Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 11 de 18 · parte 4/6

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Guerra e Paz

Terceira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Assim era Moscovo, enquanto Napoleão, inquieto, fatigado, carrancudo, andava de um lado para o outro na esplanada de Karner-Koleskovo, aguardando a chegada da delegação: cerimónia puramente convencional, mas que ele considerava indispensável.

Nos diversos bairros de Moscovo apenas restavam algumas pessoas movendo-se sem saberem o que faziam, por simples hábito.

Acabaram, com as precauções devidas, por comunicar a Napoleão que Moscovo estava vazia. O imperador fitou, colérico, aquele que lhe deu a notícia e continuou a andar de cá para lá em silêncio.

— A minha carruagem! — ordenou por fim.

E subindo para o carro, na companhia do ajudante-de-campo de serviço, dirigiu-se para os arrabaldes da cidade. «Moscovo deserta! Que acontecimento inverosímil!», dizia de si para consigo.

Não chegou a entrar na cidade e deteve-se numa estalagem dos arrabaldes, em Dorogomilov.

O golpe de teatro falhara.

 

[XXI]

As tropas russas tinham desfilado em Moscovo das duas horas da madrugada às duas horas da tarde, levando consigo os últimos habitantes e os últimos feridos.

Durante o desfile das tropas a maior confusão se verificou nas pontes de Pedro, do Moskva e do Iauza.

Enquanto as tropas se cindiam em duas partes para contornarem o Kremlin pelas pontes do Moskva e de Pedro, numerosos soldados, aproveitando a paragem e a precipitação, voltaram para trás. Passando sub-repticiamente pela porta Borovitski e pela Igreja do Bem— Aventurado Basílio, dirigiram-se à Praça Vermelha, onde pressentiam que lhes seria possível apoderarem-se facilmente dos bens alheios. Uma, multidão que fazia lembrar a de um dia de feira encheu todas as entradas e ruelas de Gostinii Dvor. Não se ouviam, porém, as vozes melífluas e falsamente acolhedoras dos feirantes e bufarinheiros. Não se via a turbamulta garrida dos habituais compradores. Por toda a parte eram fardas e capotes de soldados sem armas que entravam nas lojas de mãos vazias e delas saíam a abarrotar. Alguns comerciantes, poucos, com os seus empregados, atarefavam-se pelo meio dos militares, abrindo e fechando as lojas, tentando levar os seus artigos para sítio seguro. Na Praça de Gostinii Dvor rufavam tambores. Mas o som dos tambores já não reunia os militares, como antigamente. Pelo contrário, dispersava-os ainda mais. A mistura com os soldados viam-se nas lojas e ruelas homens de cafetã sujo e de cabeça rapada (Os malfeitores que tinham sido postos em liberdade. (N, dos T.). Dois oficiais, um montado num cavalicoque cinzento-escuro, uma faixa a tiracolo sobre a farda, e, outro, de capote e a pé, estacionavam, conversando, à esquina da Rua Ilinka, quando outro se acercou deles.

— O general ordena que se corra imediatamente daqui com as praças custe o que custar. Isto não tem classificação! Metade dos homens debandou.

— Aonde vais tu? Aonde vão vocês?... — gritou a três soldados de infantaria, que, sem armas, as abas dos capotes levantadas, se introduziam numa loja ali mesmo. — Agarrem-nos! Canalha!

— Trate lá de os reunir! — comentou um dos oficiais. — Não há maneira de os juntar. É preciso irmo-nos daqui, quanto mais depressa melhor para que os que ainda restam não desapareçam também. Não há outra coisa a fazer!

— E como havemos de avançar? Fizeram alto lá adiante, a ponte está atulhada e não há maneira de se sair daqui. O melhor era cerrar fileiras para impedir a fuga dos que ainda nos restam,

— Pois trate disso! Corra com eles daqui! — gritou o comandante.

O oficial da faixa desmontou do cavalo, chamou um tambor e, dirigiu-se com ele para as arcadas. Alguns grupos de soldados debandaram. Um comerciante, com as bochechas cobertas de borbulhas em volta do nariz, aproximou-se do oficial num passo rápido e um tanto amaneirado, gesticulando muito. Na sua expressão havia uma resolução serena e inabalável.

— Excelência – disse — faça-nos a mercê de nos conceder a sua protecção. Não regateamos ninharias. Será para nos um grande prazer que queira escolher qualquer coisa. Aqui tem um bom pano. Mesmo duas peças, para um cavalheiro como o senhor, não faz mal. Nós compreendemos. Mas que vem a ser isto? É um saque. Peço-lhe, mande a guarda para aqui; ao menos que possamos fechar as lojas...

Vários comerciantes se acercaram do oficial.

— Ora, deixem-se de palavreado inútil! — disse um deles, magro, de expressão severa. — Quando nos cortam a cabeça, não vale a pena chorar a perda dos cabelos. Pois que levem o que quiserem. E fez com a mão um gesto enérgico, meio voltado para o lado do oficial.

— Sim, sim, Ivan Sidoritch, para ti é, o mesmo — replicou o primeiro. — Queira vir por aqui, Excelência!

— Que dizes? Eu sei o que digo — exclamou o magricela. — Aqui, nas minhas três lojas, tenho para cima de cem mil rublos de mercadoria. Quem vai guardar isto depois de as tropas partirem? A gente bem os conhece. Contra a vontade de Deus nada pode o braço do homem.

— Por favor. Excelência. — repetia o primeiro comerciante, todo mesuras.

O oficial continuava indeciso e a sua atitude traía irresolução.

— E que tenho eu com isso? — exclamou, de súbito, dirigindo-se a passos rápidos para as arcadas.

Numa das lojas cuja porta estava aberta ouviam-se socos e invectivas e, na altura em que o oficial se aproximava, saía lá de dentro, correndo, um homem de armiak (Trapo próprio dos cocheiros russos. (N, dos T.)sujo e cabeça rapada.

Encolhendo-se, esgueirou-se por entre o oficial e os lojistas. Aquele lançou-se sobre os soldados que estavam dentro da loja. Nesse momento, contudo, ressoaram espantosos clamores da imensa multidão aglomerada na ponte do Moskva, e o oficial correu para a praça.

— Que se passa? Que foi? — perguntou, mas o seu camarada já se precipitara para onde vinham os gritos, metendo ao longo da Igreja do Bem— Aventurado Basílio.

O oficial montou a cavalo e seguiu-o. Ao chegar à ponte, viu duas peças retiradas das carretas, a infantaria em marcha, carroças voltadas, rostos esgazeados e soldados rindo a bandeiras despregadas. Junto das peças de artilharia estava uma carroça tirada por dois cavalos. Atrás das rodas da carroça, amarrados uns contra os outros, havia quatro galgos. Na carroça amontoavam-se muitos objectos e lá no alto, junto a uma cadeirinha de criança, de pés para o ar, sentava-se uma mulher, que soltava gritos agudos e desesperados. O oficial soube pelos seus camaradas que os gritos eram devidos ao facto de o general Ermolov, ao ter conhecimento de que os soldados se tinham dispersado pelas lojas e que os habitantes se acumulavam junto à ponte, mandar retirar as peças das carretas e gritar que ia mandar fazer fogo, para exemplo.

Então a multidão derrubara as carroças e empurrando-se esmagando-se, em grandes gritos, acabara por desimpedir a ponte, podendo as tropas prosseguir na sua marcha.

 

[XXII]

No centro da cidade, porém, tudo estava deserto. Nas ruas não havia quase vivalma. As portas dos prédios e das lojas estavam fechadas. Aqui e ali, em volta das tabernas, ouviam-se gritos isolados ou cantorias de bêbedos. Ninguém circulava de carruagem, raramente de ouviram os passos de um peão. Na Rua Povarskaia, vazia, o sossego era completo. No imponente pátio do palácio dos Rostov, além de restos de palha e excrementos de cavalo, não se via mais nada nem ninguém. De resto, lá dentro, em casa, onde ficara todo o mobiliário, havia apenas duas pessoas, que estavam instaladas no salão nobre: o porteiro Ignate e o cossaco Michka, neto de Vassilitch, que ficara em Moscovo com o avô. Michka abrira o cravo e tocava só com um dedo.

O porteiro, de mãos à cinta e sorriso nos lábios, mirava-se a um grande espelho.

— Não é verdade que toco muito bem? Hem! Tio Ignate! — exclamou o rapaz, pondo-se, de súbito, a bater com as duas mãos em cima das teclas.

— Não há dúvida! — replicou Ignate, maravilhado com a imagem que o espelho lhe reflectia, cada vez mais risonha.

— Não tem vergonha! Sim, não tem vergonha nenhuma! — disse, por detrás deles, Mavra Kuzminitchna, penetrando na sala — sem fazer ruído. — Olhem como ele arreganha os dentes! Não servem para mais nada. Tudo está ainda por arranjar, e o Vassilitch não pode mais. Eu te direi!

Depois de ajeitar o cinturão, Ignate, que deixara de sorrir, baixou os olhos e saiu da sala.

— Tiazinha, só mais um bocadinho — suplicou o pequeno. — Deixa estar que eu te dou «mais um bocadinho», maroto! — exclamou Mavra Kuzminitchna, erguendo para ele a mão. — Trata de arranjar depressa o samovar para o teu avô.

Mavra Kuzminitchna espanejou os móveis, fechou o cravo e, despedindo um fundo suspiro, saiu do salão, fechando a porta à chave.

Quando chegou ao pátio, pôs-se a pensar no que deveria fazer: iria ao pavilhão tomar chá com Vissilitch, ou arranjaria na despensa o que ainda não estava em ordem?

Passos apressados ressoaram no silêncio da rua detendo-se em frente da cancela do portão e o ferrolho rangeu impelido por uma mão que fazia força para abri-lo.

Mavra Kuzminitcha dirigiu-se para a porta.

— Que deseja?

— O conde, o conde Ilia Andreitch Rostov.

— E o senhor quem é?

— Sou oficial. Precisava de falar com ele — replicou o desconhecido com o agradável timbre de voz de um senhor russo. Mavra Kuzminitchna abriu a porta. Um oficial dos seus dezoito anos, de rosto redondo, tipo dos Rostov, penetrou no pátio.

— Paizinho, os senhores foram-se embora. Dignaram-se partir ontem à noite. — explicou Mavra Kuzminitchna, amavelmente.

O jovem continuava à porta, indeciso, sem saber se devia ou não entrar. Deu um estalo com a língua.

— Oh, que aborrecimento! — exclamou. — Devia, ter vindo ontem... Que pena!

Entretanto a velha governanta examinava, com simpatia, atentamente, a fisionomia do desconhecido, em que havia muitos traços dos Rostov, o seu capote esfarrapado e as botas velhas que calçava.

Que queria do conde? — inquiriu ela.

— Agora... nada há a fazer! — volveu o oficial, desconsolado, e deu um passo para a porta.

Mas deteve-se ainda indeciso.

— É que... — explicou ele, de súbito. — Eu sou parente do conde e ele sempre foi muito bom para mim. E, como vê, o meu vestuário — acrescentou, mirando o capote e as botas, enquanto sorria cordialmente — está um tudo-nada usado e estou sem cinco réis. Queria por isso pedir ao conde...

Mavra Kuzminitchna não o deixou concluir.

— Quererá esperar um instante, Paizinho, só um instante? — disse ela.

E enquanto o oficial soltava a mão do ferrolho, Mavra Kuzminitchna, com o seu passinho pressuroso de velha, encaminhou-se para o pavilhão.

Entretanto, o oficial pôs-se a passear no pátio, de cabeça baixa e remirando as botas rotas. «Que maçada não encontrar o meu tio. Mas que simpática velha! Que teria ido fazer? Era bom que me dissesse que ruas devo eu seguir para apanhar o meu regimento, a esta hora lá para os lados da Rogojskaia.» Mavra Kuzminitchna surgiu daí a pouco no cunhal da casa, preocupada, mas decidida, trazendo na mão um tabaqueiro atado nas pontas. Depois de alguns passos em direcção ao desconhecido, desfez o nó do lenço, retirou de dentro uma nota de vinte rublos e precipitadamente meteu-a na mão do oficial.

— Se Sua Excelência estivesse em casa. é claro que o receberia como seu parente, mas assim...

Mavra Kuzminitchna parecia envergonhada e confusa; o oficial, porém, sem se fazer rogado, lentamente, pegou na nota e agradeceu a dádiva.

— Se o conde estivesse em casa... — prosseguiu a velha, desculpando-se. — Que Jesus Cristo o acompanhe, paizinho. Que Deus e, proteja — acrescentou seguindo o oficial e fazendo-lhe uma reverência.

O oficial dir-se-ia rindo para si mesmo e, abanando a cabeça, pôs-se a andar em passo acelerado, ao encontro do seu regimento, ao longo das ruas desertas, direito à ponte do Iauza. Mavra Kuzminitchna, os olhos cheios de lágrimas, por muito tempo ali ficou plantada atrás da porta fechada, pensativa, abanando a cabeça: o oficialzinho desconhecido despertara nela uma súbita onda de ternura e piedade maternal.

 

[XXIII]

Numa casa por acabar da Rua Varvarka, com uma taberna no rés-do-chão, ouviam-se gritos e canções de bêbedos. Numa divisão suja, sentados em redor de uma mesa, havia dez operários, Bêbedos, cobertos de suor, os olhos nublados, cantavam, abrindo muito a boca. Cada um entoava para seu lado, fazendo grandes esforços, sem entusiasmo, não, claro, porque isso lhes desse prazer, mas apenas para mostrarem que estavam bêbedos e que se divertiam. Só um deles, um rapagão louro, alto, de cafetã azul, estava de pé. Podia dizer-se que tinha uma bela cara, de nariz direito e fino, se não fossem os seus lábios cerrados, que remexiam sem cessar, e os olhos imóveis, turvos e sombrios. Dominava, pela estatura, todos os demais cantores e como que para dirigir o coro ia agitando por cima das cabeças, num movimento solene e desajeitado, um braço branco, nu até ao cotovelo, cujos dedos da mão separava de maneira pouco natural. A manga do casaco estava constantemente a descair-lhe para cima do braço, e ele, com a outra mão, voltava a arregaçá-la cuidadosamente, como se fosse da maior importância conservar desnudo o braço branco e musculoso que estava sempre a agitar. No meio daquela cantoria ouviu-se lá para o vestíbulo e alpendre a algazarra de uma altercação. O rapaz alto fez calar os cantores com um gesto da mão.

— Basta! — gritou, numa voz de comando. — Há pancada, rapazes!

E ei-lo que, de mangas arregaçadas, se precipita no alpendre. Os demais operários seguiram-lhe os passos. Aqueles bêbedos tinham trazido ao taberneiro nessa manhã, para lhe pagar o vinho que beberam, couros da fábrica em que trabalhavam. Os serralheiros da vizinhança, supondo a taberna assaltada, queriam entrar à força no estabelecimento. Eis porque no alpendre se chegara a vias de facto.

O dono da taberna debatia-se com um deles, o qual, no momento em que os operários apareceram, tendo-se-lhe escapado das mãos, fora cair estatelado no passeio.

Um seu companheiro atirou-se ao dono da taberna. O rapaz alto, das mangas arregaçadas, deu um soco no serralheiro, vociferando como um selvagem.

— Rapazes! Estão a matar os nossos companheiros!

Entretanto, o primeiro serralheiro, que se erguera do chão, ao passar a mão pela cara ensanguentada, principiou a gritar, numa voz lastimosa:

-Ó da guarda! Mataram-me... Irmãos, mataram um homem! Irmãos!

— Pai do Céu! Mataram um homem, mataram um homem! — esganiçou-se uma mulher que surgiu de uma porta vizinha.

A multidão aglomerava-se em torno do serralheiro ensanguentado.

— Não te basta roubares o povo até lhe arrancares a ultima camisa — vociferou alguém dirigindo-se ao taberneiro. — Agora ainda rios queres matar? Bandido!

O rapagão, no alto da escada do alpendre, olhos nublados, ora fitava o taberneiro ora os serralheiros, perguntando a si mesmo com qual deles iria bater-se.

— Assassino! — de súbito, dirigindo-se ao taberneiro. — Amarrem-no, rapazes!

— O quê? A mim, amarrarem-me a mim? — exclamou este, libertando-se dos agressores, e, tirando o boné, arremessou-o ao chão.

Dir-se-ia que este gesto encerrava uma misteriosa ameaça. Os operários, que caíam sobre ele, detiveram-se, indecisos.

— Irmão, eu conheço muito bem as leis e sou pela ordem. Vou queixar-me à polícia, Hem! Julgas que não vou? A ninguém é permitido, no dia de hoje, assaltar a casa alheia, percebe? — acrescentou, apanhando o boné do chão.

— Pois vamos a isso! Que julgas tu? Vamos a isso! — repetiram por sua vez o serralheiro e o rapaz alto, chefe dos operários. E ambos se meteram a caminho do posto da polícia.

O serralheiro, com a cara coberta de sangue, seguia atrás deles. Operários e mirones acompanhavam-nos falando e gritando. A esquina da Rua Morosseika, diante de uma grande casa com tabuleta de sapateiro e as portadas das janelas todas fechadas, estavam uns vinte homens, de rosto triste, magros, de aspecto exausto, de camisões e cafetãs esfarrapados.

— Que pague o que nos deve! — dizia um deles, mestre sapateiro, esquálido, de barba rala e sobrancelhas espessas. Sugou-nos o sangue e agora que nos amolemos! Foi-nos entretendo, entretendo, toda a semana, e agora, que não podemos mais, desandou.

Ao ver o grupo que se aproximava calou-se e todos os seus companheiros se deram pressa em juntar-se as que, cheios de curiosidade, se aproximavam.

— Aonde vão vocês?

— É bem de ver, a polícia!

— Olha lá, é verdade que os nossos não levaram a melhor?

— Que estás tu para aí a dizer? Abre os ouvidos ao que se diz.

Sucediam-se perguntas e respostas O taberneiro, aproveitando a confusão, esgueirou-se de novo para o estabelecimento.

O rapaz alto, sem, dar sequer pelo desaparecimento do inimigo, sempre de mangas arregaçadas e grandes gestos, não se calava um só instante, atraindo a atenção de toda a gente. À volta dele é que as pessoas de preferência se comprimiam, esperando vê-lo tranquilizá-los a todos.

— E ele a dar-lhe com a ordem, com a lei, mas isso não é com a gente, é com as autoridades! Não acham que tenho razão, povo ortodoxo? — declamava a gosto. — Julgará ele que as autoridades também se foram embora? Então como havíamos nós de passar sem autoridades? Era uma ladroeira pegada.

— Tudo isso são tolices! — respondeu alguém do meio da turba. — Julgas que vão abandonar Moscovo? Meteram-te essa no bestunto e acreditaste. Soldados é o que há mais para aí. Não os deixarão entrar! Para isso aí estão as autoridades. Ouve o que este está a dizer — aconselhava, apontando para o rapaz alto, que perorava.

Perto de Kitai-Gorod, outro pequeno grupo rodeava um homem de capote de lã, com um papel na mão.

— Está a ler um ucasse! Estão a ler um ucasse — gritaram vozes, e toda a gente acorreu a ouvir o pregoeiro.

O homem de capote de lã lia a proclamação de 31 de Agosto. Ao ver-se rodeado por tanta gente pareceu perturbado, mas, a instâncias do operário que se havia aproximado dele, retomou a leitura com um ligeiro tremor na voz.

«Amanhã de madrugada irei encontrar-me com o príncipe Sereníssimo». «Sereníssimo!», repetiu o folgazão, com solenidade, sorrindo, de sobrancelhas carregadas...

«Para discutir com ele, agir e ajudar as nossas tropas a aniquilar esses bandidos. Havemos de os fazer passar um mau bocado...» O pregoeiro calou-se.

«Assim mesmo!», gritou o rapazola triunfante. «Isso é que vai ser uma lição...»

«E acabaremos com a raça desses intrusos. Voltarei à hora de jantar e então mãos à obra: entraremos em acção, acabaremos o que está principiado e não mais se ouvirá falar nesses bandidos.»

O pregoeiro leu estas últimas palavras no meio de um profundo silêncio. O rapaz alto deixou descair a cabeça, acabrunhado. Evidentemente o remate da proclamação a ninguém agradava. Sobretudo as palavras «Voltarei à hora de jantar» é que embaraçavam tanto o pregoeiro como os ouvintes.

A excitação do povo atingira tal calor que semelhante banalidade naquele momento não podia deixar de parecer prosaica e inadmissível. Toda a gente se teria sabido exprimir assim e um ucasse emanado das mais altas autoridades tinha obrigação de ser concebido noutros termos.

Toda a gente permanecia silenciosa, de cabeça baixa. O rapaz alto andava de um lado para o outro como que falando sozinho.

«Era preciso perguntar-lhe a ele?... Olhem, aí está ele!... Claro, vamos perguntar-lhe!... Que julgam? Sim, ele explicar-nos-á...», disseram, de súbito, várias vozes lá das últimas filas do público, e todas as atenções se volveram para a carruagem do chefe da polícia, o qual acabava de chegar à praça acompanhado de dois dragões a cavalo.

O chefe da polícia, por ordem do conde, fora lançar fogo às embarcações, e com isso ganhar uma boa maquia, que trazia consigo nas algibeiras. Ao ver aquela gente caminhar para ele gritou ao cocheiro que parasse.

— Que vem a ser isto? — inquiriu dos homens que um por um, timidamente, se aproximavam da carruagem.

— Que vem a ser isto? Que gente é esta? — repetiu, ao ver que lhe não respondiam.

— Excelência... — disse o homem do capote de lã. — Excelência, de acordo com os desejos de Sua Excelência o Conde, estes homens querem cumprir o seu dever sem poupar as suas vidas e não se trata de uma revolta, como se disse da parte de Sua Excelência...

— O conde não se foi embora, ainda aí está. Recebereis as suas instruções — disse o chefe da polícia. — Vamos embora! acrescentou, para o cocheiro.

A multidão juntara-se em volta dos que tinham ouvido a palavra do representante do Poder e via a carruagem afastar-se.

O chefe da polícia voltou-se assustado para onde a multidão acorria e disse qualquer coisa ao cocheiro. Os cavalos partiram à desfilada.

«Estão a comer-nos as papas na cabeça, rapazes! Vamos a casa do conde! Não o deixaremos escapar, rapaziada! Tem de nos prestar contas. Alto! Alto!», gritaram várias vozes, e a multidão precipitou-se, correndo, atrás da carruagem que se afastava.

Na peugada do chefe da polícia, o povo, em grande alarido, dirigiu-se para a Rua Lubianka.

«Os fidalgos e os comerciantes puseram-se a andar e nós, nós que arrebentemos para aqui! Seremos cães, porventura?», gritava a multidão.

 

[XXIV]

No dia 1º de Setembro, pela noite, depois da sua entrevista com Kutuzov, o conde Rostoptchine regressou a Moscovo magoado e triste; não o tinham ouvido na reunião do conselho de guerra.

Kutuzov não prestara a mais pequena atenção à sua proposta no sentido de se defender a capital. Surpreendera-o muito a nova teoria adoptada pelo estado-maior segundo a qual o sossego da cidade e os sentimentos patrióticos dos seus habitantes eram não só coisas secundárias, mas desprezíveis e sem qualquer alcance. Depois da ceia estendeu-se, vestido como estava, em cima de um canapé. À uma hora da madrugada foi acordado por um correio que lhe trazia uma carta de Kutuzov. Pedia-lhe este, visto as tropas baterem em retirada pela estrada de Riazan, para além de Moscovo, que enviasse polícias proteger a sua passagem através da cidade. Não era novidade para Rostoptchine. Pressentira aquilo mesmo muito antes da sua entrevista da véspera com o general-chefe, no monte Polclonaia, no dia seguinte ao da batalha de Borodino, visto ter ouvido os generais chegados a Moscovo declararem unanimemente ser impossível travar uma batalha, e todos os dias, com o seu consentimento, saírem de Moscovo, com destino a lugar seguro, os bens da coroa e metade dos habitantes da capital já terem abalado. Mesmo assim, aquela ordem de Kutuzov, expedida como uma simples nota e recebida durante a noite, quando ele dormia o seu primeiro sono, surpreendeu-o e irritou-o extraordinariamente.

Mais tarde, quando quis explicar o que fizera naquele momento, repetiu, várias vezes, nas suas Memórias, que tivera então como objectivo principal «manter a tranquilidade em Moscovo e evacuar os habitantes!» Se fizermos fé nas suas palavras, tudo quanto fez foi irrepreensível. Porque não tinham levado, então, da cidade os tesouros moscovitas, as armas, os cartuchos, a pólvora, as reservas de trigo? Porque foram enganados milhares de habitantes com a afirmação de que a cidade não capitularia, o que fez que ficassem arruinados? Para que a tranquilidade fosse mantida, explica Restoptchine. Mas porque se evacuaram, então, montes e montes de papéis inúteis das repartições? Porquê o balão de Leppich e tantas outras coisas? Para que a cidade ficasse vazia, replica ele ainda. Basta a tranquilidade pública estar ameaçada para tudo se justificar. Também as chacinas do Terror só tiveram em vista a tranquilidade pública.

Em que se baseava então o conde Rostoptchine para temer que a tranquilidade pública, em 1812, viesse a ser perturbada em Moscovo?

Nem em Moscovo nem em qualquer outra parte da Rússia, aquando da chegada do inimigo, se passou fosse o que fosse parecido com uma rebelião. A 1 e 2 de Setembro ainda havia na capital mais de dez mil pessoas e além do ajuntamento no pátio da residência do governador, por ele próprio provocado, nenhum outro incidente ocorreu. Evidentemente que ainda se teria receado menos qualquer efervescência popular se depois de Borodino, quando o abandono de Moscovo se tornou coisa certa ou pelo menos verosímil, em vez de se haver exaltado o povo com a distribuição de armas ou a afixação de proclamações, Rostoptchine houvesse tomado as medidas necessárias para retirar as coisas preciosas, a pólvora, as munições e o dinheiro, e houvesse declarado francamente ao povo que a cidade ia ser abandonada.

Rostoptchine, homem impulsivo e sanguíneo, como vivera sempre nas altas esferas administrativas, apesar de todo o seu patriotismo, não fazia a mínima ideia de como era o povo que julgava governar. Depois da entrada dos Franceses em Smolensk, imaginara desempenhar o papel de guia do sentimento nacional no «coração da Rússia». Julgava ele, como todo o bom administrador, ser obrigação sua não só presidir à vida material dos habitantes de Moscovo, mas também guiar-lhes a disposição moral através de proclamações e de editais redigidos nesse estilo corriqueiro de que a massa popular, no seu próprio meio, não faz o mais pequeno caso, e que deixa de compreender sempre que o ouve na boca de personagens das classes elevadas. Este lindo papel de guia da moral popular agradava-lhe tanto, tão bem se lhe adaptara, que a necessidade de abandonar Moscovo sem realizar qualquer acto heróico o havia apanhado desprevenido. De súbito notou que o terreno que pisava lhe resvalava debaixo dos Pés. E decididamente não soube que fazer. Embora o pressentisse, recusou-se sinceramente até ao último minuto a acreditar no abandono da capital e nada fez na previsão de semelhante eventualidade. Se os habitantes se retiraram, foi contra a sua vontade. Se mandara transferir as repartições públicas, é que tinham sido os funcionários a pedir-lho, e só com relutância dera autorização para tal. Por si nunca pensara noutra coisa senão em desempenhar o papel que a si próprio atribuíra. Como é frequente nas pessoas de imaginação viva, de há muito sabia que Moscovo seria abandonada, mas só a razão lho dizia; no fundo do coração não acreditava. A imaginação não o acompanhava nesse novo domínio dos factos.

Todos os seus esforços, realmente eficazes e enérgicos — e não se cura aqui de saber até que ponto foi útil e qual a influência que exerceu no povo —, apenas serviram para excitar nos habitantes sentimentos que ele próprio experimentava: o ódio patriótico contra os Franceses e a confiança em si mesmo.

Mas quando os acontecimentos ganharam proporções históricas, quando se tornou insuficiente exprimir apenas por palavras o ódio contra o inimigo, quando não foi possível proclamá-lo mesmo no campo de batalha, quando a autoconfiança se tornou inoperante para salvar Moscovo, quando toda a população, como um só homem, abandonando o que era seu, correu em torrentes para fora da cidade, mostrando, com este acto negativo, o prestígio do sentimento nacional, o papel que Rostoptchine escolhera perdeu subitamente todo o sentido. Viu-se, de chofre, fraco e ridículo, sem terra firme debaixo dos pés.

Ao receber a nota fria e autoritária de Kutuzov sentiu-se tanto mais irritado quanto era certo reconhecer-se culpado. O que lhe fora confiado, os bens do tesouro, que ele devia ter retirado, ficava em Moscovo. E agora era impossível levar dali fosse o que fosse.

«Quem tem a culpa disto?», dizia ele de si para consigo. «Eu não, com certeza. Tinha tudo preparado, mantive Moscovo, e não é pouco. E aqui está onde eles nos levaram! Miseráveis! Trai— dores!» Não lhe teria sido fácil determinar que eram esses traidores, esses miseráveis, mas sentia-se impelido, por necessidade, a odiar esses traidores que o haviam colocado na situação falsa ridícula em que se encontrava.

Durante toda a noite emitiu ordens que junto dele vinham receber de todos os pontos de Moscovo. Os da sua roda nunca o tinham visto tão taciturno e furioso.

«Excelência, vieram receber ordens da parte do director do Património... da parte do Consistório, do Senado, da Universidade, do asilo das crianças abandonadas. O ecónomo mandou saber... Pede... Que ordens se devem transmitir à corporação dos bombeiros? Estão aí da parte do director da cadeia... Da parte do director do manicómio...» Não lhe largaram a porta durante toda a santa noite.

A todos dava respostas rápidas e graves, dizendo que as suas ordens doravante eram inúteis, que a obra que preparara com todo o cuidado fora malograda por terceiros, responsáveis dos acontecimentos que sobreviessem.

— Diz a esse imbecil — respondeu ao pedido da Repartição do Património — que fique de sentinela aos seus documentos. E, tu, que tolice me estás tu a pedir a propósito dos bombeiros? Se têm cavalos, vão para Vladimir. Não os vão deixar aos Franceses.

— Excelência, está ali o director do manicómio. Que devo dizer-lhe?

— Que deves dizer-lhe? Que se vão todos, nada mais simples... E, quanto aos doidos, que os solte na cidade. Já que quem comanda o exército é doido, ficarão no seu devido lugar.

Quando lhe perguntaram qual o destino a dar aos presos da cadeia, gritou, furioso, para o director:

— Que quer que eu faça? Que lhe dê dois batalhões, que não temos, para os escoltar? Solte-os, é bem de ver!

— Excelência, há presos políticos: Miechkov, Verechtchaguine.

— Verechtchaguine! Ainda o não enforcaram?! — exclamou. — Tragam-no.

 

[XXV]

Depois das nove da manhã, hora em que as tropas principiaram a atravessar Moscovo, ninguém mais veio pedir instruções ao conde. Todos que tinham tido oportunidade de retirar haviam abalado espontaneamente; os que tinham ficado, esses, só a si próprios haviam pedido conselho.

Rostoptchine mandara atrelar a sua carruagem para ir para Sokolniki, e ali estava, no seu gabinete sombrio, amarelento e calado, os braços cruzados.

Em tempo de paz, todo o governante julga sempre que dele depende toda a população confiada ao seu cuidado e, supondo-se indispensável, vê nisso a principal recompensa dos seus trabalhos e dos seus esforços. Enquanto o mar da história está sereno. é lógico que o governante-piloto que na sua ligeira embarcação manobra o leme do navio de grande calado que é o Estado julgue ser ele quem o faz mover. Mas assim que se levanta uma tempestade, logo que o mar se encapela e o navio é levado pela corrente, então a ilusão acaba. O navio prossegue na sua rota, independente e majestoso, e o leme do piloto já para nada serve. Esse homem, momentos antes todo-poderoso, centro de todas as energias, não passa então de um ser fraco, inútil e nulo.

Eis do que Rostoptchine se dava conta e era isso que o exasperava.

O chefe da polícia, aquele mesmo que fora detido pela turba, apresentou-se ao conde, acompanhado do ajudante-de-campo que vinha anunciar estarem prontos os cavalos. Ambos tinliam perdido a cor, e o chefe da polícia, ao dar contas da sua missão, anunciou que uma turba imensa invadira o pátio do palácio e queria ver o governador.

Rostoptchine, sem proferir palavra, levantou-se e, em passos rápidos, dirigiu-se para a varanda, deitando a mão ao fecho da janela. Depois desistiu de a abrir e aproximou-se de outra janela donde se via melhor o ajuntamento. Na primeira fila lá estava o operário alto, que continuava a perorar, muito grave, gesticulando. A seu lado via-se o serralheiro, taciturno, de cara ensanguentada. Pelas janelas abertas penetrava o rumor das vozes.

— Está pronta a carruagem? — perguntou Rostoptchine, afastando-se da janela.

— Saiba, Vossa Excelência que sim — disse o ajudante-de-campo. E Rostoptchine aproximou-se outra vez da janela.

— Que querem eles? — inquiriu do chefe da polícia. — Excelência, dizem que estão na disposição de marchar contra os Franceses, de acordo com as ordens de Vossa Excelência. Dizem que foram atraiçoados. São uns desordeiros, Excelência. Custou ver-me livre deles. Excelência, tomo a liberdade de lhe propor...

— Pode, retirar-se, sei muito bem o que tenho a fazer — exclamou Rostoptchine, furioso.

Pôs-se por detrás das portas da varanda a observar a multidão, «Eis aqui o que fizeram da Rússia! Aqui está como me tratam», dizia de si para consigo, sentindo que lhe subia, do fundo da alma uma ira incontida contra aqueles a quem devia saber a responsabilidade de tudo que estava a acontecer. Como costuma suceder muitas vezes com os homens impulsivos, o conde não podia dominar a cólera que o tomava, embora procurasse ainda sobre quem lançá-la. «Lá está ela, a populaça, a ralé, a plebe, que eles sublevaram pela sua estupidez. Precisam de uma vítima«, pensava ele, olhando para o operário que fazia, grandes gestos. E ao mesmo tempo ocorreu-lhe que também ele precí-av2 de uma vítima, fosse quem fosse, sobre quem descarregar aquela ira.

— Está pronta a minha carruagem? — repetiu.

— Saiba Vossa Excelência que sim. Que ordena a respeito de Verechtchaguine? Está ali no alpendre à espera — disse o ajudante-de-campo.

— Ah! — exclamou Rostoptchine, como se tivesse uma ideia súbita. E, abrindo bruscamente a janela, caminhou resoluto varanda fora. O burburinho cessou repentinamente, as cabeças descobriram-se e, todos os olhos se dirigiram para o conde.

— Bons dias, rapazes! — disse, rápido, e em voz alta. — Obrigado por terdes vindo. Vou já ao vosso encontro, mas antes temos de regular as nossas contas com um malfeitor. Temos de castigar o bandido que foi o culpado da perda de Moscovo. Esperem!

O conde entrou rapidamente nos seus aposentos, batendo com janela.

Um murmúrio de satisfação percorreu a turba. «Vais ver como ele dá conta de todos esses bandidos. E tu a dizeres que eram uns franceses... Vai metê-los todos na ordem!», dizia aquela gente, como se se acusassem uns aos outros de falta de fé.

Alguns minutos depois um oficial apareceu, bruscamente, à porta, principal, deu uma ordem qualquer, e os dragões puseram-se em marcha. A multidão acorreu, ávida, para o lado do alpendre. Nesse momento chegava Rostoptchine, em passo rápido, e, iracundo, pôs-se a olhar à sua roda, como se procurasse alguém.

— Onde está ele? — interrogou.

Enquanto pronunciava estas palavras, viu surgir, do cunhal do edifício, entre dois dragões, um homem novo, de pescoço comprido e fino, a cabeça, meio tosqueada, os cabelos hirsutos. Vestia uma velha peliça de raposa, por certo elegante outrora, mas agora forrada de pano azul, e umas calças de penitenciário, sujas, de linho, metidas nos canos de umas botas finas, por engraxar, e todas esbeiçadas. Das pernas delgadas e débeis pendiam pesadas correntes, que lhe embaraçavam o andar titubeante.

— Ah! — exclamou Rostoptchine, afastando o olhar do rapaz e pousando a vista no último degrau da escada do alpendre. — Tragam-no aqui!

O preso, arrastando as correntes, foi colocar-se, pesadamente, no local designado, metendo o dedo na gola da peliça, que o estava a afogar. Em seguida, depois de retorcer duas ou três vezes o longo pescoço, despedindo um suspiro, cruzou sobre o peito, resignadamente, umas mãos finas que nada tinham das de um operário.

Enquanto esta curta cena se desenrolava, o silêncio era absoluto, excepto rias últimas filas da turba, que se comprimia para —, aproximar, e aí ouviam-se tosses, lamentos, arrastar de pés e encontrões.

Rostoptchine, que aguardava que o homem fosse posto em evidência, passou a mão pela cara.

— Rapazes! — disse, numa voz metálica. — Este homem, Verechtchaguine, é o miserável culpado da perda de Moscovo.

O moço conservava-se na sua humilde atitude, de mãos cruzadas e o busto ligeiramente inclinado. A cara, desfigurada pela cabeça rapada, os traços arrepanhados de desespero, pendia-lhe para o chão.

Ao ouvir as primeiras palavras do conde endireitou-se, lentamente, e ergueu os olhos para ele, como se quisesse dizer qualquer coisa ou pelo menos encontrar o seu olhar. Mas Rostoptchine não olhava para ele. Então, no longo e delicado pescoço do acusado, uma veia dilatou-se como se fosse uma corda, fez-se-lhe muito azul ao pé da orelha e de repente toda a cara se lhe afogueou. Todos os olhares estavam fitos nele. Olhou para a multidão e, como que encorajado pela expressão que surpreendeu em todos os rostos, sorriu, triste e timidamente, e, baixando de novo a cabeça, procurou equilibrar-se melhor no degrau do alpendre,

— Atraiçoou o seu czar e a Pátria, vendeu-se a Bonaparte, de todos nós foi o único que desonrou o nome russo e é por causa dele que Moscovo está perdida — disse Rostoptchine, numa voz brusca e uniforme. E, de súbito, baixou os olhos para a vítima, que continuava na sua humilde postura. Como se aquela presença o fizesse perder a cabeça, levantou o braço e gritou quase, voltando-se para a multidão:

— Entrego-o nas vossas mãos. Justiça seja feita!

O povo continuava calado, comprimindo-se cada vez mais. No meio daquela massa compacta o ar, viciado, tornava-se irrespirável. Era impossível fazer qualquer movimento e toda a gente se sentia opressa pela expectativa de um acontecimento desconhecido, incompreensível e terrível, Os que estavam nas primeiras filas, que viam e ouviam tudo, permaneciam imóveis, de olhos esbugalhados e a boca abe-ta, aguentando, com todas as suas forças, a pressão que vinha da retaguarda.

— Matem-no!... Que morra esse traidor e não desonre mais o nome russo! — gritou Rostoptchine. — Acutilem-no! Sou eu quem manda.

A multidão, sem apreender o sentido das palavras, mas arrastada pelo tom colérico do governador, soltou como que um gemido, avançou um pouco e voltou a recuar.

— Conde... — articulou Verechtchaguine, aproveitando aquela breve acalmia, numa voz tímida, mas ao mesmo tempo teatral. Conde, só Deus é juiz... — Ergueu a cabeça ao pronunciar estas palavras, e a grossa veia, visível no seu delicado pescoço, injectou-se-lhe de sangue. O rosto coloriu-se-lhe de repente para no mesmo momento perder a cor.

Não pôde concluir o que queria dizer.

— Acutilem-no! Ordeno!... — vociferou Rostoptchine, de repente tão pálido como Verechtchaguine.

— Desembainhar espadas! — gritou o oficial aos dragões, ao mesmo tempo que desembainhava a sua.

Outro impulso, ainda mais forte do que o primeiro, agitou a multidão, e, embatendo contra os da primeira fila, precipitou-os para a frente, empurrando-os até aos degraus do alpendre, O moço operário, cujo rosto dir-se-ia petrificado, o braço sempre erguido, achou-se ao lado de Rostoptchine.

— Acutilem-no! — ordenou o oficial numa voz quase indistinta.

Um dos soldados, a máscara transtornada pela ira, deixou cair a lâmina da espada na cabeça de Verechtchaguine.

— Ah! — gemeu o desgraçado, surpreendido com o súbito golpe, os olhos dilatados de espanto, sem compreender o que estava a passar-se. Um gemido de surpresa e horror, igual ao de Vereclitchaguine, percorreu a multidão:

— Oh!, meu Deus! — exclamou alguém.

Desditosamente, a vítima, depois da exclamação de surpresa, soltou um grito de dor, e foi esse grito que a perdeu. De súbito quebrou-se o freio da compaixão humana que se mantivera tenso até ao último grau, contendo a turba. O crime principiara e tinha de ir até ao fim.

Um urro terrível e furioso abafou o gemido do desgraçado. Uma vaga, a sétima e derradeira vaga que submerge um navio, cresceu das últimas filas, derrubou as da vanguarda e arrasou tudo. O dragão que dera a espadeirada quis vibrar-lhe outro golpe, mas Verechtchaguine, com um grito de horror, procurando proteger-se com as mãos, atirou-se sobre a populaça. Tropeçou de encontro ao rapaz alto, que o agarrou pela gola, enterrando-lhe as unhas no pescoço, enquanto despedia um grito selvagem, e os dois rolaram aos pés da turba, que se lançou sobre eles.

Uns agrediam Vereclitchaguine, outros o agressor. Os gritos dos que se sentiam esmagados e daqueles que procuravam salvar o rapaz alto caído por terra ainda exasperavam mais o furor da multidão. Por muito tempo não puderam os dragões libertar o operário coberto de sangue e semimorto, e os homens que queriam dar por finda a obra principiada, os que espancavam, acutilavam, afogavam, trucidavam Verechtchaguine, esses, não conseguiam acabar a sua vítima. A multidão comprimia-os de todos os lados. Apanhados no meio da turba, ora eram arrastados para a direita ora para a esquerda, sem poderem vibrar-lhe o golpe de misericórdia nem tão-pouco o poderem abandonar.

«Um machado para acabar com ele! — Afogaram-no?... Traidor! Vendeu Cristo!... E ainda está vivo... Tem sete fôlegos!... Tem o que merece, ladrão!... Uma machadada! Ainda está vivo?»

Só quando a vítima deixou de se debater e aos gritos sucedeu um estertor prolongado a turba começou a abrir alas diante do cadáver estendido no chão, coberto de sangue. Todos se aproximavam, e ao verem o que tinham feito afastavam-se ao mesmo tempo horrorizados e estupefactos.

«Oh! Meu Deus! Que animal feroz é o povo! Como havia ele de escapar?», diziam uns.

«Tão novo!... Naturalmente era filho de um comerciante. Ah!, o povo... Dizem que não foi ele... Sim, não era ele o culpado... Oh, meu Deus! Parece que não foi ele que mataram. Dizem que ainda está vivo... Ah! Que mundo!... Não temem o castigo», comentavam os mesmos, olhando, com uma expressão repassada de piedade, o cadáver de rosto azulado, coberto de sangue e de pó, com o longo pescoço todo retalhado.

Um polícia zeloso, julgando não ser decente deixar aquele corpo no pátio de Sua Excelência, deu ordem aos dragões para o arrastarem para a rua. Dois soldados pegaram nas pernas partidas e puxaram o corpo. A cabeça rapada da vítima, sangrando, mascarrada de poeira, o longo pescoço tombado, levada de rastos, pulava pelo chão. A turba afastava-se do cadáver.

Na altura em que Vereclitchaguine caíra ao chão e todos em cima dele, Rostoptchine, que empalidecera de repente, em lugar de se encaminhar para a escada de serviço, onde o aguardavam os seus cavalos, sem que ele próprio soubesse porquê, de cabeça baixa e precipitadamente, dirigiu-se, ao longo do corredor, para as habitações do rés-do-chão. Lívido, a maxila inferior tremia-lhe nervosamente, como se um febrão o sacudisse.

— Excelência, por aqui... Onde vai?... Por aqui, se faz favor — disse uma voz trémula e assustada.

Não estava em condições de poder responder, e, dando meia volta, docilmente, tomou o caminho que lhe indicavam. Diante da escada de serviço estacionava a sege. O ulular distante da multidão ouvia-se ali. Rostoptchine deu-se pressa em subir para, a carruagem, mandando seguir para a sua vivenda de Sokolniki.

Ao chegar à Rua Miasnitskaia, como já não ouvisse o clamor, lamentou ter deixado transparecer fraqueza. Contrariava-o a ideia de que os subordinados tivessem sido testemunhas da emoção e do susto que tivera. «A populaça é terrível, é repulsiva», dizia de si para consigo. «São como os lobos, que só com carne se saciam.» «Conde, só Deus é juiz!» De súbito ressoaram-lhe ao ouvido estas palavras de Verechtchaguine, e um arrepio de gelo lhe arrepanhou a espinha. Foi momentânea, porém, esta impressão. Logo teve um sorriso de desdém. «Eu tinha outros deveres a cumprir», disse com os seus botões. «Era preciso apaziguar o povo. Muitas outras vítimas morreram e morrerão pelo bem público.» E pôs-se a pensar nas suas obrigações para com a família, para com a capital que lhe havia sido confiada e para consigo próprio, não para com Fedor Vassilievitch Rostoptchine, o qual, pensava, devia ser sacrificado ao bem público, mas para com o governador da cidade, o representante do Poder, o delegado do czar. «Se eu fosse apenas um Fedor Vassilievitch qualquer, a minha linha de conduta seria outra, mas eu tinha de salvaguardar a vida e a dignidade do governador.»

Embalado suavemente pelas molas da carruagem e não ouvindo já os gritos medonhos da multidão, sentia uma grande tranquilidade física, e como sempre acontece, ao mesmo tempo que sossegava fisicamente, o espírito ia-lhe proporcionando argumentos conducentes à tranquilidade da alma. Esses argumentos nada tinham de novo. Desde que o mundo é mundo e os homens se matam uns aos outros, que ninguém cometeu qualquer crime para com o semelhante sem tratar de apaziguar a consciência apelando para aquilo a que se chama o bem público, aquilo que se supõe o bem dos outros.

Aos olhos do homem a quem a paixão não cega, tal bem não é coisa tão clara, mas aquele que acaba de cometer um crime, esse, sabe sempre em que ele consiste. Rostoptchine estava nessas condições.

Não só não se acusava do acto que cometera, como, nos seus raciocínios, esse acto lhe proporcionava motivos de satisfação por ter sabido agir como devia, por ter punido um criminoso ao mesmo tempo que aplacava a população.

«Verechtchaguine fora julgado e condenado à morte», raciocinava ele, «embora o Senado apenas o houvesse condenado a trabalhos forçados. Era um velhaco e um traidor. Eu não podia deixá-lo impune e desta sorte mato dois coelhos de uma cajadada; dei uma vítima ao povo, para o acalmar, e puni um criminoso.»

Chegado que foi à sua casa de campo, e depois de ter dado as ordens necessárias para a instalação, tranquilizou-se por completo.

Meia hora mais tarde atravessava ele, ao trote de fogosos cavalos, os campos de Sokolniki, esquecido de todo do que se passara, o futuro aberto diante de si. Dirigia-se à ponte de Iauza. Onde estava Kutuzov, como lhe tinham dito.

Preparava, mentalmente, as amargas e acerbas censuras que iria dirigir ao Sereníssimo por virtude da sua deslealdade. Faria compreender àquela raposa da corte que a responsabilidade de todas as desgraças causadoras do abandono da capital e do que ele entendia a perda do país se devia inteiramente à sua relha cabeça de velho maluco. Pensando no que lhe iria dizer, mexia-se e remexia-se sobre as almofadas da carruagem, ao mesmo tempo que relanceava olhares furibundos à esquerda e à direita.

Os campos de Sokolniki estavam desertos. Apenas lá longe, junto do hospital e do manicómio, se viam pessoas vestidas de branco e alguns indivíduos isolados que pareciam seguir campos fora gesticulando e gritando.

Um destes deitou a correr para cortar o passo à carruagem de Rostoptchine. Este, o cocheiro e os dragões da escolta olhavam, num misto de curiosidade e horror, aqueles loucos em liberdade, especialmente o que corria para eles.

Cambaleando no alto das suas magras pernas, as abas do roupão a dar a dar, o louco corria a bom correr, sem apartar os olhos de Rostoptchine: gritava-lhe fosse o que fosse, em voz rouca, e gesticulava para que a carruagem parasse, A barba do louco eriçava-se aqui e ali em tufos irregulares e o seu rosto taciturno e grave era amarelo e descarnado. As pupilas, negras de azeviche, no meio da córnea amarelo— açafrão, erravam inquietas.

«Alto! Alto! Não ouves?», gritava em voz estentórea e, retomando fôlego, o louco proferia ameaças, acompanhadas de grandes gestos.

Alcançara a carruagem e corria ao lado dela.

«Mataram-me três vezes, três vezes ressuscitei de entre os mortos. Lapidaram-me, crucificaram-me... Ressuscitarei... Ressuscitarei... Rasgaram-me o corpo. O reino de Deus cairá por terra... Por três vezes o destruirei e por três vezes o restaura— rei!», gritava numa voz cada vez mais aguda.

Rostoptchine empalideceu subitamente como empalidecera no momento em que a turba se lançara sobre Verechtchaguine. Desviou o rosto.

— Anda, depressa! — gritou para o cocheiro, em voz trémula.

A carruagem rodou a toda a velocidade, mas por muito tempo ainda, lá para a retaguarda, ficaram a ouvir-se os gritos desesperados do louco, cada vez mais longe, e diante dos olhos de Rostoptchine levantava-se, solitário, o rosto ensanguentado do traidor, com a sua peliça de pele, cheio de espanto e de medo...

Ainda que esta imagem fosse recente, ele sentia agora quão fundo ela lhe estava gravada no espírito. Percebia que aquele rasto de sangue não mais se lhe apagaria da memória. Antes, pelo contrário, se iria tornando mais e mais vivo, mais e mais cruel e doloroso, e que aquela tremenda recordação o iria perseguir até ao último dos seus dias. As suas palavras: «Entrego-o nas vossas mãos. Justiça seja feita!», ainda lhe ecoavam nos ouvidos. «Porque pronunciei eu estas palavras? Não prestei atenção ao que disse. Podia não as ter dito», pensava, «e então nada se teria passado do que se passou.» Revia o rosto, de princípio assustado, depois transfigurado de ira, do dragão que desferira o primeiro golpe e o olhar de silenciosa e humilde censura que lhe lançara o moço da peliça de raposa. «Mas não foi por mim que o fiz. Tinha de agir assim. A plebe, o traidor... o bem público...»

As tropas continuavam a comprimir-se na ponte de Iauza. Fazia muito calor. Kutuzov, carrancudo e triste, sentado num banco junto da ponte, entretinha-se a riscar a areia com o pingalim quando uma sege se aproximou com grande fragor. Um homem fardado de general e de chapéu de plumas aproximou-se dele ao mesmo tempo iracundo e assustado e pronunciou algumas palavras em francês. Era o conde Rostoptchine. Disse-lhe que vinha procurá-lo, porque já não existiam nem Moscovo nem capital e agora apenas restava o exército.

— Teria sido muito diferente, se Vossa Excelência não tivesse dito que não entregaria Moscovo sem combate. Nada disto tinha acontecido — acrescentou.

Kutuzov olhava para Rostoptchine como se não compreendesse o significado das suas palavras, fazendo esforços para ler na fisionomia do interlocutor. Este, perturbado, calou-se. O general-chefe abanou ligeiramente a cabeça e, sem desviar do conde o olhar perscrutador, disse tranquilamente:

— Não, não entregarei Moscovo sem combate.

Pensaria Kutuzov noutra coisa ao pronunciar estas palavras ou tê-las-ia dito propositadamente, sabendo que não tinham o mais pequeno sentido? O certo é que Rostoptchine não respondeu e afastou-se precipitadamente. E, coisa estranha, o todo-poderoso governador de Moscovo, o orgulhoso Rostoptchine, pegou no pingalim, aproximou-se da ponte e em altos berros pôs-se a dispersar os carros que se aglomeravam aí.

 

[XXVI]

Às quatro horas da tarde, as tropas de Murat entraram em Moscovo. Na vanguarda marchava o destacamento dos hússares de Wurtemberg, e atrás, a cavalo, seguido de numerosa escolta, vinha o rei de Nápoles em pessoa.

Continuar: parte 5 de 6