, de quem te falei no Verão passado, tem tanta nobreza e tanta juventude que é difícil encontrar-se alguém como ele, no tempo em que vivemos, entre os nossos velhos de vinte anos. É sobretudo tão franco e tão bom de coração! E tão puro e tão poético que as minhas relações com ele, embora fossem passageiras, as considero das mais doces alegrias do meu coração, que tanto já tem sofrido. Hei-de contar-te um dia as nossas despedidas e o que dissemos no momento em que nos separámos. Por agora tudo isto ainda está muito fresco. Que feliz és, querida amiga, visto não conheceres alegrias tão grandes e dores tão pungentes! És feliz, porque estas são geralmente mais fortes do que aquelas. Bem sei que o conde Nicolau é muito novo para poder vir a ser para mim mais que um amigo, mas esta afectuosa amizade, estas nossas reacções, tão poéticas e tão puras, o meu coração estava a pedi-las. Não falemos, porém, mais nisso. A grande nova do momento, assunto de toda Moscovo, é a morte do conde Bezitkov e a história da sua herança. Imagina que as três princesas não vieram, a receber quase nada, o príncipe Vassili nada recebeu, e quem tudo herdou foi Monsieur Pierre, que, ainda, por cima, foi reconhecido filho legítimo, herdando, portanto, também o título de conde Rezukov, e é hoje possuidor da maior fortuna de toda a Rússia. Dizem que o príncipe Vassili desempenhou um, feio papel em, toda, esta história da herança do conde e que regressou a Petersburgo de orelha murcha.

Devo confessar-te que muito pouco percebo destas

histórias de legados e de testamentos; o que te sei dizer é

que desde que o rapa;, por todos nós conhecido por Monsieur Pierre se tomou conde de Bezukov e passou a dispor de uma das maiores fortunas da Rússia muito me divirto a observar a mudança no tom, e nas maneiras das mães com várias filhas para casar e até no tom e nas maneiras das próprias meninas em relação a este indivíduo, o qual, aqui para nós, sempre me pareceu um zé-ninguém. Como, de há dois anos a esta parte, toda esta gente se entretém a arranjar-me noivos que na maior parte dos casos eu nem sequer conheço, a crónica nupcial de Moscovo neste momento faz de mim condessa Bezukov. Mas deves compreender que nada faço Para vir a gozar dessa honra. A propósito de casamentos.— queres saber? Há dias, a tia de toda a gente. Ana Mikailotna, contou-me, pedindo-me o maior segredo, que se preparava aqui um casamento para ti. Trata-se, nem mais nem menos, do filho do príncipe Vassili, o Anatole, rapaz que o pai gostaria de arrumar, casando-o com uma menina rica e distinta. Foi em ti que recaiu a escolha dos pais. Não sei como encararás tu a história, mas sinto-me na obrigação de te avisar. Dizem que é bonito rapaz e muito má pessoa; é tudo quanto pude apurar a seu respeitou.

Mas basta de tagarelices. Estou no fim da minha

segunda folha de papel, e minha — mãe mandou-me chamar para irmos jantar a casa dos Apraksine. Lê o livro místico que junto te envio, e que neste momento esta aqui a fazer furor. Embora neste livro haja coisas difíceis de compreender para o fraco entendimento humano, é um livro admirável, cuja leitura serena eleva a alma. Adeus. Os meus respeitos ao senhor teu pai e cumprimentos a Mademoiselle Bourienite. Um abraço amigo,

Júlia.

P. S. — Manda-me notícias de teu irmão e da sua

encantadora mulher.

A princesa reflectiu, sorriu pensativamente, e, iluminada pelos seus brilhantes olhos, toda a sua expressão se lhe transformou naquele instante. Levantou-se de chofre, aproximou-se da mesa no seu passo moroso. Pegou numa folha de papel e a mão deslizou-lhe, rápida. Eis a resposta à carta de Júlia:

Continuar: parte 6 de 6