Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 11 de 18 · parte 2/6

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Guerra e Paz

Terceira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

— Chama-se a isto um verdadeiro amigo — exclamou Helena, radiante, pousando de novo a mão na manga do fraque do amigo. — Mas eu gosto de um e de outro, não queria causar-lhes pena. Dava a vida pela felicidade dos dois.

Bilibine encolheu os ombros, com o que queria dizer que nada podia contra semelhante dor.

«Uma mulher às direitas! Chama-se a isto pôr as cartas na mesa. Gostaria de casar com os três ao mesmo tempo», pensou ele com os seus botões.

— Mas, diga-me uma coisa, como vai o seu marido encarar o problema? — interrogou ele, partindo do princípio de que a sua sólida reputação lhe permitia formular uma tão ingénua pergunta. — Consentirá ele?

— Ah, ele gosta tanto de mim! — exclamou Helena, que se julgava também amada por Pedro.— Fará tudo por mim.

A testa de Bilibine sulcou-se de rugas, o que queria dizer que estava preparando um mot.

— Até divorciar-se — comentou, Helena soltou uma gargalhada.

A mãe de Helena, a princesa Kuraguina, pertencia ao número das pessoas que se permitiam duvidar da legalidade do casamento projectado. Sempre tivera ciúmes da e agora, sobretudo, não podia resignar-se à ideia de que os desejos desta se realizassem plenamente. Foi junto de um sacerdote russo aconselhar-se e perguntou-lhe até que ponto seria possível uma mulher divorciar-se e voltar a casar estando vivo o marido— O padre, respondeu-lhe que tal coisa não era possível e com grande satisfação sua mostrou-lhe o texto do Evangelho que nega terminantemente toda a viabilidade do casamento em semelhantes condições.

Munida destes argumentos, que se lhe afiguravam irrefutáveis, a princesa apresentou-se em casa da filha logo pela manhã muito cedo, de modo a encontrá-la só.

Após ter ouvido as objecções da mãe, um sorriso tranquilo e zombeteiro lhe perpassou pelos lábios.

— Sim, está lá escrito formalmente: «Aquele que casar com mulher divorciada...» — repetia a velha princesa.

— Oh, mãezinha, não diga tolices. Não percebe nada. Na minha posição tenho deveres. — retorquiu-lhe Helena, transpondo a conversa do russo para o francês, pois, quando falava russo, afigurava-se-lhe sempre que havia fosse o que fosse de pouco claro naquela história.

— Mas, minha amiga

— Oh, mãezinha, como assim? Então não compreende que o Santo Padre tem o direito de conceder dispensas...

Nesse momento, a dama de companhia de Helena veio anunciar-lhe que Sua Alteza o príncipe estava no salão e desejava vê-la.

— Não, diga-lhe que o não quero ver, que estou furiosa com ele, porque faltou à sua palavra.

— Condessa, todo o pecado tem perdão — exclamou um jovem louro, alto, esguio e de grande nariz, que aparecera a porta.

A velha princesa ergueu-se e fez uma respeitosa reverência. O recém-chegado nem mesmo se dignou reparar nela. Com um aceno de cabeça à filha, a princesa dirigiu-se para a porta.

«Sim, ela tem razão», dizia de si para consigo, pois, ao ver surgir Sua Alteza, todos os seus escrúpulos haviam desaparecido. «Tem razão. Como foi possível que ignorássemos isto quando éramos novas? E no entanto é tão simples...», pensava ela, ao subir para a carruagem.

No princípio de Agosto, o caso de Helena estava inteiramente concluído e esta escreveu ao marido, que a amava tanto, como ela pensava, a participar-lhe estar na intenção de se casar com N. N, e que se convertera à única religião verdadeira. Pedia-lhe que satisfizesse todas as formalidades necessárias para o divórcio consoante a indicação do portador da carta.

«Posto isto, rogo a Deus que o tenha sob a Sua poderosa e santa guarda. Sua amiga, Helena.»

Esta carta chegou a casa de Pedro quando ele se encontrava no campo de Borodino.

 

[VIII]

Para o fim da batalha, depois de abandonar pela segunda vez a, bateria de Raievski, Pedro dirigiu-se, entre massas de soldados, através de um barranco, para Kniaskovo, chegando ao posto de socorros, Porém, ao ver sangue e ao ouvir gemidos, deu-se pressa em continuar o seu caminho, misturando-se à soldadesca, que lhe embaraçava os movimentos.

Só desejava uma coisa e com toda a sua alma: afastar-se o mais depressa possível das terríveis impressões de todo aquele dia, retomar a sua vida normal e dormir tranquilamente na sua cama. Dava-se conta de que só depois de regressar às condições de vida normal seria capaz de se compreender a si mesmo e tudo o que vira e experimentara, Mas ainda não obtivera essas condições de vida.

Embora as granadas e as balas houvessem deixado de sibilar no caminho que tomara, por toda a parte se via o que observara no campo de batalha. Viam-se as mesmas caras dolorosas, extenuadas de cansaço e por vezes com uma expressão de estranha indiferença, havia sangue por toda a parte, por toda a parte se viam os mesmos capotes de soldados e se ouviam descargas, que, embora longínquas, causavam medo, e por cima de tudo isto pairava uma poeira e uma fumarada asfixiantes. Depois de ter andado cerca de três verstas ao longo da estrada de Mojaisk. Pedro sentou-se à beira do caminho.

Escurecia e deixara de se ouvir o troar do canhão. Apoiando-se num braço, Pedro estendeu-se e por muito tempo assim permaneceu, seguindo com a vista as sombras que passavam diante dele no meio das trevas. A cada momento tinha a sensação de que uma granada lhe ia cair em cima com um silvo tremendo. Estremecia então e punha-se direito. Não teria sido capaz de dizer quanto tempo ali estivera. Lá pela noite adiante, apareceram três soldados com braçadas de ramos secos e sentaram-se perto dele para acenderem uma fogueira.

Depois de terem olhado desconfiados para Pedro, acenderam o lume, puseram-lhe em cima uma panela e migaram-lhe dentro biscoitos e um pedaço de toucinho. O cheiro agradável daquela sopa gordurosa espalhou-se no ar, misturando-se ao do fumo. Pedro levantou-se com um suspiro. Os três soldados começaram à comer sem olhar para ele, conversando entre si.

— E tu, a que regimento pertences? — perguntou-lhe, de súbito, um deles, com o que queria dizer, assim o pensou Pedro: «Se queres comer, conta connosco, mas, antes, diz-nos se és pessoa de bem.»

— Eu? Eu? — murmurou Pedro, sentindo que devia descer até ao nível daqueles soldados para mais perto estar deles e mais facilmente se fazer compreender. — Eu, por agora, sou oficial das milícias, mas o meu destacamento não está para estes lados. Estive no campo de batalha e perdi-me dos meus homens.

— Caramba! — exclamou um deles.

O outro abanou a cabeça.

— Bom, come, se te apetece, gostas de kavardak? — voltou e primeiro, oferecendo a Pedro a colher de pau, depois de a ter lambido.

Pedro foi sentar-se junto da fogueira e pôs-se a comer. Parecia-lhe nunca ter comido coisa tão boa! Enquanto se agachava junto da panela, engolindo avidamente, umas atrás das outras, grandes colheradas de sopa, tinha o rosto iluminado pela fogueira e os soldados olhavam-no em silêncio.

— E para onde vais agora? Hem? — perguntou ainda um deles.

— Vou para Mojaisk.

— És um senhor, não és?

— Sou.

— E como te chamas?

— Piotre Kirilovitch.

— Pois bem, Piotre Kirilovitch, anda daí. Nós te acompanharemos.

No meio da mais negra escuridão, os soldados e Pedro meteram pés a caminho, na direcção de Mojaisk.

O galo já tinha cantado quando eles chegaram a esta cidade e se puseram a subir a íngreme ladeira que a ela conduz. Pedro, seguindo os soldados, esquecera-se por completo de que a sua estalagem ficava lá no fundo da encosta e que a ultrapassara já. Não teria dado mesmo por isso, tão preocupado ia, se a meio da ladeira não se lhe tivesse deparado o escudeiro, que andara à procura dele pelas ruas da cidade e regressava à estalagem. Reconhecera o amo no meio das trevas graças ao chapéu alvadio.

— Excelência — exclamou ele —, tínhamos perdido as esperanças de o encontrar. Vem a pé? Venha daí!

— Pois sim — murmurou Pedro.

Os soldados estacaram.

— Bem, pelo que vemos, encontraste a tua gente! — exclamou um deles. — Então, adeus! Piotre Kirilovitch, não é?

— Adeus, Piotre Kirilovitch! — repetiram os outros.

— Adeus! — disse Pedro. E, acompanhado do escudeiro, dirigiu-se para a estalagem.

«É preciso dar-lhes qualquer coisa!», pensou, levando a mão à algibeira. «Não! É melhor não o fazer!», respondeu-lhe uma voz interior.

Na estalagem não havia lugar: todos os quartos estavam ocupados. Pedro dirigiu-se ao pátio e deitou-se na carruagem, cobrindo a cabeça com o capote.

 

[IX]

Mal pousara a cabeça na almofada, sentiu que ia cair no sono, mas, de súbito, com uma nitidez que parecia real, pôs-se a ouvir os «buum, buum» dos canhões, os gemidos, os gritos, o estampido das granadas, sentia o cheiro da pólvora e do sangue derramado e um terrível sentimento de horror e medo da morte se apossou dele. Apavorado, abriu os olhos e levantou a cabeça. Tudo estava em sossego à sua volta. Apenas, no alpendre, um impedido falava com o estalajadeiro, para cá e para lá, patinhando na lama. Debaixo do telheiro, por cima da sua cabeça, abrigados no escuro do tecto ripado, um bando de pombos agitou-se assustado com o ruído que ele fizera ao levantar-se. Todo e pátio rescendia àquele aroma de que Pedro tanto gostava a essa hora, a esse cheiro das estalagens, misto de palha, de estrume e alcatrão. Pelo intervalo de duas tábuas negras via-se o céu límpido picado de estrelas.

«Louvado seja Deus por tudo ter acabado», disse ele para si mesmo, tornando a cobrir a cabeça. «Oh! É horrível uma pessoa ter medo! Que vergonha não me ter sabido dominar! Enquanto eles... eles, até ao fim, ali firmes e tranquilos.»

«Eles» eram os soldados, os da bateria e também os que lhe tinham dado de comer e os que rezavam diante do ícone. «Eles» era aquela gente estranha que desconhecera até então e que no seu pensamento fazia esquecer agora todas as demais pessoas que conhecia.

«Ser soldado, soldado raso», pensava enquanto pegava no sono. «Aderir com todo o nosso ser a esta vida comum, penetrar nos sentimentos que assim os fizeram, Como hei-de eu ver-me livre de todo este fardo supérfluo, diabólico, que é a vida exterior? Houve tempo em que teria podido consegui-lo, em que teria podido vir a ser um simples soldado. Podia ter fugido de casa de meu pai, como era meu desejo. E também me podiam ter mandado assentar praça depois do duelo com Dolokov.» E pela imaginação perpassaram-lhe o jantar no clube, em que provocara Dolokov, e a imagem do Benfeitor em Torjok. E ei-lo que se põe a ver a sessão solene na loja maçónica. Por acaso é no clube inglês. Alguém que ele muito bem conhece, um amigo querido e íntimo, está sentado no extremo da mesa. Mas é ele! É o Benfeitor. «Mas então não morreu?», pergunta-se a si próprio. «Sim, morreu. E não sabia que ele estava vivo. Que pena eu tinha que ele tivesse morrido e que grande alegria sinto ao ver que ressuscitou!» A um dos lados da mesa sentavam-se Anatole, Dolokov, Nesvistski, Denissov e outras pessoas mais, e os traços de cada um pareciam-lhe tão nítidos em sonho como os dos soldados em que acabara de pensar. E aquela gente, Anatole, Dolokov, gritava muito alto e bebia. Sobrepujando as suas vozes ouvia-se, porém, do Benfeitor, que se não calava, e a sua palavra era tão potente e contínua como o fragor do campo de batalha, embora agradável e consoladora. Pedro não compreendia o que ele dizia, mas, porque no sonho os pensamentos eram de uma grande nitidez, estava certo de que falava do bem, da possibilidade de se ser o que «eles» eram, esses soldados. E «eles», com as suas caras, bondosas e firmes, rodeavam o Benfeitor. Conquanto fossem, porém, muito bons, não olhavam para Pedro, não o conheciam. Quis chamar-lhes a atenção para si e dirigir-lhes a palavra. Ergueu-se, e no mesmo instante sentiu frio nas pernas descobertas. Perpassou-o uma impressão desagradável e puxou o capote: efectivamente, o capote escorregara-lhe para o chão. Por um momento, enquanto o ajeitava, abriu os olhos e viu as mesmas tábuas, os mesmos barrotes, o mesmo pátio, mas agora tudo azulíneo, claro, palhetado de gotas de orvalho ou de geada.

«Está a amanhecer», disse Pedro de si para consigo, «mas não se trata disso. Tenho de ouvir até ao fim e compreender as palavras do Benfeitor.» Voltou a embrulhar-se no capote, porém a sessão na loja e o Benfeitor tinham desaparecido. Nada mais lhe restava além de pensamentos claramente formulados em palavras que alguém pronunciara ou que ele próprio imaginara.

Quando mais tarde se recordou destes pensamentos, embora eles lhe tivessem sido sugeridos pelas impressões do dia, foi como se alguém estranho lhos tivesse segredado. Afigurava-se-lhe que em estado de vigília nunca teria sido capaz de conceber semelhantes pensamentos e exprimi-los daquela maneira.

«A guerra», dizia-lhe uma voz, «é a sujeição mais penosa que pode conceber-se da liberdade humana às leis de Deus. A simplicidade é a obediência a Deus; tudo depende d’Ele. E ‘eles’ são simples. Eles não dizem o que fazem. A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro. O homem nada pode possuir enquanto temer a morte. Só quem não teme a morte é senhor de tudo. Se u dor não existisse, o homem não conheceria os seus limites, não se conheceria a si mesmo. Nada mais difícil», pensava ele, continuando a sonhar, «que cada um saber reunir na sua própria alma o significado de todas as coisas. Reunir tudo? Não, não é essa a palavra. Não é possível unir todas as ideias, mas, sim, pô-las de acordo!», repetia, com uma espécie de entusiasmo interior, como se sentisse que essas palavras, e só elas, exprimiam perfeitamente o que ele queria dizer, resolvendo a questão que o atormentava.

«Sim, é preciso pô-las de acordo, é tempo de harmonizar as coisas.»

— É preciso atrelar, são horas de atrelar, Excelência! Excelência! — repetiu uma voz. — É preciso atrelar, são horas de atrelar...

Era o escudeiro a acordá-lo. O sol batia-lhe em cheio na cara. Lançou um olhar para o pátio sujo da estalagem no meio da qual, num poço, os soldados davam de beber aos esqueléticos cavalos, enquanto carroças transpunham o portão. Pedro afastou os olhos, enojado, e, voltando a cerrar as pálpebras, deu-se pressa em se enterrar nas almofadas da sege.

«Não, não quero ver isto, não quero ver nem compreender coisa alguma; só quero compreender o que me foi desvendado durante o meu sonho. Mais um bocadinho e teria compreendido tudo. Que hei-de fazer então? Harmonizar, sim, mas como harmonizar tudo?» E Pedro apercebeu-se, com espanto, de que o sentido profundo do que vira e concebera durante o sono desaparecera para sempre.

O escudeiro, o cocheiro e o porteiro contavam-lhe que chegara um oficial com a notícia de que os Franceses se aproximavam de Mojaisk e os Russos batiam em retirada.

Pedro levantou-se e, dando ordem para que logo que atrelassem viessem ter com ele, seguiu a pé ao longo das ruas da cidade.

As tropas tinham-na evacuado, deixando na sua retaguarda perto de dez mil feridos. Havia feridos por toda a parte, nos pátios, nas janelas das casas, em grupos pelas ruas. Em volta das viaturas que os deviam levar só se ouviam gritos, injúrias, estrondear, Pedro ofereceu a sua sege, que viera ao seu encontro, a, um general ferido seu conhecido e ambos seguiram viagem até Moscovo. No caminho, Pedro soube da morte do cunhado e da perda do príncipe André.

 

[X]

Pedro chegou a Moscovo no dia 30. Perto das muralhas encontrou o ajudante-de-campo do conde Rostoptchine.

— Andámos à sua procura por toda a parte — disse-lhe este. — O conde precisa, sem falta, de falar consigo. Pede-lhe Que o vá ver imediatamente por causa de um assunto urgente.

Pedro, sem mesmo pensar em dirigir-se a casa, meteu-se num carro e dirigiu-se à residência do governador.

O conde Rostoptchine acabava de chegar nessa mesma manhã da sua casa de campo de Sokolniki. A antecâmara e o salão de recepção estavam cheios de funcionários convocados ou que vinham receber ordens. Vassiltchikov e Platov já tinham visto o conde e já lhe haviam explicado ser impossível defender a cidade, que capitularia. Embora houvessem ocultado estas resoluções aos habitantes, os funcionários, os chefes das diferentes administrações, sabiam que Moscovo ia cair nas mãos do inimigo, e o próprio Rostoptchine também o sabia. No intuito de alijarem responsabilidades, todos tinham vindo perguntar ao governador o que deviam fazer nos seus respectivos serviços.

No momento em que Pedro penetrava no salão, um correio chegado do exército saía do gabinete do conde.

Foi com um gesto pouco encorajador que respondeu às perguntas que lhe dirigiam no momento em que atravessava a sala. Enquanto esperava, Pedro pôs-se a olhar com os seus olhos fatigados para as diversas personalidades, novas ou velhas, militares ou civis, que estavam presentes, Em todos os rostos se via uma expressão inquieta e descontente. Aproximou-se de um grupo onde vira conhecidos seus. Depois de o cumprimentarem, prosseguiram nas suas conversas.

— Demiti-lo e chamá-lo em seguida não seria mau, embora na actual situação ninguém possa responder por coisa alguma,

— Sim, mas ele escreve... — acrescentou outro, exibindo um papel impresso que tinha na mão,

— Ah! Isso é outra questão. Essas coisas são precisas para o povo — replicou o primeiro.

— Que é isso? — perguntou Pedro.

— Uma nova proclamação.

Pedro pegou nela e pôs-se a lê-la:

O Sereníssimo Príncipe, para se reunir mais depressa às

tropas que vêm ao seu encontro, atravessou Mojaisk e instalou-se numa posição fortificada onde o inimigo não poderá atacá-lo facilmente. Foram-lhe enviadas daqui quarenta e oito peças de artilharia, com as respectivas munições, e o Sereníssimo afirma que defenderá Moscovo até à última gota de sangue e que está mesmo disposto a bater-se nas ruas. Não vos preocupeis, irmãos, com o facto de as repartições estarem fechadas: era preciso transferi-las para lugar seguro. Quanto a nós, nós cá estamos para ajustar contas com esse bandoleiro! Quando a hora soar, precisaremos de rapazes sólidos, tanto da cidade como do

campo. Lançarei um apelo dentro de dois ou três dias, mas de momento, como é inútil, não falo nisso. É bom que cada um venha armado do seu varapazi e do seu machado e não será mau que traga o seu chuço, e se trouxer a sua forquilha de três dentes ainda melhor: um francês não pesa mais que um, feixe de centeio. Amanhã, depois do jantar, sairei em procissão com a Virgem Iverskaia para visitar os feridos do Hospital Catalina. Proceder-se-á à bênção da água: os feridos curar-se-ão assim mais depressa. Eu também estou curado. Tinha um olho doente, mas agora vejo com os dois.

— Disseram-me uns militares — objectou Pedro — que era impossível lutar na cidade e que a posição...

— Sim, era disso mesmo que nós estávamos a falar — disse o primeiro funcionário.

— Que quer ele dizer com isto? — perguntou Pedro — «Tinha um olho doente, mas agora vejo com os dois»?

— Tinha um terço! — respondeu o ajudante-de-campo, sorrindo — e mostrava-se atormentado quando eu lhe dizia que o povo vinha saber da sua saúde. E a propósito, conde — acrescentou, de súbito, dirigindo-se a Pedro —, ouvimos dizer que está sofrendo desgostos de família, que sua esposa, a condessa...

— De nada, ouvi falar — replicou Pedro com indiferença. — Que se diz?

— Ah! Bem sabe, às vezes as pessoas inventam. Repito o que ouvi dizer.

— E que ouviu o senhor dizer?

— Diz-se — prosseguiu o ajudante-de-campo, sempre com o mesmo sorriso — que a condessa sua esposa pensa partir para o estrangeiro. É natural que não passe de má-língua...

— Naturalmente — repetiu Pedro, lançando à sua roda um olhar indiferente. — E aquele, quem é aquele? — perguntou, apontando para um velho pequenino, com um longo cafetã azul, a barba e as sobrancelhas brancas como neve e as bochechas rosadas.

— Aquele? É um comerciante, ou antes um taberneiro, um tal Verechtchaguine. Se calhar, já ouviu falar nessa história da proclamação.

— Ah!, sim! É realmente Verechtchaguine?! — exclamou Pedro, observando a fisionomia firme e serena do velho comerciante e procurando ver nela debalde a máscara de um traidor.

— Não foi ele precisamente. É o pai do que escreveu a proclamação — continuou o ajudante-de-campo. — Esse, o filho, está na cadeia, e, se me não engano, as coisas não lhe vão correr bem.

Um velhinho, com uma condecoração ao peito, e um alemão, velho também, funcionário com uma cruz pendente, aproximaram-se dos interlocutores.

— É uma história muito complicada — dizia o ajudante-de-campo — A proclamação apareceu há uns meses. Vieram dizer ao conde, que mandou fazer um inquérito. Encarregaram disso Gravila Ivanitch. A proclamação tinha passado precisamente por sessenta e três mãos. Procuraram um dos detentores. «Quem lha deu?» Este diz que foi Fulano. Interrogam esse Fulano. «Quem lha deu?» E assim por diante. Até que chega a vez de Verechtchaguine... um comerciantezito, sem grande malícia, como vêem, um comerciantezito — acrescentou sorrindo — Interrogam-no. «Quem te deu isto?» E, note-se, nós sabíamos muitíssimo bem quem lha tinha dado. Só podia ter sido o director dos correios. Mas, está claro, estavam coniventes. Responde: «Ninguém. Fui eu quem a fez.» Ameaçam-no, insistem. Continua na sua: fora ele quem a escrevera. Apresentam o relatório ao conde. Este interroga-o: «Quem te deu a proclamação?» «Fui eu quem a fez.» Conhecem o conde! — prosseguiu, sorrindo, com um sorriso orgulhoso e divertido — Deu por paus e por pedras, como calculam, diante de tanta insolência, tanta mentira, tanta casmurrice.

— Sim, já percebo, o conde queria que ele denunciasse Kliutcharev! — exclamou Pedro.

— Não era preciso — deu-se pressa em responder o ajudante-de-campo —, Kliutcharev já tinha às costas outras acusações, por isso foi deportado. Mas o conde estava exaltadíssimo, «Como pudeste escrevê-la?», disse-lhe ele. Em cima da mesa estava a Gazeta de Hamburgo. Pegou nela, «Aqui a tens, Tu não a escreveste, traduziste-a, e traduziste-a muito mal, percebes, imbecil, pois não sabes uma palavra de francês.» Que acham? «Não», replica. «não a li em jornal algum, fui eu quem a escreveu.» — «Então, se assim é, és um traidor e vou entregar-te à justiça, que te mandará enforcar, Vamos, diz lá, quem ta deu?» — «Não vi jornal algum. Fui eu quem a escreveu.» E as coisas ficaram assim. O conde mandou citar o pai: mas este não arreda pé. Foi levado ao banco dos réus e condenaram-no, segundo creio, a trabalhos forçados. E o pai ali está agora para interceder pelo filho. É má rês, o rapaz! É um desses filhos de comerciante, presumido e sedutor, que lá por ter frequentado umas aulas julga que sabe tudo. Sempre me saiu um menino! O pai tem uma taberna na Ponte Kaminii. Pois não querem saber? Na taberna havia uma grande imagem de Nosso Senhor com o ceptro numa das mãos e o globo terrestre na outra. Levou o quadro para casa, por uns dias, e sabem o que fez? Arranjou um pintor sem vergonha...

 

[XI]

Nesta altura, Pedro foi chamado à presença do governador. Penetrou no gabinete do conde Rostoptchine, quando este, de sobrancelhas franzidas, passava a mão pela testa e pelos olhos. Falava-lhe nesse momento um homenzinho de somenos estatura, que se calou e saiu.

— Bons dias, ilustre guerreiro — disse Rostoptchine, assim que o homenzinho desapareceu — Ouvi falar das suas proezas! Mas não é disso que se trata. Meu caro, entre nós, diga-me uma coisa, é mação? — prosseguiu ele no mesmo tom severo, como se isso fosse motivo para censura, embora não quisesse ser impiedoso para com ele. Pedro ficou calado. — Meu caro, estou bem informado, mas sei perfeitamente que há mações e mações e espero que o senhor não pertença à categoria daqueles que a pretexto de salvar a Humanidade querem perder a Rússia.

— Sim, sou mação — replicou Pedro.

— Bem, meu amigo, suponho que não ignora que os senhores Speranski e Magnitski foram expedidos para onde pode calcular, e o mesmo aconteceu ao senhor Kliuteharev e ainda a outros, que, a pretexto de levantarem o templo de Salomão, tratavam de deitar abaixo o templo da Pátria. Como pode calcular, houve motivo para proceder assim e que eu não teria mandado deportar o director dos correios se este não fosse um homem perigoso. Acabo de saber agora que o senhor lhe mandou a sua carruagem para ele sair da cidade e que aceitou, inclusivamente, papéis que ele lhe confiou. Estimo-o e não lhe quero mal, mas, como tenho o dobro da sua idade, aconselho-o, na minha qualidade de mais velho, a que deixe de ter relações com essa gente e a que abandone Moscovo o mais depressa possível.

— Mas de que acusam Kliutcharev? — perguntou Pedro.

— Esse assunto é a mim que diz respeito, e não é o senhor que me deve fazer perguntas! — exclamou Rostoptchine.

— Acusam-no de ter espalhado as proclamações de Napoleão, mas isso não está provado — prosseguiu Pedro, sem olhar para o seu interlocutor — e Verechtchaguine...

— Cá estamos — exclamou o governador numa voz cada vez mais alta, franzindo as sobrancelhas e interrompendo Pedro. — Verechtchaguine é um traidor da pior espécie, que receberá o castigo que merece. — Nas suas palavras ressoava uma tal cólera que dir-se-ia terem-no ofendido pessoalmente.— Mas não foi para discutir os meus actos que o chamei aqui, foi para lhe dar um conselho, uma ordem, se assim quer. Peço-lhe que corte as suas relações com pessoas como Kliutcharev e que saia de Moscovo. Sim, estou disposto a acabar com todas estas tolices, sejam eles quais forem. — E ao notar, naturalmente, que elevava demasiado a voz para falar a Bezulcov, que ainda não era acusado de qualquer crime, acrescentou, pegando-lhe por um braço com maneiras amistosas: — Estamos em vésperas de um desastre público, e não tenho tempo para dizer coisas amáveis a todos os que se dirigem a mim. Há momentos em que sentimos a cabeça à roda. Pois bem, meu caro, que faz o senhor, sim, o senhor, pessoalmente?

— Mas nada — replicou Pedro, que continuava de olhos baixos e que tinha um ar cismador.

O conde franziu as sobrancelhas.

— Um conselho de um amigo, meu caro. Desapareça, e quanto mais depressa melhor, é tudo quanto tenho a dizer-lhe. A bom entendedor! Adeus, meu caro. Ah! A propósito — gritou-lhe, quando Pedro já estava no limiar da porta — será verdade a condessa ter caído nas garras dos Santos Padres da Companhia de Jesus?

Pedro não respondeu e saiu do gabinete de Rostoptchine com uma expressão preocupada e irritada: nunca estivera tão irado na sua vida.

Quando regressou a casa, já era noite. Umas oito pessoas o aguardavam: o secretário da comissão, o coronel do seu batalhão, o intendente, o mordomo e vários solicitadores. Todos tinham assuntos a expor-lhe, que ele precisava de resolver. Nada compreendia do que lhe diziam nem se interessava por aqueles assuntos e, a todas as perguntas que lhe faziam respondia de molde a ver-se livre de tudo aquilo o mais depressa possível. Finalmente, quando ficou só, abriu e leu a carta da mulher.

«Eles, os soldados da bateria... o príncipe André morto... O velho... a simplicidade de espírito consiste na submissão a Deus... É preciso saber sofrer... O sentido de todas as coisas... É necessário harmonizá-las... A minha mulher vai tornar a casar... Tenho de desistir de compreender...» Aproximou-se da cama e sem se despir deixou-se cair sobre ela, adormecendo imediatamente. Quando acordou, na manhã seguinte, o mordomo veio informá-lo de que um polícia, enviado especialmente pelo conde Rostoptchine, viera informar-se sobre se o conde Bezukov partira ou ia partir.

Duas dezenas de pessoas com assuntos a tratar com ele esperavam já no salão. Vestiu-se, arranjou-se à pressa e, em lugar de as receber, meteu pela escada de serviço e saiu pela porta das traseiras.

Desde aquele momento e até ao fim da destruição de Moscovo nenhum dos seus familiares conseguiu tornar a vê-lo nem soube o que era feito dele, apesar de o terem procurado por toda a parte.

 

[XII]

Até ao 1º de Setembro, isto é, até à véspera da entrada do inimigo em Moscovo, os Rostov conservaram-se na cidade.

Desde que Pétia fora incorporado nos cossacos de Obolenski e partira para Bielaia Tserkov, onde o regimento estava em formação, que a condessa vivia no maior terror. A ideia de que os seus dois filhos estavam na guerra, que ambos precisavam da sua protecção maternal, que hoje ou amanhã qualquer deles podia morrer, como acontecera aos três filhos de uma senhora das suas relações, eis a ideia que se lhe impunha pela primeira vez naquele Estio com uma nitidez cruel. Tentara fazer regressar Nicolau para junto de si, quisera ir ela própria buscar Pétia, mas tudo debalde, Pétia não podia vir senão quando voltasse o seu regimento ou pedindo transferência para outro regimento no activo. Nicolau estava algures no campo de batalha e desde a sua última carta, em que contara pormenorizadamente o seu encontro com a princesa Maria, nunca mais dera sinal de vida. A condessa deixara de dormir e quando porventura fechava os olhos era só para ver os filhos mortos. Depois de muito se ter aconselhado e de sobre o assunto ter trocado muitas impressões, o conde acabou por conceber uma maneira de a serenar. Conseguiu transferir Pétia do regimento Obolenski para o regimento de Bezukov, que estava a organizar-se nas imediações de Moscovo, Pétia continuava, claro está, ao serviço, mas a condessa tinha a satisfação de conservar perto dela pelo menos um dos seus filhos, na esperança de o instalar de tal maneira que ele não se afastasse mais e de lhe arranjar situações que lhe permitissem conservá-lo longe dos campos de batalha. Enquanto só Nicolau estivera em perigo, afigurava-se-lhe, a ela, e assim o dizia, querer ao seu filho mais velho acima de todos, mas quando o benjamim, esse garoto endiabrado, que estudava, pouco, partia tudo em casa, se metia com toda a gente, esse Pétia de nariz arrebitado, olhinhos pretos cheios de malícia, tez rosada e fresca, a cara coberta de penugem, quando ele partiu, também, para o meio desses homens corpulentos, terríveis e cruéis, que gostavam de lutar, pareceu-lhe querer-lhe mais a ele que a todos os seus outros filhos. A medida que se aproximava o momento do regresso de Pétia a Moscovo, maior era a inquietação da condessa. Afigurava-se-lhe que nunca esse momento venturoso chegaria. A presença não só de Sónia, mas até de Natacha, sua preferida, ou do próprio marido, apenas servia para irritá-la. «Que tenho eu que ver com eles? Não preciso de mais ninguém senão de Pétia!», pensava ela,

Nos últimos dias de Agosto, os Rostov receberam uma segunda carta de Nicolau. Era datada da província de Voroneje, aonde fora em serviço de remonta. Essa carta não sossegou a condessa. Depois de saber que um dos seus filhos não estava em perigo, os seus cuidados cresceram por causa do outro.

Desde 20 de Agosto que quase todas as pessoas conhecidas dos Rostov tinham deixado Moscovo e, embora todos insistissem com a condessa para abalarem o mais cedo possível, ela não queria ouvir falar em tal enquanto o seu tesouro, o seu Pétia adorado, não estivesse de volta. No dia 28, finalmente, chegava Pétia. A ternura apaixonada e doentia com que a mãe o recebeu não foi das coisas que mais agradaram a esse jovem oficial de dezasseis anos. Conquanto ela escondesse a sua intenção de o conservar junto de si, o moço adivinhou-lhe os desejos e com receio instintivo de se deixar comover, de se efeminar, como ele dizia, junto da mãe, mostrava-se frio com ela, evitava-a, e durante todo o tempo da sua estada na capital manteve-se quase exclusivamente na companhia de Natacha, a quem sempre dedicara uma ternura fraternal muito sua.

A negligência do conde era sempre a mesma e no dia 28 nada estava preparado para a partida: os carros que deviam chegar, vindos das suas propriedades de Riazan e dos arredores de Moscovo, e que se utilizariam no transporte dos móveis, só apareceram a 30.

De 28ª 31 de Agosto toda a cidade andou numa agitação febril. Todos os dias entravam em Moscovo, pela porta de Dorogomilov, carros e carros cheios de milhares de feridos provenientes do campo de batalha enquanto pelas outras barreiras saíam caravanas e caravanas de viaturas carregadas de gente e de bagagens. Apesar das proclamações de Rostoptchine, ou precisamente por causa delas, corriam os boatos mais contraditórios e estranhos. Uns diziam que ninguém tinha licença de sair da cidade; outros, pelo contrário, faziam correr que os ícones das igrejas haviam sido todos retirados e que as pessoas eram afastadas à força de Moscovo. Este dizia que depois de Borodino houvera uma batalha em que os Franceses tinham sido derrotados: aquele anunciava, em contrapartida, que o exército russo fora completamente desbaratado. Havia quem dissesse que a milícia moscovita e o clero iriam bater-se em Tri Gori, e também se dizia à boca pequena que o metropolita Augustin fora proibido de sair da cidade, que tinham sido presos alguns traidores e que os camponeses, revoltados, assaltavam os que abandonavam Moscovo, etc— etc. Tudo falsos boatos. Na realidade, tanto os que partiam como os que ficavam, sem o dizerem a ninguém, embora ainda se não tivesse reunido o conselho de guerra de Fili, onde veio a decidir-se o abandono da cidade, todos sentiam que Moscovo teria de capitular e que o que havia a fazer era cada um tratar de se salvar e ao que era seu. Reinava o pressentimento de que tudo se desmoronaria e se transformaria de um momento para o outro. No entanto, até ao dia 1º de Setembro nada se modificara. Assim como o condenado a morte que é conduzido ao local do suplício, mesmo sabendo que vai morrer, olha à sua volta e compõe o boné, Moscovo, conquanto soubesse que a hora da sua perdição era chegada e que as condições de vida a que até então se submetera iam sofrer uma transformação, continuava, maquinalmente a sua vida de todos os dias.

Durante os três dias que precederam a catástrofe andou a família Rostov atarefada nos preparativos da partida. O chefe da família, o conde Ilia Andreitch, corria de um lado para outro da cidade, sempre à cata de notícias, e as disposições que tomava para a partida eram vagas e precipitadas.

Sempre descontente, procurando Pétia por todo o lado, o qual fazia o possível por evitá-la, cheia de ciúmes de Natacha, com quem o rapaz passava os dias, a condessa vigiava os preparativos de partida. A única pessoa pratica no seu trabalho era Sónia, embora rios últimos tempos andasse triste e silenciosa, A carta de Nicolau que falava da princesa Maria levara a condessa, que via nesse encontro o dedo da Providência, a fazer algumas alegres reflexões diante dela,

— Nunca senti grande satisfação com o noivado de Bolkonski e de Natacha — dizia a condessa —, mas sempre sonhei ver Nikolenka casado com a princesa, e tenho o pressentimento de que é o que vai acontecer, Bom seria!

Sónia, via-se obrigada a reconhecer que a única maneira de remediar o estado da fortuna dos Rostov seria um casamento rico e que a princesa era um bom partido. Eis o que era doloroso para ela.

Apesar da sua tristeza, ou talvez até para esquecê-la, chamava a si todas as pesadas tarefas da mudança e tinha os dias todos ocupados. O conde e a condessa, quando se tratava de alguma ordem, a ela recorriam. Pelo contrário, Pétia e Natacha não só não ajudavam os pais como embaraçavam e enfadavam toda, a gente em casa. Andavam o dia inteiro em correrias loucas, rindo e gritando a todo o propósito. Não tinham, realmente, qualquer razão especial para rir ou para estar satisfeitos, mas, como ambos se sentiam alegres, tudo lhes servia para se divertirem. Pétia estava contente porque, tendo saído de casa garoto, voltara transformado, como toda a gente dizia, num homem e num herói. Sentia-se feliz por estar com a sua família e também porque, deixando Bielaia, Tserkov, onde lhe não seria fácil assistir tão depressa a qualquer batalha, viera para Moscovo e aí, dentro de pouco, teria oportunidade de entrar na luta. De resto estava alegre porque Natacha, que muito influía no seu estado de espírito, o estava também. Quanto a Natacha, essa sentia-se alegre porque estivera triste durante muito tempo e nada lhe lembrava agora a causa das suas penas, tendo recuperado a sua óptima saúde. E sentia-se alegre ainda porque alguém a adorava e a admiração dos outros lhe era um estimulante indispensável à sua actividade normal, sendo Pétia esse alguém. Além disso ambos andavam em grande exaltação porque a guerra se travava agora às portas de Moscovo, ia haver luta nas barreiras da cidade, distribuíam-se armas, os habitantes fugiam por todos os lados, numa palavra, davam-se factos extraordinários, coisa sempre muito divertida para quem é novo.

 

[XIII]

Sábado. 31 de Agosto, ia grande confusão em casa dos Rostov. As portas estavam abertas, os móveis haviam sido tirados do seu lugar ou levados, os quadros e os espelhos tinham sido apeados. Havia malas, palha, papéis de embrulho, fios por todo o lado. Os camponeses e os criados andavam de um lado para o outro pisando os parquets pesadamente, carregados de embrulhos. No pátio estacionavam as carroças, unias já cheias até cima e amarradas, outras ainda vazias.

Só se ouviam por toda a parte os passos e as vozes da criadagem e dos camponeses que tinham vindo com os carros, chamando-se uns aos outros. O conde desaparecera logo pela manhã. A condessa, a quem o ruído e a agitação faziam dores de cabeça, estava deitada na sua nova alcova com compressas de vinagre na testa. Pétia saíra: fora visitar um camarada com quem queria transferir-se da milícia para o exército activo, Sónia assistia no salão de festas ao trabalho de empacotamento das porcelanas e dos cristais. Natacha estava no seu quarto, sentada no sobrado, no meio de um montão de vestidos, de fitas, de xales, os olhos fitos num trajo de baile, fora de moda, que tinha nas mãos. Era o vestido que levara ao seu primeiro baile em Petersburgo.

Natacha sentia-se envergonhada por nada fazer quando toda a gente estava ocupada, e por várias vezes já, desde manhã, tentara exercer qualquer actividade. Mas aquilo não a atraía. Era incapaz de se dedicar fosse ao que fosse desde que o não fizesse com toda a sua alma. Ali estava, ao pé de Sónia, que embrulhava as porcelanas, querendo ajudá-la, mas logo abandonando tudo para voltar ao seu quarto a emalar as suas coisas. Entreteve-se, primeiro, a distribuir pelas suas criadas de quarto vestidos e fitas, mas, quando chegou o momento de guardar o que restava, sentiu-se aborrecida.

— Duniacha, anda, trata de guardar tudo isto, minha querida! Hem?

E como Duniacha lhe prometeu ocupar-se de tudo. Natacha, sentou-se no chão, pegou no velho vestido de baile e pôs-se a pensar em coisas que nada tinham com as suas preocupações actuais. Despertou-a deste devaneio uma conversa das criadas na sala contígua e passos precipitados na escada de serviço. Levantou-se e foi espreitar pela janela. Um grande comboio de feridos estacionava na rua.

Ao portão apinhavam-se as criadas, os lacaios, a governanta, a ama, os cozinheiros, os cocheiros, os postilhões, os moços da cozinha, que assistiam à passagem dos carros.

Natacha amarrou um lenço branco à cabeça e apanhando-o nas pontas com as mãos desceu a escada.

A antiga governanta, a velha Mavra Kuzminitchna, afastou-se da multidão dos curiosos e aproximou-se de um carro com um toldo de serapilheira, pondo-se a conversar com um jovem oficial, muito pálido e que nele ia deitado, Natacha deu alguns passos e deteve-se intimidada, segurando sempre as pontas do lenço, a escutar o que dizia a governanta.

— Então ninguém conhecido tem em Moscovo? — perguntava Mavra Kuzminitchna.— Ficaria mais sossegado numa casa particular — Por exemplo, na nossa, Os amos vão partir.

— Não sei se nos deixariam — respondeu o oficia, numa voz apagada. — Está ali o comandante. Pergunte-lhe. — E apontou para um major gordo que se dirigia para a retaguarda do comboio, ladeando a fila dos carros.

Natacha olhou assustada para o rosto do ferido e encaminhou-se imediatamente para, o major.

— Os feridos podem ficar em nossa casa? — perguntou.

O comandante levou a mão, sorrindo, à pala da barretina.

— Em que posso servi-la, menina? — disse, piscando os olhos e sorrindo.

Natacha repetiu serenamente a sua pergunta: o seu rosto, todos os seus modos, conquanto continuasse a segurar o lenço na cabeça, ganharam uma expressão tão séria que o major deixou de sorrir e, depois de perguntar a si próprio se lhe seria lícito dar essa autorização, respondeu afirmativamente,

— Porque não? Acho que sim – disse.

Natacha inclinou ligeiramente a cabeça e aproximou-se, em passos rápidos, de Mavra Kuzminitchna, que se debruçava para o ferido e conversava com ele cheia de comiseração.

— Diz que sim, disse que podia ser! — murmurou Natacha em voz baixa,

O carro do oficial penetrou no pátio dos Rostov e dezenas de outros carros, cheios de feridos, entraram igualmente nos pátios das casas da Rua Povarskaia. Este incidente, tão estranho ao que ela estava habituada, via-se que agradava muitíssimo a Natacha. Ajudada por Mavra Kuzminitchna, procurou fazer entrar no pátio da casa o maior número possível de feridos.

— Era bom, no entanto, dizer alguma coisa ao pai — disse Mavra Kuzminitchna,

— Não, não, não tem importância! Por um dia, mudar-nos-emos para o salão. Podemos ceder-lhes os nossos quartos.

— Veja lá, menina, veja o que está a fazer. Até mesmo para os alojamentos nas camaratas, nos quartos de arrumação ou na dependência dos criados é melhor pedir licença.

— Está bem, eu peço.

Natacha entrou pela casa dentro e em bicos de pés, pela porta, que estava aberta, penetrou na alcova onde cheirava muito a vinagre e a gotas de Hoffmann.

— Está a dormir, mãezinha?

— Como queres que eu possa dormir? — exclamou a condessa, num sobressalto, pois acabava de passar pelo sono.

— Mãezinha, mãezinha querida — disse Natacha, ajoelhando diante da mãe e juntando a sua cara à dela.— Perdoe, desculpe-me, não volto a fazê-lo. Acordei-a. Foi a Mavra Kuzminitchna quem me mandou cá. Estão lá fora feridos, oficiais. Dá licença? Eles não têm para onde ir. Tenho a certeza de que a mãezinha consente... — Falava muito depressa, sem tomar fôlego.

— Que oficiais? De que estás tu a falar? Não percebo nada.

Natacha pôs-se a rir, e aos lábios da mãe também aflorou um pálido sorriso.

— Tenho a certeza de que a mãe consente... Vou dizer-lhes. Natacha beijou a mãe, levantou-se e precipitou-se para a porta.

No salão encontrou o pai, que trazia más notícias.

— Fizemo-la bonita esperando até à última hora! — disse contrariado. — O clube fechou e a polícia vai-se embora.

— Paizinho, não te importas que eu tenha mandado entrar uns feridos? — perguntou Natacha.

— Claro. Não faz mal — respondeu ele, distraidamente. — Mas não se trata disso. É melhor deixares-te de patetices e ajudares a arranjar as coisas para nos irmos embora, para nos irmos embora amanhã...

O conde deu a mesma ordem ao mordomo e aos criados. Durante o jantar chegou Pétia, que contou também as novidades que sabia. Disse que àquela hora o povo estava a armar-se no Kremlin e que, não obstante os editais de Rostoptchine, em que este comunicava à população de Moscovo que soltaria o grito de alarme dois ou três dias antes, com certeza já se haviam tomado medidas para, a partir do dia seguinte, se reunirem armados em Tri Gori, onde se esperava uma grande batalha.

A condessa mirava com um misto de timidez e horror o rosto excitado e jovial do filho enquanto ele falava. Tinha a certeza de que se dissesse uma palavra que fosse para pedir a Pétia que não tomasse parte nessa batalha — e esse combate iminente devia ser para ele uma grande alegria, pensava ela — teria de o ouvir falar na coragem, na honra, na pátria. Diria as coisas mais absurdas com uma decisão viril e obstinada, e ela nada poderia dizer contra isso, estragando tudo. Bis porque nada disse, na esperança de conseguir arranjar tudo para partir antes, levando Pétia como seu protector, e, findo que foi o jantar, chamou o conde de parte, a quem implorou, soluçando, que a levasse dali o mais depressa que pudesse, nessa mesma noite se fosse possível, Com a astúcia involuntária e bem feminina que lhe dava o amor maternal, ela, que até aí se mostrara completamente indiferente ao perigo, dizia agora que morreria de medo se não saíssem da cidade nessa mesma noite. E efectivamente a partir daquele momento o medo apossara-se dela.

 

[XIV]

Madame Schoss, que tinha ido visitar a filha, ainda agravou mais os terrores da condessa contando-lhe o que vira na Rua Miasilitskaia, diante de um depósito de bebidas. No regresso, não tinha podido passar por ali, tantos eram os bêbedos que alvoroçavam as vizinhanças. Viu-se obrigada a tornar um carro e a seguir por ruas transversais, tendo-lhe o cocheiro contado que o povo arrebentara com as pipas de álcool, de acordo com as ordens que recebera para isso.

Depois do jantar, todos se puseram a embalar as coisas com uma rapidez febril para acelerar a partida. O velho conde, que subitamente se pusera também a trabalhar, passava a vida para cá e para lá, ora no pátio ora em casa, arengando, a propósito e despropósito, à criadagem, para que as coisas se fizessem depressa. Pétia dirigia os trabalhos no pátio. Sónia perdia a cabeça com as recomendações contraditórias do conde e não sabia o que havia de fazer. A criadagem gritava, discutia, zaragateava correndo e esfalfando-se. Natacha, animada daquela paixão que ela sabia pôr em todas as coisas, deitou também mãos à obra. De princípio a sua intervenção foi acolhida com desconfiança. Não esperavam dela senão travessuras e ninguém queria dar ouvidos ao que ela dizia, mas ela exigiu com obstinação e ardor que lhe obedecessem, zangou-se, quase chorou porque a não queriam ouvir e acabou por conseguir o que queria. A primeira medida que tomou, e que grandes esforços lhe custara, assentando de vez a sua autoridade, foi o enrolar dos tapetes. O conde tinha preciosas tapeçarias de Gobelin e tapetes persas. Quando Natacha pôs mãos à obra, duas caixas estavam abertas no salão: uma quase cheia até cima de porcelanas, a outra, de tapetes. Ainda havia muitas peças de porcelana espalhadas pelas mesas e continuavam a trazer mais dos armários. Era preciso encher uma nova caixa e os criados foram por ela.

— Sónia, espera. Podemos meter todo o resto ali — disse Natacha.

— Não há forma, menina; já tentámos de todas as maneiras — replicou o moço da copa.

— Qual quê? Querem ver?

E principiou a tirar da caixa travessas e pratos embrulhados em papel.

— Temos de pôr as travessas aqui, no meio dos tapetes — voltou ela.

— Só para os tapetes serão precisas pelo menos três caixas — comentou o moço da copa.

— Espera. Vais ver. — E Natacha pôs-se a extrair os objectos da caixa com toda a presteza — Estes não — dizia, mostrando os pratos de Kiev. — Estes, sim, ali, com os tapetes — acrescentava, apontando para as travessas de Saxe.

— Deixa isso, Natacha, não te preocupes, nós conseguiremos tudo, seja como for — resmoneava Sónia.

— Deixe, menina... — dizia o mordomo.

Natacha não desistia. Desmanchou todos os embrulhos e principiou outra vez a fazê-los com grande celeridade, dizendo ser inútil levarem os tapetes usados e a louça suplementar. E quando chegou ao fim, voltou outra vez ao princípio. De facto, assim que retiraram tudo que era ordinário, que não valia a pena levar, as coisas de valor tiveram lugar nas duas caixas. No entanto, as tampas teimavam em não fechar. Era natural que ainda se pudesse encontrar qualquer coisa susceptível de ser posta de lado, mas Natacha não queria desistir do seu intento. Fazia, desfazia as caixas, enchia, dizia ao moço da copa e a Pétia, que arrastara consigo para a ajudarem, que comprimissem o tampo... ela própria fazia desesperados esforços.

— Bem, pronto, Natacha — acabou por dizer Sónia. — Sim, bem veio que tens razão, mas no entanto tira esse tapete de cima.

— Não quero — gritava Natacha, apartando da cara, coberta de suor, com uma das mãos, os cabelos desgrenhados, enquanto com a outra batia em cima dos tapetes. — Anda, Petka, força! Vassilitch, carrega!

Os tapetes acabaram por se comprimir e a tampa fechou-se. Natacha bateu palmas, gritando de alegria, e lágrimas de satisfação orvalharam-lhe os olhos. Mas foi obra de segundos. Imediatamente se consagrou a outra tarefa, embora tivesse agora confiança em si. E o conde não se zangou quando lhe disseram que Natacha Ilinitchna desrespeitara as ordens que ele dera. E a ela é que os criados vieram pedir instruções para amarrar os embrulhos e carregar os carros. Graças a Natacha, o trabalho progrediu. As coisas banais foram postas de parte e as mais preciosas colocadas umas contra as outras.

No entanto, quando a noite chegou, apesar do empenho de todos, ainda não se pudera emalar tudo. A condessa adormecera e o conde, adiando a partida para o dia seguinte, foi deitar-se. Sónia e Natacha estenderam-se vestidas na alcova.

Continuar: parte 3 de 6