Iaiá Garcia

Machado de Assis · Capítulo 12 de 18

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Iaiá Garcia

Capítulo XII

A preoccupação desvaneceu-se na tarde do dia seguinte, quando Jorge appareceu em casa de Luiz Garcia. Foi a propria Yayá quem veiu abrir-lhe a porta do jardim dizendo, alegremente:—Entre, Sr. doutor, que já se fazia esperado. Jorge não pode esconder o assombro que lhe produzira aquella recepção; nem o assombro nem a alegria. Entrou e estendeu-lhe a mão.

—Não posso, tornou a moça mostrando a sua, fechada; só se adivinhar o que está aqui dentro.

—Não é uma estrella.

—Não, senhor; é um cavallo.

No fundo do jardim estava Luiz Garcia, com o taboleiro do xadrez: acabava de dar uma licção á filha, que lh'a pedira desde antes do jantar. Yayá levou até lá o filho de Valeria. Pela primeira vez sentou-se ao pé dos dous para vel-os jogar; fincou os cotovellos na mesa e encostou o queixo nas mãos; queria aprender, dizia ella, em tres semanas.

—Tres semanas! repetiu o pae a sorrir e a olhar para Jorge.

Das qualidades necessarias ao xadrez, Yayá possuia as duas essenciaes: vista prompta e paciencia benedictina; qualidades preciosas na vida, que tambem é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nullas.

 

XII

 

Quinze dias depois, Procopio Dias appareceu em casa de Jorge com o luto no vestuario e no rosto. De Buenos-Ayres chegara-lhe na vespera, á tarde, a noticia da morte de um irmão, seu ultimo parente, noticia que o obrigava a embarcar no dia seguinte e demorar-se no Rio da Prata cinco a seis semanas. Não se pode dizer que elle estivesse triste; estava serio,—serio e preoccupado. A viagem a Buenos-Ayres não tinha por fim o cadaver do irmão, mas a herança, que posto não fosse grande, valia alguma cousa.

Procopio Dias offereceu seus serviços ao filho de Valeria, que de sua parte prometteu-lhe algumas cartas de apresentação, se precisasse. Procopio Dias acceitou uma. Jorge levou-lh'a no dia seguinte. Elle recebeu-a com demonstrações de agradecido e quasi terno. E depois de um momento de silencio:

—Já agora entrego-lhe pessoalmente esta carta, que devia ser levada amanhã por um portador.

Jorge quiz abrir:—Não, acudiu o outro; prometta-me que só a abrirá amanhã.

—Porque não hoje de noite?

—Podia ser hoje de noite; mas é bom que entre a impressão da despedida e a leitura desse papel decorra o espaço da noite e o somno. Talvez seu juizo seja differente.

Jorge prometteu. Procopio Dias partiu. No dia seguinte abriu a carta e leu estas poucas palavras: «Seja o meu anjo de guarda durante a minha ausencia.»

—Porque não? disse elle comsigo.

De tarde, saiu a cavallo, costeando o aqueducto segundo costumava, e ia pensando seriamente na conveniencia de casar os dous. Naquellas duas semanas tivera tempo de apreciar um pouco as qualidades da moça, que lhe pareceram boas, com quanto lhe achasse tambem alguma cousa original, mysteriosa ou romanesca, muito acima da comprehensão ou do sentimento de Procopio Dias. Jorge não se illudia acerca da paixão do pretendente; suppunha-a sincera, mas não lhe attribuia a virgindade das primeiras ou das segundas commoções: era uma paixão da ultima hora, um occaso ardente e abraseado entre o dia que lá ia, e a noite que não tardava a sombrear tudo. Ainda assim a alliança lhe parecia conveniente. Yayá possuia de certo a força necessaria para dominar desde logo o marido; e o titão encadeado teria ao pé de si, em vez de um abutre a picar-lhe o figado, uma formosa rôla destinada a prolongar-lhe as illusões da juventude.

Se eram boas as impressões que Yayá lhe deixara nos ultimos dias, não eram ainda assim isentas de algum enfado, aliás passageiro. Uma ou duas vezes, Yayá lhe pareceu singularmente aspera, e sem motivo nem duração. Esses assomos porém, eram logo compensados por uma afabilidade, que parecia mais viva, mais ruidosa, talvez um pouco importuna. Occasião houve em que Estella disse á enteada, com um sorriso de reprehensão:—Não amofines o Sr. doutor Jorge. Não comprehendeu Jorge porque motivo essa palavra simples, dita em tom brando, deu ao rosto de Yayá uma expressão indignada; lembrava-se porém que a expressão foi passageira, e que ella passou do singular amúo á habitual alegria:— Bem vê, replicou Estella, bem vê que é uma creança.

Jorge ia assim a reflectir, e já de volta, quando ouviu uma voz que dizia o seu nome. Era Yayá que descia da casa da velha ama. Jorge parou o cavallo.

—Em que vae pensando? disse ella.

—Na senhora, respondeu o moço affoutamente, depois de verificar que ninguem os podia ouvir.

Yayá caminhou até á rua, acompanhada de um homem velho, o irmão de Maria das Dores.

—Que anda fazendo aqui? continuou Jorge inclinando o busto sobre o pescoço do cavallo.

—Vim visitar a Maria das Dores. Coitada! esta tão abatida!

—Bem; eu logo lhe direi o que é; vá ver a doente.

—Já a vi; volto agora para casa. O Sr. João vae acompanhar-me.

Jorge apeou-se.

—Deixa-me acompanhal-a tambem? perguntou.

—Deixo; mas é só por ser curiosa. Quero saber o que ia pensando a meu respeito. Vamos, Sr. João?

Jorge enfiou a redea no braço e collocou-se ao lado della; Yayá tomou-lhe affoutamente o outro braço.

—Vá, conte-me tudo.

—O Procopio Dias embarcou hoje.

Yayá, que já havia dado os primeiros passos, estacou.

—Para onde? disse.

—Para o Rio da Prata; morreu-lhe um irmão em Buenos-Ayres.

—Mas sem se despedir de nós!

—Naturalmente, custava-lhe fazel-o, e quiz poupar-se á dor da separação. Esteve porém commigo, e prometteu-me que a demora seria curta. Vi-o muito afflicto com a viagem, tão afflicto que não sei se lhe diga que era... era, decerto, era maior a dor da viagem do que a da morte do irmão. Talvez lhe faça injuria nisto, mas parecia.

—Porque? perguntou a moça erguendo os olhos para elle.

—Não sei se lhe deva dizer porque, acudiu Jorge. E dahi, não se tratando de nenhuma cousa do outro mundo... É verdade que as moças bonitas como a senhora, costumam ser crueis... Não sei... Ha situações um pouco...

—Ridiculas, concluiu Yayá.

—Como ridiculas?

—Por exemplo, a sua.

Jorge enfiou um pouco; mas a um homem de sociedade, Yayá não parecia de força a fazer perder o equilibrio. Sorriu levemente, e retorquiu sem azedume.

—Não é ridiculo ser affectuoso; eu cuidava responder á linguagem de seu coração.

—Suppunha que a ausencia de Procopio Dias me deixava saudades...

—Suppunha.

—Que tem o senhor com isso?

A resposta de Jorge foi um simples gesto negativo. Comtudo, não pode zangar-se, porque sentia tremer o braço da moça, e olhando de esguelha para ella via-a pallida e com os olhos no chão. Se a pallidez e o tremor eram de colera não chegou a sabel-o; mas provavelmente não era outra cousa porque ao cabo de tres a quatro minutos, Yayá ergueu os olhos e estendeu-lhe a mão, dizendo:

—Façamos as pazes.

—Nunca estivemos em guerra, acho eu.

—Talvez em vespera da guerra.

—Não por culpa minha...

—Nem minha, acudiu a moça. E erguendo o chapellinho do sol para o ceu. Talvez por culpa daquelle, disse ella suspirando.

Após o suspiro, veiu uma risadinha secca e forçada, mas longa ainda assim como o som de um golpe no crystal. Tinham andado poucos minutos e esses poucos eram já de sobra para espertar a curiosidade de Jorge, e para lhe dar direito a pedir uma explicação. Jorge pediu-lh'a em termos affectuosos, perguntando por que razão era o ceu culpado em uma guerra que devia romper entre ambos, e sobretudo qual seria o pretexto dessa guerra. Yayá reflectiu um instante, e começou a falar com os olhos baixos.

—O motivo é o senhor mesmo, disse ella.

—Eu?

—O senhor, que é meu inimigo, que me detesta. Não me dirá que mal lhe fiz eu? continuou ella erguendo subitamente os olhos. Escusa fazer esse gesto de espanto; sei que o senhor me detesta, e por mais que pergunte a mim mesma—não sei, não me recordo... Diga, fale com franqueza.

—Tanto melhor! exclamou Jorge. Vejo que havia entre nós um equivoco e é chegada a occasião de o desfazer. Quer que lhe fale com franqueza? O inimigo não sou eu, é a senhora; é a senhora, ou antes, era ou parecia ser. Agora comprehendo; retribuia-me a aversão que suppunha haver em mim. Tanto melhor! Façamos as pazes de uma vez.

Yayá apertou a mão que elle lhe offereceu e chegaram alegremente a casa. Jorge quiz retirar-se logo, mas a moça ordenou a Raymundo que conduzisse o cavallo, e Jorge foi compellido a entrar por alguns minutos. Luiz Garcia não estava em casa. Estava o Sr. Antunes. Yayá mal deu tempo aos primeiros comprimentos.— Ande jogar commigo, disse ella.

—Em boa paz?

—Em boa paz.

Yayá preparou o xadrez, no gabinete contiguo á sala; Jorge sentou-se pacientemente deante da adversaria, rectificou a posição de duas peças, excluiu as que lhe dava de pardido e adiantou o primeiro pião.

—Vá, disse; é a sua vez.

Yayá não obedeceu ao convite. Olhava para elle, com ar inquieto.

—Dá-me sua palavra de honra de que me não negará o que lhe vou perguntar? disse ella ao cabo de alguns instantes de silencio.

Jorge hesitou um pouco.

—Conforme.

—Exijo.

—Que me pedirá ella que lhe não possa affirmar? pensou Jorge. E em voz alta respondeu:

—Dou.

—Foi elle quem lhe encommendou...

—O sermão? interrompeu Jorge sorrindo. Serei franco; foi elle mesmo.

Yayá baixou os olhos ao taboleiro, cavalgou a torre com o bispo, como distrahida, e em voz ainda mais baixa do que lhe falara, perguntou:

—O senhor é homem de segredo!

—Sou, redarguiu afoutamente Jorge.

—Pois bem, continuou Yayá, eu gosto delle, gosto muito, mas não desejo que elle saiba.

—Deveras? não está gracejando?

—Não estou.

Jorge estendeu-lhe a mão:—Magnifico, disse elle alegre; não é preciso mais. Uma vez que se amam, virão naturalmente a...

Não pode acabar, porque a moça, erguendo-se de subito, affastou-se da mesa, com um arremeço, e dirigiu-se á janella, que dava para o jardim. Jorge ficou espantado. Não entendia o que estava vendo. Inclinou-se sobre o taboleiro e começou a mover as peças, sósinho, sem plano, machinalmente. Assim jogando, ouvia o som do tacão de Yayá que feria o ladrilho do chão, com um movimento precipitado e nervoso. Durou isto cinco minutos. Yayá voltou-se para dentro, saiu da janella e approximou-se da mesa. Jorge ergueu então a cabeça para ella e sorriu.

—Não me dirá que lhe fiz eu, para ficar tão zangada commigo? perguntou com benevolencia.

—Nada; eu é que fui estouvada e não sei se mais alguma cousa.

Jorge protestou que não.—Foi rispida sómente disse elle; e se o foi sem querer, não foi sem motivo. Não me dirá que motivo é esse? Parece-me que não a tratei mal...

—Não.

—Nesse caso, o motivo está na senhora mesma; e se eu não tivesse medo de que se zangasse outra vez commigo, atrevia-me a pedir-lhe que me dissesse tudo—ou pelo menos alguma cousa.

—Para que? Vamos jogar.

—Está escurecendo.

—Mando vir luzes.

Vieram luzes; começaram a jogar. Entre elles o xadrez não podia offerecer interesse, mas dado que pudesse, não seria naquella occasião. Um e outro estavam distrahidos e preoccupados. A primeira partida foi concluida, em pouco tempo, quasi sem calculo.

—Outra? perguntou Yayá.

—Vamos.

Antes de começar, disse ella collocando as peças, e sem olhar para Jorge, quero dizer que tem um meio seguro de nunca brigar commigo.

—Qual é?

—É ser meu confidente.

—Senhor de seus segredos?

—Todos.

—O meio é facil; só eu ganho na troca.

—Nisso dou prova de grande coração.

Já não era a menina rispida de alguns instantes; dissera as ultimas palavras com muita graça e placidez. Ao mesmo tempo, continuava a arranjar methodicamente as peças. Acabou e reclinou-se no dorso da cadeira.

—Não me declarou ainda se acceitava, disse ella.

Jorge hesitou um instante. Era gracejo ou proposta séria? A um gracejo responde-se com outro, a uma proposta responde-se com seriedade. Jorge hesitava em tomar sobre os hombros uma parte de responsabilidade dos sentimentos da moça. Quaes seriam elles? que projectos despertariam naquelle cerebro provavelmente indomavel? Não podiam ser outros senão os de casamento com Procopio Dias, visto que ella confessava amal-o. Esta reflexão fel-o declarar affoutamente que acceitava a confidencia.

—Sabe o que acceita? perguntou Yayá.

—Farejo.

—Toque! disse ella estendendo-lhe a mão.

Jorge deu-lhe a sua.

—Não se trata em todo caso de nenhum assassinato? perguntou rindo.

—Não.

A segunda partida foi mais animada, mas só por parte de Yayá. A moça ria ás vezes, mas a maior parte do tempo fazia convergir toda a sua attenção para o jogo. Quando falava, era moderada e docil. Essa alternativa e contraste de maneiras interessava naquelle momento o espirito de Jorge. Que especie de mulher fosse, imperiosa como uma matrona, travessa como uma creança, incoherente e enigmatica, era cousa que elle não podia em tão pouco tempo descobrir; mas o enigma aguçava-lhe attenção. Em quanto ella tinha os olhos no taboleiro, Jorge buscava ler-lhe a alma na fronte lisa e candida; mas não via a alma, via só uns fiapos castanhos do cabello, que lhe caíam sobre a testa e esvoaçavam levemente ao sopro da aragem que entrava pela janella, e lhe davam um ar de puericia. A boca fina e pensativa corrigia aquella expressão da cabeça; era a primeira vez que elle lhe descobria um forte indicio de energia e tenacidade.

Quando era a vez de Jorge, Yayá affastava o busto, reclinava-se no espaldar de cadeira e ficava a olhar para elle, como elle havia olhado para ella. Mas nesse olhar não scintillava curiosidade; era uma luz velada e baça, como alheia ao mundo exterior. Encontravam-se assim os olhos de um e de outro, e a partida continuava, até chegar ao fim sem novo incidente.

Prestes a acabar, Estella entrou no gabinete, sem os interromper. Sentou-se caladamente a um canto da janella. O jogo cessou no momento em que entrou Luiz Garcia.—Perdi duas partidas, papae, disse a moça; mas por um triz não ganhei a segunda. Jorge quiz sair logo depois; foi obrigado a demorar-se, porque Yayá lembrou-se de ir tocar piano. Era a primeira vez que Jorge conseguia ouvil-a. A moça escolheu uma pagina de Meyerbeer; Jorge confessara uma vez que era esse o autor de sua predilecção.

No dia seguinte a impressão deste era um tanto complexa e perplexa. Aquella mistura de franqueza e reticencia, de aggressão e meiguice, dava á filha de Luiz Garcia uma physionomia propria, fazia della uma personalidade; mas a physionomia era ainda confusa e a personalidade vaga. Jorge sentia-se empuxado e retido, ao mesmo tempo, por dous sentimentos contrarios; tinha curiosidade e repugnancia de penetrar o caracter da moça, e conhecer e distinguir os elementos que o compunham. O que lhe parecia claro e definitivo era que as primeiras palavras de Yayá, tão duras e tão seccas, não passavam de uma expressão de despeito, por suppôr da parte delle a aversão que não existia; e se as palavras em si o magoavam, a explicação lisongeava-lhe o amor-proprio. O resto era inexplicavel. Jorge resolveu, entretanto, não lhe falar mais de Procopio Dias, apezar da confissão aliás contrastada ou diminuida pelo gesto que se lhe seguiu.

Yayá pareceu perder a disposição aggressiva; á força de affabilidade apagou inteiramente os vestigios da antiga rispidez. A alma não se lhe tornou mais transparente, nem o caracter menos complexo; mas a exquisita urbanidade dos modos fazia supportaveis os saltos mortaes do espirito, e augmentava o interesse do que havia nella obscuro ou irregular; finalmente, era um correctivo á tenacidade com que a moça confiscava litteralmente o filho de Valeria. Jorge estimou, sobre todas, esta circumstancia, porque lhe tornou mais facil a frequencia da casa. Elle pertencia ao pae ou á filha—muitas vezes aos dous. Yayá atirou-se ao xadrez com um ardor incomprehensivel, e dizendo-lhe Jorge que era preciso ler alguns tratados, ella pediu-lhe um, e porque elle só os tivesse em inglez, Yayá pediu que lhe ensinasse inglez.

—Mas eu sou um mestre muito rispido, observou elle.

—A discipula é muito peor.

Estella assistia algumas vezes ás lições do idioma e do jogo;— duas cousas que lhe pareciam incompativeis com o espirito da enteada. Verdade é que Yayá mudara tanto naquellas ultimas semanas! Não lhe suppuzera nunca tão longa paciencia, nem tão repousada attenção. Yayá gastava uma a duas horas por dia a decorar os verbos e os substantivos da nova lingua, e essa paixão recente tinha o condão singular de irritar a madrasta. Jorge, pelo contrario, sentia em si os jubilos do pedagogo. O professor é o pae intellectual do discipulo; Jorge contemplava paternalmente aquella intelligencia fina, paciente e tenaz servida por dous olhos de pomba e duas mãos de archanjo.

No meado de Fevereiro tornaram a falar de Procopio Dias, a proposito de uma carta que Luiz Garcia recebera.

—Veja lá, disse a moça; elle escreveu a papae e nem uma palavra especial para mim. «Lembranças a D. Estella e a Yayá.» Nada mais. Elle escreveu-lhe?

—Até agora, não.

—Não ha nada como a ausencia para fazer esquecer tudo—isto é, esquecer os que ficam. Talvez já não pense em casar commigo. Foi um capricho que passou, como todos os caprichos; foi como a chuva de hontem, que deu apenas alguns salpicos de nada. E com tudo parecia que vinha abaixo o ceu. Não é? a paixão delle não é como a trovoada? ameaçou no Rio de Janeiro e foi cair em Buenos-Ayres. Aposto que vem de lá casado. Verá que não é outra cousa. Que me diz a isso? Vamos; diga alguma cousa.

—Não posso, redarguiu Jorge. A senhora deu-me o cargo de confidente e não de conselheiro; limito-me a ouvil-a. Verdade é que o tal cargo até agora parece simples sinecura.

—Que é sinecura?

Jorge sorriu e definiu-lhe a palavra.

—Não é sinecura, acudiu Yayá; pelo contrario, é um cargo muito espinhoso.

—Não creio. A confidencia unica até hoje não me pareceu sincera. A senhora não ama o Procopio Dias.

Yayá franziu a testa.

—Porque me diz isso?

—Porque, se o amasse, falaria de outro modo, e sobretudo não falaria tanto. O amor, nessa edade, vive de reticencias, não de phrases e menos ainda de phrases tão compostas.