Guerra e Paz
Primeira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
— Vês?... Mimi... Vês?
E Natacha mais não pôde dizer — tudo a fazia rir. — Deixou-se pender contra a mãe e rompeu a rir com tanta vontade e tão alto que ninguém, inclusivamente a visita de maneiras afectadas, pôde resistir ao riso. Todos riram também.
— Vai-te embora, vai-te embora com esse horror! — exclamou a mãe, repelindo-a com uma cólera fingida.— É a minha filha mais nova — disse ela à visita.
Natacha deixou ver a cara por momentos, no meio do fichu de rendas da mãe, olhou aquela de alto a baixo, rindo até às lágrimas, e voltou a esconder-se.
A visita, obrigada a admirar esta cena de família, pensou ser necessário dizer qualquer coisa.
— Dize-me cá, minha linda — perguntou a Natacha —, que parentesco tens tu com esta Mimi? É tua filha, naturalmente. Este tom de condescendência para se pôr ao seu nível de criança não agradou a Natacha, que nada disse e fitou a senhora com um ar sério.
Entretanto, todo o grupo jovial: Bóris, o oficial, filho da princesa Ana Mikailovna, o estudante Nicolau, filho mais velho do conde. Sónia, sua sobrinhita de quinze anos, e o pequeno Petrucha, seu filho mais novo, procurava manter, adentro dos limites das conveniências, a animação e a alegria que fulguravam nos seus rostos. Via-se perfeitamente que lá para trás, nos aposentos das traseiras, donde eles tinham surgido tão repentinamente, se falava de coisas bem mais agradáveis que intrigas mundanas, ou o estado do tempo, ou a condessa Apraksine. Entreolhavam-se todos, rompendo a rir.
Os dois rapazolas, o estudante e o oficial, amigos de infância, eram da mesma idade, ambos bonitos moços, mas sem se parecerem um com o outro. Bóris era um rapagão louro, de traços finos e regulares, de uma beleza serena; Nicolau, um rapazinho frisado, com uma expressão aberta. No seu lábio superior apontava já um ligeiro buço e o todo da sua máscara exprimia impetuosidade e entusiasmo. Nicolau ficou todo corado assim que entrou no salão. Via-se que procurava dizer qualquer coisa, mas não conseguia. Bóris, pelo contrário, mostrou-se logo à vontade e começou a contar, tranquilamente e com um ar satisfeito, que tinha conhecido a Mimi muito nova, com o nariz ainda intacto, que nos últimos cinco anos, se bem se lembrava, a pobre tinha envelhecido terrivelmente, e que tinha agora a cabeça rachada de alto a baixo. Ao mesmo tempo que falava ia olhando para Natacha. Esta voltara a cara e olhava para o irmãozito, que ria perdidamente, com os olhos cheios de lágrimas; de súbito, sem poder mais, despediu correndo. Bóris ficou muito sério.
— Naturalmente também se quer ir embora. Mamã? Precisa do carro? — disse ele para, a mãe, sorrindo.
— Pois sim, manda atrelar — respondeu a mãe sorrindo igualmente.
Bóris, sem nada dizer, dirigiu-se para a porta e seguiu atrás de Natacha. O rapazinho gordo correu após eles, pouco contente por ter sido perturbado nos seus entretenimentos.
[XII]
A excepção da filha primogénita da condessa, a qual, quatro anos mais velha que a segunda, já podia dar-se ares de pessoa crescida, e das filhas da senhora que viera de visita, juventude era coisa que não havia no salão, se excluíssemos, além delas. Nicolau e a sobrinha Sónia. Esta era uma morenita magra, uma miniaturazinha, com uns olhos doces, sombreados por longas pestanas, e uma farta trança negra que lhe dava duas voltas à cabeça, a tez olivácea acentuava-se-lhe mais ainda nos braços e no colo nus, magros, mas graciosos. A ligeireza dos seus passos, a languidez e a flexibilidade dos seus braços, os seus modos um pouco ardilosos e reservados davam-lhe ares de um lindo felino ainda não domesticado, mas prometendo vir a ser um bichano encantador. Evidentemente que ela sabia ser conveniente tomar parte, com o seu sorriso, na conversa geral, mas, sem dar por isso, por debaixo das longas pestanas, os olhos fugiam-lhe para o seu primo, que ia partir para a, tropa. No seu olhar havia uma adoração tão apaixonada que ninguém se iludiria com aquele sorriso. Toda a gente via que se o bichano ali estava tão sossegado era apenas para, mal saísse do salão, logo pôr-se a correr e a saltar com o primo, tal como Bóris e Natacha.
— Sim, minha cara — dizia o velho conde para a visita, apontando Nicolau. — Como o seu amigo Bóris saiu, oficial, ele, por amizade para com o primo, não lhe quer ficar atrás. E lá vai deixar a Universidade e a mim, seu velho pai; vai alistar-se, minha cara. E já lhe tínhamos arranjado um lugar no serviço dos arquivos. Ao que leva a amizade!
— E dizem que a guerra já foi declarada — observou a visita.
— Há muito tempo que isso se diz — volveu o conde— Sim, diz-se e volta a dizer-se, e tudo fica na mesma. Minha cara, o que é que a amizade não faz? — repetia ele. — Vai para os hússares. A visita, como não sabia que dizer, meneava a cabeça.
— Mas não, não se trata de amizade — interrompeu Nicolau, entusiasmando— se, como quem repele uma calúnia que lhe fosse odiosa.— Não se trata de amizade, mas apenas de que tenho a vocação de soldado.
Envolveu num olhar a prima e a filha da visita; ambas lhe dirigiram um sorriso de aprovação.
— Temos hoje a jantar o coronel Schubert, do regimento de hússares de Pavologradski. Está aqui de licença, e é ele quem o leva consigo. Que havemos nós de fazer? — disse o conde, encolhendo os ombros e falando, em tom prazenteiro, de um assunto que visivelmente lhe causava um grande desgosto.
— Já lhe disse, pai — replicou o filho —, que se me não quer deixar ir eu não partirei. Mas tenho a certeza de que não sirvo para mais nada senão para soldado; não nasci, para ser nem diplomata nem funcionário; não sei esconder os meus sentimentos — acrescentou sem deixar de fitar as raparigas com a bonita desenvoltura própria da sua idade.
A gatinha, que o comia com os olhos, parecia pronta a brincar e a mostrar a sua natureza felina.
— Bem, bem! — disse o velho conde— Está sempre pronto a exaltar-se. Bonaparte deu volta à cabeça de toda esta gente. Lá porque ele passou de simples tenente a imperador... Seja o que Deus quiser — rematou, sem reparar no sorriso escarninho da visita.
As pessoas crescidas puseram-se a falar de Bonaparte. Júlia, o filha da princesa Karaguine, voltou-se para o jovem Rostov: — Que pena que não tenha estado na quinta-feira passada em casa dos Arkarov. Não calcula a falta que me fez! — disse-lhe ela, sorrindo com afabilidade.
O rapaz, lisonjeado, veio sentar-se junto dela. E sorrindo com a coquetterie própria da sua idade, entabulou uma conversa íntima, sem reparar que as suas amabilidades eram como um gládio de ciúme a trespassar o coração de Sónia, a qual, disfarçando a sua confusão, fingia estar alegre. No meio da sua conversa com Júlia, deteve os olhos em Sónia. Esta lançou-lhe um olhar cheio de amargura, retendo a custo as lágrimas, embora ainda lhe flutuasse um sorriso nos lábios, e levantando-se saiu. Toda a animação de Nicolau se desvaneceu. Aproveitou a primeira oportunidade para interromper o seu diálogo, e, inquieto, lá foi à procura de Sónia.
— Oh, como toda esta juventude traz o coração na boca! — exclamou Ana Mikailovna apontando para Nicolau, que sala da sala.— Primos, maus vizinhos! — acrescentou.
— É verdade! — disse a condessa, assim que desapareceu o raio de sol que a mocidade trouxera consigo ao salão. E, respondendo a uma pergunta que ninguém lhe tinha feito, mas que a preocupava:— Que contrariedades, que contrariedades as nossas para agora podermos gozar de uma certa alegria! E o certo é que ainda hoje sentimos muito mais terror que prazer. Estamos sempre com medo, sempre com medo! E é precisamente nesta idade que as raparigas e os rapazes correm maior perigo.
— Tudo depende da educação que se recebe — disse a visita. — Sim, tem razão — continuou a condessa. — Até agora tenho sido sempre a amiga íntima dos meus filhos e eles têm sempre confiado em mim. — E, ao falar assim, caía no erro de muitos pais, persuadidos de que os filhos não têm segredos para eles. — Sei que serei sempre a primeira confidente dos meus filhos, e que Nikolenka, com a seu feitio ardente, se um dia fizer uma asneira — os rapazes estão sempre sujeitos a isso —, nunca se comportará como esses senhores de Petersburgo.
— Sim, são muito bons pequenos — afirmou o conde, qu6 resolvia sempre os problemas embaraçosos dizendo que tudo estava bem. — Imagine! Quis assentar praça nos hússares! Que lhe havemos de fazer, minha cara!
— Que linda rapariga é a sua filha mais nova! — disse a visita. — Que azougada!
— É, é — replicou o conde. — Parece-se comigo! E que linda voz! Não é por ser minha filha! A verdade diga-se. Vai ser urna verdadeira cantora, uma Salomoni. Anda a tomar lições com um italiano.
— Não será cedo de mais? Não é bom para a voz, segundo ouço dizer, aprender canto nesta idade.
— Cedo de mais? — volveu o conde. — Então as nossas mães não se casaram dos doze para os treze anos?
— E já está enamorada do Bóris! Veja isto! — disse a condessa, sorrindo, disfarçadamente, e lançando um olhar à mãe do rapaz. Depois, como que respondendo a um pensamento que não deixava de a preocupar, continuou: — Imagine que eu a educava com severidade, que a proibia... Só Deus sabe o que ela seria capaz de fazer às escondidas. (A condessa queria dizer que se beijariam.) Mas, assim, conheço-lhe todos os pensamentos. É ela própria quem me vem contar todas as noites. É possível que eu a estrague: mas estou convencida de que é esta a melhor maneira. Já a mais velha a eduquei com mais severidade.
— Pois é, a mim educaram-me de maneira muito diferente — disse, sorrindo, a filha mais velha, a linda condessa Vera.
O sorriso não tornava Vera mais bonita, como em geral acontece, pelo contrário, dava-lhe uma expressão pouco natural e desagradável até. Vera, a filha mais velha dos Rostov, era bonita, não era tola, tinha sido muito bem instruída, tinha uma educação excelente e urna bela voz; o que ela acabava de dizer era muito justo e a propósito, mas, coisa estranha, toda a gente, a principiar pela visita e pela própria condessa, a fitou como que surpreendida que ela tivesse falado daquela maneira, e todos sentiram um certo embaraço.
— Em geral somos sempre mais rigorosos com os filhos mais velhos; pensamos sempre fazer deles pessoas excepcionais — disse a Visita.
— Para que havemos de esconder os nossos erros, minha cara! A minha querida condessa quis ser exemplar com a educação de Vera — observou o conde. — Mas que se perdeu com isso?
O resultado não foi nada mau— acrescentou, piscando o olho amistosamente a Vera.
As visitas ergueram-se, finalmente, para se despedirem, prometendo vir jantar.
— Isto é que são maneiras! Parecia que nunca mais se iam embora! — exclamou a condessa, ao ver, finalmente, as visitas pelas costas.
[XIII]
Quando Natacha saiu do salão a correr não foi muito longe; ficou no jardim de Inverno. E ali permaneceu ouvindo o que se dizia no salão e aguardando que Bóris chegasse. Principiava a impacientar-se, e já batia com os pés no chão, quase a chorar por o não ver aparecer, quando se principiaram a ouvir os passos do rapaz, uns passos nem muito lentos nem muito precipitados, compassadamente. Natacha correu a esconder-se atrás dos vasos das plantas.
Bóris ficou parado no meio da dependência, olhou em tomo de si, sacudiu a manga do uniforme e aproximou-se de um espelho para mirar a sua linda figura. Muito quieta. Natacha espreitava lá do seu esconderijo, curiosa de ver o que ele faria. Bóris esteve alguns momentos diante do espelho, sorriu e dirigiu-se para a porta. Natacha quis chamá-lo, mas de si para consigo disse: «Ele que me procure.» Mal Bóris saíra, entrou Sónia, por outra porta, muito corada, e soltando palavras coléricas por entre um fio de lágrimas. Natacha conseguiu reprimir o seu primeiro movimento, que a impelia a correr para ela, e ficou no seu esconderijo como se estivesse debaixo do chapéu que torna as pessoas invisíveis, observando o que se passava. Tirava disso um prazer muito especial. Sónia balbuciava fosse o que fosse de indistinto, sem desviar os olhos da porta do salão. A porta abriu-se e apareceu Nicolau.
— Sónia, que tens tu? Será possível?! — exclamou ele, correndo para ela.
— Não é nada, não é nada, deixa-me.
As lágrimas correram-lhe em fio.
— Sim, bem sei o que foi.
— Se sabes, é o que importa. Vai ter com ela.
— Sónia! Ouve-me. Só uma palavra. Como é possível que estejamos os dois a atormentar-nos por causa de uma patetice? volveu Nicolau, pegando-lhe nas mãos.
Sónia deixou-as ficar e enxugou as lágrimas. Natacha, sem um movimento, e retendo a respiração, olhava-os do seu canto com os olhos brilhantes. «Que se irá passar?», pensava ela.
— Quero lá saber das outras. Sónia. Só tu és tudo para mim disse Nicolau. — Hei-de provar-to.
— Por amor de Deus, não me digas essas coisas,
— Não volto mais, perdoa-me. Sónia!
Puxou-a para si e beijou-a.
«Sim, senhor, assim mesmo!», exclamou para si mesma, e, quando Sónia e Nicolau partiram, seguiu-os — e chamou Bóris.
— Bóris, venha cá — disse-lhe ela, com um arzinho de significativa astúcia, — Preciso de lhe dizer uma coisa. Venha daí, venha daí — prosseguiu ela, conduzindo-o para o jardim de Inverno, para o sítio onde estivera escondida atrás dos vasos das plantas.
Bóris seguiu-a sorridente.
— De que se trata? — perguntou ele.
Natacha perturbou-se, olhou em tomo de si, e vendo a boneca que ficara em cima de um dos vasos pegou nela.
— Dê um beijo à minha boneca — ordenou.
Bóris fitou-lhe o rosto animado com um enternecedor interesse, mas nada disse.
— Não quer? Então venha daí — Desapareceu no meio da verdura, atirando fora a boneca. — Chegue-se mais, chegue-se mais — murmurou.
Passou o braço pelo canhão da manga do oficial e no seu rosto purpurizado havia um ar ao mesmo tempo sério e medroso.
— E a mim, quer-me beijar a mim? — balbuciou numa voz quase imperceptível, olhando-o de viés, com um sorriso nos lábios e as lágrimas quase a saltarem-lhe dos olhos, tão grande era a emoção.
Bóris corou.
— Que estranha que a menina é! — exclamou ele, debruçando-se para ela, mas sem se decidir, e como que à espera. Subitamente. Natacha saltou para cima de uma cadeira, ficando mais alta do que ele, envolveu-lhe o pescoço nos seus pequeninos braços nus e, inclinando a cabeça para trás, beijou-o em plenos lábios.
Em seguida esgueirou-se por entre os vasos do lado oposto e deteve-se, de cabeça baixa.
— Natacha — disse Bóris. — Bem sabe que gosto de si, mas Gosta de mim? — perguntou ela, interrompendo -o.
Sim, gosto de si, mas, por amor de Deus, não voltemos a fazer o que fizemos agora... Daqui a quatro anos... Então virei pedir a sua mão.
Natacha ficou a pensar.
— Treze, catorze, quinze, dezasseis... — disse, contando pelos seus pequeninos dedos.— Está bem. Fica assim combinado?
E no seu rosto cheio de animação resplandeceu uma tranquila alegria.
— Combinado! — repetiu Bóris.
— Para sempre? — voltou a pequena.— Até à morte?
E, dando-lhe o braço, dirigiu-se com ele, toda ela felicidade, para a sala contígua.
[XIV]
A condessa estava tão cansada de atender as visitas que disse que não receberia mais ninguém, e o guarda-portão recebeu ordem de convidar para jantar todas as pessoas que viessem apresentar felicitações. Estava morta por se ver a sós com a sua amiga de infância, a princesa Ana Mikailovna, que mal tinha visto desde que ela voltara de Petersburgo. Ana Mikailovna, com o seu bonito rosto como que intumescido de chorar, veio colocar-se muito junto da cadeira da condessa.
— Vou ser absolutamente sincera contigo — disse-lhe ela. Acabaram-se-nos as velhas amigas de outrora. E por isso que eu aprecio tanto a tua amizade.
Ana Mikailovna, ao ver aproximar-se Vera, calou-se. A condessa apertou a mão da amiga.
— Vera — disse ela para a filha primogénita, que evidentemente não era a preferida —, vocês não percebem nada? Então ainda não compreendeste que estás aqui a mais? Vai ter com as tuas irmãs, ou então...
A formosa Vera teve um sorriso um pouco desdenhoso, sem dar a perceber, de maneira alguma, que se sentia ofendida.
— Se me tivesse dito mais cedo, mãe, já me teria ido embora — disse ela, afastando-se.
Mas, ao passar pela sala do divã, viu que as duas janelas estavam simetricamente ocupadas pelos dois pares. Parou a olhar e teve um sorriso de desdém. Sónia estava sentada muito juntinha de Nicolau, que copiava uns versos para ela, os primeiros que tinha escrito na sua vida. Bóris e Natacha estavam na outra janela, e calaram-se quando a viram entrar. Sónia e Natacha olharam-na com um ar feliz, e ao mesmo tempo como se tivessem sido surpreendidas em flagrante.
Estas garotas, que então viviam a sua primeira história de amor, eram ao mesmo tempo divertidas e comovedoras para quem as contemplasse. Mas a verdade é que não foi grande a satisfação de Vera quando deu com elas.
— Quantas vezes já lhes pedi que se não apoderassem do que é meu? As meninas também têm um quarto,
Tirou o tinteiro das mãos de Nicolau.
— Espere, espere — exclamou ele, molhando a caneta. — Não há dúvida de que não sabem fazer nada com jeito — prosseguiu ela.— Foi uma vergonha aquela vossa entrada no salão.
Apesar da justeza da observação, ou até, precisamente, por isso mesmo, ninguém abriu a boca, e os quatro limitaram-se a olhar uns para os outros. Vera continuou, com o tinteiro na mão:
— Sempre gostava de saber que segredinhos é que a Natacha e o Bóris têm para dizer um ao outro.., nessa idade, e vocês também. Que patetice!
— E tu que tens com isso. Vera? — disse Natacha, com a voz mais pachorrenta deste mundo, para dizer alguma coisa.
Era evidente estar, como nunca, nesse dia disposta a ser boa e afectuosa para toda a gente.
— Tudo isto é uma patetice — continuou Vera— Sinto vergonha por vocês. Que segredos são esses?
— Toda a gente tem segredos. Nós também não nos metemos ria tua vida e na do Berg — disse Natacha, que principiava a exaltar-se.
— Acho muito bem que se não metam na minha vida nem na dele, tanto mais que nada têm a dizer de nós. Deixa estar que hei-de contar à mãe como tu te portas com o Bóris.
— Natália Ilinitchna porta-se muito bem comigo — disse Bóris. — Nada tenho a censurar-lhe.
— Deixe-a lá. Bóris, está a ser diplomata...
A palavra «diplomata» estava então em moda entre as crianças, com o significado particularíssimo que elas lhe davam.
— Que maçada! — exclamou Natacha, com a voz trémula de irritação. — Porque é que ela se está sempre a meter comigo?... Tu não percebes nada — acrescentou, dirigindo-se a Vera— não admira: nunca gostaste de ninguém. Não tens coração, não passas de uma Madame de Genlis (era uma alcunha, com todo o ar de muito ofensiva, inventada por Nicolau)... Aquilo de que mais gostas é de más-criações para com os outros. Deixa-nos em paz e vai lá fazer-te coquette com o Berg.
— Mas eu nunca andei a correr atrás de um rapaz diante de gente de fora...
— Era isso que tu querias, não é verdade?, dizer-nos coisas desagradáveis — disse Nicolau. — Conseguiste que todos ficássemos zangados. Vamos embora para a nursery.
E todos eles, como um bando de pássaros assustados, bateram as asas e despediram.
— A mim é que vocês disseram coisas desagradáveis; eu, por mim, não disse coisas desagradáveis a ninguém — replicou Vera. — Madame de Genlis! Madame de Genklis! (Autor muito Iwo e traduzido na Rússia de então. (N, dos T.) — gritaram já detrás da porta as suas vozes alegres.
A linda Vera, que acabara por irritar toda à gente, pôs-se a sorrir, e, completamente indiferente ao que lhe tinham dito, aproximou-se de um espelho e compôs a écharpe e o penteado. Ao ver a sua imagem no espelho, voltou. à serenidade e à frieza habituais.
No salão falava-se ainda.
— Ah, minha querida — dizia a condessa —, também na minha vida riem tudo é cor-de-rosa. Não vês que pelo caminho que levamos, a nossa fortuna não dura muito? E é tudo por causa do clube e da bondade dele. Julgas que descansamos quando vamos para o campo? Lá temos os espectáculos, as caçadas, e só Deus sabe que mais. Mas para que hei-de eu estar a falar de mim? E tu, como é que conseguiste tudo quanto querias? O que eu admiro, as vezes. Annette. é como tu podes, na tua idade, ir sozinha, por essas estradas, a Moscovo, a Petersburgo, procurar os ministros, a gente importante, e como tu sabes falar a todos! O que eu te, admiro! Conta, conta, como é que conseguiste? Não percebo nada.
— Ali, minha filha — replicou a princesa Ana Mikailovna. Deus queira que nunca venhas a saber o que é ficar viúva, desamparada, com um filho nos braços a quem se quer doidamente. A idade pouco importa para a gente aprender — prosseguiu com altivez— Aprendi à minha custa. Quando tenho de me dirigir a qualquer graúdo, mando-lhe uma, palavrinha: «A princesa fulana deseja avistar-se com Sicrano ou Beltrano,» E meto-me num carro de praça e apresento-me uma, duas, três, quatro vezes, as precisas para conseguir o que pretendo. Pouco me importa o que eles possam pensar de mim.
— Conta-me lá, a quem te dirigiste para pedir pelo Bóris? perguntou a condessa. — Aí o tens já oficial da Guarda, enquanto o meu Nicolau ainda não passou de junker. Não tenho ninguém a quem o recomendar. A quem te dirigiste?
— Ao príncipe Vassili. Foi muito amável. Pôs-se logo à minha disposição. Falou ao imperador — disse a princesa Ana com um ar vitorioso, esquecendo por completo as humilhações a que tivera de sujeitar-se para alcançar os seus fins.
— Que, tal está o príncipe Vassili? Envelheceu? — inquiriu a condessa. — Nunca mais o vi desde o tempo das nossas teatradas em casa dos Rumiantsov. Naturalmente já não se lembra de mim. Fazia-me a corte — acrescentou, sorrindo.
— Está a mesma pessoa — replicou Ana Mikailovna — amável, atencioso. As grandezas não lhe fizeram perder a cabeça. «Lamento poder tão pouco, querida princesa», disse-me ele, «mas dê-me as suas ordens.» É o que te digo, é uma excelente pessoa e um bom parente. Tu bem sabes. Natália, o que o meu filho representa para mim. Nem eu sei o que seria capaz de fazer pela sua felicidade. Mas estou em circunstâncias tão penosas — continuou ela, num tom acabrunhado, e baixando a voz —, tão penosas, que me vejo actualmente numa situação terrível. Aquele infeliz processo em que eu me meti leva-me tudo quanto tenho, e não há maneira de andar para diante. Imagina que estou, como se diz, sem vintém, e não sei como hei-de arranjar dinheiro para pagar o equipamento do Bóris. — Puxou do lenço e pôs-se a chorar. — Preciso de quinhentos rublos, e tudo quanto tenho de meu, neste momento, é uma nota de vinte rublos. Aqui tens a minha situação... A minha única esperança, agora, é o conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov. Se ele não vier em auxílio do afilhado — como sabes, é padrinho do Bóris — e não fizer alguma coisa por ele, tudo quanto eu consegui até agora não serve para nada: não poderei pagar o equipamento do rapaz.
A condessa, de lágrimas nos olhes, ficou calada e pensativa.
— Muitas vezes digo de mim para comigo, e talvez não seja bonito: ali está o conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov, um homem que vive sozinho — e, tem urna fortuna imensa... Para que é que aquele homem vive? A vida para ele é um fardo, enquanto que o Bóris, coitado, agora é que principia a viver.
— Naturalmente não deixa de se lembrar dele no testamento — disse a condessa.
— Quem sabe lá, querida amiga! Estes ricaços, estes nababos, são tão egoístas! Em todo o caso estou disposto a ir visitá-lo com o Bóris e dizer-lhe francamente o que se passa. Pensem de mim o que quiserem, tanto se me dá. Nada tem importância para urna mãe quando está em risco o destino de filho. — Levantou-se para sair. — São duas horas, o vosso jantar é às quatro. Tenho tempo.
E como mulher activa, da capital, que era, para quem () tempo é dinheiro. Ana Mikailovna mandou chamar o filho e saiu com ele.
— Adeus, minha querida — disse para a condessa, que a acompanhou até à porta, — Deseja-me sorte — segredou-lhe, a ocultas do filho.
— Vai visitar o conde Cirilo Vladimirovitch, minha cara?— inquiriu o conde, da sala de jantar, e aparecendo na antecâmara— Se ele estiver melhor, convide o Pedro em, meu nome. Ele já cá esteve em casa, já dançou com as pequenas. Convide-o em meu nome, sem falta, minha cara. Vamos a ver como se porta hoje o Taraska. Está farto de me dizer que o conde Orlov nunca deu um jantar como o que ele me está a preparar,
[XV]
— Meu querido Bóris — disse a princesa Ana Mikailovna para o filho quando a carruagem da condessa Rostov, que os tinha conduzido, chegou à rua atapetada de palha e penetrou no grande pátio do conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov.— Meu querido Bóris — repetiu, enquanto retirava a mão da velha romeira de peles e a pousava no braço do filho, num gesto ao mesmo tempo tímido e enternecido— sê amável, mostra-te atencioso. O conde Cirilo Vladimirovitch sempre é teu padrinho e é dele que depende o nosso futuro. Lembra-te disso, meu querido, sê amável, como tu sabes, quando queres...
— Se eu tivesse a certeza de que de tudo isto sairia alguma coisa além da humilhação que nos espera... — replicou o filho com frieza.— Mas, visto que lhe prometi, cumprirei a minha palavra; é por si que o faço.
O criado, embora tivesse visto a quem pertencia a carruagem parada diante da escada, quis ver quem entrava, mas mãe e filho, sem se fazerem anunciar, penetraram, directamente, no vestíbulo guarnecido de espelhos, entre duas fileiras de estátuas perfiladas nos seus nichos. O criado, observando com um olhar significativo a velha romeira de peles, perguntou quem procuravam — as princesas ou o conde? —, e, ao verificar ser o conde, disse que, como Sua Excelência estava pior. Sua Excelência não recebia ninguém.
— Vamos-nos embora — disse o filho em francês.
— Meu amigo! — implorou a mãe, tocando-lhe de novo no braço, como se quisesse tranquilizá-lo e dar-lhe coragem.
Bóris não disse nada, e sem despir o casacão olhou para a mãe com um ar inquiridor.
— Ouve — disse Ana Mikailovna para o criado, num tom insinuante —, eu bem sei que o conde Cirilo Vladimirovitch está muito mal.., e é precisamente por isso que eu aqui estou... Somos parentes... Não quero incomodar ninguém, meu amigo... Apenas desejava falar com o príncipe Vassili Serguievitch; sei que ele está aqui. Vai anunciar-nos, fazes favor.
O criado, com toda a solenidade, voltou costas e puxou o cordão da campainha que tocava no andar superior.
— A princesa Drubetskaia para o príncipe Vassili Serguievitch — gritou ele a um escudeiro, de calção, escarpins e sobrecasaca, que acorrera e se debruçava da balaustrada da escadaria.
A princesa ajeitou as pregas do vestido de seda tingida, mirou-se no grande espelho de Veneza que pendia (Ia parede e pôs-se a subir a escada, altivamente, ao longo da passadeira, com os seus sapatos cambados.
— Meu caro, prometeu-me — voltou ela para o filho, pegando-lhe no braço para encorajá-lo. O filho, de olhos baixos, seguia-a sem dizer palavra.
Penetraram num salão que conduzia aos aposentos reservados para o príncipe Vassili.
No momento em, que mãe e filho, tendo chegado ao centro da sala, se dispunham a perguntar a um velho criado que viera ao seu encontro qual o caminho a seguir, o batente de bronze de uma das portas girou e o príncipe Vassili, de samarra de veludo, só com uma condecoração, como era próprio da intimidade, apareceu, acompanhando um sujeito moreno, de muito bom aspecto. Era o famoso Dr. Lorrain, de Petersburgo.
— É então positivo?
— Meu príncipe, errare humanum est, mas... — volveu o médico, gaguejando e pronunciando o latim à francesa.
— Está bem, está bem...
Ao ver Ana Mikailovna e o filho, o príncipe Vassili despediu-se do médico e avançou em direcção a eles, calado, mas com uma expressão interrogadora. O filho deu-se conta de que, repentinamente, os olhos da mãe exprimiam uma profunda aflição, e um ligeiro sorriso lhe aflorou aos lábios.
— É verdade, em que penosas circunstâncias nos havíamos de tornar a ver, príncipe... E como vai o nosso querido doente? inquiriu ela, sem parecer notar o olhar frio e ultrajante que ele lhe lançara.
O príncipe Vassili olhou para ela e depois para Bóris, como quem interroga, sem saber o que há-de fazer. Bóris inclinou-se polidamente. O príncipe Vassili, sem corresponder ao seu cumprimento, voltou-se para Ana Mikailovna e respondeu-lhe com um aceno de cabeça e um momo de lábios nada optimista para o doente.
— Será possível?! — exclamou Ana Mikailovna. — Oh, é terrível! — Não pode uma pessoa pensar numa coisa dessas... É o meu filho — acrescentou, apontando Bóris. — Quis vir agradecer-lhe pessoalmente.
Bóris inclinou-se outra vez com toda a correcção. — Acredite, príncipe, um coração de mãe nunca mais esquecerá o que fez por nós.
— Sinto-me feliz por lhe poder ter sido prestável, minha cara Ana Mikailovna — volveu-lhe o príncipe Vassili, compondo o jabot e pondo no seu gesto e na sua voz, em Moscovo, e na presença da sua protegida, não menos importância que em Petersburgo, na soirée de Ana Scherer,
— Faça por ser um bom oficial e por se mostrar digno — — acrescentou, dirigindo-se a Bóris. — — Tenho muito prazer — Está de licença? — interrogou, num tom totalmente indiferente.
— Aguardo ordens. Excelência, para me apresentar no meu novo regimento — replicou Bóris, sem mostrar quer ressentimento perante os modos abruptos do príncipe, quer desejos de prosseguir na conversa, irias respondendo com uma tão respeitosa compostura que o príncipe olhou para ele atentamente.
— Está em casa de sua mãe?
— Vivo em casa da condessa Rostov — tornou Bóris, sem se esquecer de acrescentar: — Excelência.
— Ilia Rostov, que casou com Natália Chinchina — elucidou Ana Mikailovna.
— Bem sei, bem sei — disse o príncipe Vassili, com a sua voz inexpressiva. — Nunca pude compreender como a Natália se decidiu a casar com esse burgesso! Uma pessoa estúpida e ridícula. E ainda por cima jogador, pelo que dizem.
— Mas uma excelente pessoa, meu príncipe — acrescentou Ana Mikailovna, com um certo sorriso, como se ela fosse também de opinião que o conde Rostov era digno de um tal juízo, mas entendesse que as pessoas deviam mostrar indulgência para com um pobre velho. — Que dizem os médicos? — perguntou, depois de um breve silêncio, e afivelando, de novo, uma expressão de grande pesar no rosto cavado pelas lágrimas.
— Há pouca esperança — volveu o príncipe.
— E eu que tanto queria uma vez ainda agradecer a meu tio todas as atenções que ele tem tido para comigo e para com meu filho. É o seu afilhado — acrescentou, como se esta informação devesse causar uma grande alegria ao príncipe Vassili.
Este franziu as sobrancelhas, sem dizer nada. Ana Mikailovna percebeu que ele receava ver nela uma rival na disputa da herança do conde Bezukov, e procurou logo tranquilizá-lo.
— É apenas por muita estima e dedicação por meu tio – disse deixando cair, negligentemente, e com convicção, esta última palavra,— Conheço-lhe muito bem o carácter nobre e franco; mas ele não tem junto de si senão as princesas... Tão novas... Inclinou-se-lhe ao ouvido e acrescentou em voz baixa: — Ele já se preparou para a jornada, príncipe? Estas últimas horas são tão preciosas! Não há momento mais grave, é indispensável prepará-lo, visto estar tão mal. Nós, mulheres, príncipe — sorriu carinhosamente —, nós sabemos melhor do que ninguém falar destas coisas. É indispensável que eu o veja. Por mais penoso que isso seja para mim.., mas estou habituada ao sofrimento.
O príncipe compreendia, e mais do que nunca, que, como na soirée de Ana Scherer, não lhe ia ser fácil desembaraçar-se de Ana Mikailovna.
. Não acha que esta entrevista lhe seria muito penosa, querida Ana Mikailovna? — volveu ele.— É melhor esperarmos para amanhã. Os médicos previram uma crise.
— Mas não se deve esperar em tais momentos, príncipe. Lembre-se que se trata da salvação da sua alma... Ah!, são terríveis, os deveres de um cristão...
Uma porta dos aposentos interiores abriu-se e uma das sobrinhas do conde entrou, uma rapariga de aspecto triste e frio, com o tronco completamente desproporcionado em relação às pernas.
O príncipe Vassili voltou-se para ela.
— Então, como está ele?
— Sempre na mesma. Não admira, com este barulho.., disse a princesa, olhando para Ana Mikailovna, como se ela fosse uma desconhecida.
— Ah!, querida, não a conhecia! — exclamou Ana Mikailovna, com um sorriso feliz e avançando, ligeira, para a sobrinha do conde. — Acabo de chegar e estou às suas ordens para a ajudar e tratar de meu tio. Calculo o que deve ter sofrido — acrescentou com um ar compadecido.
A princesa não disse nada, nem sequer sorriu, e voltou, logo a, desaparecer. Ana Mikailovna descalçou as luvas e instalou-se numa cadeira, em posição conquistada, fazendo sinal ao príncipe Vassili para sentar-se o lado dela.
— Bóris! — disse para o filho, sorrindo-lhe.— Eu vou ver o conde, meu tio: tu, entretanto, meu amigo, procura o Pedro, e não te esqueças de lhe transmitir o convite dos Rostov. Querem-no lá para jantar. Naturalmente não vai, penso eu — acrescentou, para o príncipe,
— Porque não? — observou este, que não parecia lá muito bem disposto.— Ficar-lhe-ei muito grato se me desembaraçar deste jovem, — Está aqui instalado. O conde ainda não pediu uma única vez para o ver.
Encolheu os ombros. Um escudeiro acompanhou Bóris, fazendo-o descer a escada e conduzindo-o depois por outra aos aposentos de Pedro Kirilovitch,
[XVI]
Pedro, que não conseguira decidir-se por uma carreira em Petersburgo, havia sido, de facto, recambiado para Moscovo por causa do seu mau comportamento. A história que se contava em casa dos Rostov era exacta. Pedro tinha tornado parte na cena da amarração do polícia ao lombo do urso. Regressara havia apenas breves dias e, como era seu costume, instalara-se em casa do pai. Embora calculasse que a história já seria conhecida em Moscovo e que as senhoras da roda do pai, sempre mal dispostas para com ele, já teriam aproveitado a ocasião para indispor o conde consigo, nem por isso deixara de se apresentar nos aposentos do pai assim que chegara. Ao entrar no salão, quartel-general das princesas, cumprimentou as senhoras que estavam a bordar enquanto uma delas lia um livro em voz alta. Eram três. A mais velha era uma rapariga severa e de aspecto cuidado, de tronco muito alto, a mesma que aparecera a Ana Mikailovna; essa era a leitora; as duas mais novas, frescas e bonitas, tão parecidas que apenas se distinguiam pelo sinalzinho que uma delas tinha sobre o lábio e que a tornava ainda mais bonita, bordavam ao bastidor. Pedro foi recebido como um morto que ressuscita ou como um pestífero. A mais velha interrompeu a leitura e, sem dizer nada, fitou-o de olhos espavoridos; a segunda, a que não tinha sinal, reproduziu exactamente a expressão da irmã; a mais nova, de feitio jovial e trocista, mergulhou a cabeça no trabalho para esconder o riso que lhe iria provocar a divertida cena com que já contava. Levantou o bastidor e inclinou-se para o bordado, como se estivesse absorta no seu trabalho, mal podendo suster o riso.
— Bom dia, prima — disse Pedro. — Já não me conhece?
— Conheço-o de mais, conheço-o de mais, sim, de mais. — Como está o conde? Posso vê-lo? — continuou, embaraçado, como sempre, mas sem se perturbar.
— O conde está mal física e moralmente, e, pelo que sei, o Pedro tem feito o possível para lhe agravar os seus padecimentos morais.
— Posso vê-lo? — repetiu Pedro.
— Hum... Se o quer matar, sim; se o quer matar, então, faça favor. Olga, vai ver se o caldo do tio está pronto; estamos quase na hora — acrescentou ela, mostrando com isso a Pedro que não faziam outra coisa senão aliviar os sofrimentos do pai, enquanto ele só servia, evidentemente, para o desassossegar.
Olga saiu. Pedro olhou as duas irmãs e disse, pedindo licença para se retirar:
— Então vou-me embora. Quando eu puder vê-lo, espero que me mandem chamar.
Saiu e o riso meio abafado da mais nova ressoou-lhe nas costas.
No dia seguinte, o príncipe Vassili chegava e instalava-se em casa do conde. Mandou chamar Pedro e disse-lhe:
— Meu caro, se se vai comportar aqui como em Petersburgo, acabará mal, é tudo quanto tenho a dizer-lhe. O conde está muitíssimo doente: deve evitar vê-lo por completo.
A partir desse momento nunca mais ninguém pensou em Pedro, que passava os dias nos seus aposentos, no andar de cima.
Quando Bóris entrou no quarto. Pedro passeava de um lado para o outro, detendo-se, de vez em quando, num dos ângulos da sala, gesticulando ameaçadoramente diante da parede, como se desafiasse qualquer inimigo invisível, e lançando olhares severos por cima das lunetas. Depois, retomava a sua caminhada, pronunciava palavras incompreensíveis, encolhia os ombros, agitava os braços.
— A Inglaterra está liquidada — articulava ele, franzindo as sobrancelhas, e apontando fosse o que fosse com o dedo.— O Senhor Pitt, como traidor da nação e do direito dos povos, está condenado a...
Não pôde concluir a sentença que condenava Pitt. Julgava-se Napoleão e na companhia do seu herói atravessava já o perigoso Pas de Calais, a caminho da conquista de Londres, quando viu entrar um jovem e garboso oficial. Calou-se. Tinha deixado de ver Bóris ia este nos seus catorze anos, e não se lembrava realmente dele. Apesar disso, travou-lhe do braço, com os seus modos atenciosos e espontâneos, sorrindo-lhe amistosamente,
— Lembra-se de mim? — perguntou Bóris, serenamente, e com um sorriso gracioso. — Vim com minha mãe visitar o conde, mas, segundo parece, ele não está bem de saúde.
— Sim, digamos, está doente. Estão sempre a incomodá-lo replicou Pedro, procurando lembrar-se donde conhecia aquele mancebo.
Bóris via perfeitamente que Pedro o não reconhecia, mas não se achava na obrigação de lhe dizer quem era. E fitou-o sem o menor embaraço.
— O conde Rostov pede-lhe que vá hoje jantar a casa dele — disse, após uma pausa assaz longa e algo embaraçosa para Pedro.
— Ah, o conde Rostov! — exclamou Pedro muito contente.— Então é o Ilia, o filho do conde. E eu que o não tinha reconhecido no primeiro momento. Lembra-se quando íamos passear ao Monte dos Pardais (Passeio célebre em Moscovo. (N, dos T.) com Madame Jacquot... Já lá vai há muito.
— Está enganado — disse Bóris, sem pressa, e com um sorriso protector e um pouco trocista. — Sou Bóris, o filho da princesa Ana Mikailovna Drubetskaia. Ilia é o Rostov pai. O filho chama-se Nicolau. E não conheço qualquer Madame Jacquot.
Pedro abanou a cabeça e gesticulou, como se quisesse enxotar moscas ou abelhas importunas.
— Ah!, que estou eu a dizer? Confundo tudo. Há tantos parentes em Moscovo! Já sei, o Bóris.., perfeitamente. Até que enfim que estamos de acordo. Ora, diga-me, que pensa da expedição de Bolonha? Não acha que os Ingleses ficarão em maus lençóis se Napoleão conseguir atravessar o canal? Na minha opinião, a expedição é coisa viável. Desde que Villeneuve não faça alguma asneira.
Bóris não sabia absolutamente nada acerca da expedição de Bolonha; não lia os jornais, e era a primeira vez que ouvia falar em Villeneuve.
— Nós, aqui, em Moscovo, preocupamo-nos mais com jantares e mexericos do que com política — disse ele no seu tom sereno e escarninho. — Nada sei a esse respeito, nem tenho opinião sobre o assunto. Moscovo é uma cidade que presta sobretudo atenção aos escândalos. Neste momento não se fala noutra coisa senão de si e do conde.
Pedro sorria, e o seu sorriso bom parecia traduzir o receio de que o interlocutor se descaísse com qualquer palavra de que pudesse vir a arrepender-se. Mas Bóris falava distintamente, com nitidez e secura, fitando-o nos olhos.
— Moscovo não tem mais que fazer senão coscuvilhar — continuou. — Toda a gente está morta por saber a quem é que o conde vai deixar a sua imensa fortuna, embora muito bem possa acontecer que ele cá fique para nos enterrar a todos, e faço votos para que assim seja,
— Sim, tudo isto faz tristeza — murmurou Pedro.— Muita tristeza.
Ainda não deixara de temer que o oficial, estouvadamente, abordasse qualquer conversa embaraçosa para ele.
— Como deve calcular — continuou Bóris, corando ligeiramente, mas sem alterar o seu tom e o seu semblante reservados —, como deve calcular, o que toda a gente espera de um ricaço é vir a receber dele qualquer coisa.
«Ora aí está», disse Pedro com os seus botões.
— E era precisamente isso que eu lhe queria dizer, para evitar equívocos: que está muito enganado se nos considera, a minha mãe e a mim, na categoria dessa gente. Nós somos bastante pobres, mas posso garantir-lhe, pelo menos no que me diz respeito, que é precisamente porque seu pai é rico que eu me não considero seu parente, e que tanto eu como minha mãe nunca lhe pediremos seja o que for, nem nada aceitaremos dele.
Levou seu tempo antes que Pedro compreendesse, mas assim que o conseguiu deu um pulo do divã, pegou em Bóris por debaixo do braço, com a sua vivacidade de gestos e a sua habitual maneira desajeitada, e, corando ainda mais que o seu interlocutor, pôs-se a dizer-lhe, num misto de pudor e embaraço:
— Que está a dizer? Será possível que... Quem é que seria capaz de pensar... Eu sei perfeitamente...
Mas Bóris mais uma vez lhe cortou a palavra.
— Estou satisfeito por ter-lhe dito tudo isto. Naturalmente não lhe foi muito agradável de ouvir, desculpe-me — acrescentou, para tranquilizar Pedro, quando quem devia esperar ser tranquilizado era ele próprio.— Mas espero que o não tenha ofendido. Tenho por princípio usar de franqueza... Que resposta quer que eu dê? Sempre vai ao jantar dos Rostov?
Bóris, depois de assim se ter desembaraçado de um penoso dever e de ter transferido para outrem a falsa situação em que se encontrava, tomou-se muito amável, como era seu costume.
— Ouça cá — disse Pedro, tranquilizado— Você é uma pessoa extraordinária. O que acaba de me dizer é bonito, muito bonito. Claro que me não conhece. Há tantos anos que nos não vemos.., desde crianças... Talvez suponha que eu... Sim, compreendo-o perfeitamente. Não teria feito uma coisa dessas, não teria tido coragem, mas acho muito bem. Gostei muito de o conhecer. É curioso — acrescentou, após uma breve pausa e sorrindo— o que foi capaz de pensar de mim! — Pôs-se a rir.— Mas que importância tem isso? Havemos de ter ocasião de nos conhecermos melhor, não é verdade? — Apertou-lhe a mão.— Fique sabendo que eu ainda não pus os pés no quarto do conde. Não me mandou sequer chamar... Tenho pena dele... Mas que hei-de eu fazer?
— Acha que Napoleão será capaz de levar a cabo a travessia? — perguntou Bóris, com um sorriso.
Pedro disse de si para consigo que Bóris queria mudar de conversa, e, fazendo-lhe a vontade, pôs-se a descrever-lhe, pormenorizadamente, as vantagens e as dificuldades da tentativa de Bolonha.
Um criado veio procurar Bóris, mandado pela princesa, a qual ia partir. Pedro prometeu aparecer no jantar, e, para mais estreitar os seus laços com Bóris, apertou-lhe energicamente a mão. Fitando-o amistosamente através dos cristais das suas lunetas... Depois de Bóris sair continuou por muito tempo a passear no quarto, já não a rachar, de alto a baixo, inimigos invisíveis, mas sorrindo à lembrança daquele rapaz amável, ao mesmo tempo inteligente e resoluto.
Como é vulgar com a gente muito moça, e especialmente se vive isolada. Pedro sentia por aquele rapaz um enternecimento sem razão de ser, prometendo de si para consigo fazer dele um verdadeiro amigo.
O príncipe Vassili acompanhava a princesa. Esta levava o lenço nos olhos e tinha o rosto coberto de lágrimas.
— É horrível, é horrível! — exclamava ela.— Mas hei-de cumprir o meu dever custe o que custar. Hei-de vir tomar conta dele. Não o podem deixar neste estado. Cada minuto que passa é tempo perdido. Não sei porque estão à espera as princesas. Que Deus me inspire a maneira de o preparar...
— Adeus, meu príncipe, que Deus o ajude!...
— Adeus, minha amiga — replicou o príncipe Vassili, ao deixá-la.
— Oh, que situação terrível — disse a mãe para o filho, ao subirem para a carruagem.— Quase já não conhece ninguém. — Não chego a compreender, mãe, quais são as relações dele com o Pedro — observou o filho.
— O testamento nos há-de dizer, meu amigo. E o nosso destino depende disso...
— Mas, o que é que a leva a pensar que ele nos deixa alguma coisa?
— Ah, meu filho! Ele é tão rico e nós somos tão pobres!
— Isso não é uma razão, mãe...
— Ai, meu Deus, meu Deus, o estado em que ele está! — suspirava ela.
[XVII]
Depois que Ana Mikailovna e o filho saíram para se dirigir a casa do conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov, a condessa Rostov ficou por muito tempo sozinha, de lenço nos olhos. Por fim, tocou a campainha.
— Que andas tu a fazer? — disse ela, irritada, para a criada, que tinha tardado alguns minutos a aparecer. — Não queres fazer as tuas obrigações? Nesse caso, posso arranjar-te outra casa.
A condessa tão perturbada ficara com as aflições e a humilhante pobreza da amiga que estava de mau humor, e quando se irritava falava sempre assim à pobre rapariga.
— Peço desculpa, minha senhora.
— Vai dizer ao senhor conde que venha cá.
O conde, no seu passo claudicante, veio ao encontro da mulher, com o ar habitual de quem é surpreendido a fazer qualquer coisa mal feita.
— Oh, condessinha! Aquilo é que é um sauté de galinholas au Madère que nós lá temos, minha querida! Já o provei. Fiz muito bem em dar mil rublos ao Taraska. Vale-os bem!
Sentou-se ao lado da condessa, apoiando os cotovelos nos joelhos, os cabelos brancos em desordem.
— Que deseja, condessa?
— Olhe lá, querido... Que nódoa é essa? — disse ela, apontando-lhe o colete.— Naturalmente, foi o sauté — acrescentou, sorrindo.— É que preciso de dinheiro.
Tinha assumido uma expressão tristonha.
— Ah, condessinha!...
O conde deu-se pressa em ir buscar a carteira.
— Preciso de muito dinheiro, conde; de quinhentos rublos.
E, puxando do seu lencinho de cambraia, pôs-se a esfregar o colete do marido.
— É já, é já. Eh lá! Quem é que está aí? — gritou, no tom de um homem que sabe que basta chamar para logo acorrerem ao seu apelo. — Manda cá o Mitenka.
Mitenka, o jovem de boa família a educar em casa do conde, e, que estava à testa de todos os seus negócios, entrou na sala calmamente.
— Ouve cá — disse o conde para o jovem, que se aproximou em atitude respeitosa. — Traz-me... — Ficou um momento a pensar. — Sim, setecentos rublos. Mas, toma cuidado, não me tragas dessas notas rasgadas e sujas, como da outra vez. Quero notas novas, são para a condessa.
— Sim. Mitenka, que sejam limpas — apoiou a condessa, com um profundo suspiro.
— Quando precisa desse dinheiro. Excelência? — perguntou Mitenka.— É bom que Sua Excelência saiba que... Mas não se aflija — acrescentou, notando que a respiração do conde se tornava opressa, sinal de que principiava a encolerizar-se. — Tinha-me esquecido, precisamente... Quer já essa importância?
— Quero, quero, trá-la. É para a dares à condessa.
— Isto é que é um tesouro, este Mitenka — prosseguiu ele, sorrindo, assim que o rapaz saiu.— Não me venham dizer que é impossível. Isso é que eu não posso tolerar. Tudo é possível.
— Ah, o dinheiro, conde, o dinheiro, as aflições que o dinheiro causa neste mundo! — exclamou a condessa. — E eu preciso muito deste dinheiro.
— Pois, sim, condessinha, toda a gente sabe que é uma perdulária — disse o conde; e, depois de beijar a mão da mulher, retirou-se para o seu gabinete.
Quando Ana Mikailovna voltou de casa de Bezukov, já a condessa tinha em seu poder o dinheiro, todo em notas novas, em cima de uma mesa, debaixo do lenço de assoar, e Ana Mikailovna viu perfeitamente que a amiga estava preocupada.
— Então, minha amiga? — inquiriu a condessa.
— Ah!, que situação horrível a dele! Está irreconhecível. E tão mal, tão mal! Estive junto dele apenas uns momentos, e não lhe pude dizer uma única palavra...