Iaiá Garcia

Machado de Assis · Capítulo 8 de 18

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Iaiá Garcia

Capítulo VIII

No meado do anno de 1871, fez Jorge uma excursão a Minas-Geraes, com o fim de ajoelhar-se á sepultura de sua mãe, cujos ossos transportaria opportunamente para um dos cemiterios do Rio de Janeiro. A excursão durou seis semanas. Jorge visitou alguns parentes, e regressou nos principios de Agosto.

Um incidente transtornou-lhe os planos.

 

VIII

 

Chegando ao Rio, Jorge teve noticia de que Luiz Garcia estava enfermo. Não contava com o incidente, que o poz em grande perplexidade. Não queria visital-o, e mal poderia deixar de o fazer. Luiz Garcia fora prezado de seus paes; elle proprio lhe tinha estima e consideração: motivos bastantes a aconselhar o desempenho de um dever de cortezia. Mas, por outro lado, ir a Santa Thereza era arriscar-se á suspeita de Estella. Jorge vacillou durante dous longos dias. Certo, elle sentiu algum alvoroço, com a ideia de a ver; ideia que, se buscou rejeitar ao espirito, lá ficou latente e dissimulada. Mas a razão que confessava a si proprio era a da conveniencia.

Venceu a hesitação e foi a Santa Thereza, na tarde do terceiro dia. A casa não era já a mesma; tinha dimensões um pouco maiores que a outra. Era nova, ladeada de verdura, com as telhas ainda da primeira cor. Havia duas entradas, uma para a sala, ficando a porta entre quatro janellas, outra para o jardim, e era uma porta de grade de ferro, aberta no centro de um pequeno muro, por cima do qual vinha debruçar-se a verdura de uma trepadeira. Ahi achou Raymundo, mais velho do que o deixara, mas não menos forte. Raymundo conheceu-o, apezar de queimado do sol. Abriu-lhe a porta; acompanhou-o alegremente ao fundo do jardim.

—Meu senhor vae ficar muito contente, dizia elle fazendo-o entrar.

—Está melhor?

—Está, sim senhor. Olhe, está alli.

Raymundo apontou para um grupo de pequenas arvores, atravez de cuja ramagem se descobriam vestidos de mulher. Jorge sentiu coar-lhe pelas veias uma onda de frio. Mas passou depressa; e deu o primeiro passo tão firme, como deante das legiões de Lopez.

—Quem é, Raymundo? cantou uma voz desconhecida, no meio das arvores.

Jorge viu apparecer uma moça, que representava ter dezoito annos e não contava mais de dezeseis; reconheceu a filha de Luiz Garcia. Ella não o reconheceu logo; os trabalhos da guerra tinham-n'o mudado. Demais, nas poucas vezes que o vira não lhe havia prestado muita attenção. Jorge foi conduzido até a cadeira onde se achava estirado Luiz Garcia, entre duas outras, uma com um trabalho de agulha em cima, outras com um livro aberto. Luiz Garcia recebeu-o com satisfação e cordialidade; Jorge explicou a demora da visita pelo facto de estar ausente. A explicação era uma cortezia nova; Luiz Garcia agradeceu-lh'a.

—Estive muito prostrado, disse elle; não sei mesmo se cheguei ás portas da morte. Agora estou quasi bom.

Jorge sentara-se a um lado do convalescente, emquanto Yayá, do outro lado, brincava com os cabellos do pae ou lhe apertava uma das mãos. Luiz Garcia contou as peripecias da doença e exaltou a dedicação da familia; Jorge falou pouco, já por evitar trahir a commoção que sentia ao penetrar naquella casa, já por não prolongar a visita e podel-a terminar no primeiro intervallo de silencio. No fim de quinze minutos levantou-se.

—Espere um pouco, disse o convalescente. Yayá, vae chamar tua madrasta.

Yayá levantou-se para obececer á ordem do pae; mas no momento em que ia pousar nos joelhos deste o livro que tinha no regaço, ouviu-se um passo na areia e logo depois esta subita palavra:

—Prompto!

Era Estella. O sobresalto de Jorge, por mais imperceptivel que fosse, não escapou a Yayá, e fel-a sorrir á socapa; attribuiu-o ao susto. Estella appareceu; mas, porque já sabia da presença de Jorge, pode encaral-o sem nenhuma apparente commoção. Houve certa hesitação entre um e outro, mas foi curta. A moça inclinou-se levemente e estendeu-lhe a mão. Jorge apertou-lh'a.

—Ainda não tinha tido a satisfação de a ver depois de minha volta do Paraguay, disse elle.

É verdade, respondeu a moça; vivemos muito retirados.

Estella chegou-se ao marido, affastando-se Jorge para deixal-a passar.—Prompto, repetiu ella. Trazia-lhe um copo de geléa. Em quanto Luiz Garcia tomava a refeição de convalescente, Estella ficou de pé, ao lado delle; depois sentou-se e dirigiu a palavra ao filho de Valeria. Naturalmente falou-lhe da campanha. Elle respondeu sem affectação, e com tranquillidade.

—Ja tive occasião de lhe dizer que foi um dos heroes, interveiu Luiz Garcia olhando para a mulher; mas o Dr. Jorge teima em escurecer os seus proprios serviços. Yayá não é a mesma cousa.

—Sim? perguntou Jorge.

É verdade; durante toda a campanha matou pelo menos metade do exercito paraguayo.

Yayá lançou ao pae um olhar de graciosa censura.

—Não precisa corar, disse Jorge; era uma maneira de ser patriota; mas creia que havia menos perigo em matar o inimigo cá de longe.

—O senhor matou algum! perguntou Yayá no fim de um instante.

—Provavelmente. Na guerra é preciso matar ou morrer. Não me importava morrer; mas ha occasiões em que o mais indifferente é um heroe. Eu fiz o que pude.

Como a tarde começasse a escurecer, Estella disse ao marido que era tempo de recolher-se a casa. Ergueu-se para lhe o dar o braço; Jorge porém apressou-se a substituil-a. Estella foi adeante, e quando Jorge entrou na sala com o convalescente, ella preparava a cadeira em que este devia sentar-se, uma larga e extensa cadeira de vime. Luiz Garcia esperou alguns instantes, em quanto a mulher collocava as almofadas, resvalando serenamente de um lado para outro.

Durante essa curta espera, Jorge olhava para a moça, e era a primeira vez que o fazia mais detidamente. Pouca era differença entre a Estella de 1867 e a de 1871. Tinha o mesmo rosto pallido e os mesmos olhos severos. As feições não haviam mudado; o busto conservava a graça antiga; estava só um pouco mais cheio, differença que não destoava da estatura, que era alta. Esta era a pessoa physica. Moralmente devia ser a mesma; mas que contraste na situação! Assim,—a mulher que o levara a servir por quatro annos uma campanha ardua e porfiosa, e cuja imagem não esquecera no centro do perigo, essa mulher estava alli, deante delle, ao pé de outro, feliz, serena, dedicada, como uma esposa biblica. A comparação doeu-lhe; mas o coração começava a repetir-lhe juvenilmente as mesmas horas que já havia batido. Para refreal-o, Jorge despediu-se dez minutos depois.

—Já! exclamou Luiz Garcia. Foi visita de medico. Agradeço-lhe, entretanto, a attenção. Esta casa é sua; sabe que todos nós o estimamos.

Jorge seguiu para casa, contente e arrependido da visita que acabava de fazer. Gastou as primeiras horas da noite a folhear dez ou doze tomos, lendo a troncos duas ou tres paginas de cada um, quando os olhos estavam mais attentos na pagina aberta, o espirito saía pé ante pé e deitava a correr pela infinita campanha dos sonhos vagos. Voltava de quando em quando; e os olhos que haviam chegado mecanicamente ao fim da pagina tornavam ao principio, a reatar o fio da attenção. Como se a culpa fosse do livro, trocava-o por outro, e ia da philosophia á historia, da critica á poesia, saltando de uma lingua a outra, e de um seculo a outro seculo, sem outra lei mais que o acaso.

O clarão da seguinte manhã dissipou uma parte dos cuidados da noite. O primeiro alvoroço tinha passado. Jorge disse a si mesmo que bastava ser homem, esquecer o incidente da vespera, e arredar para sempre a possibilidade de outros. Não repetiria a visita a Luiz Garcia; e provavelmente não os veria nunca mais. Na rua do Ouvidor encontrou Procopio Dias, que lhe disse á queima-roupa:

—Entrei meia hora depois do senhor sair.

—Onde?

—Em Santa Thereza. Se se demora meia hora mais, encontrava-o e poderiamos ter descido juntos. Conhece ha muito tempo o Luiz Garcia?

—Desde muito moço.

—Tambem eu; mas não o via ha dez annos. Está o mesmo homem; está melhor, porque casou com uma mulher bonita. Que gente é aquella?

—A mulher foi educada por minha mãe.

—Vê-se que sim. Oh! falámos muito do senhor.

—Sim? perguntou vivamente Jorge.

Procopio Dias olhou fixamente um instante; depois riu com a testa.

—Muito, repetiu elle; eu e o Luiz Garcia travamos um duello de louvores, e se não ha nisto vaidade creio que o venci; naturalmente por que sou mais expansivo do que elle. Na verdade, elle é secco, mas o pouco que disse, disse-o com sinceridade. Parece estimar-se muito aquella familia.

Procopio Dias tornou a falar-lhe de Santa Thereza, na noite do dia seguinte, em uma casa onde jantaram juntos. Falou-lhe primeiramente em particular, depois deante de outros. A dona da casa, que era uma Diana caçadora de boatos e novidades, farejou algum mysterio entre as rugas da testa de Procopio Dias, e dobrando as pontas do arco disparou subtilmente uma flecha que ninguem viu, mas foi enterrar-se no coração de Jorge. Este fez boa cara ao tiro, mas lá dentro sangrou um pouco de irritação e medo. Sentia no fundo da consciencia o calor de um sentimento honesto, e comtudo a opinião tendia a apoderar-se delle e a devassar-lhe as cinzas do passado; cinzas frias ou mornas, é o que elle não podia ainda discernir. Confiado em si mesmo, Jorge tremia deante da opinião,—a opinião do epigramma e da anedocta, que começava a sacudir o seu riso escarninho e cru.

Inquieto e aborrecido, saiu dalli pouco depois de jantar. O gracejo da dona da casa continuava a zumbir-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que a figura de Estella lhe surgia aos olhos, com o seu aspecto do costume. Já entrado na rua dos Invalidos, Jorge desandou o caminho e foi direito a um theatro, com o fim de aturdir-se e esquecer mais depressa. Eram nove horas e meia; assistiu a um resto de drama, que lhe pareceu jovial, e a uma comedia inteira, que lhe pareceu lugubre. Não obstante, arejou o espirito dos cuidados da noite, e caminhou para casa mais leve e desassombrado. Era uma hora quando chegou; o creado entregou-lhe uma carta.

—A pessoa que trouxe esta carta disse que era urgente.

Jorge reeebeu-a, sem conhecer a lettra do sobrescripto. Era lettra de mulher. Abriu-a sem pressa, mas não sem curiosidade. Não era longa; dizia simplesmente isto:—«Illm. Sr. doutor. Papae está muito mal; pede-lhe o favor de vir a nossa casa.—Lina Garcia.»

—A que horas veiu esta carta? perguntou elle ao creado.

—Ás sete.

Jorge fez um gesto de enfado e mandou buscar um tilbury. Dahi a uma hora parava á porta de Luiz Garcia. Era tudo silencio. Jorge deteve-se alguns instantes, incerto sobre o que convinha fazer. O perigo, se perigo houve, podia ter passado, e toda a familia estaria em repouso. Espreitou pela porta do jardim, e viu uma claridade frouxa, atravez de uma veneziana. Logo depois ouviu passos na areia. Era o Sr. Antunes que sentira parar o tilbury.

—Meu genro está mal, disse o pae de Estella; teve esta manhã uma recahida e perto das oito horas cuidamos perdel-o.

Jorge entrou.

Luiz Garcia estava prostrado; a febre ardia-lhe sinistramente nos olhos. De um lado e de outro do leito, viam-se a mulher e a filha, apparentemente quietas, mas gastando toda a força moral em suster a angustia que ameaçava fazer-se em lagrimas.

—Que tem? perguntou Jorge approximando-se do enfermo.

—Uma febrinha importuna, respondeu este.

A um signal, Estella e Yayá retiraram-se da alcova, onde só ficou Jorge.

Mandando chamar o moço, Luiz Garcia punha em execução um pensamento que lhe brotara no calor da febre. Ouviu do medico algumas palavras que lhe fizeram suppôr a probabilidade da morte; e, não tendo amigos nem parentes, e não querendo confiar a mulher e a filha ao sogro, lançou mão da pessoa que lhe pareceu ter a sisudez bastante e a influencia necessaria para as dirigir e proteger.

—Seu pae foi amigo de meu pae, disse elle; eu fui amigo de sua familia; devo-lhe obsequios apreciaveis. Se eu morrer, minha mulher e minha filha ficam amparadas da fortuna, por que o dote de uma servirá para ambas, que se estimam muito; mas ficam sem mim. É verdade que meu sogro, mas... mas, meu sogro tem outras occupações, está velho, pode faltar-lhes de repente. Quizera pedir-lhe que as protegesse e guiasse; que fosse um como tutor moral das duas. Não é que lhes falte juizo; mas duas senhoras sósinhas precisam de conselhos... e eu... desculpe-me se sou indiscreto. Promette?

Jorge prometteu tudo, com o fim de o tranquillisar, porque Luiz Garcia parecia excessivamente afflicto com a ideia daquella eterna separação. O pedido affigurou-se-lhe singular; attribuiu-o á exaltação febril do doente. Soube depois que a vida de Luiz Garcia dependia da primeira crise que fizesse a enfermidade, segundo havia declarado o medico.

Eram quasi quatro horas quando Jorge de lá saiu. Voltou ás nove e achou o medico. A crise era esperada na tarde desse dia, e só então se poderia dizer se a vida do enfermo estava perdida ou salva. Foi o que o medico lhe repetiu, á porta do jardim, aonde Jorge o foi acompanhar.

—Não obstante, concluiu o medico, elle tem outra doença que o deve matar dentro de alguns mezes, um anno ou anno e meio.

—Coração?

—Justamente.

Este noticia impressionou o moço.—Não será illusão da medicina? perguntou elle. O medico abanou a cabeça, e saiu. Jorge encaminhou-se para casa, mas teria dado apenas tres passos, quando viu Estella que vinha ao seu encontro. A moça parou deante delle.

—Que lhe disse o medico? perguntou.

—Tem esperanças; logo de tarde poderá affiançar mais alguma cousa.

—Só isso?

—Só.

—Não o desenganou?

—Não.

Estella reflectiu um instante.

—Dê-me sua palavra, disse ella.

Jorge estendeu-lhe a mão, sobre a qual Estella deixou cair a sua, não menos fria que pallida.

—Sou amigo de seu marido, disse Jorge depois de alguns instantes; creia que elle pode contar com toda a minha dedicação.

Estella pareceu accordar do momentaneo torpor; attentou no moço, retirou a mão e respondeu com um simples gesto de assentimento. A alma subjugada tornara á natural attitude. Jorge viu-a entrar em casa e ficou só alguns minutos, a recordar a revelação do medico, e a sentir que, ao pé da tristeza que o pungia, havia alguma cousa semelhante a um sentimento egoista e cruel.

Entre a esperança e receio gotejaram algumas horas longas, até que a crise veiu e passou, sem levar comsigo a vida ameaçada. Na manhã seguinte a alegria foi tamanha em redor do enfermo, que elle viu claramente o perigo e a salvação. Nem a filha nem a mulher pareciam alquebradas do trabalho e da vigilia; estavam frescas, risonhas, ageis, partindo entre si o pio da alegria, como haviam partido irmãmente o pão da angustia.

Durante a molestia e a convalescencia, Jorge visitou-os uma vez por dia; e força é dizer que, se por um instante houve em seu coração um impulso egoista, tal impulso não se lhe repetiu depois; serviu ao doente com desinteresse e lealdade. A familia deste mostrou-se-lhe agradecida. Luiz Garcia recordou ao moço o pedido que lhe fizera na noite em que o mandara chamar, e recordou-lh'o, não só para lhe agradecer a acquiescencia como para explical-o. Mas a explicação era difficil, porque elle cedera principalmente á aversão que lhe inspirava o sogro, em quem não tinha a minima confiança; não obstante as meias palavras de que usou, Jorge entendeu tudo.

A frequencia trouxe a necessidade. Levado pelas circumstancias, Jorge acostumou-se ás visitas, e amiudou-as. No mez de Septembro, a pretexto de calor, que ainda não fazia, transferiu a residencia para a casa que tinha em Santa Thereza, e que não ficava a longa distancia da de Luiz Garcia. Não havia que reparar no caso; sua mãe tinha o costume de passar alli tres a quatro mezes no anno. Demais nas ultimas semanas, elle começara a fazer-se menos visto e menos frequentado. Podia facilmente passar a outra vida mais reclusa.

Entretanto, como essa mudança antecipada para Santa Thereza podia não ter em si mesma toda a explicação razoavel, Jorge buscou enganar-se a si proprio reunindo os elementos e lançando ao papel as primeiras linhas de um trabalho, que jamais devia acabar, mas que, em todo caso legitimava a necessidade de repouso. Nos intervallos deste é que visitava a casa de Luiz Garcia, uma ou duas vezes por semana. Aos domingos, tinha sempre a jantar o Sr. Antunes, com quem jogava uma partida de bilhar. Tentou ensinar-lhe o xadrez, mas desanimou ao fim de cinco licções.

—Ah! mas nem todos têm o seu talento! exclamou triumphalmente o pae de Estella.

Luiz Garcia jogava o xadrez. Era o recreio usual entre elle e Jorge; outras vezes saiam a passeio até curta distancia. Luiz Garcia acceitava de boa sombra essas distracções, que não eram turbulentas nem cançativas, mas brandas e pausadas, como elle. Demais nem sempre eram distracções sem fructo. Jorge apreciava agora melhor as conversações que não eram puros nadas, e os dous trocavam ideias e observações. Luiz Garcia era homem de escassa cultura, sobretudo irregular; mas tinha os dons naturaes e a longa solidão dera-lhe o habito de reflectir. Tambem elle ia á casa de Jorge, cujos livros lia de emprestimo. Era tarde; já não estava moço; faltava-lhe tempo e sobrava-lhe fome; atirou-se soffrego, sem grande methodo nem escrupulosa eleição; tinha vontade de colher a flor ao menos de cada cousa. E por que era leitor de boa casta, dos que casam a reflexão á impressão, quando acabava a leitura, recompunha o livro, incrustava-o por assim dizer, no cerebro; embora sem rigoroso methodo, essa leitura rectificou-lhe algumas ideias e lhe completou outras, que só tinha por intuição.

A necessidade intellectual de Luiz Garcia contribuiu assim para tornar mais intima a convivencia, unica excepção na vida reclusa que elle continuava a ter, ainda depois de casado. Jorge pela sua parte não desmentia até alli o bom conceito que o outro formava de suas qualidades; e a familia viu lentamente estabelecer-se a intimidade e a estima entre os dous homens. Uma noite, saindo Jorge da casa de Luiz Garcia, este e a mulher ficaram no jardim algum tempo. Luiz Garcia disse algumas palavras a respeito do filho de Valeria.

—Pode ser que eu me engane, concluiu o sceptico; mas persuado-me que é um bom rapaz.

Estella não respondeu nada; cravou os olhos n'uma nuvem negra, que manchava a brancura do luar. Mas Yayá que chegara alguns momentos antes, ergueu os hombros com um movimento nervoso.

Pode ser, disse ella; mas eu acho-o insupportavel.