Guerra e Paz
Terceira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Nessa noite passou um carro com mais um ferido pela Rua Povarskaia e Mavra Kuzminitchna, que estava ao portão, mandou-o entrar para casa dos Rostov. Esse ferido, pelo que dissera Mavra Kuzminitehna, devia ser pessoa importante. Era transportado num carro fechado e ao pé do cocheiro sentava-se um criado velho de aspecto venerável. Atrás, noutro carro, vinham o médico e dois soldados.
— Entrem aqui, para nossa casa, se fazem favor. Os patrões vão-se embora, a casa está vazia — disse a velha para o criado.
— Ah! — suspirou o criado. — Julgámos que não chegasse até aqui. Temos a nossa casa em Moscovo, mas é longe e não está lá ninguém.
— Tenham a bondade de entrar. Na casa dos nossos amos há tudo que é preciso. Entrem. Está muito mal? — acrescentou ela.
O criado fez um gesto vago.
— Julgámos que não chegasse até aqui. Pergunte ao médico.
O criado apeou-se e aproximou-se da carruagem.
— Está bem — disse o médico.
O criado voltou a primeira carruagem, espreitou para dentro e agitou a cabeça. Depois disse ao cocheiro que entrasse no pátio e veio de novo para junto de Mavra Kuzminitchna.
— Meu Senhor Jesus Cristo! — exclamou ela. — Passem por aqui, os senhores nada dirão... — afirmou ela.
Era preciso evitar que o ferido fosse transportado pela escada, por isso o levaram para o pavilhão. Instalaram-no no antigo quarto de Madame Schoss. O ferido era o príncipe André Bolkonski.
[XV]
Chegou a derradeira hora de Moscovo. Estava um dia de Outono claro e alegre. E, sendo domingo, como em todos os domingos, os sinos repicavam para a missa em todas as igrejas. Dir-se-ia que ninguém compreendia ainda o destino que aguardava a capital.
Só dois barómetros acusavam a situação da cidade: a atitude da populaça, isto é, do grosso da arraia-miúda, e a alta dos preços. Os operários das fábricas, os criados e os camponeses, em magotes, à mistura com funcionários, seminaristas e fidalgos, tinham ido de madrugada para Tri Gori. Chegada que foi aí, toda aquela gente ficou à espera de Rostoptchine; mas, depois de muito esperar e convencida de que Moscovo seria entregue ao inimigo, acabou por regressar à cidade, dispersando-se por ruas e tabernas. Os preços das coisas também diziam muito, As armas, o ouro, os carros, os cavalos, aumentavam constantemente de preço enquanto baixava continuamente o valor do Papel-moeda e dos objectos de luxo, e de tal maneira que por volta do meia-dia os panos, por exemplo, valiam menos de metade do seu preço habitual. Em compensação, um cavalo de aldeão chegava a pagar-se por quinhentos rublos. E os móveis, os espelhos, os bronzes, cediam-se por qualquer preço.
Na velha e respeitável residência dos Rostov pouco se fizera sentir esta subversão das antigas condições da vida. Durante a noite apenas haviam desaparecido três dos numerosos criados da casa, que nada tinham roubado, e os trinta carros chegados da aldeia acharam-se de um momento para outro transformados numa verdadeira riqueza, riqueza invejada por muitos. Por eles ofereciam aos Rostov chorudas somas. Não só lhes vinham propor semelhantes ofertas, como desde essa noite, e logo muito cedo na manhã do dia 1 de Setembro, o pátio da residência se viu cheio de ordenanças e criadagem dos oficiais feridos ali instalados ou nas casas vizinhas que vinham implorar do pessoal do conde que lhes arranjasse meios de transporte para sair da cidade. O mordomo, a quem se dirigiam, embora lamentasse a situação dos feridos, recusava-se categoricamente a conceder o que lhe pediam, dizendo não ter coragem sequer de falar nisso ao amo. Por mais dignos de piedade que fossem todos aqueles desgraçados, a verdade é que se se transigisse com um ter-se-ia de transigir com todos, e nesse caso não haveria razão para se não cederem inclusivamente as próprias carruagens reservadas para os donos da casa. Trinta carros não bastavam para salvar todos os feridos e no meio de toda aquela desgraça era impossível não se pensar em si próprio e na família. Eis o que pensava o mordomo por conta do seu patrão.
Quando acordou, na manhã do dia 1, o conde Ilia Andreitch saiu nos bicos dos pés do seu quarto de dormir para não acordar a condessa, que só então passara pelo sono, e ainda de roupão, o seu roupão de seda lilás, veio até ao alpendre. A fila de carros, prontos a partir, estava alinhada no pátio. O mordomo conversava com um velho impedido e um moço oficial, muito pálido, que tinha um braço ao peito. Ao ver o conde, pôs-se a fazer gestos muito graves, como a dar-lhes a entender que seria melhor retirarem-se.
— Então, Vassilitch, está tudo pronto? — disse o conde passando a mão pela calva, com um aceno de cabeça cordial ao militar e ao seu impedido, pois muito gostava de ver caras novas. — Podemos atrelar imediatamente, Excelência.
— Bom, magnífico, logo que a condessa acorde, abalamos! Que há, meus senhores? — exclamou, dirigindo-se ao oficial. — Está em minha casa.
O oficial aproximou-se. O sangue subiu-lhe ao rosto pálido.
— Conde, peço-lhe, consinta... é por Deus que lhe peço... consinta que eu me instale em qualquer parte entre as suas malas. Não trago nada comigo... Vou numa das carroças, pouco me importa...
Ainda o oficial se não calara, já o impedido dirigia ao conde pedido idêntico para o seu amo.
— Naturalmente, naturalmente — deu-se pressa em dizer o conde. — Tenho muito gosto, tenho muito gosto. Vassilitch, anda, diz que lhe arranjem lugar aí numa das carroças... Olha... Ali... O que for necessário acrescentou, vago, como sempre que dava uma ordem.
O oficial desfez-se em agradecimentos tão calorosos que o conde se sentiu compelido a dar ainda maiores provas de bom coração. Olhou em torno de si: no pátio, junto da porta de serviço, à janela do pavilhão, só havia feridos e impedidos. Todos o fitavam, aproximando-se do local onde ele estava.
— Quererá V. Ex, vir até à galeria? — disse o mordomo. — Que manda V. Ex.a quanto aos quadros?
O conde retirou-se com o mordomo, voltando a insistir para que satisfizessem o pedido dos feridos que desejassem ser evacuados.
— A verdade é que podemos dispensar algumas destas bagagens — acrescentou, em voz baixa e misteriosa, como se receasse ser ouvido de alguém.
A condessa acordou às nove horas, e Matrena Timofeievna, sua ex-criada de quarto, espécie de comissário de polícia a ela agregada, veio dizer-lhe que Maria Karlovna estava muito aborrecida, pois não podia deixar ali abandonada a roupa das crianças. A condessa quis saber porque estava Madame Schoss aborrecida e disseram-lhe que a mala dela fora retirada de uma das carroças descarregada para se arranjar lugar para os feridos que o conde, apiedado, dera ordens de transportar. Mandou chamar o marido.
— Que aconteceu, meu amigo, estão outra vez a descarregar as malas?
— É que, minha querida, fazia tenção precisamente de te prevenir... minha querida condessinha... Um oficial veio pedir-me que cedesse alguns carros para os feridos... Tudo isto, as nossas coisas, tudo pode ser substituído, mas eles, coitados! Havemos de os deixar aqui?... E estão em nossa casa, fomos nós quem os convidou, a esses oficiais... Então pensei, realmente, minha querida, que diabo!... Podíamos levá-los... Temos assim tanta pressa?
O conde tomara uma atitude muito tímida, como sempre que Linha de referir-se a interesses materiais. A condessa conhecia-lhe muito bem o tom que ele tomava quando se metia em empresas prejudiciais aos interesses dos filhos: a construção de uma galeria ou de uma estufa, a instalação lá em casa de um teatro ou de uma orquestra, e entendia obrigação sua opor-se-lhe sempre que o conde se mostrava assim.
Com uma expressão de vítima resignada, resolveu dizer:
— Sim, conde, colocaste-nos numa situação em que já nos não dão nada pela casa e ainda queres perder todos os nossos bens, isto é, os bens dos nossos filhos. És o primeiro a dizer que em nossa casa há para cima de cem mil rublos de mobília. Com o meu consentimento não, conde, eu não consinto, não consinto. Faz o que quiseres, mas a verdade é que o Governo é que deve tratar dos feridos. Eles bem sabem o que hão-de fazer. Olha, aqui mesmo defronte, os Lopukine, antes de ontem, já tinham a casa vazia. Se me não queres poupar a mim, ao menos poupa os teus filhos.
O conde esboçou um gesto evasivo, e, sem responder, saiu.
— Paizinho, que foi? — perguntou Natacha, que entrara atrás dele nos aposentos da mãe.
— Nada. Não é coisa que te diga respeito! — exclamou o conde, desabrido.
— Mas se eu ouvi tudo — replicou ela. — Porque não há-de a não consentir?
— Não és para aqui chamada! — vociferou o conde, Natacha aproximou-se da janela e aí ficou pensativa.
— Paizinho, vem ali o Berg! — exclamou, olhando através das vidraças.
[XVI]
Berg, o genro dos Rostov, já era coronel e condecorado com as Ordens de S. Vladimiro e de Santa Ana. Continuava a desempenhar as quietas e agradáveis funções de ajudante-de-campo do comandante da primeira secção do estado-maior do segundo corpo de exército.
Chegara a Moscovo no dia 1º de Setembro, procedente do seu quartel, Nada tinha que fazer em Moscovo, mas, ao notar que todos os seus camaradas pediam para seguir para a capital por esta ou por aquela razão, julgou-se obrigado a solicitar uma licença por motivos de ordem familiar.
Chegara a casa do sogro no seu elegante drojkis tirado por uma parelha de magníficos cavalos iguais aos que vira atrelados à carruagem de um príncipe das suas relações. Ao penetrar no pátio, olhou atentamente para os carros que aí estavam e enquanto subia as escadas do alpendre puxou de um lenço de assoar muito limpo, dando-lhe um nó numa das pontas.
Atravessou o vestíbulo e precipitou-se para o salão, onde abraçou o conde, beijou as mãozinhas de Natacha e de Sónia e logo ali pediu notícias sobre a saúde da mãe.
— Como queres que uma pessoa se sinta bem por uns tempos destes? — exclamou o conde. — E tu, conta qualquer coisa. Onde estão as tropas? Retrocedem ou vai haver alguma batalha?
— Só Deus sabe, pai — replicou Berg. — Só Deus pode decidir do destino da nossa pátria. O exército está cheio de entusiasmo, mas os chefes, por agora, mantêm-se reunidos em conselho. O que vai sair dali ninguém sabe. Mas sempre lhe direi, pai, que não há palavras para descrever o heroísmo, a valentia à moda antiga, dos nossos soldados no combate de 26... Dir-lhe-ei francamente, meu pai — disse Berg, que entretanto batia na arca do peito, como o general a quem ouvira discurso idêntico, embora o seu gesto, retardado, não tivesse coincidido, como era mister, com as palavras «nossos soldados». — Dir-lhe-ei com toda a franqueza: nós, os seus comandantes, não só não precisámos de incitar os homens a marchar para a frente ou a animá-los de qualquer maneira como tínhamos até dificuldade em impedir esses... esses... Sim, é o que lhe digo, cometeram actos de bravura dignos da antiguidade — acrescentou, volúvel. — O general Barclay de Tolly a cada passo jogava a vida à testa dos seus soldados, digo-lho eu. E o nosso corpo estava mesmo no alto do cabeço. Imagine!
Neste ponto, Berg pôs-se a contar o que se lembrava de ter ouvido nas histórias de guerra que então circulavam. Natacha, sem apartar dele os olhos, parecia tentar descobrir-lhe no rosto resposta para uma pergunta que a si mesma fazia, e isso perturbava o narrador.
— Não pode imaginar-se o heroísmo que mostraram os nossos soldados. É digno de todos os elogios! — prosseguiu, fixando os olhos em Natacha e tentando, com um sorriso, conquistar-lhe as boas graças. — «A Rússia não está em Moscovo, está no coração dos seus filhos!», não é verdade, meu pai?
Neste momento a condessa saiu do seu quarto: parecia cansada e descontente. Berg correu para ela, beijou-lhe a mão, perguntou-lhe como ia de saúde e fazendo-a compreender, por um movimento de cabeça, quanto se condoía do seu estado, permaneceu a seu lado.
— Sim, mãe, não há dúvida de que estes tempos que correm são realmente penosos e tristes para todos nós. Mas porque há-de inquietar-se assim? Tem tempo de partir...
— Não percebo o que estão a fazer os criados — disse a condessa, dirigindo-se ao marido. — Ainda agora me vieram dizer que nada está pronto. É preciso que alguém lhes dê ordens. Agora é que sinto a falta de Mitenka. Nunca mais sairemos daqui.
O conde quis dizer qualquer coisa, mas deteve-se. Levantou-se e encaminhou-se para a porta.
Berg puxou então do lenço, como se fosse assoar-se, e, ao ver o nó numa das suas pontas, quedou-se pensativo, abanando tristemente a cabeça.
— É verdade, pai, tenho uma coisa muito importante a pedir-lhe — disse ele.
— Hem! — exclamou o conde, detendo-se.
— Passei há pouco pela casa de Iussupov — disse Berg, pondo-se a rir. — O intendente, meu conhecido, veio a mim e perguntou-me se eu não queria comprar qualquer coisa. Fui ver, como calcula, por mera curiosidade: tinha lá uma cómoda com um toucador. Bem sabe quanto a Vera gostava de ter um móvel assim, várias vezes falámos nesse assunto. — E no tom que punha nas suas palavras ao referir estas coisas denunciava a satisfação que sentia por dispor de uma bela casa. — Que maravilha! É cheia de gavetinhas e tem uma fechadura inglesa de segredo, sabe? Há tanto tempo que a Verotchka sonha com uma cómoda assim! Queria fazer-lhe uma surpresa. Vi lá em baixo no pátio muitos campónios. Permita que disponha de um deles, peço-lhe, pagar-lhe-ei decentemente e...
O conde franziu a sobrecenho e tossicou nervoso. Peça à condessa, não sou eu quem dá ordens.
— Se é coisa muito difícil, então não falamos mais nisso — acrescentou Berg. — Se o fiz, foi por lembrar-me da Vera.
— O diabo que os leve, a todos, a todos!... — vociferou o conde. — É de uma pessoa perder a cabeça.
Saiu da sala com fragor enquanto a condessa se desfazia em pranto.
— É verdade, mãe, os tempos estão duros! — comentou Berg. Natacha saíra atrás do pai, mas, como se uma ideia súbita lhe tivesse ocorrido, desceu a escada correndo.
Pétia estava no alpendre muito ocupado a distribuir armas pelos homens que deviam escoltar os carros. As viaturas, todas atreladas, continuavam estacionadas no pátio. Duas delas haviam sido descarregadas e sobre uma empoleirara-se um oficial com o seu impedido.
— Sabes porque foi? — perguntou Pétia à irmã.
Esta percebeu que ele queria referir-se à discussão entre o pai e a mãe, mas não deu troco.
— Pois fica sabendo que foi porque o pai queria pôr todos os carros à disposição dos feridos — disse Pétia. — Foi o Vassilitch quem me contou. Por mim...
— Por mim — desembuchou Natacha, subitamente, volvendo para o irmão a sua face indignada — por mim... acho tão feio, tão reles, tão... Realmente, não sei que dizer... Acaso seremos nós uns alemães quaisquer?...
Soluços embargaram-lhe a voz, e para que a ira que se apossara dela não fosse em pura perda, virou costas ao irmão e subiu escada a correr.
Berg continuava ao lado da condessa e ia-lhe dirigindo respeitosas frases de consolação. O conde, de cachimbo na mão, passeava de um lado para o outro. Nesse momento Natacha, o rosto transtornado, agressiva, entrou na sala e correu para a mãe.
— É uma vergonha, uma infâmia! — gritou. — Não posso crer que tenha dado semelhantes ordens.
Berg e a condessa olhavam-na entre surpreendidos e assustados. O conde deteve-se junto de uma janela, atento ao que ia passar-se,
— Mãezinha, não é possível, olhe para o pátio. — gritou ela. — Vão ficar ali!...
— Que tens tu? Quem? Que queres?
— Os feridos, quem havia de ser? É impossível, mãezinha, uma coisa dessas não tem classificação... Mãe, mãezinha, perdoe-me se lhe falo nestes termos, minha querida mãezinha... Então, para que queremos nós todas essas coisas que levamos connosco? Olhe, se faz favor, para o que está a passar-se lá em baixo... Mãezinha!... Isto não pode ser!...
O conde conservava-se junto da janela e ouvia a filha sem se voltar para dentro. De súbito, resfolgou e aproximou-se dos vidros.
A condessa leu nos olhos da filha a reprovação que a conduta dela lhe inspirava, viu a excitação que a tomava, percebeu porque o marido desviava dela os olhos e uma expressão de absoluto desamparo se estampou no seu rosto.
— Façam o que quiserem! Porventura os impeço? — murmurou ela, sem renunciar de todo à sua atitude.
— Mãe, mãezinha, perdoe-me!...
A condessa afastou-a de si e aproximou-se do conde. — Meu amigo, dá as tuas ordens como entenderes... Como podia eu saber? — articulou, baixando os olhos, como se se sentisse culpada.
— São os pintos, são os pintos que dão lições à galinha... — exclamou o conde, com as lágrimas nos olhos, recebendo a condessa nos braços, contente por poder assim esconder no peito do marido a confusão que lhe ia na alma.
— Pai, mãe! Pode então dar as ordens? Não e verdade? — perguntava Natacha. — Assim mesmo podemos levar tudo de que ternos necessidade.
O conde assentiu com um gesto de cabeça e a filha, rápida como quando jogava às escondidas, precipitou-se no vestíbulo e desandou escada abaixo.
Os criados acercaram-se de Natacha, rodearam-na, e não acreditaram nas estranhas ordens que ela lhes dava enquanto as não viram confirmadas pelo conde em nome da condessa, Tratava-se de pôr todos os carros à disposição dos feridos e de transportar os caixotes para a arrecadação. Assim que se certificaram das ordens dadas, com alegria e entusiasmo meteram mãos à obra. Já não lhes parecia estranha agora a resolução dos anos afigurava-se-lhes naturalíssimo que se recolhessem os feridos e se abandonassem as bagagens, quando é certo que um quarto de hora antes o contrário é que lhes parecia razoável.
Toda a gente da casa, como para compensar o tempo perdido, se consagrou a instalar os feridos nos respectivos carros. Estes, pálidos, mas contentes, arrastaram-se para fora de casa e rodearam as viaturas. A boa nova não tardou a correr pelas casas próximas e o pátio dos Rostov encheu-se de feridos.
Muitos deles pediram que os deixassem estar onde estavam as bagagens e instalaram-se em cima delas, Uma vez, porém, que se tinham principiado a descarregar os carros já se não podia voltar atrás. Aliás, que fazia abandonar tudo ou só parte das coisas? O pátio estava juncado de caixotes cheios de louças, de bronzes, de quadros, tudo quanto fora cuidadosamente encaixotado na noite anterior, e ainda se arranjava maneira de descarregar mais coisas para deixar livres os carros,
— Ainda se podem arranjar mais quatro. — disse o intendente — Cedo o meu carro. De outra maneira, como havemos de os instalar a todos?
— Dêem-lhes o carro onde vai o meu guarda-roupa. Dutilacha virá comigo no meu.
Esta ordem foi executada, e mandaram a carruagem recolher feridos duas casas mais adiante. Uma jovial animação impelia toda a criadagem. Natacha há muito tempo que se não sentia tão animada e feliz.
— Como havemos de a amarrar? — diziam os criados que içavam uma mala para o acanhado estribo de uma das viaturas. — Deviam ao menos reservar um dos carros,
— Que tem a mala lá dentro? — perguntou Natacha. — Os livros CIO conde.
— Deixem. O Vassilitch trata disso. Não se preocupem.
O carro não podia levar mais gente. Onde havia de sentar-se Piotre Ilitch?
— Irá no banco do cocheiro. Não é assim, Pétia? Irás ao lado do cocheiro — gritou-lhe Natacha.
Também Sónia agia como podia, mas ao contrário do que fazia Natacha. Ordenava cuidadosamente as coisas que ficavam, inventariando-as, como queria a condessa, procurando levar o que fosse possível.
[XVII]
As duas horas da tarde, as quatro carruagens dos Rostov, carregadas e atreladas, estavam diante da porta principal. Os carros com os feridos tinham saído uns atrás dos outros, abandonando o pátio. A sege que transportava o príncipe André, ao passar diante do alpendre, chamara a atenção de Sónia, ocupada então, com o auxílio de uma criada, a arranjar um bom lugar para a condessa na sua alta e grande carruagem parada diante da porta.
— De quem é aquela sege? — perguntou ela, metendo a cabeça pela portinhola.
— Não sabe, menina? — disse a criada. — É do príncipe fendo que passou aqui a noite e vai partir ao mesmo tempo que nós.
— Quem é? Como se chama?
— É o noivo antigo, o príncipe Boliconski — replicou a criada tristemente. — Parece que está perdido.
Sónia saltou do estribo do carro e correu em busca da condessa.
Esta, já em trajo de jornada, com o xale pelos ombros e o chapéu na cabeça, andava de um lado para o outro do salão, cansada, aguardando que todos saíssem para se sentar um instante, com as portas fechadas, como era seu costume, fazendo as suas orações antes da abalada. Natacha não estava presente.
— Mãezinha! — exclamou Sónia. — O príncipe André está aqui, ferido, e à morte. Vai partir connosco.
A condessa olhou para ela de olhos arregalados e pegando-lhe por um braço:
— Porventura Natacha...? — articulou ela.
Tanto a ela como a Sónia aquela notícia principiara por despertar-lhes um único pensamento. Ambas conheciam muitíssimo bem Natacha e horrorizava-as a ideia do efeito que nela produziria uma tal nova, o que as levava a esquecer a simpatia que o príncipe lhes despertava.
— Natacha nada sabe por ora, mas o príncipe vai connosco. — voltou Sónia.
— Disseste que está a morrer?
Sónia abanou a cabeça afirmativamente, A condessa apertou-a contra si, soluçando,
«Os caminhos de Deus são insondáveis!», disse para si mesma. E pensou que em tudo que estava a acontecer havia a mão da Providência, oculta até aí.
— Bem, mãezinha, está tudo pronto. Que tem? — perguntou Natacha, que, muito animada, acabava de entrar na sala. — Nada — replicou a condessa. — Se tudo está pronto, vamo-nos embora.
E, para esconder a perturbação que a tomava, pôs-se a remexer na maleta. Sónia estreitou Natacha nos seus braços e beijou-a na face.
Esta fitou-a surpreendida.
— Que tens tu? Que aconteceu?
— Nada... nada...
— Alguma má notícia para mim? Que foi? — inquiriu Natacha, tomada de um pressentimento.
Sónia despediu um suspiro sem responder. O conde, Madame Schoss, Mavra Kuzminitchna, Vassilitch, entraram no salão. De— pois de fecharem as portas, sentaram-se, e assim ficaram por algum tempo sem dizerem palavra e sem olharem uns para os outros.
O primeiro a levantar-se depois foi o conde, e, suspirando fundo, persignou-se diante dos ícones. Todos os demais o imitaram. Em seguida beijou Mavra Kuzminitchna e Vassilitch, que ficavam em Moscovo, e enquanto eles lhe pegavam na mão e o beijavam no ombro, o conde batia-lhes nas costas, pronunciando algumas palavras carinhosas e consoladoras. A condessa recolheu-se ao seu oratório e ajoelhou diante das imagens ainda nas paredes, pois as mais preciosas, recordações de família, haviam sido retiradas para seguir também.
No alpendre e no pátio, os criados que acompanhavam os amos, armados de sabres e punhais que Pétia lhes distribuíra, as calças metidas nos canos das botas, o torso bem cingido em correias e cinturões, despediam-se dos que ficavam.
Como sempre acontece à hora da partida, muitas coisas tinham esquecido, outras estavam mal arrumadas nos carros. Eis porque os dois lacaios estacionaram, por muito tempo, dos dois lados das portinholas abertas e dos estribos da carruagem, prontos a ajudar a condessa a subir, enquanto as criadas andavam de um lado para o outro com as almofadas e os embrulhos, correndo da casa para a berlinda, e da sege para a britchka.
— Sempre se hão-de esquecer de alguma coisa! — exclamava a ama. — Mas bem sabem que eu me não posso sentar assim.
Sem responder de dentes cerrados e uma expressão de censura. Duniacha precipitou-se para a carruagem a fim de ajeitar as almofadas.
— Oh, que gente! — murmurava o conde, abanando a cabeça.
O velho cocheiro Efim, o único em que a condessa confiava, sentado, lá no alto da boleia, pouco parecia preocupar-se com o que se passava atrás. Graças à experiência que adquirira em mais de trinta anos de serviço, estava certo de que não seria tão cedo que lhe diriam «Vamos! » e que depois de o dizerem ainda o mandariam parar mais duas ou três vezes, para buscar coisas esquecidas, e que em seguida o fariam parar ainda uma vez e que a condessa meteria a cabeça pela portinhola para lhe pedir, em nome de Deus, que descesse as ladeiras devagar. Tudo isto ele o sabia, e, muito mais pacientemente que os seus próprios cavalos, sobretudo o da esquerda, o alazão Sokol, que relinchava e remordia o freio, aguardava os acontecimentos. Finalmente, toda a gente se instalou: recolheram-se os estribos, as portinholas fecharam-se, mandaram ainda procurar um cofrezinho esquecido, e a condessa, metendo a cabeça pela portinhola, pronunciou as palavras sacramentais. Então Efim, lentamente, desbarretou-se e fez o sinal da cruz. O postilhão e os criados imitaram-no. «Que Deus nos proteja!», exclamou Efim, cobrindo-se. O postilhão fez rodar a carruagem. O cavalo de lança da direita fez força sobre o arnês, as molas rangeram e a caixa da sege estremeceu. O lacaio saltou para o assento depois do carro em marcha. Aos solavancos, este entrou na rua empedrada, as outras carruagens, por sua vez, agitaram-se também e todos se puseram em marcha. Um por um, todos os viajantes, ao passarem diante da igreja que ficava defronte da casa, se persignaram. Os criados que ficavam na cidade acompanhavam a pé, de cada lado, os carros que partiam.
Poucas vezes Natacha estivera tão alegre como no momento em que, sentada diante da mãe, via desfilar, lentamente, o casario da cidade de Moscovo, inquieta e abandonada. De quando em quando metia a cabeça pela portinhola e contemplava o grande comboio de feridos que os seguia. À frente de todos lá vinha a capota da sege do príncipe André. Ignorava quem ali ia, e no entanto, do lugar em que se encontrava, era sempre essa capota que procurava com a vista, pois precedia todas as outras carruagens.
Em Kudine desembocaram das Ruas Nikitskaia, de Priesni e de Podriovinski vários comboios do mesmo género, e ao passarem por Sodovaia todos os carros formaram duas filas.
Diante da Torre Sukariev, Natacha, entretida a observar a multidão e as carruagens, exclamou, de súbito, com jovial surpresa:
— Santo nome de Deus! Mãe, Sónia, olhem. é ele!
— Quem? Quem?
— Olhem! O Bezukov. — E debruçou-se da portinhola, apontando para um homenzarrão, envergando um cafetã de cocheiro, evidentemente, como podia depreender-se do seu porte e do seu andar, um senhor disfarçado. Acompanhado por um velhinho de rosto amarelento e imberbe, de capote de lã, caminhava direito ao arco da Torre.
— Garanto-lhes que é o Bclzukov, de cafetã, e vai com um velho. Podem ter a certeza, olhem, olhem!
— Não pode ser. Não é ele. Como podes dizer semelhante tolice?
— Mãezinha, corto o pescoço: é ele. Garanto-lhe. Pára! Para! — gritou para o cocheiro,
O cocheiro, porém, não podia parar, pois da Rua Miechtchanskaia desembocavam mais comboios e mais carros e os cocheiros gritavam aos Rostov que não embaraçassem a circulação.
Efectivamente, embora já longe, todos os Rostov reconheceram Pedro, ou, pelo menos, um homem que com ele se parecia extraordinariamente, caminhando, de cabeça baixa e expressão grave, com um cafetã de cocheiro, ao lado de um velhinho imberbe, com aspecto de lacaio. O velho, notando a cabeça que se debruçava da portinhola, tocou respeitosa m ente no cotovelo do companheiro e disse-lhe qualquer coisa, apontando para a carruagem. De tão mergulhado que ia nos seus pensamentos, Pedro tardou em compreender o que o velho lhe dizia. Tendo, por fim, compreendido, ergueu os olhos, reconheceu Natacha e, num primeiro impulso, correu para o carro. Alguns passos andados, contudo, parou indeciso.
A cabeça de Natacha, toda debruçada da portinhola, resplandecia de irónica doçura.
— Piotre Kirilitch, venha daí! Não vê que já o conhecemos? Que engraçado que é! Que anda a fazer? Para que se disfarçou?
Pedro apertou a mão que se lhe estendia, e sempre a andar, pois o carro continuava a rodar, beijou-a desajeitadamente.
— Que anda a fazer, conde? — perguntou a condessa, numa voz repassada de espanto e compaixão.
— Eu? Mas nada, nada. Não me faça perguntas — replicou ele, sentindo que o olhar alegre e luminoso de Natacha o atraía com o seu encanto.
— Que anda a fazer? Fica em Moscovo?
Pedro manteve-se calado.
— Em Moscovo? — perguntou ele.
— Sim, em Moscovo. Adeus! Oh! O que eu daria para ser um homem! Ficaria consigo. Oh! Seria magnífico! — exclamou Natacha. — Mãezinha, se dá licença, eu também ficarei.
Pedro olhou para ela distraidamente e quis dizer qualquer coisa, mas a condessa interrompeu-o.
— Esteve na batalha, não é verdade? Foi o que nos disseram.
— Estive — respondeu ele. — Amanhã haverá outra batalha...
Natacha interrompeu-o.
— Mas que tem, conde? Não é o mesmo...
— Oh! Não me faça perguntas. Nada lhe posso dizer. Amanhã... Mas não. Adeus, adeus! Que tempos terríveis! — acrescentou.
E, afastando-se da carruagem, dirigiu-se para o passeio.
Por muito tempo ainda Natacha se conservou à portinhola, seguindo-o com o seu sorriso alegre e afectuoso em que havia fosse o que fosse de irónico.
[XVIII]
Desde que desaparecera de sua casa, dois dias antes, Pedro vivia no andar abandonado do falecido Bazdeiev. Eis o que se passara:
Quando acordou, no dia seguinte ao do seu regresso a Moscovo e da sua entrevista com Rostoptchine, levou tempo a compreender onde se encontrava e o que queriam dele. Depois, ao dizerem-lhe que entre as pessoas que o aguardavam na antecâmara estava o francês que lhe entregara a carta da mulher, tornou-o, de súbito, um desses acessos de desânimo e aturdimento a que era atreito. Consigo mesmo disse que tudo estava acabado, que só havia confusão e ruínas, que ninguém tinha culpa nem ninguém tinha razão, que nada esperava do futuro e que a sua vida era um beco sem saída. Rindo com um riso artificial e articulando palavras sem nexo, ora se deixava cair, inanimado, num divã, ora se levantava, se aproximava da porta e espreitava para a antecâmara pelo buraco da fechadura, ora ainda, com um gesto desesperado, voltava a sentar-se, tentando ler. O mordomo veio dizer-lhe, pela segunda vez, que o tal senhor insistia em falar-lhe, por pouco tempo que fosse, e acrescentou que alguém viera pedir-lhe que aceitasse uns livros pertencentes à viúva Bazdeiev, a qual também deixara a cidade.
— Sim, vou já, espera... ou melhor... Diz-lhes que vou Imediatamente — respondera ele.
Assim que o mordomo saíra, Pedro agarrara no chapéu e desaparecera por uma porta detrás. Não havia ninguém no corredor. Seguiu ao longo desse corredor até à escada e, uma vez aí, absorto e apertando a cabeça entre as mãos, desceu até ao primeiro patamar. O porteiro estava junto da porta principal. No patamar onde Pedro se detivera havia outra escada que conduzia à porta de serviço. Por aí passou e desceu para o pátio. Ninguém o vira. Na rua, porém, ao transpor o portão, os cocheiros que aí estacionavam e o próprio porteiro, vendo-o, descobriram-se. Ao sentir que os olhos deles o seguiam, Pedro fez como e, avestruz, que esconde a cabeça debaixo da asa para passar despercebido. Baixando os olhos, acelerou o passo.
A coisa que se lhe afigurara mais urgente naquela manhã era recolher os livros e os papéis de Osip Alexeievitch Bazdeiev. Tomou o primeiro carro que se lhe deparou e mandou bater para os Tanques Patriartchi, onde residia a viúva Bazdeiev.
Ia observando a grande fileira de carros que saíam da cidade enquanto se firmava o melhor que podia na velha carruagem desconchavada que ameaçava atirá-lo à rua.
Sentia a alegria de uma criança que faz gazeta à escola e todo o caminho tagarelou com o cocheiro.
Este contou-lhe que no Kremlin estavam a distribuir armas pelo povo e que no dia seguinte toda aquela gente se concentraria na barreira de Tri Geri, onde iria travar-se uma grande batalha. Quando chegou aos Tanques Patriartchi, pediu que lhe indicassem a casa de Bazdeiev, onde há muito não vinha. Aproximou-se da cancela. Guerassime, aquele velhinho imberbe e amarelento que ele vira em Torjok, há cinco anos, na companhia do falecido amo, acorreu a recebê-lo.
— A senhora está? — perguntou Pedro.
— Saiba Vossa Excelência que a senhora e os meninos foram para as suas terras de Torjok. — Informou ele.
— Mesmo assim entro. Tenho de seleccionar os livros. — volveu Pedro.
— Bem-vindo seja. O irmão do falecido, que Deus tenha em descanso. Makar Alexeievitch, está aí. Mas, como sabe, é tontinho — tornou o velho criado.
Makar Alexeievitch, como Pedro sabia, era meio doido e passava a vida a beber.
— Sim, sim, bem sei. Vamos... vamos... — disse Pedro, entrando.
No vestíbulo, de pé, com os pés, sem meias, metidos nuns chinelos, estava um corpulento velho, calvo, embrulhado num roupão. Quando viu Pedro, murmurou algumas palavras, furibundo, e saiu para o corredor.
— Era inteligentíssimo, mas agora, como vê, está tontinho — disse Guerassime. — Quer entrar para o escritório?
Pedro assentiu com um aceno de cabeça.
- Tem estado sempre fechado. Sofia
Danilovna deu ordens, caso alguém viesse da sua parte, para entregarmos os livros.
Pedro penetrou no escritório escuro onde nunca entrara em vida do Benfeitor sem um estremecimento.
Agora, coberto de pó e intacto desde que morrera Osip Alexeievitch, ainda parecia mais triste.
Guerassime, depois de abrir as portadas das janelas, desapareceu em bicos de pés. Pedro, assim que percorreu a dependência, aproximou-se do armário onde estavam os manuscritos e pegou num deles, um dos mais preciosos para a história da Ordem. Eram as actas originais das lojas escocesas, anotadas e explicadas pelo Benfeitor. Sentou-se diante da mesa de trabalho coberta de pó e, colocando o manuscrito diante de si, folheou-o, voltou a fechá-lo, e, por fim, esquecido dele, quedou-se, mergulhado nos seus pensamentos, de cabeça entre as mãos. Por várias vezes Guerassime, relanceando um olhar discreto ao escritório, viu Pedro na mesma postura. Passadas mais de duas horas, permitiu-se remexer qualquer coisa junto da porta para chamar a atenção de Bezukov: este, porém, não deu por coisa alguma. — Quer que mande embora o cocheiro?
— Ah! Sim — replicou Pedro, voltando a si e levantando-se precipitadamente. — Ouve — prosseguiu, detendo Guerassime por um botão da blusa enquanto o mirava dos pés à cabeça com os seus olhos brilhantes, húmidos e cheios de entusiasmo. — Ouve, sabes que amanhã vai haver uma batalha?
— É o que dizem — volveu Guerassime.
— Peço-te que a ninguém digas quem eu sou. E agora faz o que eu te disser...
— Às suas ordens, Quer comer alguma coisa?
— Não, é de outra coisa que preciso. Quero que me arranjes um fato de camponês e uma pistola — disse Pedro, corando.
— Às suas ordens — replicou Guerassime após um momento de reflexão.
Pedro levou o resto daquele dia no escritório do Benfeitor, passeando, nervosamente, de um lado para o outro, como Guerassime o pôde ver, e falando sozinho. À noite dormiu numa cama ali mesmo armada.
Guerassime, que na sua longa vida de criado vira muita coisa estranha, aceitou sem relutância que Pedro se instalasse em casa dos seus amos e sentiu-se mesmo contente por ter tido ocasião de lhe prestar um serviço. Nessa noite, sem perguntar sequer para que isso lhe serviria, arranjou um cafetã e um boné para Pedro, prometendo-lhe para o dia seguinte a pistola pedida. Makar Alexeievitch, por duas vezes, durante o dia, a arrastar os chinelos, veio postar-se à porta, olhando para Bezukov com um olhar carinhoso. De uma das vezes, tendo-se Pedro voltado para, ele, o idiota embrulhou-se no roupão, com ar tímido e enfadado, e afastou-se pressuroso. Foi então que Bezukov, vestido com o trajo de cocheiro que Guerassime conseguira para ele, na companhia deste, e quando ia tentar arranjar uma pistola na Torre Sukariev, se cruzou na rua com os Rostov.
[XIX]
Na noite do dia 1 de Setembro, Kutuzov deu ordem às tropas russas para retirarem sobre Moscovo pela estrada de Riazan, As primeiras tropas puseram-se a caminho durante a noite. Nessa marcha nocturna ninguém se apressava, todos caminhavam lenta e ordenadamente; quando raiou, porém, a madrugada, ao chegarem à ponte de Dorogomilov, os soldados viram diante de si, do outro lado, massas de homens armados que se atropelavam para passar a ponte, acumulando-se na outra margem, bloqueando ruas e quelhas, comprimidos por outros que vinham atrás deles. Nas colunas de tropas deu-se então uma grande desordem. Toda a gente se precipitou para a ponte, para os vaus e para as barcas. O próprio Kutuzov ordenou que os transportassem para a outra margem por caminhos desviados.
As dez horas da manhã do dia 2 de Setembro havia apenas tropas de retaguarda nos arrabaldes de Dorogomilov. O grosso do exército atravessara o Moskva e estava já muito para além de Moscovo.
À mesma hora encontrava-se Napoleão, no meio das suas tropas, no monte Poklonaia e contemplava o espectáculo que se lhe oferecia aos olhos. Entre 26 de Agosto e 1 de Setembro, da batalha de Borodino à entrada do inimigo em Moscovo, durante aquela semana memorável e inquieta, fizera um tempo extraordinário, motivo de surpresa em pleno Outono. O Sol, já muito baixo no horizonte, era mais ardente que na Primavera; pela atmosfera, levíssima e pura, irradiava uma luz que deslumbrava os olhos; o peito dos homens dilatava-se feliz por aspirar os capitosos aromas outonais; as próprias noites, escuras e mornas, eram suaves, e durante elas caía do céu como que uma chuva de estrelas de ouro que, espalhando alegria, ao mesmo tempo assustava as pessoas.
No dia 2 de Setembro, às dez horas da manhã, o tempo estava assim.
A luz matinal irradiava um brilho feérico. Do alto do monte Poklonaia via-se em baixo Moscovo, com o seu rio, os seus jardins, as suas igrejas. Dir-se-ia que a cidade tinha vida própria, com as suas cúpulas cintilando, sob os raios do Sol, como se fossem estrelas.
Ante a arquitectura extraordinária daquela capital.— Napoleão sentiu essa curiosidade inquieta e cobiçosa que costuma despertar o contacto com uma existência de que nada sabemos e que nos é completamente estranha. Via-se bem que aquela cidade tinha vida própria e intensa. Graças a esses sinais indefiníveis que nos permitem distinguir a distância um ser vivo de um cadáver, Napoleão, do alto do monte Poklonaia, apercebia o palpitar da vida daquela capital como se sentisse a respiração desse grande e magnífico corpo.
Ao contemplar Moscovo, todos os russos sentem que ela é como que uma mãe para eles. O estrangeiro, embora desprovido deste sentimento filial, não pode deixar de se sentir impressionado pelo carácter feminino da cidade. Eis a impressão que Napoleão sentia também.
— Esta cidade asiática das mil igrejas, Moscovo, a Santa. Aqui está ela, finalmente, a famosa cidade. Já era tempo! — exclamou ele, e, apeando-se do cavalo, mandou abrir diante de si a planta da cidade e chamou o intérprete, Lelorgne d’Ideville. «Uma cidade ocupada pelo inimigo faz lembrar uma virgem que Perdeu a virgindade», pensava, repetindo para si próprio o que dissera em Smolensk a Tutchkov. E animado por estes sentimentos contemplava, estendida a seus pés, a beleza oriental que via pela primeira vez. Ele próprio achava extraordinário que, se realizasse enfim aquele sonho que havia tanto acarinhava e que se lhe afigurara irrealizável. Aquela clara luz matinal, ora fixava os olhos na cidade ora no mapa que tinha diante, confirmando pormenores, e a certeza daquela posse ao mesmo tempo que o perturbava causava-lhe medo,
«Teria porventura podido ser de outra maneira?», interrogava-se a si próprio. «Ei-la aqui, a grande capital, ei-la a meus pés, aguardando o destino. Onde estará agora Alexandre? E que pensará ele? Cidade estranha, soberba, magnífica! Que momento raro e solene! Sob que aspecto me verão eles?», prosseguia pensando nos seus soldados. «Aqui a têm, a recompensa que dou a esses homens de pouca fé.» E percorria com os olhos a comitiva e as tropas que marchavam em perfeita ordem! «Basta uma palavra minha, um só gesto da minha mão, e esta antiga capital dos czares converter-se-á num monte de ruínas. Mas a minha clemência está sempre pronta a descer até aos vencidos. Devo ser magnânimo e verdadeiramente grande... Não! Será possível que eu esteja em Moscovo?», interrogava-se, de súbito. «Mas a verdade é que ela aqui está, deitada a meus pés, com as suas cúpulas douradas e as suas cruzes cintilando à luz do Sol. Saberei poupá-la. Na fachada destes antigos monumentos, símbolo da barbaria e do despotismo, mandarei escrever grandiosas palavras inspiradoras de justiça e misericórdia — Tenho a certeza de que Alexandre o há-de apreciar acima de todas as coisas...» Afigurava-se-lhe que tudo aquilo era resultado da rivalidade pessoal entre ele e Alexandre. «Do alto do Kremlin — sim, aquilo é o Kremlin— ditar-lhes-ei leis justas, mostrar-lhes-ei a verdadeira civilização; as futuras gerações dos boiardos hão-de pronunciar amorosamente o nome do seu conquistador. Direi à delegação que me enviarem que não quis e não quero a guerra, que a que me v forçado a fazer visava a política mentirosa da sua corte, que amo e respeito Alexandre e que estou pronto a aceitar em Moscovo uma paz digna de mim e dos meus povos. Não quero aproveitar-me de uma guerra vergonhosa para humilhar o soberano a quem venero. ’Boiardos!’, dir-lhes-ei, ’não quero a guerra, quero a paz e o bem-estar de todos os meus súbditos.’ Aliás, tenho a certeza de que a presença dessa gente me há-de inspirar e que lhes hei-de falar como sempre falo, com clareza, com solenidade e com grandeza. Mas será possível que eu esteja em Moscovo? Estou, Moscovo, ei-la ali.»
— Tragam-me os boiardos! — exclamou, voltando-se para a comitiva.
Um general, seguido de um séquito brilhante, partiu imediatamente a galope em busca dos boiardos.
Duas horas decorreram. Napoleão almoçou e voltou para o mesmo local do monte Poklonaia a aguardar a delegação. O discurso que lhe dirigiria desenhava-se-lhe já claro na imaginação. Era um modelo de dignidade e grandeza de acordo com a concepção napoleónica.
A magnanimidade desse discurso, que ele esperava agisse poderosamente sobre Moscovo, enchia-o de entusiasmo. Assentava já na data em que reconvocaria a reunião no palácio dos czares, reunião essa em que as altas personalidades russas deveriam encontrar-se com as da sua corte. E nomearia previamente um governador capaz de conquistar para ele, Bonaparte, a simpatia da população. Sabendo que Moscovo dispunha de grande número de instituições de caridade, estava decidido a cumulá-las de benesses. «Assim como, em África», pensava, «devemos envergar um albornoz para entrar numa mesquita, em Moscovo convém sermos generosos para com os czares.» E para definitivamente conquistar o coração dos Russos, como todo o bom francês, incapaz de conceber seja o que for de sentimental sem falar da minha querida, da minha terna, da minha pobre mãe, ei-lo que decide que na fachada de todas as instituições mandaria inscrever em grandes letras: — Estabelecimento dedicado à minha querida mãe. Ou, não, antes, simplesmente: Casa de minha mãe. «Mas estarei eu, realmente, em Moscovo?», repetia de si para consigo, mentalmente. «Sim, ei-la aqui diante de mim. Então porque leva a delegação tanto tempo a aparecer?»
Entretanto, nas últimas fileiras da sua comitiva, generais e marechais discutiam a meia voz. Os que haviam sido enviados pela delegação tinham voltado e informavam que a cidade estava deserta, todos os seus habitantes a tinham abandonado. A palidez e a consternação estamparam-se em todos os rostos. Não era propriamente a notícia que os atemorizava, embora fosse de vulto, mas a maneira de a comunicarem ao imperador sem colocar Sua Majestade numa situação ridícula, para os Franceses a mais grave de todas, fazendo-lhe saber que debalde aguardaria os boiardos e que em Moscovo apenas se viam bandos de bêbedos. Havia quem fosse de parecer que apesar de tudo devia arranjar-se uma delegação; outros, pelo contrário, sustentavam ser preciso, com todo o cuidado, e prudência, preparar o imperador e dizer-lhe a verdade.
— É preciso dizer-lho, seja como for... — diziam. — Mas, meus senhores...
A situação era tanto mais penosa quanto era certo o imperador, todo entregue aos seus sonhos de generosidade, andar de um lado para outro, pacientemente, diante do mapa da cidade, olhando de tempos a tempos para a estrada de Moscovo e sorrindo triunfante.
— Mas é impossível... — diziam os membros da comitiva, encolhendo os ombros, sem se decidirem a pronunciar a palavra terrível — «ridículo» — Que cada um tinha nos lábios.
Entretanto o imperador, cansado de esperar, e sentindo, graças ao seu instinto de actor, que o instante sublime tardava de mais, perdendo, portanto, a sua grandeza, acenou com a mão. Um tiro de peça deu o sinal e as tropas que cercavam a cidade por todos os lados marcharam em direcção a Tverskaia, através da Calçada de Kaluga, e romperam pela barreira de Dorogomilov. Em passo cada vez mais acelerado, adiantando-se uns aos outros, soldados de infantaria e cavalaria avançavam, levantando grandes nuvens de poeira e atroando os ares com os seus gritos ensurdecedores.
Arrebatado pelo entusiasmo dos seus soldados, Napoleão chegou ao mesmo tempo do que eles à barreira de Dorogomilov. Uma vez aí, parou, apeando-se do cavalo, e por muito tempo aí ficou a passear junto da esplanada de Kamer-Koleskovo, sempre espera da delegação.
[XX]
Moscovo estava deserta, Embora lá se encontrassem alguns habitantes, a quinta parte, pouco mais ou menos, da sua população habitual, nem por isso estava menos deserta. Na colmeia o que falta a rainha, não há vida, embora a um olhar superficial continue tão animada como antes.
Sob os ardentes raios de sol do meio-dia, as abelhas dessa colmeia zumbem em torno dela como em torno das demais. Também aí se sente o cheiro a mel, e as abelhas entram e saem. Um pouco de atenção, porém, e compreender-se-á que nessa colmeia já não há vida. As abelhas não lhe zumbem em redor como em redor das colmeias vivas, e não têm nem o mesmo cheiro nem o mesmo zumbido. Quando se bate na parede de uma colmeia doente, em vez da resposta instantânea e unânime de dezenas de milhares de insectos que alçam, ameaçadores, o ferrão, agitando no ar as asas rápidas, apenas se ouvem zumbidos isolados em certos pontos da colmeia quase vazia. A entrada já se não aspira, como antes, o perfume alcoolizado e forte do mel e do veneno cios seus habitantes; já não sai lá de dentro o calor de um lugar habitado. Ao perfume adocicado de outros tempos junta-se agora um cheiro a podridão e abandono. Já não há guardas prontas a dar sinal de alarme e a morrer em defesa da colmeia. Já se não ouve esse som regular e tranquilo. índice de um trabalho activo, que faz lembrar o cachão da água a ferver, mas zumbidos irregulares e dispersos, indício de desordem. Entram e saem da colmeia, tímidas e astuciosas, salteadoras negras, de corpo alongado e coberto de mel. Desprovidas de ferrão, fogem quando as perseguem. Antigamente as obreiras chegavam com o seu quinhão e partiam sem nada; agora, pelo contrário, cada uma leva a sua parte. O apicultor abre a parte inferior da colmeia e examina o que se passa aí. Em vez das abelhas negras e gordas, entregues ao seu trabalho, pendendo em cacho até à parte inferior, fincadas umas nas outras pelas patas, e segregando cera num zumbido ininterrupto, abelhas sonolentas erram de um lado para o outro no fundo e nas paredes da colmeia. Em lugar de um pavimento bem fornido de cera vermelha e cuidadosamente varrido pelas asas dos habitantes, juncam o chão migalhas de cera, excrementos e abelhas semimortas, que agitam as patas molemente, ou estão mortas de todo.
O apicultor abre agora a parte superior da colmeia e examina c, que lá vai dentro. Em vez dos intervalos das prateleiras bem calafetados, para que os insectos estejam aconchegados, vê um trabalho artístico, complicado e hábil, mas já não no seu estado virgem de outrora. Tudo está sujo e deserto. As abelhas salteadoras introduzem-se, rápidas e subtis, pelo meio das obreiras: estas, secas, encolhidas, murchas, como se fossem velhas, deslocam-se lentamente, sem impedir a pilhagem das salteadoras, sem nada quererem, sem gosto pela vida. Zângãos, larvas, borboletas, batem de encontro às paredes da colmeia. Aqui e ali, entre os tabuleiros com abelhas mortas e mel, ouve-se, de quando em quando, um zumbido irritado. Algures, duas abelhas, impelidas Pelo instinto e o antigo hábito, limpam o interior da colmeia e arrastam para o exterior, num esforço que excede o seu poder, cadáveres de abelhas mortas ou de zangãos, sem se darem conta do que estão a fazer. Noutro canto, duas velhas abelhas lutam Preguiçosamente ou lavam-se ou nutrem-se uma à outra, sem consciência de ser hostil ou amistosa a sua atitude. Noutro ponto ainda um grupo de abelhas, esmagando-se mutuamente, ataca uma vítima qualquer, e sufoca-a. E a vítima, impotente ou morta, cai lentamente, leve como uma pena, sobre o monte de cadáveres. O apicultor retira dois tabuleiros do meio para ver o ninho. No centro de milhares de abelhas que formam um círculo negro e apertado, costas com costas, ali colocadas para vigiar os altos mistérios da eclosão, vê agora apenas alguns centos de abelhas esqueléticas, tristíssimas, quase mortas e entorpecidas. Pela maior parte, estão efectivamente semimortas e Ignoram, na sentinela que fazem àquele santuário, que já não existe o que elas tinham de guardar. Despedem um fedor a podridão e a morte. Apenas algumas remexem ainda, esvoaçam e preguiçosamente vêm pousar na mão do inimigo, já sem forças para perder a vida picando-o. As outras, mortas, caem no fundo, leves, como escamas de peixe. O apicultor fecha a colmeia, marca-a a giz e na altura precisa quebra-a para queimá-la.