Iaiá Garcia
Yayá Garcia
CAPITULO XI
CAPITULO XII
CAPITULO XIII
CAPITULO XIV
CAPITULO XV
CAPITULO XVI
CAPITULO XVII
YAYÁ GARCIA
I
Luiz Garcia transpunha a soleira da porta, para sair, quando appareceu um creado e lhe entregou esta carta:
«5 de Outubro de 1866.
«Sr. Luiz Garcia—Peço-lhe o favor de vir falar-me hoje, de
uma a duas horas da tarde. Preciso de seus conselhos, e talvez
de seus obsequios.—VALERIA.»
—Diga que irei. A senhora está cá no morro?
—Não, senhor, está na rua dos Invalidos.
Luiz Garcia era funccionario publico. Desde 1860 elegera no logar menos povoado de Santa Thereza uma habitação modesta, onde se metteu a si e a sua viuvez. Não era frade, mas queria como elles a solidão e o socego. A solidão não era absoluta, nem o socego ininterrompido; mas eram sempre maiores e mais certos que cá embaixo. Os frades que, na puericia da cidade, se tinham alojado nas outras collinas, desciam muita vez,—ou quando o exigia o sacro ministerio, ou quando o governo precisava da espada canonica,—e as occasiões não eram raras; mas geralmente em derredor de suas casas não ia soar a voz da labutação civil. Luiz Garcia podia dizer a mesma cousa; e, porque nenhuma vocação apostolica o incitava a abrir a outros a porta de seu refugio, podia dizer-se que fundara um convento em que elle era quasi toda a communidade, desde prior até noviço.
No momento em que começa esta narrativa, tinha Luiz Garcia quarenta e um annos. Era alto e magro, um começo de calva, barba rapada, ar circumspecto. Suas maneiras eram frias, modestas e cortezes; a physionomia um pouco triste. Um observador attento podia adivinhar por traz daquella impassibilidade apparente ou contrahida as minas de um coração desenganado. Assim era; a experiencia, que foi precoce, produzira em Luiz Garcia um estado de apathia e scepticismo, com seus laivos de desdem. O desdem não se revelava por nenhuma expressão exterior; era a ruga sardonica do coração. Por fora, havia só a mascara immovel, o gesto lento e as attitudes tranquillas. Alguns poderiam temel-o, outros detestal-o, sem que merecesse execração nem temor. Era inoffensivo por temperamento e por calculo. Como um celebre ecclesiastico, tinha para si que uma onça de paz vale mais que uma libra de victoria. Poucos lhe queriam deveras, e esses empregavam mal a affeição, que elle não retribuia com affeição egual, salvo duas excepções. Nem por isso era menos amigo de obsequiar. Luiz Garcia amava a especie e aborrecia o individuo. Quem recorria a seu prestimo, era raro que hão obtivesse favor. Obsequiava sem zelo, mas com efficacia, e tinha a particularidade de esquecer o beneficio, antes que o beneficiado o esquecesse.
A vida de Luiz Garcia era como a pessoa delle,—taciturna e retrahida. Não fazia nem recebia visitas. A casa era de poucos amigos; havia lá dentro a melancolia da solidão. Um só logar podia chamar-se alegre; eram as poucas braças de quintal que Luiz Garcia percorria e regava todas as manhãs. Erguia-se com o sol, tomava do regador, dava de beber ás flores e á hortaliça; depois recolhia-se e ia trabalhar antes do almoço, que era ás oito horas. Almoçado, descia a passo lento até á repartição, onde, se tinha algum tempo, folheava rapidamente as gazetas do dia. Trabalhava silenciosamente, com a fria serenidade do methodo. Fechado o expediente, voltava logo para casa, detendo-se raras vezes em caminho. Ao chegar a casa, já o preto Raymundo lhe havia preparado a mesa,—uma mesa de quatro a cinco palmos,—sobre a qual punha o jantar, parco em numero, mediocre na especie, mas farto e saboroso para um estomago sem aspirações nem saudades. Ia d'alli ver as plantas e reler algum tomo truncado, até que a noite caía. Então, sentava-se a trabalhar até ás nove horas, que era a hora do chá.
Não sómente o teor da vida tinha essa uniformidade, mas tambem a casa participava della. Cada movel, cada objecto,—ainda os infimos,—parecia haver-se petrificado. A cortina, que usualmente era corrida a certa hora, como que se enfadava se lhe não deixavam passar o ar e a luz, á hora costumada; abriam se as mesmas janellas e nunca outras. A regularidade era o estatuto commum. E se o homem amoldara as cousas a seu geito, não admira que amoldasse tambem o homem. Raymundo parecia feito expressamente para servir Luiz Garcia. Era um preto de cincoenta annos, estatura mediana, forte, apezar de seus largos dias, um typo de africano, submisso e dedicado. Era escravo e livre. Quando Luiz Garcia o herdou de seu pae,—não avultou mais o espolio,—deu-lhe logo carta de liberdade. Raymundo, nove annos mais velho que o senhor, carregara-o ao collo, e amava-o como se fora seu filho. Vendo-se livre, pareceu-lhe que era um modo de o expellir de casa, e sentiu um impulso atrevido e generoso. Fez um gesto para rasgar a carta de alforria, mas arrependeu-se a tempo. Luiz Garcia viu só a generosidade, não o atrevimento; palpou o affecto do escravo, sentiu-lhe o coração todo. Entre um e outro houve um pacto que para sempre os uniu.
—És livre, disse Luiz Garcia; viverás commigo até quando quizeres.
Raymundo foi dalli em diante um como espirito externo de seu senhor; pensava por este e reflectia-lhe o pensamento interior, em todas as suas acções, não menos silenciosas que pontuaes. Luiz Garcia não dava ordem nenhuma; tinha tudo á hora e no logar competente. Raymundo, posto fosse o unico servidor da casa, sobrava-lhe tempo, á tarde, para conversar com o antigo senhor, no jardinete, emquanto a noite vinha caindo. Alli falavam de seu pequeno mundo, das raras occurrencias domesticas, do tempo que devia fazer no dia seguinte, de uma ou outra circumstancia exterior. Quando a noite caía de todo, e a cidade abria os seus olhos de gaz, recolhiam-se elles a casa, a passo lento, á ilharga um do outro.
—Raymundo hoje vae tocar, não é? dizia ás vezes o preto.
—Quando quizeres, meu velho.
Raymundo accendia as velas, ia buscar a marimba, caminhava para o jardim, onde se sentava a tocar e a cantarolar baixinho umas vozes de Africa, memorias desmaiadas da tribu em que nascera. O canto do preto não era de saudade; nenhuma de suas cantilenas vinha afinada na clave pezarosa. Alegres eram, guerreiras, enthusiastas; por fim calava-se. O pensamento, em vez de volver ao berço africano, galgava a janella da sala em que Luiz Garcia trabalhava e pousava sobre elle como um feitiço protector. Quaesquer que fossem as differenças civis e naturaes entre os dous, as relações domesticas os tinham feito amigos.
Entretanto, das duas affeições de Luiz Garcia, Raymundo era apenas a segunda; a primeira era uma filha.
Se o jardim era a parte mais alegre da casa, o domingo era o dia mais festivo da semana. No sabbado, á tarde, acabado o jantar, descia Raymundo até á rua dos Arcos, a buscar a sinhá-moça, que estava sendo educada em um collegio. Luiz Garcia esperava por elles, sentado á porta ou encostado á janella, quando não era escondido em algum recanto da casa para fazer rir a pequena. Se a menina o não via á janella ou á porta, percebia que se escondera e corria a casa, onde não era difficil dar com elle, porque os recantos eram poucos. Então caíam nos braços um do outro. Luiz Garcia pegava della e sentava-a nos joelhos. Depois, beijava-a, tirava-lhe o chapellinho, que cobria os cabellos acastanhados e lhe tapava parte da testa rosada e fina; beijava-a outra vez, mas então nos cabellos e nos olhos,—os olhos, que eram claros e filtravam uma luz insinuante e curiosa.
Contava onze annos e chamava-se Lina. O nome domestico era Yayá. No collegio, como as outras meninas lhe chamassem assim, e houvesse mais de uma com egual nome, accrescentavam-lhe o appellido de familia. Esta era Yayá Garcia. Era alta, delgada, travessa; possuia os movimentos subitos e incoherentes da andorinha. A boca desabrochava facilmente em riso,—um riso que ainda não toldavam as dissimulações da vida, nem ensurdeciam as ironias de outra edade. Longos e muitos eram os beijos trocados com o pae. Luiz Garcia punha-a no chão, tornava a subil-a aos joelhos, até que consentia finalmente em separar-se della por alguns instantes. Yayá ia ter com o preto.
—Raymundo, o que é que você me guardou?
—Guardei uma cousa, respondia elle sorrindo. Yayá não é capaz de adivinhar o que é.
—É uma fructa.
—Não é.
—Um passarinho?
—Não adivinhou.
—Um doce?
—Que doce é?
—Não sei; dá cá o doce.
Raymundo negaceava ainda um pouco; mas afinal entregava a lembrança guardada. Era ás vezes um confeito, outras uma fructa, um insecto exquisito, um molho de flores. Yayá festejava a lembrança do escravo, dando saltos de alegria e de agradecimento. Raymundo olhava para ella, bebendo a felicidade que se lhe entornava dos olhos, como um jôrro de agua pura. Quando o presente era uma fructa ou um doce, a menina trincava-o logo, a olhar e a rir para o preto, a gesticular, e a interromper-se de quando em quando:
—Muito bom! Raymundo é amigo de Yayá... Viva Raymundo!
E seguia d'alli a mudar de roupa, e a visitar o resto da casa e o jardim. No jardim achava o pae já sentado no banco do costume, com uma das pernas sobre a outra, e as mãos cruzadas sobre o joelho. Ia ter com elle, sentava-se, erguia-se, colhia uma flor, corria atraz dos insectos. De noite, não havia trabalho para Luiz Garcia; a noite, como o dia seguinte, era toda consagrada á creança. Yayá referia ao pae as anedoctas do collegio, as puerilidades que não valem mais nem menos que outras da edade madura, as intriguinhas de nada, as pirraças de cousa nenhuma. Luiz Garcia escutava-a com egual attenção á que prestaria a uma grande narrativa historica. Seu magro rosto austero perdia a frieza e a indifferença; inclinado sobre a mesa, com os braços estendidos, as mãos da filha nas suas, considerava-se o mais venturoso dos homens. A narrativa da pequena era como costumam ser as da edade infantil: desegual e truncada, mas cheia de um colorido seu. Elle ouvia-a sem interromper; corrigia, sim, algum erro de prosodia ou alguma reflexão menos justa; fóra disso, ouvia sómente.
Pouco depois da madrugada todos tres estavam de pé. O sol de Santa Thereza era o mesmo da rua dos Arcos; Yayá, porém, achava-lhe alguma cousa mais ou melhor, quando o via entrar pela alcova dentro, atravez das persianas. Ia á janella que dava para uma parte do jardim. Via o pae bebendo a chicara de café, que aos domingos precedia o almoço. Ás vezes ia ter com elle; outras vezes elle caminhava para a janella, e, com o peitoril de permeio, trocavam os osculos da saudação. Durante o dia, Yayá derramava pela casa todas as sobras de vida, que tinha em si. O rosto de Luiz Garcia accendia-se de um reflexo de juventude, que lhe dissipava as sombras accumuladas pelo tempo. Raymundo vivia da alegria dos dous. Era domingo para todos tres, e tanto o senhor como o antigo escravo não ficavam menos collegiaes que a menina.
—Raymundo, dizia esta, você gosta de santo de comer?
Raymundo empertigava o corpo, abria um riso, e dando aos quadris e ao tronco o movimento de suas danças africanas, respondia cantarolando:
—Bonito santo! santo gostoso!
—E santo de trabalhar?
Raymundo, que já esperava o reverso, estacava subitamente, punha a cabeça entre as mãos, e affastava-se murmurando com terror:
—Eh... eh... não fala nesse santo, Yayá! não fala nesse santo!
—E santo de comer?
—Bonito santo! santo gostoso!
E o preto repetia o primeiro jogo, depois o segundo, até que Yayá, aborrecida, passava a outra cousa.
Não havia só recreio. Uma parte minima do dia,—pouco mais de uma hora,—era consagrada ao exame do que Yayá aprendera no collegio, durante os dias anteriores. Luiz Garcia interrogava-a, fazia-a ler, contar e desenhar alguma cousa. A docilidade da menina encantava a alma do pae. Nenhum receio, nenhuma hesitação; respondia, lia ou desenhava, conforme lhe era mandado ou pedido.
—Papae quer ouvir tocar piano? disse ella um dia; olhe, é assim.
E com os dedos na borda da mesa, executava um trecho musical, sobre teclas ausentes. Luiz Garcia sorriu, mas um veu lhe empanou os olhos. Yayá não tinha piano! Era preciso dar-lhe um, ainda com sacrificio. Se ella aprendia no collegio, não era para tocar mais tarde em casa? Este pensamento enraizou-se-lhe no cerebro e turbou o resto do dia. No dia seguinte, Luiz Garcia encheu-se de valor, pegou da caderneta da Caixa Economica e foi retirar o dinheiro preciso para comprar um piano. Eram da filha as poucas economias que ajuntava; o piano era para ella egualmente; não lhe diminuia a herança.
Quando no seguinte sabbado, Yayá viu o piano, que o pae lhe foi mostrar, sua alegria foi intensa, mas curta. O pae abrira-o, ella accordou as notas adormecidas no vasto movel, com suas mãosinhas ainda incertas e debeis. A um dos lados do instrumento, com os olhos nella, Luiz Garcia pagava-se do sacrificio, contemplando a satisfação da filha. Curta foi ella. Entre duas notas, Yayá parou, olhou para o pae, para o piano, para os outros moveis; depois descaiu-lhe o rosto, disse que tinha uma vertigem. Luiz Garcia ficou assustado, pegou della, chamou Raymundo; a creança affirmou que estava melhor, e finalmente que a vertigem passara de todo. Luiz Garcia respirou; os olhos de Yayá não ficaram mais alegres, nem ella foi tão travessa como costumava ser.
A causa da mudança, desconhecida para Luiz Garcia, era a penetração que madrugava no espirito da menina. Lembrara-se ella, repentinamente, das palavras que proferira e do gesto que fizera, no domingo anterior; por ellas explicou a existencia do piano; comparou-o, tão novo e lustroso, com os outros moveis da casa, modestos, usados, encardida a palhinha das cadeiras, roido do tempo e dos pés um velho tapete, contemporaneo do sophá. Dessa comparação extrahiu a ideia do sacrificio que o pae devia ter feito para condescender com ella; ideia que a poz triste, ainda que não por muito tempo, como succede ás tristezas pueris. A penetração madrugava, mas a dor moral fazia tambem irrupção naquella alma até agora isenta da jurisdicção da fortuna.
Passou! Bem depressa os sons do piano vieram casar-se ao gorgeio de Yayá e ao riso do escravo e do senhor. Era mais uma festa aos domingos. Yayá confiou um dia ao pae a ideia que tinha de ser mestra de piano. Luiz Garcia sorria a esses planos da meninice, tão frageis e fugidios como suas impressões. Tambem elle os tivera aos dez annos. Que lhe ficara dessas primeiras ambições? Um residuo e nada mais. Mas assim como as aspirações daquelle tempo o fizeram feliz, era justo não dissuadir a filha de uma ambição, aliás innocente e modesta. Oxalá não viesse a ter outras de mais alto vôo! Demais, que lhe poderia elle desejar, senão aquillo que a tornasse independente e lhe désse os meios de viver sem favor? Yayá tinha por si a belleza e a instrucção; podia não ser bastante para lhe dar casamento e familia. Uma profissão honesta aparava os golpes possiveis da adversidade. Não se podia dizer que Yayá tivesse talento musical: que importa? Para ensinar a grammatica da arte, era sufficiente conhecel-a.
Resta dizer que havia ainda uma terceira affeição de Yayá; era Maria das Dores, a ama que a havia creado, uma pobre catharinense, para quem só havia duas devoções capazes de levar uma alma ao ceu: Nossa Senhora e a filha de Luiz Garcia. Ia ella de quando em quando á casa deste, nos dias em que era certo encontrar lá a menina, e ia de S. Christovão, onde morava. Não descançou em quanto não alugou um casebre em Santa Thereza, para ficar mais perto da filha de creação. Um irmão, antigo forriel, que fizera a campanha contra Rosas, era seu companheiro de trabalho.